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Os Pobres

OS POBRES

Reading edition

I O ENXURRO

Vem

o inverno e os montes pedregosos, as arvores despidas, a natureza inteira envolve-se n'uma grande nuvem humida que tudo abafa e penetra. As coisas dil-as-hieis recolhidas e scismaticas.

É como um rôlo mysterioso e profundo que vem d'um mar desconhecido. E a chuva começa. É um ruido dôce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra imbebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra, põe raizes á mostra, arrasta n'alluvião o humus, as folhas seccas das arvores, os cadaveres dos bichos, os detrictos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reune, atira, entre a baba da agua, para um destino ignoto.

Assim a vida. É um rio de lagrimas, de brados, de mysterio. A onda turva põe as mais fundas raizes á mostra, a torrente leva comsigo de roldão a desgraça e o riso; sem cessar carreia este terriço humano para uma praia, onde as mãos esqualidas dos que soffreram encontram emfim a mão que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar, ficam attonitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se converte em realidade...

Vêde... É noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam viajam gritos, catastrophes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da vida, mas sou um principe. De que terra? direis.--Do sonho. E assim n'este predio revolvido me quédo, sósinho e triste, a escutar... Ouço um rio que os mais não sentem. Cada creatura nascida traz comsigo uma fonte, fio de agua humedecendo a frincha d'uma pedra ou levada impetuosa e aos jorros. É ella que tira á vida a sua seccura. Em certas creaturas pobres e simples quasi se ouve essa agua correr e tão amoravelmente, que dá vontade de nos chegarmos á sua sombra. É emoção. Minae, não na deixeis seccar: se finda torna-se a vida como os chãos sequiosos.

N'este casarão onde móro a toda a hora se ouve o ruido da levada; corre sempre como as torrentes desordenadas e esplendidas. Escutae!... Préga o inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutae, escutae!...

São meus visinhos, lá em baixo mulheres perdidas, ao pé de mim dois casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S. José. As mulheres passam ás vezes na rua, com chales purpuras a rasto; o gato pingado só sahe á noitinha, á hora dos morcegos. Mais timido que eu, encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e rôto.

Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar, para que lhes deem um pedaço de pão e só se deitam no sepulchro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a humilhação e a fome.

Se passam pelas arvores, n'um dia de primavera, tão lindo, que até as proprias macieiras de commovidas se vão desentranhando em flor, sabeis o que acontece? As arvores retrahem-se, as coisas callam-se ao vel-os passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que elles vivem aos gritos, offendidos, ralé, pedras, sapos? para que é que Deus os cria?

O gato pingado... Eil-o que sobe. Cada passo me lembra uma pázada de terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapeu alto embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no braço. Nunca fala. Estou mesmo em dizer que não pensa, este avejão que só sahe para os enterros. Deve ser máo, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos apedrejam-n'o quando elle passa pela rua, esguio, vesgo, de chapeu alto e casaca, rigido

clown

da morte, que em logar de gargalhadas toda a sua vida ouvisse lagrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os caixões como quem arranca o coração dos vivos, ao ouvir gritos, tem um riso interior, jubilo de quem está farto de viver só, arredado, humilhado... Gato pingado! gato pingado! Vive de lagrimas, sustenta-se de dôres. E quando vai, de tocha accesa, esguio, a galgar atraz d'um carro funerario, na reles mascarada, em que irá elle a pensar, esbaforido e triste?....

Outros... Casaram ha muito. Chamam-lhe a Rata. Pobre e sem mãe atiraram-n'a um dia para um collegio d'orphãos, onde cresceu entre maus tratos. Riam-se d'ella. Era um aborto que crescia por caridade. Passava a vida na enfermaria e os medicos--acho que de proposito--livraram-n'a da morte, para que depois soffresse.

Encontro-a nas escadas, com as botas do homem, os cotovellos rôtos, e magra e desleixada que faz piedade.

--O melhor tempo que eu vivi foi o da enfermaria. Havia lá uma Irmã que me beijava e fazia festas...

Mais felizes são os cães vadios, mais felizes, incomparavelmente, são as arvores.

O homem desanca-a. Chega a casa e bate-lhe, faz-lhe tratos. Se ella chora e se queixa desanca-a mais. E agora, como ella não dá palavra e só pensa:--Antes eu fosse para creada de servir!--elle quer que a Rata grite e chore.

Antes tu fosses para mulher da vida, digo-t'o eu!...

Esta manhã appareceu com os olhos inchados e pisaduras na cara. O vestido já lhe não serve. E como está frio, reparei, traz os pés mettidos nos sapatões do marido, sem meias e roxos. Aprende na vida, soffre! Nada te valerá. Até á morte, até que te acabe de matar com maus tratos. Ás vezes, se elle sahe, põe-se á janella, a scismar na Irmã, que, quando cahia doente, lhe dava beijos, lhe fazia festas--e pergunta-se:

--Porque não morri então?....

Calla-te e soffre. E até á morte, até o teu pobre corpo cahir exhausto, moido, negro de pancadas. Assim será irremediavelmente, inexoravelmente.

Este velho que pára nos patamares das escadas, gordo e molle, de cabellos brancos estacados, é o Gebo. Todo curvo, olha-vos com um olhar aguado e tonto.

--Ó Gebo!

E elle, erguendo o carão afflicto:

--Anh?...

E como este, outros assim. A toda a hora vae o enxurro humano polindo as pedras. A ventania açouta o casarão e passa, levando poeira de scisma, ais, para outro mundo ignoto. Com a noite a vida redobra. Eis uma multidão feita de terriço, de creaturas tendo arrancado a mascara: certos homens são sonhos, outros dil-os-hieis gritos. Põe-se o Gebo a contar a sua historia, surge o Corsario, uma velha tragica, com o caio dos palhaços, o Astronomo, um sabio hirsuto, o Gabirú, philosopho esguio e hirto como uma taboa, que tem descoberto mundos e ignora as coisas mais simples d'esta vida. Remexe n'um brazido de idéas e nunca olhou cara a cara a existencia. Anda attonito na rua, perdido n'um mundo que descobriu á prôa do seu barco como um navegador. No subterraneo do predio mora--ha quantos annos?--

o homem do pacho

, de quem ninguem sabe a historia. Emparedou-se. Odeia a luz: essa poeira azul, que imbebe os seres e as coisas, março, a arvore, a vida tumultuaria e larga como um rio, nunca mais a viu. Está vivo n'um tumulo: só as paredes esbrazeadas, á força d'elle sonhar, a rubro como as pedras d'uma forja, conhecem a sua historia. Pára no patamar o Gebo contando o que soffreu aos pobres que o querem ouvir. Muitos fazem roda e elle, picaro, desata a chorar e narra pedaços d'uma triste existencia de humilhação e de esmola, sempre esbaforido e escorraçado, a filha a sustentar, o desprezo do mundo, as suas correrias, desorientado e com lagrimas, atraz do pão para os seus. E termina sempre:

--Tenho pena de ter sido honrado...

A ventania présaga augmenta, abalando o Predio. De que é construida uma casa? De pedra. Todo o globo é revolvido para abrigar o homem. A arvore e a ossada da terra são arrancadas para o servirem. Juntem a isto gritos. De pedra, d'arvores e de gritos fôra construido o Predio. Juntem a isto sonho, que transforma as coisas. Um gritava nos subterraneos, outro de tanto sonhar empoeirára d'oiro o granito negro. De fórma que toda a casa gasta, amolgada, revolvida, tinha tomado alguma feição d'aquellas existencias. É a habitação do Gebo, das prostitutas, do Gabiru, do Pitta. Escancara-se o portão, cahem-lhe os telhados, mas se, em cima, nas mansardas arrombadas dá de chapa o sol, acredital-a-heis a scismar, a cantar. É effectivamente de pedra--e de sonho.

Chove, mas em torno a terra arida, não tem agua nem plantas.

Só uma arvore cresce n'aquelle solo infecundo. Sustenta-se de dor. As suas raizes foram minando até ao Hospital, construido em frente da casaria, para sugar a vida dos pobres. Se um raio de lua, escoado pelas nuvens, a toca--eis um phantasma d'arvore todo de pó de luar.

Quédo-me sósinho nas noites estiradas, ouvindo este enxurro vivo. Muitas vezes são lagrimas que correm ou emoção que brota com o ruido d'um fio de bica cheio de scintillações e rumores. O cahir de lagrimas é sempre d'uma tristeza pacifica... Na noite negra o Hospital entaipa a cidade: arvores, nóras humedecidas, donde sahe a frescura do chão, montes solitarios, parece que os prohibe aos desgraçados: como um velho sumidouro espera, guarda, construido de pedra e n'um brazido por dentro, todos os que soffrem, santos, pobres, mulheres perdidas e heroes.

O Pitta, embrulhado no seu chale-manta, murmura ás vezes ao contemplal-o:

--A misericordia humana constroe d'estes castellos, para que os ricos não assistam ao soffrimento dos pobres. E fal-os de pedra, de granito bem solido, para que se não ouçam os gritos cá fóra.

II O GEBO

Heis

de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados e um ar d'afflicção que faz riso e piedade. Tomba ás vezes na rua, levanta se, e, todo enlameado, olha p'ra os lados e chora; depois caminha esbaforido. Parece que vae gritar, esse ser molle e gordo, de cabellos brancos estacados, e, de subito, baixinho, pede-vos esmola. Tem um riso de humilhado e o aspecto d'uma bola de sebo--de cabellos brancos estacados. É o Gebo. É um gebo por ser picaro e rôto e por a desgraça o ter calcado aos pés até o tornar ridiculo.

Triste existencia sem odio e sem gritos. A vida não n'a entendia e a cada empurrão tinha um ar espantado e afflicto de quem não comprehende. Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgraça faz rir? o soffrimento faz rir?

E em torno as boccas escancaravam-se, ao verem-n'o gordo, pedinchão e desgraçado.

As peores ruinas resumem-se n'esta secca phrase--ser infeliz. Ha seres que nascem com uma sina--amargar a vida. Tudo lhe corria tôrto, até as coisas mais banaes e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo existem, e elle punha-se a olhar para a desgraça, atarantado e estupido. Que mal fizera para soffrer?

Alem de desgraçado, este homem fôra sempre picaro: assim no globo passam existencias ignoradas de soffrimento e de bondade, que não deixam o mais simples vestigio, como os veios d'agua escondidos e que no emtanto são a vida da terra.

Mesmo posto a chorar, a sua mascara, de cabellos brancos estacados, fazia rir.

Sempre a suar, quasi sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo tinha um coração igneo. Era d'estas creaturas a quem um montão de desgraças torna ainda mais ridiculas: a ruina, a quebra, a miseria, a fome. Enlameado pela vida fóra, resignado e chorão, elle ahi vae...

--Ó Gebo!

E todos se riam ao vel-o chorar d'afflicção. Diziam uns:--Que não fosse tolo!--E os pobres, a quem elle tanta vez valera, gostavam de o vêr calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual é a razão porque a desgraça alheia consola a nossa propria desgraça, dizem-me?...

A tresuar, afflicto, depois de espesinhado, ainda esse sêr molle e gordo, aos quarenta annos, cria na existencia como as arvores e as creanças crêem.

Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? Ha creaturas em quem a desgraça se escarrancha no cachaço, e é p'ra sempre! p'ra toda a vida! Nunca mais as larga. Viera a quebra, afflicções sem conto, ainda mais negras que o coração dos outros. Enganavam-n'o, com a alegria de o verem rebaixado e perdido, empurrão d'aqui, empurrão d'acolá, aos tombos por esse mundo.

Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!... Uma filha sempre prende a existencia! uma filha pequenina sempre tem nas mãosinhas uma força!

Assim esse velho ridiculo e gordo tambem fôra feliz outr'ora. Era d'estes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia d'uma fonte, sempre egual e prompta a apagar todas as boccas sequiosas. Uma casinha velha, um quintalorio com seis arvores, um fio rumoroso d'agua e as janellas abrindo para a sombra amiga das fructeiras. Alli era a felicidade. Dão-nos as arvores toda a sua sombra: nunca nos enganam.

Muito tempo mentira á mulher, que ia vivendo illudida. Ria o Gebo em casa, com o coração torcido, para que ellas fossem felizes mais algumas horas--ultimas horas tiradas á desgraça. Até que um dia succumbiu:

--Eu não te queria dizer... Mas ó mulher! ó mulher!...

--Que é? que foi?

--Estamos perdidos, estamos perdidos...

--Perdidos?!

--Sim, estamos... E agora? agora? Ninguem me vale, ninguem se importa. Tenho pedido, tenho andado... e já não posso! Estamos perdidos, mulher!...

--Estamos perdidos?

--Sim...

--Tu é que tens a culpa, não tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti. Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vae!... Tu que queres? Que ha-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa das tuas tolices, das tuas desgraças?...

--Não, mulher, não, bem sei...

--Anda!

E elle voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma noite a mulher viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exhausto--e de cabellos brancos estacados. A ingratidão embranquecera-o. Era ao crepusculo. Tombado, como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:

--Oh a minha filhinha!... E todos se riram de mim, todos!... Ninguem se importa. Quem quer saber da desgraça dos outros? Ai a minha filha!

Começou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados havia vozes a clamar, a escarnecel-o:--ó Gebo! ó Gebo!--Nunca mais houve paz na terra para elle: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os ralhos da mulher desvairada e as lagrimas silenciosas da filha. Oh essas horas ferreas em que olhára em torno perdido e só vira seccura e risos! essas horas tinham-lhe deixado suor d'afflicção para o resto dos seus dias. Tudo se arrazára. E curvava-se sob as palavras da mulher, amachucado, sem forças para luctar, quebrado pelos desenganos e pela indifferença dos outros.

--E agora? agora? perguntava-lhe ella.

E elle cahido:

--Agora não sei... Agora morremos todos á fome.

Batera em vão a todas as portas, anniquilado, sem idéas e sem forças. Só sabia chorar, molle e grotesco, emquanto a mulher, que a desgraça seccára, lhe atirava improperios, gritos:

--Mas levanta-te! procura! salva-nos!

Anda Gebo! E elle lá sahia, tornava aos amigos, pedinchão, desnorteado, atraz de emprestimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de subito a esbracejar com gritos e soluços.

Heis-de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados, aos empurrões na vida e com um ar d'afflicção que faz riso e piedade.

--Ó Gebo!

--Anh?

--Conta!

E elle logo, em palavras rôtas, precipitadas, bebendo as lagrimas:

--Ó Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho soffrido! Quanto mais faço peor, inda é peor... E já não posso mais... Acabou-se! Só Deus sabe pelo que tenho passado, as desgraças que tenho rapado e as afflicções, para arranjar ao menos o triste pedaço de pão para a bocca... O peor é d'ellas. O meu coração estala, tanto tenho soffrido. Trago a noite cá dentro. Que se lhe hade fazer? Curtir a desgraça. Anh? Tenho pena de ter sido honrado...

E fica com a bocca aberta, chorão, de cabellos brancos estacados.

III AS MULHERES

Ao

vir a noite põem-se as prostitutas a cantar; entre as pedras resequidas e o ruido humano põem-se as prostitutas a cantar. São pobres, tristes, sêres de descalabro e piedade, lama que o homem géra de proposito para o goso. A treva leva e dispersa essa toada em farrapos, flocos de tristeza, que são como a alma, a afflicção da noite, a soluçar. Noite... Andae, vinde, remorsos, sonhos, soou a vossa hora! De blócos negros se constroe uma cidade. Ha ainda claridades esparsas, neblinas, que a Sombra callada, a tactear, de subito affoga sem rumor. E d'entre as meias portas surgem physionomias como só o remorso as cria: dirieis, de tristes e cansadas, que se vão diluir como as das mortas.

É a hora do gato pingado descer as escadas a passos cavos, do Gebo contar sempre a mesma historia desconnexa, dos pobres sahirem á procura de pão.

No escuro as mulheres falam para se esquecerem. Ás vezes somem-se as boccas e da treva rompe aquella voz de tragedia, como se a treva falasse, ao que d'um canto a escuridão responde:

--Ó tu!...

--Que é?

--Lembrou-me agora uma coisa.

--O quê?

--N'esta vida sabeis o que ha de peor? É nem a gente poder estar triste.

--Ahi começas tu...

Lento e lento, a noite que cahe as affoga e na escuridão sente-se pairar a Desgraça... Callam-se e depois a mesma voz começa:

--Vem um e quer que eu me ria, vem outro e quer-me triste. Quem entra que se lhe importa?

--E então?

--Nada. Mas inda assim olhae que é triste a gente não poder ao menos lembrar-se...

--De quê?

--Do que lá vae...

--Melhor é a gente não se lembrar do que passou.

--Tomára eu ser como morta--affirma outra voz.

--E tu?

--Eu? Tu falas p'ra mim?--pergunta uma magra surgindo do escuro.--Tomára eu não ter memoria, p'ra não tornar a vel-a, como quando a vi estirada no caixão, por

vê

de mim...

--Quem?

--Á minha mãe.

--Ah!...

--Pois é...--diz a primeira voz--N'esta vida a gente não se deve lembrar. Toca a cantar raparigas... Cantae!

E as mulheres continuam a cantar, n'uma toada esfarrapada, d'uma tristeza immensa. Depois calam-se e uma torna a falar. Dizem sempre as mesmas palavras, mais para fazerem ruido do que para que as ouçam. Ha uma que ri de tudo. É magra, pallida e gasta. Traz um pacho negro n'um olho e ri sempre, com um ar de mascara, de si, das outras, de todas as suas desgraças.

--Eu sou a Mouca--começa ella ás risadas.--A minha mãe deitou-me fóra era eu pequenina, e eu, se tivesse uma filha, botava-a á roda p'ra ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladrões, cresci na rua e a minha cama eram as pedras dos portaes... Tomaram conta de mim os ladrões. Vidas! vidas!...

--Tu não te calarás!

--Em pequena andei todo um inverno com uma camisa rôta. Até foi bom, agora não sinto o frio. Depois moeram-me. Vocês não querem saber? Calcavam-me aos pés por nada. Aprendi. Muito custa a levar a vida... Aos treze annos um ladrão desfructou-me. Era um velho careca que parecia um S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocês hão-de ter ouvido falar. A gente só aprende á sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou feita de terra, da terra que todo o mundo piza, mas tambem já tenho calcado. Elle ha desgraças peores, eu sei que ha. Já vi gente morrer por não ter uma codea p'ra a bocca. Olhae que eu conheço a desgraça. Tenho-a encarado... Faz mal quem se abaixa... Um dia a gente põe-se a gostar d'um homem e inda é peor. Que se lhe hade fazer? Todas temos de nos sujeitar, todas somos o mesmo, as ricas e as que não tem uma sêde d'agua. O peor é quando se começa a gostar d'um homem...

Vocês sabem o que é o amor? O amor é cada qual ser como um cão. É a gente ser menos que nada e elles serem tudo. Ahi têm o que é o amor. Elle a bater-me e eu a dizer cá commigo:--Tu que me bates é porque gostas de mim...--Ahi têm o que é o amor, é a gente ser menos que um cão... Eu escrava, elle o senhor. Acabou-se! todas temos de soffrer.

--Todas. Não ha nada peor do que nascer mulher.

--Eu nunca tive sorte. Que me importava a mim que elle me batesse? Punha-me a olhar p'r'as nodoas do meu corpo e a dizer cá por dentro:--Este é meu amigo.--Um dia partiu-me um braço, mas a gente é como os cães, que só gostam d'um dono que lhes dê pontapés. O peor foi que elle botou-me ao desprezo. Os homens são todos o mesmo... Vidas! vidas! Um dia disse-me:--Estou farto de ti.--E sabeis? nunca mais falou p'ra mim. Ai, quanto mais se pena p'r'amor d'um homem mais se lhe vem a querer!--Mas deixa-me gostar de ti...--Vae elle disse-me:--Fóra!--E eu fiquei passada. O meu comer eram lagrimas. E bebia a toda a hora para atormentar uma dor que se me pozera no coração. Mas elle vem! elle torna!... Qual!...

--Como se chamava?

--Que te importa? Não é bom allumiar os mortos. Deixae estar quem está quieto. Ah, se vós o visseis morto como eu vi!... Vêr morto um corpo que se teve nos braços é como vêr no caixão um filho. Por mais que a gente grite não lhe dá vida! Trazia sempre no coração a mesma dôr... Vae uma vez vesti-me socegada e fria como defunta e fui ter com elle.

--A que vens? disse elle. E eu disse-lhe:--A servir-te.--E ri-me.--Já sei que me não podes vêr, acabou-se! não me importo. O que te peço é que me deixes servir-vos. Venho ser vossa creada.--Elle poz-se a rir. Depois veio ella e eu puz-me a rir tambem.--Venho ser vossa moça, quanto me daes de soldada?--Elles cochicharam.--Onde vocês pozerem os pés ponho eu a bocca. Aqui estou, aqui me têm.--Elles riram-se de mim.--Anda escrava!--Vae eu e ria-me.--Que quereis de mim?--Rua, escrava!--e eu ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-no. Então, quando o vi morto, puz-me a rir, a rir, que era uma dor do coração. Levaram-me em braços. Na cadeia chamaram-me a perguntas e eu só me ria. Já me doia a cara de tanto rir e via-o sempre morto a meu lado.--Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui têm, cada qual cumpre o seu fado. Todas temos de nos sujeitar e de soffrer. Eu sou a Mouca--terminou ás risadas.

Aquella porta aberta para a tragedia e para o escarneo fica em frente do Hospital. As mulheres dos ladrões e dos soldados moram ao pé da dor. As paredes são negras e humidas: mãos ao roçarem-nas deram-lhes afflicção, gritos abalaram-nas. Acredital-as-hieis construidas do mesmo sonho e da mesma pedra de que é feita a vida.

Lá dentro, a uma luz enfumaçada e oleosa, as mulheres expõem-se como farrapos d'adelo ou mascaras: direis retratos feitos a tresuar d'afflicção, tanto desespero resumam as boccas que gargalham. Duas á porta espreitam, uma scisma com a physionomia petrificada, d'imbebida em magoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho. É dura, espremida, de feições crueis e coleras subitas. Ás vezes prega-lhes horas e horas:

--O amor sabe a zinagre. É peor do que a morte... Não no queiram, ouviram?

--A senhora fala! fala!... Bem triste é achar-se a gente sósinha no mundo,--diz uma derreada e tisica.

--E ter o quê? Escarneo, só se fõr...--accrescenta outra.

--Eu de mim, se fosse sósinha no mundo, cuido que me affogava.

--Pois andae! andae!--diz a patroa--Fartae-vos de desgraça. É só fartar. Que sois vós? Menos que terra... Ireis d'este mundo fartas de desgraças. Antes morrer no rio!

--Eu cá--diz outra--tenho o corpo negro, mas que m'importa? Se o meu me deixasse antes queria acabar... Pela minha salvação que ia direitinha ao rio.

--Depois queixae-vos...--ameaça a velha.--Sereis peor do que arroladas.

--Nem as pancadas d'elle me doem, e mais o meu faz-me comer terra,--affiança outra.

--A gente não tem mais ninguem no mundo. Quem quer saber d'uma

desinfeliz

?

--A gente não tem pae nem mãe, nem folego vivo.

--Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sahe que se importa?

--E ninguem n'este mundo póde chorar sósinho...

--Eu cá--diz a Mouca--eu cá estou tão habituada a que me dêm dinheiro, que se o meu amigo fica commigo, escondo moedas no lençol... Quando acordo e as encontro, parece que me pagaram.

As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:

--Vocês nem sequer vêm... O que aconteceu á Maria? Affogou-se e o amante ri. Helia lá foi p'ra o Hospital. É morta. E todas morrem se se deixam ter coração.

--Ás vezes mais vale morrer.

--Morrer!...--exclama a tisica.

--Eu já me matei... E depois? Foi quando me vi sósinha no mundo. Elle tinha-me desprezado. Peguei e bebi um quarteirão de agua-ardente com lumes. Pensaes que estou arrependida? Ah, se a senhora soubesse o que se sente!... Quando me vieram dizer--foi a Mouca--que o meu amigo estava com outra, foi como se tornasse a resurgir deante de mim a mãe que eu matei á força de lagrimas, por me vêr na triste vida. Nem podia gritar. Tinham-me seccado os gritos aqui--na bocca... Sahi, andei...

A porta d'ella estava fechada e alli fiquei até de manhã ao frio. Os homens que passavam diziam o que lhes parecia, porque ninguem ideia o que cada um traz dentro do coração. Scismei, passei a noite ora a scismar, ora a chorar. N'esse dia poz-me elle o corpo negro, como este lenço que trago na cabeça. Olhae... Ainda tenho as marcas. Estas só na cova me passam.--Farta-te, se queres, mas não me deixes...--Vae elle e disse:--Fica-te p'ra ahi, estupor, que te não posso vêr.--Vejam vocês!... Se isto é assim no mundo, se a gente cá vem p'ra isto, p'ra nos deitarem fóra, e não ha mais nada, era melhor morrer... E antes tivesse morrido p'ra não ter mais que penar...

--O Hospital está á espera, raparigas--diz a patroa d'um canto.

--Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente p'ra estudar?...

--E a mim que me importa?

--Eu já ouvi a um... E o que elles se riem uns com os outros!...

--Depois da morte a gente não sente.

--Quem é pobre acho que vae sempre p'ra elles aprenderem a estudar.

--Pois a mim é o que me entristece... O meu pobre corpo ser retalhadinho!

--Lá está o Hospital á espera, raparigas!...

--Tu não te calarás!

Riem-se, uma fica scismatica e a patroa continua:

--Filhas inda podeis enriquecer. O que é preciso é muita experiencia da vida. Olhae que na terra só ha dor e vaidade. Não ha nada peor do que envelhecer pobre... O que elles se riem! Se lhes pedis pão, dão-vos escarneo. E põem-se a rir até do nosso odio, ouviram?

--Quem nasce p'ra esta vida mais lhe valia morrer.

--E tu p'ra que vieste?

--Foi o meu fado.

E a velha continua:

--Haveis de querer comer e tereis...

--O quê? diz uma anciosa.

--Pedras.

--Acabou-se! diz outra.

E fica scismatica.

--Mais nos valia morrer.

--Mais valia.

--Andae, andae! Lá está o Hospital á espera. Lá tendes todas uma enxerga e o lençol. E o cemiterio póde sempre com gente. Aquelle nunca se farta.

--Tem sempre fome,--murmura do lado uma sorrindo.

--Pois tem,--affiança a companheira.

--Deixal-o ter!--exclama a Mouca.

--Envelhecei pobres e vereis! vós vereis!...--ameaça a patroa pondo-se de pé.

--O quê senhora?

--Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no coração sem se poder arrancar.

--Então para que nasce a gente? Só para soffrer?--pergunta Sofia.

--Só. A este mundo vem-se para soffrer.

--Ah!...

--Enganae-os. Tratae do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O resto tudo é fingido...

Mas uma, triste e magra, a

tisica

:

--N'esta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguem, um pobre como a gente...

--Inda que seja um ladrão...--interrompe Luiza.

--Ao pé de quem se não sinta desprezada.

--Metteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode sahir--affiança outra.--Olhae que me lembro... Cada qual aqui é menos que nada, é como a terra...

Callam-se e scismam ou passam as longas noites de inverno a cantar, em frente do Hospital tragico. De dia pela porta escancarada vê-se

o banco

do hospital. Nada mais poído do que essas miseras taboas de pinho seccas, gastas, destingidas, e nada tambem mais commovente. Vivem, estremecem. Ha coisas que á força de serem tocadas por mãos humanas, ganham alma, criam physionomia. Antes da morte alli tombaram os corpos que, como uma pua, a dor brocou. Aquellas taboas mirradas, de se sentirem a toda a hora roçadas pelas mãos de naufragos (todos os que entram no Hospital alli passam, santos, poetas, pobres com a bocca cheia de gritos) começaram uma outra existencia.

Foi a arvore arrancada á terra para amparar os pobres. É ainda mais bella do que levantada no topo do solitario monte, ao nevão, ao sol, á tempestade, ás estrellas. Eil-a emfim sómente erguida para a dôr. Taboas que já deram sombra na floresta, imbebidas de seiva e de azul, vieram servir de encosto a miseros: tem nodoas de sangue, dedadas d'afflicção e suor de desgraçados que se entranhou na madeira.

IV O GABIRU

No

ultimo andar do predio móra o Gabiru, um solitario philosopho, esguio e triste como um enterro, armado da mais formidavel penca e da mais estranha sabedoria que Deus tem creado. Nunca viveu. Tudo que existe para lá do Hospital é para elle um grande mar ignorado e verde.

A realidade tambem não na entende: solitario e pencudo, da vida só se fartou com soffreguidão d'esta fonte que trasborda--o sonho. Tem o olhar extactico e, mettido na trapeira com ignobeis calhamaços, deixa correr as suas idéas á solta como os rios. Assim, metaphisico e pobre, de raras palavras, deitou-se a amar a Mouca, escarneo de soldados.

Nasceu para sonhar. Tem um suspiro d'allivio quando se fecha na mansarda e exclama:--Vou idear!...--Sabe palavras, theorias, cartapacios, e nunca viu ao pé os rios, os montes, nem as arvores. Remexe em idéas profundas e nunca encontrou a realidade.

É assim feliz e triste. Posto á janella do cubiculo sente correr o doirado jorro dos dias, scisma n'um portentoso sonho e ama. Entre as idéas que vae tecendo surge aquella figura tragica, que todo o dia ri com os ladrões e os soldados.

Mas elle ignora a vida. Alguma coisa porém existe de immaterial--emoção violeta e oiro--que o rodeia, quasi o toca e subito foge magoada e aos soluços. E fio a fio vae tecendo e constroe a sua theoria:

«Oh como eu tremo deante das arvores, do luar que corre branco e sem murmurio, da natureza esplendida!... Passo por doido e na verdade eu quasi grito de pavor deante do espantoso universo. Olhae a treva a escutar, o mysterio, a agua que brota sem ruido, a arvore de braços erguidos, o caliginoso mar...

O homem passa indifferente, mas eu sinto-me enlouquecer deante das coisas mais simples: d'um farrapo de nuvem como um sudario a rasto, d'um raio de luz em pó, todo d'oiro vivo, que entra no meu quarto. Nunca me pude habituar a olhar a natureza cara a cara. Isto! que significação tem isto? É um sonho, um grito de belleza, uma alma? Montes verdes e ethereos, constellações infinitas, nevoa que do mar nasce e sobre o mar vae, como um portentoso rolo, como um giganteo phantasma...

E não adquiro o habito. Todas as manhãs é como se pela vez primeira me achasse deante da monstruosa natura--verde, oiro, azul, como os seus rios, florestas, o mar a bramir e arvores que são sêres!... Por isso, sobretudo n'estes dias d'inverno, em que anda uma prodigiosa voz d'Adamastor a prégar á terra e ás coisas dilaceradas, eu me ponho, escondido e só, a discutir o enigma...

Devo, porém, notal-o: eu sou uma creatura singular. Ha até quem me supponha doido. Todos os que são apenas restos de sonhos vivos e despedaçados como eu, têm este feitio encolhido e transido. A esta hora da noite em que o universo parece deshabitado e em que até o rumor da penna no papel me faz medo, fecho-me sobre mim mesmo e escuto-me: alguma coisa, que não sou eu proprio, se põe então a murmurar baixinho. E eis-me perdido, no canto d'uma negra trapeira, encolhido e esguio, a sonhar em quê? N'esta belleza infinita, o universo igneo...

Deshabituei-me de falar, mas sonho. Ha vozes esplendidas dentro em mim; de mim brotam arvores, estatuas mutiladas, pedaços vivos de sonho. Oh eu creio que cada creatura é um composto d'almas de montes, de pedras, d'aguas, e creio tambem que existe uma mysteriosa ligação entre o homem e os mundos. Estou preso ás estrellas e aos cardos humildes.

Dizem rindo se eu passo encolhido e esguio:

--Lá vae o Gabiru!

Deixal-o dizer! Eu sou mais feliz do que aquelles que riem, e antes quero conviver com os desgraçados do que com os outros. D'elles tiro emoção para o meu sonho. Depois fecho-me n'esta trapeira alta, construida nos telhados e donde se vêem sêres admiraveis: labaredas verdes que se agitam--e são arvores; nuvens pousadas sobre a terra com oiro a flux ou então d'um violeta desfallecido--e são montes; e rôlos que correm vivos e fluidos--e são rios. Muito tempo levei a decifrar-lhes o nome. Nenhum dos desgraçados o sabia, porque o Hospital enorme entaipa a cidade, e essa vida humida, nóras, torrentes de detrictos, arvores, primaveras, gritos de sol, é desconhecida a todos os que soffrem lá em baixo, entre o granito resequido. Só outro pobre, o Pitta, da trapeira contigua vê como eu a prodigiosa natura--a Mãe.

Oh! e ha horas, quando uma neblina de sol cahe sobre as coisas estarrecidas, todas verdes, em que eu quasi toco o mysterio. Ouço as palavras da natura, n'uma linguagem gigantea, de que não comprehendo o sentido. Os sons são syllabas perdidas, umas d'oiro, outras verdes. O ar é fino, alma empoada de luar, as arvores desmaiam e os grandes montes pallidos, onde o sol deixou fuligem, que vae esmorecendo até ao vir da noite, falam baixinho, entontecidos. Mais timido é o murmurio dos fontes, como se não quizessem perturbar o espantoso dialogo.

É esta a melhor hora para se ouvir e em que eu quasi entendo as palavras. Ha coisas desfallecidas: arvores vão tombar cheias de emoção e de tudo o que existe sahe uma prodigiosa alma etherea e viva, que me envolve e toca, e que fala! que vae falar!...

Donde nasce esta belleza? d'onde vem tudo isto?... Se um homem cahe prostrado e grita as suas palavras igneas são apenas sons, que misturados a outros gritos de dor, formam palavras d'um monologo giganteo. E credes que existam montanhas, aguias, o mar, credel-o por ventura?.... São syllabas, são vozes da Terra que entra no dialogo. E mundos, estrellas, são palavras d'Aquelle que no infinito préga. É sempre a mesma força, a unica força que cria a belleza e o sonho, a força donde brota a Vida.

Eu tinha visto que a dor era sempre necessaria para se produzir alguma coisa de bello e de giganteo: para se agarrar um pedaço de sonho, que, apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mãos esqualidas fique um farrapo d'essa figura de prodigio: para que a vida tenha um fim: para amar: para crear: para que alguma coisa de duradouro reste. N'um grito existe sempre viva uma porção de belleza. Da cova nascem coisas materiaes, fórmas, arvores, nuvens--da dor jorra a belleza absoluta.

E com que fim? dir-me-hão.

Imaginem um estatuario: para compor uma marmorea figura, para realizar um phantasma entrevisto, precisa de soffrer. Depois tritura o barro, petrifica a dor. E acaso se pergunta se o barro soffre? Assim Deus esmaga o barro que nós somos para construir alguma coisa de extraordinario: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo atravessa.

De que precisam os poetas para fazer uma obra de genio? De dor. O soffrimento cria. Lembram-se das figuras de marmore, para sempre debruçadas sobre os tumulos antigos? O luar que vem pela rosacea gothica ao tocar-lhes dá-lhes uma vida de sonho, fal-as todas de poalha: estremecem, levantam vôo, dir-se-hia. Pois a dor, fio a fio, como o luar, dá vida ao sonho.

Para se crear é preciso soffrer-se. Hoje e sempre só a dor é que deu vida ás coisas inanimadas. Com um scopro e um tronco inerte faz-se uma obra admiravel, se o esculptor soffreu. Mais: com palavras, com sons perdidos, com immaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir, fazer sonhar, arrancar lagrimas a outras creaturas. Com as simples e seccas lettras do abecedario, um desgraçado com genio, mettido n'uma agua furtada, edifica uma coisa eterna, uma construcção mais solida e mais bella, do que se fosse arrancar os materiaes ao coração das montanhas.

O que é então a dor, milagre extraordinario, que consegue dar vida ás fragas? o que é esse assombroso fluido, que se communica, alma arrancada da propria alma e que se póde repartir como o pão? Nunca houve sob o sol creatura que soffresse da verdadeira dor cujo soffrimento não consolasse ou salvasse. Até as mais humildes, tal como arvores que ainda depois de mirradas, vão aquecer e allumiar os pobres.

A dôr dá a vida e não é a propria vida: cria, redime, obra prodigios e nada ha que se communique, que convença, que torne os homens irmãos, como ella... Para onde vão pois todos esses gritos, unidos n'um só grito? Visto que nada se perde, que é que se sustenta no infinito com essa enxurrada de lagrimas? Deus?

Por muito tempo escutei o ruido de vozes, de exasperos, de gritos de creaturas. Vinham da guerra, do Hospital, da miseria humana.

E d'esse mar espesinhado nasciam clarões, as nebulosas d'onde surgem mundos. Esse eterno rio de gritos, a correr desde que o homem existe, vae desaguar no infinito.

É que a dôr é a unica força que verdadeiramente cria e destroe: é a Força. Alimenta Deus e o limo. É um atlantico de fogo, é o espirito do universo. Cria claridades na alma dos desgraçados e faz nascer montanhas.

As arvores são emoções da terra.

Sonhae! soffrei!

Este mundo é talvez, como disse um philosopho desconhecido, uma gotta cahida d'um oceano infinito de belleza.

O universo é o sonho dolorido de Deus.

Nada se perde. A alma, as idéas e as emoções, fazem parte da força que faz florir o céo e os humildes pomares ignorados.

Eu colleciono a dor. Passo a vida a juntar farrapos d'esse manto em fogo.

O mundo é mysterioso, cheio de gritos. A cada passo um tumulo d'onde renasce uma amalgama, uma poeira verde, azul, doirada, cóva onde o Desconhecido remexe fórmas: o mar, as creaturas, as pedras, as tempestades, tudo vivo e a falar! O homem passa inconsciente mas eu tremo de pavor.

Estas pobres creaturas que vivem ao mesmo predio em que eu habito, ladrões, philosophos, coveiros, mulheres perdidas, são esmagadas para que alguma coisa se crie. Geram o mysterio, o mar bravo da dor, e as macieiras anãs. Sob a nossa vista indifferente a cada passo se cumpre um milagre: sol, agua a nascer, pinheiros bravios e vivos!...

Escutae... As coisas choram. N'esta noite de frio inverno--ventania--o que as coisas dirão!... Estão transidas--ha que dias chove!...--o vento despedaça-as e é sempre triste ouvir cahir tantas lagrimas. Por momentos quedam-se n'uma quietação, como se ficassem a escutar ou se pozessem a falar baixinho entre si...

Eu tremo e, para me esquecer, deito-me a escrever o meu livro

A Arvore

. É do lodo d'estas coisas humildes, que eu construo a minha estatua disforme... Ora uma tarde d'estas, imbebido nos meus pensamentos como n'um largo horisonte, não reparei que pela porta aberta alguem entrára. De fórma que tive um sobresalto, ao ouvir a meu lado n'uma voz pausada:

--Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...

--Hein?

Era o Pitta, mas o Pitta transfigurado e triste; o Pitta com dentes a menos e não sei que doloroso sorriso; o Pitta mais velho e mais sordido.

--Maquinações philosophicas meu preclaro amigo. A realidade é triste e amarga. Isto que d'aqui vê e não comprehende, arvores, montes e aguas, é no fundo tão revolvido e espesinhado como o lodo humano. Vem uma raiz e despedaça outra raiz, um braço que se crie empurra logo outro braço. Cada monte gera tanto odio como o coração do homem.

--Por ventura o amigo já viu arvores ao pé? Eu só vi a do saguão.

--Sim, conheço-as não só dos bons auctores, como de ter dormido á sua sombra movediça e fresca... São differentes: são vivas e enormes...

--E o mar?

--O mar, que d'aqui vê longinquo, todo do poeira verde, é tragico e feroz. Brame de furia, despedaça. É esverdeado e cheio de coleras... Só eu n'este momento lhe posso dar informações cathegoricas, reaes, absolutas, só eu, Pitta da Conceição, é que possuo no universo esse segredo temeroso.

--E a Mãe, a natureza?

--Uma amalgama, um cadinho cheio de gritos; fórmas revolvidas e trituradas, boccas que não pódem gritar. Veja...

Para lá do Hospital havia ainda tremulos de luz, fios esquecidos de sol emaranhados nas arvores, presos nos espinhos do monte. Dir-se-hia no emtanto que a vida redobrava: cresciam e murmuravam os pinheiros, gorgolejava a seiva ao trepar nos troncos. De certo a agua tinha um ruido mais vivo, e a terra, que o sol queimára, bebia-a toda d'um trago. As nóras cansadas pingavam ainda o seu ultimo suor, e da noite que descera irrompia um murmurio, vozes de arvores e rios e montanhas.

--Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...»

V HISTORIA DO GEBO

Por

fim, na entrada d'esse frio e rigoroso inverno, já tinha vendido tudo, até o oiro da filha. De envelhecido e gasto, de picaro e gordo, dil-o-heis um trapo que se deita fóra ou um doido de cabellos brancos estacados, a falar sosinho. Toda a gente o conhecia.

--Ó Gebo!

--Anh?

A mulher, que fôra sempre bôa, azedára com a pobreza. Nervosa e secca passava horas e horas a chorar, atirada para um canto, ou prégava dias inteiros: monologos cheios de gritos, de sonho espesinhado, todos lavados em lagrimas. Se tudo acabasse!... Mas nem a Morte escuta os desgraçados, nem o tempo se apréssa; vae moendo na sua mó, consumindo-as, as tristezas, as afflicções e o pão negro. O desespero d'aquella creatura cahia em improperios sobre a cabeça do Gebo espantado, a suar, e a quem nem a propria desgraça conseguia impedernir o coração.

Todos os dias eram da mesma fórma eguaes, sombrios e tristes. Isto de chorar um dia e outro dia, dá a impressão de que chove e se não sahe do inverno.

--Déste, emprestáste a toda a gente. E agora? agora?--dizia-lhe a mulher--Riem-se de ti inda por cima, e ninguem te ajuda. Morremos á fome.

--É o mesmo, mulher, é o mesmo. Paciencia...

--O peor é de nós, de mim e da pequena.

--Pois é o que me afflige, que por mim quem me déra morrer!

--Não fosses tolo! olha os teus amigos como trepam.

--Ó mulher, mas que hei-de eu fazer? Tu não me dirás o que hei-de fazer?

--Roubal-o! roubal-o!...

E eram palavras negras, afflicções sem conto. Ás vezes esqueciam-se e ainda palravam em torno d'uma esperança, a qual, agora nascida, logo a desgraça calcava. A mais humilde poeira d'illusão bastava, para que todos tres, gelados pela desventura, se sentassem na enxerga, promptos a edificar os mais altos castellos e esquecidos de tudo. Só a filha, Sofia, era sempre a mesma, sem queixas, magra e linda, e com um sorriso tão triste que lembrava certas horas em que ha sol e chuva misturados. E como o Gebo lhe queria! Pelo seu destino que seria amargo, por a ver rapar miserias, e por ser o unico sêr no globo, que lhe não dizia más palavras.

Lá ia indo pela vida fóra, cossado e com um ar de afflicção que fazia rir. Parecia amachucado: as marcas dos encontrões nunca mais lhe sahiam.

A mulher passava os seus dias n'uma lucta desesperada com a desgraça, arrancando-lhe os ultimos trapos, disputando-os um a um até vel-os desfeitos. Ao fim do dia ouviam-se os passos vagarosos do velho nas escadas e a sua respiração--anh! anh!--suffocada.

--Ahi vem elle...--murmurava a mulher.

O Gebo entrava e ella logo, soffrega, morta por desabafar o que todo o dia ruminára:

--Até que vieste, homem! E então? Conta. Então ha alguma esperança?

--Não ha nada, mulher.

E sentava-se arrazado.

--Tambem ninguem faz caso de ti. Que és tu? Sabes o que tu és?

--Eu não, o quê?

--Um ente inutil. Não ha ninguem que se não ria de ti, das tuas desgraças, das tolices que tens feito... Que é do dinheiro que tanto nos custou a poupar?

--Eu sei lá agora do dinheiro. Não falemos mais n'isso... O que lá vae, lá vae.

--Pois é o que tu queres... Mas hei de falar, has-de-me ouvir. Déste cabo de tudo, davas dinheiro a toda a gente... Tinhas-me a mim, tinhas a pequena. Reparasses, era a tua obrigação.

--Ó mulher, ora tu que todos os dias vens com a mesma sécca. Não me basta a minha afflicção!... De que serve isso agora?

--De que serve? Serve de muito!

Á noite, á luz do petroleo, o Gebo fazia escriptas com um cobertor pelos hombros e as mãos geladas de frio. A filha, sumida na sombra, compunha-lhe a roupa, e a mulher ralhava, passeando na sala. Batia a luz do candieiro na cara oleosa do Gebo, no nariz enorme, nos seus olhos tristes, e, do outro lado da meza, só se viam illuminadas as mãos de Sofia, toda a noite trabalhando sem ruido e sem descanço.

--Já tive uma lettra tão linda e agora... Os desgostos cansam a gente.

--É de ti! é de ti! Outros têem penas, desgostos, cahem e tornam a levantar-se...--dizia-lhe a mulher.

--Têem sorte, é o que é. Para tudo é preciso sorte.--E curvado sobre os livros contando, murmurava mais baixo:--E vão sete--...

--Sorte! sorte! A culpa é tua que não tens energia nenhuma. Procura! Deixas-te ficar espapaçado p'ra ahi... Tu o que queres é comer e dormir.

--Ó mulher!...--E erguia o carão afflicto, onde batia a claridade de chapa. Viam-se-lhe os olhos aguados.--Ó mulher, a gente tambem perde as forças... Sempre a desgraça! sempre a desgraça!...

--Tudo nos corre torto!

--Mas...

--Tudo! Deixa-me!...

E desatava a chorar. Então o Gebo, afflicto, a mão curta e gorda ronronando no papel, mentia para lhe dar animo.

--Qualquer dia entro ahi n'um negocio, tu verás... Não te afflijas.--E vão cinco...--Tambem ha-de chegar o nosso S. Miguel. A desgraça ha-de-se cansar de nos perseguir.

E o pão que trazia para casa era quasi uma esmola. Mas tanto mentia, que chegava elle proprio a illudir-se.

A velha reanimava-se. E outra vez passeava na sala, embrulhada no chale rapado.

--Não, que é preciso sahirmos d'este atoleiro.

--Agora vae, agora vae, tu verás. Ando ahi com um negocio... Sabes tu que mais?... Deixa-me trabalhar.

Ia a mãe deitar-se e Sofia, até ahi silenciosa, dizia erguendo-se:

--Pae não se afflija.

--Eu não, filha, eu não. Aquillo é genio, coitada. Ella tem razão, tem soffrido muito. Vae tu tambem p'ra cama. Dá cá um beijo... Assim. Eu cá fico com a escripta.

--Muito boa noite.

Sósinho o Gebo scismava muito tempo, olhando a luz. Depois, horas e horas, ouvia-se a penna correr do papel, parar, tornar...--E vão cinco, e vão sete... noves fóra nada...--até que a vista se lhe toldava, e a deshoras, embrulhado no cobertor, tombava sobre a meza, soluçando:

--Não posso! não posso mais! E tinha uma lettra tão linda!...

Na propria desgraça cahem por vezes resquicios de sol. Assim houve tempo em que respiraram. Tinham-lhe dado escriptas, mas ia-lhe faltando a luz dos olhos, e a vida d'expedientes tornára-se mais aziaga. Achavam-no ridiculo, ninguem o tomava a serio, a esse homem gordo e chorão, que vivia com esta pedra a gastal-o--a sorte da filha. Escondido da mulher empenhára a casinha onde moravam, e passava as noites trabalhando nos livros.

Quasi sempre ao deitar falavam da filha.

--É o que nos vale a nossa filhinha.

--Sempre nos dá mais animo.

--É tão boa, tão nossa amiga!...

A velha trabalhava, ruminava projectos desconnexos para enriquecerem; a roupa andava defendida e cuidada até ás ultimas. Luziam as coisas e quasi não comiam para poupar, sobretudo ella que tudo guardava para o Gebo e para a filha.

--Ó homem, mas então? Toda a gente, se arranja e tu estás sempre na cepa torta!

--Deixa estar, mulher! As coisas não vão como tu pensas.

--Ora não vão! não vão!...

Era ella afinal que o empurrava, áquelle ser gordo e inutil. Fortalecia-o.

--Por vossa causa é que eu lucto,--dizia elle sempre.

Ás vezes visitava-os uma parenta afastada, a tia Anninhas e as duas mulheres punham-se a falar das pessoas conhecidas. Ha creaturas que só apparecem quando a desgraça entra n'uma casa. Era uma velha, de chale preto sem pello, e que vivia de aproveitar os restos da miseria. Trazia novidades e com que alegria a mulher do Gebo, ao ouvir-lhe dizer, que pessoas suas conhecidas tambem eram infelizes, tinha pena dos que soffriam como ella!

--Ó Anninhas ouvi dizer que a Desideria está por baixo, coitada!...

--Tem tudo empenhado, filha. Passa muita fome.

E ella n'uma ancia:

--Fome? passa fome? Coitada!

--Mesmo fome, filha.

--Que me dizes?

--É isto que te digo. E tu como vaes com a tua vida?

--Agora, graças a Deus, vamos indo. As coisas vão-se remediando.

Entretanto o Gebo ia para uma loja conhecida onde se juntavam os negociantes fallidos, os professores sem discipulos, os burguezes desesperados por terem perdido tudo. Falavam muito, procuravam illudir-se. Enganavam-se uns aos outros, não por mentirem, mas para tornarem mais visivel a sua aspiração, o sonho que traziam escondido. Discutiam imaginarias emprezas, negocios impossiveis.

--Oh como eu sou feliz!...--dizia o Gebo--Agora tenho ahi um logar...

Nem sequer o escutavam e, se um sahia, diziam os outros:

--Cuido que está cada vez peor.

--Um homem que teve um credito na praça!

--Tem a fome á porta.

--Coitado! Eu agora é que trago entre mãos um negocio...

Porque é que elles não trabalham? Porque a quebra, as afflicções, a ruina, tolheram-nos para sempre. Perderam a energia e só sonham em se tornar ricos. Vivem illudidos e tombam no sepulchro gastos e com a scisma em maravilhosos lucros. E não têm porventura razão? Não vão amanhã quinhoar d'essa larga e mysteriosa empreza--a Morte?

VI PHILOSOPHIA DO GABIRU[1]

E que tu acreditas na immortalidade da alma? Bem fundo, bem arreigado?

Tenho horas em que creio: é uma esperança, um raio de luz entrando n'um tumulo vasio pela juncta abalada d'uma pedra. Porque crêr? porque não crêr? Theorias, palavras... No intimo, porém, sou materialista como toda a gente. Dormir na terra funda e gorda é bom--dormir para sempre. Ir ser arvore, luz, detricto, correr nas veias da terra, é quasi consolador--excellente somno sem sonhos, depois da lide canceirosa d'um dia.

Na primavera quasi sempre sou materialista, no inverno idealista e com a mesma sinceridade, quasi com ferocidade.

Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre, que sonho!...

Ser só por cobardia, para não ter este aguilhão da vaidade a espicaçar-me:--Então tu não fazes, e este, aquelle, o diabo, fizeram!--Ser só para sonhar e para vêr este espectaculo unico---a natureza; para passar os meus dias vendo as transformações d'uma d'aquellas arvores que d'aqui contemplo!...

Quando me fecho e estou só, sou tão differente!... Como o homem é desconhecido até de si proprio, porque o tempo passa, vem a morte e elle não esteve sósinho! Se estou só vêm falar-me

vozes

--eu mesmo--mas com que palavras unicas! Os sêres de que sou composto, se me habituo á solidão, nos primeiros tempos balbuciam, mas depois falam! pregam!...

Tenho a certeza de que fui arvore e é por isso que tanto as amo.

Ha livros que falam baixinho, ha livros que falam alto. Uns têem por si o encanto, outras a força. Ás vezes as palavras murmuradas impressionam mais: passado tempo ainda ellas acordam em nós fibras adormecidas.

Porque é que a agua, até o mais humilde charco, attrahe e faz sonhar os homens de imaginação?

Quanto mais desprezo o homem, mais amo a natureza. Ella é inalteravel.

O homem prende-se com muitas coisas inuteis: a riqueza, a ambição, interesses mesquinhos: vive emaranhado n'uma teia. De forma que não tem tempo de vêr, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas creaturas, existem que nunca olharam para o céo? A natureza, arvores, montes, rios, esse pelago que vejo do meu quarto deixa-os indifferentes; as horas de preguiça e sonho deixam-os indifferentes. Nunca tiveram tempo para amar as coisas simples e grandes da vida. O que é eterno não no viveram. Por mim antes quero comer pão e scismar, deixar correr as minhas idéas como um regato corre--até onde tem agua. Alguns morrem sem terem reparado que existiram.

É por isso que eu corto sempre com tudo que me não deixa sonhar--e que quando encontro razões para acabar com um amigo tenho um suspiro d'allivio. É uma amarra de menos.

Habituar-se a gente a viver com idéas simples é como habituar-se a andar com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se viver arredado.

A morte aterra-me pouco. Porquê? Porque só penso na morte como n'uma divida distante. Fica para muito longe ainda.

Ha horas, porem, á noite, de subito, em que, sem ligação, essa idéa rapidamente me toma e abala até ás mais reconditas fibras. Suffoco então aterrado.

Com que facilidade se matam até os entes mais queridos!... Quantas vezes me surprehendo a assassinar eu a desejar a morte--é a mesma coisa, com este acrescimo, a cobardia--de pessoas que soffreram por mim! Por a menor causa, por o mais leve transtorno, o primeiro pensamento é este:

--Se elle morresse...

É claro que protestas logo. Protesta o teu coração, a tua educação, os teus habitos e até a tua hypocrisia. Mas se deixares trabalhar a imaginação á vontade, sem peias, é uma hecatombe--por futilidades.

VII PRIMAVERA

O Gabiru sentiu-se aquecido, como a terra quando vem a primavera. Ia crear! ia crear!... Aquelle chão que só o arado do sonho lavrára, eil-o atravessado por este veio turvo, que tudo remexe e transforma--a Vida. Consumira-o o sonho, tornando-o cambado e gasto, esguio e d'olhos perdidos de scisma...

Acordára emfim para a realidade e elle, que tinha passado a vida a revolver um brazido d'idéas, longe da terra e do seu lodo, amou a Mouca, raza como o chão. Todos se riam d'ella, magra e pallida, de pacho n'um olho, com um ar de mascara que vae gritar d'afflicção.

O seu ideal prendera-lhe os olhos tal'qual nol-os prende o lume, de fórma que ao erguel-os, déra de cara com a vida e perguntára: Que é isto? o mundo, a tempestade, tudo o que do cubiculo vejo, arfando ao sol, penetrado de ruidos e de sombras? Arvores acenando-me com os braços, vozes d'aguas fartando as terras imbebidas? Isto?... Tudo é luz, é uma chamma? E como tudo é bello!

Vêr ao pé arvores e montes, a esse esguio philosopho habituado a conviver com velhos cartapacios, parecia-lhe tão irrealisavel como subir ás estrellas. Nos alfarrabios fala-se de tudo menos da vida. Por isso acordando espantado, interrogava as ondas luminosas, os rios correndo, o extraordinario mar: «Vós que me quereis?» E no alto da mansarda sorria para a terra, pencudo e triste, esguio como um enterro.

--Porque a amas tu, philosopho?

--Sei lá! Amo-a. Dá-me vontade de chorar ao vel a. Amo os seus olhos tristes, o seu feitio do cão espancado. Amo-a, porque qualquer outra me desprezaria, envelhecido a sonhar. Ella é parecida commigo, talvez tenha pena de mim.

Todos somos constructores. De terra e de emoção andamos pelo mundo a amassar estatuas; de realidade e de sonho architectamos as figuras que se misturam na nossa vida. Ellas existem mais pelo que lhes damos de nós mesmos, do que pelo que na realidade são. De saudade, de sonho, de lodo e piedade, construira uma figurinha offendida e triste, andando no mundo aos tombos, sem pão e sem abrigo. A elle que passára a vida inteira a atear um brazido, cabia-lhe em sorte a Mouca, escarneo de ladrões e de soldados.

A casa das mulheres de dia é funebre, mas de noite, á luz do petroleo que esvoaça e deixa tudo n'uma meia tinta d'afflicção--candieiros partidos, luzes fumarentas--lembra um circo de desgraça, onde palhaçadas tragicas façam gargalhar e onde os ladrões e as mulheres enfarinhadas representem a serio vicios e crimes, com risos e choros á mistura, para que o publico que paga se possa rir. Vem um Velho, que sem falar gargalha toda a noite ao vel-as maltratadas, e o Morto, palido e soturno, com um laivo na cara. Tem as mãos osseas e enormes sempre frias e as mulheres temem-no pela sua crueldade, pelo seu sorriso tragico. Despreza a dor e os gritos. Sente-se que d'elle não ha a esperar piedade. Só a Mouca se atreve a resistir-lhe. Apparecem outros e toda a noite, se ouvem insultos, choros, gargalhadas.

Cada um alli arranca a mascara, transforma-se, fica um ser nu: as feições endurecem, o riso é atroz. O homem tem vontade de ouvir gritos. Paga, maltrata. É lodo, não ha que ter piedade. E as mulheres cantam sempre na mesma toada triste e soluçante... Nenhuma fala do passado, com medo ao escarneo, mas guardam-no para si, sem o esquecerem. A historia é identica, o eterno humus amassado em lagrimas. Ellas sabem que nasceram para soffrer e resignam-se: o esgoto é necessario. Tudo na vida se alimenta de gritos, como as raizes na terra se sustentam d'agua. Enganam nas e não se queixam. É o Fado. Não têem odio a quem as illudiu; ao contrario não esquecem esse fio de sonho espesinhado, que ainda sentem correr na vida, longiquo e triste, quasi a sumir-se de todo. O Fado as faz nascer e as traga. Triste é sempre a vida--lagrimas, pancadas, pão e assim as leva a sorte até á cova. Ouvi: esta seiva dolorida fará nascer um dia alguma mysteriosa Arvore.

São irmãs e unidas, sustentam-se na desgraça. Os amantes moem-nas e ellas humildam-se, tão triste é não ter ninguem a quem amar. E as desgraçadas, aquellas que, de confundidas com a lama, se não enxergam, são as que de todo se sacrificam por elles. Miseras creaturas, a quem se paga com injurias, quanto mais afundadas na desgraça e mais pobres, quanto mais perto da enfermaria e da morte, mais se fazem pequeninas para que as amem. Ficam dias sem pão para que os amantes o tenham. Tiram a ultima camisa do corpo para lhes dar de comer. As arroladas matam-se se as desilludirem. Sêres de ignominia só amam idealmente. Assim será o amor das hervas, dos sapos, das nascentes, de tudo o que na natureza é pequenino ou disforme. O Sonho para o esgoto é a unica realidade.

A casa é tragica, de tectos negros, sumidouros, corredores onde toda a noite agonisa uma luz de petroleo.

Ha mulheres tisicas, com tosse e a taboa do peito raza; ha-as que insultam quem entra para serem espancadas. A filha, do Gebo, Sofia, é alta, curva, cansada, e tão cheia de resignação que parece morta; outra, Luiza, a quem chamam a Asylada, quasi não fala. Olha soturna, com os negros cabellos violentos todos soltos e a physionomia empedrada de magoa.

Ao fundo divide a casa um corredor com cubiculos. Ás vezes, altas horas, tudo sereno, ouve-se na escuridão um ruido de choro suffocado.

Fóra vê se o Hospital e a rua negra, onde o enxurro humano sem cessar carreia detrictos, lagrimas, sonho. Especadas ás esquinas creaturas esperam... Parecem pedaços de noite destacados da propria noite. Fazem-lhe nicho as arcarias e arrancaram á treva para se embrulharem um farrapo do seu manto. Ás vezes da escuridão sae um perfil, mãos que querem arrepellar, mas logo tudo se some entre roupagens, que têm a rigidez tragica das estatuas. Só a mão, que o lampião illumina, fica decepada. Por vezes toda a figura baça e amolgada surge, para logo se anniquilar. A lama faz-lhe pedestal, passa o enxurro, e ellas nem se mexem, petreas: se choram são a Dor. Algumas, de viverem d'um passado de fogo, parecem mirradas, outras procuram mingoar, extinguir-se, não occupar logar na terra. E entretanto as mulheres vão cantando na mesma toada de catastrophe, que a noite traga, como farrapos de sonho espesinhado...

Todas as noites o Gabiru lá vae sentar-se a um canto a scismar. Olha a Mouca sem palavra e sonha. Conhecem-no os ladrões e os soldados e ellas vendo-o entrar, esgrouviado e triste exclamam:

--Lá vem o enguiço!

A Mouca ás risadas diz:

--Cá temos o enguiço!...

Mas em vão! Elle, com as enormes pernas dobradas, alheado, a penca cahida, sem vêr nem ouvir, pensa n'um amor ideal e monologa baixinho, entre as mulheres, os ladrões e os soldados:

«O que eu sonho! Eu que sou tão timido, ponho-me a falar e a scismar... E tanto scismo!... Troco tudo. Como é que tu gostas de mim, que nem te sei sorrir?

Ando a inventar uma lingua nova, que seja como a das fontes e a das arvores, quando desponta março, para te exprimir o que sinto. Todas as palavras me parecem mirradas e servidas.

Olha, dize-me: chamas-te Maria, não é?»

E entretanto os ladrões e as mulheres conversam:

--«Tu não te callarás, estupor!»

E uma tisica, magra, só com a pelle e o osso, explica:

--Uma mulher da vida... Que estão vocês a dizer das mulheres da vida? Eu inda queria vêr... Quando tu não tens pão quem t'o dá?

E o ladrão responde:

--És tu.

--O pão que eu ganho com o meu corpo com quem o parto?

--Commigo.

Mas outra do outro lado berra:

--A gente aqui é como os cães. Toca a rir, raparigas! Se uma mãe adivinhasse para o que cria aos seus peitos uma filha!...--E virada para um que entra:--Olha lá, ó coisa, pozeste-me o corpo negro n'outro dia... Tu imaginas que uma pessoa é de ferro?

--Abaixo as patas!

Uma mulher pergunta a um velho ladrão calvo, que a um canto só ri, com uma bocca disforme, escancarada na sombra:

--Tu que eras, ó velho?

Mas elle ri-se com a bocca aberta sahindo do escuro--só bocca--como a fauce desdentada d'um lobo, e um outro é que responde:

--O velho era lavrador. Olhae-lhe p'ras mãos. Cheira a terra e a pobre.

O philosopho a um canto scisma, olhando a Mouca entretida a falar com os soldados:

--«Tenho muito que te dizer--tanto!...--e não sei o que te hei-de dizer!...

Se me perguntam:--Tu que tens?--parece-me que acordo e que me puxam para a terra.

As arvores levam todo o inverno a sonhar inchadas e um dia acordam desfeitas em sonho. É o que lhes acontece.

Ora vem ahi março, já rebentaram novas fontes... Maria é um nome tão lindo!»

Falam aos grupos, n'um borborinho. Andam todas mal vestidas e com frio. Uma traz meias amarellas e outra, a quem a tosse desconjuncta, anda com um chale de seda que a não aquece.

--E tu que eras?

--Eu nada. Basta de conversas. Dás-me um beijo?

--Tira-te! A ti um beijo!... Antes queria morrer. Nem morta eras capaz de me dar um beijo. Com essa cara! Olhae p'ra elle, raparigas... Já viram alguem rir-se assim?

--Ó minha arrolada!

E deu-lhe um pontapé.

Entretanto duas mais afastadas conversam no escuro:

--N'esse dia tomo uma bebedeira, que ha-de dar que falar.

--Tu?

--Sim.

--A mim minha mãe é que era a capa. Encobria-me.

E ninguem se importa com o Gabiru, que tece, vae tecendo a sua teia, toda de emoção e de nuvens, encolhido a um canto, absorto, sem vêr nem ouvir:

--«Não sei bem o que sinto, que nunca me vi assim. Do meu coração sahe uma bica que rega as coisas mais seccas. E ouço! o que eu ouço!... Ao luar, lá em cima, ouço as montanhas em dialogo e falarem arvores e pedras!...»

E a

tisica

, voltada para o ladrão, diz-lhe:

--Que queres mais que te eu dê?

E elle, rindo:

--Ora! dinheiro...

--Nem p'ra pão já o tenho, quanto mais!... Já o não ganho. Quem me quer, se todos dizem que estou tisica? Estarei...

--Tu arranjas sempre.

--Aonde? os meus trapos estão no prego, este chale é emprestado por misericordia. O lenço que hontem trazia, vendi-o p'ra pagar á patroa. E amanhã entro para o Hospital.

Elle lentamente ergue-se para sahir. Quasi á porta murmura:

--Bem sei onde ir buscal-o.

Magra, desconjunctada, a tossir, a

tisica

exclama:

--Pois vae! vae!... Se outras te dão mais, vae!... Deixa-me!...

--Pois vou...

E logo ella, arrependida, torna:

--Espera. Dei-te tudo. Escuta... Tens sido como quê? como um filho meu...--E para as outras com um amargo sorriso:--Ó raparigas, quem ha ahi que me empreste algum dinheiro pelas almas?

Uma abaixa-se. D'entre a meia e o sapato tira uma moeda e a

tisica

, estendendo a mão:

--Já a não ganho com o meu corpo.

E beija as cruzes ao dinheiro.

--Toma.

Dá-lha e baixinho põe-se a pedir-lhe:

--Antes de eu morrer, promettes que me vaes vêr ao Hospital? Todos dizem que estou tisica. Não é por nada, mas vae-me custar morrer, sem vêr ninguem ao pé de mim... Quem hei-de eu vêr? Agora olha como te portas sósinho, ouviste? Inda te levam para o chelindró. Vocês em se pilhando á solta, adeus meu amigo!... Entro amanhã de manhã para o Hospital e na quinta é dia de visita. Não te esqueças de mim, ouviste? A gente prende-se e depois custa-lhe. Ora! que é que eu faço n'este mundo?.... Tu ha boccado disséste que bem sabias onde ir buscar o dinheiro. Era á Gorda, pois era? Podes dizer que eu bem sei. 'Stou prompta! Sou um cangalho, só sirvo de tropeço... Mas olha que fui sempre tua amiga. Já agora deixa-me acabar, p'ra lhe não dares esse gosto... Só te peço uma coisa. É que me vás vêr antes de eu ir p'ra a cova. P'ra a terra! Isto de a gente morrer sem mais nem menos até me parece exquisito... Que haverá no outro mundo?... Estou prompta. O medico hontem disse:--Estás prompta!--E atiram assim com a gente p'ra o cemiterio!... Eu ainda queria que me dissessem o que é que a gente cá vem fazer...

--Sei lá!

--Chorar. Só se fôr... E levar má vida.

Apertando-lhe as mãos, envergonhada:

--Então vê lá se te esqueces de mim.

--Ágora!...

E ella sorrindo com um sorrir triste e piedoso, que lhe illumina a bocca descorada como um reflexo de sol:

--Ágora! é o que vocês sabem dizer. Os homens são todos o mesmo, falam todos pela mesma bocca. A gente, coitada, prende-se, mas vem a morte e tudo leva comsigo.

O Gabiru, desenroscando as pernas, ergue-se e murmura de si para si:

«Que tempo este em que estamos. Parece feito de emoção... E tudo vae sonhando o seu sonho, que eu bem sei, bem n'o sinto nas arvores, nas pedras e na terra, até na terra mirrada... E eu tanto te queria dizer! tanto!... Olha, sempre te chamas Maria?»

VIII MEMORIAS DE LUIZA

É assim a historia de uma das mulheres:

«Tive sempre frio. Esta impressão de ter os ossos gelados vem de muito longe, de pequenina.

Nunca tive mãe, nem ninguem. Fecho os olhos e só vejo o Asylo, os corredores humidos, o dormitorio, o frio refeitorio abobadado de granito. Toda aquella pedra parecia sepultar-nos.

Tambem guardo de pequenina esta impressão: a vontade que tinha de beijar, sem ter ninguem a quem dar beijos. Todos os que eu conhecia eram hirtos.

Vou vêr se me lembro bem... Primeiro é tudo confuso: depois vae-se espancando a nevoa e eu recordo a triste existencia do Asylo.

Noite ainda nos erguiamos para resar. Tocava um sino. Mal sabiamos andar, tropegas como velhinhas. A algumas era preciso vestil-as. A Irmã ralhava se nos demoravamos. Aquelle somno da manhã de que nos arrancavam era como a cova e o esquecimento. Antes nos deixassem dormir para sempre. Para que vem a gente ao mundo?

De tantas que conheci quasi todas, mais felizes, morreram por não terem mãe.

Todas, tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas. E não sei quê de amargo, de reflectido, de soffrimento, de experiencia da vida. Brincavam sem risos pelos cantos, com bichos, com pedrinhas. Uma vez uma disse alto:

--Ó mamã!...

E foi um escandalo. Onde aprendera ella, que não tinha mãe a pronunciar aquella palavra?

Quereis crer? Só tenho esta imagem: pareciam velhinhas recolhidas, tristes por não terem filhos.

E no entanto eu curto saudades d'essa negra existencia do Asylo.

Na cerca havia um curral com vaccas, que nos davam um leite aguado. D'uma vez uma, já eu era grande, toda a noite gemeu. Por piedade perguntei ao hortelão o que ella tinha.

--Soidades por lhe levarem o filho.

E ha mães que os deitam fóra!

Muito deve custar a morrer a uma mãe, que deixa no mundo um filho para o Asylo!

Havia as grandes, as médias e as pequenas. As grandes eram desageitadas, de mãos enormes, com vestidos negros e grossos. E todas eram feias. Faltava-lhes não sei que graça, que só existe nas que têem mãe, por mais feias que sejam: seres d'abandono, plantas que vivem estioladas...

Ás vezes o senhor provedor visitava-nos. Era um homem secco, rispido, de cara rapada, que nos vinha lembrar que viviamos por esmola:

--É preciso que se recordem d'isto: a sua vida devem-n'a aos bemfeitores.

Elle proprio era um bemfeitor. O seu retrato lá estava collocado ao pé dos outros, com o mesmo caixilho funebre. Era o ultimo da sala enorme, gelada, onde os passos echoavam, toda cheia de retratos em torno. Os bemfeitores!...--Dir-se-hia uma galeria d'afogados, todos solemnes, seccos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.

Todas as noites as Irmãs nos faziam resar por elles, a quem deviamos o pão e a vida.

Era prohibido falar, a não ser ás horas de recreio, e isto explica talvez os vincos que todas tinhamos, ainda as mais pequeninas, aos cantos da bocca.

O melhor sitio do Asylo era a enfermaria por isto: era mais quentinho: dava-lhe o sol todo o dia e viam-se as arvores da cerca: e por a Irmã enfermeira ser a unica que tinha coração e que gostava de nos beijar. Todas eramos amigas d'ella.

É curioso. Lembro-me das grandes arvores que de lá se avistavam, mas só as recordo descarnadas e despidas, n'um céu pallido. Sempre no inverno.

Tenho ainda a impressão de ter os joelhos frios e doridos. Nunca mais consegui aquecel os.

O pão do Asylo tinha um sabor que nunca encontrei em outro pão, por mais desgraçados que fossem os meus dias: um gosto amargo e requentado. E em todo o refeitorio havia um cheiro identico. Tudo, até o Christo, até o caldo aguado, a mesquinha ração que nos davam parecia dizer-nos: «Olhae que viveis por caridade! Habituae-vos á desgraça!»

Quereis crer? Muito mais caridoso seria affogar as creanças que não têem mãe. Livral-as-hieis do Asylo, da caridade, da vida.

No dormitorio tudo era regular, branco e monotono, e, apesar de branco, funebre. O sol, que entrava pelas janellinhas, abertas n'uma muralha de prisão, era pallido, e, mesmo de verão, parecia um sol d'inverno; as camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas ás paredes caiadas e nuas; só ao fundo, por cima da cama da Irmã, um Christo de louça azul manchava aquella brancura.

O recreio não era na cerca do convento. Brincavamos sem barulho no claustro. Parece que tinham medo de nos mostrar arvores e sombras. O claustro... Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um rectangulo do céo, e a sombra geometrica estendia-se cá em baixo. De um lado era sempre frio e humido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um golphinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio d'agua frigida. De tudo aquillo sahia uma paz transida de sepulchro. Só andorinhas cortavam em cima o céo; mas d'uma vez que em março vieram, afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas deitaram-lhos abaixo. Destruil-os porque? Os restos, farrapos de pennugem quente, ternos dirieis, andaram por muito tempo no claustro. Passaram de mão em mão com alvoroço. Algumas das asyladas scismavam, olhando-os: as mais pequeninas brincavam com elles. Uma disse:

--É um berço...

Destruil-os porquê? Para que não soubessemos que as aves têm mãe e cuidam dos filhos? Para que não tivessemos saudades das nossas, que não conheceramos? para que ignorassemos?... Mas que candura a das Irmãs se era por isto! Nós presentiamos, adivinhavamos tudo aquillo e quando uma das mais pequeninas explicou ás que faziam roda:

--É o berço dos passarinhos...

--quantas de nós já tinham scismado n'um berço assim agasalhado e fôfo!...

D'aquella vida identica, secca, dura, vinha um dia, quando eramos grandes, arrancar-nos o provedor.

Era um dia solemne. Iamos partir. Quem precisasse d'uma creada que comesse pouco procurava-a no Asylo. Uma caderneta, papeis, alguns trapos, camisinhas curtas e o discurso do senhor provedor:

--Sustentou-as este Asylo por caridade. Se vivem devem-n'o aos bemfeitores. Ora agora lembrem-se sempre nas suas orações do bem que lhe fizeram. E na casa que as recebe sejam agradecidas. Tomam-n'as por esmola...

E assim, com uma trouxa debaixo do braço, partiamos para a Vida.

Oh! minha mãesinha!»

IX PHILOSOPHIA DO GABIRU

Ter

os mesmos direitos que as arvores e os bichos á immortalidade, humilda-me, e fazendo-me humilde torno-me melhor, mais irmão do que é pequeno e desgraçado.

Só as creaturas que soffrem é que são dignas de viver, e na verdade são as unicas que vivem.

No tempo infinito e no espaço limitado as moleculas agregam-se, desagregam-se... Só chimica, só a chimica existe... As moleculas, que têem em si a força vital, são hoje arvore, amanhã animal, pedra, homem. Conforme o quê? o que é que as modela?...

Eis-me: eu fui e continuarei a ser n'este oceano tragico, o que o acaso determinar, conforme as minhas moleculas, amanhã desagregadas, se unirem a outras mais tarde... Tenho vivido até aqui--continuarei assim pela eternidade.

Quando pois me chegar a vez de ser homem, hei-de viver: quero viver da minha propria vida: quero que fale dentro em mim o

universo

que eu já fui--a pedra que eu já fui--a arvore que eu já fui--o bicho humilde que eu já fui...

A tua opinião?... De que me serve? E é ella tua, sentel-a bem tua, ou é aprendida, falsa, vinda de outros homens que me querem esmagar?...

Qual deve ser o meu fim? Deixar falar todo o universo que compõe o meu sêr, deixal-o prégar com a sua voz rouca--com a sua propria voz e não com a tua. Se eu trago odio, deixae-me ser o Odio; se eu trago riso, deixae-me ser o Riso.

O momento é unico, não vale perdel-o. Porque acaso, porque furia insana, depois de que rebeldias, de que horas ou seculos de aguilhão, de desespero e raiva, estas moleculas, perdidas n'um oceano maior que o atlantico, tornarão a ser, se chegarão a reunir para terem a consciencia do Universo? E agora vens tu, homem, e queres emmudecel-as com as tuas leis, as tuas theorias, os teus sonhos...

O momento é unico: vae perder-se ámanhã. Seculos de canseira para terem n'um minuto a consciencia do universo; seculos de sonho tremeluzindo no fundo da obscuridade, para não virem afinal á luz, seculos de amargura, de esforços, de tentativas abortadas--para não chegares afinal a viver. É como ir a uma arvore e arrancar-lhe toda a flor...

Mas olha: tudo é feliz em torno de ti, porque tudo cumpre o seu destino. Cumpre tu o teu. Tudo é harmonico, porque vive da verdadeira vida: as plantas crescem sem que as outras lhes imponham regras, os animaes, a natureza inteira, não têem remorsos nem duvidas. Nem tu as terás, se viveres da tua verdadeira vida e não de outra.

A tua educação deve consistir n'isto: em fazer falar o universo que trazes comtigo, com a sua voz. Arreda, mata, calca tudo o que te contrariar n'isto. Sabes acaso d'aqui a quantos seculos, tornarás a ter consciencia? E que forças perdidas, que luctas não vão ser necessarias?... Quantos gritos!...

Gosa tudo: a desgraça, a fome, a terra, o sol, o riso, porque nunca voltarás a sentir senão n'uma infinidade de seculos. Impregna-te de vida, do teu largo quinhão de vida, para que ás portas do Nada possas dizer:--Vivi!...

Estão em primeiro logar os deveres para comtigo, do que os deveres para com os outros.

Deves amar os rios, porque já foste rio; os montes porque andaste nas suas entranhas; a nuvem tua irmã; a arvore onde correste em seiva--e o homem porque és o homem.

Se te não deixam ser o que deves ser--resiste. Mais vale morrer do que não luctar. Morrendo, triumpharás porque cumpriste o teu destino. Tu és feito de humus, tu és feito de terra. Se ella te deu bocca para que foi? Para que falasses. Com que fim cria tantas boccas? Para que ao fim de mil tentativas se digam as palavras necessarias... N'esse dia tudo terá voz. Na verdade não haverá fonte, arvore, bicho por mais esquecido, pedra por mais ignorada, que não tenha voz e não faça a sua confissão.

A educação moderna, ao contrario, tende para isto: para que todos falem no universo da mesma fórma.

Nasce comnosco o destino. Não o cumprir, seja qual fôr, é ser desgraçado.

Cada creatura que nasceu hontem ha quantos seculos anda a ser gerada? Sabeil-o?...

Não contrariem a vida. Nós somos uma torrente, que Deus creou para um fim... Assim nascerão creaturas que incarnarão o Mal, dirás... Pois que o mal tenha tambem a sua bocca e que fale sem gaguejar.

Se a natureza cria monstros, é que elles são necessarios, como certas pustulas que purificam.

Nunca os tigres afinal venceram.

E de que te serve andares mascarado?...

O homem tem em si particulas de tudo o que no universo existe: metaes, pedras, etc. É um universo reduzido. Conforme n'elle predominam determinadas moleculas, assim odeia ou ama.

Quando é que a chimica será tão grande, que possa fazer esta analyse?...

Ha pessoas que nunca nos fizeram mal e a quem odiamos. Nunca? quem sabe?... Se ha um infinito que tu vives, se tu exististe sempre e és eterno.

O que é a piedade sincera, abaladora, interior? Uma reminiscencia.

Fujamos da terra, dizem-te. Não, bem preso a terra, a terra subtilizada que tu és, a terra tua mãe. Essencia da terra, trabalho insano do seu ventre durante seculos e seculos, homem não a renegues! Ama-a, ama a vida. Tu és talvez o sonho da terra. Ella poz em ti toda a sua emoção, toda a sua maternidade, toda a sua dor e tambem tudo que tinha de immaterial: deu-te o sonho. Sê bom, se ella t'o ordena, sê máu se ella o quer.

Ha dias em que a gente se sente responsavel por todo o mal que se faz na terra.

No mundo correm e entrechocam-se grandes rios de moleculas--que são rios de odio, outros que são rios d'amor, outros que são a amargura, o riso, o sonho...

X HISTORIA DO GEBO

Elle

ahi vae, aos tropeções, amachucado e ridiculo.

Tambem a dor torna picaro e as lagrimas no seu carão espantado só nos fazem rir. Empurra-o a Vida, atira-o, estatéla-o no lagedo, afflicto, sem mão que o ampare--e de cabellos brancos estacados. Gritam-lhe:

--Ó Gebo! ó Gebo!...

Não ha que ter piedade dos fracos. A propria natureza os repelle do seu seio.

Faltava-lhes tudo, tudo se esfarrapava no seu lar. Dormiam em enxergas no chão, n'essas noites de frio inverno. O que mais lhe custava era vêr a filha horas e horas a scismar. Em quê?... O Gebo ao pensar na sorte de Sofia cuidava que lhe torciam o coração. Por ella é que se batia ainda com o destino. E quasi não tinha pão para lhe dar!

A mulher clamava:

--Mas trabalha! tu não trabalhas!... Tu o que és és um mandrião. Olha os outros como furam, como sobem... Tu és um estupido! Na vida é preciso ter-se muita finura. Quem é assim não se casa!

--Ó mulher, a gente quando cahe nunca mais se levanta.

E afinal cahira para sempre, sem energia e sem forças, prostrado. A sua vontade seria deitar-se e nunca mais acordar. Corrêra tudo, batêra a todas as portas e assim se affizera á humilhação e á esmola; a ser mal recebido, a ouvir respostadas que ferem e despedidas bruscas. Os amigos, que a principio lhe davam para o rebaixar, falavam-lhe agora com pedras na mão:

--Volte depois! É demais! Isto sempre não pode ser, você abusa!

As suas melhores horas eram as do somno, profundo, de pôço, em que ao deitar mergulhava logo. Esses pedaços de vida, furtados á desgraça, em que se não pensa, sem sonhos, d'um profundo anniquilamento, eram o unico goso do Gebo. E tanto mais a desgraça o abalava, tanto maiores eram os seus cuidados, mais absoluto o seu somno. Ao contrario da mulher, que quasi não dormia e levava a noite inteira a scismar e a chorar, elle, logo cahido na cama, logo tombava como morto. Ás vezes a mulher nem descançar o deixava; queria falar, discutir, ouvil-o...

--Dormes como um porco! Fala, escuta-me!

E o Gebo, a pingar de somno, lá se punha a dizer palavras, coisas desnorteadas, até que ella enfurecida exclamava:

--Dorme! Fica-te para ahi!...

Mas tinha de acordar e a caça aos magros cinco tostões, que todos os dias precisava de juntar, começára a ser desorientada e feroz. Viam-n'o correr, espreitar um conhecido d'outr'ora, seguil-o, dizer-lhe a sua afflicção em palavras rôtas, e depois muito baixinho pedir. Ficava horas á porta d'uma loja, esse velho tropego, com o casaco no fio remendado pela filha, á espera que um conhecido passasse. Ás vezes consummiam-se os dias e elle sem dinheiro para pão--porque os corações são de pedra. Rondava n'um desespero pelas ruas. Não encontraria acaso alguem que lhe valesse? Despediam-n'o, e elle fazia-se mais humilde, sem odios, pedinchão e sempre a suar. Já não tinha que pôr no prego e muitas vezes se lembrava da morte.

Oppresso o coração, voltava, lá ia á espreita, n'um desespero sem fim. Ao chegar a casa, suffocado, pesado, a mulher que o esperava n'um transe, perguntava ao avistal-o:

--E então? então?

--Cá está, mulher! cá está!

Ó descançar, dormir na terra bem pesada, bem funda, para sempre fugir áquella fadiga de lagrimas, esquecer as humilhações, as horas amargas passadas atraz dos que outr'ora servira! ficar no derradeiro somno, de que nunca mais se acorda nem para a desgraça, nem para o escarneo!...

Que mal fizera elle a Deus e aos outros, para assim ser castigado sem tregoas, com a fome e o frio e a sua filha desgraçada? E nem na propria casa o Gebo descansava. Eram infindaveis os ralhos e os gritos. Só Sofia, linda e triste, pela sua resignação lhe dava animo. Se não fosse ella, seria tão bom morrer!... Os seus amigos estavam ricos e seccos como as fragas. Alguns nem sequer o viam: riam-se outros d'elle e não lhe davam esmola. E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na desgraça, gordo e picaro, atarantado e pedinchão, com uma unica idéa ao acordar: arranjar cinco tostões, para as mulheres comerem.

Já cossados e gastos, todos os dias diziam as mesmas palavras e passavam pelas mesmas afflicções. Transidos pelo frio interior, o verdadeiro frio, que só a miseria dá, encostados uns aos outros, raro se aqueciam ainda com um sonho vão. Fixavam o olhar, perdidos, absorvidos pela realidade, e a Desgraça alli presente parecia rir-se. Gastavam as ultimas roupas, faltavam já trapos usados e elle de cada vez mais gordo e mais molle. Se acontecia rirem-se por futilidades, todos tres juntos, aquelle riso fazia mais afflicção do que as proprias lagrimas. Muitas noites não se accendia o lume e por fim todos tres dormiam n'uma unica enxerga.

A ultima coisa vendida e que lhes custára as derradeiras lagrimas d'olhos ardidos, fôra a pequena casa e o quintal, que de paes para filhos até elles viera. Succumbiram ao terem de deixar para sempre as arvores, que tinham plantado por suas mãos, a horta, o fio de agua da bica, as fructeiras antigas, a que queriam como pessoas. Tudo fôra levado, como uma parte do seu sêr, que lhes lembrava os dias de felicidade, sol que ainda aquecia e que não tornaria a luzir.

A mulher já não ralhava: tombára, com o olhar desorientado e os dias gastos em monologos desconnexos. E elle ficára, amolgado pelos encontrões, gordo e ridiculo.

--Ó Gebo!

--Anh? anh?...

XI LUIZA E O MORTO

O ladrão escondia-se. Perseguiam-n'o, fugira, andára e n'essa noite, com um pedaço de pão metido entre o seio e a camisa rota, fôra dar ao caes. O céu estava negro e o rio negro corria como lava. A agua á noite assusta: fala, attrahe, e a sua frialdade tem qualquer coisa de cóva. O rumor das aguas lembra um ruido de vozes a concertar baixinho coisas presagas.

Estava uma noite de silencio humido e abafado. Brilhava uma luzinha ao largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades poídas do caes. E era no ermo o unico ruido, aquella respiração estrangulada, apressada, um marulhar humano e tragico na noite funda, silenciosa e opaca.

O Morto aconchegou ao seio o pedaço de pão--o seu jantar--e teve um ah! de allivio. Alli ninguem o procuraria, era como se estivesse sepultado no fundo do rio. Havia quasi dois dias que não comia e ia emfim dar a primeira dentada no pedaço de pão. Tinha os joelhos doridos e sentia uma lassidão enorme. Ao sentar-se topou n'um corpo cahido, abandonado. N'um sobresalto, de pé, com o pão a que ia dar uma dentada na mão, perguntou:

--Quem está ahi?

Ninguem: a noite negra e o ruido de ressaca minando as pedras.

--Ouh!

As suas mãos ao tactear deram com uma rapariguinha inerte. A saia estava encharcada e frios os pés.

--Estará morta.

E socegado tornou a sentar-se para comer o pão. Mas sentiu-a mexer-se.

--Outra desgraçada...--scismou--Quem está ahi?

E, sahindo da treva, uma voz de creança, começou:

--Sou eu.

--Tu quem és?

--Não sou ninguem.

--Que estás aqui a fazer?

--Não estou a fazer nada.

--Tu que queres, então?

--Vim deitar-me ao rio.

--Ah!...

--Mas tive medo. A agua do rio sempre é mais fria do que a morte.

A treva espessa em torno e o mesmo ruido da ressaca a prégar. As nuvens baixas envolviam-nos n'um fluido negro, ambos tragados pelo deserto da noite. Não se viam e aquellas duas vozes, uma infantil e baixinha, a outra rouca, eram como o dialogo de duas forças ignotas, que o acaso rola no mesmo turbilhão do infinito. Perguntou-lhe o Morto:

--Como te chamas?

--Chamo-me Luiza.

--Quem te fez mal?

--Ninguem. Estou gravida.

--Ah!...

--Estou gravida. Eu não sabia nada. Estou gravida, acabou-se. Porque é que não ensinam á gente que todos nos querem fazer mal? Uma pesssoa devia aprender.

--O quê?

--A ser desgraçada. Ha dois dias que não como. Tenho andado por ahi. Botaram-me fóra, empurraram-me e eu ando por ahi a chorar.

--Vae p'ra a tua casa.

--Eu sou do Asylo, não tenho ninguem, nem mãe, nem nada.

--Enganaram-te?

--A mim não, ninguem me enganou. Eu não sabia nada. Quando vim do Asylo não sabia nada. Um dia appareci gravida e pozeram-me fóra. Ninguem me quer assim. Quando a gente está gravida que ha-de fazer? A gente não tem culpa...

--Não fizesses o filho.

--Eu era uma innocente.

--Ah!...

--Não sabia nada, juro-lhe pela minha salvação.

--E então?

--Deitaram-me fóra do Asylo e fui servir. O patrão foi quem me logrou.

É sempre o mesmo caso banal e tragico. Se o homem encontra uma pobre creatura desprotegida e ao desamparo, illude-a e explora-a. Sahida do Asylo com uma trouxa debaixo do braço e o discurso do senhor provedor, foi servir. Logo que o patrão viu aquella rapariguinha ao abandono na terra, poz-se a falar-lhe baixo, ás escondidas.

--Era como se me pizassem o coração...

Ella ouvia e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes agudos d'esfaimada, ficava muitas horas scismatica e a falar sósinha. Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, já vindo á terra com este destino amargo--ser explorada. Elle deixou-a logo e ella continuou a servil-os, com o mesmo sorriso, mais descórada e triste. Um dia acordou gravida e a patrôa pôl-a na rua. Remexeu-lhe a trouxa e gritou:

--O que tu merecias era ir para a policia.

Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço poz-se a andar pelas portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até que foi dar ao rio, com fome e inteiriçada pelo frio.

Callou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré. Só o rio prégava. Tu, rio, que carreias nas tuas aguas, para assim falares toda a noite? Levas lagrimas comtigo, raizes, cadaveres: moeste pão, encharcaste terras, humedeceste troncos: e entre salgueiros, espelhando a lua, prateado, foste romantico e triste. Depois banhaste a pedra das cidades, o ferro, e a tua voz tornou-se presaga. Levas lagrimas salgadas ao seu destino, tudo levas, ais, confissões, restos, para o profundo mar. Que dizes, rio? que prégas? Contas a tua vida incessante? Ir ao oceano largo, a fundos redemoinhos para feito nuvem depois viajares, ora negra, ora d'oiro no poente, trespassada de sol, aquecida e vivificada, cahindo por fim em chuva para matar a sede das terras, e voltares ao seio do planeta, rompendo de novo em fonte, que acarreta outras lagrimas, outros sonhos e raizes na mesma condemnação eterna e n'um trabalho insano? É isto? É para moeres pão negro, passares por troncos conhecidos sempre rio, mar profundo ou nuvem?...

Uma luzinha, que brilhava ao largo, deixando na agua um fio d'oiro tremulo, de todo se sumira. Então o Morto no silencio e no negrume, começou:

--Tu que imaginas que é isto?

--Isto quê, senhor?

--A vida. Todos querem mas é enganar. Os ricos fazem mal aos pobres; os pobres roubam os ricos. Todos querem fazer chorar os mais.

--Todos?

--Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quizer. Não grites que é peor. Ninguem te acode.

--Eu não grito.

--A tua mãe botou te fóra, para não te crear, o teu patrão enganou-te. Tu que imaginas? E que podias fazer senão deixal-o enganar-te? Que has-de fazer? Hão-de enganar-te sempre e só te não desamparará...

--Quem? perguntou anciosa.

--A fome. Has-de andar por ahi até cahires de velha, aos pontapés e ás voltas com a desgraça. A desgraça é que póde tudo, ninguem no mundo tem mais força. Se tiveres fome, hão-de-se rir de ti e dar-te terra a comer.

--Ó senhor! ó senhor! Mas então para que me crearam no Asylo? Era melhor terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a ninguem. Que hei-de fazer? Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Ha dois dias que não como.

--Mata-te. Para que vieste tu ao rio?

--Para me afogar... Mas tenho um medo á agua!... Quando metti os pés no rio tão negro, fugi... Ó minha mãesinha!...

E tombou para o lado.

O Morto deitou-lhe as mãos. Estava encharcada, todo o pobre corpo, ainda por crear, enregelado e transido.

--Tu que tens?

--Nada. Fome.

--Toma lá o meu pão.

E o ladrão deu-lhe todo o pão que trazia.

XII PHILOSOPHIA DO GABIRU

Em

todo o caso se a immortalidade existe deve ser bem differente de tudo o que se tem sonhado.

Ser despedaçado, opprimido, calcado, torna quasi sempre o homem grande, porque abala e acorda vozes adormecidas.

Comprehendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina a nuvem, no outro a terra. Tudo o que é verdadeiro, arraigado e fundo, é bello--até o crime.

Não importa saber donde nasceu a idêa da immortalidade, o que importa é saber se a immortalidade existe. Todos a sentem até os mais materialistas, todos sabem que ella brilha no fundo do nosso sêr. Podem-na abalar, abafar, com theorias, palavras, explicações mesquinhas, o que não podem é arrancal-a. É como certas arvores que, deitadas abaixo, deixam sempre profundas e inabalaveis raizes no solo. Para as extinguir seria necessario tornar esteril a terra.

Cada homem tral-a comsigo como uma certeza ou como uma aspiração... Ella remexe sob todas as cinzas.

Mas que immortalidade?

Tomo tudo a serio, até as coisas sem importancia--outra razão para ser desgraçado.

E quando é que eu cumpro o meu destino?--dirás. Interroga-te.

Se as arvores não fossem necessarias, existiriam arvores? Se os criminosos não fossem necessarios existiriam por ventura criminosos?

A educação que nos dão o melhor que ha a fazer é esquecel-a. E esquece-se porque ella nada tem com a vida, é uma coisa á parte. A que adquirimos á custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na peleja, essa acompanha-nos até ao tumulo. É a verdadeira.

O homem procura sempre uma philosophia onde caiba o seu temperamento, os seus erros--e até os seus crimes. Se não existe, inventa-a.

Acho que, ao contrario do que se diz, não sou amigo de ninguem senão nos primeiros tempos. A principio os angulos não apparecem ou disfarçam-se. Depois começamos a ser duros.

Creio que só ha amigos até aos vinte annos, quando ainda se não pensa na vida. Depois endurece-se. Raros são os homens que atravez da vida a serio e dos interesses conservam ainda amigos.

Para ficarmos amigos tenho ou de me submetter ou de te submetter.

Não, a morte não destroe a essencia da vida, mas desorganizando uma forma destroe a consciencia d'essa forma, que é formada de milhares de consciencias...

A acção do que se chama espirito sobre a minha materia produz o meu

eu

, com os seus erros, sonhos, desesperos, odios. A mesma força tira harmonias differentes d'uma harpa ou d'um orgão. O que resta, pois? A essencia da vida?

A predominancia de certas moleculas produz o sonhador; a predominancia de outras o heroe, etc... Eis a futura chimica.

Não se trata de ser feliz ou desgraçado mas de se cumprir o destino para que se nasceu.

Que idéa tão falsa a de se suppor que a vida tem um fim--a felicidade ou a desgraça! Não é isto subordinar o universo ao homem?

Se a vida tem um fim--é viver. Viver, deixar que cumpramos o fim para que fomos nascidos. Isto é logico, inevitavel, maior decerto do que o que suppomos, mais bello, mas cêdo ainda para se entrever.

O homem é uma fonte onde a vida corre limpida ou turva, n'um fio que a emoção torna d'oiro ou n'um jacto negro de colera. Eu ouço assim correr a minha existencia...

Um dia a fonte secca-se.

A terra ha-de sempre crear os seus typos, quer os homens queiram quer não. O homem não é senão a essencia do universo e nasce para que tudo tenha bocca. Podemos tentar abafar isto, pôr diques, retardar a torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.

Não, não é justo que a gente morra de subito sem protestos, sem palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas ambições, os seus sonhos... Abre-se de subito uma cova... Não se pensa mais, não se vê, não se ouve... E o que custa não é deixar pessoas queridas, nem habitos--é não viver. Morrer quando a vida continua da mesma fórma harmonica e impassivel--eis o horror.

Nenhum outro homem no universo existe realmente para o homem; nenhuma outra vida senão a sua vida.

Ao chegar dos trinta annos abandonam-se os amigos. Se alguns restam é por habito ou por interesse: é por calculo. Se queres continuar a amar os outros, afasta-te, torna-te um solitario. Ou deixas de ser sincero e passas a morar com a mentira. A peleja começou: é preciso arredar, vencer--e cada um n'essa edade é o que é. Já se não amolda: é um ferro desembainhado, sahido da forja; tem já os seus habitos, vaidade, mentiras. Tudo o que estava apenas esboçado endureceu; é de pedra.

De fórma que se quizeres viver com os outros tens de representar. Da tua edade ha centenas que vão comtigo pelo mesmo caminho e para o mesmo fim. Adiante de ti estão os homens de quarenta annos, que é preciso arredar, conquistar ou illudir. Cada um d'elles é de aço. Para triumphares tens de os lisongear, tens de ser elles e não tu...

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