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Os Trabalhadores do Mar

VICTOR HUGO

Machado de Assis translation

traduzido por Machado de Assis

2° TOMO

RIO DE JANEIRO

TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.

1866.

PRIMEIRA PARTE

O Sr. Clubin.

NOTA

O Diario do Rio de Janeiro obteve do editor Lacroix (de Pariz e Bruxellas), por meio de um contracto celebrado entre esse editor e o correspondente do Diario do Rio, em Pariz, o direito de publicar a tradução portugueza deste romance, nas suas collumnas, começando mesmo antes que o 1° volume apparecesse em Pariz. O romance começou a ter a publicidade no Diario do Rio no dia 16 de Março de 1866.

LIVRO SEXTO

O timoneiro ebrio e o capitão sobrio

I

OS ROCHEDOS DOUVRES

Cerca de cinco leguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da ponta de Plainmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, ha um grupo de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.

Esta denominação, Douvre, Dover, pertence a muitos cachopos e rochedos. Ha especialmente perto das costas do Norte uma rocha Douvre na qual se construe agora mesmo um pharol, escolho perigoso, mas que não deve ser confundido com este.

O ponto de França mais proximo do rochedo Douvres é o cabo Brehant. O rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da França que a primeira ilha do archipelago normando. A distancia deste escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbière tomo sobre um eixo, a ponta de Santa Catharina iria quasi bater nos Douvres. É uma distancia de quasi quatro leguas.

Nesses mares da civilisação os rochedos mais selvagens são raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alfandega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, caçadores de coelhos em Cesambre, ilha de Cesar, apanhadores de caraguejos em Brecqhou, pescadores de rêde em Minquiers e Ecrehou. Nos rochedos Douvres, ninguem.

As aves marinhas estão alli em sua casa.

Não ha peor encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a Blanche Nef, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios de Preel que torna tão angustiosa a entrada de Merquel e que obriga a deitar a umas vinte braças a balisa vermelha, as proximidades perfidas de Étables e de Plouha, as duas druidas de granito do Sul ds Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno Anderlo, a Corbière, os Hanois, a ilha de Ras, recommendada ao medo por este proverbio:—Quando passares o Ras, se não morreres, tremerás;—as Mortes-Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mauvais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, são mal afamados. Vale mais affrontar todos os cachopos do que o Douvres uma só vez.

Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeo do occidente, o rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que inspira, é o escolho Pater Noster, entre Guernesey e Serk.

E ainda no Pater Noster póde-se fazer um signal: quem está ali em perigo póde ser soccorrido. Vê-se ao Norte a ponta Dicard ou de Icaro, ao Sul, o Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se vê nada.

O vento, a agua, a nuvem, o illimitado, o inhabitado. Só se passa ali perdido. Os granitos são de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa inhospitalidade do abysmo.

É mar alto. A agua é profunda. Um escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, attrahe e abriga os animaes que precisam affastar-se dos homens. É uma especie de vasta madrepora submarinha. É um labyrintho afogado. Ha alli, em profundezas que difficilmente alcançam os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas. Pollulam as especies monstruosas. Devoram-se umas ás outras. Os carangueijos comem os peixes, e são devorados tambem. Formas medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos, andam vivas naquella obscuridade. Vagos lineamentos de guellas, antennas, tentaculos, barbatanas, bocas abertas, escamas, garras, unhas, fluctuam, tremem, engrossam, decompõe-se, e desfazem-se na transparencia sinistra. Tremendos nadadores andam alli na labutação. É uma colmêa de hydras.

Alli o horrivel é ideal.

Imagina, se podes, um formigueiro de holothurias.

Vêr o interior do mar, é vêr a imaginação do Ignoto. É vêl-a do lado terrivel. O golphão é analogo á noite. Tambem ahi ha somno, somno apparente ao menos, da consciencia da creação. Commettem-se alli em plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os esboços da vida, phantasmas quasi, completos demonios, vagam alli, em medonha paz, nas sombrias occupações da sombra.

Ha quarenta annos, duas rochas de forma extraordinaria assignalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas verticaes e recurvadas, tocando-se quasi no cume. Parecia vêr-se irrompendo do mar dous dentes de um elephante engulido. Mas eram dentes do tamanho de torres que só poderiam pertencer a elephantes do tamanho de uma montanha. Essas duas torres naturaes da obscura cidade dos monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns covados de comprimento, parecia ura pedaço de rua entre duas paredes. A essas duas rochas gemeas chamava-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre, uma tinha sessenta pés de altura, a outra quarenta. O vai-vem das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o violento furacão do equinocio de 26 de Outubro de 1859, derrubou uma dellas. A que ficou, a pequena, está mutilada e gasta.

Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No seculo passado alguns pescadores, perdidos naquelles cachopos, acharam um cadaver. Ao pé do cadaver havia uma porção de conchas vazias. Tinha naufragado alli um homem, refugiou-se naquelles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, até que morreu. Veio dahi chamar-se Homem ao rochedo.

São singulares as solidões da agua. É o tumulto e o silencio. O que ahi se faz já nada tem com o genero humano. É a utilidade desconhecida. Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o immenso tormento das vagas.

II

COCNAC INESPERADO

Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida do Tamaulipas, a Durande partio para Guernesey.

Deixou Saint-Malo ás 9 horas.

Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho capitão Gertrais-Gaboureau tinha delirado.

As preocupações do Sr. Clubin fez com que embarcasse pouco carregamento. Apenas metteu a bordo alguns fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre Port, tres caixas para o hospital de Guernesey, uma de sabão amarello, outra de velas e a terceira de couro de sola e cordavão fino. Levava tambem, da precedente viagem, uma caixa de assucar Arushed e tres caixas de chá conjou, que a alfandega franceza não quiz receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram postos no porão e bem mal arranjados.

Haviam a bordo seis passageiros: um guernesiano, dous maloenses vendedores de animaes, um tourista, como já se dizia nesse tempo, um parisiense meio burguez, provavelmente tourista do commercio, e um americano distribuidor de Biblias.

A Durande, sem contar Clubin, tinha sete homens de tripolação; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dous trabalhadores da machina e um grumete. Um dos penultimos era tambem mecanico. Era um valente e intelligente negro hollandez, evadido das fabricas de assucar de Surinam; chama-se Imbrancam. O negro Imbrancam comprehendia e servia admiravelmente a machina. Nos primeiros tempos, contribuio elle não pouco, quando apparecia na fornalha, para dar um ar diabolico á Durande.

O timoneiro, jerseyano de nascimento, originario da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.

É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra, paizes hierarchicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas tem as suas idéas, que são os seus dentes. Essas idéas são as mesmas em toda a parte, na India, como na Allemanha. A nobreza conquista-se pela espada e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer cousa alguma, é viver fidalgamente; quem não trabalha é reverenciado. Officio faz decahir. Na França de outr'ora só se exceptuavam os operarios de vidro. Sendo gloria para os fidalgos esvasiar garrafas, fazel-as não era deshonra alguma.

Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quizer ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser gentleman. Inda que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo descende do cavalheiros e é apenas marujo. Ha trinta annos, em Aurigny, um Gorges authentico que, ao que parece tinha direitos á senhoria de Gorges confiscada por Philippe Augusto, apanhava sargaço com os pés nús. Ha em Serk um Carteret que é carreiro. Existe em Jersey um mercador de pannos, e em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Contances, mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que é Montmorency. No decimo quinto seculo Johan de Heroudeville, bésteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre comsigo justilhos e arnezes. Em Maio de 1371, em Tontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas normandas quem cabe em pobreza é logo eliminado da fidalguia. Basta uma mudança de nome. De Tangroville faz Taugouille, e tudo se arranja.

Foi o que aconteceu ao timoueiro da Durande.

Ha em Saint-Pierre Port, no Bordage, um mercador de ferros velhos chamado Ingrouille, que é provavelmente Ingroville. No reinado de Luiz o Gordo, os Ingroville possuiam tres parochias em Valognes. Fez um padre Trigan a Historia ecclesiastica da Normandia. Este chronisla Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se cahisse no populacho, chamar-se-ha Digouille.

Tangrouille, Tancarville provavel e Montmorency possivel, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave n'um timoneiro; embriagava-se.

O Sr. Clubin teimava em conserval-o. Respondia por elle a mess Lethierry.

O timoneiro Tangrouille não sahia nunca do navio e dormia a bordo.

Na vespera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bebado não é senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava dispensa. A dispensa secreta de Tangrouille era no porão onde se guardava a agua. Pol-a ahi para tornal-a inverosimil. Estava certo de que só elle conhecia aquelle esconderijo. O capitão Clubin era severo, porque era sobrio. O pouco rhum e gin que o timoneiro podia subtrahir á vigilancia do capitão, punha de reserva naquelle mysterioso cantinho, no fundo de uma celha de sonda, e quasi todas as noites tinha entrevista amorosa com aquella dispensa. Era rigorosa, a vigilancia, pobre devia ser a orgia, e de ordinario os excessos nocturnos de Tangrouille limitavam-se a dous ou tres goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a dispensa estava vasia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma garrafa de aguardente inesperada. Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que céos lhe cahio aquella garrafa? Não pôde lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio. Bebeu-a immediatamente. Em parte fêl-o por prudencia: tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte quando tomou a cana do leme Tangrouille tinha certa oscillação.

Todavia governou o barco quasi como nos outros dias.

Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na pousada João.

Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns vinte guinéos, e que só tirava á noite. No interior do cinto estava escripto o nome delle, escripto por elle mesmo no couro bruto com tinta lithographica, que é indelevel.

Ao levantar, antes de partir, poz no cinto a caixinha de ferro contendo os setenta e cinco mil francos em notas do banco, depois atou o cinto, como costumava, á roda do corpo.

III

PALESTRA INTERROMPIDA

Foi alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigatoria, tal é o costume. Dous passageiros, o tourista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram peça por peça, e quasi fio por fio, na coberta e entreponte, todos os apparelhos maritimos, argolas, ganchos, fateixas, cylindros, que á força de precisão e justeza são uma especie de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourada com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canhão de rebate atado na coberta, «com uma corrente de cão de sentinella,» observou o tourista, e «coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as constipações» accrescentou o parisiense. Affastando-se de terra, trocaram-se as observações do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emittio o axioma de que as perspectivas do mar illudem, e que, a uma legua da costa, nada se parece mais com Ostende como Dunkerque. Completou-se o que havia a dizer de Dunkerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho, chamam-se,—um Ruyttngue e o outro Mardyck.

Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.

O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quasi sem torsão a perder de vista.

Guernesey está no centro de uma linha recta tirada de Saint-Malo em França, e Exeter em Inglaterra. A linha recta no mar nem sempre é a linha logica. Entretanto os vapores tem, até certo ponto, o poder de seguir a linha recta que não podem seguir os navios de vela.

O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto de machinas. As forças são machinas infinitas, as machinas são forças limitadas. Entre os dous organismos, um inexgotavel, outro intelligente, trava-se o combate que se chama navegação.

Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Tambem o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão. Não ha força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o itinerario.

Emquanto se não descobre a lei, prosegue a luta, e nessa luta a navegação a vapor é uma especie de victoria perpetua que o genio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navegação a vapor é admiravel porque disciplina o navio. Diminue a obdiencia ao vento e augmenta a obdiencia ao homem.

Nunca a Durande trabalhou no mar como naquelle dia. Andava maravilhosamente.

Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de Minquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e bello estava o céo. Todavia iam voltando para terra todos os pescadores.

A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.

Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume. A tripulação não se preoccupava com isso, era absoluta a confiança no capitão; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois das onze horas, o capitão rectificou a direcção e aproou para o lado de Guernesey. Perdeu-se algum tempo. Nos dias curtos o tempo perdido tem inconvenientes. Fazia um bello sol de Fevereiro.

Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem braços firmes. Resultava dahi que o bravo timoneiro desviava-se da costa e atrazava a marcha.

O vento ia amainando.

O passageiro guernesiano, que tinha um oculo na mão, firmava-o de tempos a tempos para um froco de espuma coada pelo vento no extremo horisonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algodão, empoeirado em roda.

O capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar de attenção.

Tudo estava calmo e quasi risonho a bordo da Durande; os passageiros conversavam.

Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo tremolo da conversa. A plena liberdade de espirito dos passageiros corresponde á perfeita tranquillidade da agua.

É impossivel, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que não fosse calmo.

—Veja aquella bonita mosca verde e encarnada.

—Perdeu-se no mar e descança no navio.

—As moscas não se cançam muito.

—Pudera! são tão leves. Carrega-as o proprio vento.

—Já se pezou uma onça de moscas, e contadas depois vio-se que eram seis mil duzentas e sessenta e oito.

O guernesiano do oculo tinha-se chegado aos maloenses mercadores de gado, e a conversa delles era pouco mais ou menos esta:

—O boi de Aubrac tom o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o pello amarello. É demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.

—Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.

—Vi dous magnificos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nadegas largas, bom comprimento da nuca á garupa, boa altura no garrote, manejo facil, pelle boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os signaes da um engordamento judicioso, tronco reforçado, pescoço robusto, pernas leves, pelle branca e vermelha, alcatra cahida.

—Isso é raça da costa.

—Sim, mas com certa semelhança com o touro angus ou o touro suffolk.

—Acredite se quer, no meio-dia ha concurso de bestas.

—De bestas?

—De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que são bonitas.

—Então são como as jumentas. As feias é que são boas.

—Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.

—A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro estacas.

—A belleza dos animaes não é como a belleza dos homens.

—É sobretudo das mulheres.

—Justo.

—Eu cá quero que a mulher seja bonita.

—Prefiro-a bem trajada.

—Sim, limpa, asseiada, esticadinha.

—Ares de mocidade. Uma rapariga deve parecer que sahe do joalheiro.

—Volto aos bois. Vi vender os taes bois no mercado de Thouars.

—Conheço o mercado. Os Boniau de la Rochelle, e os Babu, os mercadores de trigo de Marans, não sei se ouvio fallar delles, devem ter ido a esse mercado.

O tourista e o parisiense conversavam com o americano das Biblias; a conversação ahi era como nos outros grupos.

Dizia o tourista:

—Eis a tonellagem fluctuante do mundo civilisado; França, sete centas e dezeseis mil tonelladas; Allemanha, um milhão; Estados-Unidos, cinco milhões; Inglaterra, cinco milhões e quinhentos mil. Acrescente-se o contingente das pequenas bandeiras. Total; doze milhões nove centos e quatro mil tonelladas distribuidas por cento e quarenta e cinco mil navios na agua do globo.

O americano interrompeu.

—Os Estados-Unidos é que tem cinco milhões e quinhentos mil.

—Convenho, disse o tourista. O senhor é americano?

—Sim, senhor.

Houve um silencio; o americano missionario perguntou a si mesmo se era occasião de offerecer uma Biblia.

—Será verdade, continuou o tourista, que os senhores lá na America gostam tanto das alcunhas, a ponto de as pôr em todos os seus homens celebres? Será verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomaz Benton, a velha barra de ouro?

—Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor, o velho Zach?

—E o general Harrison, o velho Tip? e o general Jackson o velho Hickory?

—Sim, porque Jackson é duro como pão hickory, e Harrison bateu os Pelles Vermelhas em Tippecauve.

—É um costume bysantino esse.

—É costume nosso. Chamamos Van Buren o feiticeirinho, Seward, que mandou fazer bilhetes miudos do banco, o bilhete miudo, e Douglas, o senador democrata do Illinois, que tem quatro pés de altura e uma grande eloquencia, o gigantinho. Percorra do Texas ao Maine, não encontrará ninguem que diga este nome: Cass; todos dizem: o grande Michigantier; nem este nome: Clay; dizem todos: o rapaz do moinho acutilado. Clay é filho de um moleiro.

—Eu prefiro, Clay ou Cass, observou o parisiense, é mais curto.

—Pois estaria fóra do uso. Nós chamamos Corwin, que é secretario do thesouro o rapaz da carreta. Daniel Webster é o negro Dan. Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira idéa, depois de bater os inglezes em Chippeway, foi assentar-se á mesa, chamamo-lo Da-cá-um-prato-de-sopa-depressa.

Tinha-se agigantado o froco de neve. Occupava no horisonte um segmento de cerca de 15 gráos. Dissera-se uma nuvem arrastada á flôr d'agua por falta de vento. Não havia um sopro de brisa se quer. Embora fosse apenas meio dia, o sol ia empallidecendo. Allumiava, mas já não aquecia.

—Creio, disse o tourista, que o tempo vai mudar.

—Talvez haja chuva, disse o parisiense.

—Ou nevoeiro, disse o americano.

—Na Italia, continuou o tourista, o lugar em que cahe menos chuva é Molfetta, e onde cahe mais é em Tolmezzo.

Ao meio-dia, segundo o uso do archipelago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quiz. Alguns passageiros levavam comida comsigo e comeram no convez. Clubin não jantou.

Ao jantar, a palestra continuou.

O guernesiano, tendo o faro das Biblias, approximou-se do americano. O americano disse-lhe:

—Conhece este mar?

—Sem duvida, sou filho delle.

—E tambem eu, disse um dos maloenses.

O guernesiano adherio com um comprimento, e continuou:

—Agora estamos ao largo, mas não me agradava nada ter nevoeiro emquanto estavamos ao pé dos Minquiers.

O americano disse ao maloense.

—Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.

—É exacto, nós os filhos da costa, temos apenas metade do mar.

—Que cousa é essa dos Minquiers? continuou o americano.

O maloense respondeu:

—São umas pedras ruins.

—Ha tambem os Grelets, disse o guernesiano.

—Ora! disse o maloense.

—E os Chouas, accrescentou o guernesiano.

O maloense deu uma gargalhada.

—Dessa fórma, disse elle, temos tambem os Sauvages.

—E os Maine, observou o guernesiano.

—E o Canard, disse o maloense.

—O senhor tem resposta para tudo, disse o guernisiano com rapidez.

—Maloense, malicioso.

Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.

O tourista interpoz uma pergunta.

—Dar-se-ha caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores fallam?

—Qual! Deixamol-a a sudoeste. Já ficou atraz de nós.

E o guernesiano continuou:

—Entre grandes e pequenos, os Grelets têm cincoenta e sete pontas de rocha.

—E os Minquiers quarenta e oito, disse o maloense.

Aqui o dialogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.

—Parece-me, Sr. de Saint-Malo, que ha tres rochedos que o Sr. deixou de contar.

—Contei tudo.

—A Derée da Maitre-Ile?

—Sim.

—E Maisons tambem?

—Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.

—Já vejo que conhece os cachopos.

—Quem não os conhece não é de Saint-Malo.

—Causa gosto ouvir o raciocinio dos francezes.

O maloense comprimentou, e disse:

—Sauvages são tres rochedos.

—E Maines são dous.

—Canard é um.

—Basta dizer Canard; já se sabe que é um.

—Não, por que a Suarde são quatro rochedos.

—Que é a Suarde? perguntou o guernesiano.

—Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.

—Não é bom passar entre Chouas e Canard.

—Só os passaros podem passar ahi.

—E os peixes.

—Nem sempre. Quando ha máo tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.

—Ha arêa em Minquiers.

—Á roda de Maisons.

—Veem-se oito rochedos de Jersey.

—Da praia de Asette, é justo. Náo são oito, são sete.

—Nas vasantes póde-se passear entre os Minquiers.

—Sem duvida, ha espaço.

—E Dirouilles?

—Dirouilles não tem nada com Minquiers.

—Quero dizer que é perigoso.

—É do lado de Granville.

—Vê-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.

—Sim, disse o maloense, com a differença de que nós dizemos: estamos acostumados, e os senhores dizem: gostamos.

—São bons marinheiros os senhores.

—Eu sou mercador de gado.

—Quem é que foi tambem de Saint-Malo?

—Surcouf.

—Não, outro.

—Duguay-Trouin.

Aqui o viajante parisiense interrompeu.

—Duguay-Trouin? foi apanhado pelos inglezes. Era tão amavel quão valente. Agradou a uma joven ingleza. Foi ella quem lhe quebrou os ferros.

Neste momento uma voz tremenda gritou:

—Estás bebado!

IV

MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN

Voltaram-se todos.

Era o capitão Clubin que interpellava o timoneiro.

O Sr. Clubin não tratava ninguem por tú. Para que elle atirasse a Tangrouille semelhante apostrophe, era preciso que estivesse colerico ou quizesse mostrar-se assim.

Uma expressão de colera, vindo a proposito, demitte a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.

O capitão, de pé no lugar do commando, entre as caixas, das rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetio entre dentes: Beberrão! O honesto Tangrouille abaixou a cabeça.

Desenvolvia-se o nevoeiro. Já occupava metade do horisonte. Avançava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de óleo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia elle apoderando-se do oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ella pela prôa. Era um vasto penedio movediço e vago. Cortava-se no mar como se fosse uma muralha. Havia um ponto preciso em que a agua immensa entrava por baixo do nevoeiro e desapparecia.

Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia legua de distancia. Se o vento mudasse, podia-se evitar a immersão na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia legua de intervallo enchia-se e diminuia a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro tambem. O nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.

Clubin mandou augmentar o vapor e obliquar a leste.

Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas elle avançava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.

Perdia-se o tempo naquellas manobras que difficilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em Fevereiro.

O guernesiano comtemplava a bruma. Disse aos maloenses:

—É atrevido este nevoeiro.

—Desaceio do mar, observou um dos maloenses.

O outro accrescentou:

—Isto atraza a viagem.

O guernesiano aproximou-se de Clubin.

—Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.

Clubin respondeu:

—Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.

—Quem?

—Veteranos do mar.

—Fez bem em partir, continuou o guernesiano. Quem sabe senão haverá tempestade amanhã? Nesta estação espera-se o peior.

Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.

Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na pôpa ficou de repente sem ver a gente que ia na prôa. Tenue tabique cinzento cortou o navio ao meio.

Depois todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. Subito todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quasi sem uma dobra, tinha a fria ameaça da tranquillidade. Parece que ha conluio neste excesso da calma. Tudo estava pallido e enfiado. O negro cano e a fumaça negra lutavam contra a lividez que cercava o navio.

A derivação a leste já não tinha razão de ser. O capitão aproou de novo sobre Guernesey e augmentou o vapor.

O passageiro guernesiano, andando á roda da machina, ouvio o negro Imbrancam que fallava a um dos companheiros. O passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro:

—Quando havia sol iamos devagar; agora que ha nevoeiro, vamos depressa.

O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.

—Capitão Clubin, não ha cuidado; mas não acha que vamos depressa demais?

—Que quer senhor? É preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquelle bebado.

—É verdade, capitão Clubin.

E Clubin accrescentou.

—Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite ficariamos aceiados.

O guernesiano foi ter com os maloenses e disse-lhes:

—Temos um excellente capitão.

De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapparecia mais pallido, e como que enfermo. O pouco céo que se via assemelhava-se ás fachas de ar sujas e manchadas de uma velha decoração de theatro.

A Durande passou junto de um cuter que tinha ancorado por prudencia. Era o Shealtiel, de Guernesey. O patrão do cuter notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não estava no caminho exacto; affigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquelle navio, andando a todo o vapor no meio do novoeiro, o homem pasmou.

Pelas duas horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiára; tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma especie de escuridão branca. Navegava-se na pallidez diffusa. Já se não via nem o céo nem o mar.

Não ventava.

A ancoreta da therebentina suspensa em uma argola ao pé da caixa das rodas já não tinha oscillação.

Os passageiros tornaram-se silenciosos.

Comtudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de Béranger Un jour le bon Dieu s'éveillant.

Um dos maloenses dirigio-lhe a palavra.

—O senhor vem de Paris?

—Sim senhor. II mit la tête à la fenêtre.

—Que se faz por lá?

—Leur planète a péri peut-être. Lá em Paris tudo anda mal.

—Então é tanto lá em terra como aqui no mar.

—Realmente, este nevoeiro é o diabo.

—E póde causar desgraças.

O parisiense exclamou:

—Mas, porque desgraças! a proposito de que? de que servem desgraças? É o caso do incendio do Odeon! Ficou uma porção de familias reduzidas á miseria! É justo isto? Olhe cá, eu não sei qual é a sua religião, mas digo-lhe que não estou contente.

—Nem eu, disse o maloense.

—Tudo o que se passa neste mundo, continuou o parisiense, parece um desconcerto. Creio que Deos não entra nisto.

O maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura comprehender. O parisiense continuou.

—Deos está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obriga-lo a residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa comnosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu bom senhor, que Deos já não está no governo, está em ferias, e é o vigario, algum anjo seminarista, algum bocio com azas de pardal, quem dirige os negocios.

O capitão Clubin, que se aproximara, pôz a mão no hombro do parisiense.

—Silencio, disse elle. Cuidado nas palavras. Estamos no mar.

Ninguem mais fallou.

No fim de cinco minutos, o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes.

—É um capitão religioso.

Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho que o navio descrevia por uma especie de máo-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emmudece o oceano, adormenta a vaga e supita o vento. Naquelle silencio, o rumor da Durande tinha um não sei que de inquieto e lamentoso.

Já se não encontravem navios. Só ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fóra do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, não era visivel, e a sua longa fumaça, presa a cousa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no céo branco.

De repente Clubin exclamou:

—Com seiscentos! estás dirigindo mal. Olha que me avarias o barco! Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bebado!

E tomou a canna do leme.

O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da prôa.

Disse o guernesiano:

—Estamos salvos.

A marcha continuou rapida.

Pelas tres horas, a orla inferior do nevoeiro começou a levantar-se e vio-se o mar.

—Máo! disse o guernesiano.

Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol é bom signal; quando é o vento, não é tão bom signal. Era tarde já para ser o sol. Ás tres horas, em Fevereiro, o sol está fraco. Não era cousa desejavel a volta do vento naquella situação critica. Muitas vezes annuncia o furacão.

Verdade seja, que, se havia brisa, mal se sentia.

Clubin, com o olhar na bitacula, governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos:

—Não ha tempo a perder. Aquelle bebado demorou a viagem.

O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.

O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas. Luzes geladas fluctuavam na agua. Essas placas de clarão nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cahir mais densa. As vezes a opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em quando aquelle circulo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o horisonte, e fechava-se depois.

O guernesiano, armado de um oculo, estava como uma vedeta, na frente do navio.

Clareou, depois escureceu outra vez.

O guernesiano voltou-se assustado:

—Capitão Clubin!

—Que é?

—Vamos direito aos cachopos de Hanois.

—É engano, disse Clubin friamente.

O guernesiano insistio:

—Estou certo.

—Impossivel.

—Vi uma pedra no horisonte.

—Onde?

—Alli?

—É ao largo. Impossivel.

E Clubin continuou a pôr o navio no ponto indicado pelo passageiro.

O guernesiano travou do oculo.

Minutos depois correu para o capitão.

—Capitão!

—Que é?

—Vire de bordo.

—Por que?

—Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande Hanois.

—Ha de ser algum nevoeiro mais escuro.

—É o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céo!

Clubin deu uma volta á canna do leme.

V

CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CUMULO

Ouvio-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto, é um dos sons mais lugubres que se póde imaginar. A Durande parou.

Com o choque muitos passageiros cahiram e rolaram no tombadilho.

O guernesiano levantou as mãos para o céo.

—Nos Hanois! eu bem dizia!

Longo grito soou no navio.

—Estamos perdidos.

A voz de Clubin, secca e breve, dominou o grito.

—Ninguem está perdido! E silencio!

O corpo negro de Imbrancam, nú até a cintura, sahio do espaço da machina.

O negro disse com calma:

—Capitão, a agua está entrando. A machina vai apagar-se.

Terrivel foi o momento.

O choque assemelhava-se a um suicidio. Se fosse de proposito não seria mais terrivel. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo. Uma pontada rocha penetrou no navio como um prego. Mais de uma toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de prôa, fracassou a quilha, partio-se o gurupés, o casco aberto bebia agua aos borbotões. Era uma chaga por onde entrava o naufragio. A reacção foi tão violenta que quebrou na pôpa a caixa do leme que ficou solto e oscillante. O cachopo arrancara o fundo, e á roda do navio, não se via nada, além do nevoeiro espesso e compacto e agora quasi negro. Chegava a noite.

A Durande mergulhava pela prôa. Era o cavallo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.

Sentia-se no mar a hora da maré.

Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguem fica bebado em um naufragio; desceu abaixo, subio e disse:

—Capitão, a agua enche o porão. Dentro de dez minutos está nos embornaes.

Os passageiros corriam no tombadilho fóra de si, torcendo os braços, inclinando-se na amurada, olhando para a machina, fazendo todos os movimentos inuteis do terror. O tourista desmaiou.

Clubin fez um signal com a mão, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam:

—Quanto tempo pode a machina trabalhar ainda?

—Cinco ou seis minutos.

Depois interrogou o passageiro guernesiano:

—Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos nós?

—Na Mauve. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.

—Sendo a Mauve, continuou Clubin, temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a uma milha de terra.

A equipagem e os passageiros escutavam, tremulos de anciedade e de attenção, com os olhos fixos no capitão.

Allijar o navio era inutil, e demais, impossivel. Para pôr a carga ao mar, era preciso abrir as portinholas e augmentar as probabilidades de entrar agua. Atirar a ancora era inutil; estavam pregados. Demais podia ficar presa. Não estava avariada a machina, e continuando á disposição do navio emquanto o fogo não estava apagado, isto é, por alguns minutos, podia-se á força de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo immediatamente. O rochedo até certo ponto tapava o rombo e tolhia a passagem da agua. Servia de obstaculo. Desobstruida a abertura, seria impossivel impedir a entrada da agua. Quem retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o ferido. Sahir do cachopo era ir ao fundo.

Os bois, atacados pela agua, começavam a mugir.

Clubin ordenou.

—A chalupa ao mar.

Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripulação olhava petrificado.

—Todos á obra, gritou Clubin.

Desta vez obdeceram todos.

Clubiu, impassivel, continuou a dar ordens, naquella velha lingua do mar, que os marinheiros de hoje não comprehenderiam.

A chalupa estava no mar.

No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de agua.

Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas enxarcias, deixavam-se antes cahir que descer na chalupa. Imbrancam apanhou o tourista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subio ao navio.

Os marinheiros atiravam-se apoz os passageiros. O grumete rolou; elles pisavam o rapaz.

—Ninguem antes do moço, disse elle.

Afastou com os braços negros os marinheiros, apanhou o grumete, e estendeu-o ao passageiro guernesiano, que, de pé na chalupa, recebeu o rapaz.

O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse:

—Passem.

Entretanto, o Sr. Clubin, foi ao seu camarote e fez um embrulho dos papeis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bussola da bitacula. Entregou os papeis e os instrumentos a Imbrancam e a bussola a Tangrouille, e disse-lhes:

—Desçam á chalupa.

Elles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quasi rasa.

—Agora, disse Clubin, vão embora.

—E o senhor, capitão?

—Fico.

As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda menos de internecer-se. Entretanto os que estavam na chalupa, e relativamente com segurança, tiveram uma commoção que não era por elles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo.

—Venha comnosco, capitão.

—Fico.

O guernesiano, que conhecia o mar, replicou:

—Ouça, capitão. O senhor naufragou nos Hanois. A nado ha apenas uma milha até Plainmont. Mas na chalupa só se póde abordar na Roquaine, e são duas milhas. Ha cachopos e nevoeiro. Esta chalupa não chega á Roquaine antes de duas horas. Não tarda a anoitecer. Enchendo á maré refresca o vento. Está proxima a borrasca. É nosso desejo vir buscal-o depois, mas se romper o temporal, não será possivel. Se fica está perdido. Venha.

O parisiense interveio:

—A chalupa está cheia, e cheia de mais, é verdade, e um homem de mais seria ainda peior. Mas nós somos treze, é máo numero para a barça, e é melhor sobrecarregal-a de um homem que de um algarismo.

Trangouille accrescentou:

—A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.

—Fico, disse Clubin. O navio será despedaçado pela tempestade hoje de noite. Não o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capitão. Dir-se-ha de mim que eu cumpri o meu dever. Perdôo-te, Tangrouille.

E crusando os braços gritou:

—Attenção ás ordens. Larguem a banda da amarra. Partam!

Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que não remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas gritaram: Hourrah para o capitão Clubin!

—Eis um homem admiravel, disse o americano.

—É o mais honrado homem do mar, respondeu o guernesiano.

Trangouille chorava.

—Eu devia ter ficado com elle.

A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desappareceu.

Não se vio mais nada.

O rumor dos remos diminuio e perdeu-se.

Clubin estava só.

VI

ALLUMIA-SE O INTERIOR DE UM ABISMO

Quando aquelle homem achou-se naquelle rochedo, debaixo daquella nuvem, no meio daquella agua, longe do contacto humano, deixado por morto, sósinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo jubilo.

Alcançara o que queria.

Realisara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo praso que elle saccou sobre o destino.

Para elle, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a uma milha de terra; tinha setenta e cinco mil francos. Nunca se realisou mais acertado naufragio. Nada falhou; é verdade que tudo estava previsto. Desde a juventude Clubin teve uma idéa; fazer da honestidade uma parada no jogo da roulette da vida, passar por homem probo, e partir dahi, esperando que a sorte corresse; não apalpar, segurar; fazer um lance, mas só um, agarrar tudo, e deixar atraz os papalvos. Assentava que devia alcançar de uma vez aquillo que os larapios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, emquanto estes vão ter á forca, elle iria á fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construio immediatamente o plano: obrigar Rantaine á restituição; quanto ás suas revelações possiveis, annulal-as desapparecendo; passar por morto, que é a melhor desapparição do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufragio era necessario. Além de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua existencia uma obra prima. Quem podesse ver Clubin naquelle naufragio acreditaria ver um demonio feliz.

Viveu toda a sua vida naquelle minuto.

Toda a sua pessoa exprimia esta palavra; Emfim! Tremenda serenidade empallideceu aquella fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo dos quaes parecia haver um tabique, tornou-se profundo e terrivel. O abrasamento interno daquella alma reverberou-se nelles.

O foro intimo, como a natureza externa, tem a sua tensão elastica. Uma idéa é um meteóro; no momento do triumpho, entreabrem-se as meditações acumuladas que o preparam, e jorra uma faisca; ter em si uma garra do mal, e sentir nella uma presa, ventura é esta que tem a sua irradiação; máo pensamento que triumpha illumina o rosto daquelle que o concebeu; certas combinações triumphantes, certos desejos realisados, certas felicidades ferozes, fazem apparecer e desapparecer nos olhos dos homens, lugubres e luminosas dilatações. É a tempestade jubilosa, é a aurora ameaçadora. Tudo isso sahe da consciencia, que se faz sombria e ennevoada.

Foi esse fulgor que illuminou aquelles olhos.

Relampago que não se parecia com cousa alguma do que se póde ver no céo e na terra.

O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.

Clubin fitou a immensa obscuridade, e não pôde reter uma gargalhada baixa e sinistra.

Estava livre! estava rico!

Achara a incognita. Resolvera o problema.

Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por conseguinte sustentava a Durande, e afinal devia pol-a a nado. Mas o navio adheria solidamente ao rochedo; não havia perigo de sossobrar. Além disso, era preciso deixar á chalupa o tempo de affastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.

De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando aquelle abandono nas trevas.

A hypocrisia pesou áquelle homem durante trinta annos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um odio de mal casado. Teve sempre uma premeditação malvada; desde que se fizera homem, trazia aquella armadura rigida, a apparencia. Era monstro internamente; vivia em uma pelle de homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade; estava fechado naquelle caixão de mumia, a innocencia; tinha nas costas azas de anjo, esmagadoras para um velhaco. Pesava-lhe de mais a estima publica. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilibrio, pensar mal e fallar bem, que labutação! Clubin era o phantasma da rectidão, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino delle. Era-lhe preciso mostrar ares apresentaveis, escumar por baixo do nivel, sorrir em vez de ranger. A virtude para elle, era cousa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquella mão que lhe tapava a boca.

E querendo mordel-a, foi obrigado a beijal-a.

Ter mentido, é ter soffrido. O hypocrita é um paciente na dupla accepção de palavra; calcula um triumpho e soffre um supplicio. A premeditação indefinida de uma acção ruim acompanhada por dóses de austeridade, a infamia interior temperada de excellente reputação, enganar continuadamente, não ser jámais quem é, fazer illusão, é uma fadiga. Compôr a candura com todos os elementos negros que trabalham no cerebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compôr o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma belleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cocegas com o punhal, pôr assucar no veneno, velar na franqueza do gesto e na musica da voz, não ter o proprio olhar, nada mais difficil, nada mais doloroso. O odioso da hypocrisia começa obscuramente no hypocrita. Causa nauseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astucia disfarça a malvadeza repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e ha momentos de enjôo em que o hypocrita vomita quasi o seu pensamento. Engulir essa saliva é cousa horrivel. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hypocrita se estima. Ha um eu desmedido ao impostor. O verme resvala como o dragão e como elle retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um despota tolhido que não póde fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hypocrita é um titão-anão.

Clubin imaginava de boa fé que tinha sido opprimido. Porque razão não nascèra rico? O que elle queria era que os paes lhe houvessem deixado cem mil libras de renda. Por que não as tinha? Não era culpa delle. Porque motivo, não lhe dando todos os gosos da vida, forçaram-n'o a trabalhar, isto é, a enganar, a trahir, a destruir? Porque motivo condemnaram-n'o assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que não ere delle? Dissimular é uma violencia imposta. Odeia-se diante de quem se mente. Soára emfim a hora. Clubin vingava-se.

De quem? De todos e de tudo.

Lethierry não lhe fez senão bem: queixa de mais; vingava-se de Lethierry.

Vingava-se de todos aquelles ante quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem delle, era seu inimigo, porque elle foi captivo desse homem.

Clubin achava-se livre. Realisára-se a fuga. Estava fóra dos homens. O que se tinha por morte, era vida; elle ia começar agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo. Empurrou com o pé, Rantaine ao espaço, Lethierry á ruina, a justiça humana ás trevas, a opinião ao erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o mundo.

Quanto a Deos, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras.

Passou como religioso. Que importa?

Ha cavernas no hypocrita ou antes, o hypocrita é uma caverna.

Quando Clubin ficou só, abrio-se-lhe o antro. Teve um instante de delicias; arejou a alma.

Respirou largamente o seu crime.

O fundo do mal tornou-se visivel naquelle rosto. Clubin abrio-se. Nesse momento, o olhar de Rantaine ao pé daquelles olhos pareceria um olhar de recem-nado.

Arrancar a mascara, que livramento! A consciencia de Clubin alegrou-se por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ignobil no mal. O constrangimento de um longo respeito humano acaba por inspirar um gosto violento á impudencia. Chega-se a uma certa lascivia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas moraes tão pouco sondadas, uma não sei que ostentação atroz e agradavel que é a obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá appetite de vergonha. Desdenha-se os homens a ponto tal que se deseja o despreso delles. Ser estimado, aborrece. Admira-se a franquesa da degradação. Olha-se cobiçosamente a torpeza que se mostra tão a seu gosto na ignominia. Os olhos obrigados a baixar-se, tem muitas vezes destes olhares obliquos. Nada se approxima tanto de Messalina como Maria Alacope. Vede Capiere e a religiosa de Louviers.

Clubin vivera debaixo do véo. O descaramento foi sempre a sua ambição. Invejava a mulher publica e a fronte de bronze do opprobrio aceito; sentia-se mais mulher publica do que ella e tinha desgosto em passar por virgem. Foi o Tantalo do cynismo. Emfim naquella solidão, podia ser franco; era-o. Que volupia não é sentir-se sinceramente abominavel! Todos os extasis possiveis no inferno, teve-os Clubin naquelle momento; foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimulação; a hypocrisia é um adiantamento; Satanaz embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaçamento, pois que os homens tinham desapparecido e apenas ficara o céo. Disse comsigo: Sou um picaro! e ficou satisfeito.

Jamais houve cousa igual em uma consciencia humana.

Erupção de um hypocrita, não ha rompimento de cratera igual a esse.

Achava-se feliz por não haver ali ninguem, e não desgostaria que alguem o visse. Teria prazer em ser medonho á vista de uma testemunha.

Teria prazer em dizer ao espirito humano: és idiota!

A ausencia de homens assegurava-lhe o triunpho, mas diminuia-o.

Só elle era o espectador da sua gloria.

Ha certo encanto em estar de golilha. Toda a gente vê que és infame.

Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um galé, sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é o despota de todos os olhares que elle obriga a voltarem-se para si. Aquelle cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais bello triumpho do que esse de ficar no centro de convergencia para a attenção geral? Obrigar o olhar publico é uma das formas da supremacia. Os que tem o mal por ideal acham no opprobrio uma auréola. Domina-se dahi. Olha-se de cima de alguma cousa. Mostra-se com soberania. Um poste, á vista de todo o universo, tem alguma analogia com um throno.

Estar exposto, é ser contemplado.

Um máo reinado tem evidentemente jubilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Luiz XIV tomando traiçoeiramente o Palatinado, o regente Jorge matando lentamente Napoleão, Nicoláu assassinando a Polonia em face da civilisação, deviam sentir um pouco daquella volupia sonhada por Clubin. A immensidade do despreso parece grandesa ao despresado.

Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma victoria. É a ebridade, é a impudencia insolente e satisfeita, é uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.

Estas ideas em um hypocrita parecem contradição, e não são. Toda a infamia é consequente. O mel é fel. Escobar confina no marquez de Sade. Prova: Leotade. O hypocrita, sendo o perverso completo, tem em si os dous polos da perversidade. De um lado é padre, do outro cortezão. O seu sexo de demonio é duplo. O hypocrita é o horrivel hermaphrodita do mal. Fecunda-se a si proprio; gera-se, transforma-se. Queres vel-o formoso? olha-o; queres vel-o horrivel? vira-o.

Clubin tinha em si toda esta sombra de idéas confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.

Uma porção de faiscas do inferno attravessando a noite, era a successão dos pensamentos naquella alma.

Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla a pelle que despio.

Toda a gente acreditou naquella honestidade, elle proprio acreditou um bocadinho nella.

Deu segunda gargalhada.

Iam pensar que elle estava morto, e estava vivo. Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa caçoada á tolice universal!

E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desdem sem limites. Desdem da fuinha para com o tigre. Tinha conseguido o que falhára a Rantaine. Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triumphante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da sua má acção, e foi elle quem teve a boa fortuna.

Quanto ao fucturo, Clubin não tinha plano. Possuia os bilhetes do banco na boceta de ferro atada á cintura; bastava-lhe esta certeza. Mudaria de nome. Ha paizes onde sessenta mil francos valem seiscentos mil. Não seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande negocio, engrossar o capital, tornar-se seriamente millionario, também não era máo.

Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande commercio do café, podia ganhar toneis de ouro. Veria isso.

Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas cousas. O mais difficil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não havia obstaculo possivel. Nada de temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria á casa mal assombrada, entraria facilmente por meio da corda de nós escondida de antemão no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e viveres, dentro de oito dias lá estavam os contrabandistas de Hespanha, Blasquito provavelmente; por alguns guineos, far-se-hia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco para illudir, mas a Pasages ou a Bilbáo. Dahi iria a Vera-Cruz ou a Nova-Orleans. Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era cousa nenhuma para Clubin, só uma milha o separava de terra, pois que estava no Hanois.

Neste ponto dos seus calculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro. O formidavel rochedo Douvres surgio aos seus olhos.

VII

INTERVEM O INESPERADO

Clubin olhou espantado.

Era o medonho escolho isolado.

Não era possivel a illusão a respeito daquella configuração disforme. As duas Douvres gemeas campeavam horriveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que fallámos. Dissera-se um quebra-costas do oceano.

Estavam perto delle as rochas Douvres; o nevoeiro, como cumplice, escondera-as.

Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apezar de toda a attenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dous grandes navegadores, a Gonzalez que descobrio o Cabo Branco, e a Fernandez que descobrio o Cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excellente para a execução do projecto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.

A Durande arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das duas Douvres apenas por algumas centenas de braças.

A duzentas braças mais longe via-se um massiço cubo de granito. Descobria-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgal-a.

Os cantos rectilinios dessas rudes muralhas de angulo recto faziam presentir no cume uma planura.

Era o Homem.

A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessiveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade architectural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranquillas toalhas, nas faces quadradas daquelle enorme rochedo negro, especie de pedestal para os espectros immensos do mar e da noite.

Tudo aquillo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquella superficie muda da agua advinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.

Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.

Convenceu-se bem que era ali as Douvres.

Não podia duvidar.

Subita e terrivel mudança. As Douvres em vez dos Hanois. Em vez de uma milha, cinco leguas do mar! o impossivel. A rocha Douvres, para o naufrago solitario, é a presença, visivel e palpavel dos ultimos momentos. É impossivel chegar á terra.

Clubin estremeceu. Tinha se mettido no goela da sombra. Não havia outro refugio além do rochedo Homem. Era provavel que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa de Durande sobrecarregada sossobrasse. Nenhum aviso do naufragio chegaria a terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus setenta e cinco mil francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão. Tudo quanto elle construira deu em resultado aquella cilada; foi elle proprio o architecto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possivel. O triumpho fazia-se precipicio. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro prospero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edificio. O paraizo sonhado por aquelle demonio retomou a sua verdadeira figura; o sepulchro.

Entretanto soprava o vento. O nevoeiro, saccudido, furado, repuxado, desfazia-se no horisonte em grandes lanhos informes. Reappareceu o mar.

Os bois cada vez mais invadidos pela agua, continuavam a berrar no porão.

Approximava-se a noite; provavelmente a tempestade.

A Durande a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, degois da esquerda para a direita, e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.

Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio, e o levaria agua abaixo.

Havia menos obscuridade do que no momento do naufragio. Apezar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou comsigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepusculo é um vasto céo branco. Essa vasta claridade allumiava o mar.

A Durande naufragara em plano inclinado de pôpa a prôa. Clubin trepou á prôa que estava quasi fóra da agua. Fitou no horisonte os olhos.

É proprio da hypocrisia ater-se á esperança. O hypocrita é o homem que espera. A hypocrisia é uma esperança horrivel: o fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vicio.

Cousa estranha de dizer, ha confiança na hypocrisia. O hypocrita confia-se a certa indifferença do desconhecido, que consente no mal.

Clubin olhava para a extensão.

A situação era desesperada: aquella alma sinistra não desesperou.

Dizia comsigo que depois daquelle longo nevoeiro os navios conservados na bruma, á capa ou ancorados; iam continuar viagem, e algum passaria no horisonte.

E com effeito appareceu uma véla.

Vinha de leste e ia para oeste.

Appoximando-se desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurupés era quasi horisontal.

Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.

Clubiu disse comsigo: estou salvo.

Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.

O cuter era quasi estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não sómente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, appressando a conclusão, supprimindo a espera na casa mal assombrada, dando desfecho á aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.

Toda a certeza do bom exito entrou freneticamente naquelle espirito sombrio.

Extranha cousa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem succedidos.

Cumpria fazer apenas uma cousa.

A Durande, mettida nos rochedos, misturava a sua configuração á delles; confundia-se com os seus recortes, sobre os quaes parecia apenas um lineamento, ficava indistincta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para attrahir a attenção da embarcação que ia passar.

Mas uma figura humana desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na planura do rochedo Homem, e fazendo signaes de perigo, seria vista, sem duvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o naufrago.

O rochedo Homem ficava a duzentas braças. Era simples attingil-o a nado, facil trepar por elle.

Não havia tempo a perder.

Estando a prôa da Durande sobre a rocha, era do alto da pôpa e do ponto em que estava, que Clubin devia atirar-se ao mar.

Começou por deitar um sonda, e reconheceu que havia ao pé da pôpa muito fundo. As conchas microscopicas de foraminiferos e de polydistineas que a sonda trouxe comsigo estavam intactas, o que indicava que havia alli profundas cavas de rocha, onde a agua, qualquer que fosse a agitação da superficie, era sempre tranquilla.

Despio-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cuter.

Conservou apenas o cinto de couro.

Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direcção que devia seguir no meio dos parceis e das vagas para alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para baixo.

Como cahio de alto mergulhou muito.

Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinhas, depois fez um movimento para subir á superficie.

Nesse momento sentio-se aggarrado pelo pé.

LIVRO SETIMO

Imprudencia de interrogar um livro

I

A PEROLA NO FUNDO DO PRECIPICIO

Minutos depois do curto colloquio com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em Saint-Sampson.

Gilliatt ia inquieto até á anciedade. Que teria acontecido?

Saint-Sampson tinha um rumor de colmêa assustada. Toda a gente estava ás portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas contavam alguma cousa, fazendo gestos; as outras agrupavam-se á roda dessas. Ouviam-se estas palavras: que desgraça! Alguns sorriam.

Gilliatt não interrogou ninguem. Não era proprio delle fazer perguntas. Demais, ia demasiado commovido para fallar a indifferentes. Desconfiava das narrações, preferia saber logo tudo; foi á casa de Lethierry.

A sua anciedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar naquella casa.

Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; elle entrou.

Entrando, achou encostado á porta o Sr. Landoys que lhe disse a meia voz:

—Então, já sabe do successo?

—Não.

—Eu não quiz dizer-lh'o ha pouco do meio da rua. Pareceria correio de desgraças.

—Que foi então?

—Perdeu-se a Durande.

Havia muita gente na sala.

Os grupos fallavam baixo, como no quarto de um doente.

Os assistentes, que eram os visinhos, os viandantes, os curiosos, estavam amontoados ao pé da porta, com uma especie de receio, e deixavam vasio o fundo da sala onde estava, ao lado de Deruchette lacrimosa e assentada, mess Lethierry de pé.

Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. O bonet de marujo cahia-lhe nas sombrancelhas; uma mecha de cabellos grisalhos prendia-se-lhe na face. Não dizia nada. Os braços não tinham movimento, a boca parecia não ter alento. Parecia uma cousa encostada á parede.

Ao vê-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry já não tinha razão de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer. Que faria elle agora? Levantar-se de manhã, deitar-se de noite. Já não podia esperar a Durande, nem vê-la partir, nem voltar. O que é um resto de existencia sem objecto? Beber, comer, e depois? Aquelle homem tinha corôado os seus trabalhos com uma obra prima, e as dedicações com um progresso. Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra prima. Para que viver ainda alguns annos vasios? Não tinha mais nada que fazer. Naquella idade não é possivel recomeçar; de mais a mais estava arruinado. Pobre velho!

Deruchette, assentada ao pé delle, e chorando, tinha entre as suas duas mãos a mão de mess Lethierry. As della estavam postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a differença daquelles dous abatimentos. As mãos postas ainda tem esperança: a apertada, nenhuma.

Mess Lethierry abandonava-lhe o braço sem resistencia. Estava passivo. Tinha em si apenas aquella porção de vida que póde haver depois do raio.

Ha certas descidas ao fundo do abysmo que retiram um homem do meio dos vivos. As pessoas que andam em roda são confusas e indistinctas; acotovelam-n'o e não lhe chegam. De parte a parte ficam inacessiveis. A ventura e o desespero não são os mesmos centros respiraveis; o desesperado assiste á vida dos outros, mas de muito longe; ignora quasi a sua presença; perde o sentimento da propria existencia; que importa ser de carne e osso, o desesperado já se não sente real; já não é elle proprio, é apenas um sonho.

Mess Lethierry tinha o olhar dessa situação.

Cochichavam os grupos.

Cada qual dizia o que sabia.

Eis as noticias:

A Durande perdera-se na vespera nos rochedos Douvres, com o nevoeiro, uma hora antes do pôr do sol. Á excepção do capitão, que não quiz deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa. Uma borrasca, vinda do sudueste, depois do nevoeiro, quasi fez naufragar a chalupa, e carregou-a para o mar largo além de Guernesey. De noite tiveram os naufragos a boa fortuna de encontrar o Cashmere, que os recolheu elevou a Saint-Pierre Port. O culpado de tudo foi o timoneiro Tangrouille, que já estava preso. Clubin mostrou-se magnanimo.

Os pilotos que abundavam nos grupos, pronunciavam estas palavras escolho Douvres, de um modo particular.—Má hospedaria aquella! dizia um delles.

Via-se na mesa uma bussola e um masso de registros e notas; eram sem duvida a bussola de Durande e os papeis de bordo entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a chalupa; magnifica abnegação desse homem, salvando até os papeis no momento em que ia morrer; minuciasinha cheia de grandeza, esquecimento sublime de si proprio.

Todos eram unanimes em admirar Clubin, e igualmente unanimes em julga-lo salvo. O cuter Shealtiel chegára poucas horas depois do Cashmere, e esse cuter trazia as ultimas informações. Esteve vinte o quatro horas nas mesmas aguas da Durande. Parou e bordejou durante o nevoeiro e a tempestade. O patrão do Shealtiel estava tambem na sala do Lethierry.

No momento em que Gilliatt entrou, acabava elle de fazer a sua narração a mess Lethierry. Era um verdadeiro relatorio. De manhã, tendo cessado a borrasca o acalmado o vento, o patrão do Shealtiel ouvio mugido de bois em pleno mar. Este rumor proprio das campinas, ouvido alli nas vagas, surprendeu o patrão. Descobrio a Durande nos rochedos Douvres. A calma era sufficiente para que elle podesse acercar-se dos rochedos. Chamou o navio á falla. Só lhe respondeu o mugido dos bois que se afogavam no porão. O patrão do Shealtiel estava certo de que não havia ninguem á bordo da Durande. O casco estava completamente preso; e por mais violenta que fosse a borrasca; devia ter passado a noite á bordo. Não era homem de desanimar facilmente. Não estava á bordo, logo estava salvo.

Muitos sloops e lugars de Granville e Saint-Malo, desprendendo-se do nevoeiro, era fóra de duvida que deviam ter costeado as Douvres. Evidentemente algum delles recolheu o capitão Clubin. Devem lembrar-se que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o navio, ia correr perigos, mais um homem poderia fazel-a sossobrar, e foi isso sobretudo o que resolveu Clubin a ficar na Durande: mas, cumprido esse dever, se apparecesse um navio salvador, Clubin, não teria difficuldade de aproveitar-se delle. Deve-se ser heróe, não se deve ser pascacio. Um suicidio seria tanto mais absurdo quanto que Clubin portára-se com dignidade. O culpado era Tangrouille, não Clubin. Tudo isto era consequente; o patrão do Shealtiel tinha razão, e toda a gente esperava vêr Clubin de um momento para outro. Premeditava-se recebel-o em triumpho.

Da narração do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e a Durande perdida.

Quanto a Durande estava decidido que a catastrophe era irremediavel. O patrão do Shealtiel assistira á ultima phase do naufragio. O grandissimo rochedo em que naufragara a Durande, resistira ao choque da tempestade, como se quizesse guardar comsigo o navio; mas de manhã, no momento em que o Shealtiel, verificando que não havia ninguem para salvar affastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar que são como os ultimos arrancos da colera das tempestades. Essa onda levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a rectidão de uma flexa disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres. Ouvio-se um estalo «diabolico» dizia o patrão. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura, metteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou ahi deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.

A Durande, no dizer da equipagem do Shealtiel já estava quasi toda despedaçada. Teria sossobrado, com certeza, de noite, se o cachopo não a sustivesse. O patrão do Shealtiel com o seu oculo estudou o casco. Descreveu o desastre com precisão maritima; o lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes dos ovens quasi todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente possivel desde o meio do mastro até acima; o lugar dos viveres arrombado, os cavaletes da chalupa destruidos, a arvore do leme rôta, os cabos despregados, os pavezes arrasados, as abitas levadas pelo vento, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devastação frenetica da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao mastro de prôa, já não existia, não havia noticia delle, completamente limpo, levaram-n'o os diabos, com todas as roldanas, polés e correntes. A Durande estava deslocada; a agua começava agora a sargal-a. Dentro de alguns dias nada mais restaria della.

E comtudo a machina, cousa notavel, e que provava a sua perfeição, soffreu pouco com a tempestade. O patrão do Shealtiel affirmava que a manivella não teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o cano da machina resistio. Os baluartes de ferro do lugar do com mando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas soffreram, mas as rodas pareciam não ter um só raio de menos. A machina estava intacta. Era a convicção do patrão do Shealtiel. O machinista Imbrancam, que estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquelle negro, mais intelligente que muitos brancos, era o admirador da machina. Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas mãos negras, e dizia a Lethierry mudo: meu amo, a machina está viva.

O salvamento de Clubin parecia cousa segura; o casco da Durande estava sacrificado; a conversação dos grupos recahio sobre a machina. Interessavam-se por ella, como se fosse uma pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da machina.—Solida comadre aquella, dizia um marinheiro francez.—É magnifica! exclamava um pescador guernesiano.—Deve ter sido muito astuciosa, accrescentava o patrão, para escapar apenas com alguns arranhões.

A pouco e pouco tornou-se a machina a preoccupação unica. Animou as opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha algum velho cuter de vela, e esperava apanhar a freguezia da Durande, alegrou-se por vêr o escolho Douvres fazer justiça á nova invenção. O cochicho tornou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era com tudo um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a pressão do silencio sepulcral de Lethierry.

Do colloquio havido em todos os pontos resultava isto:

A machina era o essencial. Refazer o navio era possivel, não a machina. Era unica. Para fabricar outra faltava o dinheiro e o fabricante. Lembram-se que o constructor tinha morrido. Custou quarenta mil francos. Ninguem arriscaria agora aquelle capital naquella eventualidade; tanto mais quando acabava de provar-se que os vapores naufragam como navios de vela; o accidente actual da Durande mettia á pique o seu passado succedimento. E era doloroso pensar que naquelle momento a machina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria despedaçada como o navio. Emquanto existia a machina, podia dizer-se que não havia naufragio. Só a perda da machina era irremediavel. Salvar a machina era reparar o desastre.

Salvar a machina, é facil dizel-o. Mas quem ousaria? era acaso possivel? Fazer e executar, são cousas differentes, e a prova é que é facil formular uma aspiração e difficil executal-a. Ora, se houve jámais um sonho impraticavel e insensato era este; salvar a machina encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquellas rochas um navio e uma equipagem seria absurdo; não se devia pensar nisso. Era a estação dos temporaes: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nos pontos submarinhos e o navio despedaçava-se. Era mandar um naufragio em soccorro do primeiro. Na especie de buraco da planura superior onde se abrigára o naufrago legendario morto de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso pois que, para salvar essa machina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, só naquelle mar, só naquelle deserto, só a cinco leguas da costa, naquelle medo, só durante semanas inteiras, só diante do previsto e do imprevisto, sem vitualhas nas angustias da privação, sem soccorro nos incidentes da desgraça, sem outro vestigio humano que o do antigo naufrago morto alli, sem outro companheiro além daquelle finado.

E como salvaria elle a machina? Era preciso que fosse, não sómente marujo, senão tambem ferreiro. E quantas difficuldades! O homem que o tentasse seria mais que um heróe. Seria um louco. Porquanto, em certos commettimentos desproporcionados, onde parece necessario o sobrehumano, a bravura tem acima de si a demencia. E com effeito, sacrificar-se por um pouco de ferro não era estravagante? Não, ninguem iria aos rochedos Douvres. Devia-se renunciar á machina do mesmo modo que ao navio. O salvador que era preciso não apparecia. Onde encontrar esse homem?

Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquella multidão.

O patrão do Shealtiel que era um antigo piloto, resumio o pensamento de todos, exclamando em alta voz:

—Não! está acabado. Não existe um homem capaz de ir buscar a machina!

—Se eu não vou, disse Imbrancam, é que é impossivel ir.

O patrão do Shealtiel sacudio a mão esquerda com aquelle arrebatamento que exprime a convicção do impossivel, e repetio:

—Se existisse...

Deruchette voltou a cabeça.

—Casava-me com elle.

Houve um silencio.

Um homem pallido sahio do meio dos grupos e disse:

—A senhora casava-se com elle, miss Deruchette?

Era Gilliatt.

Entretanto todos levantaram os olhos. Mess Lethierry endireitou-se. Tinha nos olhos uma luz estranha.

Tirou o boné e lançou-o ao chão, depois olhou solemnemente para a frente sem vêr pessoa alguma e disse:

—Deruchette casava-se com esse homem. Dou a minha palavra de honra a Deos.

II

GRANDE ESPANTO NA COSTA OESTE

A noite desse dia, das 10 horas em diante, devia ser noite de luar. Todavia, qualquer que fosse a boa apparencia da noite, do vento e do mar, nenhum pescador estava disposto a sahir nem de Hongue la Perre, nem do Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de Platon, nem de Port Grat, nem da bahia Vason, nem de Perrelle Bay, nem de Pezeris, nem de Tielles, nem da bahia dos Santos, nem de Petit Bô, nem de nenhum outro porto ou angra de Guernesey. E isto por uma razão simples; o gallo tinha cantado ao meio dia.

Quando o gallo canta a uma hora extraordinaria não ha peixe.

Nesse dia, pois, ao cahir da tarde, um pescador que voltava a Omptolle teve uma sorpreza. Na altura de Houmet Paradis, além de Brayges e Gunes, tendo á esquerda a balisa de Plattes Fougères, que representa um funil virado, e á direita a balisa de Saint-Sampson, que representa uma figura de homem, o pescador acreditou ver uma terceira balisa. Que balisa era essa? quando foi posta alli? que banco indicava ella? A balisa respondeu logo a estas interrogações; mexeu-se; era um mastro. Não diminui o o espanto do pescador. Balisa era para admirar; mastro ainda mais. Não havia pesca possivel. Quando todos voltavam, porque sahia aquelle? Quem era? porque?

Dez minutos depois, o mastro caminhando lentamente, chegou a pouca distancia do pescador de Omptolle. Este não pôde reconhecer o barco. Ouvio remar. O ruido era de dous remos. Provavelmente era um homem só. O vento era norte; o homem navegava evidentemente para ir tomar o vento além da ponta Fontenelle. Ahi era natural que abrisse a vela. Contava pois dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer aquillo?

O mastro passou; o pescador foi para terra.

Nessa mesma noite, na costa oeste de Guernesey, observadores de occasião, disseminados e isolados fizeram alguns reparos a horas diversas e em diversos pontos.

O pescador de Omptolle acabava de amarrar o barco, quando um conductor de sargaço, a meia milha distante, chicoteando os animaes na estrada deserta de Clotures, perto do Cromleche, nos arredores dos martellos 6 e 7, vio no mar, um tanto longe, em lugar pouco frequentado, porque é preciso conhece-lo bem, do lado da Roque-Nord e da Sablonneuse, um barco içando uma vela. Deu pouca attenção, pois que era homem de carro e não de barco.

Meia hora depois, um estucador que voltava da cidade e contornava a lagôa de Pelée, achou-se repentinamente quasi em face de um barco que penetrara audaciosamente entre as rochas do Quenon, da Roune de Mer, e da Gripe de Roune. A noite era negra, mas o mar estava claro; effeito que se produz muitas vezes, e podia-se distinguir ao largo os navegantes. Só havia no mar aquelle barco.

Mais abaixo e mais tarde, um pescador de lagostas, dispondo as suas tendas no areal que separa o Port Soif do Port Enfer, não comprehendeu o que faria um barco que passava entre a Boue Cornelle e a Moncrette. Era preciso ser bom piloto e ter pressa de chegar a algum lugar para arriscar-se a passar alli.

Sendo oito horas no Catel, o taverneiro de Cobo Bay observou, com algum espanto, uma vela além da Boue do Jardin e das Grunettes, mui perto da Susanna, e dos Grunes do Oeste.

Não longe de Cobo Bay, na ponta solitaria do Houmet da bahia Vason, estavam dous namorados a despedir-se e a reter-se um ao outro; foram distrahidos do ultimo beijo por um vasto barco que passou por perto delles e dirigia-se para as Menellettes.

O Sr. Le Peyre des Norgiots, morador em Catellon Pipet, estava examinando, ás 9 horas da noite, um buraco feito por larapios na cerca da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os estragos, não pode deixar de observar um barco dobrando temerariamente o Croce-Point áquella hora.

No dia seguinte ao de uma tempestade, com o resto de agitarão que sempre fica no mar, aquelle itinerario era pouco seguro, a menos que se não saiba de cór todos os passos.

Ás nove horas e meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum tempo para ver entre Colombellee Soufleresse alguma cousa que devia ser um barco, e que se expunha muito ao tempo. Ha ventos perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse é assim chamada porque sopra constantemente os barcos que passam.

Ao levantar da lua, estando a maré cheia, e havendo pleno mar no estreito de Li-Hou, o guarda solitario da ilha de Li-Hou, assustou-se ao ver passar entre a lua e elle uma longa forma negra. Esta forma ia resvalando lentamente por cima das especies de paredes que formam os bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.

A Dama Branca habita o Tau de Pez d'Amont, a Dama Cinzenta habita o Tau de Pez d'Aval, a Dama Vermelha habita a Lilleuse ao norte do Banc-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacré ao este de Li-Houmet. Ao clarão da lua todas essas damas sahem e encontram-se ás vezes.

Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas fileiras de rochas sobre as quaes parecia que a vela andava podiam com effeito esconder o casco de um barco vogando a traz de si, deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou á si proprio que barco ousaria arriscar-se aquellas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as Angullieres e Lerée Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais provavel que fosse a Dama Negra.

Estando a lua já acima da torre de Saint-Pierre du Bois, o sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte levadiça, e distinguio na foz da bahia, mais perto que a Sambule, um barco á vela que parecia descer do norte a sul.

Existe na costa sul de Guernesey, atraz do Plainmont, no fundo de uma bahia, toda precipicios e muralhas, cortada a pique na onda, um porto singular que um francez residente na ilha desde 1844, talvez o mesmo que escreve agora estas linhas, baptisou com o nome de porto do quarto andar, nome geralmente adoptado hoje. Esse porto que então se chamava a Moie, é uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de quarenta pés de altura acima d'agua, e communicando com as vagas por duas grandes pranchas parallelas em plano inclinado. Os barcos, içados á força de braços por correntes e roldanas, sahem ao mar e descem ao longo dessas pranchas que são dous trilhos. Para os homens ha uma escada. Esse porto era então muito frequentado pelos contrabandistas. Sendo pouco praticavel, era lhes commodo.

Pelas onze horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem trapaceia, espia; elles espiavam. Admiraram-se de ver uma vela desembocando repentinamente além das linhas negras do Cabo Plainmont. O luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receiando que fosse algum guarda-costa collocar-se de emboscada atraz do grande Hanois, mas a vela passou os Hanois, deixou atraz de si a noroeste a Boue Blondi, e mergulhou-se ao largo nas brumas lividas do horisonte.

Onde diabo vai aquella barca? disseram os contrabandistas?

Na mesma noite, pouco depois de pôr o sol, ouvio-se alguem bater na porta da casa mal assombrada em que morava Gilliatt. Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarellas, o que indicava ser sacristão. A casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de fructas do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na mão, chamou o rapaz, e trocaram-se estas palavras entre elles:

—Que quer você?

—O homem d'aqui.

—Não está em casa.

—Onde está?

—Não sei.

—Virá amanhã?

—Não sei.

—Foi-se embora d'aqui?

—Não sei.

—É que o novo cura da parochia, o reverendo Ebenezer Caudray, queria fazer-lhe uma visita.

—Não sei.

—O reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanhã de manhã.

—Não sei.

III

NÃO TENTEIS A BIBLIA

Nas vinte e quatro horas que se seguiram, mess Lethierry não dormio, nem comeu, nem bebeu, beijou a testa de Deruchette, informou-se de Clubin do qual ainda não havia noticias, assignou um papel declarando que não pretendia dar queixa, e fez soltar Tangrouille.

Ficou todo o dia seguinte, meio encostado a mesa do escriptorio da Durande, nem assentado nem de pé, respondendo com brandura a quem lhe fallava. Demais, estando satisfeita a curiosidade, ficou solitaria a casa de Lethierry. Ha muito desejo de observar na solicitude de lamentar. Fechara-se a porta; deixava-se Lethierry com Deruchette. O relampago que passára nos olhos de Lethierry estava extincto; voltara-lhe o olhar lugubre do começo da catastrophe.

Deruchette assustada, foi calladinha, a conselho de Graça e Doce, collocar ao lado delle, na mesa, um par de meias que Lethierry tecia quando a triste noticia chegou.

Lethierry sorrio amargamente e disse:

—Então pensam que não tenho juizo?

Depois de um quarto de hora de silencio, accrescentou:

—Estas manias são boas quando a gente é feliz.

Deruchette tirou o par de meias, e aproveitou a occasião para tirar tambem a bussola e os papeis de bordo, que mess Lethierry contemplava demasiadamente.

De tarde, um pouco antes da hora do chá, a porta abrio-se, e entraram dous homens, vestidos de preto, um velho, e outro moço.

O moço já foi visto no curso desta narração.

Tinham ambos um ar grave, mas de gravidade differente; o velho tinha aquillo que se póde chamar gravidade de profissão; o mancebo tinha a gravidade da natureza. A primeira vem do habito, a segunda nasce do pensamento.

Eram, como indicava o traje, dous padres, pertencendo ambos á religião estabelecida.

O que se notava desde logo no mancebo, era que a gravidade, profunda no olhar, e resultando do espirito, não nascia absolutamente da pessoa. A gravidade admitte a paixão, exalta-a purificando-a, mas aquelle mancebo era, antes de tudo, lindo. Sendo padre devia ter ao menos vinte e cinco annos; parecia ter desoito. Apresentava uma harmonia e um contraste, isto é, tinha uma alma que parecia feita para a paixão o um corpo que parecia feito para o amor. Era loiro, rosado, fresco, delicado e flexivel, apezar do vestuario severo, com faces de donzella e mãos delicadas; embora reprimido, tinha o gesto vivo e natural. Tudo nelle era encanto, elegancia, e quasi volupia. A belleza do seu olhar corrigia esse excesso de graça. O sorriso sincero, que deixava ver uns dentes de criança, era pensativo e religioso. Era a gentileza de um pagem e a dignidade de um bispo.

Debaixo dos espessos cabellos louros, tão dourados que pareciam garridos, tinha elle um craneo elevado, candido e bem feito. Uma leve ruga de inflexão dupla, entre as duas sobrancelhas, despertava confusamente a idéa da ave do pensamento pairando, com as azas abertas, no meio daquella fronte.

Sentia-se ao vel-o, uma dessas creaturas benevolas, innocentes e puras, que progridem em sentido inverso da humanidade vulgar, a quem a illusão torna sabios e a experiencia enthusiastas.

A mocidade transparente deixava vêr a maturidade interior. Comparado ao padre dos cabellos grisalhos que o acompanhava, á primeira vista, parecia filho, reparando-se bem, parecia pai.

Era este o Dr. Jaquemin Herodes. O Dr. Jaquemin Herodes pertencia á alta igreja, que é pouco mais ou menos um papismo sem papa. O anglicanismo nessa época era agitado pelas tendencias que depois se affirmaram e condensaram no puleysmo. O Dr. Jaquemin Herodes era desse matiz anglicano, que é quasi uma variação romana. Era alto, correcto, delgado e superior. O raio visual interior mal se distinguia de fóra. O seu espinto era cingir-se á letra. Demais a mais era altivo. Enchia com a sua pessoa o lugar que occupava. Parecia menos um reverendo que um monsenhor. A casaca era talhada a moda de sotaina. Em Roma é que elle estaria bem. Nascera para ser prelado da camara. Parecia ter sido creado expressamente para ser ornamento do papa, e ir atraz da cadeira gestatoria, com toda a côrte pontificia, in abitto paonazzo. O accidente de ter nascido inglez, e uma educação theologica mais voltada para o Antigo Testamento que para o Novo, fizera com que lhe falhasse esse destino. Todos os seus explendores resumimiu-se nisto: ser cura de Saint-Pierre Port, decano da ilha de Guernesey e subrogado do bispo de Winchester. Não ha duvida que era gloria tudo isso.

Essa gloria não impedia que o Sr. Jaquemin Herodes fosse um bom homem.

Como theologo, dispunha da estima dos conhecedores, e fazia quasi autoridade em Arches, que é a Sorbonna da Inglaterra.

Tinha um ar douto, um piscar d'olhos apto e exagerado, narinas cabelludas, dentes visiveis, o labio inferior fino e o labio superior expesso, muitos diplomas, uma gorda prebenda, amigos barões, a confiança do bispo, e continuamente trazia uma biblia na algibeira.

Mess Lethierry estava tão completamente absorto que tudo quanto pôde produzir nelle a entrada dos dous padres, foi um imperceptivel enrugar de sobrancelhas.

O Sr. Jaquemin Herodes approximou-se, cumprimentou, recordou em poucas palavras sobriamente altivas, a sua recente promoção, e disse que vinha, segundo o uso, apresentar aos notaveis, e a mess Lethierry especialmente, o seu successor na parochia, o novo cura de Saint-Sampson, o reverendo Joe Ebenezer Caudray, que dahi em diante seria o pastor de mess Lethierry.

Deruchette levantou-se.

O padre moço, que era o reverendo Ebenezer, inclinou-se.

Mess Lethierry olhou para o Sr. Ebenezer Caudray, e mastigou entre dentes estas palavras: mão marinheiro.

Graça apresentou cadeiras. Os dous reverendos assentaram-se perto da mesa.

O Dr. Herodes começou um speech. Tinha sabido de um acontecimento. Naufragara o Durande. Vinha, como pastor, trazer consolação e conselho. O naufragio era uma desgraça, mas era tambem uma felicidade. Sondemo-nos; não nos inchava a prosperidade? As aguas da felicidade são perigosas. Não se deve tomar as desgraças á má parte. Os caminhos do Senhor são desconhecidos. Mess Lethierry estava arruinado. Pois ser oppulento, é estar em perigo. Apparecem amigos falsos. A pobresa affasta-os. Fica-se isolado. Solus eris. A Durande dizem que dava mil libras esterlinas por anno. Era demais para um philosopho. Fujamos ás tentações, desdenhemos o ouro. Aceitemos com reconhecimento à ruina e o abandono. O isolamento dá fructos. Ganha-se nelle as graças do Senhor. Foi na solidão que Aia achou as aguas quentes, conduzindo os asnos de Sebeão, seu pai. Não nos revoltemos contra os impenetraveis decretos da providencia. O santo homem Job, depois da sua miseria, cresceu em riquezas. Quem sabe se a perda de Durande não teria compensações, mesmo temporaes? Tambem elle, Herodes, empregára capitaes em uma magnifica operação que se realizava em Sheffleld; se mess Lethierry, com os fundos que lhe restavam, quizesse entrar nessse negocio, podia refazer a fortuna; era um grande fornecimento de armas ao czar para reprimir a Polonia. Ganharia trezentos por cento.

A palavra czar pareceu despertar Lethierry, que interrompeu o Dr. Herodes:

—Não quero nada com o czar.

O reverendo Herodes respondeu:

—Mess Lethierry, os principes são acceitos por Deos. Deos escreveu: Dai a Cesar o que é de Cesar. O czar é Cesar.

Lethierry, meio absorto na scisma, murmurou:

—Quem é Cesar? Não conheço.

O reverendo Herodes continuou a exhortação. Não insistio por Sheffield. Não aceitar Cesar era ser republicano. O reverendo comprehendia que um homem fosse republicano. Nesse caso, comprehendia que mess Lethierry se voltasse para uma republica. Mess Lethierry podia estabelecer a fortuna nos Estados-Unidos, melhor do que em Inglaterra. Se quizesse desculpar o que lhe restava, bastava-lhe tomar acções na grande companhia de exploração das plantações do Texas, que empregava mais de vinte mil negros.

—Não quero nada com a escravidão, disse Lethierry.

—A escravidão, replicou o reverendo Herodes, é de instituição sagrada. Está escripto: «Se o senhor bater o escravo, nada lhe será feito, porque bate o seu dinheiro.»

Graça e Doce, na soleira da porta, ou viam com uma especie de extase as palavras do reverendo doutor.

O reverendo continuou. Era, em summa, como dissemos um bom homem; e quaesquer que podessem ser os seus dissentimentos de casta ou de pessoa com mess Lethierry, vinha-lhe sinceramente dar o auxilio espiritual, e mesmo temporal, de que dispunha.

Se mess Lethierry estava arruinado ao ponto de não poder cooperar, com fructo, numa especulação qualquer, russa ou americana, porque não entrava no governo e nas funcções assalariadas? São nobres empregos esses, e o reverendo estava prompto a introduzir mess Lethierry. Vagára em Jersey o lugar de deputado-visconde. Mess Lethierry era amado e estimado, e o reverendo Herodes, decano de Guernesey, podia obter para mess Lethierry o emprego de deputado-visconde de Jersey. O deputado visconde é um funccionario consideravel; assiste, como representante de Sua Magestade aos actos juridicos, aos debates da plebe, e ás execuções de sentenças.

Lethierry fixou os olhos no Dr. Herodes.

—Não gosto de enforcamentos, disse elle.

O Dr. Herodes, que até então pronunciára todas as palavras com a mesma inflexão, teve um assento de severidade e uma inflexão nova:

—Mess Lethierry, a pena de morte é ordenada por Deus. Deus entregou a espada ao homem. Está escripto: olho por olho, dente por dente.

O reverendo Ebenezer approximou imperceptivelmente a sua cadeira da cadeira do reverendo Jaquemin, e disse-lhe de modo que não fosse ouvido senão por elle:

—O que este homem diz é-lhe dictado.

—Por quem? perguntou no mesmo tom o reverendo Herodes.

—Pela consciencia.

O reverendo Herodes metteu a mão no bolso, tirou um grosso volume em 18° encadernado com fechos, pô-lo na mesa e disse em voz alta:

—A consciencia é isto.

O livro era a Biblia.

Depois foi-se abrandando o Dr. Jaquemin. O seu desejo era ser util a mess Lethierry, que considerava ser um homem forte. Como pastor, tinha elle direito e dever de aconselhar; todavia mess Lethierry tinha a liberdade de acceitar ou recusar o conselho.

Mess Lethierry, cahindo outra vez na absorpção e no abatimento, já não ouvia. Deruchette, assentada ao pé delle, e pensativa tambem, não levantava os olhos, e dava áquella pratica pouco animada a porção de acanhamento que resulta de uma presença silenciosa. Uma testemunha que não diz palavra é uma especie de peso indefinivel. Mas o Dr. Herodes não parecia sentil-o.

Como Lethierry não respondia, o Dr. Herodes deu largas á palavra. O conselho vem do homem, a inspiração vem de Deus. Ha inspiração no conselho do padre. É bom aceitar os conselhos, e perigoso regeita-los. Sochoth foi agarrado por onze diabos por ter desdenhado das exhortações de Nathaniel. Tiburiano foi atacado de lepra por ter posto fóra de casa o apostolo André. Barjesus, apezar de magico, ficou cégo por ter zombado das palavras de S. Paulo. Elxai, e suas irmãs Martha a Marthena estão no inferno a esta hora por terem desprezado as advertencias de Valencianus que lhes provava claro como o dia, que o Jesus Christo delles, de trinta e oito leguas de comprimento, era um demonio. Rolibana, que tambem se chama Judith, obedecia aos conselhos. Ruben e Theniel, ouviam os conselhos do céo; basta os nomes delles para indica-los; Ruben significa filho da visão, e Theniel significa face de Deus.

Mess Lethierry deu um socco na mesa.

—Mas a culpa é minha!

—Que quer dizer? perguntou Jaquemin Herodes.

—Digo que a culpa é minha.

—Culpa de que?

—Por ter mandado vir a Durande á sexta-feira.

O Sr. Jaquemin Herodes murmurou ao ouvido do Sr. Ebenezer Caudray:

—Este homem é supersticioso.

Continuou depois, e em tom de mestre:

—Mess Lethierry, é pueril acreditar na sexta-feira. Não se deve acreditar em fabulas. A sexta-feira é um dia, como qualquer outro. Ás vezes é data feliz. Melendez fundou a cidade de Santo Agostinho em sexta-feira; foi n'uma sexta-feira que Henrique VII deu a sua commissão a John Cabot; os perigrinos de Mayflower chegaram a Province-Town em sexta-feira. Washington nasceu na sexta-feira, 22 de Fevereiro de 1732; Christovão Colombo descobrio a America na sexta-feira 12 de Outubro de 1492.

Dizendo isto levantou-se.

Ebenezer, que tinha ido com elle, levantou-se tambem.

Graça e Doce advinhando que os reverendos iam despedir-se, abriram as portas.

Mess Lethierry não via nem ouvia nada.

O Sr. Jaquemin Herodes disse em aparte ao Sr. Ebenerez Caudray:

—Nem nos comprimenta. Não é tristeza, é embrutecimento. Devemos crer que elle está doudo.

Entretanto pegou na Biblia, e collocou-a entre as mãos abertas, como quem segura um passaro com receio que fuja. Esta attitude creou entre os personagens presentes uma certa espera. Graça e Doce esticaram a cabeça.

A voz de Herodes fez quanto pede para ser magestosa.

—Mess Lethierry, não nos separemos sem ler uma pagina do livro santo. As situações da vida são esclarecidas pelos livros; os profanos tem as sortes virgilianas, os crentes tem as advertencias biblicas. O primeiro livro, apanhado ao acaso, aberto ao acaso, dá um conselho; a Biblia, aberta ao acaso, faz uma revelação. É sobretudo boa para os afflictos. O que a Santa Escriptura respira indubitavelmente é um lenitivo ás dôres. Diante dos afflictos, deve-se consultar o santo livro sem escolher o lugar, e ler com candura o passo encontrado. O que o homem não escolhe, escolhe-o Deus. Deus sabe o que precisamos. O seu dedo invisivel aponta o passo inesperado que nós lemos. Qualquer que seja a pagina, rebenta-lhe luz. Não busquemos outra. É a palavra do céo. O nosso destino é revelado mysteriosamente no texto evocado com confiança e respeito. Ouçamos e obedeçamos. Mess Lethierry, o senhor tem uma afflicção, este é o livro da consolação; está enfermo, este é o livro da saude.

O reverendo Jaquemin Herodes abrio a mola do fecho, metteu o dedo ao acaso entre duas paginas, poz a mão no livro aberto, e concentrou-se; depois abaixando os olhos com autoridade leu em alta voz.

Eis o que elle leu:

«Isaac passeava no caminho que vai ter ao poço chamado Poço daquelle que vive e vê.

«Rebecca, vendo Isaac, disse: Quem é este homem que vem andando para mim.

«Então Isaac fel-a entrar na sua tenda, e tomou-a por mulher, e grande foi o amor que lhe teve».

Ebenezer e Deruchette olharam um para o outro.

FIM DA PRIMEIRA PARTE.

SEGUNDA PARTE

O engenhoso Gilliatt

LIVRO PRIMEIRO

O escolho

I

INCOMMODA CHEGADA, DIFFICIL SAHIDA

Já os leitores terão adivinhado que o barco, visto em muitos pontos da costa de Guernesey, na noite anterior, em horas diversas, era a pança. Gilliatt escolheu ao longo da costa o canal que se abre entre os rochedos; era a rota perigosa, mas era o caminho directo. Tomar o mais curto foi o cuidado delle. Os naufragos não esperara. O mar é cousa urgente, uma hora de demora podia ser irreparavel. Queria chegar depressa para soccorrer a machina.

Sahindo de Guernesey, uma das preoccupações de Gilliatt era não despertar a attenção. Sahio como quem fugia. Tinha ares de pessoa que se esconde. Evitou a costa d'Este como se achasse inutil passar á vista de Saint-Sampson e Saint-Pierre Port; resvalou silenciosamente ao longo da costa opposta que é relativamente inhabitada. Nos bancos teve de remar: mas Gilliatt manejava o remo segundo a lei hydraulica: tomar a agua sem choque e impeli-la devagar; desse modo pôde nadar, na obscuridade com a maior força e o menor rumor possiveis. Parecia que ia commetter uma acção feia.

A verdade é que, atirando-se de olhos fechados a um commettimento que parecia impossivel, e arriscando a vida com todas as probabilidades contra elle, receiava a concurrencia.

Como o dia começava a despontar, os olhos ignotos que estão talvez abertos no espaço, puderam ver no meio do mar, num ponto em que ha mais solidão e ameaça, duas cousas entre as quaes ia diminuindo o intervallo, sendo que uma approximava-se da outra. Uma, quasi imperceptivel no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa barca havia um homem; era a pança levando Gilliatt. A outra immovel, collossal, negra, tinha, sobranceira ás vagas, uma sorprehendente figura. Dous altos pilares amparavam acima d'agua, no vacuo, uma especie de travessão horisontal que era como que uma ponte entre as duas cumiadas. O travessão, tão informe de longe que seria impossivel advinhar o que era, fazia corpo com os dous pilares. Parecia uma porta. Porque, haveria uma porta naquella abertura de todos os lados do mar? Dissera-se um dolmen titanico plantado alli, em pleno oceano, por uma phantasia magistral, e construido por mãos que leem o habito de apropriar ao abysmo as suas construcções. Aquella medonha forma levantava-se na claridade do céo.

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