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Paisagens da China e do Japão

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Reading edition

saké

, que é o vinho do paiz, disse-lhe isto.―«Leva-a a teu pae»―A creança, obedecendo, saiu para a rua e poz-se a contemplar o céo, e ia murmurando uma oração; de subito, transforma-se n'um raio, que corisca, subindo ás regiões celestes, acompanhado pela mãe, para a qual começou assim a glorificação.

Encontrei-me, em pleno dia, n'um luxuoso bairro indigena, que me disseram chamar-se a

Cidade-Nocturna

, pois só com a noite acorda, e só na noite vive, deslumbrante de galas, de lumes, de harmonias, de povo alegre que transita, para cair em repouso ao alvorecer da madrugada.

Áquella hora, a estranha cidade, esbrazeando a um sol de intensidades tropicaes, do mez de Agosto, modorrava; torpida quietação; raros vultos se viam,―mendigos, vadios, párias da vida,―cosidos com as nesgas de sombra dos edificios e das arvores que ajardinam ao centro as avenidas.

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Fixei casualmente a attenção n'um edificio mais pomposo, de vastas dimensões, todo de madeira nova, alto de quatro ou cinco andares, rodeado de varandas, d'onde pendiam a arejar ricas colchas de seda e mantos de matiz; não sei que caravançará de mysteriosos habitos, aquelle, silencioso tambem áquella hora, mas dando de si a idéa de conter nos seus arcanos uma legião do moradores.

Ao centro d'este edificio erguia-se em triumpho um amplo portal, de madeiras lustrosas; seguia-se-lhe um vestibulo; depois alguns degraus de escada, acharoados; e ao fundo, muito ao fundo, havia passadiças cobertas de esteiras muito limpas, corrediças entreabertas patenteando, n'uma meia penumbra, confusos verdes de jardim.

Junto ao portal, dois moços de serviço, quasi nus, dormiam sobre um banco, como dois cães de guarda cançados da vigilia. Notei que vultos de mulher, de quando em quando, passavam, perpassavam, longe, no ultimo plano; languidas, vagarosas, com os penteados desfeitos, arrastando amplas tunicas de seda estampadas de entrelaçamentos de flôres. Uma d'ellas, por desenfado, avançou té ao portal, ergueu os braços alto, enfiou os alvos dedos de ociosa pela juba negra dos cabellos; e assim, n'aquella posição, poz-se a fitar o azul do céo que uma ave cruzava em vôo rapido. Gentilissima, esplendida no vestido, miudas fórmas graciosas, da côr do jaspe os pés descalços em habito de humildade, e um olhar de dezoito annos quando muito, pueril, coando a expressão intima de um ser affeito á passibilidade e inconsciente das coisas d'este mundo. De dentro, uma voz de velha, azeda e imperativa, chamou-a pelo nome:―«

Mitsu-Riyo!

»―E eu fui seguindo o meu caminho, acordando de subito para um enternecimento doloroso, que me é peculiar em presença de certos relances da existencia, um pequenino nada ás vezes, confuso e passageiro...

Mitsu-Riyo

quer dizer, litteralmente:―

Mel que se offerece

―a quem? á turba, a toda a gente.

No Japão, uma vez em cada anno é a festa das meninas, e uma outra vez em cada anno é a festa dos rapazes.

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Na primeira, como de justiça, e em attenção ao sexo, tudo se passa entre a familia, de paredes a dentro; e o profano nada logra devassar dos jubilos d'aquellas presumidas, vestidinhas com mil esmeros e attenções, em extasis em frente do altar que se arma em casa em honra d'ellas, aonde se dispõe, além de coisas santas, a collecção de bonecas e brinquedos, a serie em miniatura do espelho, da caixa de costura, do brazeiro, das chavenas, da chaleira, de tudo mais onde mais tarde os seus dedos mimosos poisarão, no placido exercicio dos seus deveres de esposa e mãe por sua vez.

A festa dos rapazes é publica, ostensiva. É certo que no lar se agrupam os trophéos de armas e allegorias de guerreiros, e brinquedos condizentes com a turbulencia innata nos garotos; mas no que mais se empenha o cuidado da familia é n'um curioso emblema que enfeita a cidade inteira, offerecendo aos passeantes um estranho quadro de festa e alegria. Cada qual que tem filhos―e quem ha que os não tenha?―espeta a prumo ao pé da sua casa uma vara de bambu de grande comprimento, tendo amarrado na ponta um enorme peixe de papel, soberbamente pintado de negro ou de vermelho, escamudo, com ampla cauda e esbogalhados olhos; cada qual amarra um peixe, ou dois, ou tres, ou quatro, conforme o numero de filhos; e ha casaes tam abençoados dos deuses e tam cumpridores do seu dever, que amarram sete peixes, oito peixes, um cardume!...

Qualquer curioso em coisas de estatistica poderia, sobre uma eminencia da cidade, registar pelo numero dos peixes o numero de filhos varões n'aquelle sitio; mais ainda: os ventres benemeritos que mais soldados dão ao exercito imperial.

Ha uma lenda adoravel n'esta usança. Os peixes figuram carpas, no Japão abundantissimas; a carpa, sabe-se, vive nos rios, e apraz-se teimando a nadar contra a corrente, subindo da fóz té ás origens; aquelles peixes de papel, enfunados pelas brisas fuscas que reinam em geral n'aquella epocha, que é em maio, perfilando-se contra o vento, dão uma perfeita imagem do phenomeno. Assim o homem, no curso da existencia, deve adquirir a rude teimosia de resistir, de passar para além da corrente dos revezes, dos desalentos, das intrigas, té alcançar o lago bonançoso da paz da consciencia e da abastança ganhas com o seu trabalho intelligente. A festa é ao mesmo tempo um aviso aos tenros nipponicos de agora, ranhosos, rabujentos, dependurados da teta maternal, ou, mais crescidos, caçando as cigarras poisadas sobre as arvores, lambendo doçarias e soletrando o

i-ro-ha

pelas escolas, mas que amanhã constituirão a massa activa e dirigente d'esta tribu inchada de orgulhos patrioticos, e abrazada em ambição.

Se um dia me sobrarem ocios e pachorra juntamente, hei-de ainda escrever um longo capitulo inspirado na mulher japoneza, tal como eu a comprehendo, ou antes, tal como a não comprehendo. Não agora. Agora intento apenas fallar d'ella em breves phrases, ao capricho das rapidas idéas que me occorrem.

Qual é o seu destino? O enlevo do lar. Seria pois, como quem diz, um canario cantador, gentil e inutil, saltitante, papeando ao sol e enchendo a casa toda de alegria, se não se devesse incluir em tal enlevo, dois meritos ainda: o delicado instincto da ordem, da limpeza, e um fundo de carinho maternal, tam amoroso, que talvez não tenha egual no mundo inteiro. De sorte que, sem missão activa propriamente, parece vir ao mundo destinada a uma doce passibilidade feita de cuidados e sorrisos, para tornar feliz o esposo, e preparar para a vida um outro homem, o seu filho. Sem iniciativa propria no ramerrão da existencia quotidiana, simples nos habitos, nas occupações e nos desejos, a sua condição mantem-lhe, e mesmo lhe exaggera, os attributos peculiares do sexo,―delicadezas phisicas fixadas no requinte, e um discorrer ingenuo de creança.

É uma escrava do homem? É difficil dizel-o, n'este mundo, que é todo escravidão. Sim, será talvez; e recorda-se este velho preceito de moral, ainda não esquecido:―«Obedece a teu pae, mais tarde a teu marido, mais tarde a teu filho primogenito.»―No entretanto, bem chimericas algumas devem ser as que supportam... pois para que lhes servem a ellas, as

musumés

, o sorriso perenne dos labios, o mimo dos gestos, das feições, do garridismo do seu trajo, a alma de graças que têem nas pontas dos dedinhos, que tudo aformoseam onde tocam, senão para trazerem submisso ao jugo dos seus desejos e caprichos o bruto seu senhor (porque os homens são brutos em todo o planeta) e folgarem como princezinhas voluntarias?... Que se julgam felizes, ellas, esta Senhora Ameixeeira, esta Senhora Crysanthemo, esta Senhora Primavera, não ha duvida, concluindo por este mesmo sorriso dos labios frescos durante todo o dia―e possivelmente toda a noite―pela alegria fervilhante dos olhitos, pela serena ondulação da mimica, já surprehendendo-as nos mil misteres caseiros, já pela rua, caminho dos bazares, dos templos, dos theatros, dos campos floridos...

É certo todavia que uma grande dissemilhança afasta a mulher japoneza, da mulher occidental, pelo menos d'aquella que a importação despeja dos paquetes e vem pisar a terra de Nippon; a ponto, persuado-me, que um sabio zoologo qualquer, que descesse do planeta Marte a estas paragens, jamais ousaria classifical-as como exemplares da mesma fauna.

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Vede esta femeasita minuscula, toda ella pieguices de roupas e maneiras, fragil, sem musculos, com mãos e pulsos de creança, impropria para o esforço e para a lucta; passa a vida de joelhos, sobre macias almofadas, brincando com bonecas como se fôssem filhos seus, ou brincando com seus filhos como se fôssem as bonecas; se sae de casa, vae arrastando os pésitos em passos indecisos, preguiçosos, borboleta bohemia, sem rumo e sem intento; sabe cuidar dos seus cabellos, pintar a bocca de escarlate, dedilhar no

shamicen

, compôr ramos de flôres, servir o chá nipponico, lêr historias de raposas

fabulosas

e de macacos legendarios...

Agora comparae esta chimera humana com as rudes viageiras que o mar aqui arroja, bravos exemplares do feminismo em moda,

fontes

de musculos, de animo atrevido, usando monoculo, bengala e collarinho; deixam ás amas os filhos, se é que os têem, para correrem as cidades a passos de gigante, ou, mais velozes ainda, manejando com mão firme a bicycleta; umas são jornalistas, outras são missionarias, outras são medicas, outras são sabias, outras são coisa nenhuma. Não ha comparação possivel entre as duas. A europea offusca a japoneza pelos seus meritos triumphantes. A esta, humilde e timida, só restaria acaso uma desforra:―era entreabrir o

kimono

de seda na parte junto ao peito, patentear lhe o par de maminhas brancas e roliças, com os bicos côr de rosa macerados pelos dentinhos do garoto que lhe brinca no collo, nu em pêlo...

Uma amavel senhora, cujas cartas vem de quando em quando amenizar a solidão do meu viver, dizia-me ainda ha pouco coisa parecida com o seguinte, a proposito de dois livros que escrevi (que ella leu, a bondosa), e da subsequente prolongada preguiça litteraria em que fiquei:―«Você deu ao publico as suas illusões; o publico espera agora as suas desillusões.»―Não sei ao certo o que então lhe retorqui; mas eis o que me occorre responder-lhe, ao escrever a ultima pagina d'este livro:

Vá de barato que a gente publique as suas illusões; melhor fôra calar-se, todavia. Mas para as desillusões não ha, supponho eu, publicidade ademissivel; soffrem-se no silencio intimo, e manda o orgulho proprio, além de outros motivos, que a gente as não divulgue. No entretanto, para o paiz japonez, com o qual ia especialmente contender a gentil observação que referi,―um nadinha maliciosa, querendo aparentar estimulo apenas ás minhas actividades em lethargo,―para o paiz japonez, devo confessar que me encontro ainda no periodo do enlevo e dos feitiços. Não ha terra, que eu conheça,―e tantas tenho conhecido!―mais deslumbrante do que esta nos aspectos; não ha povo mais interessante do que este, pelo feitio moral, pelos costumes, pela alma artistica; não ha mulheres mais mimosas do que estas

musumés

; e não ha no mundo inteiro gente mais feliz do que esta gente japoneza; é dizer tudo. O que o tempo e a experiencia me têem dado a conhecer, é a convicção profunda da incompatibilidade absoluta entre tudo isto e o europeu; o Japão é dos japonezes e só dos japonezes, o europeu, como um pingo de azeite dentro de agua; conserva-se aqui sempre isolado, não se assimilla ao meio. Porquê? por dissemelhanças irreconciliaveis do sentir, da educação, dos habitos, por essa invencivel barreira que se define em tres palavras, a―differença de raças.

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Minha senhora: para poder assim synthetisar-se um sentimento como eu acabo de fazer, para adivinhar o encanto no que nos é vedado, para dizer que é grato o aroma de um ramalhete de flôres que nos mostrassem dentro de uma redoma de crystal, não é fácil tarefa; tem de elevar-se a alma a um extremo altruismo estetico, paradoxal até, não por virtude nem sciencia, mas derivado de condições tristes da vida, e quando se é já tam pobre em esperanças e desejos, que o individuo rasteja como um pária moral, alheio a tudo.

Tal pária, n'um ponto, n'um só ponto, é grande como um Deus: vê o mundo do alto, parecem-lhe os homens formigueiros, segue com a vista as formigas nas batalhas, nas labutas, nos cuidados e nos prazeres; em tal estado de desinteresse e independencia, custa pouco então apontar com o dedo para a tribu que mais bem dotada parece na partilha das graças, dizer―é esta, o Dai-Nippon.

Deixe-me pois guardar, para guardar alguma coisa, as illusões d'este paiz... e a sua estima, e esta não é uma illusão.

1901

ISSUMBOSHI[2]

(CONTO JAPONEZ)

a A. A. Ferreira d'Almeida.

Ha mui remotas eras, dois velhos esposos residiam na provincia de Settsu, em Naniwa, como então se chamava a cidade de Osaka. Eram os dois sósinhos; nunca tiveram filhos, posto que ardentemente os desejassem. Ora, a prole é a grande preoccupação da familia japoneza; considera-se mesmo incompleta e quasi ignominiosa a existencia d'aquelle que a não teve, e assim se vê privado de legar o seu nome, e os encargos do culto devido aos ascendentes, ao natural herdeiro de taes honras, restando-lhe apenas o triste expediente da adopção de um filho estranho, que, com a herança do appellido de familia, assuma os encargos da supposta primogenitude.

―Um filho... um filho ao menos, fôsse elle embora um aleijado, um monstro, uma migalha de gente, com o tamanho de um dedo por estatura... mas um

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filho!...―tal o thema constante, durante longos annos, das mais gratas esperanças do casal a que me referi. Quando, pelas rugas nos rostos e pela alvura dos cabellos, os bons velhos concluiram que não mais lhes era dado confiar na iniciativa propria, elevaram então o pensamento aos deuses, como dispensadores que são de todos os milagres; encaminhando de preferencia a sua devoção para o glorioso Myojin, que é a divindade venerada no celebre templo de Sumyoshi, a curta distancia de Naniwa. Quasi todas as manhãs elles se dirigiam em piedosa romaria, juntos, cada qual arrimado ao seu bordão, pois já as pernas lhes vergavam ao peso dos invernos; e era então um espectaculo deveras commovente, e supinamente grotesco ao mesmo tempo, que fazia correr lagrimas e estalejar risadas á gente que passava, o d'aquelles dois decrepitos, cheios de uncção e abrazados em fé, erguendo ao céo as pobres mãos escarnadas, e implorando o deus para que lhes desse um filho, fôsse elle como fôsse, fôsse elle uma migalha de gente, do tamanho de um dedo por estatura!...

Ora, succedeu que tendo assim decorrido varios annos, o deus de Sumyoshi se apiedou por fim de tantas supplicas dos velhos, e lhes appareceu um dia para lhes proferir estas palavras:―«Faço-vos a vontade, bons caturras, haveis de ter um filho.»―Os dois pularam de contentes, como se póde imaginar; galhofando, batendo palmadas amigaveis nas costas um do outro, voltaram para o albergue. Não tardou muito que a velha sentisse com alvoroço os primeiros remoques que prenunciam gravidez; e finalizados nove mezes dava á luz uma creança, um menino...

Caspité!... Mas reparem agora no ponto mais surprehendente da aventura: o menino, lindo como os amores, tinha a estatura de um boneco, como esses de porcellana que se usa collocar nos jardins liliputianos, contidos n'um vaso ou n'uma caixa, muito do agrado da gente japoneza. O espanto dos paes foi grande, e a decepção tambem; mas em verdade não havia motivo de queixa contra o deus, que concedêra o que se lhe rogára,―um filho, com o tamanho de um dedo por estatura.―Era assim.

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Issumboshi

foi o nome que deram ao menino, isto é, traduzindo litteralmente em portuguez: o

Cavalheiro Pollegada

. As chronicas não rezam se foi amamentado a

biberon

, ou se o mirrado seio maternal entumeceu de subito e se offereceu solicito aos labios do garoto. O que é facto é que Issumboshi foi medrando em graças e em esperteza; não porém em tamanho; e quando tinha os seus dez annos era tal como viera a este mundo. Esta gentil disformidade trouxe o enfado ao lar e até um certo azedume mal contido contra as suppostas bondades do deus de Sumyoshi. O escarneo era espontaneo nas boccas dos visinhos; os gaiatos do sitio apraziam-se em zombarias d'esta ordem:―«Lá está o

anão

comendo arroz! lá vae a

ervilha

passear!»―Emfim, para encurtar razões, direi apenas que chegou um momento em que Issumboshi se tornou insupportavel a seus paes, vergonha viva do casal, sem prestimo presente, e sem que se lhe suppozesse utilidade possivel no futuro.

Certo dia decidiram os velhos, embora lhes pezasse, pôl-o fóra de casa, abandonal-o ao acaso da fortuna. Foi chamado o menino á presença do pae, que lhe expôz os motivos da sua resolução, e lhe apontou de um gesto o caminho da rua.―«Sim, papá, partirei sem demora, retorquiu, resignado e submisso; mas faça-me favor de dar-me antes uma agulha d'aquellas de que a maman se serve para coser os seus

kimonos

.»―Perguntou o pae para que? e foi-lhe respondido que era para usar d'ella como um sabre, muito proporcionado ao seu tamanho. Depois pediu á mãe uma tigela de madeira, d'aquellas que se empregam em servir o caldo ás refeições, e mais um d'esses pausinhos que se chammam

hashi

, com o comprimento de um palmo, substituindo na mesa japoneza o garfo e a colher. Perguntou a mãe para que? e foi-lhe respondido que, para a longa viagem que ia emprehender, a tigela seria o barco, o

hashi

seria o remo, tudo proporcionado ao seu tamanho.

Em posse dos utensilios que alcançára da munificencia de seus paes, Issumboshi fez-lhe uma rasgada reverencia e desappareceu de casa.

Eil-o só, o pobre abandonado, entregue ao seu arbitrio, dispondo como haveres de uma tigela, de um palito e de uma agulha, collocando esta á cinta, á laia de catana, com uma palhinha por bainha!... Que fazer? Para onde ir?... Corria cerca o Iodogawa, o extenso rio lodoso e calmo que tem suas origens no famoso lago Biwa, desce a Kyoto, atravessa Naniwa, e vae perder-se no oceano. Que fazer? Para onde ir?―«Ir a Kyoto, pensou comsigo o anãosinho, á capital do Imperio (então não era Tokyo a capital), á residencia do Soberano, aonde muitas coisas curiosas deve haver, dignas de vêr-se...»―E abalou.

Seria impossivel relatar as peripecias da viagem, os mil perigos affrontados por tão exiguo barco, que uma simples casca de laranja,

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boiando á tona de agua, já punha em risco de naufragio. Issumboshi ia perguntando aos pescadores o caminho para Kyoto; se refrescava o vento, abrigava-se junto da estacaria das pontesinhas que galgavam de uma margem do rio para a outra margem; pelas noites escuras, ou quando a fadiga o affligia,

encalhava

o seu barco junto á terra, por entre a maranha dos limos e das plantas aquaticas; e foi assim, com mais de trinta dias de derrota, que abordou uma manhã á famosa capital do paiz do Sol Nascente.

Eil-o em terra, bamboleando-se, folgando com o chão firme, com as palestras da turba, com o cheiro das tabernas, como effectivamente succede aos marinheiros após longos dias de cruzeiro, enfadados de balanço, de isolamento, de carne salgada e de bolacha. Issumboshi, pouco maior que um escaravelho,

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passava despercebido por entre os muitos passeantes; assim poude furtar-se a commentarios zombeteiros e percorrer tranquillamente as ruas da cidade, embasbacando-se em face dos aspectos grandiosos que aos seus olhitos sagazes se iam offerecendo. Por fim, eil-o acercando-se da mais sumptuosa residencia em que os mesmos olhitos jamais tinham poisado; era alli que vivia um grande personagem, o principe Sanjo-no-Saishó, primeiro ministro na côrte do soberano. Entra Issumboshi resolutamente no amplo pateo da entrada, e informa os serviçaes de que pretende fallar ao senhor de tal dominio. Deu-se então o comico incidente de estar sua alteza muito cerca e de acudir, á porta, attrahido pela maviosa voz do visitante; como ninguem visse porém, ia de novo recolher-se, resmungando que teria jurado achar-se alli um estranho em conversas com a gente de serviço; mas um derradeiro olhar pesquisador revelou-lhe, quasi occulto por detraz dos seus tamancos, que estavam junto á entrada conforme o uso do paiz, o curioso figurão que conhecemos.―«Oh! exclamou, eras tu, minusculo vivente que ainda ha pouco proferias o meu nome?»―O rapaz, polidamente, assegurou que sim, que era elle proprio.―«E que me queres então?»―Issumboshi expôz a sua procedencia, os seus titulos e as tristes condições em que se via; e concluiu rogando que lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu serviço.―«Pois sim, fica comnosco, respondeu sua alteza, após ligeira reflexão; tu és sem duvida, continuou, o homem mais pequeno que tem apparecido n'este mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras que conheço; não quero perder o léo de possuir tamanha galanteria, praticando ao mesmo tempo um acto meritorio, protegendo-te.»

Embora tam infimo em grandeza, o

Cavalheiro Pollegada

soube mostrar-se utilisavel em tudo em que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se querido da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto para matar enfados, dos quaes ninguem se livra, e menos ainda os ricos, sempre

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ociosos em seus palacios de regalo. Ko-Haru, a filha do fidalgo, a mais gentil donzella de Kyoto (que é a terra das mulheres mais gentis de todo o Imperio), especialmente lhe votou as suas sympathias, impondo-lhe o dever―dulcissimo dever!―de acompanhal-a por toda a parte onde ella fôsse, qual rato sabio que seguisse a dona em seus passeios...

Entre os dois, a formosa

musumé

e a migalha de gente, passaram-se então graciosas scenas, as mais tocantes que póde imaginar-se, se imaginaveis são... Era um enlevo vêl-o, sempre vestidinho de guerreiro, a primor, com roupas de setim que ella pelos proprios dedos habilidosos lhe bordava, e lhe cosia, privando de carinhos as suas bonecas favoritas; e Issumboshi, muito compenetrado do seu papel de pagem, nunca largando o sabre da cintura, arrogava-se uns taes ares marciaes, tão petulantes, que a gente morria de rir, ao avistal-o!... Se chovia, ou se a excursão se prolongava, Ka-Haru tomava nas mãos alvas de neve o seu pequeno companheiro, aconchegando-o ao collo, ou aquecendo-o ao seio. Issumboshi, é bem de crêr, possuia, como todo o ser humano possue, um coração, embora reduzido ás proporções de uma cabeça de alfinete, mas pulsando de gratidão e de ternura. Aquella convivencia escravisou-lhe a alma. Uma dedicação immensa, uns zelos infinitos, um desejo constante de agradar á sua nobre ama, taes fôram os sentimentos dominantes no animo do pygmeu. A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que aos outros mortaes eram vedadas... (oh, mysterio psychologico de todos os namorados d'este mundo! quantos de vós, que lêdes estas linhas, invejareis a sorte de Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas de agosto, Ko-Haru se aprazia em estender-se sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido tambem pela fadiga, poisava e adormecia sobre um dos pés nus de sua ama, como em leito de marmore de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos labios frescos da donzella uma petala de magnolia, em que por distracção os dentinhos se entretinham mordicando: Issumboshi comeu-a; e durante um dia inteiro não se serviu de outro alimento, assegurando com verdade

que aquelle

lhe bastava...

Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo de Kiyomizu-no-Kwannon (Kwannon é a deusa buddhista da piedade), a fim de praticar as suas devoções; como sempre, o anão acompanhava-a. Ora, de volta, quando ambos desciam o ultimo degrau da ampla escadaria que dá accesso ao templo, dois demonios surdiram de improviso das proximas balseiras, horriveis de figura, herculeos, colossaes, cuidando sem detenças de raptar a linda peregrina. Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece. Issumboshi retira a espada da bainha (a agulha que a mãe lhe dera n'outros tempos), perfila-se em frente dos demonios e brada-lhes assim:―«Vis temerarios, que commetteis a magna offensa de perturbar em seus passeios piedosos a princeza Sanjó! sabei que se um de vós, com um só dedo lhe tocar, commigo se ha de haver! e, tão certo como ser eu Issumboshi, assim este meu sabre lhe rasgará a entranha!...»―Consta que os diabretes se pozeram a rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais fallador, dignou-se responder com uma vóz de trovão que fez afugentar das arvores os pardaes, em cinco leguas ao redor:―«Acalma a tua furia, infimo insecto; não percebes acaso que a lucta contra nós é-te defeza? para encurtar razões e não seres importuno, vaes vêr o que te faço...»―Levantou-o do solo, mui delicadamente, com as pontas dos dedos, e enguliu-o...

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Pareceu a Ko-Haru fugir-lhe a ultima esperança de salvar-se. Illudia-se. Em plenas trevas, escorregando pela guela babujenta do monstro, e penetrando na enorme rotunda da barriga, o anãosinho empunhou o sabre a duas mãos e foi espicaçando ao acaso, para a frente, para a direita, para a esquerda, o ventre, a fressura, os intestinos; o diabo sentiu-se de repente incommodado, soffreu ancias atrozes, vomitou o jantar e Issumboshi de novo appareceu á luz do dia. O outro monstro tentou em seguida igual ardil, devorando o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe para o nariz, em cujas fossas sanguineas e felpudas recomeçou esgrimindo, a ponto de produzir tal comichão, que o diabo espirrou, salvando-se o inimigo pelos ares. Foi então que os demonios se encheram de pavor, convencidos de que tinham em frente de si um ente extraordinario, posto que de tão desprezivel apparencia; e deitaram a fugir...

Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a desolada dama, convence-a da ausencia do perigo e faz-lhe vêr que são horas de seguir para palacio, onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru vae partir; antes porém testemunha ao pagem a sua muita gratidão, promettendo contar á familia o succedido, para que chovam justas recompensas sobre o seu donodado salvador.

Partiram com effeito. Eis que, a curta distancia, Ko-Haru encontra no caminho um utensilio alli abandonado, o pequenino martello milagroso de que os demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido pelos monstros na ancia de safarem-se. Tomou-o pressurosa. Perguntou o companheiro o que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que bastava brandil-o para a gente realisar os seus desejos, e que elle proprio, se algum desejo tinha, lh'o dissesse, que logo lhe seria satisfeito, Issumboshi berrou, no auge da commoção e da esperança:―«Altura! Altura! Altura»―Ko-Haru não percebeu o que elle queria. Elle então, mais prolixo, explicou que queria a altura de si proprio, crescer em tamanho, tornar-se um homem como todos os homens d'este mundo. O milagre, a um gesto da

musumé

,

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realisou-se. Issumboshi attingiu n'um momento as regulares proporções de um guapo mocetão; ao lado da princeza, quem se pozesse a vêr aquelle par, diria-os feitos um para o outro, de encommenda...

Chegaram

ao palacio

. A admiração foi grande; mas não sei o que mais commentarios mereceu, se as peripecias da princeza, rematadas com tão feliz epilogo, se o milagre do martello na pessoa de Issumboshi. Logo alli se lhe mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu do seu nobre protector mil recompensas, mais tarde do soberano mui fartas honrarias, subindo aos mais altos cargos publicos; mas a mais doce recompensa que aqui se lhe póde assignalar foi tornar-se o esposo querido de Ko-Haru, que elle amava, do fundo da alma, desde o primeiro dia que lhe foi dado contemplal-a...

Kobe, março de 1902.

O PESCADOR URASHIMA

a Joaquim Costa

Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da costa do Japão, Urashima, um moço pescador. D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhança:―que tinha um coração propenso ao bem, e que em destreza ninguem o igualava, tratando-se de artes de linhas e de anzoes;―nada mais, mas já não era pequeno o elogio.

Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, sósinho no seu barco. E que pescou Urashima d'essa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora... pescou uma enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita rugosa, denunciando assim a grande vetustez; é notorio que as tartarugas vivem muito; vivem mil annos, no Japão.

Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao pobre pescador, pouco mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoço, e mais ainda, fóra os lucros que a casca lhe trouxesse; mas o moço poz-se a scismar na crueldade que ia

Illustration from Paisagens da China e do Japão

commetter, roubando assim talvez longos seculos de vida áquelle bruto, fadado pela sorte ao goso da existencia, durante gerações e gerações da tribu humana; e lembrou-se da mãe, da santa velha que tantas vezes lhe ensinava a ser caritativo com os brutos indefezos... É certo que as mãos abandonaram a presa, n'um largo gesto de bondade; e a tartaruga, volvendo á agua sem se fazer rogada, lepida mergulhou no azul e se safou das vistas.

Fazia então tanto calor!... Era um d'esses dias abrazadores de agosto, embebidos de paz, de luz, de torpidos affluvios. Além, a aldeia quedava-se na sésta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto; apenas, sobre as arvores, cantavam as cigarras, doidas de cio, estonteadas... Interrompera-se nos campos a faina da lavoira; nas choças escancaradas, patenteavam-se os corpos nús, estendidos em repoiso, adormecidos, banhados em suor. E Urashima, no seu barco, vencido tambem pelos ardores d'aquella hora, largou das mãos os remos e as linhas, encostou-se á bancada e adormeceu.

No entretanto, eis que surge das aguas um vulto feminino, encantador. O episodio, que a tradição do povo foi retendo até aos nossos dias, póde agora reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do esquife, poisa esse vulto, essa fada adoravel de feitiços, envolta em roupas carmezins, solto o cabello ás brisas e corôada a fronte com o diadema de oiro, que é apanagio das princezas; estende o braço de neve para o adormecido, toca-lhe na fronte com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso estas palavras:―«Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu sou; sou a filha do deus do oceano immenso, habito com meu pae o palacio do dragão, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco colheste e restituiste á liberdade, era eu propria; meu pae impoz-me um tal disfarce, para que assim podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua ordem e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me queres; mil annos viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palacio do dragão, sob o azul das aguas...»

Lá seguem os dois pelo mar fóra. Urashima empunha a esparrela da pôpa, maneja-a com denodo, dá-lhe―podera não!―forças herculeas a ancia de chegar; a princeza poisa no outro remo as mãos franzinas, e vae sorrindo ao companheiro. E vão remando, e vão remando, sem que a fadiga os aquebrante, até que finalmente o barco alcança o porto desejado, e já de longe o palacio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes recortados.

Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia ousára imaginar tantos primores!... As paredes do palacio são de renda de coral; as arvores do jardim têem por folhas, esmeraldas, e fructificam em perolas e rubis; as escamas dos peixes são de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos dragões, de oiro lavrado...

Então, toda a bicharia do oceano acode á praia, vestindo

kimonos

de cerimonia, e vem saudar os noivos viajantes. Após os cumprimentos e os discursos laudatorios que prescreve a etiqueta em casos taes, a princeza, seguida do cortejo, entra em palacio; gorazes e toninhas seguram-lhe a cauda do vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma meticulosa limpeza indescriptivel, as plantas alvas dos seus pésinhos deliciosos; descança n'um salão que mais lhe apraz, pela delicia dos adornos e pela paizagem que se avista, e a seu lado offerece um logar ao companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas, os dragões, a turba em fim dos escravos jubilosos, corre a prostrar-se em frente da princeza; e de joelhos, barbatanas erguidas em offertorio, começa servindo em taças preciosas o branco arroz cosido, os licôres, os fructos, os manjares.

Urashima extasia-se diante do que é seu, bem seu, pois que é de sua esposa. Durante tres annos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes, sem enfados, sem nuvens de tristeza no céo dos seus amores; ora na paz da esteira, no enlevo das mãos que se entrelaçam, dos olhos humidos que se fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas que se dão; ora perscrutando os mysterios do oceano, em excursões pachorrentas pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida aquatica, de plantas, de animaes, se multiplica em maravilhas que a ninguem é dado conhecer; ora em longos passeios pelos jardins, onde as arvores não cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando ao pendor das perolas e rubis.

Tres annos decorridos. Um dia porém Urashima acerca-se da esposa e diz-lhe pouco mais ou menos o seguinte:―que a adora e se sente ditoso, mas cresce-lhe o desejo de ir vêr a sua aldeia, o velho pae, a doce mãe, os irmãos, os antigos companheiros de trabalho; e promette voltar após curta visita.―Então, pela primeira vez sem duvida, uma ligeira nuvem de tristeza, um vago presentimento angustioso, turvaram o olhar sereno da princeza.―«Vae, diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora bem me pese, pois imagino que vaes expôr-te a grandes riscos; leva comtigo este pequeno cofre, que alguma coisa contém que te pertence; sirva-te elle de lembrança de quem muito te quer; mas nunca o abrirás, pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta mansão do nosso amor...»

E partiu, e abordou o solo patrio...

O que quer que era de bem estranho se passára

durante

a ausencia de Urashima. Aonde estava a sua aldeia? aonde se erguia a cabana de seus

Illustration from Paisagens da China e do Japão
Illustration from Paisagens da China e do Japão

paes? A mesma praia loira, os mesmos penedos carcomidos, os mesmos cerros sobrepondo-se, alli lhe appareciam, bem taes como os deixára, na fria impassibilidade das coisas immutaveis; mas os povoados offereciam outro aspecto, os campos outro amanho; mas as arvores, que lhe haviam dado abrigo e sombra, e de que tão bem se recordava, erguiam apenas troncos seccos, algumas, porque outras já nem mesmo existiam, e outras arvores medravam n'outros sitios, projectando outras sombras, fructificando em outros fructos. Aonde fôra a sua aldeia, surgia agora um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e ainda agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante, como dantes; mas agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das

musumés

que tinham por costume ir alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans,

kimonos

arregaçados, pernas núas, braços nús, lidando, palestrando e rindo umas com as outras.

Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. Urashima alcança-os e interpella-os:―«Bons dias; fazem favor de me dizer onde é agora a casa da familia de Urashima?»―Pensaram, consultaram-se, coçaram a cabeça, buscando recordar-se.―«Urashima, Urashima... Urashima, o pescador? tem graça tal pergunta: ha já quatrocentos annos pelo menos, como contam, se afogou elle quando pescava no seu barco, pois nunca mais appareceu; o seu pae, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos seus irmãos, dormem todos além no cemiterio, ha muito tempo; a cabana que procura, apodreceu antes de nossos avós serem nascidos, nem o pó d'ella sequer existe por aqui...»

Então, como um relampago que acode subitamente pela noite, a illuminar a estrada, uma idéa acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a allumiar-lhe o espirito. Elle alli estava, volvido á patria, poisando os pés descalços no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da paizagem em que por tantos annos a vista se poisara, e a recordação lhe gravára para sempre na memoria. O palacio do deus do mar, no abysmo das ondas, com as suas paredes de renda de coral, com os seus pomares de folhas de esmeraldas e fructos de perolas e rubis, e os seus peixes de escamas prateadas e olhos de brilhantes, e os seus dragões de caudas de oiro fino, não pertencia á terra, era do mundo dos prodigios, regia-se pelas leis do encantamento; um dia, dos seus dias, valia por muitos annos, dos nossos annos; e assim, sem que Urashima o suppozesse, seculos sobre seculos haviam passado sobre a terra, matando, destruindo, transformando, arrastando as coisas e os individuos á fatalidade dos destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao nada, surgindo das ruinas outros aspectos e outros seres...

O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate anachronico da situação em que se via, incutiu-lhe no animo não sei que horrivel oppressão de angustia e de pavor. Patria? sim, a mesma areia inerte e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos, aspectos familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros aspectos, outra gente, e para esta o nome de Urashima entrava já na lenda. Em nada o captivava aquella terra. O anceio de fugir, de volver ao esplendor do seu palacio, acudiu-lhe então, dominador; e a imagem das mil graças da princeza multiplicava-lhe o desejo de abandonar para sempre o solo onde nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemiterio, esse no mesmo poiso ainda, mas mais vasto e mais povoado de freguezes; e ia partir, deixar em paz a aldeia morta...

Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princeza. Porque? Talvez leviandade, talvez mofino séstro, que tantas vezes guia o homem a seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto, que continha nada menos do que a essencia dos longos annos corridos, e ao mesmo tempo descontados na existencia de Urashima, escapou-se e pairou no espaço uma ligeira nuvem esbranquiçada. Chamado á razão, ao sentimento da desobediencia em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era tarde. De prompto, as proprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe extinguiu; a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo logar nas paginas do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o afastava dos seus contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabellos, a barba, branquejaram como linho, sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pelle do corpo, os ossos romperam para fóra, as costas dobraram-se n'um arco, viu-se como um macrobio não sei quantas vezes secular, como um esqueleto em férias, fugido do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz, morreu, caiu, desfez-se em pó, desfez-se em nada...

1900.

INDICE

Pag.

As Borboletas 1

A Alforreca 9

O Anno novo 20

A Primavera 30

Nilguyo 50

O Cavallo Branco de Nanko 62

A primeira formiga 78

Os Diabos e os velhos 90

Pan-Man-Chen 98

A Caricatura no Japão 107

Dois Cemiterios Japonezes 134

O Espelho de Matsuyama 153

Amôres 164

Um pintor de gatos 171

Impressões rapidas 181

Issumboshi 213

O Pescador Urashima 229

Livraria Editora VIUVA TAVARES CARDOSO 5, Largo de Camões, 6―Lisboa

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Notas:

[1]

Official da marinha morto em 25 de outubro de 1902. Vivia, quando o auctor lhe consagrava este capitulo.

[2]

Os desenhos que illustram este conto são originaes do proprio W. de Moraes.

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