VICTOR HUGO
Machado de Assis translation
traduzido por Machado de Assis
RIO DE JANEIRO
TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.
SEGUNDA PARTE
O engenhoso Gilliatt
LIVRO TERCEIRO
A luta
I
O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTRARIO ANNUNCIA O CONTRARIO
Nada tão ameaçador como o equinoxio que retarda.
Ha no mar um phenomeno medonho que se póde chamar a chegada dos ventos do largo.
Em todas as estações, especialmente na época das syzygias, no momento em que menos se espera, o mar apresenta uma subita e estranha tranquillidade. Applaca-se aquelle prodigioso movimento continuo; cahe em madorna e languidez; parece que vai descançar: crer-se-hia que está fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as flamulas de pesca, até ás insignias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhões almirantes, reaes, imperiaes, dormem todos.
De repente esses pannos começam a mexer-se discretamente.
É a hora, se ha nuvens, de espreitar a formação dos cirrus; se o sol se põe, é a hora de examinar a côr da tarde; se é de noite e ha luar, é a hora de estudar as aureolas planetarias.
Nessa hora, o capitão ou chefe de esquadra que tem a fortuna de possuir um desses vidros de tempestade cujo inventor não se conhece, observa o vidro com o microscopio e toma as suas precauções contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de assucar fundido; e contra o vento do norte, se a mistura se esfolha em crystallisações semelhantes aos tuffos de hervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter consultado o gnomon mysterioso gravado pelos romanos, ou pelos demonios, n'uma dessas estreitas pedras enigmaticas que na Bretanha se chama menhir, e na Irlanda cruach, o pobre pescador irlandez ou bretão retira a sua barça do mar.
Persiste entretanto a serenidade do céo e do oceano. A manhã rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso horror os antigos poetas e os antigos adevinhos, assustados de que se podesse crer na deslealdade do sol. Solem quis dicere falsum audeat.
A sombria visão do possivel latente é interceptada ao homem pela opacidade fatal das cousas. O mais temivel e o mais perfido aspecto é a mascara do abysmo.
Diz-se: anguis in herba; devia dizer-se: borrasca na calma.
Assim se passam horas, e ás vezes dias. Os pilotos assestam os seus oculos. O rosto dos velhos marinheiros tem um ar de severidade que se prende á colera secreta da expectação.
De subito ouve-se um grande murmurio confuso. Ha uma especie de dialogo mysterioso no ar.
Não se vê cousa alguma.
A extensão fica impassivel.
Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Accentua-se o dialogo.
Ha alguem por traz do horisonte.
Pessoa terrivel essa, é o vento.
O vento, isto é, a populaça de titães que chamamos Tufões.
Immensa plebe da sombra.
A India chamava-os Morouts, a Judéa Keroubins, a Grecia Aquilões. São os invisiveis passaros ferozes do infinito. Esses Boreas precipitam-se.
II
OS VENTOS DO LARGO
Donde vem elles? Do incomensuravel. Os seus grandes vôos exigem o diametro do golphão. As suas azas desmedidas precisam das solidões indefinidas. O Atlantico, o Pacifico, essas vastas aberturas azues, eis o que lhes convém. Fazem-n'as sombrias. Voam em bandos. O commandante Page vio de uma vez no mar alto, sete trombas a um tempo. Ahi são medonhas. Premeditam os desastres. Tem por trabalho delles o entumecimento ephemero e eterno dos vagalhões. Ignora-se o que elles podem, desconhece-se o que elles querem. São as sphynges do abysmo; e Vasco da Gama é o seu Œdipo. Faces de nuvens apparecem nessa obscuridade da extensão sempre em movimento. Quem descobre os seus lineamentos lividos nessa dispersão que é o horisonte do mar sente-se em presença da força irreductivel. Dissera-se que a intelligencia humana os assusta, e eriçam-se contra ella. A intelligencia é invencivel, mas o elemento é indomavel. Que fazer contra a ubiquidade que se não sujeita? O vento faz-se massa e torna-se vento outra vez. Os ventos combatem esmagando e defendem-se esvaindo-se. Quem depara com elles só póde lançar mão de expedientes. Elles frustam-nos pelo assalto diverso e repercutido. Tanto atacam como fogem. São os impalpaveis tenazes. Como vence-los? A prôa do navio Argo, esculpida em um carvalho de Dodona, ao mesmo tempo prôa e piloto, costumava fallar-lhes. Elles maltratavam aquella prôa deosa. Christovão Colombo, vendo-os vir de encontro á Pinta subio ao tombadilho e dirigio-lhes os primeiros versiculos do Evangelho de S. João. Surcouf insultava-os. Ahi vem a pandilha, dizia elle. Napier descarregava-lhes tiros em cima. Elles tem a dictadura do chaos.
Tem o chaos. Que fazem delle? Fazem uma cousa implacavel. A cova dos ventos é mais monstruosa que a cova dos leões. Quantos cadaveres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas elles não ouvem a ninguem. Commettem cousas que parecem crimes. Não se sabe sobre quem atiram elles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade impia no naufragio! Que affronta á Providencia! Ás vezes parecem que cospem em Deos. São os tyrannos dos lugares desconhecidos. Luoghi spaventosi, murmuravam os marinheiros de Veneza.
Os espaços tremulos supportam os seus ataques. É inesprimivel o que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se á sombra um elemento equestre. O ar faz um rumor de floresta. Não se vê nada, mas ouve-se um ruido de cavallos. É meio dia, de subito anoitece; passa um tornado; é meia noite, de repente esclarece, accende-se o effluvio polar. Alternam em sentido inverso os turbilhões, especie de dansa hedionda, tripudeo dos flagellos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada nuvem, e os pedaços vão precipitar-se no mar. Outras nuvens purpureadas, illuminam e roncam, depois escurecem lugubremente; a nuvem esvasiada de raio, é carvão apagado. Saccos de chuva rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As alvuras do mar debaixo do aguaceiro illuminam sorprehendentes quadros; desfiguram-se espessuras onde se reproduzem as semelhanças. Monstruoso umbigo vai rompendo as nuvens. Volteam os vapores, saracoteam as vagas; rolam embriagadas as nayades; a perder de vista, o mar massiço e mole move-se sempre sem jamais deslocar-se; tudo é livido; desesperados gritos sobem desse palor.
No fundo da obscuridade inaccessivel tremem grandes germens de sombra. De quando em quando ha paroxismo. O rumor torna-se tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horisonte, superposição confusa de vagas, oscillação sem fim, murmura continuamente; alli arrebentam extranhamente uns arremeços de fracaço; parece-se ouvir as hydras espirrando; sopram palitos frios, seguem-se halitos quentes. A trepidação do mar annuncia um medo que tudo espera. Inquietação. Angustia. Terror profundo das aguas. Subitamente, o furacão, como uma besta, desce a beber no oceano; sorvo inaudito, a agua sóbe para a boca invisivel, fórma-se uma ventosa, incha o tumor; é a tromba, o Prester dos antigos, stalactite em cima, stalagmite em baixo, duplo cone inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra, beijo de duas montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a columna da Biblia, é tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba cala-se o trovão. Parece que tem medo.
Ha uma escala na vasta turvação das solidões; temivel crescendo; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lyra do vento, as sete notas do abysmo. O céo é uma largura, o mar é um arredondado; passa um vento, já não ha nada disso, tudo é furia e confusão.
Taes são aquelles severos sitios.
Os ventos correm, voam, abatem-se expiram, revivem, pairam, assoviam, rugem, riem: freneticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irascivel. Tem harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céo. Sopram nas nuvens como n'um metal; embocam o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma especie de tangeres prometheanos. Quem os ouve, ouve Pan. que mais assusta é vêl-os assim. Tem uma colossal alegria composta de sombra. Fazem nas solidões a batida dos navios. Sem tregoas, noite dia, em todas as estações, no tropico como no polo, tocando a trombeta delirante, vão elles, por meio do travamento da nuvem e da vaga, fazendo a grande caça negra dos naufragios. São os donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que são os seus cães, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens. Amassam como se tivessem milhões de mãos, a flexibilidade da agua immensa.
A agua é flexivel porque é incompressivel. Resvala debaixo do esforço. Apertada por um lado, escapa por outro. É assim que a agua se faz onda. A vaga é a sua liberdade.
III
EXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT
A grande approximação dos ventos para a terra faz-se nos equinoxios. Nessas épocas o grande balanço do tropico e do polo, e a collossal maré atmospherica derrama o seu flux em um hemispherio, e o reflux em outro. Ha constellações que significam esses phenomenos. Libra e Aquario.
É a hora das tempestades.
O mar espera silencioso.
Ás vezes o céo tem feio aspecto. Fica baço, e como que coberto por um grande panno obscuro; os marinheiros contemplam anciosos o ar opprimido de sombra.
Mas o que elles mais temem é o ar alegre. Céo risonho no equinoxio é a tempestade com pés de lã. Com céos desses, a Torre das Carpideiras de Amsterdão enchia-se de mulheres que examinavam o horizonte.
Quando se demora a tempestade invernal ou outonal é que está ajuntando uma massa ainda maior. Enthesoura para destruir. Desconfia da acumulação de juros. Ango dizia: O mar é bom pagador.
Quando a demora é demasiado longa, o mar trahe a sua impaciencia pela calma. Sómente a tenção magnetica se manifesta naquillo que se póde chamar a inflamação da agua. Rompem clarões da vaga. Ar electrico, agua phosphorica. Os marinheiros sentem-se estafados. É uma hora especialmente perigosa para os encouraçados; o casco de ferro póde produzir falsas indicações da bussola e perdel-os. Assim pereceu o paquete transatlantico Yowa.
Para os que estão familiarisados com o mar, o seu aspecto nesses momentos é extranho; dissera-se que o mar deseja e receia o cyclone. Certos hymeneus, aliás impostos pela natureza, são acolhidos assim. A leôa desejosa foge diante do leão. Tambem a agua tem o seu calor, e dahi lhe vem o estremecimento.
Vae realisar-se o immenso consorcio.
Este consorcio, como as nupcias dos antigos imperadores, celebra-se com exterminações. É uma festa temperada de desastres.
Attenção, ahi vem o facto equinoxial.
Conspira a tempestade. A velha mythologia entrevia essas personalidades indistinctas misturadas á grande natureza diffusa. Eolo harmonisa-se com Boreas. O accordo do elemento com o elemento é necessario. Distribuem entre si a tarefa. Ha impulsões para a vaga, para a nuvem, para o effluvio; a noite é um auxiliar; deve ser empregada. Ha bussolas para desviar, pharóes para apagar, estrellas para esconder. É preciso que o mar coopere. Todas as tempestades são precedidas de um murmurio. Por traz do horisonte ha o cochicho prévio dos furacões.
É o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do silencio assustado do mar.
Gilliatt ouvio esse chochichar tremendo. A phosphorescencia foi a primeira advertencia; o rumor foi a segunda.
Se existe o demonio Legião, esse demonio é o Vento, com certeza.
O vento é multiplo, mas o mar é um.
Dahi esta consequencia: toda tempestade é mixta. A unidade de ar o exige.
Abismo implica tempestade. O oceano inteiro está n'uma borrasca. A totalidade das suas forças entra em linha e toma parte nella. Uma vaga é o golphão de baixo; um tufão é o golphão de cima. Lutar com uma tempestade é lutar com o mar inteiro e o céo inteiro.
Messier, o homem da marinha, o astronomo pensativo da choça de Clerny, dizia: O vento de toda a parte está em todas as partes. Elle não acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares fechados. Para elle não haviam ventos mediterraneos. Dizia que os conhecia na passagem. Affirmava que em tal dia, a tal hora, o Fohn do lago de Constança, o antigo Favonio de Lucrecio, atravessara no horisonte de Paris; em outro dia era o Bora do Adriatico; em outro era o Noto giratorio que se pretende estar encerrado nas Cyclades. Especificava os effluvios. Não pensava que o vento que gira entre Malta e Tunis, e o vento que gira entre a Corsega e as Baleares, estivessem na impossibilidade de se libertarem. Não admittia os ventos, como ursos, fechados em jaula. Dizia: «Todas as chuvas vem do tropico, e todos os raios do polo.» O vento, com effeito, satura-se de electricidade na intercessão dos coluros, que marca as extremidades do eixo, e da agua no equador; traz-nos da linha o liquido e dos polos o fluido.
Ubiquidade é o vento.
Não quer isto dizer que não existam as zonas dos ventos. Nada mais demonstrado que as correntes continuas, e dia virá em que a navegação aérea, servida pelos navios do ar (air-navires) que chamamos, por mania de grego, aeroscaphos, utilisará as linhas principaes. A canalisação do ar pelo vento é incontestavel; ha rios de vento, ribeiros de vento, riachos de vento; sómente ao invez das ramificações da agua, são os riachos que sahem dos ribeiros, e os ribeiros que sahem dos rios, em vez de serem affluentes: em vez de concentração, dispersão.
Essa disposição é que faz a solidariedade dos ventos e a unidade da atmosphera. Uma molecula deslocada desloca outra molecula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas causas do amalgama, acrescentai o relevo do globo, rasgando a atmosphera com todas as suas montanhas, fazendo nós e torções nas carreiras do vento e determinando em todos os sentidos as contra-correntes. Irradiação illimitada.
O phenomeno do vento é a oscilação de dous oceanos um sobre outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de agua, apoia-se nessa fuga e vacilla nessa vacillação.
O indivisivel não usa compartimentos. Não ha tabique entre uma onda e outra. As ilhas da Mancha sentem o empurrão do Cabo de Boa Esperança. A navegação universal faz frente a um monstro unico. Todo o mar é uma só hydra. As vagas cobrem o mar de uma especie de escama. Oceano é Ceto.
Nessa unidade abate-se o inumeravel.
IV
TURBA, TURMA
Para a bussola ha trinta e dous ventos, isto é, trinta e duas direcções; mas essas direcções podem subdividir-se indefinidamente. O vento classificado por direcções, é o incalculavel; classificado por especies, é o infinito.
Homero recuaria ante esse recenceamento.
A corrente polar roça na corrente tropical. Eis o frio e o calor combinados, o equilibrio começa pelo choque, sahe a onda dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A dispersão dos tufões sacode nos quatro cantos do horisonte o prodigioso esgadelhado do ar.
Ahi estão todos os rumos; o vento de Gulf-Stream que despeja tanta nevoa na Terra Nova: o vento do Perú, região de céo mudo onde jamais se ouviram trovoadas; o vento da Nova Escocia onde vôa o grande Auk, Alca impennis, de bico riscado; os turbilhões de Ferro dos mares da China; o vento de Moçambique que maltrata os juncos; o vento electrico do Japão denunciado pelo gong; o vento da Africa que habita entre a montanha da Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadea dahi; o vento do equador que passa por cima dos ventos regulares, e traça uma parabola cujo cimo fica a oeste; o vento plutonico que sahe das crateras e que é o temivel sopro das chammas; o extranho vento proprio do volcão Awa que faz sempre surgir do norte uma nuvem azeitonada; a monção de Java, contra a qual estão construidas aquellas casamatas chamadas casas do furacão; a brisa ramificada que os inglezes chamam busk, bebida; os grãos arqueados do estreito de Malaca observados por Horsfurgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampero no Chile, e Rebojo em Buenos-Ayres, que carrega o condor em pleno mar e o salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pelle de boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de costas e retesando o arco com os pés; o vento chimico que, segundo Lemery, faz nas nuvens pedras de trovoada; o hermatan do Caffres; o sopra-neves polar, que se prende aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golpho de Bengala que vai até Nijni-Novogorod devastar o triangulo das barracas de pão onde se faz a feira da Asia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes vagas e das grandes florestas; o vento dos archipelagos da Australia onde os caçadores de mel arrancam as colmêas silvestres escondidas nos galhos do eucalyptus gigante; o sirocco; o mistral; o hurricana; o vento de secca; os ventos de innundação; os diluvianos; os torridos; os que lançam nas ruas de Genova a poeira das planicies do Brazil; os que obedecem á rotação diurna; os que a contrariam e fazem dizer a Herrera: Malo viento torna contra el sol; os que vão aos pares, para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aquelles ventos antigos que assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde 21 de Outubro a 28 de Novembro de 1520, puzeram em questão Magalhães abordando o Pacifico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram sobre Philippe II.
Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos por cima do oceano; os que operam o que se chama salto de vento e que tem por tarefa acabar com os naufragos; os que, com um sopro unico, deslocam a carga do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os ventos que construem os circumcumuli; os ventos que construem os circumstrati; os pesados ventos cegos, tumidos de chuva; os ventos do graniso; os ventos da febre; os ventos cuja approximação faz ferver os salsos e os solfatarios de Calabria; os ventos que fazem brilhar o pello das pantheras de Africa andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que vem sacudindo fóra da sua nuvem, como uma lingoa trigonocephala, o temivel relampago de forquilha; os que trazem neves negras. Tal é o exercito.
O escolho Douvres, no momento em que Gilliatt construia o quebra-mar, ouvia-lhes o galopo longinquo.
Já o dissemos, o Vento compõe-se de todos os ventos.
Acercava-se toda aquella horda.
De um lado, essa legião.
Do outro, Gilliatt.
V
GILLIATT PÓDE ESCOLHER
As mysteriosas forças escolheram bem o momento.
O acaso, se é que existe, é habil.
Emquanto a pança esteve guardada na angra do Homem, emquanto a machina esteve mettida no casco da Durande, Gilliatt foi inexpugnavel. A pança estava em segurança, a machina estava abrigada; as Douvres, que sustentavam a machina, condemnavam-n'a a uma destruição lenta, mas protegiam-n'a contra uma surpreza. Em todos os casos, ficava a Gilliatt um recurso. A machina destruida não destruia a Gilliatt. Tinha a pança para salvar-se.
Mas esperar que a pança estivesse fóra do ancoradouro, onde era inaccessivel, deixal-a pôr entre as Douvres, esperar que ella lá estivesse presa tambem pelo escolho, consentir que Gilliatt operasse o salvamento e o transporte da machina, não impedir esse maravilhoso trabalho, consentir nesse triumpho, esse era o laço. Via-se agora, como uma especie de lineamento sinistro, a sombria astucia do abysmo.
Agora, a machina, a pança, Gilliatt, estavam todos reunidos na viela dos rochedos. Eram apenas um. A pança esmigalhada no escolho, a machina mettida a pique, Gilliat, affogado, era negocio de um esforço unico num só ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo tempo, e sem dispersão; tudo podia ser destruido de um lance.
Não ha situação mais critica do que a de Gilliatt.
A sphynge possivel, que os sonhadores suspeitam estar no fundo da sombra, parecia propor-lhe este dilemma.
Fica ou parte.
Partir era insensato, ficar era medonho.
VI
O COMBATE
Gilliatt trepou á grande Douvre.
Dahi via todo o mar.
Era sorprehendente o oeste. Sahia delle uma muralha. Muralha de nuvem, tapando a extenção, subia lentamente do horisonte para o zenith. Essa muralha rectilinea, vertical, sem um rombo no alto, sem um rasgão na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda. Era nuvem semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente perpendicular na estremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e offerecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e crescia sem que a cymalha deixasse um instante de ser paralella á linha do horisonte, quasi indistincta na obscuridade que se ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma só peça e silenciosamente. Nenhuma ondulação, nenhuma dobra, nenhuma saliencia. Era lugubre aquella immobilidade em movimento. O sol, livido por traz de uma certa transparencia morbida, alumiava aquelle lineamento de apocalipse. A nuvem invadia já quasi metade do espaço. Dissera-se o medonho talude do abysmo. Era uma como que levantar de montanha de sombra entre a terra e o céo.
Era em pleno dia a ascenção da noite.
Havia no ar um calor de fogão. Uma lixivia de estufa sahia daquelle amontoado mysterioso. O céo, que de azul tornára-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardosia. Embaixo o mar escuro e de chumbo, era outra ardosia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela. Os passaros tinham-se escondido. Sentia-se a traição do infinito.
O crescimento de toda aquella sombra amplificava-se insensivelmente.
A montanha movediça de vapores que se dirigia para as Douvres, era uma dessas nuvens que se podem chamar nuvens de combate. Nuvens vesgas. Atravez daquelles amontoados escuros, extranho estrabismo fita o homem.
Temivel era a approximação.
Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: «Tenho sede, vás dar-me agua.»
Ficou alguns momentos immovel com os olhos fitos na nuvem. Parecia medir a tempestade.
Tinha o barrete no bolso, tirou-o e pol-o na cabeça. Tirou do buraco, onde por tanto tempo dormira, o fato de reserva, e vestio tudo, grevas e capotão, como um cavalleiro veste a armadura para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos, mas os pés descalços tinham-se endurecido nos rochedos.
Preparado o vestuario de guerra, contemplou elle o quebra-mar, empunhou vivamente a corda de nós, desceu da platafórma das Douvres, tomou pé nas rochas debaixo, e correu ao deposito. Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pôde ouvir-lhe os sons do martello. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos prégos, cordas e vigas, construia na abertura de leste uma segunda porta de dez a doze pés por traz da primeira.
Profundo era o silencio. Os talos de herva nas fendas do escolho nem mesmo tremiam.
Subitamente o sol desappareceu. Gilliatt levantou a cabeça.
A nuvem ascendente acabava de attingir o sol. Foi como que uma extinção da luz substituida por uma reverberação mesclada e pallida.
A muralha de nuvem mudara de aspecto. Já não tinha unidade. Encrespara-se horisontalmenle tocando o zenith, pendendo em todo o resto do céo. Tinha agora divisões. A formação da tempestade desenhava-se como em uma secção dividida. Distinguia-se as camadas da chuva e os jazigos do granito. Não havia relampago, mas um horrivel clarão espesso; porque a idéa do horror póde ligar-se á idéa da luz. Ouvia-se o vago respirar da tempestade. Aquelle silencio palpitava obscuramente. Gilliatt, tambem silencioso, via agruparem-se por cima delle todos aquelles montões de bruma e compôr-se a difformidade das nuvens. No horisonte pesava e estendia-se uma facha de nevoeiro côr de cinza, e no zenith uma facha côr de chumbo; lividos farrapos pendiam das nuvens de cima sobre os nevoeiros debaixo. O fundo, que era a parede de nuvens, estava baço, leitoso, terreo, livido, indescriptivel. Uma delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda não se sabe donde, cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No ponto em que tocava na compressão das nuvens, via-se na obscuridade, um abafamento de vapor vermelho. Por baixo da longa nuvem pallida, pequenas nuvens, mui baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras como se não soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de todas as partes a um tempo, augmentava o eclipse, e continuava a sua interposição lugubre. A leste, por traz de Gilliatt, havia apenas um portal de céo claro que ia ser fechado. Sem a menor impressão de vento, passou uma extranha diffusão de penugem cinzenta, esparsa em migalhas, como se algum passaro gigantesco acabasse de ser depennado por traz daquelle muro de tenebras. Formou-se um tecto de negrume compacto que, no extremo horisonte tocava no mar e misturava-se na noite. Sentia-se alguma cousa que se avançava. Era vasta e pesada e medonha. A obscuridade lornava-se mais espessa. De subito roncou immenso trovão.
Gilliatt sentio o abalo. Ha sonho no trovão. Essa realidade brutal na região visionaria tem alguma cousa de terrifico. Acredita-se ouvir a queda de um movel no aposento dos gigantes.
Nenhum flammejar electrico acompanhara o som. Foi um trovão negro. Voltou o silencio. Houve uma especie de intervallo como quando se toma posição. Depois um após outro, e lentamente, romperam-se informes relampagos. Eram todos mudos. Nenhum rugido. Cada relampago illuminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nella abobadas, e arcarias. Viam-se traços. Esboçavam-se monstruosas cabeças; distendiam-se pescoços; entreviam-se e desappareciam elephantes carregados de torres. Uma columna de bruma, recta, redonda, com uma fumaça branca em cima, simulava o cimo de um vapor collossal, engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas de nuvem. Acreditava-se vêr dobras de bandeiras. No centro, debaixo de vermelhas espessuras, mergulhava-se, immovel, um caroço de nevoeiro denso, inerte, impenetravel ás faiscas electricas, especie de feto hediondo no ventre da tempestade.
Gilliatt sentio subitamente que um vento lhe agitou os cabellos. Tres ou quatro largas aranhas de chuva despedaçaram-se em roda delle na rocha. Depois houve um segundo trovão. Começou o vento.
A espera da sombra chegara ao cumulo; o primeiro trovão agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de alto abaixo, abrio-se uma fenda, toda a batega suspensa jorrou por esse lado, o buraco tornou-se uma boca aberta cheia de chuva, e o vomito da tempestade começou.
Tremendo foi o instante.
Aguaceiro, furacão, relampagos, raios, vagas até ás nuvens, espuma, detonações, torções freneticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.
O vento fulminava. A chuva não cahia, desabava.
Para um pobre homem, mettido, como Gilliatt, com um barco carregado, no intervallo de dous rochedos, em pleno mar, não ha crise mais ameaçadora. O perigo da maré, de que Gilliatt triumphára, nada era ao pé do perigo da tempestade. Eis a situação:
Gilliatt, em volta de quem tudo era precipicio, descobrio, no ultimo momento, e diante do risco supremo, uma estrategia engenhosa, Fez ponto de apoio no proprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu adversario, era agora o seu padrinho naquelle immenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquelle sepulchro uma fortaleza. Assestou-se naquelle pardieiro formidavel do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, aggregado ao escolho, face a face com o furacão. Pôr barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a unica cousa que podia fazer. Parece que o oceano, que é um despota pode ser tambem vencido pelas barricadas. A pança podia ser considerada segura por tres lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela grande, penedos selvagens, mais affeitos a produzir naufragios que a impedil-os. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados aos rochedos, tapamento já provado que vencera o rude flux do alto mar, verdadeira porta de cidadella tendo por hombreiras as proprias columnas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que receiar por esse lado. O perigo estava a leste.
A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho de pulverisação. Precisa ao menos duas lumieiras. Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Construia a segunda mesmo com a tempestade.
Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem descahidas. Aquelle vento, que era o galerno antigo, tinha pouco effeito nas Douvres. Assaltava o escolho de travez, e não impeilia a onda nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar em uma rua, esbarrava-se n'uma muralha. A tempestade atacava mal.
Mas os attaques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma viravolta subita. Se essa viravolta se fizesse a leste antes que a segunda claraboia do quebra-mar estivesse construida, o perigo seria grande. A invasão da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e tudo estava perdido.
Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre golpe. Essa é a sua força, esse é o seu defeito. Á força de ser uma raiva, dá lugar á intelligencia, e o homem defende-se; mas debaixo de que destruição! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dilação, nenhuma interrupção, nenhuma trégoa, nenhum descanço para tomar alento. Ha uma não sei que de covardia nessa prodigalidade do inexgotavel.
Toda a immensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres. Ouviam-se vozes sem numero. Quem gritava assim? Estava alli o antigo terror panico. De quando em quando, parecia que era alguem que fallava, como se fizesse um commando. Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquelle grande e magestoso urro que os marinheiros dizem ser a chamada do oceano.
As espiraes indefinidas e fugazes do vento assoviavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daquelles torneamentos, eram atiradas contra os parceis como chapas gigantescas por athletas invisiveis.
A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva em baixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial poderia dar idéa dos fracassos misturados áquellas deslocações do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam immoveis, em outros o vento fazia vinte toesas por segundo. O mar ao longe estava todo branco; dez léguas de agua de sabão enchiam o horisonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por outras, e sobre montões de nuvens vermelhas semelhantes ás brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.
Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorria uma agua incommensuravel, ouviam-se fogos de pelotão no firmamento. Havia no meio do tecto de sombra uma especie de vasta alcofa virada, donde cahiam em confusão, a tromba, a chuva, as nuvens, as côres rubras, os relampagos, a noite, a luz, os raios, tão formidaveis são essas inclinações do golphão!
Gilliatt parecia não attender a nada. Tinha a cabeça inclinada no trabalho. A segunda claraboia começava a levantar-se. A cada trovão respondia elle com uma martellada. Ouvia-se essa cadencia naquelle cahos. Estava com a cabeça descoberta. Uma lufada levou-lhe o chapéo.
Tinha uma sêde ardente. Provavelmente estava com febre. Lagoinhas de chuva tinham-se formado á roda delle nas covas do rochedo. De quando em quando tirava agua com a palma da mão e bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a obra.
Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se não terminasse a tempo o quebra-mar. Porque motivo perder um minuto para ver approvimar-se a face da morte?
A desordem em torno delle era como uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. Ás vezes o raio parecia descer uma escada. As percursões electricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do rochedo. Haviam pedras de chuva da grossura de uma mão fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. Até as algibeiras tinham pedras.
O temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas Douvres; mas Gilliatt tinha confiança nesse tapamento, e com rasão. Esse tapamento, feito do grande pedaço da prôa da Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade é uma resistencia; os calculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si propria elastica, uma reunião de pãos, com a dimensão desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz melhor obstaculo que um breack-water de madeira. O tapamento das Douvres preenchia essas condições; era além disso tão engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martello que mette o prego apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demolil-o, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguio atirar á pança, por cima do obstaculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graças ao tapamento a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esforço. Sentia tranquillamente atraz de si essa raiva inutil.
Os frocos de espuma, sahindo de todos os lados, assemelhavam-se a lã. A agua vasta e irritada afogava os rochedos, trepava por elles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e sahia das massas graniticas por fendas estreitas, especies de bocas inexgotaveis que faziam naquelle diluvio pequenas fontes placidas. Filetes de agua cahiam graciosamente daquelles buracos no mar.
A claraboia de reforço do tapamento de leste estava quasi concluida. Mais umas voltas de cordas e correntes, e approximava-se o momento de tambem lutar esse tapamento.
De subito, fez-se um grande clarão, a chuva e as nuvens separaram-se, era o vento que mudava, uma especie de janella grande crepuscular abrio-se no zenith, e apagaram-se os relampagos; pareceu que estava acabado. Era o começo.
O vento mudou de sudoeste para nordeste.
A tempestade ia recomeçar com uma nova matilha de furacões. Vinha do norte, violento assalto. Os marinheiros chamam a isso o vento de esboroar. O vento do sul tem mais agua, o vento do norte tem mais raios.
Vindo do nordeste, a aggressão ia dirigir-se ao ponto fraco.
Desta vez Gilliatt parou o trabalho, e olhou.
Collocou-se de pé sobre uma saliencia de rochedo inclinado por traz da segunda claraboia quasi terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar fosse afundada, desabaria a segunda, ainda não consolidada, e debaixo dessa demolição, esmagaria Gilliatt, Gilliatt no lugar que escolhera, seria achatado antes de ver a pança e a machina e toda a sua obra abysmar-se no golphão. Tal era a eventualidade. Gilliatt, acceitou-a, e, terrivel, elle a queria.
Nesse naufragio de todas as suas esperanças, morrer primeiro, convinha-lhe a elle; morrer primeiro, porque a machina fazia-lhe o effeito de uma pessoa. Levantou com a mão esquerda os cabellos collados aos olhos pela chuva, apertou o martello, inclinou-se para traz, ameaçante, e esperou.
Não esperou muito.
Um ribombo deu o signal, fechou-se a abertura pallida do zenith, precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tomou-se escuro, e não houve outro facho mais que o relampago. Começava o sombrio ataque.
Possante vagalhão, visivel entre os relampagos, levantou-se a leste além do rochedo Homem. Parecia um grande rolo de vidro. Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo cylindro de trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.
Esse vagalhão chegou ao rochedo Homem, partio-se em dous e continuou. Os dous pedaços juntos tornaram a ligar-se, e fizeram uma grande montanha de agua, e de parallela que estava ao quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a fórma de uma viga.
Atirou-se ao quebra-mar aquelle ariete. Rugia o choque. Tudo desappareceu em espuma.
Não se póde imaginar o que são essas avalanchas de neve que o mar ajunta, e debaixo das quaes engole rochedos de mais de cem pés de altura, taes, por exemplo, como o grande Anderlo, em Guernesey, e o Pinaculo, em Jersey. Em Santa Maria de Madagascar, saltam por cima da ponta de Pintingue.
Durante alguns instantes, o rolo de mar tapou tudo. Só ficou visivel um montão furioso, uma escuma immersa, a alvura de um sudario fluctuando no vento do sepulchro, uma mistura de ruido e de tempestade debaixo da qual trabalhava o exterminio.
Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de pé.
O tapamento resistira. Nenhuma corrente arrebentou, nenhum prégo sahio. O tapamento mostrou á prova as duas qualidades do quebra-mar; foi flexivel como um caniço e solido como uma parede. O vagalhão dissolveu-se em chuva.
A espuma escorrendo ao longo dos zig-zags do estreito foi morrer debaixo da pança.
O homem que fizera aquelle açamo ao oceano não repousou.
A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. O encarniçamento das vagas voltou-se para as partes muradas do escolho. Foi uma tregoa. Gilliatt aproveitou-a para completar a claraboia de traz.
O dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas violencias no flanco do escolho com uma solemnidade lugubre. A urna de agua e a uma de fogo que existem nas nuvens, esvasiava-se sem esgotar nunca. As ondulações altas e baixas do vento, pareciam movimentos de um dragão.
Quando a noite chegou já havia noite; não se pôde reparar nella.
Mas não era obscuridade completa. As tempestades illuminadas e cégas pelo relampago, têm intermittencias de visivel e invisivel. Tudo está claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se á sahida das visões, e á entrada das trevas.
Uma zona de phosphoro, côr da aurora boreal, fluctuava como um farrapo de flamma spectral por traz das espessuras de nuvens. Resultava uma vasta pallidez. As chapas de chuva eram luminosas.
E esses clarões ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Elle voltou-se para o relampago e disse: segura-me a vela!
Com o auxilio dessa claridade póde elle levantar a claraboia de traz, ainda mais acima da da frente. O quebra-mar estava quasi completo. Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo de reforço, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabeça. O vento voltára bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste recomeçava. Gilliatt olhou para o mar. O quebra-mar ia ser atacado outra vez. Vinha um novo vagalhão.
Esse foi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais outro, cinco ou seis em tumulto, quasi juntos; finalmente um ultimo e tremendo.
Este que era um como que total de forças, tinha a figura de uma cousa viva. Não era difficil imaginar naquella intumescencia e naquella transparencia, inauditos aspectos com escamas. Achatou-se e partio-se no quebra-mar. A sua forma quasi animada dilacerou-se num esguicho. Naquelle montão de rochedos e taboas, foi uma especie de esmagamento de hydra. A onda morrendo devastava. Profundo tremor agitou o escolho. Misturava-se a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se á saliva de um leviathan.
A espuma que cahia deixava vêr uma devastação. O vagalhão fez obra. Dessa vez o quebra-mar soffreu um pouco. Uma longa e pesada viga, arrancada da claraboia da frente, foi lançada por cima do tapamento de traz, sobre a rocha inclinada escolhida por Gilliatt para o lugar do combate. Felizmente desta vez não estava elle ahi. Ficaria morto.
Houve na queda da viga uma singularidade, que, impedindo qualquer movimento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer sobresalto perigoso. Foi ainda util por outro modo como se vai vêr.
Entre a saliencia da rocha e o declive interno da garganta, havia um intervallo, um grande hiato semelhante ao encaixe de um machado ou á alveola de um canto. Uma das extremidades da prancha atirada ao ar pela vaga, cahio no meio dessa abertura. A abertura alargou-se.
Gilliatt teve uma idéa.
Pesar na outra extremidade.
A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que alargara, sahia d'ahi como um braço estendido. Essa especie de braço alargava-se paralellamente á facha interna da garganta, e a extremidade livre da prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de dezoito ou vinte pollegadas. Boa distancia para fazer o exforço.
Gilliatt estreitou com os pés, os joelhos e os braços o rochedo e metteu hombros á enorme viga. A viga era comprida, o que augmentava a força do peso. A rocha já estava abalada. Comtudo Gilliatt teve de tentar a cousa quatro vezes. Cahia-lhe dos cabellos mais suor do que chuva. O quarto exforço foi frenetico. Houve um estalo na rocha, a abertura abriu-se como uma boca, e a pesada massa cahio no estreito intervallo com um ruido terrivel, replica aos trovões.
Cahio direita, se esta expressão é possivel, isto é sem quebrar-se.
Imaginae um menhir precipitado todo inteiro.
A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt cedendo ao mesmo tempo, escapou de cahir tambem.
O fundo estava muito atravancado, e tinha pouca agua. O monolitho, n'uma agitação de espuma, que foi respingar em Gilliatt, deitou-se entre as duas grandes rochas paralellas da garganta e fez uma parede transversal, especie de linha de união dos dous rochedos. Tocavam as duas pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou esmigalhado. Resultou dessa queda uma especie de beco sem sahida que ainda hoje pode ser visto. A agua por detraz dessa barra de pedra, é quasi sempre tranquilla.
Era um baluarte aquelle ainda mais invencivel que a amurada da Durande ajustada entre as duas Douvres. Esse tapamento interveio a proposito.
Os vagalhões tinham continuado. A vaga teima sempre contra o obstaculo. A primeira claraboia começava a desarticular-se. Uma malha de quebra-mar desfeita é uma grande avaria. É inevitavel o alargamento do buraco, e nenhum meio póde remediar logo. A vaga carregaria o trabalhador.
Uma descarga electrica, que illuminou o escolho, descobrio a Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas soltas, as cordas e correntes começando a fluctuar ao vento, um rasgão no centro do aparelho. A segunda claraboia estava intacta.
O penedo, tão poderosamente lançado por Gilliatt no intervallo das rochas, por traz do quebra-mar, era a mais solida barreira, mas tinha um defeito; era demaziado baixo. As vagas não podiam rompel-o, mas podiam galgal-o.
Era impossivel faze-lo crescer. Só massas da rocha podiam ser utilmente sobrepostas áquelle tapamento de pedra; mas como arrancar essas massas, como arrastal-as, como levantal-as, como collocal-as, como fixal-as? Pregam-se taboas, não se pregam rochedos.
Gilliatt não era Encelado.
A pouca elevação daquelle pequeno isthmo de granito preocupava Gilliatt.
Breve fez-se sentir o defeito. Os ventos já não deixavam o quebra-mar; já se não encarniçavam, parecia que se applicavam. Ouvia-se naquella construcção abalada uma especie de escouceamento regular.
De repente um pedaço de peça de viga, destacado da dislocação, pulou por cima da segunda claraboia, voou por cima da rocha transversal, e foi cahir na garganta do rochedo, onde a agua a levou pelas sinuosidades da viella. É provavel que fosse esbarrar na pança. Felizmente, no interior do escolho, a agua fechada por todos os lados, mal se resentia da agitação exterior. Havia pouco marulho, e o choque não devia ser forte. Gilliatt nem teve tempo de occupar-se com essa avaria, se avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a tempestade concentrava-se no ponto vulneravel, a imminencia estava diante delle.
Profunda foi, por alguns instantes, a escuridão, interrompeu-se o relampago, connivencia sinistra; a nuvem e a vaga eram a mesma cousa! houve um golpe surdo.
Depois um fracasso.
Gilliatt adiantou a cabeça. A claraboia que tapava a frente estava deslocada. Viam-se as pontas de vigas saltar na vaga. O mar servia-se do primeiro quebra-mar para atacar o segundo.
Gilliatt sentio o que sentiria um general vendo voltar a vanguarda.
A segunda tapagem resistio ao choque. A armadura de traz estava fortemente ligada. Mas a claraboia despedaçada era pesada, estava á disposição das vagas que a atiravam e tomavam, as ligaduras que lhe restavam impediam-n'a de partir-se em pedaços, e mantinham-lhe todo o volume, e as qualidades que Gilliatt lhe dera como apparelho de defeza faziam agora d'aquillo uma excellente ferramenta de destruição. De broquel tornara-se massa. Além disso as fracturas herissavam-n'a, sahiam-lhe pontas em toda ella, cobriam-n'a de dentes esporas. Nenhuma arma contundente mais temivel e propria para ser manejada pela tempestade do que aquella.
Era o projectil, e o mar a catapulta.
Succediam-se os golpes com uma especie de regularidade tragica. Gilliatt, pensativo por traz daquella porta tapada por elle, ouvia esse bater da morte querendo entrar.
Elle refletio amargamente que, se não fosse o cano da Durande tão fatalmente retido no casco estaria áquella hora, e desde manhã, em Guernesey, e no porto, com a pança abrigada e a machina salva.
Realisou-se o tremendo perigo. Fez-se a effração. Foi como uma agonia de moribundo. Todo o madeiramento do quebra-mar, as duas armaduras confundidas e despedaçadas juntas, foi n'uma tromba d'agua rolar no tapamento de pedra como um cahos n'uma montanha, e parou. Foi um travamento informe de pãos embrenhados, penetravel ás vagas, mas pulverisando-as ainda. Aquelle baluarte vencido agonisava heroicamente. O mar quebrou-o, elle quebrava o mar. Derrubado ainda ficava um pouco efficaz. A rocha que senda de tapagem, obstaculo sem recurso possivel, retinha-o pelo pé. A garganta naquelle ponto, era muito estreita; a tempestade victoriosa tinha empurrado, misturado e empilhado todo o quebra-mar naquelle lugar angustioso; a violencia da impulsão, misturando a massa, e mettendo as fracturas umas nas outras, fez daquella demolição uma cousa solida. Estava destruido e inabalavel. Só algumas peças de páo ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga. Uma passou no ar, perto de Gilliatt. Elle sentio o ar agitado pela taboa na fronte.
Mas algumas vagas, essas grossas vagas que nos temporaes voltam sempre, com uma periodicidade imperturbavel, saltavam por cima das ruinas do quebra-mar. Cahiam na garganta, e a despeito dos cotovellos que a viella tinha, chegavam a levantar a agua. A onda do estreito começava a agitar-se de um modo feio. Accentuava-se o beijo obscuro das vagas nas rochas.
Como impedir agora que essa agitação se propagasse até á pança?
Não precisava muito tempo para que toda a agua interior ficasse tempestuosa, e com algumas ondas, a pança seria estripada, e a machina a pique.
Gilliatt scismava tremulo.
Mas não se desconcertou. Para aquella alma havia derrota possivel.
O furacão engolphava-se agora entre as duas muralhas do estreito.
De subito resoou e prolongou-se a alguma distancia por traz de Gilliatt um estalo mais assustador, que tudo quanto Gilliatt até então ouvira.
Era do lado da pança.
Passava-se alli alguma cousa funesta.
Gilliatt correu.
Do lado de leste, onde se achava, não podia elle vêr a pança por causa dos zig-zags da viella. Na ultima volta parou e esperou o relampago.
Rompeu o relampago e mostrou-lhe a situação.
Á vaga da abertura de leste correspondeu um tufão na abertura de oeste. Esboçava-se um desastre.
Á pança não tinha avaria visivel; ancorada como estava, dava pouco flanco, mas o casco da Durande estava em risco de cahir.
Aquella ruina, em semelhante tempestade, apresentava uma victima. Estava toda fora d'agua, no ar, offerecida ao temporal. O buraco que Gilliatt praticára para extrahir a machina enfraquecêra o casco. O barrote da quilha estava cortado. O esqueleto tinha columna vertebral despedaçada.
Soprára em cima o furacão.
Não precisou mais. A amurada dobrou-se como um livro que se abre. Fez-se o desmembramento. Foi estalo que, no meio da tempestade, chegára aos ouvidos de Gilliatt.
O que elle vio ao chegar parecia quasi irremediavel.
A incisão operada por elle tornára-se uma chaga. Dessa abertura fez o vento uma fratura. O córte transversal separava em duas a Durande. A parte posterior, a que ficava em frente de Gilhatt, vizinha da pança, ficára solida nos rochedos. A parte anterior, que fazia face a Gilliatt, estava pendurada. Uma fractura é um gonzo. Aquella massa oscillava sobre as suas fendas, e o vento balançava-a com um tremendo rumor.
Felizmente a pança já não estava em baixo.
Mas o balanço abalava a outra metade do casco, ainda presa e immovel entre as duas Douvres. Do abalo á queda, a distancia era pequena. Com a teima do vento, a parte deslocada podia subitamente arrastar a outra que tocava quasi na pança, e tudo, pança e machina, ficaria engulido.
Gilliatt, tinha isso diante dos olhos.
Era a catastrophe.
Como desvial-a?
Gilliatt, era daquelles que tiram recurso do proprio perigo. Reflectio um momento.
Depois, foi ao deposito e tirou o machado.
O martello trabalhára muito; era chegada a vez do machado.
Gilliatt subio á Durande. Firmou-se na parte do navio, que ainda estava segura, e, inclinado sobre o precipicio do intervallo das Douvres, pôz-se a cortar as taboas quebradas, e tudo quanto ainda prendia o pedaço de casco pendente.
Consummar a separação dos dous pedaços do casco, libertar a metade solida, deitar ao mar aquillo que o vento destruira, dar o quinhão á tempestade, tal era a operação. Era mais perigosa que difficil. A metade pendente do casco, empuchada pelo vento e pelo peso, adheria apenas por alguns pontos. O conjuncto do casco assemelhava-se a um dyptico, partido em dous pedaços, e batendo ambos um no outro. Cinco ou seis peças apenas, vergadas e arrebatadas, mas não completamente soltas, ainda sustentavam o casco. As fracturas guinchavam e alargavam-se a cada sopro do vento, e o machado apenas ajudava. Esta circumstancia, que tornava facil o trabalho, tornava-o arriscado tambem. Tudo podia esboroar ao mesmo tempo debaixo Gilliatt.
A tempestade attingio ao paroxysmo. Até então fôra terrivel, agora fez-se horrivel. A convulsão do mar reproduzio-se no céo. A nuvem até então fôra soberana, parecia executar a sua vontade, dava o impulso, derramava ás vagas a loucura, conservando sempre uma lucidez sinistra. Em baixo havia demencia, em cima colera. O céo era o sopro, o oceano era apenas a espuma. Dahi vem a autoridade do vento. O furacão é genio. Entretanto a embriaguez de seu proprio horror tinha-o perturbado. Agora era o turbilhão. Era a cegueira produzindo a noite. Ha nos temporaes um momento insensato; é para o céo uma especie de sangue que sobe á cabeça. O abysmo já não sabe o que faz. Fulmina ás apalpadellas.
Nada mais horrendo. É a hora hedionda. Chegara ao cumulo o tremor do escolho. A tempestade tem um plano mysterioso; mas nesse instante perde-o. É a má hora da tempestade. Nesse instante, o vento, dizia Thomas Fuller, é um doido furioso. É nesse instante, que as tempestades fazem essa despeza continua de electricidade que Piddington chama a cascata de relampagos. É nesse instante, que apparece nas nuvens mais negras, não se sabe porque e como que para espiar o terror universal aquelle circulo azul que os velhos marinheiros hespanhóes chamavam o olho da tempestade, el ojo de la tempestad. Esse olho lugubre fitava Gilliatt.
Gilliatt de seu lado contemplava a nuvem. Levantou a cabeça. Dava uma machadada e levantava-se altivo. Estava, ou parecia estar demasiado perdido, para que não tivesse orgulho. Desesperava? Não. Ante o supremo accesso de raiva do oceano, Gilliatt era tão prudente quanto audaz. Em cima do casco, só pisava o ponto solido. Arriscava-se e preservava-se. Tambem elle chegára ao paroxismo. Decuplou-se-lhe o vigor. Estava desvairado de intrepidez. Os golpes de machado soavam como desafios. Parecia ter ganho o que tinha perdido a tempesdade. Conflicto pathetico. De um lado o inesgotavel, do outro o infatigavel. Estavam a ver qual dos dous venceria. As nuvens terriveis modelavam na immensidade mascaras de gorgonas, produzia-se toda a intimidação possivel, a chuva surgia das vagas, a espuma tombava das nuvens, curvavam-se os fantasmas dos ventos, faces de meteóro avermelhavam-se e eclypsavam-se, e a obscuridade, apoz tantos desmaios, era monstruosa; havia um só derramamento, vindo por todos os lados ao mesmo tempo; tudo era ebulição; a sombra em massa transbordava; cumulus carregados de graniso, esfarelados, côr de cinza, pareciam andar num frenezim giratorio, havia no ar um rumor de grãos seccos, sacudidos n'uma peneira, as eletricidades inversas observadas por Volta faziam de nuvem em nuvem os fulminantes disparos, os prolongamentos do raio eram terrificos, os relampagos aproximava-se em torno de Gilliatt. O abysmo parecia espantado. Gilliatt andava na Durande fazendo tremer o tombadilho debaixo dos pés, batendo, cortando, rachando, machado em punho, livido diante dos relampagos, esguedelhado, descalço, rôto, com a face coberta dos escarros do mar, grande naquella sentina de trovões.
Contra o delirio das forças, só a destreza póde luctar. A destreza era o triumpho de Gilliatt. Elle queria uma queda de todo o destroço deslocado. Por isso enfraqueceu as fracturas sem rompel-as completamente, deixando algumas fibras que sustentavam o resto. Subitamente parou com o machado no ar, a operação estava acabada. Todo o pedaço destacou-se.
Essa metade do casco rolou entre as duas Douvres abaixo de Gilliatt, que ficou em pé n'outra metade inclinado e olhando; mergulhou-se perpendicularmente, arrombou os rochedos e parou na garganta antes de chegar ao fundo. Ficou uma parte fora d'agua, tanto quanto era sufficiente para dominar a onda mais de doze pés; foi mais uma barricada entre as duas Douvres; bem como a rocha atirada no estreito, deixava apenas filtrar um pouco de espuma nas suas extremidades, e foi essa a quinta barricada improvisada por Gilliatt, contra a tempestade, naquella rua do mar.
O furacão, cégo, trabalhava a ultima.
Foi uma felicidade que o angustiado das paredes internas impedisse de ir ao fundo aquella tapagem. Dava-lhe mais altura; demais a agua podia passar por baixo do obstaculo, o que affectava a força das ondas. Aquillo que passa por baixo não salta por cima. É esse em parte o segredo de quebra-mar fluctuante.
De ora ávante, houvesse o que houvesse, já não havia que receiar nem quanto á pança, nem quanto á machina. A agua já não podia agitar-se a roda dellas. Entre a tapagem das Douvres que as cobria a oeste, e o navio, tapamento que as protegia a leste, nenhuma onda, nenhum vento poderia attingil-as.
Gilliatt tirára da catastrophe a salvação. Ajudára-o a tempestade.
Feito isto apanhou um punhado de agua da chuva, bebeu e disse á nuvem: Cantaro!
É uma alegria ironica para a intelligencia combatente attestar a vasta estupidez das forças furiosas concluindo por prestar serviços, e Gilliatt sentio essa immemorial necessidade de insultar o inimigo, que remonta aos heróes de Homero.
Gilliatt desceu á pança e aproveitou os relampagos para examinal-a. Era tempo que a pobre barquinha fosse soccorrida; tinha sido muito sacudida e começava a arquear. Gilliatt, com aquelle olhar summario, não vio nenhuma avaria. Comtudo, era certo que ella devia ter recebido violentos choques. Acalmada a agua, endireitou o casco; as ancoras portaram-se bem; quanto á machina, as quatro correntes mantiveram-n'a admiravelmente.
Quando Gilliatt acabava a revista, uma cousa branca passou por elle e margulhou na sombra. Era uma gaivota.
Não ha melhor apparição nas tempestades. Quando os passaros chegam, é que a tempestade vae-se embora.
Outro signal excellente, o trovão redobrava.
As supremas violencias da tempestade desorganisam-n'a. Todos os marinheiros o sabem, a ultima prova é rude, mas curta. O excesso do raio annuncia-lhe o fim.
A chuva parou repentinamente. Depois houve apenas um ruido nas nuvens. O temporal cessou como uma prancha que cahe no chão. Quebrou-se por assim dizer. Desfez-se a immensa machina das nuvens. Uma fenda de céo claro disjungio as trevas. Gilliatt ficou espantado; era dia claro.
A tempestade durára quasi vinte horas.
O vento que a trouxera levou-a. Um desabamento de escuridão depressa encheu o horisonte. As brumas rotas e fugitivas amontoaram-se em tumulto, houve de uma ponta á outra da linha do horisonte um movimento de retirada, ouvio-se um longo rumor decrescente, cahiram algumas gotas ultimas de chuva, e toda aquella sombra cheia de trovões foi-se como uma turba de carros terriveis.
Bruscamente fez-se azul o céo.
Gilliatt reparou que estava cançado. O somno abate-se sobre a fadiga como uma ave de rapina. Gilliatt deixou-se cahir na barca sem escolher lugar e dormio. Ficou assim algumas horas inerte e estendido, pouco distincto das pranchas e barrotes entre os quaes adormecera.
LIVRO QUARTO
O forro do obstaculo
I
QUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM TENHA
Quando Gilliatt acordou teve fome.
Acalmava-se o mar. Havia porém alguma agitação ao largo, que impedia a partida immediata. Demais o dia já estava adiantado. Com o carregamento da pança, para chegar a Guernesey antes de meia noite, era preciso sahir de manhã.
Embora a fome urgisse, Gilliatt começou por despir-se, unico meio de aquecer-se.
As roupas estavam molhadas da chuva, mas a agua da chuva lavára a agua do mar, o que fez com que agora podessem sêccar as roupas.
Gilliatt apenas ficou com as calças, que arregaçou até os joelhos.
Estendeu, com pesos em cima, nas saliencias do rochedo, todo o resto da roupa.
Depois pensou em comer.
Gilliatt recorreu á faca que teve o cuidado de afiar e tel-a em bom estado, e arrancou do granito alguns mariscos. Comeu-os crús. Mas depois de tantos trabalhos, fraca era a pitança. Já não tinha biscouto. Quanto á agua, não lhe faltava. Estava mais que saciado, estava innundado.
Aproveitou a vasante para perlustrar os rochedos á cata de lagostas. Já havia muita rocha descoberta; podia apanhar boa caça.
Sómente não reflectia elle que já não podia cozer peixe algum. Se tivesse de ir ao deposito veria tudo derrubado pela chuva. O pão e o carvão estavam encharcados, e da provisão de estopa, que lhe servia de isca, não tinha um fio que não estivesse molhado. Não havia meio de saccar fogo.
De resto, o folles estava desorganisado; a tempestade saqueou-lhe o laboratorio. Com o resto da ferramenta, Gilliatt, a rigor, podia ainda trabalhar de carpinteiro, não de forja. Mas Gilliatt, naquelle momento não pensava na officina.
Empuxado pelo estomago, sem mais reflexão, entrou a procurar comida. Errava, não na garganta do escolho, mas fóra, nas dobras dos cachopos. Foi desse lado que a Durande, dez semanas antes, esbarrára nas pedras.
Para a caça que Gilliatt fazia, o exterior da viella valia mais que o interior. Os carangueijos, nas aguas baixas, tem costume de tomar ar. Aquecem-se ao sol. Amam o sol aquelles entes disformes. É uma cousa estranha a sahida delles em plena luz. Quasi indigna-se a gente com elles. Quando os vemos, com o seu aspecto obliquo, subir pesadamente, um por um, os andares inferiores dos rochedos como degráos de uma escada, acreditamos por força que o oceano tambem tem os seus piolhos.
Desses piolhos vivia Gilliatt ha dous mezes.
Comtudo nesse dia os carangueijos e as lagostas andavam escondidos. A tempestade empurrára aquelles solitarios para os seus esconderijos, e ainda não se animavam a sahir. Gilliatt tinha na mão a faca aberta, e arrancava de quando em quando uma concha debaixo do sargaço. Comia andando.
Não devia estar longe do lugar onde se perdera o Sr. Clubin.
Quando Gilliatt já se resignara aos ouriços e castanhas do mar, fez-se um movimento a seus pés. Um grande carangueijo, assustado com a presença delle tinha pulado na agua. O carangueijo não mergulhou tanto que Gilliatt não o visse.
Gilliatt começou a correr atraz do carangueijo no esvasamento da rocha. O carangueijo fugia.
De repente não vio mais nada.
O carangueijo mettera-se por algum buracco debaixo do rochedo.
Gilliatt atracou-se aos relevos da pedra e esticou o pescoço para ver se via alguma cousa.
Havia com effeito uma anfractuosidade. O carangueijo devia ter-se refugiado ahi.
Era mais que uma fenda, era um portico.
O mar entrava por baixo desse portico, mas não era profundo. Via-se o fundo coberto de pedrinhas. Essas pedrinhas eram esverdeadas e revestidas de filamentos, o que indicava que nunca estavam a secco. Assemelhavam-se a cabeças de criança com cabellos verdes.
Gilliatt pôz a faca nos dentes, desceu do alto da rocha e saltou na agua. Teve agua quasi até os hombros. Metteu-se pelo portico. Achou-se num corredor gasto, com um esboço de abobada ogiva por cima. As paredes eram polidas e lizas. Já não via o carangueijo. Tomára pé. Caminhava e dimimuia-se a luz. Começou a não vêr cousa alguma.
Depois de quinze passos, cessou a abobada. Estava fóra do corredor. Havia mais espaço, e por consequencia mais luz; as pupillas tinham-se-lhe dilatado; via bem. Teve uma surpresa.
Acabava de entrar naquella cava estranha visitada por elle um mez antes.
Sómente, desta vez entrou pelo mar.
Aquella arcaria que elle vira afogada, era a mesma por onde agora passou. Em certas marés baixas era praticavel.
Os olhos iam-se acostumando ao lugar. Via cada vez melhor. Estava estupefacto. Tornava achar aquelle extraordinario palacio da sombra, aquella abobada, aquelles pilares, aquelles rubros, aquella vegetação de pedras, e no fundo aquella crypta, quasi santuario, e aquella pedra, quasi altar.
Não se lhe despertavam muito os pormenores, mas tinha no espirito a idéa do todo, e reconheceu.
Via diante delle, em certa altura, na rocha, o buraco por onde penetrou a primeira vez, e que, do ponto onde estava agora, parecia inaccessivel.
Tornava a ver perto da arcaria ogiva as grotas baixas e obscuras, especie de cavas na cava, que já observára de longe. A que ficava mais perto delle estava a secco e era facil de se lhe chegar.
Mais perto ainda que essa descobrio elle, ao alcance da mão, uma fenda horisontal no granito. Provavelmente estava alli o caranguejo. Metteu a mão o mais que pôde, e procurou ás apalpadellas naquelle buraco de trevas.
De repente sentio que lhe agarravam no braço.
O que elle experimentou nesse momento foi o horror indescriptivel.
Uma cousa que era delgada, aspera, chata, gelada, pegajosa e viva torcia-se na sombra á roda de seu braço nú, e subia-lhe para o peito. Era a pressão de uma corrêa, e o impulso de uma verruma. Em menos de um segundo, uma especie de espiral tinha-lhe invadido o punho e o cotovello e tocava-lhe o hombro. A ponta mettia-se-lhe no sovaco.
Gilliatt atirou-se para traz, e mal pôde fazel-o. Estava como que pregado. Com a mão esquerda que ficava livre pegou na faca que tinha entre os dentes, e com essa mão, que segurava a faca, apoiou-se no rochedo com um esforço desesperado para saccar o braço. Só conseguio inquietar a ligadura, que se apertou mais. Era flexivel como o couro, solida como o aço, fria como a noite.
Outra corrêa, estreita e pontuda, sahio do buraco da rocha. Era uma especie de lingua sahindo de uma goela. Lambeu medonhamente o corpo nú de Gilliatt, e de repente, esticando-se, desmedida e fina, applicou-se-lhe na pelle e enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um soffrimento inaudito, sem comparação neste mundo, levantava os musculos de Gilliatt. Sentia que lhe abriam a pelle em muitos pontos, de um modo horrivel. Parecia-lhe que innumeros labios, pregados á carne, procuravam beber-lhe o sangue.
Terceira corrêa sahio fóra do rochedo, apalpou Gilliatt, e chicoteou-lhe os lados como uma corda. Afinal fixou-se como as outras.
A angustia, no paroxysmo, é muda. Gilliatt não soltou um grito. Havia bastante luz para que elle podesse ver as fórmas repellentes applicadas ao corpo delle.
Quarta ligadura, esta rapida como uma flecha, saltou-lhe em roda do ventre e enrolou-se-lhe.
Era impossivel cortar nem arrancar aquellas corrêas viscosas que adheriam estreitamente ao corpo de Gilliatt e por muitissimos pontos. Cada um desses pontos era um fogo de terrivel e estranha dôr. Era o que sentiria quem fosse engolido ao mesmo tempo por uma porção de bocas pequeninas.
Quinta ligadura rompeu do tronco. Sobrepôz-se aos outros e foi enroscar-se no diaphragma de Gilliatt. A compressão ajuntava-se á anxiedade. Gilliatt mal podia respirar.
Aquellas ligaduras, pontudas na extremidade, iam alargando como laminas de espada para o punho. Todas cinco pertenciam evidentemente ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam-se para Gilliatt. Elle sentia deslocar-se essas pressões obscuras que lhe pareciam bocas.
Bruscamente uma larga viscosidade redonda e chata sahio de dentro da rocha. Era o centro; as cinco ligaduras prendiam-se a elle, como raios a um eixo; ditistinguiam-se do lado opposto daquelle disco immundo o começo de outros tres tentaculos, presos no fundo do buraco. No meio dessa viscosidade haviam dous olhos.
Olhavam elles para Gilliatt.
Gilliatt reconheceu que era uma pieuvre.
II
O MONSTRO
Para acreditar na pieuvre é preciso tel-a visto.
Comparadas á pieuvre, as velhas hydras fazem sorrir.
Em certos momentos parece que o elemento fugitivo que fluctua em nossos sonhos, encontra na realidade imans aos quaes esses lineamentos se prendem, e dessas obscuras ficções do sonho surgem creaturas. O ignoto dispõe do prodigio e serve-se delle para compôr o monstro. Orpheu, Homero e Hesiodo só poderam fazer a chimera; Deos fez a pieuvre.
Quando Deos quer excede no execravel.
A razão desta vontade é o medo do pensador religioso.
Admittidos todos os ideaes, se o terror é um fim, a pieuvre é uma obra prima.
A baleia é enorme, a pieuvre é pequena; o hypopotamo tem uma couraça, a pieuvre é núa: a jararaca tem um silvo, a pieuvre é muda; o rhinoceronte tem um chifre, a pieuvre não tem chifre; o scorpião tem um dardo, a pieuvre não tem dardo; o macaco tem uma cauda, a pieuvre não tem cauda; o tubarão tem barbatanas cortantes, a pieuvre não tem barbatanas; o vespertilio-vampiro tem azas com unhas, a pieuvre não tem azas; o porco espinho tem espinhos, a pieuvre não tem espinhos; o espadarte tem um gladio, a pieuvre não tem gladio; o torpedo tem um raio, pieuvre não tem raio; o sapo tem um virus, a pieuvre não tem virus; a vibora tem um veneno, a pieuvre não tem veneno; o leão tem garras, a pieuvre não tem garras; o gypoéte tem um bico, a pieuvre não tem bico; o crocodilo tem uma guela, a pieuvre não tem dentes.
A pieuvre não tem massa muscular, nem grito ameaçador, nem couraça, nem chifre, nem dardo, nem cauda, nem barbatanas, nem azas, nem espinhos, nem espada, nem descarga electrica, nem virus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. A pieuvre é de todos os animaes o mais formidavelmente armado.
O que é então a pieuvre? É a ventosa.
Nos escolhos em pleno mar, onde a agua mostra e esconde todos os seus esplendores, nas cavas de rochedos não visitadas, nas cavas desconhecidas aonde abundam as vegetações, os crustaceos e as conchas, debaixo dos profundos porticos do occeano, o nadador que se arrisca, arrastado pela belleza do lugar, corre o risco de um encontro. Se tiveres esse encontro não sejas curioso, foge. Entra-se fascinado, sahe-se apavorado.
Eis o que é esse encontro sempre possivel nas rochas do mar alto.
Uma fórma cinzenta oscilla n'agua, da grossura de uma braça e de meia vara de comprido; é um trapo; essa fórma assemelha-se a um guarda-chuva sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para o homem. De repente abre-se, oito raios sahem bruscamente da roda de uma face que tem dous olhos; esses raios vivem; flammejam ondeando; é uma especie de roda desenrolada, tem quatro ou cinco pés de diametro. Desentolamento medonho. Atira-se ao infeliz.
A hydra harpôa o homem.
Este animal applica-se á sua presa, cobre-a, envolve-a com os seus longos braços. Por baixo é amarelada, por cima é terrea; nada póde imitar esse inexplicavel matiz de poeira; dissera-se um animal feito de cinza, e morando n'agua. É arachnida pela fórma, e cameleão pelo colorido. Irritada, torna-se roxa. Cousa horrivel, é flacida.
Os seus nós garroteara; o seu contacto paralysa.
Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. É a molestia feita monstruosidade.
Não se póde arrancal-a; agarra-se estreitamente á sua presa; como? Pelo vacuo.
As oito antenas largas na origem, vão estreitando-se e terminam como agulhas: debaixo de cada uma dellas alongam-se parallelamente duas filas de pustulas decrescentes, as grossas perto da cabeça, as pequenas na ponta, e cada fila tem vinte e cinco. Ha cincoenta pustulas em cada antenna, e todo o animal tem quatrocentas. Essas pustulas são ventosas.
As ventosas são cartilagens cilyndricas e lividas. Na grande especie vão diminuindo de diametro—desde uma moeda de cinco francos até á grossura de uma lentilha. Esses pedaços de tubos sahem e entram no animal. Podem metter-se no corpo de um homem mais de uma pollegada.
Este apparelho de sucção tem a delicadeza de um teclado. Levanta-se, esconde-se. Obedece á menor intensão do animal. As sensibilidades mais delicadas não igualam á contractibilidade dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes externos. Este dragão é uma sensitiva.
Este monstro é aquelle que os marinheiros chamam polvo, que a sciencia chama cephalopode, e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros inglezes chamam-no devil-fish, o peixe diabo. Chamam-no tambem blood-sucker, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam-na pieuvre.
É muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito grande e frequente em Serk.
Uma estampa da edição de Buffon por Sonnini representa um cephalopode estreitanto uma fragata. Dionizio Monfort pensa que na verdade o polvo das altas latitudes póde metter um navio a pique. Bory Saint-Vincent nega-o, mas attesta que nas nossas regiões o polvo attaca o homem. Quem for a Serk verá perto de Brecq-Hou o buraco do rochedo onde uma pieuvre ha annos agarrou, reteve e affogou um pescador de lagostas. Peron e Lamarck, enganam-se quando duvidam que o polvo não tendo barbatanas possa nadar. Aquelle que escreve estas linhas, vio com seus proprios olhos em Serk, na cova das Lojas, uma pieuvre perseguir a nado um homem que tomava banho. Foi morta e medida; tinha quatro pés inglezes de largura e pôde-se contar quatrocentos chupadores. O bicho agonisante atirava-os para longe de si convulsamente.
Segundo Dionizio Montfort, um desses observadores, cuja alta intuição faz descer ou subir até o magismo, o polvo tem quasi as paixões de homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo é odiar.
O disforme debate-se debaixo de uma necessidade de eliminação que o torna hostil.
A pieuvre nadando conserva-se por assim dizer na bainha. Nada com as antennas fechadas. Imaginem uma manga cozida com um punho dentro. Esso punho, que é a cabeça, impelle o liquido e avança com um vago movimento ondulatorio; os dous olhos, embora grandes, são pouco distinctos por serem da côr da agua.
A pieuvre quando espreita caça esquiva-se; diminue-se, condensa-se; reduz-se á mais simples expressão. Confunde-se com a penumbra. Parece uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo, excepto a cousa viva.
A pieuvre é o hypocrita. Não se rapara nella; repentinamente abre-se.
Que ha ahi de mais medonho que isso; uma viscosidade com uma vontade! O viscoso amaçado de odio.
É no mais bello azul d'agua limpida, que surge essa hedionda estrella voraz do mar. O que é terrivel, é que não se sente de longe. Quando a gente a vê, já está agarrada.
Comtudo á noite, e particularmente na estação do desejo, a pieuvre é phosphorica; aquelle pavor tem os seus amores. Aguarda o hymeneu. Faz-se bella, illumina-se, e do alto de algum rochedo, póde-se vel-a nas profundas trevas aberta n'uma irradiação, sol espectro.
A pieuvre anda; tambem nada. É um tanto peixe e um tanto reptil. Arrasta-se no fundo do mar. Utilisa as suas oito pernas. Roja-se como a lagarta.
Não tem osso, nem sangue e nem carne. É flacida. Não tem nada dentro. É uma pelle. Póde-se virar-lhe os tentaculos de dentro para fóra, como dedos de uma luva.
Tem um só orificio no centro dos oito raios.
É fria toda ella.
Repelente bicho, é um do mediterraneo. É um contacto hediondo, essa gelatina animada que envolve o nadador, onde as mãos mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem matar, e que se pucha sem tirar, especie de creatura resvaladiça e tenaz, que escorrega entre os dedos; mas nada iguala a subita apparição da pieuvre, Medusa servida por oito serpentes.
Não ha aperto igual ao do cephalopode.
É uma machina pneumatica que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes; uma scarificação indisivel. Uma mordedura é temivel; é menos ainda que uma sucção. A garra não iguala a ventosa. A garra, é o animal que entra na carne; a ventosa é o homem que entra no bicho. Incham-se os musculos, torcem-se as fibras, rebenta a pelle, debaixo de um peso immundo, jorra o sangue, mistura-se horrivelmente á limpha do mollusco. O bicho sobrepõe-se ao homem por mil bocas infames; a hydra iucorpora-se ao homem; o homem amalgama-se á hydra. Ficam sendo um só. Pesa aquelle sonho. O tigre póde apenas devorar; o polvo (horror!) aspira. Pucha o homem a si e em si, e, atado, enviscado, impotente, o homem sente-se lentamente esvasiado naquelle terrivel sacco, que é um monstro.
Além do terrivel, que é ser comido vivo, ha o inexprimivel, que é ser bebido vivo.
Essas estranhas animações são ao principio regeitadas pela sciencia, segundo o habito de sua excessiva prudencia; depois estuda-os, descreve-os, classifica-os, inscreve-os, põe-lhes rotulos, procura exemplares; expõe-nos em museos; elles entram na nomenclatura; ella os qualifica molluscos, invertebrados, raiados; verifica-lhes as fronteiras; um pouco além os calmares, um pouco aquem os depiarios; para estas hydras da agua salgada acham um analogo na agua doce, o argyronete; divide-as em grande, media e pequena especie; admitte mais facilmente a pequena especie que a grande, o que é, em todas as regiões, a tendencia da sciencia, a qual é mais microscopica que telescopica; olha a sua construcção e chama-os cephalopodes; contam-se as suas antennas e chama-os octopedes. Feito isto, deixa-os assim. Onde a sciencia os larga, a philosophia os retoma.
A philosophia estuda por sua vez esses entes. Ella vae menos longe e mais longe que a sciencia. Não os disseca, medita-os. Onde o scalpello trabalhou, immerge a hypothese. Procura a causa final. Profundo tormento de pensador. Essas creaturas o inquietam quasi sobre o creador. São as sorprezas hediondas. São os perturbadores do contemplativo. Elle as verifica desvairado. São as formas intencionaes do mal. Que fazer diante dessas blasphemias da creação contra si propria? A quem deve elle queixar-se?
O possivel é uma matriz formidavel. O mysterio concreta-se em monstros. Lanhos de sombra sahem deste penedo,—a imminencia,—rasgam-se, destacam-se, rolam, fluctuam, condensam-se, enchem-se do negrume ambiente, recebem as polarisações desconhecidas, tomam vida, compõem uma forma com a obscuridade e uma alma com o miasma, e vão-se, larvas, atravez da vitalidade. É alguma cousa semelhante ás trevas feitas animaes. Porque? para que? Volta a questão eterna.
Esses animaes são fantasmas e monstros, a um tempo. São provados e improvaveis. Ser, é o facto, não ser, é o direito. São os amphibios da morte. A sua inverosimilhança complica a sua existencia. Tocam a fronteira humana e povoam o limite chimerico. Negaes o vampiro, apparece a pieuvre. É uma certeza que desconcerta a nossa segurança. O optimismo, que é a verdade, perde-se quasi diante delles. São a extremidade visivel dos circulos negros. Marcam a transição da nossa realidade a outra. Parecem pertencer a esse começo de entes terriveis que o sonhador entrevê confusamente na noite.
Esses prolongamentos de monstros, no invisivel, no principio, no possivel depois, foram suspeitados, vistos talvez, pelo extasis severo, e pelo olhar fixo dos magos e dos philosophos. Dahi a conjectura de um inferno. O demonio é o tigre do invisivel. A besta feroz das almas foi denunciada ao genero humano por dous visionarios, um que se chama João, outro que se chama Dante.
Se com offeito os circulos da sombra continuam indefinidamente, se depois de um annel ha outro, se isto vai em progressão illimitada, se existe a cadêa, de que estamos resolvidos a duvidar, é certo que a pieuvre numa extremidade prova Satanaz na outra.
É certo que o mal n'um limite prova a maldade no outro.
Todo o animal feroz, como toda intelligencia perversa, é sphynge.
Sphynge terrivel, propondo o enigma terrivel. O enigma do mal.
Essa perfeição do mal é que faz inclinar ás vezes os grandes espiritos para a crença do Deos duplo, para o tremendo bifronte dos manicheos.
Uma rede chineza, roubada na ultima guerra, no palacio do imperio da China, representa o tubarão comendo o crocodilo, o qual come a serpente, a qual come a aguia, a qual come a andorinha, a qual come a lagarta.
Toda a natureza devora ou é devorada. As prezas mastigam-se umas ás outras.
Entretanto os sabios que tambem são philosophos, e por consequencia benevolos para a creação acham ou acreditam achar a explicação disto. O fim destas cousas apparece, entre outros, a Bonnet de Genebra, aquelle mysterioso espirito exacto, que foi opposto a Buffon, como mais tarde Geoffroy Saint-Hilaire o foi a Cuvier. A explicação dizem ser esta: a morte exige a inhumação. Esses vorazes são coveiros.
Todas as creaturas entram umas nas outras. Podridão é alimentação. Assustadora limpeza do globo. O homem, carnivoro, tambem é a lei terrifica. Somos sepulchros.
No nosso mundo crepuscular, esta fatalidade da ordem produz monstros. Perguntais: Porque? É por isto.
Será isto a explicação? Será esta a resposta? Mas então porque não será outra a ordem? Reapparece a questão.
Vivamos, seja.
Mas façamos com que a morte nos seja progresso. Aspiremos aos mundos menos tenebrosos.
Sigamos a consciencia que nos leva para lá.
Porquanto, não o esqueçamos nunca, o preferivel só é achado pelo melhor.
III
OUTRA FORMA DE COMBATE NO ABYSMO
Tal era o animal a quem, desde alguns instantes, Gilliatt pertencia.
Aquelle monstro era o habitante daquella grota. Era o medonho genio do lugar. Especie de sombrio demonio da agua.
Todas essas magnificencias tinham por centro o horror.
Um mez antes, no dia em que pela primeira vez Gilliatt penetrou na caverna, a fórma escura, entrevista por este nas dobras da agua secreta, era aquella pieuvre.
Estava ella em sua casa.
Quando Gilliatt entrando pela segunda vez na caverna, em busca do carangueijo, vio o buraco onde pensou que o carangueijo se tivesse refugiado, a pieuvre estava no seu buraco á espreita.
Póde-se imaginar esta espera?
Nenhum passaro ousaria chocar, nenhum ovo ousaria abrir, nenhuma flôr ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar, nenhum coração ousaria amar, nenhum espirito ousaria voar, se se pensasse nas sinistras emboscadas do abysmo.
Gilliatt mettêra o braço no buraco; a pieuvre agarrou-o.
Gilliatt estava preso.
Era a mosca daquella aranha.
Gilliatt tinha agua até á cintura, os pés agarrados nos seixos arredondados e resvaladiços, com o braço direito atado pelas corrêas da pieuvre, e o tronco do corpo desapparecendo quasi debaixo das dobras e crusamentos daquella atadura horrivel.
Dos oito braços da pieuvre, tres adheriam á rocha, cinco adheriam a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por um lado e ao homem pelo outro, encadeava Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha em si duzentos e cincoenta chupadores. Complicação de angustia e de enjôo. Estava apertado dentro de uma grande mão, cujos dedos elasticos e do comprimento de um metro, são inteiramente cheios de pustulas vivas que lhe foçavam na carne.
Já o dissemos, não se pode arrancar a pieuvre. Quem o tenta, fica mais fortemente amarrado. Ella aperta-se mais. O seu esforço cresce na razão do esforço do homem. Quanto maior é a sacudidella, maior é a constricção.
Gilliatt só tinha um recurso, a faca.
Tinha a mão esquerda livre; é sabido que elle usava della poderosamente. Podia dizer-se que tinha duas mãos direitas.
Nessa mão, tinha elle a faca aberta.
Não se cortam as antennas da pieuvre; é um couro impossivel de cortar, resvala debaixo da lamina; demais a superposição é tal que um córte nessas corrêas iria até á carne.
O polvo é formidavel, ha comtudo uma maneira de vencê-lo. Os pescadores de Serk o sabem; quem os vio executar no mar certos movimentos bruscos, tambem o sabe. Os ouriços do mar tambem conhecem esse modo; têm uma maneira de morder a siba que lhe córta a cabeça. Dahi vem que se encontram muitas sibas e pieuvres sem cabeça no mar alto.
O polvo, na verdade, só é vulneravel na cabeça.
Gilliatt não o ignorava.
Nunca tinha visto uma pieuvre daquelle tamanho. Logo da primeira vez, achava-se agarrado pela grande especie. Qualquer outro ter-se-hia perturbado.
Ha um momento para vencer a pieuvre, como o touro; é o instante em que o touro curva o pescoço, é o instante em que a pieuvre estica a cabeça; instante rapido. Quem o deixa escapar está perdido.
Tudo o que acabamos de dizer passou-se em alguns minutos. Gilliatt sentia crescer a sucção das duzentas e cincoenta ventosas.
A pieuvre é traidora. Procura apavorar a presa. Agarra, e espera o mais que póde.
Gilliatt tinha a faca na mão. As sucções augmentavam.
Elle olhava para a pieuvre, a pieuvre olhava para elle.
De repente o bicho desprendeu do rochedo a sexta antenna e atirando-a sobre Gilliatt procurou agarra-lhe o braço esquerdo.
Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabeça. Mais um segundo, e a sua boca applicar-se-hia sobre o peito de Gilliatt. Gilliatt sangrado no corpo e preso pelos braços, estava morto.
Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava.
Evitou a antenna, e no momento em que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a sua mão armada abateu-se sobre o bicho.
Houve duas convulsões em sentido inverso, a da pieuvre e a de Gilliatt.
Foi luta de dous relampagos.
Gilliatt mergulhou a ponta da faca na viscosidade chata e com um movimento giratorio semelhante á torção de uma chicotada, fazendo um circulo á roda dos dous olhos arrancou a cabeça como quem arranca um dente.
Estava acabado.
O bicho cahio.
Parecia uma roupa que se desprende. Destruida a bomba aspirante, desfez-se o vacuo. As quatrocentas ventosas largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquelle andrajo foi ao fundo d'agua.
Gilliatt, offegante da luta, pôde vêr a seus pés em cima das pedras do fundo dous montes gelatinosos e informes, a cabeça de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque não se poderia dizer corpo.
Gilliatt, com tudo, receiando algum ataque convulsivo da agonia collocou-se fóra do alcance dos tentaculos.
Mas o animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca.
IV
NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE
Era tempo de matar a pieuvre. Gilliatt estava quasi sem folego; tinha o braço direito e o corpo rôxos; esboçavam-se nelles mais de duzentos tumores; alguns vertiam sangue. O remedio para essas lesões é a agua salgada; Gilliatt mergulhou n'agua. Ao mesmo tempo esfregava-se com a palma da mão e os tumores desappareciam.
Recuando e mergulhando n'agua, achou-se elle proximo da especie de cava que ficava ao pé do buraco onde a pieuvre o agarrou.
A cava prolongava-se obliquamente, e a secco, debaixo das grandes paredes da caverna. Os seixos que alli se tinham ajuntado levantavam o fundo acima das marés ordinarias. Essa anfractuosidade, era um largo cimbrio abatido, um homem podia entrar curvando-se. A claridade verde da caverna penetrava ahi e illuminava-a fracamente.
Aconteceu que, esfregando a pelle entumecida, Gilliatt levantou machinalmente os olhos.
Olhou para dentro da cava.
Estremeceu.
Pareceu-lhe vêr no fundo desse buraco, na sombra, uma especie de cara rindo.
Gilliatt ignorava a palavra allucinação, mas conhecia a cousa. Os mysteriosos encontros com o inverosimil que chamamos allucinações, existem na natureza. Illusões ou realidades, as visões apparecem. Quem está presente, vê-as passar. Gilliatt, como dissemos, era um pensativo. Tinha a grandeza de ser ás vezes allucinado como um propheta. Não se é impunemente sonhador dos lugares solitarios.
Acreditou em uma dessa miragens das quaes, homem nocturno como era, mais de uma vez teve medo.
A anfractuosidade figurava exactamente um forno de cal. Era um nicho baixo, em fórma de asa de cesto, cujas curvaturas abruptas iam extreitando-se até á extremidade da crypta onde os seixos e a abobada se juntavam e fechavam.
Gilliatt entrou, e inclinando a cabeça, dirigio-se para o que estava no fundo.
Era com effeito alguma cousa que ria.
Era uma caveira.
Só havia a cabeça, havia o esqueleto.
Um esqueleto humano estava deitado na cava.
O olhar de um homem audaz, em taes occasiões, quer saber das cousas a fundo.
Gilliatt olhou em roda de si.
Estava cercado de uma porção de carangueijos.
Não se mexiam elles. Era o aspecto de um formigueiro morto. Todos os carangueijos estavam mortos. Estavam vasios.
Os grupos, semeados, faziam no chão de seixos que enchiam a cava, constellações disformes.
Gilliatt, com o olhar fito em outra parte, caminhára por cima sem reparar.
Na extremidade da crypta onde chegára Gilliatt, havia maior espessura. Era um montão immovel de antennas, de patas, e de mandibulas. Pinças abertas conservavam-se direitas, e já se não fechavam. As caixas de ossos não se mechiam debaixo da sua crosta de espinhos; algumas viradas mostravam o interior livido. Este amontoado parecia uma multidão de sitiantes e tinha o entravamento de um espinheiro.
Debaixo desse montão estava o esqueleto.
Via-se debaixo dessa porção de tentaculos e escamas, o craneo com as estrias, as vertebras, os femures, os tibias, os longos dedos nodosos, com unhas. As costellas estavam cheias de caranguejos. Tinha palpitado alli algum coração. Os buracos dos olhos estavam atopetados de bolor marinho. Algumas conchas tinham deixado a sua baba nas fossas nasaes. Não havia nesse recanto da caverna nem sargaços, nem hervas, nem sopro de ar. Nenhum movimento. Os dentes riam.
O lado assustador do riso, é a imitação que faz delle uma caveira.
Aquelle maravilhoso palacio do abysmo, bordado e incrustado de todas as pedrarias do mar, revellava por fim o seu segredo. Era um covil, a pieuvre morava ahi; e era uma tumba, ahi jazia um homem.
A immobilidade espectral do esquelleto, e dos molluscos oscilavam vagamente, por causa da reverberação das aguas subterraneas que tremia naquella petrificação. Os carangueijos, mistura medonha, pareciam ter acabado a sua refeição. Aquellas cascas pareciam comer aquelle esqueleto. Nada mais estranho do que aquella bicharia morta, sobre aquelle homem finado Sombrias continuações da morte.
Gilliatt tinha diante de si, o armario da pieuvre.
Visão lugubre, donde surgia o horror profundo das cousas. Os carangueijos tinham comido o homem, a pieuvre tinha comido os carangueijos.
Não havia nenhum resto de roupa ao pé do cadaver. O homem devia ter sido agarrado nú.
Gilliatt attento e examinando, começou a tirar os carangueijos de cima do homem. Quem era esse homem? O cadaver estava admiravelmente dissecado. Dissera-se uma preparação de anatomia; toda a carne estava eliminada; já não restava nenhum musculo. Se Gilliatt fosse do officio reconheceria isso. Os periostios estavam brancos, polidos e como que lustrados. Sem alguns filamentos verdes que apareciam aqui e alli, seria marfim puro. As divisões cartilaginosas, estavam delicadamente affiladas. A tumba faz essas joalherias sinistras.
O cadaver estava como que enterrado debaixo de carangueijos mortos. Gilliatt desenterrava-o.
De repente inclinou-se vivamente.
Acabava de vêr á roda da columna vertebral, uma especie de atilho.
Era um cinto de couro, que evidentemente fôra atado ao ventre do homem antes de morrer.
O couro estava cheio de mofo. A fivella estava enferrujada.
Gilliatt puchou o cinto; as vertebras resistiram, e Gilliatt teve de quebral-as, para tirar o cinto. O cinto estava intacto. Começava a formar-se nelle uma crosta de conchas.
Gilliatt apalpou o cinto, e sentio um objecto duro de fórma quadrada no interior. Não era possivel abrir a fivella. Gilliatt cortou o couro com a faca.
O cinto continha uma caixinha de ferro, e algumas moedas de ouro. Gilliatt contou vinte guinéos.
A caixinha era uma velha boceta de marinheiro, abrindo-se por mola. Estava muito enferrujada. A mola completamente oxidada já não funccionava.
A faca veio em auxilio de Gilliatt. Com a ponta da lamina, fez elle pular a tampa da boceta.
A boceta abrio-se.
Só havia papel dentro della.
Um macinho de folhas finas, dobradas em quatro, estava no fundo da boceta. Estavam humidos, mas não alterados. A boceta hermeticamente fechada preservou-as. Gilliatt abrio-as.
Eram tres notas do banco de mil libras esterlinas cada uma, formando uma somma de setenta e cinco mil francos.
Gilliatt dobrou-as, pol-as na caixinha, aproveitou o pouco lugar que restava para deitar dentro os vinte guinéos, e fechou a caixinha o melhor que pôde.
Depois examinou o cinto.
O couro, outr'ora envernisado pela parte de fora, não o era no interior. Ahi estavam traçadas algumas letras com tinta gordurosa. Gilliatt decifrou as letras e leu: Sr. Clubin.
V
HA LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALLO QUE SEPARA SEIS POLLEGADAS DE DOUS PÉS
Gilliatt metteu outra vez a caixinha no cinto, e poz o cinto na algibeira da calça.
Deixou o esqueleto aos carangueijos com a pieuvre morta ao pé.
Emquanto Gilliat esteve com a pieuvre e o esqueleto, a maré enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt só pôde sahir mergulhando por baixo do arco. Foi-lhe facil; conhecia a sahida, e era mestre nessas gymnasticas do mar.
Advinha-se o drama que se passára alli dez semanas antes. Um monstro agarrára o outro. A pieuvre agarrára Clubin.
Foi isso, na sombra inexoravel, o que se poderia chamar o encontro das hypocrisias. Houve no fundo do abysmo, um embate dessas duas existencias feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a besta, executou a outra, que era a alma. Sinistras justiças.
O carangueijo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se de carangueijos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma lontra, um cão, um homem se póde, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo d'agua o corpo morto. Os carangueijos são os escaravelhos necrophoros do mar. Attrahe-os a carne putrida; elles approximam-se, comem o cadaver; a pieuvre os come depois. As cousas mortas desapparecem no carangueijo, o carangueijo desapparece na pieuvre. Já indicamos esta lei.
Clubin foi o engodo da pieuvre.
A pieuvre reteve-o e affogou-o; os carangueijos o devoraram. Alguma vaga o levou para aquella cava, no fundo da anfractuosidade onde Gilliatt o achou.
Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra cousa que não fosse carangueijos. Parecer-lhe-hia comer carne humana.
Demais, elle tratava de cear o melhor possivel antes de partir. Já nada o retinha no rochedo. As grandes tempestades são sempre seguidas de uma calma que dura muitos dias ás vezes. Nenhum perigo havia ainda quanto ao mar. Gilliatt estava resolvido a partir no dia seguinte de manhã. Era conveniente conservar durante a noite, por causa da maré, o tapamento ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de madrugada essa tapagem, empurrar a pança para fora, e abrir vela para Saint-Sampson. A brisa de calma que soprava, e que era sudoeste, era exactamente o vento que lhe era preciso.
Entrava o primeiro quarto de lua de Maio; os dias eram longos.
Quando Gilliatt, terminada a pesquiza dos rochedos e mais ou menos satisfeito do estomago, voltou para a garganta das Douvres, onde estava a pança, já o sol cahira no poente, e o crepusculo redobrava com aquelle meio luar que se póde chamar o luar do crescente; a maré, que tinha enchido completamente, começava a vasar. O cano da machina de pé acima da pança estava coberto pela espuma da tempestade de uma camada de sal que a lua embranquecia.
Isto lembrou a Gilliatt que a tempestade deitára dentro da pança muita agua de chuva e do mar, e que, se quizesse partir no dia seguinte, era preciso esvasiar a barca.
Tinha verificado, ao deixar a pança para ir procurar carangueijos que havia cerca de seis pollegadas de agua no porão. A pá de esgoto bastaria para deitar essa agua fóra.
Chegando á pança, Gilliatt teve um movimento de terror. Havia na pança perto de dous pés de agua.
Incidente terrivel, a pança fazia agua.
Enchera-se pouco a pouco durante a ausencia de Gilliatt. Carregada como estava, vinte polegadas de agua era sobre posse. Mais um pouco e a pança iria a pique. Se Gilliatt chegasse uma hora mais tarde, só acharia fóra d'agua o casco e o mastro.
Não podia perder um minuto em deliberação.
Era preciso procurar o buraco, tapa-lo, depois esvasiar a barca, ou ao menos allivia-la. As bombas da Durande tinham-se perdido no naufragio; Gilliat estava reduzido á pá de esgoto.
Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.
Gilliatt poz mãos á obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e todo tremulo. Já não sentia fome, nem frio.
A pança continuava a encher. Felizmente não havia vento. O menor abalo da onda metteria a pança a pique.
A lua desapparecera.
Gilliatt, ás apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade na agua, levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a avaria.
Durante a tempestade, no momento critico em que a pança se arqueára, robusta barca tinha batido violentamente contra o rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fractura no casco, a estibordo.
Este buraco estava infelizmente, podia-se quasi dizer perfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedira Gilliatt, na revista obscura e rapida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.
A fractura assustava, porque era larga, e tranquillisava porque, embora immersa neste momento pela enchente interna da agua, ficava acima do lume d'agua.
No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente sacudida no estreito, e já não havia nivel de fluctuação, a onda penetrára pela effracção na pança; a pança com mais essa carga mergulhou algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso do liquido filtrado, fazendo levantar a linha de fluctuação, manteve o buraco debaixo d'agua. Dahi vinha a imminencia do perigo. A cheia augmentára de seis pollegadas a vinte. Mas conseguindo tapar o buraco, podia-se esvasiar a pança; esvasiada a pança, voltaria á fluctuação normal, a fractura sahiria d'agua, e a secco, a reparação seria facil, ou ao menos possivel. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a ferramenta de carpinteria em bom estado.
Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos perigos! Quantas más probabilidades! Gilliatt ouvia a agua correr inexoravelmente. Um empuchão e tudo iria a pique. Que desgraça! Talvez já não fosse tempo.
Gilliatt accusou-se amargamente. Deveria ter visto a avaria. As seis polegadas d'agua no porão deviam têl-o advertido. Foi estupidez attribuir as seis pollegadas d'agua á chuva e á espuma. Exprobrou-se o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a fadiga, e quasi também a tempestade e a noite. Tudo era culpa delle.
Essas cousas duras, que elle dizia a si proprio, iam de envolta com o vai-vem do trabalho e não o impediam de observar.
Achar o buraco ora o primeiro passo; tapal-o era o segundo. Não se podia mais agora. Não se faz carpintaria debaixo d'agua.
Havia uma circumstancia favoravel, era que o buraco do casco foi aberto no espaço comprehendido entre as duas correntes que prendiam a estibordo o cano da machina. A estopa podia prender-se a essas correntes.
Entretanto a agua subia. Já passava de dous pés.
Gilliatt tinha agua acima dos joelhos.
VI
DE PROFUNDIS AD ALTUM
Gilliatt tinha á sua disposição, na reserva do apparelho da pança, um grande panno alcatroado com as competentes cordas longas nas quatro pontas.
Pegou nesse panno, amarrou dous cantos pelos cabos ás duas argolas das correntes do cano do lado do buraco, e atirou o panno por cima da borda. O panno cahio como uma toalha entre a pequena Douvre e a barca, e mergulhou. A agua querendo entrar na pança applicou o panno ao casco sobre o buraco. Quanto mais a agua batia, mas adheria o panno. Foi collocado pela vaga sobre a fractura. A chaga da barca estava pençada.
A lona alcatroada interpunha-se entre o interior do porão e as vagas de fóra. Jã não entrava nem gotta d'agua se quer.
O buraco estava tapado, mas não estopado.
Era uma espera.
Gilliatt começou a esvasiar a pança. Era tempo de allivia-la. O trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a fadiga. Gilliatt confessava que não iria ao fim, e não chegaria a estancar o porão. Gilliatt comera muito pouco, e tinha a humilhação de sentir-se extenuado.
Media o progresso dos trabalhos pela baixa do nivel da agua nos seus joelhos. A descida era lenta.
Além disso a entrada da agua estava apenas interrompida. O mal estava palliado, mas não reparado. O panno, empurrado na fractura pela vaga, começava a fazer um tumor pelo lado de dentro. Parecia que havia uma mão fechada debaixo do panno, procurando romper o buraco. A lona, solida e alcatroada, resistia; mas o inchamento e a tensão iam augmentando; não era certo que o panno não cedesse, e de um momento para outro o tumor poderia romper. Recomeçaria então a irrupção da agua.
Em tal caso, as equipagens em perigo o sabem, não ha outro recurso mais que um batoque. Apanham-se trapos de toda a especie, o que se acha á mão, tudo quanto a lingua especial chama forro, e mete-se o mais que se póde na fenda do tumor da lona.
Desse forro Gilliatt não tinha nenhum. Todos os pannos e estopas armazenados foram empregados no trabalho ou dispersos pelo vento.
Podia achar alguns restos no rochedo, quando muito. A pança já estava bastante alliviada, e elle podia ausentar-se um quarto de hora; mas como procurar sem luz? Completa era a escuridão. Já não havia lua; apenas o sombrio céo estrellado. Gilliatt não tinha fios seccos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma vela, nem fogo para accendêl-a, nem lanterna para abrigal-a. Tudo estava confuso e indistincto na barca e no escolho. Ouvia a agua romurejar á roda do casco ferido, e nem se quer podia vêr o buraco; foi com as mãos que Gilliatt pôde averiguar a tensão crescente do panno. Era impossivel fazer naquella obscuridade uma pesquiza util de pedaços de lona e maçame esparsos nos cachopos. Como colher esses andrajos, sem luz? Gilliatt contemplava tristemente a noite. Todas as estrellas e nem uma vela.