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Os Trabalhadores do Mar

VICTOR HUGO (continued 2)

Machado de Assis translation

A qualidade de proprietario e contribuinte fazia delle o que em Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degráos, dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quasi gentleman, e quem sabe mesmo se não passaria dahi? Quem sabe se algum dia não se havia de ler no almanack de Guernesey, no capitulo Gentry and Nobility esta inscripção inaudita e soberba: Lethierry, esq.

Mess Lethierry, porém, desdenhava ou antes ignorava o que era a vaidade das cousas. Sentia-se util, era a satisfação delle; ser popular commovia-o menos que ser necessario. Já o dissemos, tinha dous amores, e por consequencia, duas ambições: Durande e Deruchette.

Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte grande.

A sorte grande, era Durande navegando.

VII

O MESMO PADRINHO E A MESMA PADROEIRA

Depois de crear o vapor, Lethierry baptisou-o, deu-lhe o nome de Durande. Não lhe daremos daqui em diante se não este nome. Seja-nos licito igualmente, qualquer que seja o uso typographico, escrever Durande sem ser em gripho, conformando-nos nisto ao pensamento de mess Lethierry para quem Durande era quasi uma pessoa.

Durande e Deruchette é o mesmo nome. Deruchette é o diminutivo. É muito usado esse diminutivo no oeste da França.

No campo, os santos têm muitas vezes o seu nome com todos os diminutivos e augmentativos. Parece que ha muitas pessoas e é só uma. Esta identidade de padroeiros e padroeiras com differentes nomes, não é rara, Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto é Elisabeth. É provavel que Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo santo. Mas não fazemos cabedal disso.

Santa Durande é uma santa de Angoumois e da Charente. Será correcta? Isso é lá com os bolandistas. Correcta ou não, esta santa tem muitas igrejas.

Estando em Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquella santa, provavelmente na pessoa de alguma formosa Charenteza, talvez a rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recordação bastante para dar aquelle nome ás duas cousas que elle amava; Durande á Galeota, Deruchette á menina.

Lethierry era pae de uma e tio da outra.

Deruchette era filha de um irmão que elle teve. Morreram-lhe os paes. Lethierry adoptou a criança, e substituio o pae e a mãe.

Deruchette não era sómente sobrinha, era tambem afilhada de Lethierry. Foi elle quem a levou á pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e por nome Deruchette.

Deruchette, já o dissemos, nasceu em Saint-Pierre Port. Estava inscripta no registro da parochia.

Emquanto a sobrinha foi criança e o tio pobre, ninguem se importou com o nome Deruchette; mas quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro a gentleman, Deruchette começou a desagradar a todos. Perguntavam a mess Lethierry:

—Porque lhe dá esse nome?

—É um nome assim, respondia elle. Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry não quiz.

Uma senhora da alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro abastado, e que já não trabalhava, disse um dia a mess Lethierry:

—Daqui em diante chamarei Nancy á sua filha.

—Porque não lhe chamará Lons-le-Saulnier? disse elle.

A bella senhora não desistio, e no dia seguinte disse-lhe:

—Decididamente não queremos que ella se chame Deruchette. Achei um lindo nome: Marianne.

—Lindo nome realmente, disse mess Lethierry, mas composto de dous animaes bem ruins, um mari (marido) e um ane (asno).

Lethierry manteve o nome de Deruchette.

Enganar-se-hia aquelle que concluisse pelas ultimas palavras de Lethierry que elle não queria casar a sobrinha. Queria casa-la, de certo, mas ao seu modo. Queria um marido da sua tempera, muito trabalhador, de maneira que Deruchette não fizesse nada. Gostava das mãos tostadas do homem e das mãos alvas da mulher. Para que Deruchette não estragasse as lindas mãos que tinha, dava-lhe occupações elegantes, mestre de musica, piano, bibliotheca e bem assim alguma linha e agulhas em uma cestinha de costura.

Deruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia. Mess Lethierry queria isso mesmo. Não lhe pedia nada mais que o encanto a fascinação. Educou-a mais para ser flôr do que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros ha de comprehender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse o ideal do tio, era preciso que fosse opulenta. Era isso o que mess Lethierry comprehendia perfeitamente. A machina do mar trabalhava com esse fim. Durande devia dotar Deruchette.

VIII

A MELODIA BONNY DUNDEE

Deruchette occupava o mais lindo quarto da casa, com duas janellas, mobilia de mogno, cama de cortinas riscadas de verde e branco, tendo vista para o jardim e para a coluna onde está o castello do Valle. Do outro lado desta collina é que estava o tutú da rua.

Deruchette tinha no quarto a musica e o piano. Acompanhava-se ao piano cantando a canção da sua preferencia, a melancolica melodia escosseza Bonny Dundee; a noite encerra-se toda naquella aria, a aurora encerrava-se toda naquella voz; isto produzia insolito contraste. Dizia-se: miss Deruchette está ao piano; e os que passavam ao sopé da collina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para ouvir aquelle canto tão fresco e aquella canção tão triste.

Deruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo alli uma eterna primavera. Era formosa, porém, mais linda que formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos pilotos amigos de mess Lethierry aquella princeza de uma canção de soldados e marujos, tão bella—que passava por tal no regimento.

—Deruchette tem um cabo de cabellos, dizia mess Lethierry.

Era lindissima desde a infancia. Receiou-se por muito tempo que o nariz fosse disforme, mas a pequena, provavelmente disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que não adquirio deffeito algum até tornar-se moça; o nariz nem ficou comprido nem curto; e chegando á juventude, Deruchette conservou-se encantadora.

Dava o nome de pai ao tio.

Mess Lethierry concedia-lhe algumas funcções de jardineira e mesmo de dona de casa. A moça regava os canteiros de malvaisco, de verbasco, de phlox e herva benta; cultivava oxalida rosada; utilisava o clima da ilha de Guernesey, tão hospitaleira ás flores. Tinha, como toda a gente, aloes plantado no chão, e, o que é mais difficil, fazia pegar a potentilha de Nepaul. Tinha uma horta habilmente arranjada; plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve flôr da Hollanda e a couve de Bruxellas; transplantava-as em Julho; nabos para Agosto, chicoria para Setembro, pastinaca para o outomno, e rapuncio para o inverno. Mess Lethierry consentia em tudo isso, comtanto que não trabalhasse muito com a pá e o ancinho, e sobretudo que não fosse ella propria quem estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas, uma chamada Graça, e a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Graça e Doce faziam o serviço da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com as mãos vermelhas.

O quarto de mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era contiguo á sala grande do rez do chão, onde havia a porta de entrada e aonde iam ter as diversas escadas da casa. A mobilia do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um chronometro, uma mesa, uma cadeira e um cachimbo. O tecto, construido com vigas, era caiado, bem como as paredes á direita da porta estava pregado o archipelago da Mancha, bella carta maritima onde se lia a seguinte inscripção: W. Faden, 5, Churing Cross. Geographer to His Majesty; e á esquerda estava pendurado um desses grandes lenços de algodão que trazem figurados os signaes de todas as marinhas do globo, tendo nos quatro cantos os estandartes da França, da Russia, de Hespanha e dos Estados-Unidos da America, e no centro a Union-Jack da Inglaterra.

Doce e Graça eram duas creaturas ordinarias, devendo tomar-se esta palavra á boa parte. Doce não era má, e Graça não era feia. Não lhes ficavam mal tão perigosos nomes. Doce, que era solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra como a cousa. As duas criadas faziam o serviço com uma especie de lentidão propria á domesticidade normanda no archipelago. Graça, faceira e bonita, contemplava constantemente o horisonte com uma inquietação de gato. Era porque, tendo tambem o seu amante, tinha de mais a mais, dizia-se, marido marinheiro, cuja volta receiava. Mas nós não temos nada com isto. A differença entre Graça e Doce é que, n'uma casa menos austera e menos innocente, Doce ficaria criada de servir e Graça subiria á posição de criada grave. Os talentos possiveis de Graça eram nullos para uma moça candida como Deruchette. Demais, os amores de Doce e Graça eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de mess Lethierry, nada salpicava sobre Deruchette.

A sala baixa do rez do chão, com chaminé é rodeada de bancos e mesas, servira no seculo passado para as reuniões de um conventiculo de refugiados francezes protestantes. A parede de pedra núa não tinha ornamento algum a não ser um quadro de madeira preta com um cartaz de pergaminho ornado das proesas de Benigno Bossuet, bispo de Meaux. Alguns pobres diocesanos daquelle genio, perseguidos por elle na occasião da revocação do edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, penduraram aquelle quadro na parede como um testemunho.

Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarellada, lia naquelle cartaz os seguintes factos pouco conhecidos;—«A 29 de Outubro de 1685, demolição dos templos de Morcef e de Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. bispo de Meaux.»—«A 2 de Abril de 1686, prisão de Cochard pai e filho por motivo de religião, a requerimento do Sr. bispo de Meaux. Foram soltos por terem abjurado.»—«A 28 de Outubro de 1699 o Sr. bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memoria expondo a necessidade de transportar as Sras. de Chalandes e de Neuville, donzellas da religião reformada, para a casa das Novas-Catholicas de Paris.»—«A 7 de Julho de 1703 executou-se a ordem pedida ao rei pelo Sr. bispo de Meaux de encerrar no hospital um tal Beaudoin e sua mulher, mãos catholicos, de Fublaines.»

No fundo da sala, ao pé da porta do quarto de mess Lethierry, havia uma pequena divisão de taboas, que tinha sido tribuna huguenote, e era então graças a uma grade arranjada, o office do vapor, isto é, o escriptorio da Durande occupado por mess Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro com as paginas cotadas, Deve e Hade Haver—substituia a Biblia.

IX

O HOMEM QUE ADVINHOU QUEM ERA RANTAINE

Mess Lethierry governou a Durande emquanto pode navegar, e nunca teve outro piloto nem outro capitão; mas lá chegou um dia em que elle foi obrigado a deixar o mar. Escolheu para substitui-lo o Sr. Clubin, de Torteval, homem silencioso. O Sr. Clubin tinha em toda a costa fama de severa probidade. Era o alter ego e o vigario de mess Lethierry.

O Sr. Clubin, embora desse mais ares de tabelião que de marinheiro, era um maritimo capaz e raro. Tinha todos os talentos que exige o perigo perpetuamente transformado. Era arrumador habil, gageiro meticuloso, contramestre desvelado e perito, timoneiro robusto, piloto instruido, e atrevido capitão. Era prudente e algumas vezes levava a prudencia ao ponto de ouzar, o que é uma grande qualidade na vida maritima. Tinha o receio do provavel temperado pelo instincto do possivel. Era um desses marinheiros que affrontam o perigo em uma proporção conhecida delles, sabendo triumphar em todas as aventuras. Toda a certeza que o mar póde deixar a um homem, elle a tinha. Era além disso nadador de fama; pertencia a essa raça de homens exercitados na gymnastica da vaga, que se conservam n'agua o tempo que se quer, e que partindo do Havre-des-Pas, dobram a Collete, fazem a volta da Ermitage e a do castello Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto de partida. Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes a nado, o temivel trajecto desde Manois até á ponta de Plaintmont.

Uma das cousas, que mais recommendaram o Sr. Clubin a mess Lethierry, foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine, assignalou a mess Lethierry a improbidade daquelle homem, e disse-lhe:—Rantaine ha de roubal-o. Verificou-se a profecia. Mais de uma vez, em negocios pouco importantes, é verdade, mess Lethierry experimentou a escrupulosa honestidade do Sr. Clubin e descançava nelle. Mess Lethierry dizia: Consciencia quer confiança.

X

NARRATIVAS DE VIAGENS DE LONGO CURSO

Mess Lethierry, que se não accomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de marinheiro, á japona de piloto. Deruchette torcia o nariz por isso. Nada é tão bello como uma caretazinha da formosura em colera. Deruchette ralhava e ria—Bom paisinho, dizia ella, está cheirando a alcatrão. E dava uma palmadinha na larga espadua do marinheiro.

Aquelle velho heróe do mar trouxe das suas viagens, narrativas maravilhosas. Vio em Madagascar plumas de passaro das quaes bastavam tres para cobrir uma asa. Vio na India hastes de azedinhas, de nove pés de altura. Vio na Nova Hollanda bandos de perús e de patos dirigidos e guardados por um cão de pastor, que naquella terra é um passaro, e chama-se galinha silvestre. Vio cemiterios de elephantes. Vio em Africa uma especie de homens-tigres de sete pés de altura. Conhecia os costumes de todos os macacos, desde o macaco bravo até o macaco barbado. No Chile vio uma bugia commover os caçadores apresentando-lhes o filho.

Vio na California um tronco de arvore ouco, no interior do qual um homem a cavallo podia andar cento e cincoenta passos. Vio em Marrocos os mozabitas e os biskris baterem-se com matraks e barras de ferro, os biskris por terem sido tratados de kelb, que quer dizer cães, e os mozabitas por terem sido tratados de khamsi, que quer dizer gente da quinta seita. Vio na China cortar em pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harh-Quoi, por ter assassinado o Ap de uma aldêa. Ern Thudanmot, vio um leão arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da cidade. Assistio á chegada da grande cobra mandada de Cantão a Saigon, para celebrar na pagode de Cho-len, a festa de Quan-nam, deosa dos navegantes. Contemplou na terra dos Moi, o grande Quan-Su.

No Rio de Janeiro, vio as senhoras brasileiras collocarem nos cabellos pequenas bollas de gaze contendo cada uma dellas um vagalume, o que lhes fazia uma coifa de estrellas. Destruio no Uruguay os formigueiros, e no Paraguay um certo bichinho, que occupa com as patas um diametro de um terço de vara, e ataca o homem, por meio dos proprios pellos, que lhe atira em cima, e que se cravam na carne produzindo pustulas. No rio Arinos, affluente do Tocantins, nas mattas virgens do norte da Diamantina, verificou a existencia do terrivel povo-morcego, os morcilagos, homens que nascem com os cabellos brancos e os olhos vermelhos, habitam os bosques sombrios, dormem de dia, accordam de noite, e pescam e caçam nas trevas, vendo melhor de que quando ha lua.

Perto de Beirouth, no acampamento de uma expedição de que fazia parte, foi roubado de uma tenda um pluviometro; então um feiticeiro vestido de duas ou tres fachas de couro, assemelhando-se a um homem vestido com os proprios suspensorios, agitou tão furiosamente uma campainha na ponta de um chifre que appareceu logo uma hyena trazendo o pluviometro. A hyena é que o tinha roubado.

Estas historias verdadeiras, assemelhavam-se tanto a historias da carochinha que divertiam Deruchette.

A boneca de Durande era o élo entre o vapor e a moça. Chama-se boneca nas ilhas normandas a figura talhada na prôa, estatua de madeira mais ou menos esculpida. Dahi vem que para dizer navegar, a gente das ilhas usa desta locução; estar entre popa e boneca (poupe et poupée.)

A boneca de Durande tinha as predilecções de mess Lethierry. Elle encommendára ao carpinteiro que a fizesse parecida com Deruchette. Parecia-se como obra feita a machado. Era uma acha de lenha esforçando-se por ser moça bonita.

Mas a cousa, embora disforme, illudia mess Lethierry. Contemplava-a como um crente. Estava de boa fé diante daquella figura. Reconhecia nella a imagem de Deruchette. É mais ou menos assim que o dogma se parece com a verdade, e o idolo com Deos.

Mess Lethierry tinha duas grandes alegrias por semana; uma na terça-feira e outra na sexta. Primeira alegria, ver partir Durande; segunda alegria, vê-la chegar. Encostava-se á janella, contemplava a sua obra, era feliz. Ha alguma cousa assim no Genesis. Et vidit quod esset tonum.

Na sexta-feira, a presença de mess Lethierry na janella era um signal. Quem o via chegar á janella da casa de Bravées, acender o cachimbo, dizia logo: Ah! o vapor está a chegar.

Uma fumaça annunciava a outra.

A Durande, entrando no porto, atava a amarra debaixo das janellas de mess Lethierry, n'uma grande argola de ferro. Nessas noites Lethierry, gozava um admiravel somno na sua maca, sentindo de um lado Deruchette adormecida, do outro Durande amarrada.

O ancoradouro de Durande era perto do porto. Diante da casa de Lethierry havia um pequeno cáes.

O cáes, a casa, o jardim, as marinhas orladas de sebes, a maior parte das casas vizinhas, nada existe hoje. A exploração do granito de Guernesey fez vender os terrenos todos. Aquelle lugar está hoje occupado por estancias de quebradores de pedra.

XI

LANCE DE OLHOS AOS MARIDOS EVENTUAES

Deruchette ia crescendo e não se casava.

Mess Lethierry fel-a uma moça de mãosinhas alvas, mas tornou-a exigente. Educações daquellas voltam-se sempre contra os pais.

Elle proprio era mais exigente ainda que a filha. Imaginava um marido para Deruchette que fosse tambem marido de Durande. Queria de um lance prover as duas filhas. Queria que o companheiro de uma fosse piloto da outra. Que é um marido? É o capitão de uma viagem. Porque motivo não dar um só capitão ao navio e á filha? O casal obedece ás marés. Quem sabe guiar uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas são sujeitas á lua e ao vento. O Sr. Clubin, tendo apenas quinze annos menos que mess Lethierry, não podia ser para Durande senão um capitão provisorio; era preciso um piloto moço, um capitão definitivo, um verdadeiro successor do inventor, do creador. O piloto de Durande seria o genro de mess Lethierry. Porque motivo não fundir os dous genros em um só?

Lethierry affagava esta idéa. Via apparecer-lhe em sonhos um noivo. Um gageiro possante e tostado, athleta do mar, eis o seu ideal. Não era esse o ideal de Deruchette, o sonho da moça era mais côr de rosa.

Fôsse como fôsse, o tio e a sobrinha pareciam estar de accordo em não terem pressa. Qnando viram Deruchette tornar-se herdeira provavel, apresentaram-se pedidos aos centos. Estas sollicitudes nem sempre são de boas qualidade. Mess Lethierry sentia isso, e dizia entre dentes: moça de ouro, noivo de cobre. E despedia os pretendentes. Esperava. Ella tambem.

Cousa singular, Lethierry não fazia cabedal da aristocracia. Por esse lado era um inglez inverosimil. Difficilmente se acreditará que elle chegou a recusar um Ganduel, de Jersey, e um Bugnet-Necolin, de Serk. Houve mesmo quem ousasse affirmar, mas nós não acreditamos, que elle recusou uma proposta da aristocracia de Aurigny, indeferindo o pedido de um membro da familia Edou, que evidentemente descende de Edou-ard o Confessor.

XII

EXCEPÇÃO NO CARACTER DE LETHIERRY

Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, não uma pessoa, mas uma cousa, o padre. Lendo um lia, em Voltaire,—costumava ler e lia Voltaire,—estas palavras «os padres são gatos,» mess Lethierry poz o livro de parte, e ouviram-n'o murmurar baixinho: sinto-me cão.

Cumpre não esquecer que os padres lutheranos, calvinistas, e catholicos, atacaram-n'o vivamente, e pereguiram-n'o docemente, por causa da construcção do Devil-Boat local. Ser revolucionario em navegação, tentar introduzir um progresso no archipelago normando, impor à pobre ilha de Guernesey os esboços e uma invenção nova, era, conforme dissemos, uma temeridade condemnavel. Lethierry não escapou a uma certa condemnação. Não se esqueçam que fallamos do clero antigo differente do clero actual, que, em quasi todas as igrejas locaes, tem uma tendencia liberal para o progresso. Pearam-n'o de todos os modos; oppuzeram-lhe toda a somma de obstaculos que póde haver nas predicas e nos sermões. Odiado pelos homens da igreja, Lethierry aborrecia-os tambem. O odio dos outros era a circumstancia attenuante do odio delle.

Mas a sua aversão pelos padres era idiosyncratica. Para odial-os não precisava de ser odiado. Como elle proprio dizia, era o cão daquelles gatos. Era contra elles pela idéa, e, o que é mais irreductivel, pelo instincto. Sentia as garras latentes dos padres, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, confessemol-o, o nem sempre a proposito. É erro não distinguir. Não são bons os odios absolutos. Nem mesmo o vigario saboyano mereceria as sympathias de Lethierry. Não é certo que para elle houvesse um bom padre. Á força de philosophar ia perdendo a circumspecção. Existe a intolerancia dos tolerantes, como existe o furor dos moderados. Mas Lethierry era tão boa alma que não podia ser odiento. Antes repellia que atacava. Fugia dos homens da igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a não querer-lhes bem. A differença entre o odio dos outros e o delle, é que o dos outros era animosidade, e o delle antipathia.

Guernesey, apezar de ilha pequena, tem lugar para duas religiões. Existem nella a religião catholica e a religião protestante. Devemos accrescentar que ahi não entram as duas religiões na mesma igreja. Cada culto tem a sua capella ou o seu templo. Na Allemanha, em Heidelberg, por exemplo, a cousa arranja-se menos escrupulosamente; divide-se uma igreja; metade para S. Pedro, metade para Calvino; entre as duas ha um tabique para prevenir os murros e pescoções; partes iguaes; os catholicos têm tres altares; os huguenotes tem tres altares; como as horas do officio são sempre as mesmas, o sino commum chama na mesma occasião para os dous serviços. Convoca a um tempo os fieis para Deos e para o diabo. Simplificação.

O fleugma allemão accommoda-se com estas propinquidades. Mas em Guernesey, cada religião tem casa propria. Ha parochia orthodoxa e parochia heretica. Póde-se escolher. Nem uma nem outra, foi a escolha de mess Lethierry.

Aquelle marinheiro, aquelle operario, aquelle philosopho, aquelle parvenu do trabalho, simples na apparencia, não n'o era em substancia. Tinha lá as suas contradições e pertinacias. Era inabalavel a respeito do padre. Daria quináos a Montlosier.

Costumava a dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões proprias delle, extravagantes, mas sem eixar de ter um sentido. Ir a confessar-se era para elle: pentear a consciencia. Os poucos estudos que tinha, pouquissimos, feitos aqui e alli, entre duas borrascas, complicavam-se com erros de orthographia. Tinha tambem erros de pronuncia, nem sempre ingenuos. Quando se fez a paz entre a França de Luiz XVIII e a Inglaterra de Wellington, mess Lethierry disse: Bourmont foi o traitre d'union (traidor por traço) entre os dous campos. Lethierry escreveu uma vez a palavra papado (papauté) do seguinte modo: pape ôté (papa arrancado). Não acreditamos que elle fizesse isto de proposito.

Este antipapismo não o conciliava com os anglicanos. Os presbyteros protestantes não o estimavam mais que os curas catholicos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quasi sem reserva a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um sermão acerca do inferno pregado pelo reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnifico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os supplicios, os tormentos, as condemnações, os castigos inexoraveis, os fogaréos sem fim, as maldições inextinguiveis, as coleras do Omnipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, cousas incontestaveis. Lethierry ouvio o sermão e ao sahir com um dos fieis, disse-lhe baixinho: Ora, quer ver? eu cá tenho uma idéa ratona. Supponho que Deos é bom.

Adquirio este germen de atheismo quando residio em França.

Posto que fosse guernesiano, e de raça pura, chamavam-n'o na ilha—o francez, por causa do seu espirito improper. Nem elle o occultava; estava impregnado de ideas subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil-Boat, provava bem isto.

Lethierry costumava dizer: eu mamei o leite 89. Máo leite.

E que despropositos fazia! É difficil viver intacto nos lugares pequenos. Em França, guardar as apparencias, na Inglaterra, ser respeitavel, é quanto basta para passar a vida tranquilla. Ser respeitavel, é cousa que implica uma immensidade de observancias, desde o domingo bem santificado até á gravata bem atada. «Não te faças apontar com o dedo» eis uma lei terrivel. Ser apontado é o diminutivo do anathema. As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, são eximias nesta malignidade isoladora, que é a maldição vista ao invez do oculo. Os mais intrepidos arreceiam-se disto. Affronta-se a metralha, affronta-se o furacão, recua-se diante da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que logico. Mas debaixo dessa pressão dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava agua no vinho, locução prenhe de concessões latentes e ás vezes inconfessaveis. Affastava-se dos homens do clero, mas não lhes fechava resolutamente a porta. Nas occasiões officiaes e nas épocas das visitas pastoraes, recebia attenciosamente tanto o presbytero lutherano como o capellão papista. Acontecia-lhe, de quando em quando acompanhar á parochia, anglicana a menina Deruchette, que aliás, só ia lá nas quatro grandes festas do anno.

Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-n'o, e longe de inclinal-o para os homens da igreja, augmentavam o seu pendor interno. Aquella creatura sem azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. Não havia meio de emendal-a.

De facto, e sem remissão, era esse o temperamento de Lethierry.

Aborrecia todos os cleros. Tinha a irreverencia revolucionaria. Distinguia pouco entre duas fórmas de culto. Nem mesmo fazia justiça a este grande progresso: Não acreditar na presença real. A sua myopia nestas cousas chegava ao ponto de não ver a differença entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre. Wesley não vale mais que Loyola, dizia elle. Quando via passar uni pastor protestante de braço com a mulher, desviava os olhos. Padre casado! dizia elle, com o accento absurdo que essas duas palavras tinham em França naquella época. Contava que na sua viagem á Inglaterra tinha visto a bispa de Londres. A sua revolta contra essas uniões, iam até á colera.—Vestido não casa com vestido! exclamava elle. O sacerdote fazia-lhe effeito de um sexo. Não teria duvida em dizer: «Nem homem nem mulher; padre.» Applicava com máo gosto, tanto ao clero anglicano como ao papista os mesmos epithetos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na mesma phraseologia; e não se dava ao trabalho de variar, a proposito de padres, quaesquer que fossem, catholicos ou lutheranos, as methonymias soldadescas usadas naquelle tempo.

—Casa-te com quem quizeres, dizia elle a Deruchette comtanto que não seja com algum padreco.

XIII

O DELEIXO FAZ PARTE DA GRAÇA

Dita uma cousa, mess Lethierry não a esquecia mais; dita uma cousa, miss Deruchette esquecia-a logo. Esta era a differença entre o tio e a sobrinha.

Deruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. Ha mais de um perigo latente n'uma educação tomada muito ao sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, talvez uma imprudencia.

Deruchette acreditava, que, estando ella contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ella estava alegre. As suas idéas eram pouco mais ou menos as mesmas de mess Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo á parochia quatro vezes por anno. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia cousa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Emquanto não chegava esse dia era menina folgazã.

Deruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdadade ingleza. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescencia vai á redéa solta. Taes são os costumes. Mas tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem a boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.

Deruchette acordava todos os dias com a inconsciencia das suas acções da vespera. Bem embaraçado ficaria que lhe perguntasse o que ella havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ella tivesse em certas horas turvas, uma indisposição mysteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade. Ha nuvens dessas nos céos como aquelle. Mas passavam depressa. Deruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem porque estivera triste, nem porque estava serena. Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava. Caçoava com os rapazes. Não escaparia o proprio diabo se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão innocente que abusava de si propria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto peior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de hontem não existia para ella; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquella moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.

LIVRO QUARTO

O bug-pipe.

I

PRIMEIROS RUBORES DE AURORA OU DE INCENDIO

Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Deruchette. Conheci-a por te-la visto de longe, como se conhece a estrella da manhã.

Na época em que Deruchette encontrou Gilliatt, no caminho de Saint-Pierre Port au Valle e fez-lhe a sorpreza de traçar na neve o nome delle, tinha 16 annos. Exactamente na vespera mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:

—Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.

O nome Gilliatt, escripto por aquella menina, cahio em uma profundidade desconhecida.

Que eram as mulheres para Gilliatt? nem mesmo elle poderia dize-lo. Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. Só na ultima extremidade fallava ás mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponeza. Quando se achava só em um caminho e ansiava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou mettia-se em uma mouta e ia-se embora. Até das velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de arribação, estranho acontecimento em Guernesey naquelles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infortunios: «Estou muito massada, cahiram-me uns choviscos no chapéo, esta côr é muito sujeita a ficar manchada.»

Tendo encontrado tempos depois entre as folhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada de Antin em grande toilette, pregou-a na parede como lembrança desta apparição. Nas noites de estio escondia-se atraz das rochas de Houmet-Paradis para ver as camponezas banharem-se no mar. Um dia, atravez de uma cerca, vio a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha cabido. Provavelmente, Gilliatt era virgem.

Naquella manhã de Natal em que Deruchette escrevera rindo o nome delle, Gilliatt voltou para casa não sabendo já porque motivo tinha sabido. Não dormio de noite. Pensou em mil cousas;—que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim;—que não tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma cousa;—que tinha visto erva pinheiro em flôr, cousa rara naquella estação.

Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre elle e a velha que morrera em casa; disse comsigo que devia ser sua mãe e pensou nella com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Rev. Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre Port, e que a parochia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria vigesimo setimo dia da lua, e que por consequencia a maré enchente seria ás 3 horas e 21 minutos, a média ás 7 horas e 15 minutos, a vasante ás 9 horas e 36 minutos. Recordou, até nas menores particularidades, o vestuario de highlander que lhe vendera o bug-pipe (especie de sanfona), bonet enfeitado com um cardo a claymore, a casaca de ábas curtas e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escosseza, os dous cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dous cairgorums, e os joelhos nús do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquillo tornou-se espectro, perseguio-o, deu-lhe febre até que elle adormeceu.

Gilliatt acordou quando o sol já ia alto, e o seu primeiro pensamento foi Deruchette.

Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escossez. Sonhou tambem com o velho cura Jaquemin Herodes. Quando acordou pensou outra vez em Deruchette e teve contra ella uma violenta colera; lamentou não ser criança para ir atirar pedras nas vidraças da moça.

Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua mãe e entrou a chorar.

Projectou ir passar uns tres mezes em Chausey ou em Minquirs, mas não partio.

Não tornou a pôr os pés na estrada de Saint-Pierre Port au Valle.

Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra, e que todos os viandantes deviam olhar para elle.

II

GILLIATT VAI ENTRANDO PASSO A PASSO NO DESCONHECIDO

Gilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. Não o fazia de proposito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia então passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim de Deruchette.

Estando um dia naquetle caminho, ouvio a uma nulher do mercado, que fallava a outra, e vinha da casa de Lethierry: Miss Lethierry gosta muito de sea kales.

Gilliatt fez no jardim da casa mal assombrada uma fossa de sea kales. O Sea kale é uma couve que tem o sabor do espargo.

O muro do jardim da casa de Deruchette era baixinho; podia-se pular facilmente. Esta idéa pareceu terrivel a Gilliatt. Mas quem passava não podia deixar de ouvir as vozes das pessoas que fallavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt não escutava, mas ouvia. De uma vez ouvio disputar as duas criadas, Graça e Doce. Como o rumor vinha daquella casa, soou-lhe como se fosse musica.

De outra vez, distinguiu uma voz que não era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de Deruchette. Deitou a correr.

As palavras que ouvio á moça ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras eram: Faz favor de me dar a vassoura?

Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. Já se atrevia a ficar parado. Aconteceu uma vez que Deruchette, que não podia ser vista de fora, embora estivesse a janella aberta, estava ao piano e cantava. Cantava a canção Bonny Dundee. Gilliattt empallideceu, mas levou a firmeza até ouvir a canção toda.

Chegou a primavera. Gilliatt teve uma visão: abrio-se o céo. Gilliatt vio Deruchette regando uns pés de alface.

Dahi a pouco já elle fazia mais do que parar. Observava os habitos da moça, notava as horas em que ella aparecia, e esperava.

Tinha cuidado de não ser visto por ella.

A pouco e pouco, ao tempo em que as moutas se enchem de borboletas e de rosas, immovel e mudo horas inteiras, sem ser visto por ninguem, retendo a respiração, Gilliatt acostumou-se a ver Deruchette andar pelo jardim. É facil acostumar-se ao veneno.

Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia Deruchette conversar com mess Lethierry, debaixo de um espesso caramanchão feito de caniço, dentro do qual havia um banco. As palavras chegavam-lhe distinctamente aos ouvidos.

Quanto já não tinha andado! Chegou até a espiar e prestar ouvido. Ah! o coração humano é um velho espião!

Havia outro banco visivel e proximo, no fim de uma alameda. Deruchette assentava-se alli algumas vezes.

Pelas flôres que elle via Deruchette colher e cheirar, adivinhou as preferencias da moça a respeito de perfumes.

A moça preferia antes de tudo a campanula, depois o cravo, depois a madresilva, depois o jasmim. A rosa estava em quarto lugar. Quanto aos lyrios, olhava para elles, mas não os cheirava.

Á vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento. Cada cheiro significava para elle uma perfeição.

Só a idéa de fallar a Deruchette fazia-lhe arripiar os cabellos.

Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia algumas vezes á rua que costeava o muro do jardim de Deruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquelle muro e a sua devoção por aquelle lugar deserto. Ligaria ella a presença daquelle homem á possibilidade de uma mulher que estivesse atraz do muro? Descobriria esse vago fio invisivel? Restava-lhe acaso na sua decrepitude mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma cousa dos bellos tempos, e saberia ella já no inverno e na noite, que cousa é o alvor da madrugada? Ignoramol-o, mas parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinella, dirigio para o lado delle toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz, e murmurou entre as gengivas: aquece, aquece!

Gilliatt ouvio a palavra que lhe fez impressão, e murmurou com um ponto de interrogação interior; Aquece? Que quer dizer a velha?

Repetio machinalmente a palavra durante todo o dia, mas não chegou a comprehendel-a.

Estando um dia á janella da casa mal assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram banhar-se, por pagode na angra de Houmet Paradis. Brincavam ingenuamente na agua, a cem passos delle. Gilliatt fechou violentamente a janella. Reparou então que uma mulher núa causava-lhe horror.

III

A CANÇÃO BONNY DUNDEE ACHA UM ECHO NA COLLINA

Atraz do muro do jardim, em um angulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de ortigas, com um pé de malva sylvestre arborescente e um grande verbasco do mato que brotava do granito, passou Gilliatt quasi todo o verão. Ficava alli inexprimivelmente pensativo. As lagartixas que se iam acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O verão foi luminoso e suave. Gilliatt tinha sobre a cabeça as nuvens que perpassavam no céo. Assentava-se na relva. Tudo estava cheio de um rumurejar de passaros. Punha a cabeça nas mãos e perguntava a si próprio: «Mas porque escreveu ella o meu nome na neve?

O vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras longinquas de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia rebentar uma mina. Não se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a ponta dos mastros por cima das arvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua mãe que as mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo; «É isso. Comprehendo. Deruchette ama-me.» Sentia-se profundamente triste. Dizia elle: «Mas tambem ella pensa em mim; faz bem.» Pensava em que Deruchette era rica, e elle pobre. Pensava que o vapor era uma invenção execravel. Não podia lembrar nunca em que dia do mez estava. Contemplava vagamente os grandes zangãos negros, de lombo amarello e azas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das paredes.

Deruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Approximou-se da janella para fechal-a. A noite estava escura. De repente, Deruchette applicou o ouvido. Havia uma musica no meio daquella noite profundo. Alguem que provavelmente estava na vertente da collina, ou ao pé das torres do castello do Valle, ou talvez mais longe, executava uma canção n'um instrumento. Deruchette raconheceu a sua melodia favorita Bonny Dundee tocada em bug-pipe. Não comprehendeu nada.

Desde então, ouvio ella muitas vezes a mesma cousa, á mesma hora, especialmente nas noites escuras.

Deruchette não gostava muito daquillo.

IV

Pour l'oncle et le tuteur, bons hommes taciturnes, Les sérénades sont des tapages nocturnes. (Verso de uma comedia inedita.)

Passaram quatro annos.

Deruchette approximava-se dos vinte e um annos e conservava-se solteira.

Já alguem escreveu algures:—Uma idéa fixa é uma veruma. Vai-se enterrando de anno para anno. Para extirpal-a no primeiro anno é preciso arrancar os cabellos; no segundo rasga-se a pelle; no terceiro anno quebra o osso; no quarto sahem os miolos.

Gilliatt estava no quatro anno.

Não tinha trocado uma só palavra com Deruchette. Pensava nella; era tudo.

Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver Deruchette conversando com mess Lethierry diante da porta da casa que dava para a calçada do porto. Gilliatt arriscou-se a approximar-se della. Cuidava estar certo de que sorrira quando elle passou. Não era cousa impossivel.

Deruchette continuava a ouvir de tempos em tempos o bug-pipe.

Tambem mess Lethierry ouvia o bug-pipe, e notou a persistencia desta musica perto da janella de Deruchette. Musica terna, circumstancia aggravante. Não lhe agradavam namorados nocturnos. Queria casar Deruchette com dia claro, quando ella e elle quizessem, e simplesmente, sem romance e sem musica. Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Metteu as unhas na barba em signal de colera, e disse: por que motivo vem aquelle animal samphonear-me á porta? Ama Deruchette, é claro. Perdes o tempo. Quem quizer Deruchette deve vir fallar-me, e sem musica.

Previsto desde muito, veio a realisar-se um acontecimento importante. Annunciou-se que o reverendo Jacquemin Herodes fôra nomeado delegado do bispo de Winchester, décano da ilha e cura de Saint-Pierre Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois de installar o seu successor.

Estava a chegar o novo cura. Era elle gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.

A respeito delle havia circumstancias que a benevolencia e a malevolencia commentavam em sentido inverso. Diziam qua era moço e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina, e a pobreza por muita esperança. Na lingua especial creada para a herança e a riqueza, a morte chama-se esperança. Era sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto este, ficava o outro rico. O Sr. Ebenezer de Caudray era bem aparentado; tinha quasi direito á qualidade de honorable. Quanto á sua doutrina, era julgada diversamente. Era anglicano, mas, segundo a expressão do bispo Tilleston, era muito libertino, isto é, muito severo. Repudiava o pharisaismo; ligava-se antes ao presbyterio que ao episcopado. Sonhava com a igreja primitiva, onde Adão tinha o direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hieropolis, raptava uma moça para ser mulher delle, dizendo aos paes: Ella quer e eu quero, já não sois nem pae nem mãe, eu sou o anjo de Hieropolis, e esta é minha esposa. O pae é Deos. A dar credito aos boatos, o Sr. Ebenezer Caudray subordinava o texto: Honrai pae e mãe, ao texto, segundo elle superior: A mulher é a carne do homem. A mulher deixará pae e mãe para acompanhar o marido. Mas a final de contas, esta tendencia para circumscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente todos os modos de formar o vinculo conjugal, é propria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra, e singularmente na America.

V

JUSTA VICTORIA É SEMPRE MALQUISTA

Eis o balanço de mess Lethierry no tempo em que occorria isto. Durande comprio o que promettera. Mess Lethierry pagou as dividas, reparou os prejuizos, satisfez as letras de Bremen, fez face aos vencimentos de Saint-Malo. Exonerou a casa em que morava das hypothecas, comprou todas as rendas locaes inscriptas sobre a casa. Era possuidor de um grande capital productivo, a Durande. O rendimento liquido do navio era então de mil libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era toda a fortuna delle. Era tambem a fortuna da terra. O transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arrumação a bordo, e facilitar a entrada e sahida do gado, supprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez imprudencia. A Durande veio a ter apenas a chalupa. É verdade que a chalupa era excellente.

—Já havia dez annos que Rantaine tinha roubado mess Lethierry.

A prosperidade da Durande tinha um lado fraco, é que não inspirava confiança; acreditava-se que era puro acaso. A situação de mess Lethierry era aceita como excepção. Dizia-se que elle fizera uma loucura feliz. Quiz alguem fazer o mesmo em Cowes, na ilha de Wight, e teve máo exito na tentativa. A tentativa arruinou os accionistas. Dizia Lethierry: É que a machina foi mal construida. Mas os outros abanavam a testa. As novidades tem contra si o odio de todos; o menor erro compromette-as.

Consultado ácerca de um negocio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos oraculos commerciaes do archipelago normando: É uma conversão o que me propondes. Conversão de dinheiro em fumo. Entretanto os navios de vela achavam sempre quantas commanditas fossem precisas. Os capitães teimavam em estar do lado da lona contra a caldeira. Em Guernesey a Durande era um facto, mas o vapor não era um principio. Tal era a pertinacia da negação diante do progresso. Dizia-se de Lethierry: Fez cousa boa, mas não ha de metter-se em outra. Longe de animar, o exemplo delle causava medo. Ninguem ousaria arriscar segunda Durande.

VI

FORTUNA DOS NAUFRAGOS ENCONTRANDO A CHALUPA

Cedo annuncia-se o equinoxio na Mancha. É um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde Fevereiro começam ali os ventos do Oeste saccudindo as aguas em todos os sentidos. A navegação torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de signal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar apparece como uma emboscada; invisivel clarim trôa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas abalam o horizonte; é terrivel o vento. A sombra silva e sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade entumece as bochechas.

O vento é um perigo; o nevoeiro outro.

Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. Ha nevoeiros que trazem suspensos prismas microscopicos de gelo, aos quaes Mariotti attribue as auréolas, os parhelios e os paraselenes. Os nevoeiros tempestuosos são compositos; vapores diversos de peso especifico desigual combinam-se com o vapor da agua e superpõem-se em uma ordem que devide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira formação.

Em baixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o phosphoro.

Isto, em certa proporção, deduzindo a tensão electrica e magnetica, explica muitos phenomenos, o santelmo de Colombo e de Magalhães, as estrellas volantes de que falla Seneca, as duas chammas, Castor e Pollux, de que falla Plutarcho, a legião romana que a Cesar pareceu ver arderem os dardos, a lança do castello do Duino no Frioul, que a sentinella acendia tocando com o ferro da sua lança, e talvez mesmo as fulgurações que os antigos chamavam relampagos terrestres de Saturno.

No equador, immensa bruma permanente parece cingir o globo, é o Cloud-ring, annel de nuvens.

O Cloud-ring resfria o tropico, do mesmo modo que o Gulf-Stream aquece o polo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro é fatal. São essas as latitudes dos cavallos, Horse latitude; os navegadores dos ultimos seculos quando passavam ali atiravam os cavallos ao mar, em occasião de temporal para alijar o navio, em tempo de calma para economisar a agua.

Dizia Colombo: Nube abaxo es muerte. «Nuvem baixa, morte certa.» Os Etruscos, que são para a metereologia o que os Chaldeos são para a astronomia, tinham dous pontificados—o pontificado do trovão e o pontificado da nuvem: uns observavam o relampago, outros o nevoeiro. O collegio dos augures de Tarquinas era consultado pelos Tyrios, Phenicios e Pelasgios, e de todos os navegadores primitivos da antiga Marinterne. O modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e a bem dizer, é o mesmo phenomeno. Existem no mesmo oceano tres regiões de brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe um só nome—le pot au noir.

Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equinoxio são mui perigosos. Fazem anoitecer de subito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é impedir que se reconheça a mudança de fundo pela mudança da côr da agua resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parceis. O navegador approxima-se de um escolho sem ser advertido.

Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso que não seja pôr-se á capa ou ancorar. Ha tantos naufragios causados pelo nevoeiro como pelo vento.

Entretanto após uma violentissima borrasca que succedeu a um dia de nevoeiro, a chalupa Cashmere chegou perfeitamente da Inglaterra. Entrou em Saint-Pierre Port aos primeiros raios dos dia no momento em que o castello Cornet salvava o sol com um tiro. Illuminava-se o horisonte. A chalupa Cashmere era esperada como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa espalhou-se o boato de que encontrara á noite no mar outra chalupa com uma equipagem naufragada.

VII

BOA FORTUNA DE APPARECER A TEMPO

Naquella noite Gilliatt, quando o vento amainou, sahio a pescar, sem affastar-se muito da costa.

Na volta, estando a maré a encher, pelas duas horas da tarde, e fazendo um sol esplendido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de la Bette para entrar na angra, em que ficava a pança, pareceu-lhe ver na projecção da cadeira Gild-Holm'Ur uma sombra que não era a do rochedo. Deixou a pança chegar até alli, e reconheceu que um homem estava assentado na cadeira Gild-Holm'Ur. O mar já estava alto, a rocha estava cercada pela agua, não era possivel ao homem voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou immovel. Gilliatt approximou-se. O homem estava adormecido.

Tinha elle vestuario preto. Parece padre, pensou Gilliatt. Approximou-se ainda mais e vio um rosto de adolescente.

Não conheceu quem era.

A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt costeou a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava para que Gilliatt pondo-se de pé, sobre a pança, pudesse tocar os pés do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os braços. Se cahisse naquelle momento, é duvidoso que tornasse a apparecer. A vaga batia entre a pança e o rochedo era inevitavel ser esmagado.

Gilliatt puchou o pé do homem adormecido.

—Olá! que faz ahi?

O homem acordou.

—Estou olhando, disse elle.

Depois acordando de todo, continuou:

—Cheguei ha pouco á terra, vim passeiar aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita, estava cançado, adormeci.

—Dez minutos mais, afogar-se-hia, disse Gilliatt.

—Ah!

—Salte para a barca.

Gilliatt susteve a barca com o pé, pôz uma das mãos no rochedo, e estendeu a outra ao homem que pulou lestamente na barca. Era um bonito rapaz.

Gilliatt tomou o leme; em dous minutos, a pança chegou á angra da casa mal assombrada.

O moço tinha chapéo redondo e gravata branca. Trazia abotoada até o pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabellos louros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.

Entretanto a pança tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois voltou-se, e vio a mão do moço que lhe apresentou um soberano de ouro.

Gilliatt repellio docemente a mão.

Houve um silencio. O moço fallou:

—Salvou-me a vida, disse elle.

—Talvez, respondeu Gilliatt.

A pança estava amarrada. Sahiram da barca.

O moço continuou:

Devo-lhe a vida, senhor.

—Que importa isso?

Esta resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silencio.

—É desta parochia o senhor? perguntou o mancebo.

—Não, respondeu Gilliatt.

—De que parochia é então?

Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céo e disse:

—Daquella.

O moço comprimentou e foi caminho.

Depois de alguns passos voltou, metteu a mão no bolso, tirou um livro, e voltou-se para Gilliatt.

—Consinta que lhe offereça isto.

Gilliatt tomou o livro

Era uma Biblia.

Instantes depois, Gilliatt encostado ao parapeito, olhava para o moço que voltava o angulo do caminho que ia ter a Saint-Sampson.

A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube mais se existia a cadeira Gild-Holm'Ur, e tudo desappareceu na immersão sem fundo o scismar. Gilliatt tinha um abysmo, Deruchette. Tirou-o daquelle abysmo uma voz que lhe gritou:

—Olá, Gilliatt!

Reconheceu a voz e ergueu os olhos.

—Que ha, Sr. Landoys?

Era com effeito o Sr. Landoys que passava na estrada a cem passos da casa, no seu phaeton, com um pequeno cavallo. Parou afim de chamar Gilliatt á falla, mas parecia atarefado e apressado:

—Ha novidade, Gilliatt.

—Onde?

—Na casa de mess Lethierry.

—O que ha?

—Estou longe para lhe contar o caso.

Gilliatt estremeceu.

—Casa-se miss Deruchette?

—Não. Mas ...

—Que quer dizer?

—Vá lá a casa delle, que ha de saber.

E o Sr. Landoys chicoteou o cavallo.

LIVRO QUINTO

O revolver.

I

A PALESTRA NA POUSADA JOÃO

O Sr. Clubin era o homem que espera a occasião.

Era baixo e amarello, com a força de um touro. O mar não podia com elle. Tinha uma carne que parecia cera. Era da côr de uma tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua memoria tinha um quê de imperturbavel e especial. Vêr um homem uma vez era conserval-o como se fosse uma nota em um registro. O olhar laconico apunhalava. A palpebra tirava a prova de um rosto, e conservava-o; não importava que o rosto envelhecesse depois, o Sr. Clubin não deixava de reconhecel-o. Era impossivel fugir áquella memoria tenaz. O Sr. Clubin era breve, sóbrio, e frio; não fazia gesto algum. Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas pessoas acreditavam-n'o simplorio; trazia no rosto uma certa, ruga que indicava uma espantosa estupidez. Não havia melhor marinheiro do que elle. Não havia reputação de religiosidade e integridade maior que a sua. Quem o suspeitasse é que era suspeito. Travara amizade com o Sr. Rebuchet, cambista em S. Malo, rua de S. Vicente, ao lado do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a sua fabrica a Clubin. O Sr. Clubin era viuvo. A mulher foi tão honesta como elle. Morreu com a fama de uma virtude invencivel. Se o bailio lhe fizesse uma declaração ella iria conta-lo ao rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse por ella iria contal-o ao padre vigario. O casal Clubin realizou em Torteval o ideal do epitheto inglez respectable. A Sra. Clubin era o cysne; o Sr. Clubin era o arminho. Morreria se lhe puzessem uma nodoa. Nunca achou um alfinete que não fosse logo á cata do proprietario. Era capaz de pôr em almoeda uma caixa de phosphoros se acaso a tivesse achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em Saint-Servan e disse ao taberneiro: almocei aqui ha tres annos e você enganou-se na conta; e dizendo isto restituio ao taberneiro 75 centimos. Era uma grande probidade, mordendo attentamente os beiços.

Parecia estar sempre á espera. De quem? Provavelmente dos velhacos.

Todas as terças-feiras levava a Durande de Guernesey a S. Malo. Chegava a S. Malo na terça-feira á noite, demorava-se dous dias para fazer o carregamento, e voltava a Guernesey na sexta-feira de manhã. Havia então em S. Malo uma pequena hospedaria, situada no porto, que se chamava a pousada João.

A construcção dos cáes actuaes fez demolir a pousada. Naquella época vinha o mar até a porta S. Vicente e a porta de Dinan; S. Malo e S. Servan communicavam-se nas marés baixas por meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os navios em secco, evitando as boias, as ancoras e os maçames, e arriscando-se às vezes a rasgar a coberta de couro em alguma verga baixa. No intervallo de duas marés, os cocheiros fustigavam os cavallos, naquella mesma arêa, onde, seis horas depois, vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia andavam outr'ora os vinte e quatro cães, porteiros de S. Malo, que devoraram um official de marinha em 1770. Tamanho zelo fez suprimir os cães. Já não se ouve agora latidos nocturnos entre o pequeno e o grande Tallard.

O Sr. Clubin ia á pousada João. Era alli o escriptorio francez da Durande. Os guardas da alfandega e os guardas da costa ião comer e beber na pousada João. Faziam rancho á parte. Os guardas da alfandega de Binic encontravam-se, vantajosamente para o serviço, com os guardas da alfandega de S. Malo.

Também lá iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.

O Sr. Clubin assentava-se ora n'uma, ora n'outra, mas preferia a dos guardas á dos mestres. Era bem recebido em ambas.

As mesas eram bem servidas. Haviam as mais apuradas bebidas estrangeiras para os maritimos expatriados. Um marinheiro gamenho de Bilbáo acharia alli um copo de helada. Bebia-se stuol como em Greenwich, e gueuse, como em Anvers.

Capitães de longo curso e armadores tomavam ás vezes lugar na mesa dos mestres de navio. Trocavam-se ahi noticias:

—Como vai o assucar?

—Pequenos lotes. Vende-se bem o assucar bruto; tres mil saccas de Bombay e quinhentas barricas de Sagua.

—Ha de ver que o partido da direita ainda derruba o ministerio Villele.

—E o anil?

—Venderam-se apenas uns sete surrões de Guatemala.

—A Nanine Julie ancorou. Lindo navio de Bretanha.

—As duas cidades do Rio da Prata estão outra vez desavindas.

—Quando Montevidéo engorda, Buenos-Ayres emmagrece.

—Foi preciso deitar ao mar a carga do Regina Coeli condemnado em Calháo.

—O cacáo vai andando; os saccos Caracas são cotados a 234, e os saccos Trindade a 73.

—Parece que na revista do Campo de Marte ouvio-se gritar: abaixo os ministros.

—Os couros salgados saladeros vendem-se, os dos bois a 60 frs. e o das vaccas a 48.

—Já passaram o Balkan? O que faz Diebitsch?

—Em S. Francisco ha falta de anisette. O azeite Plagniol está calmo. O queijo de Gruyére está a 32 frs. o quintal.

—Com que então Leão XII morreu?

—Etc., etc., etc.

Todas estas cousas eram ditas e commentadas no meio de grande barulho. Á mesa dos guardas da alfandega e dos guardas da costa fallava-se menos.

A policia das costas e dos portos quer menos sonoridade e menos clareza no dialogo.

A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capitão de longo curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. Não era um homem, era um barometro. Os habitos do mar deram-lhe uma espantosa infallibilidade de prognostico. Elle decretava o tempo que devia haver no dia seguinte; ascultava o vento; tomava o pulso á maré. Dizia á nuvem; mostra-me a tua lingua. A lingua era o relampago. Era o doutor da vaga, da brisa e da lufada. O oceano era o seu doente; fez uma viagem á roda do mundo como quem faz uma clinica, examinando todos os climas na sua boa e má saude; sabia a fundo a pathologia das estações. Enunciava factos como este:—o barometro desceu uma vez em 1796 a tres linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor. Odiava a Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou cuidadosamente a marinha ingleza para conhecer os seus lados fracos. Explicava em que ponto o Sovereign de 1637 differia do Royal William de 1670 e de Victory de 1755. Comparava os castellos de pôpa. Lamentava as torres no tombadilho e os cestos de gavea afunilados do Great Harry de 1514, provavelmente no ponto de vista da bala franceza que se aninhava perfeitamente naquellas superficies. Para elle as nações só existião por suas instituições maritimas; fazia synonymias extravagantes. Chamava a Inglaterra Trinity House, a Escossia Northern Commissioners, e a Irlanda Ballast Board. Abundava de informações; era alphabeto e almanack. Sabia de cór a portagem dos pharoes, principalmente inglezes; um penny por tonelada ao passar diante deste, um farthing ao passar diante daquelle. Dizia: o pharol de Smalt Rock, que consumia apenas duzentos galões de azeite, consome agora quinhentos. Achando-se muito doente um dia, a bordo, a tripulação que já o tinha por defunto, estava á roda de sua maca, quando elle interrompeu os soluços da agonia para dar ao mestre carpinteiro uma ordem relativa a um concerto do navio.

Era raro que o assumpto de conversa fosse sempre o mesmo na mesa dos capitães e na mesa dos guardas. Apresentou-se, porém, o seguinte caso nos primeiros dias do mez de Fevereiro, em que se passam os factos que estamos contando. A gallera Tamaulipas, capitão Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar, chamava a attenção das duas mesas. Na mesa dos mestres fallou-se do carregamento, e na mesa dos guardas fallou-se dos ares suspeitos do navio.

O capitão Zuela, de Copiapó, era chileno, um pouco columbiano; tinha feito com independencia as guerras da independencia, acompanhando, ora Bulivar, ora Morillo, conforme os lucros a haver. Tinha-se enriquecido obsequiando a toda a gente. Não havia homem mais bourbonico, mais bonapartista, mais absolutista, mais liberal, mais atheu e mais catholico. Elle pertencia a este grande partido que se póde chamar o partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia apparições commerciaes em França; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a bordo aos fugitivos, bancarroteiros ou proscriptos politicos, fossem quem fossem, com tanto que pagassem. O meio de embarcal-os era simples. O fugitivo esperava n'um ponto deserto da costa, e no momento de apparelhar, Zuela destacava um escaler que ia buscal-o. Foi deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um homem implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar pessoas compromettidas na questão da Bidassoa. A policia, já avisada, estava com o olho n'elle.

Era um tempo de fugas aquelle. A restauração era uma reacção; ora as revoluções trazem emigrações, e as restaurações arrastam proscripções. Durante os sete ou oito primeiros annos, depois da entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo, nas finanças, na industria, no commercio, que sentiam tremer a terra e viam multiplicar-se as falencias. Havia um salve-se quem puder na politica. Lavalette fugira; Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira. Os tribunaes de excepção trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se á ponte de Saumur, á explanada de Reole, ao muro do observatorio de Paris, á torre de Taurias d'Avignon, tudo isso que se conserva de pé na historia, vestigios da reacção, aonde se distingue ainda a sua mão sanguinolenta.

Em Londres, o processo Thisthewood, ramificado em França, em Paris o processo Trogoff, ramificado na Belgica, na Suissa e na Italia, multiplicaram os motivos da inquietação e desapparecimento, e augmentaram essa profunda derrota subterranea, que deixava vasios os mais altos lugares da ordem social de então. Pôr-se em segurança, era a preoccupação universal. O espirito dos tribunaes prebostaes sobrevivera á instituição. As condemnações eram feitas por complacencia. Fugiam para o Texas, para o Perú, para o Mexico. Os homens da Loire, salteadores então, paladinos hoje, tinham fundado o campo de Asylo. Dizia uma canção de Beranger:

Sauvages, nous sommes français; Prenez pitié de notre gloire.

Expatriar-se era o recurso; porém, nada menos simples que fugir; este monosyllabo encerra abysmos. Tudo é obstaculo para quem se esquiva. Fugir é disfarçar-se. Pessoas importantes, e até illustres, viram-se reduzidas aos expedientes dos malfeitores. E ainda assim sahiam-se mal. Eram inverosimeis. Os seus habitos de franqueza tornava-lhes difficil resvalar pelas malhas da evasão. Um gatuno fugitivo mostrava-se mais correcto aos olhos da policia do que um general. Imaginem a innocencia constrangida a disfarçar-se, a virtude contrafazendo a voz, a gloria mascarando o rosto. Algum individuo que passasse com ar suspeito, era uma reputação á cata de um passaporte falso. O ar embaraçado de um fugitivo, não provava que elle deixasse de ser um heróe. Traços fugazes e caracteristicos dos tempos, que a historia regular esquece, mas que o verdadeiro pintor de um seculo deve rememorar. Atraz dos homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados, menos suspeitos. Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confusão, fazia parte dos proscriptos, e muitas vezes, graças a uma arte apurada, parecia naquelle crepusculo mais honesto que o honesto. Que ha ahi mais acanhado que a probidade diante da justiça? Nada entende, nada finge. Um falsario escapa-se mais facilmente que um convencional.

Cousa estranha! especialmente em relação aos tratantes, quasi se póde dizer, que a evasão fazia subir o individuo. A quantidade de civilisação que um velhaco levava de Paris ou de Londres valia-lhe por dote nos paizes primitivos ou barbaros, recommendava-o e fazia delle um iniciador. Era facil que um aventureiro, escapando ao codigo, chegasse depois ao sacerdocio. Havia phantasmagoria na desapparição, e mais de uma evasão tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste genero levava ao desconhecido e ao chimerico. Tal bancarroteiro sahia de Europa e apparecia mais tarde grão-visir em Mogol ou rei na Tasmania.

Ajudar as evasões era uma industria, e, visto a frequencia do facto, uma industria lucrativa. Esta especulação completava certos generos de commercio. Quem queria fugir para Inglaterra dirigia-se aos contrabandistas quem queria fugir para a America dirigia-se aos trapaceiros de longo curso, taes como Zuela.

II

CLUBIN DESCOBRE ALGUEM

Zuela ia comer algumas vezes á pousada João. O Sr. Clubin conhecia-o de vista.

E o Sr. Clubin não era soberbo; não se desprezava conhecer de vista um tratante. Ás vezes chegava mesmo a conhecel-os de facto, dando-lhes a mão em plena rua. Fallava inglez com o smogler e engrolava hespanhol com o contrabandista.

A este respeito tinha elle as seguintes maximas:

—Póde-se adquirir o bem, pelo conhecimento do mal.—O monteiro conversa proveitosamente com o ladrão de caça.—O piloto deve sondar o pirata; o pirata é um escolho.—Trato de provar um velhaco como o medico prova o veneno.

Não tinha replica. Todos davam razão ao capitão Clubin. Era approvado por não ter escrupulos tolos. Quem ousaria dizer mal delle? Tudo quanto fazia era para bem do serviço. Nelle tudo era simples. Nada podia compromettel-o. O crystal querendo manchar-se não pode. Esta confiança era a justa recompensa de uma longa honestidade e é essa a excellencia das reputações firmes. Fizesse o que fizesse o Sr. Clubin, todos lhe viam malicia no sentido da virtude; tinha adquirido a impecabilidade; e de mais a mais dizia-se que era muito esperto; deste ou daquelle encontro que com outra pessoa seria suspeito, a sua probidade sahia sempre com um relevo de habilidade. A fama de habilidade combinava-se harmoniosamente com a fama de ingenuidade, sem contradicção alguma. Ingenuo habil é cousa que existe. É uma das variedades do homem honesto e das mais apreciadas. O Sr. Clubin era desses homens que, encontrados em conversa intima com um larapio, ou um bandido, são recebidos, comprehendidos, e mais respeitados, e têm ainda por si o piscar de olhos satisfeito da estima publica.

O Tamaulipas tinha completado o carregamento. Estava proximo a partir e ia aparelhar.

Em uma terça-feira á tarde, ainda com sol, chegou a Durande a Saint-Malo. O Sr. Clubin de pé no passadiço e dirigindo a manobra da entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia, entre dous rochedos, em um lugar muito solitario, dous homens conversando. Deitou-lhes o oculo e reconheceu um dos homens. Era o capitão Zuela. Parece que reconheceu tambem o outro.

O outro era alto, um pouco grizalho. Trazia o chapéo largo e o vestuario grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker. Baixava os olhos com modestia.

Chegando á pousada João, o Sr. Clubin soube que o Tamaulipas ia aparelhar dentro de 10 dias.

Soube-se depois que elle tomara outras informações.

Á noite, entrou em casa do armeiro da rua de S. Vicente, e disse-lhe:

—Sabe o que é um revolver?

—Sei, respondeu elle, é americano.

—É uma pistolla que renova sempre a conversação.

—Na verdade, ella tem pergunta e resposta.

—E replica.

—É justo, Sr. Clubin. O cano é gyrante.

—E cinco ou seis balas.

O armeiro levantou o cantinho do beiço e fez ouvir aquelle estalo de lingua, que, acompanhado de um movimento de cabeça, exprime a admiração.

—A arma é boa, Sr. Clubin. Creia que ha de vir a ser universal.

—Eu queria um revolver de seis tiros.

—Não tenho desses.

—Pois que, o Sr. não é armeiro?

—Mas ainda não tenho disso. Bem vê que é cousa nova. Em França só se fazem pistolas.

—Diabo!

—É cousa que ainda não está no commercio.

—Diabo!

—Tenho pistolas excellentes.

—Quero um revolver.

—Convenho que é melhor. Mas, espere Sr. Clubin.

—O que é?

—Creio que ha um em Saint-Malo.

—Revolver?

—Sim.

—Para vender?

—Sim.

—Onde?

—Creio que sei. Hei de informar-me.

—Quando me dá a resposta?

—O revolver é bom.

—Quando devo voltar?

—Se eu lhe arranjo um revolver, é porque é bom.

—Quando me dá a resposta?

—Na sua primeira viagem.

—Não diga que é para mim.

III

CLUBIN LEVA UNS OBJECTOS E NÃO OS TRAZ

O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o gado e alguns passageiros, e, como de costume, sahio de Saint Malo para Guernesey na sexta-feira de manhã.

Nesse mesmo dia quando o navio já estava ao largo o que permitte ao capitão ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou em um saco de viagem que tinha, metteu alguma roupa no compartimento elastico, biscoutos, latas de conserva, algumas libras de cacáo, um chronometro e um oculo no compartimento solido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para içal-o se fosse preciso. Depois desceu ao porão, entrou no deposito dos cabos e viram-n'o subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem aos calafates no mar e aos ladrões em terra. Essas cordas facilitam a escalada.

Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou ahi trinta e seis horas. Levou o saco e a corda, mas não voltou com elles.

Diga-mol-o uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro é o antigo Guernesey que já não existe e seria impossivel achal-o hoje, a não ser no campo. É ahi que elle existe vivo, mas nas cidades morreu. A observação que fazemos a respeito de Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. St. Helier vale Dieppe; St. Pierre Port vale Lorient. Graças ao progresso, graças ao admiravel espirito de iniciativa daquelle valente povo insular, tranformou-se tudo em quarenta annos no archipelago da Mancha. Onde havia sombra ha luz. Dito isto, continuemos. Naquelles tempos que, pelo affastado, já são historicos, o contrabando activava-se no mar da Mancha. Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa de oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que sabem em todas as minucias o que se passava ha quasi meio seculo, chegam a citar os nomes de muitos desses navios quasi todos asturianos. O que é fora de duvida é que não se passava semana, sem que apparecesse um ou dous, ora na bahia dos Santos, ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava de mar em Serk que se chamava e ainda se chama a loja, porque era nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas as suas mercadorias de importação. Para as necessidades desse commercio fallava-se na Mancha uma especie de lingua contrabandista, esquecida hoje, e que estava para o hespanhol como o levantino para o italiano.

Em muitos pontos do littoral inglez e francez o contrabando estava em boa harmonia com o negocio licito. Entrava na casa de mais de um financeiro de alta classe, ás escondidas, é verdade; e dilatava-se subterraneamente na circulação commercial e por todas vias de industria. Negociante em publico, contrabandista ás escondidas, eis a historia de muitas fortunas. Seguin dizia isto de Bourguin. Bourguin dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de ambos. Talvez se calumniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido pela lei estava sem contestação muito aparentado no commercio. Carteava-se com a gema da sociedade. A caverna onde Maudrin acotovelava outr'ora o conde de Charolais, era honesta exteriormente e tinha uma fachada irreprehensivel para o lado da sociedade.

Daqui resultaram muitas connivencias necessariamente mascaradas. Taes mysterios exigiam sombra impenetravel. Um contrabandista sabia de muitas cousas e devia guardar segredo; a sua lei era uma fé inviolavel e rigida. A primeira qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem discrição não ha contrabando. Havia o segredo da fraude como ha o Segredo da confissão.

Esse segredo era imperturbavelmente guardado. O contrabandista jurava não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguem inspirava mais confiança do que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e poz-lhe a questão para obrigal-o a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista não confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dous cumplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia para cumprir a lei aos olhos de todos ordenar a tortura, á qual o segundo resistia para cumprir o juramento.

Os dous mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquella época, eram Blasco e Blasquito. Eram tocayos. Parentesco hespanhol e catholico que consiste em ter o mesmo patrão no paraiso, cousa não menos digna de consideração que ter o mesmo pae na terra.

Quem estava pouco mais ou menos ao facto do furtivo itinerario do contrabando e queria fallar a esses homens, era isso a cousa mais facil e mais difficil. Bastava não ter preconceitos nocturnos, ir a Plainmont, e affrontar o mysterioso ponto de interrogação que alli se levanta.

IV

PLAINMONT

Plainmont, perto de Torteval, é um dos tres angulos de Guernesey. Ha, na extremidade do cabo, uma corôa de relva que domina o mar.

O cume é deserto.

Tanto mais deserto quanto ha alli uma casa.

Aquella casa augmenta o horror da solidão.

Dizem que é mal assombrada.

Assombrada ou não, o aspecto é medonho.

É feita de granito, tem um só andar, e está no meio da relva. Não tem aspecto de ruina. É perfeitamente habitavel. As paredes são grossas e o tecto solido. Não falta uma só pedra ás paredes, nem uma só telha ao telhado. Tem uma chaminé de tijolo. A casa está de costas para o mar. A fachada do lado do mar é apenas uma parede. Examinando bem essa parede vê-se uma janella murada. Ha tres trapeiras, uma a leste, duas a oeste, muradas todas. A frente da casa tem uma só porta e janellas. A porta é murada e as duas janellas de baixo tambem. No primeiro andar, e é isso que espanta logo ao principio, ha duas janellas abertas; mas as janellas tapadas são menos assustadoras que as janellas abertas. Por estarem abertas, apparecem negras em pleno dia. Não tem vidros nem caixilhos. Abrem para as trevas do interior. Dissera-se umas orbitas vasias de olhos arrancados. Nada ha naquella casa. Vê-se pelas janellas abertas o descalabro de dentro. Nem retabulos, nem entalhos de madeira, pedra núa. Parece um sepulchro com janellas para deixar que os espectros olhem para fóra. As chuvas alluem os alicerces do lado do mar. Algumas ortigas agitadas pelo vento beijam a barra das paredes. No horisonte, nenhuma habitação humana. Aquella casa é uma cousa vasia e silenciosa. Mas quem pára e põe o ouvido á parede ouve confusamente um bater de azas assustadas. Por cima da porta tapada, na pedra que faz a architrava, estão gravadas estas letras; ELM—PBILG, e esta data 1780.

De noite o luar lugubre penetra na casa.

Todo o mar está em roda da casa. A situação é magnifica, e por consequencia, sinistra. A belleza do lugar torna-se um enigma. Por que motivo aquella casa não é habitada por nenhuma familia humana? O lugar é bonito, a casa é boa. Donde procede esse abandono? Ás perguntas da razão ajuntam-se as perguntas da superstição. O campo é cultivavel, por que motivo está inculto? Não ha dono. A porta murada. Que tem pois este lugar? porque foge o homem? que se faz aqui? Se não ha nada, porque é que não ha ninguem? Quando todos dormem ha alguem acordado? A lufada tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animaes escondidos, os entes ignorados, apparecem ao pensamento e misturam-se aquella casa. A que passageiros serve ella de hospedaria? a gente imagina trevas de graniso e de chuva mettendo-se pela janella dentro. Ha na parte interior uns vagos signaes de chuva que gotejou: Os quartos fechados e abertos são visitados pelo furacão.

Commetter-se-hia algum crime alli? Parece que aquella casa, á noite, entregue ás trevas, deve chamar por soccorro. Será muda? Sahem vozes de dentro? Que faz ella na solidão? O mysterio das horas negras existe alli facilmente. A casa assusta ao meio dia: que será ella á meia noite? Contemplando-a, contempla-se um segredo. Pergunta-se,—porque a superstição tem a sua logica e o possivel a sua inclinação,—o que será aquella casa entre o crepusculo da noite e o crepusculo da manhã. A immensa dispersão da vida extra-humana tem acaso naquelle cume deserto um vinculo em que ella pára, e que a obriga a fazer-se visivel e a descer? O esparso vai redomoinhar alli? o impalpavel vai alli condensar-se? Enigmas. Sahe daquellas pedras o horror sagrado. A treva que está nesses quartos defesos é mais do que treva; é o desconhecido. Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra, calam-se os passaros, o cabreiro que está atraz do rochedo vai-se com as suas cabras, as fendas das pedras darão passagem aos reptis mais animados, as estrellas começarão a olhar, soprará o vento, far-se-ha plena escuridão, as duas janellas estarão alli escancaradas. Abrem-se para o sonho; e é por apparições, larvas, phantasmas mal distinctos, sombras cobrindo luzes, mystenosos tumultos de almas e espectros, que a crença popular, estupida e profunda, traduz as sombrias intimidades daquella casa com a noite.

A casa é mal assombrada, esta palavra explica tudo.

Os espiritos credulos dão a sua explicação; mas os espiritos positivos dão outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem elles. É um antigo posto de observação, do tempo das guerras da revolução e do imperio, e dos contrabandos. Foi construida para isso. Acabada a guerra, foi abandonado o posto. Não se demolio a casa por que pode tornar-se util. Taparam-se as portas e as janellas do rez do chão contra os stercorarios humanos, e para que ninguem podesse entrar; taparam-se as janellas do lado do mar, por causa do vento do sul e do vento de oeste. Eis tudo.

Os ignorantes e os credulos insistem. Em primeiro lugar a casa não foi construida no tempo das guerras da revolução. Traz a data de 1780, anterior á revolução. Depois, não foi construida para ser posto; tem as letras ELM-PBILG que são o duplo monogramma de duas familias, e que indicam, segundo o uso, que a casa foi construida para algum joven casal. Portanto foi habitada. Porque não o é agora? Se se tapou a porta e as janellas para que ninguem entrasse, porque motivo deixaram-se abertas duas janellas? Deviam tapar tudo ou nada. Porque não ha vidros nem caixilhos, nem postigos? Porque fecha-las de um lado, sem fecha-las de outro? A chuva não entra pelo sul, mas entra pelo norte.

Os credulos não têm razão, e certo; mas os positivos também não a tem. O problema persiste.

O que é certo é que a casa, dizem ter sido mais util que nociva aos contrabandistas.

Quando o medo cresce os factos perdem a verdadeira proporção. Não ha duvida que muitos phenomenos nocturnos, entre aquelles de que a pouco e pouco se compoz o assombramento da casa, poderia explicar-se por presenças fugitivas e obscuras, curtas estações de homens logo embarcados, já pelas precauções, já pela ousadia de certos commerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e deixando-se entrever para causar medo.

Naquella época já remota, muitas audacias eram possiveis. A policia, sobretudo, nos lugares pequenos, não era o que é hoje.

Ajunte-se a isto que se a casa era commoda aos contrabandistas, as suas entrevistas alli deviam ser francas, exactamente porque a casa era mal vista. O ser mal vista impedia que fosse denunciada. Ninguem pede á policia soccorro contra os espectros. Os supersticiosos persignam-se, mas não fazem processos. Vêem ou acreditam vêr, fogem e calam. Existe uma convivencia tacita involuntaria, mas real, entre os que fazem medo e os que tem medo. Os assustados sentem que fizeram mal em se assustarem, imaginam ter sorprehendido um segredo, receiam aggravar a posição mysteriosa para elles, e enfadar as apparições. Isto fal-os discretos. E ainda fóra deste calculo, o instincto dos credulos é o silencio; o medo é mudo; os atterrorisados fallam pouco; parece que o horror diz: silencio!

Devem recordar-se que isto remonta á época em que os camponezes guernesianos acreditavam que o mysterio do presepio era repetido todos os annos pelos bois e pelos asnos; época em que ninguem, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma estrebaria com receio de encontrar os animaes ajoelhados.

Se se deve acreditar nas legendas locaes e narrativas dos camponezes a superstição chegou a suspender nas paredes da casa de Plainmont, em pregos de que ainda existem vestigios, ratos sem pés, morcegos sem azas, arcabouços de animaes mortos, sapos esmagados entre as paginas de uma Biblia, febras de tremoços amarellos, estranhos ex-voto pendurados por viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma cousa, e por meio desses presente contavam obter perdão e conjurar o máo humor das stryges, das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse em congressos de feitiçaria, e alguns desses credulos altamente collocados. Cesar consultava Sagana, e Napoleão mademoiselle Lenormand. Ha consciencias tão inquietas que chegam a procurar indulgencias de diabo. Faça-o Deos, mas não o desfaça Satanaz, era uma das orações de Carlos V.

Ha espiritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de que o mal pode ter razão contra elles. Ser irreprehensivel para com o demonio é uma das suas preoccupações. Dahi vem as praticas religiosas voltadas para a immensa malicia obscura. É uma carolice como qual quer outra. Os crimes contra o demonio existe ein certas imaginações doentias; violar a lei do inimigo é uma cousa que faz soffrer os estranhos casuitas da ignorancia; ha escrupulos para com as regiões das trevas. Crer na efficacia da devoção aos mysterios do Brocken e de Armuyr, imaginar que se pecca contra o inferno recorrendo a penitencias chimericas por infracções chimericas, confessar a verdade ao espirito da mentira, fazer o mea culpa diante do pai da Culpa, confessar-se em sentido inverso, tudo isto existe ou existio. Os processos de magia provam-no em cada uma de suas paginas. Vai até esse ponto o sonho humano. Quando o homem começa a assustar-se não pára mais. Sonha culpas imaginarias, sonha purificações imaginarias, e faz limpar a sua consciencia com a vassoura das feiticeiras.

Fosse como fosse, se aquella casa teve aventuras, é cousa que lá ficou; pondo de parte alguns acasos e algumas excepções, ninguem subio a ver o que era; a casa ficou só; ninguem gosta de arriscar-se aos encontros infernaes.

Graças ao terror que a cerca e affasta dalli todo aquelle que pudesse observar e testemunhar, facil foi em todos os tempos entrar de noite naquella casa por meio de uma escada de corda ou simplesmente por meio da primeira tranqueira que se achasse nas hortas visinhas. Levava-se um rancho de viveres, o que dava lugar a esperar alli com toda a segurança a eventualidade de um embarque furtivo. Conta a tradição que ha 40 annos um fugitivo, dizem uns que da politica, outros que do commercio, lá esteve algum tempo escondido, e dalli embarcou n'um barco de pesca para Inglaterra. De Inglaterra é facil passar á America.

A mesma tradição affirma que as provisões depositadas naquelle albergue lá se conservam sem que ninguem as toque, visto como Lucifer e os contrabandistas têm interesse em que a pessoa que lá as põem, vá buscal-as.

Do lugar em que existe aquella casa, vê-se ao sudueste, a uma milha da costa, o escolho de Hanois.

É celebre aquelle escolho. Fez todas as más acções que um rochedo pode fazer. Era um dos mais temiveis assassinos do mar. Esperava perfidamente os navios á noite. Entulhou os cemiterios de Torteval e de Rocquaine.

Em 1862 pôz-se alli um pharol.

Hoje o escolho de Hanois allumia a navegação que elle proprio extraviava outr'ora; a emboscada traz agora um archote na mão. Procura-se hoje como protector e guia o rochedo do qual fugia-se outr'ora como de um malfeitor. O escolho tranquilisa aquelles vastos espaços nocturnos onde outr'ora inspirava o medo. Assemelha-se a um salteador feito soldado de policia.

Ha tres Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mauve. No pequeno Hanois é que existe hoje o Light Red.

O escolho faz parte de um grupo de picos, uns submarinhos, outros acima d'agua. Domina-os. Como se fôra uma fortaleza, tem baterias avançadas; do lado do mar alto, um cordão de treze rochas; ao norte dous cachopos, Hautes-Fourquies e Aiguillons, e um banco d'arêa; Heronée; ao sul tres rochedos, Cat-Rock, Percée e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue Mouet, e além disso em frente de Plainmont, á flor d'agua o Tas de Pois d'Aval.

Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont é cousa incommoda, mas não impossivel. O leitor lembra-se que era essa uma das proezas do Sr. Clubin. O nadador que conhece os baixios tem duas estações em que pode descançar, a Roque redonda, e mais longe obliquando um pouco á esquerda, a Roque vermelha.

V

OS FURTA-NINHOS

Pouco mais ou menos naquelle dia de sabbado em que o Sr. Clubin esteve em Torteval, deu-se um facto singular, pouco assoalhado em principio e que só transpirou muito depois. Como dissemos, ha muitas cousas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo que inspira ás suas proprias testemunhas.

Na noite de sabbado ao domingo, (precisamos o dia e cremol-o exacto) tres meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam á villa. Vinham do mar. Eram o que na lingua local chamam deniquoi-oiseaux; lêa-se deniche-oiseaux (furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima do mar ha furta-ninhos em abundancia. Já fallamos delles. O leitor lembra-se que Gilliatt preoccupava-se com isto, por causa dos passaros e por causa das crianças.

Os furta-ninhos, são especies de gaiatos do occeano, pouco timidos.

A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam o zenith. Tres horas da manhã soavam no sino de Torteval que é redondo e pontudo, semelhante a um chapéo de magico.

Porque voltavam tão tarde aquelles pequenos? Nada mais simples. Tinham ido á caça dos ninhos de cotovias no Tas de Pois d'Aval. Como a estação tinha sido amena, começaram cedo os amores dos passaros. Os pequenos, espreitando os machos e as femeas á roda dos ninhos, e distrahidos pela tenacidade da empreza tinham esquecido as horas. Foram cercados pela maré. Não poderam voltar a tempo para a canoa e tiveram de esperar que o mar se retirasse, assentados em uma das pontas do Tas de Pois. Tal foi o motivo da volta nocturna. Estas voltas são esperadas sempre pela febril inquietação das mães que, uma vez tranquillas, manifestam a alegria por meio da colera, e lacrimosas dissipam o terror a cachações. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados. Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de não chegar nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.

Só um dos meninos nada receiava; era um orphão. Era francez e ia bem contente de não ter naquelle dia nem pae nem mãe. Não tendo ninguem que se interessasse por elle, escapava á bordoada. Os outros dous eram guernezianos e da parochia de Torteval.

Escaladas as rochas, os tres furta-ninhos, chegaram á planura onde estava a casa mal assombrada.

Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crianças, aquella hora e naquelle lugar.

Quizeram fugir e quizeram parar afim de contemplar a casa.

Pararam.

Contemplaram a casa.

Era negra e formidavel.

Era, naquelle deserto, um montão escuro, uma escrescencia symetrica e hedionda, uma alta massa quadrada de angulos rectilinios, uma cousa semelhante a um enorme altar de trevas.

O primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi approximar-se. Nunca tinham visto aquella casa áquella hora. A curiosidade de ter medo existe. Havia entre elles um francez, donde resultou que os pequenos approximaram-se da casa.

É sabido que os francezes não acreditam em cousa alguma.

Demais, quando são muitos todos se tranquillisam; o medo dividido por tres dá animação.

E depois, eram curiosos; eram crianças, sommada a idade dos tres não dava trinta annos; era a idade de prescrutar, de escavar, esquadrinhar as cousas occultas; deve-se acaso parar no meio? Mette-se a cabeça neste buraco, porque não mette-la no outro? a caça arrasta; andar em uma descoberta é o mesmo que metter-se em um moinho. Ter olhado para o ninho dos passaros dá vontade de olhar um pouco para o ninho dos espectros. Investigar o inferno, porque não?

De caça em caça, chega-se ao demonio. Depois dos pardáes os diabretes. Ha vontade de saber o que é esse medo inspirado pelos paes. Andar na pista dos contos de carocha é o que ha mais resvaladiço. Saber tanto como as contadeiras de historias é cousa que tenta.

Todo este amalgama de idéas no estado de confusão e instincto, na cabeça dos rapazes, deu em resultado a temeridade delles. Caminharam para a casa.

Demais, o pequeno que lhes servia de apoio nesta bravura, era digno disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas crianças que já são homens, dormindo no estaleiro em cama de palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando ás arvores e ás paredes sem escrupulos a respeito das fructas que encontrava, tendo trabalhado em concertos de navios de guerra, filho do acaso e do bamburrio, orphão alegre, nascido em França, sem se saber em que ponto, duas razões para ser atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito máo, muito bom, louro rastejando a ruivo, tendo já fallado aos parisienses. Agora ganhava um scheling por dia calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a veneta punha-se em férias e ia tirar os ninhos dos passaros. Tal era o francez.

A solidão do lugar tinha um não sei quê de funebre. Sentia-se a inviolabilidade ameaçadora. Era medonho. Aquella planura silenciosa e nua escondia no precipicio a sua curva declive. Embaixo callava-se o mar. Não havia vento. As ervas não se mechiam.

Os furta-ninhos avançavam de vagar com o francez á frente, contemplando a casa.

Um delles contando depois o facto ou o pouco que lhe restava na memoria, acerescentava: a casa não dizia nada.

Approximavam-se retendo a respiração, como quem se approxima de um animal feroz.

Tinham subido o comoro que fica atraz da casa, e que vai ter a um pequeno isthmo de rochedos pouco praticavel; estavam perto da casa; mas viam apenas a fachada do sul, que é toda murada; não tinham ousado voltar á esquerda, o que os teria exposto a ver a outra fachada em queha apenas duas janellas, o que é terrivel. Entretanto atreveram-se, por que o aprendiz de callafate disse-lhes baixinho: viremos de bombordo; daquelle lado é que é bonito; é preciso ver ás duas janellas negras.

Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.

As duas janellas estavam illuminadas.

Os meninos fugiram.

Qando estavam longe, voltou-se o francez.

—Olhem, disse elle, já não ha luz.

Com effeito, não havia luz nas janellas. A casa desenhava-se na lividez diffusa do céo.

O medo não se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos approximaram-se.

De repente appareceram as luzes outra vez.

Os dous rapazes de Torteval tornaram a pôr sebo ás canellas. O pequeno Satanaz francez, não avançou, mas não reccuou.

Ficou immovel, em frente da casa, olhando para ella.

Extinguio-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais horrivel. O reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva humida pelo orvalho. Em certo momento, o clarão desenhou na parede interior da casa grandes perfis negros que se mechiam e sombras de cabeças enormes.

Demais, a casa não tinha tecto nem tabiques, e tendo apenas as quatro paredes e o telhado, uma janella não pode ser illuminada sem que a outra o seja.

Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dous voltaram tremulos, curiosos. O aprendiz de calafate, disse-lhes baixinho:—Ha almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma dellas.—Os dous pequenos agruparam-se atraz do francez, e levantando-se sobre a ponta dos pés, por cima do hombro, abrigados por elle, fazendo delle um escudo, oppondo-o á casa, tranquillisados por tel-o entre si e a visão, olharam tambem.

A casa a seu turno parecia olhar para elles. Tinha naquella vasta obscuridade muda, duas orbitas vermelhas. Eram as janellas. A luz eclipsava-se, reapparecia, eclipsava-se ainda, como essas luzes costumam fazer. Estas intermittencias sinistras representavam provavelmente as alternativas do inferno. Abre-se, fecha-se. O respiradouro do sepulchro tem effeitos de lanterna surda.

De repente uma escuridão opaca com forma humana levantou-se em uma das janellas, como se viesse de fora, depois mergulhou no interior da casa. Parece que alguem chegava.

Entrar pela janella era o habito dos visitantes.

O clarão appareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não reappareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se rumores. Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando se vê, não se ouve; quando não se vê, ouve-se.

O mar tem á noite uma taciturnidade particular. O silencio da sombra é ahi mais profundo que em qualquer outra parte. Quando não ha nem vento nem marulho, naquella agitada extensão de aguas, onde de ordinario não se ouvem as aguias voar, ouvir-se-hia voar uma mosca. Aquella paz sepulchral dava um relevo lugubre aos rumores que sahiam da casa.

—Vejamos, disse o francez.

—E deu um passo para a casa.

Os outros dous tinham tal medo que decidiram-se a acompanhal-o. Não ousavam fugir sós. Acabavam de passar um grande montão de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquella solidão, quando de uma mouta voou uma coruja. As corujas tem uns vôos tortos, de assustadora obliquidade. Aquella passou de travez pelos rapazes, fixando nelles os olhos claros no meio da treva.

Houve um certo estremecimento no grupo atraz do francez.

O francez clamou contra a coruja.

—Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver. E avançou.

O ranger dos seus sapatos grossos e ferrados não lhes impedia ouvir os rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a accentuação calma e a continuidade de um dialogo.

Momentos depois accrescentou o francez:

—Demais, só os tolos podem crer em almas do outro mundo.

A insolencia no perigo reune os retardados e impelle-os para a frente.

Os dous rapazes de Torteval puzeram-se a caminho atraz do aprendiz de calafate.

A casa mal assombrada fazia-lhes o effeito de crescer desmesuradamente. Nesta illusão de optica do medo, havia realidade. A casa crescia realmente por que elles approximavam-se della.

Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais distinctas. Os rapazes ouviam. O ouvido tem os seus augmentos. Não era murmurio, era mais que um cochichar, menos que um alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas palavras claramente articuladas. Essas palavras, impossiveis de comprehender, soavam estranhamente. Os rapazes paravam, ouviam e depois continuavam a andar.

—É a conversa das almas do outro mundo, mas eu não creio em almas do outro mundo, disse o aprendiz de calafate.

Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atraz da lenha; mas já estavam longe, e o amigo francez continuava a andar para a casa. Temiam ir com elle, e não ousavam deixal-o.

Acompanhavam-n'o, a passo e passo e perplexos.

O aprendiz de calafate voltou-se para elles e disse-lhes:

—Bem sabem que não é verdade. Não existe nenhuma.

A casa tornava-se cada vez mais alta.

Approximavam-se.

Approximando-se, reconheciam que havia na casa uma luz abafada. Era um clarão vago, um desses effeitos de lanterna surda, indicados ha pouco, e que abundam na illuminação das feitiçarias.

Quando se acharam ao pé da casa pararam de todo.

Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observação:

—Não são almas do outro mundo, são fantasmas.

—Que é aquillo que pende alli á janella? perguntou o outro.

—Parece uma corda.

—É uma serpente.

—É corda de enforcado, disse o francez com autoridade. Serve-lhes. Mas eu não creio.

E mais em tres pulos que em tres passos, o francez estava ao pé da parede da casa. Havia febre naquelle atrevimento.

Os outros, tremulos, imitaram-n'o, e foram collocar-se ao pé delle, encostando-se um á direita, outro á esquerda. Os rapazes applicaram o ouvido á parede. Continuava-se a fallar dentro de casa.

Eis o que diziam os phantasmas: [1]

—Assim pois, está entendido?

—Entendido.

—Dito?

—Dito.

—Aqui esperará nm homem e partirá depois para a America com Blasquito?

—Pagando.

—Pagando.

—Blasquito tomará o homem na barca.

—Sem indagar de que terra elle é?

—Não temos nada com isso.

—Sem lhe perguntar o nome?

—Não se pede o nome, pede-se a bolsa.

—Bem. O homem esperará nesta casa.

—Tendo que comer.

—Terá.

—Onde?

—Neste sacco que trago.

—Muito bem.

—Posso deixar o sacco aqui?

—Os contrabandistas não são ladrões.

—E os senhores quando vão?

—Amanhã de manhã. Se o seu homem está prompto poderá vir comnosco.

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