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Paisagens da China e do Japão

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Ha não sei quantos mil annos, morreu não sei aonde, uma mulher casada. O marido, não resta duvida, procedeu segundo o ritual do estylo, e mandou depositar o caixão n'um solitario templo. Mal imaginava elle que a defunta seguia gravida no esquife; e mal imaginava que o menino, que se occultava no seu ventre, ia votado a altos destinos...

Foi por aquella epocha, n'uma mercearia do sitio, que começou sendo notado, com justo sobresalto do dono da quitanda, o caso que vou expôr. Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas, quando pela manhã se dava balanço ás contas e ao dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o monte das sapecas, dois d'esses papelitos amarellos, com a competente mancha prateada, que são nada menos do que a moeda corrente entre as almas do outro mundo, nas suas transacções... Era prova clarissima de que andava por alli coisa sobrenatural,―bruxaria, visita de phantasmas, ou

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outro mysterio parecido.―Estudou-se o caso attentamente e com bem justificaveis ancias de terror; observaram-se os freguezes, um por um. Chegou-se por fim á conclusão de que, em tal enigma, andava por certo envolvido aquelle vulto de mulher de maneiras suspeitosas, trazendo uma creança no regaço, e chegando-se todas as noites ao balcão para comprar um bolo, que offerecia ao pequerrucho. Aos cobres, que largava das mãos lividas, cadavericas, não havia nada que dizer-se; eram excellentes; mas quem ignora que de noite todos os bruxedos são possiveis, e é a luz fraca do dia que seguidamente os desmascara?... O patrão (os tendeiros do mundo inteiro, e desde seculos sem conto, são homens de raro engenho), o patrão, certa noite, conseguiu sem ser sentido, atar um longo fio á ponta da cabaia da fregueza; e quando ella se ausentou, pôz-se a largar o fio, á medida dos seus passos. No dia seguinte, facilmente o finorio percorreu a linha de trajecto da mysteriosa caminheira; e foi assim esbarrar, no termo do passeio, com o caixão da defunta, de que atraz se fez mensão. Do caso, sem detenças, correu a dar parte ao viuvo, de quem era conhecido.

Acercam-se o viuvo e um bando de curiosos, do esquife, e abrem-n'o, ao pasmo de todos. Scena extranha! Sobre os farrapos descoloridos, humidos, fetidos, pasto de vermes,―quem já, dos que me lêem, poisou os olhos no espectaculo d'uma tumba escancarada?―lá está estendida a esposa, e lá está um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, d'uma existencia sobrenatural embora; mas como ninguem d'ella cuidasse, alli ficou jazendo para sempre. As attenções, os carinhos, convergem para o menino; o pae estende-lhe os braços, arranca-o á desolação d'aquelle leito, chama-o á vida, á sociedade, ao mundo.

A lenda popular completa esta curiosa historia pela maneira que vae vêr-se. A defunta, alli amortalhada, alli estendida sobre as tabuas, foi mãe, não sei por que milagre―não se discutem milagres.―O resto explica-se melhor: o mysterio psychico da maternidade, isso que nas mães se patenteia como uma força immensa, sem limites no affecto, sem barreiras nos zelos, capaz de todos os arrojos, poude aninhar-se n'aquelle corpo

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inerte, e imprimir vontade áquelle feixe de ossos. Aos primeiros vagidos da creança, o cadaver pôz-se a contemplar os proprios seios murchos, pendentes, vazios de seiva, roïdos pelos bichos. O cadaver moveu-se então, galvanisado pelo amor―qualquer cadaver de mãe, n'aquellas condições, faria o mesmo;―começou a dar pontapés no impossivel; partiu a murros as paredes do seu carcere; e apertando de encontro aos ossos o filhito, e embrulhando-se discretamente na mortalha, foi a correr comprar um bolo á venda proxima. A creança assim foi medrando, passando os dias n'aquelle estranho berço. Foi por isso que ficou com uma face branca, a que voltava para a luz e para o ceu, e com uma face preta, a que poisava na sombra, de encontro á terra negra. De então lhe veio o duplo condão de conhecer o bem e de conhecer o mal, de vêr com um olho os deuses, e com um olho os demonios. Pelo correr dos annos, foi mandarim de modestos logarejos, pois lhe sobrava asco pelas riquezas, pelo fausto e

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pelos altos cargos. Os nobres senhores, o proprio imperador que muito o honrava, tremiam do seu juizo. Lia nas consciencias e lia nos destinos. Distinguia na turba os humildes, os bons, os opprimidos; e tambem os impostores, os verdugos, os infames. Premiava as virtudes, azorragava os vicios. Os desmandos da côrte, a rapina dos ministros, os mexericos das concubinas, fôram por elle desmascarados e punidos. Assim viveu por longos tempos este grotesco e sublime figurão; assim passou por todo o imperio, para gloria da China e para consolação dos offendidos. O povo punha de parte os labores e vinha prostrar-se em saudações á borda das estradas, ao vêl-o atravessar cidades e campinas, galgar os montes e descer os valles, sempre incansavel, seguindo a largos passos, como se fosse um procurador atarefado com demandas. Fluctuava-lhe ao vento a longa cabaia esfarrapada, suja de lama e de poeira dos caminhos; a mão adunca brandia um baculo nodoso; as pupillas chammejavam iracundas; o corpo ossudo definia-se, na magestade façanhuda dos gestos arrogantes, nos compridos bigodes de asiatico, pendentes como franjas, na barba aberta em leque, chegando-lhe á barriga, e na disformidade do rosto pintado a duas côres, branca uma face e outra face preta. Um bello dia safou-se d'este mundo; mas lá anda no outro, certamente, espreitando cá para baixo, e não largando de mão o seu fadario.

1899

A CARICATURA NO JAPÃO

a Camillo Pessanha e João Vasco.

Grande coisa, meus senhores, é ter engenho!.. Eu não me gabo muito d'esta prenda, confesso-o francamente; mas tive ha pouco azo de julgar pela propria consciencia―mercê d'um rasgo excepcional do meu bestunto―quanto vale uma boa idea; e conclui que a felicidade humana seria coisa facil, se uma impulsão sagaz do espirito fôsse guiando sempre os nossos passos n'este mundo. E assim fica satisfatoriamente justificada, penso eu, a exclamação com que enceto estas divagações, escriptas por uma noite fria de janeiro, no meu gabinete silencioso, na cidade de Kobe, no Japão.

Vamos ao facto. Ah, pobre espirito enferrujado pelos azedumes da existencia, gasto pela longa fricção das coisas e dos homens, soffrendo pela dôr do passado, pela insipidez do presente e pelas tristes promessas do futuro! como tu, meu pobre espirito, cahiras na quasi insania, consciente, e por isso mesmo mais penosa, d'aquelles para quem, por mal dos seus peccados, a vida se vae tornando toda um immenso enfado... Morbidez de temperamento? incompetencia ingenita para a lucta? fadiga, após os mil baldões da sorte? pouco importa; não vale a pena agora desenredar esta meada. Passava, e passo ainda, longas horas do dia junto da minha secretaria; é este o meu officio. Alguem, que entrasse, via-me grave, correcto, rodeado de livros e papeis, e até, presumo,―perdôem-me a vaidade―talvez me atribuisse uns certos ares de sabio, em cuja mente magnos problemas se iam sublimando. Só, bem só, entre quatro paredes discretas, desfallecia; o olhar vago fixava-se no nada, todo o meu ser se inutilizava, perdia-se em abstracções, desinteressado da realidade, de mim mesmo, morto,―porque ha para alguns uma morte percursora d'aquella que roe na tumba a febra e põe a nú os ossos brancos do esqueleto.―E vae então, um bello dia, achando-me casualmente n'um bazar de Osaka, compro uma figurinha de barro da deusa O Fuku-san, que colloquei sobre a mesma secretaria referida.

Ora aqui está, no fim de contas, em que consiste o meu rasgo genial; e vou dizer porquê. O barro é trabalhado por dedos tam amorosos de artista,―um obscurissimo artista certamente;―a pasta impregnou-se com tanta obediencia da feição predominante da alma japoneza,―naturalismo humoristico, caricatural;―que a deusasinha patusca que aqui tenho a meu lado, uma bugiganga de tres pollegadas de altura, quanto muito, é toda ella uma gargalhada viva, supina, radiosa!... Acontece que a tristeza, borboleta negra das trevas, foge espavorida da minha convivencia; poiso os olhos na deusa, e desato a rir perdidamente; e assim me tornei o homem mais divertido d'este mundo.

Antes de ir mais longe na palestra, justo é que me detenha e diga em poucas phrases quem é O Fuku-san. Divindade popular, patrona da boa fortuna e da alegria, representa na genesis japonica um papel de subida importancia incontestavel. Izagani e Izanami, os deuses iniciaes e creadores, formaram o Japão e tiveram por filha, Amaterasu, a deusa do sol, e outros filhos, todos com maravilhosos attributos. Amaterasu residia no ceu, alumiando a terra; delicioso officio; mas tamanhas affrontas soffreu de um seu irmão, o deus da lua por signal, que se amuou e decidiu esconder-se, escolhendo para retiro uma caverna, aonde se metteu, vedando a entrada com uma enorme pedra; a terra, é obvio, achou-se ás escuras de repente. Os deuses, apavorados,―o caso não era para menos,―recolheram-se em conselho, e resolveram o seguinte, depois de larga discussão: fôram postar-se todos bem junto da caverna; Takadjira, o deus de enormes braços, ficou junto da entrada, fazendo sentinella; O Fuku-san, a mais divertida das patuscas, poz-se a cantar modinhas; ou, quando não cantava, tocava n'uma gaita de bambu; ou, quando não tocava, bailava minuetes, acompanhando a dança de mil tregeitos faceciosos. Tanta pilheria teve a figurona, que a deusa Amaterasu, no seu antro, começou a interessar-se na galhofa, a rir ás furtadellas,―ou não fosse ella japoneza!―e arredou um pouco, para o lado, o pedregulho, alongou um nada a cabecita para fóra, e assim se pôz a gozar melhor da brincadeira. Então Takadjira, n'um relance―zás!―caiu-lhe em cima, lançou-lhe os longos braços ao pescoço, puxou-a para si, foi á força poisal-a no seu throno... e a terra de novo continuou a ser alumiada pelo sol!

A arte popular veste a deusa O Fuku-san em bellos trajos da côrte, dos velhos tempos, setins rojantes, brancos e escarlates, e molda-a nos ultra-comicos contornos d'uma japonezita enormemente obesa, toda ella refolhos de gordura, banhas de pescoço, de collo, de seios, de barriga, redondezas pasmosas de quadris, e mãos e pés papudos. A cara, a immensa caraça, de lua cheia, é um poema completo de monstruosidade triumphal e hilariante: faces prodigiosamente bochechudas, caiadas de cosmeticos; um narizito que mal se vê, rombo, abatatado, como que calcado para dentro, a golpes de martello; á fronte curta e estreita, de imbecil, collam-se dois bandós de cabellos de azeviche; fôram rapadas á navalha as sobrancelhas, segundo o uso classico; os olhinhos piscos, matreiros e gaiatos, reluzem pelas fendas estreitas das palpebras carnudas; e a bocca, a boquinha, em forma de cereja, acarminada, sorri em curvas, em prégas, em covinhas impagaveis... Mas não ha palavras que descrevam, nem de longe, a expressão de toda a figurinha―porque vae alem da nossa comprehensão de occidentaes,―no que d'ella irradia de jocosidade perenne, de beatifico comprazimento, de vagos tiques de

inconsciencia

infantil, de imbecilidade, de malicia, de perversão; um indefinivel conjuncto de não sei que de imminentemente pueril, satanico e grotesco, todavia gracioso, que é no fim de contas uma das feições mais caracteristicas e mais emocionantes da arte inteira japoneza.

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Ensina-se nos livros que por meados do nosso seculo XII, o pintor Kakuyu, que era bonzo buddhista, iniciou no Japão a pintura caricatural. Pois seja assim; concedo ao frade o merito de ter traduzido pelo pincel, por vez primeira, o humorismo d'esta gente. Mas tal humorismo, como feição moral, nasceu com o mesmo povo, é-lhe um fector do sentimento; e cada japonez é, e foi, e será, um caricaturista. Quando se estuda a lenda indigena japoneza, no vasto reportorio das suas fabulas, que eu penso representarem sempre o mais remoto documento do feitio estetico, da individualidade psychica, d'uma qualquer grande familia humana, depara-se na scena com a mais curiosa fauna fallante―macacos, caranguejos, raposas, alforrecas, ratazanas e outros varios bichos;―no apologo grego, por exemplo, os brutos são doutores, discursam como philosophos e como moralistas; no apologo japonez, menos profundo, mas talvez mais incisivo, a bicharia contenta-se em mascarar-se vestindo

kimonos

e enfiando as patas nas sandalias, faz caretas, galhofa, dança e ri, em desenvolturas caricaturaes da mais desopilante troça a todos os ridiculos.

Quando as artes se desenvolvem e nacionalisam, e attingem uma feição independente, inconfundivel, a caricatura, como que traduzindo uma recordação da lenda, vem desempenhar um papel importantissimo, não só na pintura, mas nas multiplices affirmações do engenho―esculptura, ornamentação da porcellana, da faiança, dos charões, dos bronzes, em tudo.―Graças ao pincel e graças ao buril, as rãs decidem-se a vir tocar guitarra para a rua; os pardaes offerecem banquetes aos seus intimos, servidos em porcellanas primorosas; desfila um cortejo de rapozas, levando a noiva, a rapozinha, ao noivo feliz, que a espera no seu lar; pelo dorso de Hotei, deus da bondade, vão trepando os garotos, e um mais atrevido vae poisar-se-lhe em cima da careca; os guerreiros cobrem os rostos com mascaras de um comico façanhudo indescriptivel. Hokusai, o grande mestre da escola vulgar em pintura, delicia-se em desenhar cegonhas d'um só traço repentino, maravilhosos gatafunhos, palpitantes de observação e de verdade; no seu album dedicado ao Fuji-yama, a montanha sagrada, contorna-a vista atravez de uma rede, que um pescador tira do mar; e atravez de uma teia de aranha; e entre o A das pernas nuas d'um operario tanoeiro, que do alto de uma dorna ajusta á força de malho as aduellas; e reflectida no chá da taça que um esfarrapado mendigo leva á bocca. Hokusai, em 1804, durante certa festividade n'um templo, manda estender no solo uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza; vem mais um barril com agua, outro barril com tinta preta, uns oitenta litros d'ella, e mais duas enormes vassouras e tres vassouras mais pequenas; entra o mestre, empunha uma vassoura embebida na tinta, traça sobre o papel curvas gigantes; no fim de alguns minutos termina a sua obra, que só é comprehendida quando alguns dos

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milhares dos assistentes se lembram de galgar ao telhado do templo: a distancia e do alto, o immenso quadro representa um admiravel busto de Daruma, o grande apostolo buddhista. Por aquella mesma epocha, Hokusai pintava sobre um bago de arroz um grupo de aves, encantador, mas só distincto com a ajuda de uma lupa.

É esta caricatura, melhor será talvez dizer―este humorismo, que o japonez exerce com habilidade unica, magistralmente, prodigiosamente; é por ella, é por elle, pelo segredo dos exaggeros, pelo arrojo da execução, que alcança intenções flagrantes no traço, uma alma quasi na paizagem, um conceito na arvore, no ramo em flôr, no simples contorno de um rochedo... Na pintura japoneza, por exemplo, um pargo, um caranguejo, uma lagosta, o figurão zoologico mais lorpa que possa imaginar-se, vivem na tela, isto é, accusam uma vontade, uma intenção, um sentimento, como a fome, como o medo, como o cio. Não se diga que é a fiel reproducção do modelo que dá isto,―a photographia d'um caranguejo não palpitaria de vida;―é pelo contrario o exaggero propositado de certas linhas, o exercicio de uma arte mysteriosa, que naturalmente se inspira no perfeito conhecimento estructural e sentimental do bicho, animalizando de certo modo o artista e humanizando o bruto, e permittindo caprichos descommunaes que o observador não descrimina, que o levam a exclamar, não sei por que remotas reminiscencias

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ancestraes de subito recordadas:―«aquelle linguado acha-se triste... aquelle camarão arde em ciumes... aquella lombriga está-se a rir...―»

O humorismo japonez não se limita ás artes; divulga-se nos costumes do povo, nos seus habitos; quando nos intromettemos na intimidade indigena, ainda o espectaculo de inesperados disparates, de requintadas extravagancias, vem ferir a nossa pupilla e prolongar-nos o espanto. Eu não pretendo escrever aqui um tratado dos exotismos d'esta gente, aponto ao acaso alguns dos que me occorrem.

Pois não são disparatadas, caricaturaes, estas mangas prodigiosamente amplas dos vestidos, e na propria fazenda a estupenda polychromia dos matizes? E estas peanhas de madeira, á laia de calçado, onde se poisam os pés nús dos japonezes? E estes penteados enormes das mulheres, transformando-lhes as cabeças em estupendos monumentos ambulantes? E o

obi

, a cinta de seda que cinge as ancas da

musumé

em voltas sobrepostas e rematadas n'um laço colossal? E o costume das casadas, quando em signal de desapêgo ás vaidades d'este mundo, se desfeam rapando as sobrancelhas á navalha, e envernizando de preto a fila dos dentinhos? A casa de papel, o jardim de Lilliput, a vida passada de joelhos sobre a esteira, a refeição servida em taçasinhas e apprehendida nas pontas dos pausinhos, a arte domestica da preparação do chá e dos ramos de flores, a dança, a musica, a cama improvisada a um canto com duas colchas de seda e uma boceta de charão por travesseiro, as mil saudações trocadas entre duas pessoas que se encontram, todos os aspectos da vida indigena emfim, intimos, sociaes,

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brincadeira, como se o japonez tivesse vindo ao mundo para se rir de tudo são surprezas, extravagancias, excepções unicas, simples pretextos para em que se occupa, e para se rir de si primeiro do que de tudo... Chega-se sem muita difficuldade a comprehender porque, nas relações de convivio de um para outro, de preferencia á palavra, de preferencia ao gesto, uma maneira ha mais eloquente de traduzir o pensamento:―a gargalhada!...

O proprio japonez é uma caricatura. Não se espantem da asserção os que tiverem a pachorra de me ir lendo; eu hei de ainda provar que o proprio deus dos japonezes, o sublime creador do Dai-Nippon, formou n'um estado de alma galhofeiro esta terra, sem systema, sem programma estudado e sem pressas; sem pressas certamente, recreando-se nos comicos caprichos que a phantasia lhe ditava e a mão omnipotente ia executando, ferramenta do officio em acção, escopro ou broxa, afeiçoando, retocando, caricaturizando, o que do chaos ia surdindo á flôr das aguas. Depois, concluida a obra, devia ter soltado uma gargalhada retumbante!...

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Ora desde remotas eras até hoje, pratica-se no Japão um exercicio de lucta, um

sport

(como se diz agora) muito em voga, e do especial agrado d'esta gente; é o espectaculo favorito durante determinadas epochas do anno. Limita-se no campo um espaço com esteiras e bambus, e ao centro dispõe-se uma pequena elevação em forma circular; içam-se galhardetes e bandeiras, rufa o tambor, e o povo afflue por centenas de curiosos, compra o seu bilhete e toma poiso; dois homens, quasi nús, combatem corpo a corpo, como na arena grega, até que um d'elles derruba o companheiro e é proclamado vencedor. Estes luctadores de profissão são escolhidos d'entre os gigantes, d'entre os athletas, e é na provincia de Tosa que especialmente se recrutam. Não são homens, são caricaturas de homens, são monstros, enormes, valendo cada um em peso e em dimensões por seis japonezitos ordinarios. Não se imagina, nem podem descrever-se, as caras, os carões de taes sujeitos; são mascaras disformes, caraças imberbes, olhinhos ferinos repuchados para a testa, queixada vigorosa e dentuça arreganhada, orelha polpuda e ampla, trunfa hirta e espessa, e um risinho estranho, sarcastico, mistura de riso de creança e de riso de demonio; nem ha palavras que expliquem a amplidão dos vultos, a obesidade das carnes, o braço roliço quasi feminino, os seios erectos, o enorme ventre impando, lenta a marcha e ondulante, de urso da Siberia em liberdade. Asseguram estudiosos que estes monstros de Tosa são os ultimos restos, preciosos modelos vivos, da raça prehistorica japoneza... Pode assim ser; no japonezito de hoje, embora geralmente franzino, miudinho, delicado, não repugna acreditar que alguma coisa haja de commum com os luctadores de Tosa: como que laivos de familia, a vaga semelhança com um avô... a não querermos mais longe ainda ir procurar-lhe affinidades, n'um remoto parentesco com a deusa O-Fuku-san, que continua a rir-se para mim, e eu a rir-me para ella...

Relanceêmos a chusma, nos theatros, nas feiras, nas romarias, nos

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bazares? Pode dizer-se, em geral, que o typo do japonez, da sua femea, e mais accentuadamente ainda nos obesos, ou nos magros, ou nos anões, ou nos albinos, ou nos côxos, ou nos corcundas, ou nos leprosos, ou nos que têem um lobinho, ou nos que têem o nariz roido, em todos aquelles em fim em que um defeito, uma tara, sobresae, é caricatural supinamente, comico a ponto de nos fazer morrer de rir ás gargalhadas!... Ah, maganões! vocês, quando nos deram as imagens dos seus deuses, dos seus genios do lar: uns pansudos, como odres; outros esqueleticos, macrabos; uns pachorrentamente joviaes, outros terriveis, despedindo raios sobre a terra; vocês retrataram-se a si mesmos, segurando com uma das mãos o pincel e com a outra o espelhinho onde se viam, maganões!... Especialisando, da multidão das ruas, essa figurinha em miniatura que tão irresistivelmente captiva as attenções do estrangeiro, toda ella matizes, perfumes, frescura, gentileza, a figurinha da

musumé

, da rapariga, podemos ainda definil-a como uma caricatura, a caricatura mais travessa, a chimera humana mais deliciosa, em que jámais olhos de viajante se poisaram!...

Profundar o enygma do feitio moral da tribu é impossivel. Apenas conhecemos vagamente que a vida intima desliza serena e pueril, sem ralhos, sem exasperos, em culturas de arbustos, em contemplações dos astros, em banhos quentes, em esmeros junto do espelho, em brinquedos com as creanças, em debandadas pelos campos, em libações de chá, em jantarinhos de arroz e fatias de nabos em salmoira, em sonecas tranquillas debaixo do verde mosquiteiro protector... Mas d'esta mesma gente expludem tambem por vezes os grandes dramas: crudelissimos assassinios, por cegueira de ciumes; suicidios duplos, por desespero de amor,―elle e ella cingidos n'um derradeiro abraço;―e essa horrivel sede de sangue, o homem transformado em fera, trucidando tudo vivo que encontra, estado de loucura conhecido entre os estrangeiros do Oriente pela denominação de

amock

, palavra malaia ou javaneza.

A tribu parece ter sido feita de encommenda para o paiz exotico que lhe foi dado em patrimonio. Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor se comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional, com as suas delicadezas, com as suas graciosidades, com os seus caprichos, com os seus disparates; manifestações multiplices de um caracter particularissimo de origem, mas no qual a influencia muito especial do meio laborou tambem intensamente.

Comparando os aspectos normaes, comezinhos, que se desdobram por este mundo fóra, com outros aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com a disposição commum das coisas, pergunto eu se o termo―disparate,―se o termo―caricatura,―são permittidos, julgando a obra da omnipotente creação? Haverá, por exemplo, um ilheo disparatado, um pinheiro caricatural? Se permittidos são, se ha tal ilheo, se ha tal pinheiro, então não se pode imaginar coisa mais disparatada, mais caricatural, do que este archipelago, já disparatado de nascença, emergindo a pique e como por encanto, do seio das aguas mais profundas do oceano, tenue, rendilhado como uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos por mysteriosas commoções vulcanicas, zurzido por tremendos cyclones, invadido por vezes pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera geologica emfim, que pode ámanhã desapparecer no abysmo, sem que por tal se espantem muito os sabios!... Tal é o imperio do Japão.

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A paisagem extravagante, inverosimil, inacreditavel, das porcellanas e charões, hoje divulgada em toda a parte, é com effeito a paizagem real d'este Japão. Collinas, penedias, verdes planices, lagos, cascatas, torrentes espumantes, ribeiras dormentes, valles profundos, mares interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas graciosissimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos de ceu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem n'um relance.

Demorêmo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas especies enormes) vestem as encostas, trepam pelas ribanceiras acima, até irem coroar os ultimos pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja sombra eterna e cuja paz soturna dão allucinações áquelle que se aventura em devassar o seu mysterio. Alli, outro bosque, de bordos, de

momiji

; em novembro, a sua tenue folhagem digitada passa do verde claro ao escarlate; o scenario adquire assim deliciosos exotismos ultra-terrestres, como se a gente se achasse de repente pisando o solo de Marte ou de Saturno. A semente do acaso caiu sobre uma pedra á flôr das aguas; germinou o pinheiro, a rede das raizes abraça-se ao granito, e ergue-se desamparado o tronco, torcido, contorcido pelos annos e pelas intemperies, reflectindo no espelho glauco a sua eterna cabelleira de verdura; ha arvores, enobrecidas ou pela vetustez ou pela forma estranha, celebres como heroes, que são visitadas por uma multidão de peregrinos. As ameixieiras, as cerejeiras, abundam; pela primavera, cobrem-se de florescencias pasmosas, luxuriantes, como nunca se viu em parte alguma; mas não dão fructo, as trapaceiras.

Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida. Trepa, por onde pode, a

asagao

; e abre á alvorada, por curtas horas, as suas frescas campanulas, de qualquer côr, porque as variedades não se contam, são milhares. Desabrocha a peonia, enorme, paradoxal. E enfileiram as chrysanthemas, a flôr nacional, sob tendas que as abrigam do sol, podendo lembrar cortezãs em exposição nos bairros de prazer, pela extravagancia das côres e dos feitios, que recordam a confusão polychroma dos vestidos e dos penteados das mulheres; mas que realmente se assemelham a enormes actineas, monstros dos mares, multiplicando-se em mil tentaculos contorcidos, brancos, amarellos, rosados ou sanguineos.

Agora a fauna. Pelo espaço, negrejam bandos de corvos, os

karasu

, escarninhos, voando e rindo ás gargalhadas. Enormes borboletas pretas, nunca vistas, sugam as corollas. De dia, de noite, é incessante o ruido das cigarras, dos grilos, de outros bichos. Noites ha, pelo estio, junto ás ribeiras, em que uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades, motiva festas ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam peixes de oiro, com os olhos a estoirarem, com as caudas esfarrapadas e rojantes, como se fôssem longos capotes de mendigos. Junto da casa de papel toma o sol, cantarola o gallo anão, do tamanho d'uma pomba; e á porta assoma o gato indigena, esqueletico, rabugento, sem rabo... porque todos os gatos no Japão nascem sem rabo; ou é o cão que ladra, o

chin

, verdadeira caricatura de cão, com os olhos esbogalhados a saltarem-lhe das orbitas, sem nariz, a cauda em pluma, parente degenerado de qualquer monstro de epochas remotas, hoje extincto.

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De sorte que todo este Nippon,―arte, povo, paizagem, planta e bicho,―é uma deliciosa mascarada. Como fazer sentir isto a quem o não conhece, depois de ter escripto o que escrevi, e de concluir que nada escrevi do que me vae no pensamento? Olhem: fixem um espelho espherico, ou cylindrico; o aspecto das formas reflectidas é uma interminavel surpreza hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas; pois tal é o aspecto do Japão...

Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades unicas, alheias ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o aqui. É certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas triviaes, taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos; amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, uma reminiscencia pertinaz do traço phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura representa um meio altamente poderoso de impressionar os homens Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades unicas, alheias ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o aqui. É certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas triviaes, taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos; amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, uma reminiscencia pertinaz do traço phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura representa um meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os effeitos, por exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale pela mais possante picareta demolidora das instituições, dos thronos e das crenças, rasgando a estrada nova por onde investem os partidos avançados.

Estando isto assente, imaginem agora um paquete, despejando em

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qualquer caes japonez um bando de loiros estrangeiros. Elles todos, os lorpas, têem nos rostos essa feição anodina das cabeças, que é uma das formas de belleza mais frequentes nas raças europeas; e a julgar pelo olho azul, de porcellana, sem expressão, sem alma, póde admittir-se que lá dentro da casca não ha senão pevides em guisa de miolos.

Mãos rudes, vermelhas, cabelludas, pés enormes;―estigmas de um temperamento avesso a coisas de arte e a todas as delicadezas do sentir.―Emparelham pelas manifestações do gosto: vestidos todos de alvadio, côco no cocuruto da cabeça, sapatos amarellos e ramosinho na carcela. Como entidades prestantes, embora talvez não prestem para nada, uns são sabios, outros são navegadores, outros são diplomatas, outros possuem manhas maravilhosas de balcão; mas―coitados!―em todos se acoberta o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros, nascidos da podridão da descrença, do egoismo, da inveja, da cubiça e da misanthropia; e na face e nos gestos alguma coisa já assoma do mal de que enfermaram. Alguns dão o braço a outros sujeitos sem bigode, com grandes mãos

vermelhas

igualmente, e enormes pés calçando sapatos amarellos; usam bengala, collarinho alto de bretanha, gravata, tunicas em forma de campanula, uma alcofa á cabeça, cheia de hervas, de aves e de fitas:―são as damas―.

Os pobres forasteiros vêem-se assim de improviso e de surpreza no meio exotico entre todos, requintadamente artistico, caricatural e sorridente, que é todo este Japão. Dominados pelos aspectos, allucinados pela iniciação imposta, riem tambem, e julgam tambem sentir a graciosidade indigena e a gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as estradas e os trilhos das montanhas, seguem em caravanas numerosas a visitar os logares celebres, encorporam-se nas romarias, entram nos templos e entram nos theatros, bebem chá japonez, e até, burlescamente ajoelhados, engolem o arroz cosido e deliciam-se no peixe cru que as creadinhas vão servindo.

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Oh, a paisagem japoneza! Como ella é encantadora e fresca, estranha, paradisiaca!... e como aqui o pensamento se dilata, n'um longo divagar sereno e amoroso, tão distincto das preocupações sombrias que alem, na Europa, azedam a existencia!... Mas não sei quê da alma asiatica, subtilmente motejador e sarcastico, subtilmente intolerante, paira aqui, emana da coloração e da forma das coisas, do grito dos animaes, do gesto e voz da gente; não se define, mas existe, hostilisando em tudo o pobre intruso. É como que uma exhortação continua e impertinente do Buddha e dos deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:―«Vae-te, volta á terra dos loiros; contempla os teus deuses, visita os teus templos, recrea-te nos teus salões, bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz este solo, que não é teu, que te detesta; e onde, para assimilares a harmonia da creação e o sentimento nacional, precisas de uma fluidez de espirito e de uma serenidade de consciencia, que te faltam!...»―

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Cedo ou tarde, ámanhã, em dois mezes, em dois annos, o homem loiro enfastia-se, compenetra-se da fatalidade dos destinos, que crearam o Japão para os japonezes. Uns desertam, e fazem n'isso muito bem; outros ficam. Nos que ficam, o desgosto pela terra do exilio enraiza, alastra como uma lepra corrosiva.

O desgosto, nas mulheres, crystallisa brevemente em odio, um odio desesperado, sem treguas; explicavel pela maior vibratilidade dos nervos no sexo, pela vida ociosa, e tambem, e principalmente, pelo penoso confronto com a mulher indigena, cujo fresco perfil e requintado tacto femenil são uma provocação terrivel aos seus meritos. A mascarada eterna japoneza, a despreocupação, o riso chronico, os traços caricaturaes de todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos gaiatos,―«ijin, ijin!» estrangeiro, estrangeiro!―tudo irrita, bellisca redunda por fim n'um supplicio insuportavel, que nêm respeita o lar, entrando mesmo pelas janellas dentro como um exame de mosquitos. Triste lar, tantas vezes!... Junto da familia do sr. Fulano, seja qual for a sua nacionalidade e situação, contae como provavel um hospede permanente,―o aborrecimento.―A embriaguez, a dissipação, a quebra fraudulenta, o roubo, o suicidio, o adulterio, o assassinio, todos os desmandos de uma sociedade incongruente, succedem-se nas pequenas colonias europeas do Japão com uma triste frequencia, eloquentissima!...

1900.

DOIS CEMITERIOS JAPONEZES

A V. Almeida d'Eça

Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e de Anno-Bom, encontrei-me um bello dia, sem bem saber porque, vagabundeando no cemiterio dos europeus em Kobe, o velho. O velho, porque ha um cemiterio novo que se estreou ha pouco tempo, e onde até agora se reuniu coisa de meia duzia de inquilinos; está este situado longe da cidade, n'um declive de collina, amplo, com bellos horisontes em redor. O velho, de acanhadas dimensões, enchera-se de moradores em uns trinta annos de exercicio, e foi por tal razão posto de parte.

O velho cemiterio fica em plena cidade, para as bandas de oeste e cerca dos edificios da alfandega, quando começa um bairro sujo, de fabricas, de armazens, que povôa uma misera ralé de carregadores e de mendigos. Encerrado entre as altas paredes de tijolo vermelho de enormes depositos de mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar, com pouca luz, humido e ermo, é bem triste este canto; até, se não me illudo, os vetustos pinheiros que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e estorcimentos convulsos das ramadas, alguma coisa da desolação que aqui impera sobre tudo.

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Hoje, que é um domingo, acolá, a curtos passos, sobre a relva do parque publico, a chusma dos caixeiros―inglezes, americanos, allemães,―a chusma cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu, berra, corre, esbraceja, espernea, joga o

tennis

, o

fout-ball

. Mais alem, pelas ruas de trafego indigena, presumo magna enchente, bazares em festa, povo em barda, entre japonezes e estrangeiros. D'estes ultimos, são especialmente as damas que mais se alvoroçam com a proximidade do

christmas day

, e que afanosamente percorrem a cidade, em carruagens, em

jinrikshas

, a pé―a pés... e que pés!...―enfiando pelas lojas, mercadejando bonecas, quinquilherias, guloseimas, as mil e mil frivolidades que vão constituir os fructos d'essas estupendas arvores de Natal, préstes a surgirem nos salões. Pobre natal! N'estes paizes exoticos, de ganho e de aventura, as festas particulares da familia europea perdem em regra a sua feição de severidade tocante e amorosa, para se transformarem n'um simples

sport

, irritante, massador,―fallo por mim,―mero pretexto para ostentações, dissipações e mexericos, a caterva de todos os symptomas da morbidez do exilio. Para o povo japonez, o impulso é bem outro: o dia de anno novo é a festa principal de cada anno, a unica para muitos; religiosa, emocionando a alma indigena, levando a turba aos templos a dar graças aos deuses pelas prosperidades realizadas, e a implorar novas fortunas: intima, de familia, preceituando o doce dever das saudações aos parentes e aos amigos; ninguem trabalha, veste-se fato novo, enfeitam-se os altares e a casa toda; por isto, com louvavel antecipação se compram nos bazares os pequeninos nadas que vão ornar o lar, e os bolos de arroz, e o córte de fazenda, e a flôr para o cabello, coisas de que não prescinde a mais modesta familia de lavrador ou de operario, n'aquelle dia abençoado.

No sitio onde me encontro a quietação é plena, em contraste com o que palpita lá por fóra. É positivo que os mortos não festejam o Natal... nem eu tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos annos de bohemia, sem lar e sem familia. Pesa aqui, no cemiterio, mais duramente por certo do que em outro logar, a aspereza de um triste dia de inverno, sem sol, sombrio e humido; paira no ar uma poeira levissima de neve, que mal se vê, mas fere o rosto como picadas de alfinetes; de quando em quando, uma rajada fresca sacode a rama dos pinheiros, corta o silencio então um vago murmurio de folhagem,―da folhagem sem duvida, mas que acaso poderia parecer o palrear dolente dos mortos uns com os outros, de cova para cova...―

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Vou vagueando, com passos e em espirito. Estou só, ou quasi só; ha pouco dei fé, por entre as sepulturas, de uma velha japoneza, guarda do cemiterio, que ia apanhando do chão alguns cavacos. Vou lendo os epitaphios, estudando a botanica tumular nos arbustos plantados e nos musgos espontaneos, lançando um olhar condoïdo ás corôas murchas, que aqui e ali se encostam ao marmore das lapidas, pobres corôas queimadas pelo sol, rasgadas pelo vento, roïdas pelos vermes, polluidas pelo pó, e em pó se desfazendo... N'este gremio de mortos abundam os padres e os missionarios de todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos dos mares do Japão, capitães, tripulantes de barcos; gente de negocio; e a mais uns pobres nomes obscuros de mulheres e de creanças, sem titulos nem historia. Aqui deparo agora com um nome de portuguez, Felisberto da Cunha, da Figueira, que morreu com quarenta annos, e a esposa (uma japoneza) lhe mandou erigir o mausuleo.

De trilha em trilha e de tumulo em tumulo, eis-me em frente do monumento tumular dos marinheiros francezes assassinados em Sakai. Lugubre historia; e aqui, n'este Japão da grande hospitalidade e da notoria cortezia, impressiona por estranha e quasi inverosimil. Pois foi bem verdadeira. Ha mais de trinta annos, por um dia de março, uma lancha a vapor da corveta

Dupleix

aguardava na praia de Sakai a volta de alguns officiaes, que haviam descido á terra e seguido para Osaka; passa casualmente um troço de tropas do Mikado,

samurais

da provincia de Tosa; e sem provocação, sem um leve pretexto, fazem fogo sobre os marinheiros, matam onze. São os onze tumulos d'estes martyres, d'estes miseros camaradas (porque eu sou como elles marinheiro), que agora contemplo.

Sobre tres degraus de pedra alça-se uma alta cruz; e aos lados, cinco por banda, e o aspirante á frente, como se estivessem na tolda da corveta em formatura, estão os onze corpos, estão as onze lages, aquelles desfeitos em pó seguramente, estas ennegrecidas pelo tempo e pela lepra dos lichens resequidos... pois não se esqueça que ha mais de trinta invernos vae durando a triste formatura. Sobre a cruz leio o seguinte:―«

À la memoire des onze marins de Dupleix, massacrés à Sakai le 8 mars 1868. Requiescant in pace.

»―

Massacrés!

massacrados! Como isto é destonante n'este solo, no

Dai-Nippon

das paizagens amorosas e do sorriso perenne nos rostos dos que passam!...

Vou lendo seguidamente as inscripções dos tumulos:―«

Ci git Guillon, Charles Pierre, aspirant de 1

ère

classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.―Ci git Boulard, Vincent, matelot de 3

ème

classe, agé de 21 ans. Priez pour lui.―Ci git Nonail, Jean Mathurin, matelot de 3

eme

classe, agé de 25 ans. Priez pour lui.―Ci git Condette, François Désire, matelot de 3

ème

classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.―Ci git Lemeur, Gabriel Jacques Marie, quart.

r

m.

tre

de manoeuv.

re

de 1

ere

classe, agé de 29 ans. Priez pour lui.―Ci git Savie, Jacques, matelot de 3

eme

classe, agé 23 ans. Priez pour lui.―Ci git Humet, Arséne Florimont, matelot de 3

eme

classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.―Ci git Langenais, Auguste Louis, matelot de 3

eme

classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.―Ci git Bobes, Lazare Marie, matelot de 3

eme

classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.―Ci git Modest, Pierre Marie, matelot de 2

e

classe, agé de 26 ans. Priez pour lui.―Ci git Grunenberger, Victor, ouvrier chaufeur de 3

eme

classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.

»―A ladainha é longa, como vêem; e bem commovedora, quando se attenta nas idades. Onze rapazes; quadra de illusões, de amores, de esperanças. O mais velho do grupo teria hoje os seus sessenta e dois annos, se fosse vivo; de sorte que todos estes pobres moços poderiam muito bem gozar ainda agora da doce alegria de viver, se o destino lhes fosse menos duro: o aspirante vestiria provavelmente a sua farda de capitão de mar e guerra, chapada de veneras; e os marujos estariam talvez com a sua baixa, na aldeia patria, em descanço, a vêrem o mar por um oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara cafila de soldados japonezes!...

A gente póde recompôr em pensamento a scena da praia de Sakai. Uns bellos loiros, rosados como pecegos, robustos como jovens Hercules. Riem, brincam, cantam, pisando a fôfa areia. É um bando de irmãos, todos da mesma idade, tratando-se por tu, passando de mão em mão a bolsa de tabaco, e até de bocca para bocca o cachimbo de gesso fumegante.―«Olha, Jacques! Repara, Gabriel!»―E batem palmadas nas costas uns dos outros, e brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando, em grandes gestos rudes, para os recortes estranhos da paisagem, para os contorcidos pinheiros que rendilham o horisonte, para as ameixeeiras em pasmosas florescencias, para as casinhas de madeira e de papel, para as

musumés

em sedas, seductoras... exoticos, captivantes aspectos de um paiz maravilhoso, que abre agora as suas portas á curiosidade do mundo occidental, deslumbrando a imaginação juvenil d'estes pobres francezes, habituados á monotonia do azul das longas viagens fadigosas. Consta que os garotitos de Sakai iam affluindo á praia, e quedavam-se em volta dos marujos, bocca aberta, espantados dos seus modos, do uniforme, das suas feições de raça branca; e que estes com as creanças partilharam algum pão das suas provisões. De repente, surde de algures um bando petulante, irrequieto, multicôr pelas bandeiras desfraldadas e pelas sedas das cabaias, e reluzente pelas armas que empunha; são

samurais

do imperio; o

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quadro é deveras interessante; os marujitos, surpresos e attentos, são todos olhos... olhos que em breve se cerram, quando os corpos caem inertes sobre a areia, após uma descarga de metralha... Ah! barbara cafila de soldados japonezes!...

No meu espirito vagabundo, depois da ferocissima scena de matança, é agora a sorte d'estes

samurais

que relembro, e me commove. Commovem-me assassinos? Sim; os annos fôram correndo sobre os factos e esfriaram os rancores. Póde hoje memorar-se, sem asco, com sympathia, mesmo nos seus transes sanguinarios, a breve lucta de resistencia que o velho Nippon feudal, embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve contra aquelles que vinham despertal-o do seu sonho; e para o bando de Sakai, soldados todos, pertencendo á nobre casta dos guerreiros, seria realmente excepção estranha se não fulgurassem no seu animo, remindo-os do opprobrio, as virtudes da casta―a extrema dedicação aos chefes, o sacrificio de si proprios pela patria, e o amor por essa patria guindado á intensidade de paixão, mais alto ainda, aos paroxismos do delirio.―

A historia plenamente nos explica o odio que a massa dos guerreiros ia nutrindo então pelos estranhos. O shogun, generalissimo do imperador, com residencia em Yedo, assignára por conta propria tratados de amisade e de commercio com a America e com a Europa, e os estrangeiros, em Yokohama, pisavam já afoitamente o solo japonez. O shogun violava por este modo o dogma sagrado do imperio, que era o isolamento absoluto, a exclusão do homem do Occidente, o desdenhoso desinteresse pelo mundo, o goso eterno e sem partilha, deliciosamente egoista, do paiz maravilhoso que os deuses haviam legado ao povo eleito. Quando a noticia do insolito desacato chegou até Kioto, a cidade santa, onde vivia a côrte, em torno do Soberano, a mais accesa colera explodiu, e todas as energias se ligaram para humilhar o shogun e varrer para sempre da patria os teimosos intrusos.―«Morte aos barbaros!»―foi o grito do soberano, da côrte, dos senhores feudaes.―«Morte aos barbaros!»―foi o credo que incutiram ás legiões á pressa reunidas, que corriam a expulsar, a massacrar, a exterminar, os estrangeiros. O shogun, supremo em mando até então, estava perdido, debaixo de seus pés tremia a terra, rugia o vulcão politico que em breve ia esmagal-o; mas, pela fatalidade dos tempos, as energias e as cubiças dos intrusos haviam de vencer, de impôr os seus designios; e a rhetorica dos diplomatas, prudentemente sublinhada pela metralha dos canhões, tinha de ser ouvida. Os dias iam passando, e o solemne decreto de exterminio não podia ser cumprido; apenas, de quando em quando, um ou outro

samurai

lograva decepar alguma cabeça loira de inglez, merecendo dos seus chefes fartos applausos pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes comprehenderam que a lucta era impossivel, que o mysterio nipponico findára; e o Japão foi descerrando pouco a pouco as suas portas, entrando em negociacões com os diplomatas estrangeiros, não já pela iniciativa incompetente do shogun, mas pela propria iniciativa do soberano. O shogun, por inutil, foi deposto; como se não conformasse com a vontade imperial, travou-se dura lucta, foi batido e retirou para Yedo. Estes acontecimentos succediam-se em tropel; a grande maioria da nação não podia aprecial-os, e menos presumir das vistas do soberano; a grande maioria da nação ia odiando o shogun e repetindo o seu credo―«Morte aos barbaros!»―sem se aperceber que a situação mudára, que a côrte já tratava com as potencias, e que a aggressão aos europeus, havia pouco meritoria, era agora condemnada e prejudicava fortemente a marcha da politica imperial.

Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando os marinheiros francezes que encontravam, julgavam ter cumprido um dever grato ao soberano e util para a patria. Illudiam-se. A resposta ás energicas reclamações das auctoridades francezas foi a condemnação á morte de todos os culpados, que eram vinte. Como guerreiros, não bandidos, foi-lhes concedido como graça o

hara-kiri

, isto é, a morte honrosa, devendo cada qual rasgar a propria carne a punhaladas.

Foi escolhido para a cerimonia Myokokuji, um templo de Sakai, e em 16 de março teve logar o supplicio. Passou-se então um espectaculo tremendo,

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não de tristeza, antes uma festa de sangue, de morte, que excede a comprehensão dos homens europeus. Enchia o recinto do templo a multidão dos officiaes do imperio, das auctoridades francezas, das testemunhas, dos amigos, dos bonzos, dos curiosos, vistosa em côres, em bellos uniformes, em garbo e fidalguia; e, um por um, por seu turno, veio apparecendo cada condemnado, todo vestido de lucto, de alvas vestes, ajoelhou no solo, curvou-se em reverencias, saudou a multidão, recebeu solemnemente o curto sabre de etiqueta, cravou-o até aos copos nas entranhas, rasgou as carnes com mão firme, tingiram-se as vestes de escarlate, jorrou o sangue sob uma urna proxima, a fronte crispou-se pela dôr, a côr fugiu da tez, o corpo pendeu inerte, para a frente...

Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de vinte e cinco annos, escreveu no seu ultimo momento de vida uma curta poesia, que era assim:―«Condemnam me; não discuto a minha morte; servirá ella de pretexto á justiça do futuro, que decidirá se, para honra da patria, devem ser expulsos os barbaros.»―Nishimura Saheji Minamoto no Ujiatsu, de vinte e quatro annos, escreveu o seguinte:―«Não me pesa o morrer, a vida passa como o orvalho desapparece com o vento; uma coisa me afflige:―o futuro da patria»―Ikegami Iasakichi Fujiwara no Mitsunori, de trinta e oito annos, escreveu o seguinte:―«É preciso alumiar o espirito da nação; para isto abandono o corpo ao meu paiz;»―este, quando as entranhas lhe caíram, fez menção de atiral-as á cara dos francezes. Oishi Jinkichi Fujiwara no Yoshinobu, de trinta e oito annos, escreveu o seguinte:―«Façamos hoje o sacrificio da vida, com o maior respeito, pois somos todos filhos d'este paiz dos deuses.»―Sugimoto Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e quatro annos, escreveu o seguinte:―«Sinto o coração feliz pela agonia que soffro, ao dar a vida pela patria;» este, por um gesto respeitoso, offereceu as entranhas aos francezes. Katsugase Saburoku Taira no Ioshihaya, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:―«Ninguem póde abalar no animo d'um

samurai

o sentimento que tributa ao seu senhor.»―Iamamoto Tetsusuka Minamoto no Toshiwo, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:―«Muitos condemnam a alma do

samurai

; pensarão de outro modo aquelles que bem a conhecem.»―Morishita Mokichi Fujiwara no Shigemasa, de trinta e nove annos, escreveu o seguinte:―«Abramos o caminho aos ignorantes, a fim de alumiar o mundo.»―Kitashiro Kensuke Minamoto no Katayoshi, de trinta e seis annos, escreveu o seguinte:―«Para legar o seu nome á posteridade ha um meio: o sacrificio da vida.»―Inada Kwannoyo Fujiwara no Norashige, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:―«Os japonezes não temem de perder a vida; tambem a cerejeira, rainha das arvores pelas suas flôres, perde um dia essas flôres.»―Yanagase Tsuneshichi Fujiwara no Yoshiyoshi, de vinte e seis annos, escreveu o seguinte:―«Sacrifiquemos aqui as nossas vidas, e mostremos aos estrangeiros o que vale a nobre coragem japoneza.»―Contando bem, são onze já. Parou aqui a scena, porque o commandante do

Dupleix

, notando já onze mortos para expiação dos onze crimes, deu-se por satisfeito, pediu que cessasse aquelle espectaculo assombroso. Dos

samurais

perdoados, um suicidou-se em breve trecho, dando de barato a graça pela honra de morrer com os seus; os outros dispersaram-se; vive um ainda hoje, presumo que em Nagoya, um interessante velhinho, que reconta de bom grado as peripecias d'aquelle horrivel drama.

Os onze

samurais

foram alli mesmo enterrados, no cemiterio, junto ao templo. Ainda ha pouco lá estive. O templo é um placido retiro de sombra e de silencio, tam velho, que ha alguns mezes um rijo vendaval quasi o desfez em pó.

Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior, onde uma arvore sagrada, um enorme sagueiro, occupa o espaço todo, lançando em volta as suas palmas verdes. A lenda dá-lhe mui longos annos de existencia, e reza que ha quasi quatro seculos o shogun Nobunaga tanto se agradou d'aquella arvore, que mandou arrancal-a e transportar para um dos seus jardins; mas tanto se mirrava o sagueiro, e tanto se lamentava noite e dia, que não houve remedio senão trazel-o de novo ao velho poiso.

Do jardim, passa-se ao pequeno cemiterio. As sepulturas, apresentando a fórma de cubos de granito, aconchegam-se, agrupam-se n'uma intimidade commovente; por entre as pedras, tufam e florescem as azaleas e verdejam os musgos, e mãos piedosas vêem depôr ramos de flôres e de verdura. Entre estas sepulturas contam-se as dos onze

samurais

. Mais adeante, as urnas de charão que serviram ao supplicio, alinham-se n'um altar, e ainda se distinguem manchas negras, do sangue derramado.

Como eu dizia ha pouco, os annos passaram sobre os factos e esfriaram os rancores. N'estes dois cemiterios, de Kobe e de Sakai, nem já existe sequer o pó dos ossos, existem só legendas. Em Kobe, as onze sepulturas evocam no espirito esse periodo de frenesi da Europa, de curiosidade, de cubiça, em face da morna inercia d'este canto do mundo; e as esquadras que o devassam, que o visam com os canhões; e os diplomatas que intrigam, que teimam, conduzindo o finalmente, á força, ao convivio das nações; e, como peripecias infimas, quasi olvidadas e não pesando na marcha progressiva dos negocios, o sacrificio inglorio de alguns humildes obreiros d'essa empreza... Em Sakai, as onze sepulturas rememoram a desesperada resistencia d'uma tribu feliz, contra aquelles que vinham arrancal-a aos seus sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda e a crença, e bradar-lhe que ser-se assim ditoso, já não é permittido. Pobres mortos! abraço com um mesmo olhar d'alma, enternecido, as vinte e duas campas...

1900.

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O ESPELHO DE MATSUYAMA

Ás Filhas de Carlos Campos

Viveu ha muito tempo no Japão um feliz casal de gente rustica, modelo de virtudes conjugaes; eram elles, os dois, e uma filhinha, o seu encanto. O povo varreu já da memoria os nomes d'essa gente; não admira, quando se pense que tantos seculos passaram. Indica-se apenas o logar,

Matsuyama

, que quer dizer

Montanha dos pinheiros

, na provincia de Echigo. Esta ligeira indicação basta para que imaginemos o scenario: serranias, pinheiraes, succedendo-se a serranias, pinheiraes; a terra, a rocha, fôfas de musgos, de fetos, de herva brava; covôes, precipicios, cachoeiras, por onde a agua golfa, espuma e rumoreja; pios de corvos e hymnos de cigarras;

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raros caminhos serpeando, calcados pelas sandalias dos que passam; e aqui, e alem, alguma humilde cabana de aldeões, de barro e colmo, aonde a vida intima, após as horas de labuta, desliza em longos repousos sobre a esteira, em simplicidades primitivas, em face da grande paz da scena agreste, e do azul sem fim dos largos horisontes. N'uma d'essas cabanas vivia o casal a que alludi.

Ora, aconteceu uma vez que negocios muito graves chamaram o marido á faustuosa cidade, á capital de todo o imperio. Figure-se o alvoroço e o reboliço na choupana. Em coisas de viagem, a experiencia da esposa resumia-se ao trilho que seguíra raras vezes, em duas horas de caminho, do seu lar ao logarejo mais visinho. Alanceavam-n'a agora varios sustos, acudiam-lhe ao espirito não sei que perigos e trabalhos, maleficios dos genios das florestas, mil revezes a que se ia expôr o companheiro... Por outro lado, envaidava-se com a idéa de ser elle o primeiro do logar que ia vêr por seus olhos a mansão da côrte e do soberano, e contemplar as grandes maravilhas que lá por certo havia. Ella ficava; ella tinha a sua pequerrucha e o cuidado do lar; e, embora mordida de saudades, devia resignar-se aos deveres do seu mister, e aos anceios d'aquella dura ausencia.

E que terna que foi a despedida!... Beijos e abraços não se deram, porque os japonezes não dão nem beijos nem abraços; lagrimas não correram, porque os japonezes nunca choram; mas fôram tantas as mesuras e tantos os sorrisos, e tam longa a ultima palestra, elle promettendo voltar breve, ella prodigalisando mil conselhos, que era mesmo um regalo contemplar casal tam meigo e tam feliz!...

E lá foi o marido.

Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões, annuncia-se agora o regresso do Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões, annuncia-se agora o regresso do sujeito. É vêl-a então, a cirandeira, ora

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varrendo, ora lavando ora arrumando, dispondo a choça em festa para a ditosa hora da chegada. É a pequenita certamente que mais cuidados lhe merece: o

kimonosinho

de crepe de seda preciosa, a faixa da cintura, a flôr para o cabello, tudo novo, tudo fresco, tudo lindo, se põe de parte, se examina; e os dedos finos da maman, em curvas adoraveis, saltam, vôam, aqui alizam pregas, alli compõem laços, com habilidades unicas, prodigiosas; convem saber que não ha mãos mais bonitas e mais destras do que as mãos das japonezas, nem mães mais carinhosas do que estas mamans do Dai-Nippon. Ella propria, a maman, tambem cuida de si, não se furta aos adornos, não por arte talvez, por instincto do sexo; e eil-a enfiando os pés nús em grandes soccos novos, de charão negro e luzente, e estreando um

kimono

catita, azul e branco. E lá vão ellas, as duas, certo dia, trilhos fóra, tic-tac, tic-tac, ao encontro do homem.

Ai, que jubilos, ao toparem com elle são e salvo, todo chibante, bamboleando-se no seu passo vagaroso, para mais prolongar tam doce transe!...―«Bons dias, senhor marido! Bons dias, senhor meu pae!»―e os corpos agaxam-se em mesuras, e as cabecitas vão quasi tocar o chão do campo. E como a pequerrucha bate as palmas, e se lhe accendem os olhitos, quando elle logo alli lhe quer vasar no regaço a caixa de bonecos que comprára, carretas de madeira, raposas de pellucia, uma viola, minusculos apparelhos de cosinha e muitas outras maravilhas!... Elle promette entreter dias inteiros, só com a narração do que seus olhos viram: theatros regorgitando de

musumés

, vestidas como deusas; principes em comitivas resplendentes, passeando em liteiras de charão, e o povo prostrado a adoral-os pelas ruas; serenatas nos rios, barcos vogando a transbordarem de mulheres e enfeitados com balões, gemem as cordas das violas e estalejam nos ares foguetes de mil côres; templos gigantes e enormes sinos badalando; palacios cheios de luxo; jardins cheios de flôres; e por toda a parte a immensa multidão, de velhos, de rapazes, de meninos, feliz, risonha, pachorrenta; e a immensa industria dos bazares, charões, oiros, sedas, porcellanas, adornos sem conta nem medida, tudo digno de ir adornar mansões de fadas, no mundo das chimeras!...

O marido passou depois ás mãositas da esposa, tremulas de emoção, um bello cofre de madeira branca, cuidadosamente fechado, e disse-lhe isto:―«Não me esqueci de ti, como estás vendo; trago-te uma coisa muito linda, que tu de certo não conheces, um espelho, um

kagami

, como lhe chamam na cidade.»―Ella então, abrindo o cofre, observou a offerta; era um grande disco de metal, com o seu cabo, tendo uma face prateada, com relevos de folhagem de bambu e vôos de cegonhas, e a outra face limpida e brilhante como um puro crystal.

É bom saber-se que, sendo a industria do vidro recentissima no Japão, só ha mui pouco tempo aqui se conheceram os espelhinhos reles da industria occidental; nos velhos tempos, os espelhos do paiz eram metalicos, de preciosa liga e artistico trabalho, objectos caros excluidos, do lar dos aldeões; de sorte que é presumivel, dada a simplicidade de alma da pobre gente rustica de então, que as bellas ignorassem que eram bellas, por nem no espelho da agua das ribeiras se mirarem. Mas vamos nós á historia, excluindo divagações que pouco interessam.

Dizia o marido á companheira:―«Olha bem para a face brilhante d'este espelho e conta-me o que vês.»―Ella era toda olhos, toda surpresas, toda extasis; e respondeu por fim que via o rosto de uma mulher muito gentil, com um oval de enfeitiçar, comuns olhinhos negros muito doces, com uma rubra boquinha de cubiça. Disse mais que essa mulher não cessava de fital-a; e se ria, a mulher ria; e se fallava, os labios da mulher acompanhavam-n'a no gesto; e, para cumulo de estranheza, vestia um

kimono

azul e branco, igual ao seu, que ella trazia... O marido sorria-se, já com uns ares de doutor, que da viagem lhe provinham; e foi benevolamente convencendo-a de que essa mulher era ella mesma, e que o espelho, por um mysterio que elle não sabia explicar, apenas reproduzia a sua imagem, os seus encantos proprios; lá na cidade, muitas raparigas possuiam espelhos como aquelle, e n'elles se viam e reviam, ora compondo as voltas do cabello, ora pintando os labios de escarlate, ora por mero passatempo de se acharem bonitas, as garridas. A esposa ficou então louquinha com o presente; e... diga-se toda a verdade: cheia de orgulho de si mesma, por se vêr tam catita, tam fresca, apetecivel. Fôram semanas e semanas votadas a esse enlevo, a mirar-se, a namorar-se―quem não lhe relevará essa vaidade?―até que finalmente convenceu-se de que um espelho era joia preciosa de mais para servir todos os dias, alli na choça núa, na solidão dos bosques; assim se explica o caso de ter elle ido parar dentro de uma gaveta, esquecido de mistura com as velhas reliquias da familia.

E vão passando os dias, os mezes e os annos. A felicidade bafeja constantemente aquelle lar. A grande alegria do casal é a filha, que cresce em mimos, tornando-se a verdadeira imagem da maman, e como ella submissa, e como ella affectuosa, e como ella activa na labuta. Vaidades de mulher, que tanto prejudicam no futuro as raparigas, não as tinha; e deve aqui prestar-se inteiro applauso á previdencia da maman, que em lembrança dos seus caprichos de outro tempo, passageiros, nunca á mocinha confiou o espelho, velha joia sem uso, esquecida na gaveta.

E vão passando os dias, os mezes e os annos. Muitos annos. A mãe, uma velhinha com a alvura da neve por côr dos seus cabellos, jaz prostrada na cama, sem forças, moribunda; a filha, junto d'ella, multiplica-se em cuidados, anima a triste enferma.

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A custo, diz a velha:―«Sinto que morro, vae-me fugindo a luz dos olhos. Vou deixar-te, e o nosso velho amigo. É isto que me pesa; cheguei a persuadir-me de que este nosso bem não tinha fim. Por ti, tam só que ficas, receio muito, filha: o mundo é um grande mar, cheio de escolhos e de perigos...»―E deteve-se e pôz-se a meditar por muito tempo, passando pela fronte os dedos descarnados; então, um pensamento lhe acudiu, uma d'essas travessuras de velha que só redundam para o bem, e proseguiu d'esta maneira:―«Olha, tenho uma idéa: toma este espelho, este objecto milagroso que veio de muito longe; e jura-me que uma vez em cada dia e uma vez em cada noite, o irás vêr. Eu te apparecerei então, no mesmo espelho; e assim, na minha companhia, terás mais animo na vida, mais força nas angustias, mais tento com as indecisões da juventude e com os males que te rodeem.»―E a filha jurou isto; e a velha deixou-se morrer serenamente, resignada, sorrindo á paizagem verde, sorrindo ao sol festivo, que investia em faixas de ouro pela casa...

A

musumé

cumpriu attentamente o juramento. Por esta forma percorreu a via da existencia, tranquilla, sempre assistida pela mãe, que nunca cessou de apparecer-lhe, quando, nas mãos piedosas sustinha o espelho milagroso. Não era da moribunda, livida, prostrada em agonia, desfallecendo pouco a pouco, a doce apparição; era a maman gentil, de outros tempos, cheia de louçanias e sorrisos. Achava-se com ella n'um placido convivio sem reservas, com ella palestrava, a ella confiava os seus segredos, os seus sobresaltos de donzella; e n'aquella face pura bebia conforto e recompensas.

O velho algumas vezes surprehendeu a filha com o espelho entre as mãos, sorrindo, murmurando singellas confidencias. Pareceu-lhe estranho o caso; e ia um bello dia notar-lhe o disparate, quando a moça lhe fez uma pergunta, por onde avaliou a chimera amorosa com que ella ia embalando o pensamento.―«Repare, senhor meu pae: não vê no espelho a minha mãe?...»―O que o velho via claramente, era a imagem da filha, que alli

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tinha junto de si em carne e osso,―e que carne! e que osso!―palpitante de vida e gentileza... mas julgou mais prudente conserval-a sob o prestigio da illusão; e, franzindo muito o rosto, de rude pergaminho, sem que se percebesse se ria ou se chorava, ou se ria e chorava ao mesmo tempo, fez côro com ella, assegurando que sim, que via a santa mãe, e tam bella, e tam fresca, como no dia do noivado...

1900.

AMÔRES...

A J. Godinho De Campos

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Uma impressão de Macau.

O que faria aquelle bando de leprosos, que a policia da colonia surprehendeu e agarrou? O que faria aquelle bando de leprosos, além no meio do rio, sobre um miseravel barco, pela noite velha, tenO que faria aquelle bando de leprosos, que a policia da colonia surprehendeu e agarrou? O que faria aquelle bando de leprosos, além no meio do rio, sobre um miseravel barco, pela noite velha, tenebrosa e fria, ora pairando e deslisando ao grado da corrente, ora remando manso, de margem para margem, em vigia?...

Elles eram uns ossudos filhos das aldeias, dando-nos de longe uma impressão de robustez de musculos, de gente affeita á enxada e á vida de lavoira. Vistos de perto, resaltava horrivelmente o ferrete de peçonha do seu sangue; eram indiscriptiveis seres inuteis, abjectos, quasi sem mãos, quasi sem pés, porque os dedos lhes iam caindo podres aos pedaços; rostos medonhos lavrados pelo mal, sem narizes, com os beiços roidos, com as faces chagadas; ainda mais sinistros pela infamia estampada nas feições e nos olhares, denunciando perversidades de alma de infimo quilate, por certo derivadas da suprema degradação do seu viver. Vestiam farrapos immundos, sem fórma definida e sem côr reconhecivel; e escondiam as frontes, talvez envergonhadas, sob as abas enormes dos chapeus de rota, em uso nas aldeias.

Pescavam? por aquellas horas da noite e n'aquelle paradeiro, não era admissivel esta supposição; nem no misero barco, onde se amontoavam alguns trapos, se deu fé de anzoes ou de outras artes de pescar.

Mendigavam? menos possivel ainda que assim fosse. A taes horas, dormem todos, incluindo os mendigos. O rio dormia, silencioso, lugubre pelo aspecto das suas aguas negras, dos cascos alterosos das grandes lórchas juntas em magotes, desenhando-se vagamente junto ás margens os barquitos em cardumes, presos ás varas de bambú encravadas no lodo. Apenas de espaço a espaço algum raro

tanka

atravessava d'um lado para outro, chape-chape, remos movidos lentamente pelas mãos das raparigas somnarentas, fartas da lida do dia,―coisa de ir levar ao seu albergue algum retardatario, de volta do jogo ou das orgias.―Não era dos nocturnos viajeiros, e menos dos pobres tankareiras, que o bando de leprosos lograria um punhado de sapecas, que compensasse o esforço da vigilia. Nem a sua miseria, realmente, era tal, que os levasse a tão duros extremos. É certo que o leproso se encontra excluido dos povoados. Em paragens mais rusticas, matam-n'o á pedrada, se o encontram; em Macau, porém, a brandura dos costumes regeita em regra esta medida, tenha embora o miseravel de viver pelos esteiros, em barcos podres, ou sobre os lodos, escondido das gentes como um bicho peçonhento. No entretanto, o esteiro fornece-lhe peixes vis, e caranguejos, e molluscos, e vermes; os cäes vadios encontram de quando em quando, nos despejos, um punhado de arroz cosido, e o leproso tambem o encontra, como elles. Na altivez da sua pasmosa abjecção, o leproso não vem expôr-se ao asco, ao opprobrio; sorri ao mundo com desdem, acoita-se no antro, come immundicies, bebe agua pôdre; e os fados são-lhe bastante complacentes em geral, para matal-os da molestia antes que arrebentem pela fome...

Averiguou-se finalmente o que fazia aquelle bando de leprosos.

Aquelles infimos párias passavam a existencia isoladamente, cioso cada qual do seu covil, dos seus farrapos, devorando sem partilha o que o acaso lhe offerecia nos enxurros. Conheciam-se certamente, pela visinhança dos antros, sobre a mesma vasa que se alastra na margem fronteira á de Macau, e a fatalidade commum estabelecia de direito affinidades, allianças tacitas de tribu, entre elles; mas, como não carecessem uns dos outros para soffrerem, para odiarem a natureza creadora, para jazerem no ninho da trapagem, para morrerem, não se procuravam. Na imaginação immersa em trevas de cada um, rustica, pouco elastica, e cultivada em ascos, em maldições, em misanthropias rancorosas, nunca por certo passara a phantasia de vir insinuar-se na turba, partilhar das suas distracções, relancear os festins, percorrer os bazares, invadir os templos e os theatros.

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Mas na torva e lenta elaboração do pensamento, durante os longos dias, os longos mezes, os longos annos de isolamento e de ocio, um desejo se fôra pouco a pouco avolumando, definindo, convertido finalmente em tortura, amargurando como uma dôr constante e implacavel:―era a mulher, o desejo, a tortura da mulher.―Prazeres do mundo não se queriam, nem mesmo se lhes imaginavam os feitiços; era-se superior a essa chimera. Mas, no ambiente acariciador da vida, em presença das arvores fructificando, das flores perfumadas, dos animaes requestando-se, os hymnos da terra, da creação em galas, do amor dos sexos, vinham tambem echoar n'aquelles cerebros, electrisar aquelles nervos; a visão da mulher, durante as mornas monotonias sem termo, aparecia como um apetite crescente, como uma fome de carne; e os miseraveis, allucinados pela obsecação de todos os momentos, estremeciam, erguiam-se de subito do seu leito de trapos, arquejantes, o sangue a escaldar-lhes as frontes, o olhar em fogo...

Então, tacitamente, impôz-se a cada qual a necessidade de fraternisar com o seu visinho, de agremiar-se em bando. A união faz a força. Procuraram-se, intenderam-se. Medonhos conciliabulos se passaram, a coberto das trevas, pelas noites longas, sobre os lodos. Segredava-se, aventurava-se um plano, discutia-se. Os olhos fuzilavam como raios, a phrase rouca golfava dos labios, eloquente, persuasiva, os membros disformes erguiam-se na sombra em gestos tragicos. E assim se escolheu o barco menos podre, se nomeou a companha, o capitão, se esperou por uma noite mais escura, azada aos seus intentos. Assim tiveram inicio e proseguiram os estranhos cruzeiros, á aventura. Eil-os, o bando immundo dos gafados, á capa, pairando ou remando a medo, de manso, de manso, silenciosamente, e prescrutando as trevas. Se ia passando algum

tanka

, os ouvidos subtis e os olhos experimentados, estudavam, presumiam, adivinhavam. Quando era chegado o bom momento, então,―oh delirio supremo!―n'um impeto de remadas e desejos, o barco voava, dava a abordagem, os milhafres caiam sobre as victimas indefesas. Habeis no ataque, com as mãos sem dedos suffocavam os gritos das mulheres, a murros, ou premindo; n'um relance, pelo faro, distinguiam das velhas as moças, apartavam dos ossos duros a carne fofa e tenra; e com fome de hyenas, as boccas pestilentas comiam, devoravam com beijos as pobres raparigas, que em vão se debatiam na lucta tremenda d'uns instantes...

Após, o barco dos leprosos seguia serenamente a atracar á margem chineza, e elles dispersavam, mudos, quasi felizes, indifferentes por momentos ao prurido das chagas; e semanas depois reuniam-se novamente. No

tanka

, as moças ficavam-se chorando, arrepelando-se de horror, de desespero, de vergonha por sua mofina sorte; e tanto mais mofina, que é assim, por um beijo, segundo a voz do povo, que a lepra se propaga, se multiplica de corpo para corpo.

1900.

UM PINTOR DE GATOS

a D. Miguel de Mello.[1]

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Era uma vez, em mui remotos tempos, uma familia de boa gente lavradora, vivendo em certa aldeia do Japão. Marido, mulher e um rancho de filhos; gente pobre, é claro; e ajunte-se que a mui ardua fadiga se dava o camponez, para que não faltasse em cada dia, a cada uma das vorazes boquinhas dos garotos, a tigela de arroz do almoço e do jantar. O mais velho dos rapazes, já aos quatorze annos, robusto quasi como um homem, começava a ajudar o pae, nas varzeas e nos campos, o pobre pae, a quem as forças minguavam; e os outros, cada um conforme a sua idade, iam fazendo tambem o que podiam; até a irman pequena,―uma migalha de gente, coitadita!―lá ia alliviando a atarefada mãe na lida do casebre.

Só o mais novo dos rapazes em nada se empregava que prestasse; era um inutil; não que elle fôsse falto de juizo; pelo contrario, excedia em esperteza qualquer dos irmãos ou das irmans; mas era enfezadito, debil de musculo; e bem cedo os paes se convenceram de que aquelles braços tenros não haviam nascido para a enxada.―«Faça-se d'elle um bonzo»,―combinaram; e foi n'esta intenção que um bello dia decidiram leval-o ao templo do logar, e á presença do velho sacerdote, que era como quem diz―o prior d'aquella freguezia.―O pae fallou e expoz a questão, em quanto que a mãe approvava com a cabeça; o reverendo, que em breve trecho descobrira rara sagacidade na creança, consentiu em tomal-a por pupillo, pensando talvez intimamente que alli o acaso lhe trazia um digno successor, quando a hora lhe chegasse de despedir-se d'este mundo.

E ficou tudo resolvido.

O noviço mostrou-se, desde os primeiros dias, submisso, intelligente e piedoso; e tambem―valha a verdade―não lhe iam mal a rude tunica amarella e a cabecita rapada á navalha, de preceito; mas como não ha formosa sem senão, segundo um proverbio portuguez (e a philosophia dos proverbios se applica á humanidade inteira), tinha um defeito o rapazito: pintar gatos. Expliquemos o caso, que é curioso: nas horas de sueto ou nas horas de estudo, no templo, na cella, no jardim, em toda a parte onde estivesse, punha-se a pintar gatos; e tão bem os pintava,―faça-se-lhe justiça n'este ponto,―que nenhum pintor até então pintou gatos melhor do que o fradinho. As paginas dos livros sagrados do convento, as paredes, os biombos, os pilares, as arvores, os rochedos,―forte mania de creança!―tudo servia, tudo era tela para exercer a sua pecha. Por onde elle passava, por onde se quedasse dois minutos, era logo a successão interminavel de desenhos, eram as curvas caprichosas dos travessos

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felinos, de todos os tamanhos, em todas as posturas, creio que até enjaneirados, os olhos redondos, esbrazeando as duas orelhas espetadas, o côtosito alçado e petulante (os gatos japonezes não têem rabo), a garra atrevida posta em guarda... Está-se a adivinhar com que azedume o reverendo acolhia taes desmandos; vezes sem conto reprehendeu o

artista

(como por ironia lhe chamava), tentando dissuadil-o d'aquella triste balda, que nem lhe permittia estudar com attenção os velhos alfarrabios do buddhismo, de tam necessaria sciencia ao seu santo mister. Intento inutil: não por maldade, por instincto, quanto mais lhe prohibiam a proeza, mais ia pintando gatos o teimoso.

Até que

finalmente, em certa occasião, o reverendo perdeu de todo a paciencia e gritou ao moço incorregivel:―«Vae-te embora! Foge da minha vista!... Bom padre, nunca serás seguramente; serás talvez um bom pintor.»―A ordem era terminante. Foi facil ao mocinho entrouxar os seus poucos haveres, pôz a trouxinha ás costas, e fez uma mesura ao padre mestre.

Eil-o na rua, escorraçado, em bem angustiosas condições. Que fazer? Tremeu de voltar ao lar domestico, onde o pae, mui certamente, o puniria da sua teimosia. Lembrou-se então que a quatro leguas de distancia havia uma outra aldeia, com um templo cheio de bonsos, e para lá se encaminhou, disposto a pedir abrigo e protecção aos padres. Era notorio que o tal templo desde alguns mezes se achava abandonado, por n'elle ter entrado um demonio, um espirito malfazejo, como tantos que abundavam então pelo Japão; muitos guerreiros animosos se tinham decidido a ir lá dentro, mas nem um só voltou; porem estas noticias, que iam ja apavorando aldeias e cidades em redor, nunca haviam chegado aos ouvidos do pequeno.

Era já noite escura quando alcançou a aldeia; o povo dormia nas choupanas; ao fundo da rua principal, e sobre um dorso de collina, de entre a rama das mattas erguia-se o templo magestoso, e uma luz interior bruxoleava, luz de esperança para a misera creança. Luz de esperança parecia: mas o povo bem a tinha por feiticeira do diabo, que assim manhosamente ia attrahindo algum caminheiro solitario em busca de poisada. Bate ao portal uma primeira vez, bate segunda vez, bate terceira, sem que ninguem acuda ao chamamento. Por fim percebe que basta empurral-o para abril-o; e então, por um leve impulso dos seus braços, achou livre o ingresso, e assim entrou, largando dos pés nús as suas sandalias poeirentas.

Nos aposentos interiores ardia uma lampada com effeito; mas nem um bonzo só, de tantos que alli deviam estar, apparecia. Julgou que tinham ido dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu esperal-os. O tempo ia passando, e os seus olhos curiosos de garoto entretinham-se em devassar o aspecto do sitio onde se achava. Notou com espanto que abundava o lixo, e pelo tecto as aranhas iam tecendo sem cerimonia as suas longas teias; era estranho que, sendo em regra os templos, mimos de limpeza e de cuidados, aquelle se encontrasse em tal desleixo, como se fôsse coisa abandonada. É que, provavelmente, aos santos bonzos faltava o auxilio d'um acolyto, a quem, como de praxe, cabe o dever de todas as manhãs lavar, varrer e sacudir o pó, arte exercida no Japão com especial disvelo; e concluiu logicamente que bom acolhimento lhe fariam, no proprio interesse da communidade.

Agora o rapazito, proseguindo no exame, fixa o olhar n'um movel que o captiva, que é um grande biombo que tem em sua frente, com as duas faces brancas; passára-lhe na mente o irresistivel desejo de encher aquellas faces de gatos, de cem gatos, de mil gatos, lindos, felpudos, assanhados, com as bigodeiras hirtas e os olhos chammejantes; e uma subita alegria illuminava-lhe o rosto sonhador... Pensado e resolvido. Cerca encontrou a classica escrivaninha japoneza,―a caixa com os pinceis, com a gota de agua n'um deposito metalico, com o pedaço de tinta negra e com a loisa onde esta se prepara.―Mãos á obra. O pincel voava em curvas humoristicas; a mãosinha inspirada corria, pullava de alto a baixo, ponto aqui, rabisco alli, traduzindo a impressão propria com habilidades prodigiosas. Assim fôram apparecendo, sobre aquella tela improvisada, ranchos e ranchos de gatos adoraveis; e tantos gatos desenhou, e tantas horas correram, sem que os bonzos voltassem do passeio, que o pobre garotito sentiu-se de repente cheio de somno e de fadiga; n'um cubiculo contiguo se recolheu e se fechou; estendeu-se sobre a esteira, e em breve adormeceu.

Illustration from Paisagens da China e do Japão
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Lá pela noite velha, um barulho inaudito, como se uma terrivel lucta se travasse entre mysteriosos combatentes, despertou a creança. Os gritos, os gemidos, o ruido dos corpos que caiam, vinham de perto, do aposento visinho onde estivera; tremiam as paredes, o chão, a casa toda; a pelleja durou até á madrugada. Como elle soffria de pavor! Caido sobre a esteira, immovel, parecia coisa morta, sustendo o proprio folego, para que a sua presença não fôsse presentida...

Já com a manhã clara e sol bem alto, ergueu-se então, e animou-se a espreitar um pouco para fóra, por uma fenda da parede. Foi medonho o que viu. No chão grandes poças de sangue se alastravam; e mesmo ao meio da casa, jazia morta, esphacelada, uma enorme ratazana,―maior do que uma vacca!... Mas quem matára o monstro, se ninguem parecia ter entrado? Reparou por acaso no biombo, onde horas antes pintára tantos gatos; lá os viu, mas com os focinhos lambusados de sangue e as patinhas igualmente; eram elles que tinham dado cabo do demonio...

O mocinho tornou-se, com o correr do tempo, um grande artista. Ainda hoje se ademiram muitos gatos pintados pelo seu pincel inimitavel.

O chronista de quem extrahi esta legenda, nada conclue, como moralidade, da historia que narrou. Concluirei eu o que bem me parecer, se m'o permittem. Em primeiro logar, pouco propenso a crêr em coisas do diabo,

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embora mesmo no Japão, concluo que, se a rata do convento era tam grande, é que a despensa se achava provida com um enorme arsenal de gulodices; o que, a despeito de tanto que se diz dos frades de outras terras, dos frades portuguezes por exemplo, faz honra á sobridade de habitos dos maganos, pois não consta que jamais os presuntos e a marmellada de reserva nutrissem uma rata lambareira até attingir igual tamanho. Concluo ao mesmo tempo, humilhado, confundido, que os pintores do meu paiz estão bem longe do traço creador dos pintores do Dai-Nippon. Por ultimo (e talvez esta final conclusão seja a mais util), vejo que ás vezes as nossas qualidades, de que os outros se riem e escarnecem, são as que mais nos valem n'este mundo.

1901.

IMPRESSÕES RAPIDAS

a S. Peres Rodrigues.

Era uma noite de luar do mez de abril, esplendida. Eu seguia pelo caminho de Suwayama, na parte mais elevada da cidade. De um lado alinham-se as casinhas japonezas, entre ellas as mais famosas

chayas

de Kobe,

Tokiwa

e outras, onde os japonezes vêem folgar; do outro lado, é a rampa ingreme, coberta de pinheiros, e sóbe a collina inculta, em corcovas accidentadas, onde assenta um templo notavel.

Nas

chayas

, segundo o costume, havia festa. As corrediças de papel estavam fechadas; mas a luz interior coava-se para fóra vivamente, desenhando alguns vultos dos convivas em sombrinhas deliciosas; eram os vultos d'elles, dos amigos reunidos, certamente banqueteando-se sobre a esteira, e eram os vultos d'ellas, das

gueshas

, que lhes iriam vasando o vinho nas taçasinhas de fina porcellana, e cantando balladas ao som do

shamicen

. Musica, cantigas, gargalhadas, chegavam-me aos ouvidos n'um vago sussurro de alegria.

Na minha frente iam seguindo uns cinco sujeitos europeus, gente de distincta sociedade, a julgar pelo esmero do trajo e da linguagem, e pelo aroma dos soberbos charutos que fumavam. Iam fallando inglez. Dois discutiam finança:―o Japão atravessava uma crise economica terrivel; os cofres do governo, segundo as apparencias, exhauriam-se; o trafego em marasmo; duas grandes fabricas de Osaka, constava, suspendiam o trabalho...―Os tres outros palestravam de politica:―primeiro foi o Transvaal, e fez-se a conta de quantos boers haviam já caido sob o chuveiro das balas inglezas; depois saltou-se ao Extremo-Oriente; a Russia ameaçava o imperio japonez; apparecesse um pretexto, o mais leve, o mais futil, e era a guerra; discutiam-se as probabilidades da victoria, presumiam-se os estragos, o numero de victimas no primeiro embate das esquadras...―Teriam talvez muita razão, todos os cinco; mas ia-me parecendo aquella gente um bando de mochos agoirentos, folgando com a ruina, dando-se bem com o fetido dos mortos. Para elles não nascera, imaginava eu, aquella lua esplendida, que ia alumiando o espaço todo e espargindo sobre a terra uma chuva de prata; nem era para elles que os pinheiros de Suwayama se enchiam agora de rebentos viçosos; nem para os seus pulmões que o ar vinha oloroso de florescencias multiplices, distantes. Suppunha-os, coitados, dyspepticos, biliosos, misanthropos, perseguidos nos fofos leitos por cruciantes pesadelos.

N'aquelle ponto, as

gueshas

de Suwayama entoavam uma cantiga popular, que assim começa:―«

Haru wa, ureshiki

...»―cujas primeiras estrophes se podem traduzir, pouco bem, por estas duas quadras:

Na primavera, enlevae-vos

Nas cerejeiras em flor. No v'rão, folgae nas ribeiras, Quando se abraza em calor.

No outono, vêde a folhagem,

Toda escarlate, voando. No inverno, espreite-se a neve, Bebendo vinho e cantando.

Quando eu escrevi a

Primavera

, e a offereci a um delicado amigo, prometti a mim mesmo, e creio que tambem a elle prometti, completar com pachorra e vagar, os aspectos das estações, aos quaes o tempo, o sol, a cor do ceu, n'este paiz deslumbrante de scenarios, imprimem mais intensivamente, mais emotivamente do que em outro logar, feições differentes e imprevistas. Por preguiça ou outras causas, não cumpri a promessa, com o que,―valha a verdade,―nada se perdeu que falta faça; mas, succedendo agora que tenho de reunir em volume umas impressões dispersas, que intitulei

Paizagens

, pareceu-me indispensavel, por um melindre de consciencia litteraria, voltar ao assumpto, concluil-o. Pede-me pressa um editor bondoso. Tomo o negocio de empreitada; reuno as ligeiras notas soltas que encontro em esquecidos papeis velhos.

Antes assim. Impressões do acaso, apontamentos rapidos, vão-me parecendo preferiveis a um longo estudo que intentasse das mutações de scena que hoje, amanhã, meus olhos relanceam; e não perco o ensejo, por natural intuito de desculpar-me perante quem me lêr, de traduzir aqui uma deliciosa pagina de um livro francez, tambem sobre o Japão, escripto ha poucos annos.―«As circumstancias concorrem mais para a inspiração, do que todos os esforços do homem, e a experiencia quotidiana é a grande instigadora das imaginações. Vêde em litteratura: de ordinario, tanto mais breve é um trabalho, ou, se é extenso, tanto mais é feito de pedaços, de fragmentos escriptos primitivamente ao acaso dos tempos, tanto melhor elle é; um longo livro de historia, um longo romance, um longo tratado de philosophia ou de moral, jamais valerão um conjuncto de memorias, uma curta novella, um jornal intimo ou um caderno de pensamentos, e jamais um poeta epico alcançará o viço de vida que dá ao improviso feliz tamanho encanto; porventura, o homem sensato deveria decidir-se a não publicar senão volumes de paginas destacadas.»

Pretendo ser sensato uma vez na minha vida.

Verão.

Um calor de fornalha. Na Africa, na China, não é mais suffocante. O enervamento é enorme. Desfalece-se de preguiça, de langor.

No entretanto, é no estio que o Japão alcança a sua genuina feição typica, pela natureza e pelo povo, descripta pela lenda, pintada pela arte e como os estranhos a imaginam.

A terra é toda verde. Crescem as mattas, trepa a herva, viceja o mar de arroz nas varzeas alagadas. Nos jardins, floresce a

asagao

, a caprichosa trepadeira, cujas flores, as frescas campanulas de todas as cores imaginaveis, duram o espaço de uma madrugada; nas aguas, floresce o lotus.

O vestuario attinge a maior simplicidade; um unico

kimono

de algodão azul e branco, amarrado na cintura, é tudo... e ás vezes nem é tanto. O europeu, quando ainda estranho ao meio, encara então surpreso este Japão nu ou quasi nu, passeando sem cerimonia as suas pernas, os seus braços, os seus collos, os seus seios e ainda mais,―exposição paradoxal de grotescos e de encantos...

A casa, durante o dia, tambem se despe; despe-se das suas paredes de papel, ficam o telhado e quatro ripas; patenteam-se aos olhos de toda a gente, o lar, a vida intima.

É a epocha das peregrinações, das excursões aos templos, aos logares frescos, onde ha brisas, onde ha sombras, onde ha aguas. Trepa-se ao Fujiyama, a montanha sagrada. Busca-se o abrigo de um pinheiro, para petiscar, para folgar em companhia; e os corpos estendem-se na relva, como repetis. As

musumés

vão molhar os pésitos nas areias das praias, para colherem algas e mariscos. As ribeiras convidam: n'umas, entre juncos, é a caça nocturna aos pyrilampos; n'outras,―o Sunsidagawa em Tokio, o Iodogawa em Osaka,―em noites calmas, é a flotilha immensa dos barcos de prazer, todos elles sanefas multicores, lanternas, balões, galhardetes, harmonias de instrumentos, festins, rapazes, raparigas, amores...

Illustration from Paisagens da China e do Japão

Outono.

Em novembro floresce a chrysanthema, a flor heraldica. Estupenda coisa. Não me parece flor; antes um monstro, com a sua enorme cabelleira de mil petalas, contorcidas como tentaculos de um polypo, em colorações indefiniveis. Alinhadas nos jardins, sob tendas de abrigo, as chrysanthemas lembram mulheres, lembram-me cortezãs de Ioshiwara, quando ellas vestem os ricos mantos polychromos, quando ellas enfeitam os cabellos com diademas de espavento, e vêem postar-se em filas, princezas pompejantes do vicio, encantadoras e perversas...

No outono, a folhagem do arvoredo perde naturalmente o verde, e cobre-se das cores mais vivas e mais estranhas, o amarello, o vermelho, o roxo, em cambiantes varios. A paizagem offerece então um luxo de tintas innarravel; momentaneo, porque as brisas vêem breve despir os troncos, e juncar de folhas mortas os campos e os caminhos. A delicada arvore que aqui chamam

momiji

, de graciosas folhas digitadas, torna-se toda em purpura, como em fogo; ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em magotes, que vem rir, que vem beber, que vem folgar, arrebatado pela scena, que é sem rival em maravilhas.

O inverno.

Illustration from Paisagens da China e do Japão

Mas ha inverno no Japão? Julgo que sim, pois gela a agua nos charcos e ribeiros, cae profusa a neve, alvejam no horisonte as serras, como embrulhadas em lençoes. No entretanto, ainda ao sol de dezembro desabrocha a chrysanthema, e já em janeiro as ameixeeiras, nuas de folhas, começam a florir. Seja pois um inverno de flores. É certo que essa grande desolação das longas invernias dos climas temperados é desconhecida em solo japonez. A paizagem é sempre alegre; o ceu é sempre azul; os pinheiros, que são as arvores que mais abundam, sempre verdes. Se então se prolongam mais as palestras em roda do brazeiro, chegando os deditos ao calor, tomando chá, o povo não cessa de affluir aos theatros, aos bazares, aos templos, ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em aos jardins; apenas, por cuidado ou garridismo, as

Musumés

cobrem com um manto de delicada cor as cabecinhas petulantes, deixando vêr do rosto apenas uma nesga da fronte e os olhos negros, humidos de amor e de mysterio... deve ser antes garridismo, pois ficam d'este modo mais seductoras do que nunca.

Illustration from Paisagens da China e do Japão

A neve, que constitue uma calamidade em tantas regiões, entra aqui no rol das coisas deleitosas. Tanto é assim, que as mulheres, cujos nomes são sempre mimosos como ellas, lembrando flores ou outras gentilezas, se apropriam do termo com frequencia:―

Yuki-San

, a Senhora Neve, ou com mais cortezia,

Ó Yuki-San

, a Nobre Senhora Neve, é nome muito em uso. A nevada, sem que prejudique o povo na vida e no conforto, vem branquear as serranias, os campos e as estradas, esplendida apothéose de alvuras e purezas; rendilha as arvores de crystalinos ornamentos, ostentando-se como uma florescencia immensa, uniforme, que brotasse dos restolhos, da herva, dos bambus, dos cedros, dos pinheiros; sobre os telhados das casas e dos templos, sobre os dorsos das grandes raposas de granito que d'estes se avisinham, sobre as lanternas de pedra dos jardins, demora-se em fofos floccos, que dão ás coisas proximas, realces seductores; por onde a agua corre e se despenha, o frio congela as gottas, adormece-as, transforma-as em recortadas estalactites, que um raio de sol mais quente virá em breve desfazer.

Illustration from Paisagens da China e do Japão

No vocabulario japonez, tam amorosamente naturalista, ha um termo de que agora me recordo, que não tem, como muitos, synonimo em linguas europeas; é

yukimi

.

Yukimi

quer dizer:―excursão ou banquete preparado para ir vêr cair a neve.―Nas

chayas

, em certos sitios pittorescos, exemplo―as collinas de Kioto,―combinam-se reuniões; vêem os rapazes, vêem as

gueshas

com as guitarras, começa a festa ruidosa, interrompida a espaços pela contemplação muda do espectaculo que se offerece; no entretanto, a neve vae caindo n'uma chuva continua de folhepos, ligeiramente sussurante, de um ruge-ruge de sedas que arrastassem, vestindo o solo, as arvores, o colmo das choupanas, poisando mesmo nos vestidos e nas mãos brancas como a neve das moças irriquietas...

Outro assumpto: a historia da arte.

No Japão, não ha nem houve nunca, sabios; é medida, penso eu, de hygiene nacional, consequencia de antigos habitos de limpeza das creadas, que os sacodem do solo como sacodem as teias de aranha das paredes. No respeitante a historia, é evidente que o officio de historiador, com a secura e a frieza que lhe suppomos inherentes, não existe. A historia japoneza é feita pelo povo, incluindo a collaboração preciosa das velhas, das raparigas, dos garotos; emana das tradições, da lenda e da intuição sentimental das massas. Recorda por este facto os evangelhos biblicos, escriptos pelos rudes discipulos de Christo, pobres e simples pescadores alheios ao convivio dos classicos, sem sciencia e sem arte, mas abrazados em poesia, em crenças, em amor. Na historia japoneza, palpita, como nas paginas da Biblia, a alma da tribu, propensa, pela tendencia geral da gente rustica, ao milagre, á maravilha, ao inverosimil; convindo apenas não esquecer que o japonez, menos idealista do que o hebreu, não vae mui alto no mundo das chimeras, voeja terra a terra, aprazendo-se em entretecer de graciosas fabulações as aventuras dos seus homens illustres. A historia da arte, para este povo feito todo de artistas, sempre sob o arrebatamento das bellezas naturaes do seu paiz, é um dos capitulos preferidos, por onde mais rodopia sem freio a phantasia; e é d'este capitulo da arte que eu destaco algumas graciosas lendas que se seguem.

O bonzo Chyo Densu, que viveu pela primeira metade do nosso seculo XV, foi um grande pintor em coisas religiosas.

Sendo noviço n'um templo da Kioto, Tofukuji, conta-se que já se dava á pintura com paixão, incorrendo por esta fórma no desagrado do superior

Illustration from Paisagens da China e do Japão

Daidô, que o ia asperamente reprehendendo. Certo dia, acabava elle de pintar um retrato de Buddha, quando sente passos de Daidô, que se approxima do seu poiso; rapidamente, esconde o desenho entre os joelhos; o vulto entra na cella, esbrugando as suas contas, resmungando; do resplandor do deus subito irradiam chammas de apothéose, que innundam de luz a casa toda; a falta do noviço estava assim conhecida; mas tambem perdoada, pois Daidô humilhou-se a este avizo do céo, e nunca mais atormentou o seu discipulo.

Já no fim da existencia, dignou-se uma vez o Shogun recompensal-o dos seus muitos serviços, dizendo-lhe que pedisse o que quizesse.―De nada careço n'este mundo, retorquiu Chyo Densu, tendo em cada dia um

kimono

lavado para vestir e uma tijela com arroz; só vos supplico, senhor, que por vossa ordem terminante sejam cortadas cerces todas as cerejeiras do jardim d'este templo, para que de futuro se não torne um logar de folia e desacato.»―Foi-lhe o desejo satisfeito; e em Tofukuji, ainda até hoje, nem um só pé de cerejeira floresce.

Tadahira, do nosso seculo X, pintou certo dia um cuco sobre o panno de um leque. Tam perfeito era o cuco, tam inspirado de verdade foi o pincel que o desenhou, que em todas as vezes que alguem abria o leque, o cuco, assim exposto á luz do dia e á paizagem, acordava, soltava o pio habitual dos cucos. Maravilha!...

Maruyama Okio, nome moderno, pois é do seculo XVIII, foi pintor muito celebre, a ultima gloria talvez da escola classica, convencional, mas cheio de amoroso realismo nas suas concepções. Um seu cliente fizera-lhe encommenda de desenhar um urso bravo. O consciencioso Okio

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pede a certo aldeão do seu conhecimento que o avise de quando algum appareça pela serra; o aviso vem ligeiro, pois abundam taes bichos no Japão, e eil o que parte, com a tinta, com os pinceis e com o mais de que carece. Levado pelos campos, depara com o animal dormindo junto a uma arvore. Mãos á obra, e em curto espaço conclue o seu trabalho e se retira; mas dentro em pouco rasgava a tela, desgostoso, depois de a ter mostrado a um caçador de officio, em ursos entendido, o qual lhe observou que achava bello o quadro, mas falho de verdade após um exame attento, pois não traduzia a imagem a vaga ondulação que é propria ao arfar do corpo que respira. O melhor da passagem foi ter, annos corridos, contado o aldeão ao bom Okio que o tal urso da serra se quedava dias e dias junto á arvore; até que se deu fé, entre curiosos, que o bicho não dormia, mas se achava alli caido morto...

Sonhou um dia o Shogun, Generalissimo do imperio, que um padre lhe apparecia e lhe dizia estas palavras:―«Eu sou o defunto superior do templo de Kurama; e rogo-vos, senhor, que ordeneis a Kano Motonoba de pintar o meu retrato, para ser collocado no templo onde passei meus longos dias de existencia.»―Acordando, mandou chamar o grande artista, fez-lhe a encommenda, e soube então que elle tivera igual visão durante a mesma noite.

O peor é que Kano não conhecera o reverendo, nem lhe constava que existisse um só retrato para modelo. A tarefa era ingrata. O pintor passou então dias sem conto, tendo na frente a tela nua, pincel em punho e tinta preparada, immovel, perplexo, desesperado de jamais poder realisar o seu intento. Foi em um d'aquelles dias que uma aranha desceu do alto do tecto lentamente até poisar na tela, onde teceu a sua teia, que era nada menos que o esboço do frade a traços rapidos; Kano limitou-se a completar a obra em seus faceis detalhes.

Outra difficuldade se levanta: Kano desenhára um retrato gigante, em uma grande tela, não reflectindo a principio que nunca poderia conseguir que passasse pela porta do seu modesto albergue. Quando concluido e como o

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problema se apresentasse irresoluvel, eis sopra de repente uma rajada em furia, que deita a terra uma parede do albergue, e leva em triumpho, pelos ares, o primoroso quadro até ao templo de Kurama, onde até hoje está, e os visitantes o admiram.

Sesshiu, um nome glorioso entre a pleiade dos pintores do Dai-Nippon, entrára como noviço aos treze annos no templo de Hofukuji. Sabe-se que, durante a sua aprendizagem, mais se applicava á arte do que ás praticas devotas. Uma vez, por uma offensa d'este genero, foi posto em penitencia junto a uma columna do templo, durante longas horas, com as mãos atraz das costas, fortemente amarradas. Quando o superior vinha soltal-o,―imagine-se o espanto do sujeito!―eis que surde de junto dos pés do pobre moço um bando de ratinhos, que se escapam espavoridos pela casa. Qual era a explicação de tam estupendo caso? Eu lhes conto: o penitente, choroso e inactivo, fôra entretendo o tempo a pintar sobre o sobrado poeirento aquelles galantes animaes, servindo-se das proprias lagrimas como tinta, e do dedo grande do pé nu, como pincel; logicamente, os ratos salvavam das iras do velhote as preciosas vidas com que o artista acabava de dotal-os.

Esta é uma velha lenda classica da religião de Shinto.

O templo shintoista de Shimo-Gamo, em Kioto, é dedicado á deusa Tamayeri-hime. Esta menina, antes de dar pretexto aos fieis para ser adorada, achava-se uma vez dedilhando sentidas melodias na guitarra, á beira do rio Seminogarva, quando avistou boiando á tona de agua uma feicha vermelha, encimada de lindas pennas de certa ave das selvas. Colheu-a e levou-a para casa, collocando-a junto do seu leito. Acto continuo, succedeu a maravilha de dar á luz um filho. Seus paes, descrentes de artes milagrosas, e a despeito dos mil protestos de innocencia que ella lhes fez, singelamente, não acreditaram no milagre, accusando-a da falta que mais póde envergonhar uma mulher honesta.

Passados annos, Taketsumi-no-Mikoto, o pae da desolada, resolveu aclarar este mysterio. Em tal designio, offereceu um banquete a todos os visinhos; e quando estavam todos reunidos, dirigindo-se ao neto, e entregando-lhe uma taça cheia de

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