OS POBRES (continued 3)
Reading edition
Ama, ama a teus irmãos e vel-os-has transformados e cheios de belleza: mesmo nos mais seccos irás encontrar coisas inesperadas; ama a natureza, os montes, as pedras--e verás que espectaculo sublime; ama que sentirás a mão de Deus pousar se sobre a tua cabeça.
Torna á vida simples e serás feliz. A tua vida não custará gritos; o teu pão não será furtado a boccas famintas. Por cada homem que amontoa oiro, ha cem creaturas morrendo no desespero e na afflicção.
XXIII A OUTRA PRIMAVERA
Os
dias passaram-se e a Arvore era um collosso.
N'essa noite o Sabio encontrou o Pitta desvairado, com o chale-manta ao vento.
--Pitta você tem um ar estranho.
E o Pitta, transido, murmurou:
--Você deve tel-os visto. Nascem, irrompem da treva...
O outro, cheio de serenidade, affiançou:
--Foi a primavera.
--A primavera isto! O amigo desvaira. Como a primavera? Elles só apparecem de noite, criam-se nos saguões. Deparo com creaturas que nunca vi. Uns são lama viva, outros que são?.... Homem, dir-se-hia que todos os sonhos tomaram corpo.
--Tomaram. Tenho pensado n'isso. Pois foi a primavera. Você tem visto um charco, lama e agua revolvida? Vem a primavera e aquillo transforma-se. O mesmo sôpro que faz bater mais alto o coração dos montes, cria n'aquelle palmo negro a vida--murmurios, gritos, um arrancar de mysterio. A primavera faz isto; transforma o humus inerte n'uma vida furiosa. Eu já vi...
--Então...
--Então, Pitta, você medite, é isto... Esta lama que se cria nos saguões, homens, gebos, emparedados, poz se com estas noites a crear... Veio d'alli--e apontou para os lados do Hospital--um effluvio, o mesmo que faz nascer as arvores, e elles estremeceram abalados.
--A noite tem realmente qualquer coisa que afflige... Oppressão, mysterio...
--Emoção que foi até ás tocas onde elles criam. Pozeram-se a sonhar e crearam. Ora escute... Ouve um fremito, o escachoar d'um riachão, gritos?.... E, como se a gente pozesse o ouvido d'encontro á terra...
--Crearam?
--Crearam. Isto que nós vemos não são elles, são apparições. É o que elles sonharam. Os sonhos dos desgraçados tomaram corpo. Só nós é que não podemos sonhar.
--Nós não, nunca mais... Os sonhos dos desgraçados tomaram emfim corpo!
--Tanto sonharam! tanto sonharam!...
--Mas foi a Noite então?....
--A Noite. Uma primavera negra, feita de emoção e de noite. Elles só deitam flôr á noite e só podem sonhar á noite.
--E você como soube?
--Meditei.
--São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem estatuas vivas, outros são disformes...
--Eu tenho visto. É uma amalgama singular. Creaturas de fogo, outras de crime. Dil-as-hieis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que tudo acarrete...
--O que elles sonhariam para chegar a materializar!
--De cada canto surgem. É inesperado e imprevisto. E dos sitios mais negros é que elles irrompem em braza. Hontem vi um que parecia uma flôr---branco, todo branco ou de luar gelado...
--E falam!
--Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?
Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O Predio tremido até aos alicerces, queria elle proprio crear. O rio subterraneo estrupia coleras, engrossára, rompera para a luz; o esgoto acossado carreava oiro, como as poças que reflectem um poente. O Gabiru prégava aos desgraçados. O Pitta mostrando-lhe ao pé os montes, as arvores, a natureza, desvairara-o. Viam-n'o curvar-se sobre os miseros e falar-lhes baixo, precipitado, ronco. Deixava-os a scismar d'olhos febris.
As suas palavras ardiam. E subterraneo, incansavel, ferreo, minava. Ia á procura de odios para as atiçar. Prégava-lhes, apontando o Hospital:
--É alli! alli!...
Falava dos montes e das aguas, mas confundia tudo: aquella manhã de março esbraseara-o.
--É uma coisa esplendida! É ao mesmo tempo a frescura e o fogo, um incendio verde que pacifica e estanca toda a sêde. Aguas a rolar e arvores esgalhadas falando... Sabeis o que são arvores? Ha alli montanhas de riqueza, thesouros... Deitae abaixo! deitae-o abaixo!...
Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite, esguio como um enterro.
--Ha montes todos d'oiro erguidos para o céo, ha oiro nas arvores, oiro nos montes e no tojo... Todas d'oiro são as aguas a rolar. Ha seda viva e arvores... Ha arvores! E tantas vozes a falar. Tudo fala! tudo fala!
E os pobres, os transidos, os homens encardidos de desgraça, escutavam-n'o e punham-se a falar sósinhos. As palavras do Gabiru empoeiravam-n'os d'inquietação e tristeza, e a noite era como um brazido que alguem remexe. Ouvira-se primeiro o murmurio, a zoada do sonho affastado; ouvia-se agora rolar como um rio que incha e trasborda.
--Ha oiro! para lá ha oiro!...
E era como se do globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O Predio parecia abalado. Todo aquelle terriço de creaturas o esbrazeara.
--Tanto sonharam! tanto sonharam!...
Pobres que fariam senão deitar as mãos tabidas a um outro universo que elles presentiam igneo?
Á força de sonhar materialisaram o sonho.
Eil-os gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converte-se em cinza, e no rescaldo todos os toros se confundem. Não conheciam da vida senão a dôr. Gesticulavam, olhavam absorvidos, perdidos de emoção, como quem descobre nova terra e deitavam-se a falar uns para os outros sem se entenderem. Nem sequer se ouviam. Cada um narrava a sua ancia, dizia a historia pobre ou doirada da sua alma. Pelos sotãos, nas mansardas e nos saguões, encontrava-se aquella levada scismatica, tolhida de sonhar. De uns para os outros ia o Gabiru, falando com palavras que os doloriam e lhes faziam precipitar as illusões represas... É verdade afinal que ha arvores e fontes todas d'oiro? Porque é que eu nasci para soffrer? Porque é que existem vidas, como a de certas sementes, que não chegam a ter força para germinar?
Tocados d'essa primavera negra, de que falára o sabio, juntavam-se para se queixar e cada um, á força de sonhar, creára uma figura, desdobrava-se. Dos seres tragicos, rotos, calcados, nascera uma apparição d'uma belleza estranha; d'outros nevoa, phantasmas. Todos traziam o seu companheiro--e havia homens acompanhado por arvores, pelo odio, pelo riso, por monstros...
--Eil-os que deitam flôr! eil-os que deitam flôr!...
E na noite elles botavam realmente flôr, e de tanto falarem nas arvores e nos montes até as pedras cheiravam a terra arada.
Sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer podiam exhalar illusões, sonho de sébes, de calháos, de tudo que no planeta se cria de ignorado e humilimo.
XXIV A MORTE
Oh
eu já não sei bem, pobre de mim, o que é realidade e o que é sonho. Por vezes me parece que o proprio Hospital se põe a falar pela sua bocca de pedra. Em noites de luar, quando tudo para lá se envolve em algido luar, eil-o que enternecido conta sonhos rôtos e tristes, o sonho dos pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas, como os fiosinhos d'agua, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de musgo, esquecidos no globo, mas que exhalam uma frescura enorme...
Encontraram hontem o Astronomo estendido na latrina. Ultimamente ia-lhe no craneo um ruido extranho. Constellações de fogo, mundos e coisas terrenas confundiam-se. O olhar absorto, tremendo de frio dentro do casaco d'alpaca, olhava o céo n'um extasi. De que tombára? De fome ou d'um sonho? Consummira-se como um tronco n'um lar.
Deram com elle cahido na taboa molhada d'aquella ignobil latrina de casa d'hospedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficou luciluzindo uma poeira d'espanto. Morrera surprehendendo algum mundo desconhecido ou descobrindo outro sonho tão vivo, que, de vêl-o, cahira fulminado? Em torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas prodigiosas. Havia um desenho allegorico, um
viva a republica
! outro,
morra a D. Antonia
! contas e um soneto bocagiano pela mão do Pitta--e entre aquella lama o Astronomo morto era como a claridade das constellações, que luzem até no fundo das latrinas.
Um rio, dir-se-hia um rio, com coisas tragicas á tona. Só a Arvore cresce e á medida que ella cria forças a Mouca se consomme. A tosse desconjuncta-a. Creou-a a desgraça humana, construiu-a do lodo das ruas e d'abjecção. Mas a dôr vem e purifica: é como o fogo que torna um galho apodrecido, atirado ao lume, num ramo do oiro mais fulgido. Magra, alta, luziam-lhe os olhos d'um brilho estranho. Riem-se os soldados, batem-lhe os ladrões e só ella não ri como outr'ora. Se a fazem soffrer, a Mouca chora. Um dia ao vêr que batiam em Sofia diz-lhe:
--E se nós nos matassemos?
--Calla-te! calla-te!
--Sabe a menina? Eu não sei que tenho, já não me importo de viver. Perdi o amor á vida. Olhe para o meu corpo. Já não tenho senão ossos. Porque será que a gente muda? Diga-me: é p'ra amor do velho que se não quer matar?
--É, está callada.
--Eu cá sou assim, que quer? Ás vezes, quando não tenho com quem falar, ponho-me a falar sosinha. Antigamente não me lembravam coisas que me vem agora á idéa. Esta vida sempre é mais negra, não é?
--É.
--Pois é, eu bem digo e mais não conheci outra. Sempre a gente nasce com cada sina! Olhe quando eu estiver p'ra morrer, não me deixe ir p'ra o Hospital.
--Não fales...
--Porquê? Eu bem sei como estou. Dá-se-me bem! A gente tem de morrer, não é? Então quanto mais depressa melhor...
Uma noite que os ladrões espancaram Sofia, a Mouca poz-se a olhal-a como um cão ao dono. Por fim disse-lhe:
--Vamos ambas ao rio quer? Eu não me importo de morrer. Mais vale acabar. E a menina? Que ando eu a fazer n'este mundo? Se a menina tem medo da agua, eu deito-me primeiro ao rio.
--Não, deixa! não te afflijas!...
--Eu, sim! Bem m'importo!...
De noite muitas vezes tinha afflicções, suffocada. Agarrada a Sofia:
--Ó valha-me!...
No entanto falava de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo estava tranzido.
--Na primavera...
--Sim, na primavera.
--Vês a Arvore, vêl-a? Assim que tiver flor, é mais quentinho...
Mas veiu março e depois abril e que transformação! Quasi que nada restava da Mouca, escarneo de ladrões e de soldados. Até a voz se lhe sumira...
Dia soturno, de nevoa, cinzento e humido. Começo da noite. Fóra, na rua, lama e gritos; dentro as mulheres acendem um candieiro fumarento. Vae morrer a Mouca. Limpam lhe as prostitutas o suor da agonia e pé ante pé vem os ladrões e os soldados para ao redor da enxerga vêl-a acabar. Moldado pelo lençol um corpo resequido e no silencio d'espera ouve-se só a rala afflicta, o estertor, a ancia de quem quer ainda vida e que a morte esgana--mais perto! mais perto!...
O Velho, com a bocca enorme some-se no escuro e de lá os seus olhos brilham; á cabeceira Sofia ageita-lhe as repas curtas e humidas. O lenço está ensopado de suor d'afflicção.
--Ajudae-a a morrer--diz uma das mulheres.
--Está a passar?
--Shiu! baixinho...
Chegam-se mais os ladrões e os soldados e curvam-se em volta da enxerga--o Pitta, o Morto, os outros. Nas suas feições crueis, ha espanto e terror.
--Inda fala?
--Shiu!...
Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como se a morte fosse apertando--mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na cara branca e immaterialisada:
--Menina! menina valha-me!...
--Estou ao pé de ti.
--Tenho frio, muito frio...
Juntam-se as caras dos ladrões e dos soldados, todos em roda--e pé ante pé tambem o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os braços e d'um lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe nas mãos.
--Aqui está uma manta--diz o Velho baixinho. E apresenta um farrapo de manta cossada.
--Shiu! já não precisa.
--É melhor deital-a com a enxerga no chão, para acabar de penar--aconselha a patroa.
A Mouca respira afflicta.
--Tenho frio... nas mãos, na cara...
Devagarinho, arrepanhando o lençol, rodeada de todos que a tinham maltratado, do todos os que se tinham rido d'ella, devagarinho se fina; a vida extingue-se-lhe como a ultima gotta d'um fio d'agua que acaba de correr. Haviam ficado em volta immoveis.
Este acto do espirito se libertar é de tal forma grande, o inicio do mysterio, que até o Pitta olhava estarrecido. Fóra disse para os ladrões:
--A morte, rapazes, ensina. Não ha licção mais formidavel. É doloroso e no emtanto pacifica. Vêr morrer, enche de grandes idéas, filhos!...
XXV A ARVORE
O Morto tinha um feitio singular. Uma força desconhecida--d'essa corrente a que estamos sujeitos toda a vida--impellia-o para o mal. A sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem sós e a quem o tempo sobra para reflectir.
--Quem és tu? disse-lhe o Gabiru.
--Sou filho do crime. Que te importa o meu nome? O meu nome ao certo ninguem o saberá. Não tenho familia.
--Quem te creou?
--Os ladrões.
--Se não tens onde dormir, deita-te lá em cima.
E emquanto o ladrão dormia aos solavancos, acordando d'estacão, para de novo mergulhar n'um somno profundo, o Gabiru scismava, olhando-o.
Ás vezes o ladrão tornava e o philosopho repartia com elle o seu pão. Depois dizia-lhe:
--Dorme.
Mas n'essa noite o Morto não quiz dormir. Sentados á beira um do outro falam durante largo tempo.
--Não sei porquê este tempo afflije--começa o Morto--Não devia haver este tempo.
--Qual?
--Este, de primavera. Até na cadeia, quando n'uma noite assim o luar consegue entrar pelos buracos, os ladrões acordam sobresaltados. Tenho visto assassinos abalados. Havia d'uma vez um velho, que matou uma creança por nada, para se rir, e que n'uma noite d'estas encostou a bocca ás grades para respirar com soffreguidão e desatou a cantar. Este tempo tira a força.
--Escuta. Não ouves nada?
--Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia conheci cada um... Os que matam inda são os que tem melhor coração.
--Tu para que roubas?
--Roubo porque tenho de roubar. É o meu fado. Cada um tem o seu. Tudo o que a gente faz está escripto no livro do destino. Eu bem sei que inda hei-de fazer peor quando soar a hora...
--Que hora?
--A minha hora. Todos n'este mundo têem uma hora em que cumprem aquillo para que foram creados. Cada qual nasce para o que nasce. Ha-os, por exemplo, que chegada a sua hora matam. Pensa que é para roubar? Matam uma creança que nunca lhes fez mal.
--De que serve fazer mal?
--Em primeiro logar é fazer mal, e quando a gente nasce para fazer mal, é sempre bom fazel-o. Tenho horas em que tudo em mim--tudo!--me préga que faça mal e as minhas mãos procuram logo quem matar. Ás vezes sonho que mato. É signal que a minha hora ainda não soou.
--E Deus?
--Deus foi que me creou, Deus não se importa. Que tenho eu que fazer n'este mundo? Só mal. É porque Deus me creou para o mal.
--Resiste.
--Quando a gente é creada para isto, não ha nada que nos impeça.
--Antes viver com um sonho, ignorando tudo.
--Mas viver!... Viver com toda a força! Tu não vives. Morrer sem ter vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraça? Que sabes tu de ser perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?.... Que sabes tu de seres tu? Ha instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver é preciso cumprir se um fado, com todo o nosso sêr, é preciso a gente sentir-se só contra todos e no entanto proseguir o seu destino... Andar inda que esmague. Para onde? É para o mal? Que importa!...
--Mas o mal...
--Que sabes tu do mal?
--Nada.
--O mal sabe... Ter as mãos ensanguentadas e esmigalhar nas mãos!... Fugir de noite com os pés nas pedras, perseguido, sem poder respirar; encher depois o peito, com o coração a estalar, escondido n'um canto negro ou estender-se a gente no chão e sentir na bocca o travor da terra!... Não respirar e ter a noite por amiga!... A gente poder fazer chorar! Eu ter entre as mãos uma vida e vel-a finar-se!...
--E eu que tinha pena de ti!...
O Gabiru reflecte. A noite é espantosa. Toda a lua se desfaz em luar e, no silencio branco, vem-se da trapeira, os montes, o mar e as arvores, com fórmas de sonho.
--Pobre de ti!--diz por fim o philosopho--Tu és a terra, tu és a terra a falar... Tu és só terra. Eu não vivi? Tu és como a forja apagada e eu não, eu não, eu ardo!... Olha! Olha!...
Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar?
--Não, não quero ver. Isto tira a força á gente.
--Olha! olha!
Mostrava-lhe, esguio e parecendo um D. Quichotte banhado de luar, um sonho que o outro não podia vêr...
Foi esta noite! foi esta noite! Ha dias em que eu sinto como uma torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras estremecem impellidas. Ha como uma ligação entre a Arvore e o que para lá existe. Os seus galhos engrossaram quasi a rebentar e hontem á tarde eu vi que a Arvore já não era a mesma. Foi quando, como agora acontece sempre desde março, o sol lhe deixou poeira d'oiro nos galhos. Vae-se o sol embora e ainda--vou jural-o--lhe fica sol nos ramos. Hontem á tarde parecia transformada, dirieis haver n'ella não sei o quê d'extraordinario. Tinha o ar d'um heroe ou d'uma mãe. Puz-me a vel-a tronco por tronco, depois as pernadas e os raminhos e emfim descobri perdida, quasi sumida, uma flôr tão miuda, tão tenue... Qualquer sôpro do vento leval-a-hia para sempre.
A noites estremecia despedaçada. Uma nevoa viva, torrente luminosa, arrastando comsigo no alvorecer, o primeiro halito dos montes e das aguas acordadas, humedecia as arestas dos muros, o granito da cidade ainda em bloco, meia sumida na noite. O Pitta sentiu que alguma coisa d'extraordinario se passava n'essa madrugada d'abril: um jorro de vida brotára, uma apparição, um sonho realisara-se tornado em materia. A propria luz dir-se-hia enternecida, estremecendo ao tocar na Arvore. Envolvia um fluido, um rastro d'emoção. Erguida, enorme, transformára em flor a dor que as suas raizes tinham bebido. Com um grito o Pitta viu o Gabiru pendurado n'um ramo.
Namorára sempre, depois do escarneo da Mouca aquella Arvore, scismando n'um encontro ethereo para depois da cova. A tisica, nos ultimos dias, quando a morte a tocára, não tirava dos troncos despidos o olhar absorto.
--Aquella Arvore,--dizia--aquella Arvore...
Não sei se repararam... As creaturas mesmo antes da agonia pertencem mais a um outro mundo do que á terra. A materia está já toda imbebida de mysterio, ha mais luz do que noite... As coisas que pertencem ao corpo emmudecem e põe-se a falar dentro em nós a poeira d'astros de que é feita a alma.
--A Arvore! a Arvore!...--dizia ella para Sofia--Donde nasce aquillo--olhe--que a faz tremer? Engrossa e de noite irradia luz... Lembra-se do anno passado que p'ra alli veio um passarito morar? E da sua voz? Parecia agua a cahir...
Quando para sempre a levaram o Gabiru mergulhou na dor. Isolou-se mais. Monologava e os olhos esqueciam-se-lhe nos sitios que ella amára. As noites tinham já esse encanto que alheia, cheias de gritos, de vida no escuro, de palores esquecidos...
Altas horas á janella, todo o céo pontilhado d'estrellas, ouviu soluços na quietude da noite. Cahia um luar enorme e a treva tacita parecia esperar escutando. Só muito ao longe, no silencio que lhe pareceu presago, dir-se-hia que uma nascente deixára correr um fio de agua--só um fio... Ou talvez fosse luar que corresse... Dirieis lagrimas. Poz se a olhar inquieto. A Arvore mais esguia ao palor do luar, parecia transformada. Acenavam-lhe os ramos--e que voz era aquella, fina e meiga, que o chamava?.... Ou seria agua nascendo ou um fio de luar a correr?
Desceu tres a tres os degráus e eil-o no quintal. Vestira o luar a Arvore e sob a magia da noite a eclosão fizera-se. Cobriam-na flores--cheiinha--e todas ellas eram como pequeninas boccas a chamal-o, com uma voz conhecida.
Ao luar, na luz indecisa da noite, lhe pareceu a Arvore como um branco phantasma a fugir e a chamal-o. Baixaram-se os seus troncos para o tomar e ouvindo aquella voz amiga, desfalleceu apertado, morto, levado pelos ramos...
XXVI NATAL DOS POBRES
Natal
...
Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as arvores despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora arrasto pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na natureza se concentra e sonha. Ha no emtanto um grande rio revolto que nunca cessa de correr...
Longe pelos caminhos, atravez de pinheiraes sumidos e callados, vão velhinhas tristes, de saia pelos hombros, para consoar n'esta noite com os filhos. Andam tropegas legoas e legoas. As suas mãos callosas, as caras enrugadas, onde as lagrimas abriram sulcos, os olhos tristes, contam o que ellas tem passado na vida, dias sem pão, suor d'afflicções, desamparos, máus tratos...
Os cavadores deixaram mortos os arados nos campos, que a chuva alaga. Que tudo repouse. O vinho d'hoje conforta, como as lagrimas choradas pelas nossas desgraças, o lume d'hoje aquece como o amor de nossas mães.
Nos soutos, sob a chuva que cahe mansa e continua, andam pobres que não têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão de pae. Partem, chegam, vêm de muito longe, para verem os seus meninos, matando saudades. Quasi não comem e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos, que têm atraz de si uma vida de martyrio e fomes, dizem:
--É hoje o maior dia do anno...
Na lareira arde um canhoto. Cabe o nevão. A cosinha é negra, de telha vã, é negro o frio, mas as almas sentem-se agasalhadas. Por um buraco avistam-se as estrellas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das pinhas, abafadas na cinza, repartem um pão que é o suor do seu rosto, bebem um vinho aquecido em arvores que as suas mãos cortaram.
Sentados ao lume não falam. As brazas vão-se extinguindo como um poente, ou como uma alma que vae deixar-nos. A Morte passa. No buraco do telhado a estrella reluz, o nevão cabe com um ruido de flôres desfolhadas, e cada um scisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longinquo: em certa hora da vida, na mãe, n'um filho ausente, n'aquella morta que passou seus dias a sacrificar-se por nós...
--O lume apaga-se...
--Deitae-lhe canhotos.
O lume apaga-se e as sombras da noite, em revoados, vém escutar-nos attentas.
Os pobres são como os rios. Estancam a sêde da terra, fazem inchar as raizes e crescer as arvores; acarretam; móem o pão nos moinhos. Eil-a a vida da terra. Todas as cathedraes se construíram da sua dôr; sem elles a vida pararia.
Natal dos pobres! natal dos pobres!... Porque é que creaturas miserrimas, encontram ainda na sua gelida nudez, horas para recordar e amar? Pobres repartem o seu pão; espesinhados dão-nos das suas lagrimas. Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a afflicção. Chegam-se uns para os outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sitios onde se soffre, os miseros e os doentes quedam-se muito tempo a scismar. Os pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparadas, onde nem o lume se accende; cuidam n'uma velhinha, que, a essa mesma hora, scisma, abandonada e sósinha, ao pé de brazas extinctas, no filho doente, no filho ausente... Ha cabanas nuas, lares rôtos, almas mais gelidas que o nevão.
As lagrimas que se choram e se não vêm são as peores: cahem sobre a alma.
Sofia sóbe as escadas com uma caneca de vinho quente, para repartir com o Gebo. Na sua physionomia ha um cansaço enorme.
A chorar, misturando-lhe lagrimas, o velho, mais gordo e todo branco, bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraçados soluçam na trapeira fria. Fóra não se ouve rumor: as coisas ingeridas escutam. Põem-se a scismar na mãe que descança na terra encharcada. Tudo tão triste, dias sem pão, e o amor a prendel-os, a unil-os, mais forte que a desgraça. Não sentem odio, nem teem forças para gritos. Baixinho o velho Gebo e a filha choram aquella que a terra primeiro tragou.
--Se o Senhor tambem nos levasse...
E Sofia bebendo do mesmo copo:
--Tenha paciencia, tenha paciencia...
--Se o senhor nos levasse juntos, na mesma hora... Cuido que não tinha tanto frio.
--Ahi tem pão.
--Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse comtigo, minha filha, não tinha tanto medo.
--A mãe lá nos espera. Na cova acabam-se as precisões e as lagrimas...
--Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora, acaba-se tambem a desgraça.
--Aqui tem o vinho.
Natal dos pobres, noite de communhão, noite de lagrimas e saudades! Não é chuva que cahe sem ruido, são lagrimas. O Gebo abre a janela e põe-se a falar para a escuridão com palavras que a noite escuta, com palavras que a noite leva. Sofia o ampára.
Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovellos fincados nas taboas, olham o vinho quente e scismam... Ceia de natal! Ceia de natal!... Até as prostitutas se querem lembrar... Moidas de pancadas, tem más palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se pequeninas para que lhes perdoem uma vida infame.
Falam! falam!... Parece que a mesma primavera negra fez dar emoção a estas creaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre lagrimas, risos sem piedade... Uma começa:
--Ninguem canta?
E logo outra, como se as palavras lhe sahissem de golphão:
--Eu cá foi por fome que me desfructaram. Ninguem queria saber de mim e a minha madrasta calcava-me aos pés.
--Eu nem sei como foi...
--E eu então--continua--foi por fome. O pae estava encarangado e a minha madrasta era tão má, que, por eu me demorar n'um recado, partiu-me um braço.
--Pois eu foi assim de repente...--diz outra--Ia pela rua fóra. Vinha da fabrica, começou a chover e uma lama!... Tinha frio e um homem poz-se a falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquillo foi... E a falar, a falar, até me doía o coração! E nunca mais o vi. Se o vir acho que nem o conheço.
--Enganam e nunca mais querem saber.
--A mim minha mãe bem me prégava, mas a gente que ha-de fazer?
--Hontem os soldados pozeram-me o corpo negro,--diz uma.
E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nodoas. No hombro os ossos furam-lhe a pelle.
--Quando eu morrer... oh quando eu morrer!...
--Tola!
--Que tem? Tenho alli a roupa apartada.
--A mim quando sahi do asylo enganaram-me, levaram-me. Eu não sabia nada. Depois comecei a servir. Enganaram-me e punham-me fóra... Depois não tinha mais para onde ir ...
--Eu cá tive um filho...
Uma que estava callada soluçou no escuro. E como todas se voltassem poz-se a rir e a ageitar os cabellos.
--Eu tive um filho e puz-me a creal-o. Depois de isso o meu amigo nunca mais quiz saber. Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o innocente e elle punha se a rir.--Mulheres não faltam, dizia-me. Vae-te!--E a gente fica feia. Vae um dia e disse-me:--Se cá tornas chamo a policia.--Eu chorei até não ter mais lagrimas e acabou-se tudo. São todos o mesmo. N'outro dia vi-o mas elle fingiu que não me conheceu.
--E o teu filho era bonito?
--Era um anjinho do céo. Tanto chorei que seccou-se-me o leite de chorar. A gente sempre é mais tola!... Poz-se muito chupadinho e morreu.
--A Maria já deitou um á roda.
--Eu cá se tivesse um filhinho acho que morria por elle. Não tinha coração para o dar a crear.
--A gente não podemos ter filhos.
--Eu cá era uma innocente. Até me dá riso! Tinha treze annos e foi logo ao entrar para a fabrica. O mestre foi quem me desfructou. Agarrou-me, mas eu não sabia e puz-me a chorar.--Calla-te! se dizes, vaes para a rua!--Abandonou-me, outros vieram... A gente ha-de cumprir o seu fado.
--Eu cá fui um miminho. Meu pae tinha de seu... Depois tudo esqueci, porque senão a gente morria. Meu pae era muito meu amigo. Era preciso não ter coração para o enganar. Nem elle podia suppôr mal de mim, nem do outro que entrava na nossa casa. Meu pae era tambem muito amigo d'elle e tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pae commigo no collo me dizia:--Tu és o meu coraçãosinho...--Eu sempre tive um collo! Olhae: emballava-me como ás creanças.--Falta-te a tua mãe, mas eu sou a tua mãe, queres?--Era uma dôr do coração enganal-o e nós enganamol-o ambos. E eu bem sabia que elle era casado, mas mentia-me...
--Porque será que os homens mentem sempre?
--Mentia-me sempre, e eu era innocente. Mentiu-me e mentia a meu pae. O peor é que um dia fiquei gravida. Começou o meu castigo.--Vou-lhe dizer tudo.--Diz--disse elle. Matal-o. Se queres diz...--Eu callei-me.--E agora?--Agora...--Eu já lhe não queria, acho mesmo que nunca lhe quiz deveras. Foi uma desgraça. Já estava escripto que fosse desgraçada, acabou-se!... Depois não podia esconder o meu erro. Só meu pae não reparava... E elle que me imaginava uma inocente!... Esperae...--E agora? agora?.... perguntei-lhe. Então arranjei com que meu pae me deixasse ir com elle e a mulher para uma quinta. Se vós visseis!... A pobre da mulher! Batia-lhe sempre, tratava-a peor que a um cão.--Calla-te!--e ella callava-se, a pobre.--Fala!--e ella falava.--Ó estupor tu não te callarás!--Ella tinha os cabellos todos brancos e vae em um dia perguntei-lhe quantos annos tinha.--Trinta, respondeu-me, e callou-se. Fiquei passada. O homem deante d'ella dava-me beijos para a ver chorar. Dizia-lhe:--Vou dormir com ella, ouves, velha?--E dormia commigo. A senhora não dizia palavra. Chorava e punha em mim uns olhos tão tristes, que faziam afflicção. Um dia que ficamos sósinhas, ella disse-me:--A menina ha-de ser uma infeliz--Eu chorei, e ella com a mão nos meus cabellos, a fazer-me festa:--Coitada! coitada, que sorte a sua tão negra!... Ainda eu...--Porque o não deixa? perguntei-lhe.--Já me tinha deitado ao rio se não fossem os meus filhos.
--Elle sempre ha desgraças? Ás vezes mais vale ser mulher da vida.
--Esperae pelo resto... Tive as dôres uma noite no verão, em agosto, e a pobre da senhora é que me tratou. Elle levou-me logo o filho. Na outra sala ouvi gritos. Vae e atirei-me pela cama fóra, sem saber o que fazia.--Onde está o meu filho?--Fui mesmo de rastros e puz-me á porta a escutar. Elles berravam--Se falas esgano-te!--dizia o malvado á mulher.--Mata-me! tornava ella.--Tu queres a minha desgraça? Estorcego-te!--Depois ouvi um grande grito e fiquei como morta.--O nosso filho? o meu filho?--Nasceu morto.--A mulher a um canto chorava. Chorou sempre depois.
--Tinha-o matado, o malvado?....
--Tinha. Affogou o na latrina. Depois veio a policia. Esperae... A creada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa d'um lado e descobre do outro. Elle fugiu para o Brazil, eu fui presa, e meu pae deante d'uma ingratidão tão negra--queria crêr?--estalou-lhe o coração. Depois... depois... A gente quando nasce já tem a sua sina escripta.
--E a ti?.... Não falas?--perguntam a uma sumida no escuro.
--A mim enganaram-me. Foi ha tanto tempo que já me não lembra. Tudo perdi.
--E a tua familia?
--A gente não tem familia.
Na noite, a um canto do Hospital o velho
banco
de taboas puidas, dá lhe tambem para scismar. A ventania parou. D'uma fresta tomba luar. A treva amontoa-se ao fundo, e, para alem, nos corredores abobadados, arde um lampeão. Direis que o negrume remexe: pedaços de escuridão destacam-se, escoam-se sem ruido pelas muralhas humidas e espessas. Mais para o fundo ha como um abysmo, valla commum de treva empastada. Os gritos redobram; depois, por momentos, o silencio suffoca, como o d'um sepulchro.
--Se é luar que cahe d'aquella fresta,--cuida o banco.--Se fosse luar!...
Pela escada vê se a enfermaria onde os lampiões em fila dão uma claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, cahidos nos leitos: parece uma necropole subterranea e immensa.
--Se fosse luar...--Ha que tempos que não sinto o luar. Era como um ruido branco que me envolvia outrora na floresta. Neva ás vezes luar. E havia ainda outras vozes... Sempre se sonha, quando certas noites nascem! Era differente... Havia rumor nas folhas e o vento dizia aos ramos historias acontecidas n'outros montes. Ha epochas em que o vento traz noivados, ais de sapos, frangalhos arrancados ás flores... Se aquella poeira fosse luar... E se o luar se pozesse a correr sobre mim, aquecendo-me como outr'ora, quando em mim subia não sei o quê de mysterioso e forte?
Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os ultimos lampiões apagam-se um a um, como se alguem lhes soprasse. É a Morte seguindo o seu caminho. Sombras esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais callada, maior, valla infinita, a que uma luzinha dá alma. E o
banco
scisma:
--Ha que tempos que não sinto em mim a luz da manhã, que traz comsigo a vida de tudo o que existe, dos rios, das outras arvores, nem o sol a crescer em vagas d'oiro, nem a agua verde, melancholica, e tão mansa entre os choupos que parece ir vogando já morta... Sinto-me transido... Transido? Isto é como fogo, mas trespassa-me de frio. E não ha nevão, mas ouço sempre gritos, ais, dores... Oh se fosse luar!... D'estas enfermarias corre tambem um sonho parecido com luar... Será uma fonte?.... As fontes! nem te lembres das fontes!... Aqui parece que as minhas fibras mergulham n'um mar revolvido, que eu ignoro, mas que é feito de gritos.
Baixo a pedra começa tambem a lembrar-se e áquella hora perdida da noite toda a alma inconsciente do Hospital estremece. Quer recordar, palpita e logo esquece... Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes, materialisam-se e são como nuvens: são de fogo, são de luar. Sombras aos bandos dissolvem-se, para outra vez se crearem.
--Acho que sempre é luar... E quando havia sol? Torrentes corriam pelo meu tronco, inundavam a minha roupa cascosa e em volta n'uma poeira azul andava um turbilhão de bichos. Outras arvores fluctuavam na mesma poalha e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe--e que encanto aquella companhia sempre presente e amiga!--o fio do rio chalrava. Folhas cahiam e iam devagarinho viajar sobre a agua verde. Para onde?.... Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas raizes quantas vidas protegi e defendi!... As minhas raizes tocavam na vida!... As vezes cahia um pé d'agua, mas depois vinham sempre teias de sol, fios de sol, para me enredar--e o sol traz consigo um cheiro a terra e a renovo que consola, o halito dos montes e dos pinheiros meus amigos.
Nas temporadas funebres em que a agua cahe a golphões, a gente concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens, os bichos na terra tremem de frio sob as raizes e as folhas seccas estalam e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a nevoa, os montes são mendigos, com um grande manto remendado. Ao fim da tarde levanta se dos campos um lindo luar azulado que sóbe e se dispersa. É a nevoa. Baba d'oiro luz na agua e os choupos são sombras. Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois poentes doirados... Porque é que me ponho a pensar e a scismar? Ha tanto tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Ha-de ser do luar... Oh se ainda houvesse luar!
As mulheres callaram-se. Não ha ruido. Ellas proprias sonham. Em torno da meza, na cosinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas pensam decerto n'um lar e bebem as lagrimas que cahem no vinho e o gelam.
--A esta hora a minha mãesinha ha-de por força pensar em mim...--começa uma.
--E tu porque não foste consoar com ella?
--Punham-me fóra! queriam-me lá!... Meu pae, meus irmãos...
--Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. Ássam-se pinhas no lar, e minhas irmãs pequeninas... oh minhas irmãs pequeninas!...
E suffocada desata de repente a chorar. As outras não se riem como de costume. Só uma, sentindo que iam todas chorar, canta:
Se vires a mulher perdida...
--Raparigas é o fado... De que serve agora chorar? Ninguem foge ao seu fado.
--Á noite a minha mãe aquecia vinho e dava-m'o na cama. Sempre a gente é creada para uma vida! Quem adivinha?
--Calla-te!
--Eu era o miminho de todos, eu...
--Só eu nunca tive mãe, de mim ninguem se importa! Acabou-se!
Na escuridão as cinzas que restam n'um lar, fazem tristeza e saudade. Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da treva que em redor suffoca. Assim o Predio ao abandono, sob a enxurrada, parecia scismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parára tragico defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida, contempla o seu destino.
Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se ajuntam friorentos em torno d'um lume que não aquece; natal dos sêres que a desgraça usou... O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este lume, que jámais se apaga:--Ámanhã! ámanhã!...
Que poesia tão triste não vae cahindo como um chôro sobre aquellas almas de miserrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraçados!
N'uma trapeira o gato pingado quer dizer:--Amo-te!--mas foi sempre tão nú que não sabe exprimir o que sente.
Na alma d'aquella creatura humilde, despida e escarnecida, que tinha medo de sonhar e até de chorar, fizera se um clarão. Tal o espanto enternecido d'uma pedra, a que uma raiz se apega e que a olha deitar flôr na primeira primavera.--Fui eu, apezar da minha seccura, pensa o calhao, que a trouxe no meu ventre.
Sem falar, bebem juntos, elle e a Rata o mesmo vinho. Elle diz:
--Ambos somos desgraçados e sósinhos.
O vinho que havia aquecido dá-lh'o com um pedaço de pão. Ella olha-o, tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois alguem que a amasse?...
--Bebe.
--É tão bom a gente estar junta.
--Não se tem frio.
--Esta noite sabes?... Lembro-me de minha mãe... Porque seria que ella me engeitou?
Fóra choram. A Rata ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe pôz fóra da porta e que chora e pensa:
--E se eu me deitasse afogar?
Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, misera, rota, resequida, diz, pondo-lhe a mão na cabeça:
--Deus te crie para boa sorte...
Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.
Meia noite! meia noite!... Para que tudo se crie, para que o pó se transforme em vida, que é necessario? Torrentes de chuva, oceanos d'agua. Eis a vida... Para que do que é materia algo de radioso irrompa, que é preciso? Um atlantico de lagrimas.
Da materia tem nascido á custa de gritos, de fibras torcidas, o immorredoiro espirito. Atravez das edades elle se creou, atravez da dôr veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo material. A dôr é a primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se entrar na morte ha sempre gritos. A dôr ara o céo cheio de estrellas e os seres humildes.
Que se cria de tudo isto? que é que se alimenta no infinito? D'estes pobres espesinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas--humus, amalgama, protoplasma, espirito lacteo, d'onde se constroem os mundos. Na valla commum os seus corpos, cansados de soffrer, são a vida da terra: as arvores, o pão, as fórmas, a seiva esplendente. No infinito é da sua dôr que se sustenta Deus.
Maio de 1899--Janeiro de 1900.
INDICE
Carta-Prefacio V
I. -- O enxurro 1
II. -- O Gebo 9
III. -- As mulheres 15
IV. -- O Gabiru 25
V. -- Historia do Gebo 35
VI. -- Philosophia do Gabiru 43
VII. -- Primavera 47
VIII. -- Memorias de Luiza 57
IX. -- Philosophia do Gabiru 63
X. -- Historia do Gebo 69
XI. -- Luiza e o morto 75
XII. -- Philosophia do Gabiru 81
XIII. -- Essa rapariguinha 87
XIV. -- O escarneo 95
XV. -- Fala 105
XVI. -- Historia do Gebo 109
XVII. -- O que é a vida? 113
XVIII. -- Historia do Gebo 137
XIX. -- O Gabiru treslê 143
XX. -- A mouca 149
XXI. -- Ahi tém os senhores a natureza 155
XXII. -- Philosophia do Gabiru 161
XXIII. -- A outra primavera 167
XXIV. -- A morte 173
XXV. -- A arvore 179
XXVI. -- Natal dos pobres 185
Notas:
[1]
Estes pedaços são arrancados ás reflexões philosophicas do Gabiru, a que elle chamou
A Arvore
.
A Arvore
porquê? Porque com ella germinaram, deitaram grandes ramos, raizes subterraneas e fundas.
A Arvore
sustentou-se de desgraça. As suas raizes alimentaram-se d'este humus--a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos. Damos aqui alguns pedaços do livro, o necessario apenas para se vêr a transformação do Gabiru, pelo contacto com os sêres humildes e a dôr, promettendo publical-o mais tarde com a sua conclusão.