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Os Pobres

OS POBRES (continued 2)

Reading edition

Os que têm uma forte individualidade arredam-se porque nunca podem agradar. O triumpho pertence não aos mais fortes, nem aos mais intelligentes, mas aos que, sem pessoalidade, pódem ser todo o mundo...

Ser parecido lisongea: d'ahi tens d'afivelar uma mascara egual á do homem que precisas conquistar.

Sim a vida é uma tragedia esplendida, com todos os seus crimes, sonhos, odios. Falam em nós as montanhas, as arvores, as nuvens, e fala até, n'um murmurio, o que é ainda desconhecido.

Que é preciso para que cada um se encontre? Que é preciso para que as arvores abaladas se carreguem de flor? A Primavera--a Dor.

Tu és a mãe, terra; tu a fecundaste, Dôr, e até nós veiu como o murmurio apagado dos seus gritos.

Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho as mãos até as ennegrecer, na agua que m'as banha; no ar que respiro; no sonho; na morte; na desgraça; no que é humilde ou grande não importa.

XIII ESSA RAPARIGUINHA...

Quédo-me

a scismar tão sósinho n'este velho casarão!... De noite ouço vozes, logo suffocadas, que me querem falar e não podem. Só os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!) se põem a prégar dentro em mim. Arqueja o lume no escuro e sinto em redor toda a treva povoada.

Foi ha vinte annos e no emtanto hoje, como em certas horas presagas, alguma coisa remove e acorda dentro em mim. Oh não! Bem sei, por demais conheço a fórma porque as ideias se ligam, até as mais contradictorias, e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas não é isto: é do fundo do meu sêr que esta imagem irrompe, desligada, sem nexo, como um phantasma. Ás vezes estou só e esquecido e um estalido atraz de mim alembra-me, outras acordo de subito, altas horas, já a pensar n'essa pobre creaturinha explorada. O rumor da vida, outros crimes amontoados, podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:

--Abandonada! abandonada!...

E no emtanto o facto em si é simples e banal, vulgar como essa rapariguinha das ruas, molhada até aos ossos, a quem nem mesmo soube o nome, porque nem sequer lh'o perguntei.

Convenci-a a que me seguisse por vaidade, para ser como os outros, ao encontral-a uma tarde, sem pão, expulsa de casa, vagueando na tristeza das ruas. Teria quinze annos? Teria. Disse-me a medo que sim. E eu, levando-a para a casa de

passe

, sentia, não orgulho nem prazer, mas oppressão e vergonha. Perguntava-me já: como me hei-de ver livre d'ella?

Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a rapidamente, dando dinheiro á mulher, gorda e vesga, que sorria, e fugi como quem foge ao remorso.

Mais nada. Porque é então--e já lá vão muitos annos--que a certas horas de silencio me lembra essa pobre creatura e as suas palavras ingenuas, o sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva, todo dorido da vida?

Vejo-a aqui, aqui no escuro, descalça, molhada até aos ossos e a sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lagrimas, com um sorriso tão triste que me piza o coração.

Arqueja o lume no escuro todo povoado de

vozes

, que vão prégar, mas que logo se callam suffocadas. A ventania passa lá fóra e na escada soam os passos do gato pingado; as mulheres gargalham e eu fico sósinho, a scismar, n'este velho casarão, com os olhos presos no lume que esmorece...

Eil-o que pára no patamar a tossir, com o peito escalavrado e roto!...

Na verdade não conheço outro homem tão nullo, banal como a propria banalidade. A sorrir, a amar, e até com o coração despedaçado, esse homem fazia sempre rir. Os proprios inimigos tinham por elle piedade ou desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. José era incapaz de odios. Nunca podera aprender a vingar-se e sabiam-n'o. A mim mesmo me fez algum bem que depois lhe retribui em esmolas, ao encontral-o estatelado na rua. Nunca lhe encontrei interesse: a sua vida é a vida de todas as creaturas que se afundam por falta de tino pratico para a lucta: enlamear, mentir, triumphar emfim. A vida (oh todas as solidas philosophias o ensinam) é de quem possue a força e aptidão... Mas hoje estou n'um dia enervado e sinto-me sósinho n'este velho casarão. Parece que a noite tem vozes e que os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!...) encontram emfim palavras e se põem a falar dentro em mim.

É talvez para fugir a esta obsessão que me deito a scismar na vida d'este homem banal como a propria banalidade.

Nem sei como conte, com que palavras faça a narração d'uma existencia, que é como um trapo que se deita fóra todo molhado de lagrimas.

Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veiu um dia a catastrophe e incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-n'o, mentiram-lhe. E não faltou a doença a escalavral-o brocando-lhe a cara e a tisica a romper-lhe o peito com tosse, nem a miseria a deprimil-o. É por isso que elle, ao saccar das casas o caixão dos mortos como quem o arranca do peito dos que ficam, decerto ri por dentro, ha-de rir consolado.

Quem foi a tua mãe, ó S. José?...

Apedrejam-n'o os garotos ao vel-o passar para os enterros, fogem d'elle os visinhos e só a Rata fala ao gato pingado.

A Rata é sua egual, tão maltratada pelo destino como elle. Foi sempre assim: rachitica, triste e feia. A vida para ella tem sido mourejar. Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asylo, depois o homem com quem casou, e que logo a deixou sósinha. Com o S. José conversa ás vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal sabe exprimir-se. Falam os dois como podem communicar entre si as pedras, os sêres que o acaso rola juntos no mesmo vagalhão da vida. Nem se queixam--e de que se hão-de queixar? Deus os sustenta na sua mão de pae.

--A gente é pobre--diz elle.

--A gente é pobre--torna-lhe ella.--E ás vezes passa fome.

--Passa.

--Quando a minha mãesinha era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe o sustento e eu mal o ganhava para mim. Até que acabou de penar os seus trabalhos. Tudo se acaba um dia.

--Peor do que isso é não ter ninguem. É peor do que a fome.

--É o peor de tudo.

--Que se ha-de fazer?

--Sabe vocemecê? olhe que eu ás vezes ponho-me a scismar porque é que a gente soffre...

E o vento ulula. No coração do inverno o enxurro leva as lagrimas que ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino ignorado. Rola as lagrimas dos pobres n'alguma nuvem perdida e gemidos, ais, palavras leva-as o vento comsigo. Noite negra! noite negra! Arqueja o lume e o predio sob a ventania arqueja.

Eis-me a scismar absorvido nas brazas, fascinado pelo seu escarlate, ou com os olhos postos n'esse outro lume, o Hospital, que brilha na escuridão como um brazido de gritos.

A pedra de que o construiram dil-a-hieis transida. Foram-n'o acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miseria cresceu. Arrancaram-n'o ao coração da terra. A ossada dos montes, abraçada pelas raizes, a fraga escondida que com a agua viveu e em si a guardou, sentindo-a bolir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã da terra, sepultada na terra, veio ter este destino--abrigo de miseros.

Ao pé da pedra a Arvore cresce. Prega o universo e ella retempera-se. As suas raizes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços quasi cobrem o predio. D'um lado o Hospital, do outro a Arvore. Só elles prosperam. Deita a Arvore pernadas e a cada inverno o granito augmenta, qual outra arvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O Hospital tem raizes em toda a cidade.

A Arvore é quasi uma construcção. O tronco é corroido e as pernadas em cima torcem-se e esgalham-se. Suas raizes vão sugar no Hospital. Com os annos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-n'o, abriram fendas para mergulharem mais fundo na miseria humana.

E para lá? o que ha para lá? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que é a respiração dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do Hospital e ruidos, claridades, mistura d'oiro e verde, gorgolejos de minas, chuva de sol e d'agua, tombando. Arfa a terra, incham os montes e vogam no ar aspirações de arvores, murmurios de fontes, o halito das plantas ignoradas. Oh cahem noites encharcadas de luar, em que se ouvem as lagrimas das noras paradas, cahindo uma e uma na terra sequiosa e se presentem dialogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...

E a Arvore, a este ruido, fica entontecida, abalada até ás suas raizes mais fundas.

Esperae! esperae!... A ventania redobra. Depois ha um silencio prostrado, um silencio peor do que a lufada, em que eu ouço o esforço que o mundo, que povoa a escuridão, faz para gritar. A treva arqueja e a ultima braza reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vae esmorecendo...

Grito! É sempre a mesma rapariguinha que resurge, magra, pallida e triste, com um pobre vestido encharcado de chuva ou ensopado de lagrimas. Sorri para mim, descalça, estendendo-me os braços. Eil-a! eil-a!... Só uma braza ainda vive no lume, misturando na escuridão uma poeira escarlate. E vae apagar-se! extingue-se...

Toda a vida é uma construcção de gritos, a cada passo para a frente ha sempre uma creatura espesinhada... Que queres tu?

Não é odio que ella tem por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto molhado de lagrimas, é triste mas resignado. No emtanto o remorso acorda, o remorso põe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e vesga dar-lhe dinheiro; vejo-a depois partir atravez das ruas, encharcada até aos ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vae gritar? De que servem os gritos na terra, não me dirão?

Para quem ha-de ella apellar no mundo? E não entende. Descalça caminha pelas ruas desertas á chuva; pela vida asperrima ao abandono. Vem depois outro e engana-a, mente-lhe. Para que servem os gritos na terra? Tem de soffrer e de se resignar á brutalidade, ao escarneo, aos risos; tem de se affazer a ser explorada, á mentira, á infamia... E assim caminha, ensopada de lagrimas, afundada na desgraça pelos que passam e riem; assim vae pela vida fóra até onde?... Até onde?

Oh aquella braza que ainda reluz como uma poeirinha d'oiro, aquella braza que vae morrer no lar quasi de todo apagado!... A lufada doida passa lá fóra aos gritos. Quanta gente grita n'este valle de lagrimas! A esta mesma hora quantos berram espesinhados, sem mão que os ampare? De que servem os gritos, não me dirão?... Aquella restea de lume é como o ultimo fio d'uma alma que vae findar!...

E ella ahi volta, ahi torna! Pobre corpo murcho, nascido para o soffrimento, já dorido da vida, vestido d'uma sainha e d'um sorriso resignado de quem já presente o que a espera--quantos gritos! quantas lagrimas pela existencia fóra!...

Cerrou-se de todo a escuridão. Suffoco!...

XIV O ESCARNEO

No

ermo da noite o Gabiru vae tecendo a sua teia:

«A materia tambem sonha. N'essa mistura de homens e calháos, torrente que leva comsigo gritos e forças embravecidas, turbilhão arrasto pelo infinito fóra, não é indifferente ir ser pedra ou nuvem, nascer em macieira de quintal escondido e humilde ou na agua fulgindo d'uma fraga. Não é o acaso que reune ou afasta as moleculas, para as fundir n'outras fórmas. Ha corpos que a chimica não consegue ligar, porque os separa o odio, e outros que se reunem com soffreguidão.

Depois da morte a materia entra n'um mar. Rios acarretam as moleculas, até que se encontrem as que se devem juntar. O meu coração unido ao teu ha-de florir n'um simples espinheiro. Será n'um sitio pobre, mas alguem que passe n'esse abril, sentir-se-ha enternecido para sempre. O meu cerebro procurará o teu cerebro para vogarmos juntos na mansidão d'um rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei inconscientemente até dar comtigo e te fruir n'esse oceano bravio. Se tu fores fonte, irei topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.

Creaturas simples vão ser arvores que de anainhas a gente se sente commovida ao vel-as; os sonhadores, desfeitos em nuvens, andarão nos poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abraza, as penedias eternas, serão construidas do coração dos máus.

Eil-o o prodigio, o extraordinario milagre, esta vida que o Pitta me mostrou, arvores, nuvens, mar, este monstruoso referver de vida, egual nos montes e nos igneos mundos. E eu pertenço a este pelago como tu, passo os meus dias a contemplal-o!

Fico horas a aparar nas mãos o jorro do sol, olhando-o correr...

Por força existe uma razão superior senão o homem seria Deus, a consciencia do universo, o que se não comprehende: um deus reles, com miserias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre despedaçado pelos tombos.

Sê sempre bom, porque a bondade eternisa o amor.

Os crimes da materia pune-os a materia, os crimes do espirito pune-os o espirito.

Já ouviste que as arvores, o mar e as pedras, tivessem duvidas ou tremessem de pavor?

Vêr o sol, o universo, olhar, já é um prodigioso milagre. Mas tocar, comprehender calháos, almas, ter raizes em todas as estrellas, no céo e no oceano--é o portentoso sonho.

O homem arranca de si proprio universos de belleza.

O homem tem uma scentelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de sonho que vae espraiar-se de estrella a estrella e tudo enche, doirado e enorme, e que em si consubstancia o genio, a belleza, o amor. Logo que a materia se dispersa, a immorredoura faisca volta ao atlantico donde tinha sahido.

Creamos cada um de nós um universo d'angustia ou de belleza, resequido ou de fogo. São felizes os bons portanto. Ha no emtanto creaturas que vivem sem suspeitarem que o universo existe.

Ás vezes nos mais simples factos encontra-se mysterio, como n'um punhado de desprezivel terra ha uma força escondida. Parece inerte. Esperae, porém, que março a toque!... Assim esse pobre desageitado, sempre timido e vestido de negro, tinha uma existencia feliz. Na trapeira passava as horas a scismar n'essa rapariga quasi tisica, com um ar de mascara que vae gritar d'afflicção. A Mouca foi amada como as princesas lendarias, e esses amores entre um philosopho esfaimado e uma mulher da vida, tinham não sei que enternecido interesse. Sobre os calhamaços do Gabiru alguem encontrou por vezes flores resequidas e n'essa primavera--caso unico--o vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no saguão.

Elle era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama? O amor e a fé não transformam o mundo até ás suas mais profundas raizes? Quem diz que se não podem construir com aquellas nuvens esparsas marmoreos palacios ou estrophes de luar?

As suas theorias, as suas idéas ia-as tecendo e olhando a Arvore. Pelo tronco corriam já estremeções: os gommos pareciam envernizados. Debruçado na trapeira, fascinado olhava-a de galhos despidos, ainda nua, mas--como direi?--vestida de emoção.

--Aquella Arvore...--murmurava elle scismatico.

Em baixo corria sempre a levada, lagrimas, gritos, gargalhadas, lama espesinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo habita a alma d'um deus. Porque? d'onde? De que ruinas se constroem estes seres que o destino marcou com dedadas tragicas? São feitos de pedaços d'estatuas e loucura. Falam em giria. Se riem são o Riso e é como se dentro d'elles andasse um doloroso palhaço aos saltos. Têm olhares de desespero e de odio. Eis um rio de gritos que já brotou para soffrer. É a Noite que anda a architectar de neblinas os seres destinados a arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela natureza indifferente, é porventura necessario e fecundante?....

Todos os dias o Gabiru lá vae sentar-se olhando a Mouca entre os ladrões e os soldados, que á noite surgem para se rirem das lagrimas e dos gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, callado e feroz, que só ri com uma bocca disforme, e o Morto, que fala com desprezo do soffrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste, põe-se ao seu lado a olhar para a Mouca e vae tecendo o seu sonho. Toda a noite é uma mistura de gritos, de lagrimas e risos. Espancam as mulheres e quando ellas choram, cahidas, tornadas em escarneo, infimas como a terra, todos elles riem, com um

anh!

de satisfação por as fazerem soffrer.

Mas um d'elles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem vêr nem ouvir, ridiculo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emmudece, tragica. O Morto, pondo-lhe a larga mão no peito:

--Ó tu!

--Anh?

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de repellão se erguem.

--Esperem... Tu não ouves?

--Anh?--diz elle, acordando estonteado.--Anh?

Então o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as mãos geladas, como se tivesse vontade de maltratar, clama:

--Acho que é poeta! Dizem que é poeta!...

E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que foram sempre maltratadas, chegam-se rôtas, tisicas, razas como o chão:

--É o poeta!

Ha olhares vesgos, de odio, lume que gela e arde. A maldade resurge. Vão-se rir, vão espesinhar. Logo o côro de gargalhadas e de gritos esturge.

--Olhae p'ra elle... Sabeis como lhe chamam? chamam-lhe o Gabiru.

--É o enguiço,--diz a Mouca.

--Olha lá--avança outro--onde mettes tu essas pernas?

--Anh?--pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.

E fita os ladrões e as mulheres que formam roda. Esguio e transido de frio, dentro da sobrecasaca d'alpaca, pela primeira vez descobre, á luz do candieiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os seres de descalabro, as caras dos ladrões. Ha physionomias de pavor e em semi-circulo, chegam-se para elle, de boccas escancaradas, só boccas. Ninguem se ri da dor physica como os pobres, que só admiram a força.

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Elle espantado accorda:

--Anh?

Olha-os tonto, magro, esfaimado. Atravez da nevoa do sonho vê a realidade, e entre o circulo dos ladrões e das mulheres acha-se transido, timido e torto. Em redor os outros sentem que vão fazer mal. Vão-se rir do que é pobre e desageitado; vão-se rir do que não comprehendem--do sonho.

--Acho que é poeta!...

E os ladroes ululam. O riso é odio, o riso ignaro é odio da materia contra o espirito. Tem este nome--o escarneo. Ajuntam-se os ladrões e as mulheres para gargalharem d'aquelle sêr encolhido e tôrto.

Tem passado fome, tem vivido só com pão e scisma, preso a nuvens e de subito dá de cara com o escarneo. Ha quem se ria da dor, dos gritos, da tragedia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a desgraça? Tambem.

Os ladrões e as mulheres têm vontade de espesinhar porque odeiam e não comprehendem o sonho. Arrastem para um tablado as peores ruinas e as mais amargas catastrophes que a multidão gargalha. Ponham a Fome a ulular que a materia ri. Ri de tudo o que é triste, pobre e torto--e do que é bello como os astros.

Resuma raiva o escarneo. N'este riso ha sempre gritos. Toca a gargalhar da Desgraça e da Dor; transformem em farça toda a tragedia humana.

--Diz que estás apaixonado?

O Gabiru calla-se.

--Tu não falas?... Ah tu não falas, enguiço?... É d'esta que tu gostas?

--É de mim? pergunta a

tisica

e tosse, rindo-se. É de mim?--Está ao pé da cova e espesinha, ri com odio, pelo que soffreu na vida. Cessam n'um momento os risos. O que sentem todos é vontade de calcar, de o tornar razo como elles...

--É por esta? Não? Então tu imaginas que ha alguem que goste de ti, meu desengonçado? Tu!... Vocês vêem-no? Nem sei que parece! Ahi vae o poeta!...

Dá-lhe um encontrão, atira-o e, entre risos e chufas, vae de mão em mão como um trapo. Todos têm vontade de o amachucar, de o tornarem mais reles, mais triste, mais pobre e transido, por não lhe poderem tirar o pão da sua vida--o sonho.

--Ahi vae o poeta!...

Até que o largam. De pé no meio da sala, com a sobrecasaca rôta, amolgado, exclama, não comprehendendo:

--Mas eu que fiz? eu que fiz?....--Vae rir? vae chorar?....

As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e picaro. As boccas más clamam, cheias do gritos. O seu olhar afflicto procura a Mouca e vê-a rir-se tambem. Nos olhos reflecte-se-lhe o abysmo que descobre, a seccura dos outros, o sonho calcado e por terra, lagrimas e enternecido espanto.

--Foste tu! foste tu! Tu riste-te de mim!...--diz, apontando a Mouca.

Os ladroes gargalham e só ella se calla, a Mouca que tem rido sempre de tudo, da vida, da morte e até da propria desgraça.

--Ó Mouca! ó Mouca! olha o poeta!--gritam todos á uma.

--Que é? Deixem-me!...

E scisma.

Altas horas da noite... Saio, érro... A pensar em quê? Em coisas desligadas, sem nexo: na ambição, no odio, no exaspero. As ruas seguem monotonas, negras, enlameadas; d'um lado e d'outro as casas parecem construidas de tinta e de lama o ceo que se desfaz e gotteja. Que mundo este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... Não o distingo bem: é a sua sombra que eu vejo, comica e desengonçada e, ao passar pelo lampeão ia jurar que lhe notei cabellos brancos. Aquella sombra agita-se. Mexe os braços, com o chapeu na mão, fala sósinho, discute... Ás vezes tropeça, ergue-se e lá parte a prégar por entre a casaria e o ruido, debaixo da chuva miuda, lama negra que gotteja do céo.

Agora as ruellas apertam-se e já reparei, elle dobra, volta para traz, ha meia hora que gira no mesmo sitio, absorto. A chuva enlamea-lhe os cabellos e o seu braço gesticula n'um redemoinho.

Das alfurjas vae sahindo um ou outro noctivago, que o olha e passa indifferente, murmurando os seus exasperos ou as suas afflicções.

A cidade dil-a-hieis farta de tedio, afundando-se em lama. As nuvens baixas e disformes esfarrapam-se, collam-se aos predios. Os casarões alongam-se pesados e enormes, e onde a onde irrompe um golfão de luz. A sombra caminha, toma por ruellas funereas. Vae sósinha com o seu sonho ou a sua desgraça.

Trez horas n'uma torre. Ha um silencio cavo. Chove sempre a mesma chuva tenaz, com um ceo nublado e afflictivo. A cidade morta, sob o aguaceiro, espapaça-se na lama. Debaixo de cada um d'estes tectos escondem-se as mesmas miserias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga odios, crimes, escarneo. A sombra perde-se no escuro, torna, pára indecisa...

Que me importa o que os outros soffrem? Uma desgraça? O mundo está cheio de desgraçados. Um sonhador que se afunda? O mundo está farto de sonho. Este mesmo céo pesado, esfarrapado e tragico, tem abrigado sempre gritos e catastrophes. Que me importa o que elle soffre? Cada um por si, cada um com as suas lagrimas e os seus odios... O homem por vezes tropeça, cahe; depois lá se arrasta tropego.

Alvorece e, áquella primeira luz, a cidade parece desenterrada. A casaria resurge, immerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo odio, pelas ambições, pelos rancores...

Eil-o que se senta na terra, arrazado. Está enlameado, exhausto... Ao romper da manhã começa de novo a chover e elle chora.

Tanta lagrima! Um dia a desgraça, no outro a desgraça... Aquella sombra é a minha! aquelle homem sou eu!...

XV FALA

Falo

. De subito a minha vida surgiu-me como um d'esses dias d'inverno, pardos e monotonos, em que até o resquicio de sonho, que acaso coube em sorte ás pedras, se concentra adormecido. Seccou-me na bocca o riso que ia rir, e accudiram-me idéas em que nunca tinha reflectido... Alguem abala uma arvore até ás suas ultimas raizes. Arranca-a. O grito que a terra revolvida dá foi o meu grito.

Dêm-me a vida que devem viver os sêres e as coisas, a quem ninguem ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existencia: em quem a vida corre desordenada e esplendida. Quero emfim isto: sêr: não fingir, mas sêr, não viver da tua vida, mas da minha propria vida.

O momento em que tu deparas, a sós, com a tua alma, que até ahi não tinhas encontrado, toca a loucura--mas depois ouves falar dentro em ti tudo que estava para sempre adormecido...

O que é isto--o escarneo? D'onde vem isto ao mundo? Riem por ventura as arvores? E os montes e os rios tambem riem? O escarneo torce o coração. Riram-se de mim! riram-se de mim!

Surraram-me, seccaram-me. O que eu sei é aprendido, vão, construido de palavras que não são minhas. Nada conheço da vida.

O homem só é feliz quando é elle. Os outros é que o empurram para a desgraça. O homem precisa de se encontrar.

Entras na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e modelam-te. Para quê? Para te fazerem feliz--dizem. Deixem-me ser desgraçado á minha vontade!...

Qualquer arvore incha, cresce e por tal fórma se liga á terra, pelas suas raizes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra. Só na minha vida não ha raizes. Amigos não os tenho nem os quero, e tudo me parece pardo e inutil.

Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me commovi como deante da arvore mais humilde.

A desgraça que eu tenho encontrado não é a desgraça, nem isto é a felicidade: quero tragar a vida amarga, mysteriosa, profunda, toda a vida; quero o meu quinhão tal como o têm os miserrimos bichos, os montes ignorados e os pobres...

Ou vou morrer sem ter vivido.

Só em pequeno é que eu senti correr em mim a vida. Guardo ainda o cheiro á essencia dos pinheiros mansos, que eu vi ha muitos annos, o cheiro a bravio que o matto orvalhado tinha de manhã, e que me fazia scismar na vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e são; que dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras fôfas; que matam sem remorsos.

O nosso quintal! No alto ha um muro branco, uma cancella, uma mouta de pinheiros sempre verdes e em dialogo com o mar. Antes d'entrar, voltae-vos... Que immensa serenidade sahe d'esta paizagem!... Mar azul e céo azul confundem-se: tudo é poeira azul. A luz palpita. Um risco d'areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem habitações, cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitarios, fazendo pensar n'uma vida selvagem, livre, n'um paiz sem leis.

Eis o quintal: uma horta com arvores. A principio lembra um labyrintho, uma labareda verde. As couves são do tamanho d'arvores e a agua sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, imbebe á farta a terra negra e gorda. Bordam os canteiros renques d'alfazema, cravos, roseiras de flor singela, e ao fundo ha uma figueira grande, de folhas espalmadas e carnudas que dá uma sombra subterranea. Todo o quintal esfurancado pela agua resôa como um cortiço. Scintillações, rumores por toda a parte, por toda a parte a solidão.

Alli as arvores eram minhas amigas, as coisas conheciam-me e eu vivia d'uma vida convencida, forte, bravia...

Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei sabor á vida, até que acordei agora com este grito: Nunca vivi!...

Ponho-me a pensar: quantas vezes a felicidade e a desgraça não são verdadeiras, nem sentidas? Mascaras, só mascaras que afivelamos em determinadas occasiões, porque os auctores, os amigos, todo o trama complicado em que nos enredam, nos ensina:--Em tal situação tu serás feliz...

E nós realmente, por habito confessamos:--Sou feliz...

Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...

Fugi. Isolei-me. Não quiz amigos, quiz isto: ser só.

Para que me chamam o

Gabiru

? Mettido no ultimo andar do Predio, ponho-me a escutar tudo que dentro em mim fala. Esqueci a realidade, para conhecer a realidade. Deitei fóra o que aprendêra, combati commigo mesmo...

Agora vejo a desgraça! agora encontro a desgraça!...

XVI HISTORIA DO GEBO

Assim

a miseria foi crescendo nas mansardas destelhados do Predio, para onde a sorte os atirára n'esse inverno. Muitos dias lhes faltava o pão e o frio era tanto que não sahiam da enxerga. Viviam mais pobres que os pobres e não pediam esmola. Elle sahia logo de manhã escovado, limpo, com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza dizia lhe ainda a mulher:

--Homem, vê se te dão um emprego...

--Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te afflijas, mulher.

Um emprego! quem dá ahi pão ao Gebo, amachucado e ridiculo, envelhecido e tropego, e que já mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado, todos os dias se levantava para a humilhação e para a correria atraz d'uns miseros cobres. Era quasi esmola que elle pedia, a chorar--de cabellos brancos estacados.

Um dia andára, rondára, a tresuar d'afflicção. Todos o repelliam. Era em certa terça feira aziaga d'esse inverno enregelado e torvo. Nem andar podia de amargura e cansaço, e via chegar a noite, horas de voltar para o casebre, onde a mulher decerto o esperava anciosa:

--Então? então?.... Arranjaste?

Oh se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo vê lhe acudisse na sua miseria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas fechadas a sete chaves. Então, a chorar, aquelle velho ridiculo e gordo, estendeu a mão a um desconhecido que passava, dizendo palavras desconnexas. Tinham fome em casa... E pediu a um a outro, encolhido, escondido, bebendo as lagrimas, para que lh'as não vissem, n'uma afflicção de rachar pedras. Na mansarda as duas esperavam esse triste e amargurado pão, e elle nem dava pelas ruas por onde caminhava com passos incertos, de bebado. Supplicava n'um choro humilde, e n'essa noite--terça aziaga--se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe aos farrapos na lama.

--Então? arranjaste?

--Valha-me Deus! cá está, mulher! cá está!... Apezar dos ralhos, todos tres se queriam d'um profundo, d'um admiravel amor. A desgraça anniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto, para que o outro tivesse mais pão; se qualquer adoecia, os outros nem dormir podiam, e um dia a mulher emfim tombada, inutil, sem poder erguer-se, chamou Sofia para lhe dizer baixinho:

--Olha se cuidas de teu pae. Nunca o abandones. Foi sempre um santo.

Desde então ninguem mais lhe arrancou palavra. Com os olhos aguados, seguia-os pela casa, até que ficou morta. Acabou gasta de luctar um dia e outro com a desgraça sempre, depois d'uma vida de desespero. Ella era o arrimo, a energia, a força que os sustentava a ambos e impellia para a vida; era ella quem disputava--em vão!--braço a braço com o destino ferreo tentando amparal-os, e arrancando-lhe os ultimos trapos e restos de felicidade. Em dias de fome ella a primeira a fingir-se farta. Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se das arvores do seu quintal, que vira crescer, da agua da bica que correra sempre inexgotavel como as suas lagrimas. Morta deram pela falta que lhes fazia, como só se medem os troncos depois de tombados.

Vestida com o seu ultimo vestido, pelas mãos do Gebo e da filha, ficára branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que ficavam. O velho cahira exhausto, a chorar, a um canto, e no casebre toda a noite se ouviu aquelle ruido monotono, triste, infantil. Chorava e scismava:--Amanhã lá tenho de ir á procura de pão...--Sempre a mesma vida, sem tregoas, agora sós os dois e a Desgraça. Quando a mulher era viva, apezar de tranzidos, ainda cuidavam:--Para o anno, talvez para o anno a má sorte se canse de nos perseguir...--E assim se gastára a a ultima energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a esperança murchára. O velho ouvia risadas na noite profunda e boccas a clamarem:

--Ó Gebo! ó Gebo!...

--Anh? ahi vou! ahi vou!...

Levaram-n'a para a valla commum n'um caixão de pinho e elle ficou abraçado á filha, soluçando.

--Se Deus nos levasse!...

Tropego, velho, cansado, só sabia chorar, e a filha tinha de o levar pela mão como quem guia uma creança.

XVII O QUE É A VIDA?

O Gabiru não entende a existencia. A sua alma é como uma penha ferida, que se desfaz em agua. Acha-se de repente n'um pelago refervendo oiro. Descobre torrentes impetuosas de odio, torrentes d'escarneo, a Arvore, as estrellas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para onde? para onde corre tudo isto? A Morte ao lado d'uma arvore cheia de flor. Um cahos. Treva e sol, oiro em borbotões, e o homem indifferente... Ao dar de cara com a existencia, transido, ao vêr-se escarnecido entre a Vida, o Gabiru gritou. Pois passa o inverno e a tempestade, vem a primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus pés a terra move-se, n'um borborinho, toda ella viva; sobre a sua cabeça a abobada do céu arqueja, carregadinha d'estrellas--e o homem queda-se inconsciente? Ha o escarneo, pedras, constellações e o mar profundo e o homem continúa impassivel.

O que é isto? o que é a Vida? o que é este mysterio onde o homem entra como a salamandra no fogo? Pode o homem de repente dar em uma arvore cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezivel charco se espelha o sol e tumultua a materia em combinações infinitas--e o homem segue o seu trilho inconsciente!...

O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem realidade? O que pratico sobre a terra é indifferente ou vae repercutir-se algures? Isto é lodo ou fogo, apparencia ou temerosa realidade? E o escarneo e a agua a nascer fulgindo d'entre a terra, o amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um turbilhão d'almas e de pedras, d'arvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplendida caminha para um fim de belleza? Ideio n'uma cova, n'um sepulchro fechado, ou vivo da verdadeira existencia?

E os pobres? porque é que os pobres soffrem sem gritos, revolvidos como a terra por este arado ferreo--a dôr? Só se vem a este mundo para gritar?

O Gabirù via-os cheios de resignação seguirem o caminho da vida, cada um com sua cruz, feridos nas pedras asperrimas, sem pão, escarnecidos, tombando sem gritos? Porquê tudo isto? Para que soffrer? E toda a sua philosophia tombára por terra...

Reuniu os desgraçados para saber; foi perguntal-o ao Pitta, ao Sabio, ao Astronomo, aos outros, aos pobres, e n'essa noite veiu gente de todas as bandas da tristeza e do sonho, para lhe explicarem a Vida.

Partindo, para essa reunião, o Pitta e o Sabio falavam:

--Só sabem sonhar e depois...

--São homens extraordinarios, affiançou o Pythagoras.

--Veja você... Querem que se lhes explique, o quê? A Vida! Já o outro é assim.

--O

homem do pacho

?

--Sim, esse...--e a voz do Pitta transiu-se--Na verdade existem terras prodigiosas, chãos que só dão sonho. Ha sêres inteiramente edificados de nevoa, creaturas cuja alma subterranea se creou na humidade e no silencio, onde nem sequer tomba uma miserrima gotta de luz. A alma assim cresce á solta, branca de certo e com uma forma inexplicavel... São sapos de sonho.

--São sapos imbebidos de sonho. O que pode fazer com que uma creatura se arrede e fuja, não do homem, que não importa, mas d'isto, do convivio com isto,--a luz fulgindo sobre as coisas, a vida tumultuaria como um oceano? Não a vêr, não a ouvir, não a sentir correr continuamente, toda d'oiro e de verde, com mil formas, mil sons differentes... Você comprehende?

--Comprehendo.

--A mais mesquinha terra géra mysterio. É tão admiravel e sempre tão diversa, como isso a que você chama o infinito.

--O quê?

--O infinito. É ainda mais maravilhoso que o proprio maravilhoso, porque a realidade é sempre maior que a phantasia.

--Muito bem... Elle, porem, quer fugir. Eu bem lhe explico e vou já na trigessima licção... Esse homem nasceu com uma alma destinada a uma estatua e coube-lhe em sorte um corpo de mendigo. Eu só o vejo nas trevas...

--É horrivel?

--É. Por isso se fechou e se deitou a sonhar. Eu te conto! eu te conto!

O sabiou parou, olhando-o com admiração:

--Você, Pitta, afinal é um experimentador.

O Pitta sorriu, todo babado para a lua, e depois disse com modestia:

--Sim sou alguma coisa experimentador... Eu te conto. Fechou-se para não sentir a piedade dos outros. Na treva não se vêm olhares de piedade ou risos. Cada um pode esquecer a sua miseria, á forca de a esbrazear. O seu sonho é subterraneo, sabes?

--Sei. É como o das plantas cortadas, só raiz, e que ficam vivas debaixo da terra, com a vida sufficiente para sonharem em crescer e botar flor. No tumulo scismam no ar azul--e nunca deitam haste.

--Assim é o seu sonho. Depois de que vida desesperada se fechou para sempre? Talvez outrora perdido buscasse á noite alguem como elle, para se amarem... Rondou com os sapos, que só apparecem a noite, porque são grotescos...

--Mas os sapos encontram sapos com quem se põem a falar d'alguma estrella e elle...

--Elle foi feito para viver na solidão. E que fome! e que sede! Agua, se ha agua no universo, o que elle mal presente, quer vel-a jorrar inexgotavel entre as suas mãos, cheia de scintillações e murmurios; montes, se ha montes, quel-os subir e calcar sob os pés; e as arvores, e o ceo, e as mulheres com toda a sua immaterialidade de flor. O pequename vê lá!... Da terra não conhecia nada, quando eu surgi. Mal entreviu o universo para logo se emparedar. Só sabe o que é o sonho. Refugiou-se em soffreguidão no sonho--e sonha tudo. Calafetou-se e ainda hontem, imagina tu, como um fio d'oiro, entrasse por uma fresta, como um cabello de maio, elle teve um sobresalto e disso:--Eis talvez ao que chamam o amor.--Mas aquillo fel-o pensar na sua miseria e tentou em vão quebrar esse fiosinho tenue e resistente. Por fim chorou... Tenho-lhe explicado tudo, a natureza, a vida, mas elle só quer sonhar.

--É que o sonho é o pão dos desgraçados. Todas as creaturas que soffrem refugiam-se no sonho. Roubar-lho seria peor do que tirar-lhes a ultima codea. Essa gente vem da vida espesinhada e sonha; calcam-nos, toca a sonhar...

Meditaram. Depois o Pitta com tristeza affiançou:

--Amigo, só nós é que já não podemos sonhar...

--Nós não, nunca mais podemos sonhar!...

Eil-os reunidos aos desgraçados e todos se põem a falar ao mesmo tempo. Nenhum quer ser o que é, e cada um para seu lado accusa a vida. Ha-os que têm inveja dos poentes, das pedras, das aguas.

--Para quê ser homem?

--Ninguem sabe.

--Quem déra não sentir, andar como anda a essencia do tição ardido, perdida no redemoinho eterno, ora na nuvem, ora na mãe de agua ou no fundo do mar.

--O que é a Vida?

--Sei lá! Talvez uma aspiração, talvez um sonho. Olhae o universo, que amalgama! Tudo se mistura e se enleia... Na raiz do teu sêr que sentes deante do temeroso universo?

--Tudo é chimica,--disse o sabio profundo.

--Eis um sonho,--affiançou gravemente o Pitta.

Só os mais pobres, arredados a um canto não diziam palavra, porque tambem só os pobres na vida sabem soffrer.

--Mas então mais vale a morte.

--Pois mais vale.

Põe-se a discutir e os pobres, sem palavra, ouvem arredados. Ha feições consumidas, olhos fartos de chorar, cabeças simples e grandes de martyres e de santos. Só elles sentem o mysterio da vida; só elles gastos, mudos e contemplativos, mergulham na vida raizes profundas. Os outros dizem palavras, constroem com nuvens. Elles edeficam.

--A vida, concluiu o Astronomo, só vale passando-a a sonhar, embevecido n'uma obra.

--A sonhar não!

--Eu queria ser poeta...--torna um.

--Se eu fosse poeta quereria isto: não fazer um livro, mas crear uma nuvem... E encadernal-a. Oh o leitor, o leitor teria um pasmo. Imagine que tintas e que sonho!... Uma nuvem, pensem n'isto...--disse o Pitta.

Soára a hora da vida, em que, todas as illusões cahidas, se scisma ou na morte ou n'um crime: a theoria em que consumimos annos vividos de existencia, parece-nos, n'essa hora, negra e ardida; o livro revolvido de paixão e de gritos, mirrado; o sonho exhausto: cada um d'esses homens assassinaria para possuir o que haviam sempre desdenhado, o oiro e o poder. Só o Pitta, outr'ora tão materialista, protestava em nome do ideal.

Voltando-se para uma tremenda mulher, toda caiada de branco como um palhaço, a quem chamavam o

Corsario

, o Sabio começou:

--Só a chimica existe, creia, madama. No fundo de todas as acções e de todos os phenomenos, só encontramos a chimica... Na primavera e no odio. Vocês nunca viram lá fóra onde existem arvores?... Sim ha arvores e aguas... Ahi n'estes dias de chuva a terra é como um laboratorio immenso. Tudo se envolve em agua, arvores, matto, campos ensopados: nos montes corre um oceano: as nuvens liquifazem-se... Billiões de gottas. E de toda esta lama, das folhas seccas arrasto, da terra inerte se obram prodigios: reacções, transformações, a vida emfim. Vocês nunca viram uma grande nuvem verde pousada sobre os campos?... É herva nascendo... Pois é feita de chuva e terra... Das arvores--sabem?--cahem gottas mais grossas e o cheiro a terra molhada e a pinheiro enebria. Imbebem-se os troncos, o humus, as raizes, as pedras, para se desentranharem depois ao sol, n'uma vida furiosa.

--Pois a chimicasinha, disse o Pitta, tem sua importancia... Mas não é tudo: o infinito existe...

--Onde?

--Onde? Onde não sei, mas é lá que vive a alma d'aquella pobre senhora que eu outr'ora amei desesperadamente...

Os pobres do seu canto escutam em silencio, attentos aquellas creaturas nascidas entre pedras e que passam a vida agarradas ao sonho. A cidade, a desgraça e o proprio sonho, constróem os seus typos. Marcam-nos. Triste é chegar aos quarenta annos imbebido n'uma chimera, todo em brazido, e subito haver uma hora em que a verdade irrompe como um punhal. A multidão ri, escancara-se deante do teu poema, do lume que comtigo trouxeste, da tua vida inteira. Quer dizer: se a mulher te appareceu como um fructo, arredaste-a, para só pertenceres á tua obra: o riso desprezaval-o: annos, pendurado n'um telhado, viveste absorto: queimaste o que em ti havia de melhor: déste-lhe os nervos e o cerebro, e quando surgiste emfim, exhaurido, e prégaste á multidão--eil-o o poema!--tudo se riu em torno, e tu mesmo, o que é peor, viste que o brazido da tua obra era apenas terra inutil--pedras. N'essa hora amarga, a tua alma desmoronada e a tua physionomia adquiriram um endurecimento e uma tristeza inexprimiveis: dir-se-hia que ficaste com uma physionomia dilacerada. Começas a fugir de ti mesmo. Nenhum outro sonho te é possivel: só o alcool te dá ainda illusões, e as conversas desesperadas, monologos, gritos, como os teus eguaes, todos os que tombaram do sonho para a terra, agarrados a farrapos d'esse passado radioso, que ainda os illumina, como a mendigos que envolvessem a sua nudez em pedaços arrancados ao poente.

Para o

Corsario

chegára a velhice: desdenhavam-n'a e ella mergulhava no odio; ao Sabio cahira a sua theoria; o Pitta empobrecera; só o Astronomo vivia alheado. Se haviam pensado no suicidio?... Quantas vezes todos juntos tinham discutido a morte!...

--A nossa desgraça, rompeu o Pitta, é a falta de dinheiro. Com oiro triumphariamos ainda.

--Com oiro! berrou o

Corsario

.

--É que, respeitavel madama, hoje elle é o unico poder, a grande força. Permitta-me que lhe affiance: é Deus. O oiro é tudo!

Cada um ruminava as suas idêas sem se importar com o Gabiru. Do saguão vinha um rumor de papeis velhos: folhas d'arvore, coisas apodrecidas á sombra, queriam entrar na alluvião eterna.

--Sem oiro mais vale a gente enforcar-se.

--Enforcado não. Lembra um palhaço. É a morte a deitar a lingua de fóra aos vivos, um trapo pendurado... É afflictivo e dá vontade de rir.

--Já tenho pensado n'isso. Eu, por mim, escolheria a agua.

--Um horror, a agua!... O corpo arrolado, a lama das marés...

--Perdão, no mar largo...

--Uma bala, uma bala seria mais prompto. É até elegante. Repare que é a morte dos namorados.

--E o veneno?

--Sempre escolhido pelos principes aborrecidos da existencia, pelos banqueiros fallidos, por todos os que se querem ir embora sem rumor, o veneno a mim atterra-me.

Ficavam um pedaço a scismar. O que os prendia afinal á vida? em que criam? N'esse fim da tarde, chovia e aquillo era lugubre: como que as coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo lhes falhára e aos quarenta annos já se não constróem nuvens. Só o Astronomo todo se consummia em sonho: os outros, sentindo-o ainda feliz, puxavam-n'o para o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.

--Sonhar! sonhar!--prégava.

--Sonhar, deixe-se d'isso!... Na vida só o oiro vale.

--Que querem se eu nasci para isto? Eu só vivo na solidão, e a vida para mim é sonhar. Como hei-de eu, que vivo lá em cima, pobre, com este casaco que de gasto nem sequer me aquece, comprehender a existencia?.... D'um lado estou eu, miserrimo, do outro um turbilhão d'astros... Quantas riquezas! Astros todos d'oiro, astros de crime, plagas d'uma areia fina e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o céu seja uma arvore sempre na primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e eu pobre, transido de frio, comprehendo e vejo!... Depois, se desço cá p'ra baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no céu.

--Mas a natureza...--disse o Pythagoras.

--Eu sei, eu vejo do meu quarto: havendo sol é bello: é tudo d'oiro e verde. Sei que ha arvores, o mar, rios, mas nunca ninguem os viu ao pé...

--Perdão! mas já muita gente... O amigo confunde!

--Na minha pobre cabeça tudo se confunde.

--Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim já estou farto de nuvens!

--E que querem que faça, se eu não sei mais nada? Nem me sei rir, nem sei falar...

Falavam do suicidio, riam do Astronomo--um sonhador!--e no fundo todos temiam a morte e quereriam ser como elle. Morrer sem ter vivido!... Era desesperador. O que haviam tentado realisar, esse esforço para materializarem a propria alma, que outra coisa não é crear, déra-lhes como resultado um bloco gelido e informe, talvez vivo mas em bloco. Porquê? Porque a sua alma era assim, sem harmonia. Por isso a morte os aterrava, a morte que era o

nada

para todos, até para o Pitta então idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existencia não era de certo como elles a haviam comprehendido: alguma coisa lhes falhára. Tinham rido de tudo. Só a Morte ainda restava intacta, sem dedadas na sua roupagem negra, com todo o seu mysterio e toda a sua belleza. Ella põe, até no homem que na terra representa a omnipotencia, o banqueiro, arrepios de allucinação e terror, quando acaso a Havas diz á Terra que um Rotschild acabou de uma fórma identica á d'um pobre diabo ou d'um poeta, ou d'um santo. Ella iguala, porque emfim é indifferente ir apodrecer n'um palacio de marmore ou na valla commum: ella mistura pobres com ricos, heroes e scepticos, egoistas e santos, e d'esse oceano negro não sahem nem gritos, nem bençãos, nem palavras. É o formidavel, o mysterioso silencio. Nem o sol, nem a morte, se podem olhar fixamente, diz La Rochefoucauld.

Morrer, dormir, dormir! Sonhar talvez!...--Ella impõe-se ao homem, negra e ferrea: quasi sempre, porem, sob o seu manto tem claridades de relampago. Nada lhe escapa, e, se para uns é madrastra, para outros é noiva. Ora avança como uma furia, ora coberta de flores como abril.

As creaturas grotescas, os que nascem para soffrer, escravos, párias, esperam-na como a redempção. De tanta lagrima, de tanta aspiração, alguma cousa se deve ter creado no infinito...

Os humildes, que vêm ao mundo para gritar, aquelles para quem a vida é aziaga e que vão de rastros até essa praia, onde o mar desconhecido rola as suas ondas silenciosas, vêm-no dourado, cheio de claridade, n'uma madrugada eterna. Apenas cahidos, exangues, sem fibra que não tenha sido torcida e despedaçada, sem bocca para gritar--elles sabem-no--vão erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma viagem de maravilhoso sonho. Para os scepticos esse mar é negro, tumultuario, de horror, como aquelle oceano nunca d'antes navegado, onde só monstros cresciam.

Para elles a morte era o fim da vida, porque nenhum tinha vivido da verdadeira existencia. Eil-a a cova, a immobilidade, o Nada.

A differença é simples: ella é termo de miserias, ou o termo do goso.

Ha pobres e tristes que passam a vida a esperal-a, a sonhal-a. Os humilhados, os offendidos, amam-n'a porque ella eguala, os escravos porque ella liberta, e até os incompletos, aquelles a quem não é dado nem sonhar nem amar, porque n'ella deve existir o Sonho e o Amor. Cada um encontra n'esse pelago o que lhe falta na vida...

--Este fim para que nós caminhamos, com terror e angustia quasi sempre, é o termo da vida? é o inicio da vida?--perguntava o Pitta.

--As philosophias e as religiões respondem. Cada uma assegura a fala. O mais certo, porem, é seguir o conselho de Platão: escolher a melhor opinião e embarcar n'ella como n'uma jangada, para atravessar a existencia,--dizia o Pythagoras.

Só o Astronomo lhes explicava:

--A morte é a vida,--cadinho onde tudo se refaz e renova. Da morte do que é materia resultam bellas fórmas, arvores, nuvens, côres; da transformação do que é espirito alguma cousa de radioso deverá surgir...

Ha muito que eu conheço duas figuras, que atravez das edades, vem prégando ao homem as suas doutrinas: ri uma, a outra chora.

Em certas horas de tristeza, em certas horas de crepusculo, as palavras d'uma, como murmuradas, empoeiram de sonho a alma; a outra préga, a outra fala entre desesperos e ruinas. Vós, meus amigos, conheceil-as--a figura do Sceptico e a figura do Idealista. Representam os dois grandes typos da humanidade. Ás vezes confundem-se, misturam-se: cabeças de idealistas e corações de pedra. Acontece tambem que, quasi sempre, uma segue a outra, para derrubar ou para construir. Têm assim vindo pelas philosophias, pelos systemas, ora nas palavras de Platão, ora nas palavras de Epicuro. Creio bem que, quando o immorredoiro espirito precisa de falar aos homens, cria uma bocca--Jesus; quando a materia quer prégar--apparece Falstaff.

Eu tenho-as ouvido dentro da minha propria alma, tenho assistido aos seus combates dentro do meu coração. Uma affirma, a outra nega. São duas grandes vozes, que nasceram com o homem.

Uma crê apenas na realidade, no universo tangivel, a outra põe mais longe os seus olhos--no Sonho. O espectaculo doloroso da miseria humana, desola-a, mas não a faz descrer:--Lá, lá, tudo se realiza e os proprios gritos são necessarios á Harmonia.

Uma é feita de sacrificio. Arde. Morre e renasce, aponta a terra como lôdo, o infinito como fogo; a outra affirma-te que

depois

só o nada existe.

E assim é: o nada para que os que crêem no nada, a belleza eterna para os que para ella vivem. Nem era admissivel que milhares d'espiritos tivessem soffrido, cheios de abnegação, sem a terem creado, á immortalidade. Se ella não existia formou-se, desde que os desgraçados e os simples o quizeram. Do nada nada se cria, e da immortalidade tem sahido forças e palavras, que espantaram homens e abalaram mundos. Desde que o primeiro humilhado viveu para ella e n'ella pôz a justiça eterna e a sua fé--o infinito creou a.

Elles, porém, ouviam com temor estas palavras. Esse problema da morte, que vem desde os tempos perdidos, como um largo rio, trazendo á tona idéas, explicações, theorias, apavorava-os. As suas aguas acarretavam idolos, religiões, mantos purpuras de homens, que se debatiam, a gesticular, querendo comprehender, vêr. Ao pé d'essa figura negra e indecifravel, como no sôco d'uma estatua, havia sangue amalgamado com theorias, brazidos, lama, desesperos, que não conseguiam sequer pôr uma ruga na sua impenetrabilidade bronzea. Ella enchia o céu, tragica e muda, e da fila de homens, que lentamente, inexoravelmente, para lá caminhava, n'uma caravana infinita, se algum erguia os olhos, sceptico, desesperado ou resignado, sentia-se sempre desvairado de pavor...

--Então a quem morre...--perguntou alguem.

--Acabou-se-lhe o sonho.

--Quem sabe? O sonho consome-os. Ardem.

--Sempre sonhar. E vem a morte e leva-os!... Que vale tudo isto? Ah o oiro, sim, o oiro filhos, o oiro respeitavel Corsario, o oiro Gabiru!...

--O dinheiro!...--exclamou o Corsario e quedou-se a meditar.

--Podesse eu ir á terra arrancar-lhe as entranhas d'oiro até a fazer gritar!--exclamou o Pitta.--O oiro é a vida. Tivesse-o eu! Gargalharia do alto d'uma montanha d'oiro da humanidade e dos sonhos que ella cria. Botam as arvores flor e as creaturas emoção... Tudo isso seria meu. Poderia destruir, conquistar, mandar. Eu, Pitta da Conceição, seria talvez nomeado Imperador do Mundo. Ó filhos lembrae-vos!... O mal a imperar, o mal a rir do alto d'assombrosas montanhas d'oiro da dor, do heroismo, da piedade! E o pequename a subir a montanha. Porque notem bem: tinha o pequename todo, estava-se todo a crear para mim!...

E como o Pythagoras fosse a sahir:

--Espera. Para onde é a ida, philosopho?

--Prégo a revolução. Ando a prégal a...

E curvou-se sobre o ouvido do Pitta, que exclamou sobresaltado:

--Ao pequename! Rica idêa! E philosophica! Um grande elemento. Pois é atiçar-lhe!...

E sahiram ambos.

Então o Gabiru ficou sósinho com os pobres. Elles não sabiam explicar a vida: sentiam-n'a e soffriam. De pé explicou-lhes:

--Foi assim... Disseram-me um dia:--Eis aqui um thesouro, cava! E eu puz-me a cavar. D'um lado e d'outro accumulou-se a terra. As minhas mãos eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era profunda como um poço. O céu esquecera-o, as arvores esquecera-as. Um dia topei pedras, que me pareciam luzir como oiro puro e embebido a contemplal-as esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Subito, cá fóra, ouvi rir. Trepei pela terra acima e achei-me com pedras negras nas mãos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca viram o sol... E tudo era bello! Tudo o que esquecera, tudo o que desprezara!... Attonito, com as pedras inuteis na mão, olhei... E assim desperdiçára a vida á procura d'um thesouro que tinha alli á mão!...

Ninguem lhe respondeu. Só o Corsario, curvando-se-lhe sobre o ouvido:

--Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...

--Que é?

--É pena. A vida não se torna a viver. Perdeste-a. Esqueceste-te d'ella a sonhar... A sonhar!... Trocaste, o sol, o odio, trocaste a realidade por nuvens.

E, ai! a vida não se torna a viver! A vida para ti foi como a agua que passa limpida pelas mãos d'uma d'essas estatuas que tu vês nas fontes. Nunca cessa, egual, fresca, cheia de scintillações, e nunca tambem estanca a seccura d'essas figuras de pedra... Ai, não se torna a ter na bocca o sabor a sangue e a mocidade, nem agora as arvores são as mesmas arvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moça... Perdeste-a! perdeste-a!...

--E tu?

--Eu?.... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o que elles queriam era o marmore do meu corpo e a minha bocca moça e viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o collo, secco e inutil, e então arredaram me. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como póde metter-se uma nuvem dentro d'uma pedra resequida? Desci á humilhação, a procurar o amor que se paga. Isto! isto!... Só então entendi que os homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fóra depois de servidas... Olha para mim... Envelheci. Ha muito tempo que móro com o odio. Deante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais secca. Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos desfructam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inutil, o meu odio murchará commigo, sem poder florir. Inutil, velha, cahida, quem toma ahi a serio o meu odio?.... O que eu tenho sonhado!... O que eu daria para ter uma filha!... Tivesse eu fome que o pão iria arrancal-o ás mãos dos pobres; seccos os meus peitos o leite iria roubal-o. Ella seria o meu odio vivo. E bella, para que me vingasse. Era forçoso que fosse creada como um lyrio de sonho e que ao mesmo tempo tivesse uma alma de pedra, peor que a minha, mais má que a minha. Dir-lhe-hia tudo, ensinar-lhe-hia tudo, tudo o que sei, tudo o que do mundo aprendi. Explicar-lhe-ia o egoismo, a vaidade e que no fundo de cada sêr só existe seccura e interesse. As mulheres se são honestas é por vaidade, e quantas ao pé do tumulo choram uma virgindade inutil!... Ella seria minha filha! A semente germinaria, cahida n'um coração mais duro que as pedras. Por dentro d'um corpo lacteo, haveria uma velha mais offendida, mais rancorosa que eu, a prégar-lhe o odio. Odiar-me-ia a mim propria, sua mãe--e havia de sustentar se de lagrimas e gritos!...

Sahiu. Só os desgraçados ficaram encostados uns aos outros--e a um canto os pobres, gastos, com physionomias de santos e olhos murchos de tantas lagrimas choradas. Não sabiam queixar-se. Alguns puzeram-se entontecidos a narrar, n'uma voz amarga--a voz da desgraça. Erguiam os braços e de cansados e sinistros, acredital-os-hieis foragidos do hospital e da guerra.

Um disse:

--Eu gosto de vêr soffrer! eu quero vêr soffrer!... Como elle anda a espreitar illusões a vêr se as calca! Onde nascem flores logo as esmigalha, nada lhe sabe, nem o sol ás levadas. Calca tudo e ri, tudo o que nasce, mesmo a ponta verde da herva que rompe d'entre as lages.

Um velho gasto e de botas rotas queixa-se. Quer viver e exclama:

--Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra, minam e minam e scismam sempre na claridade e nunca chegam a vêr o sol.

--Ha desgraças e dôres que fazem rir,--diz alguem.

Outro ri, ri sempre d'afflicções, de catastrophes. Procura dores para se rir e doido eil-o a rir e a clamar:

--Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra está farta de soffrer. Ris-te, hein, ou sou eu que me rio?

--Queremos ter saude e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude rir,--préga uma bocca na escuridão.

O Gabiru sente-se agarrado pelo

homem do pacho

.

O olhar luz-lhe odiento e a sua voz, atravez do pacho, parece provir d'um tumulo.

--Leve-nos! mostre-nos o oiro, as arvores, os montes todos d'oiro...

--É impossivel...

--Oh não saber nunca o que é amar, viver como os outros que se pódem rir--e ser só, ser differente!... Eu vi! eu vi!... O Pitta mostrou-me e depois, sabes? tive odio. Odio... Não eu não sou amigo do sol nem das arvores. Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com os outros se riem, os seus risos--e eu sem bocca para rir!... Esta ferida come-me a vida--e triste vida d'afflicção a minha! Fui sempre doente. Até em pequeno senti a piedade agazalhar-me. Porque é que Deus faz nascer creaturas com vida e dá a outras um quinhão de negrura? Tenho frio e fome de sol, de saude, de forças, e vivo gelado, sempre gelado, e sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja até da terra onde nascem pedras e cardos, porque ella ao menos não soffre. Dêem-me o quinhão de risos que me pertence!... Se eu te escancarasse a minha alma, tu a verias transida, negra, mirrada... Ouvi dizer--é certo?--que até as arvores noivam... Eu apenas sei que existe a inveja, a dôr e a enfermaria, onde o proprio sol requentado sabe a hospital. E nunca ninguem quiz saber de mim, nunca! Quem me dera beijar! ter bocca para beijar! Dize-me: ha porventura pedras nojentas?

Arrancou o pacho e uma physionomia de tumulo, onde os dentes surdiam pela carne dilacerada, rompeu dentre os trapos que a cobriam.

--Olha! olha p'ra mim!...

Sahiram--e atraz de todos, não tendo dito palavra, caminharam os pobres, curvos, descalços, resignados. Havia-os gastos pela dor; havia-os tirando o pão da bocca, para o repartirem; havia-os com uma vida de lagrimas. Sahiram uns atraz dos outros, sem queixas nem gritos.

Afinal todos se tinham ido; só na escuridão ficára uma velha prostituta. Era quasi uma coisa--a podridão. Não sabia falar, nem sabia queixar-se. Tinha apparecido para dizer o quê? Que accusação tremenda contra a vida?

Chegou-se a ella o Gabiru e poz-se a olhal-a. Depois perguntou-lhe:

--Tu que tens? tu que queres? Vae-te!...

Ella não respondeu, e elle esquecido ficou muito tempo a scismar. O que era a Vida afinal?... Pouco e pouco um clarão se fazia na sua alma... O Gabiru absorto sonhou, até que a seu lado uma voz rouca lhe disse:

--Mas então p'ra quê? p'ra que criam a gente. Eu tenho amargado a vida e nem posso gritar... E tu?

--Eu tambem... Mas olha: eu gosto de soffrer... Escuta: soffrer é afinal reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e vel-o calcado!...

--Eu cá fui sempre assim, andei sempre assim... Quem se importa? Não me lembro de ter sido feliz... Não me lembro... Sempre se riram de mim e toda a vida me bateram.

--Tu sim, pobre de ti... E amaste?

--Lembro-me... muito longe... amei. Mas o que elles se riram! Depois de servida batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa d'uma

desinfeliz

? Inda se a gente encontra o pão de cada dia... Agora sempre anda um frio!...

--Tu, sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal. E batiam-te?

--Punham-me o corpo negro... Mas era para se rirem, não fazia mal... E a ti?

--Puzeram-me a alma negra.

--E tu?

--Eu soffria.

--Pois se a gente tem pão e uma enxerga ainda ao menos é feliz.

Encostados um ao outro, para se aquecerem, scismavam enregelados, quasi cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sitio onde elles encolhidos sonhavam, pareciam arder faúlas, restos d'um lar a apagar-se.

--Ouve, não chores... Tens frio?

--Estou gelada de frio.

--Olha: soffrer não importa, soffrer na vida que importa? Tu imaginas que o que se soffre se perde? As lagrimas e as dores vão crear, para depois, alguma coisa d'extraordinario. Do que se espesinha vem sempre a nascer. E se tu amaste e se riram de ti alguma coisa brotou, que se não extingue e germina com as tuas lagrimas e os teus gritos. Amaste?

--Amei. Muito longe... Mas tudo perdi! tudo perdi!... Não fales! oh não fales! não me lembres!...

--Se tu amaste e soffreste nada é perdido. As tuas mãos estão geladas, mas as minhas ardem.

--Eu já não sinto o frio... Só me sinto de rastros, pequenina e perdida... Oh doe-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? De que serve a gente lembrar-se? Para chorar? É melhor dormir, dormir sempre...

--Soffre. Nada é perdido. Olha: vae-se creando com as nossas afflicções e os nossos gritos, uma outra terra!...

--Aonde?

--Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando á ultima dor, aos ultimos gritos, se esbrazear...

--Conta! conta-me!

--Escuta: quando se traz um sonho... Sabes um sonho?

--Um sonho?!

--Um sonho é como se tivessemos na alma um mundo maior que este. Todo em fogo... Quando se traz um sonho e se soffre mais elle cresce. Tanto mais puida é a materia, mais elle arde!... Isto não se perde... Constroe-se das nossas lagrimas... É um palacio. As pedras de que é feito são os gritos... Sabes?

--Assim quando eu amei e se riram, maior se tornou o meu amor... Consummiu-me.

--Assim...

--Um sonho!...

--Tudo se illumina dentro em nós. E a cada humilhação elle se torna maior. Depois que soffri, é que comecei a vêr o que nunca tinha presentido. Tudo. Sabes as arvores, as nuvens, as estrellas? Vejo-as agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca é noite. E tanto mais soffro, mais se ateia o meu sonho.

Ambos se perdiam, unidos, gelados, na escuridão. Por fim só a voz d'elle corria: ella escutava-o suffocada, unida contra a terra.

XVIII HISTORIA DO GEBO

Para

nada me importa a historia banal que esse homem gasto conta, abalado pela dor, a suar de afflicção... Morta a mulher, o lar ficou gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de tumulo que transe os corações. A filha cahira a um canto sem palavra, e o Gebo poz-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas não, era preciso tornar á mesma vida de desespero, pizar sempre o mesmo chão, atraz de esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome, já ninguem o esperava n'uma ancia como outrora:

--E então? então? Arranjaste?....

Sofia, essa pobre rapariga que da vida só conhecia afflicções, não tinha para o Gebo nem más palavras, nem queixas. Amava-o. Aquelle velho todo branco, gordo e chorão, era o seu pae. Escondia as lagrimas para não o affligir.

--Não se consumma! não se consumma!

--Que ha-de ser de ti se eu te falto, filha?

--Sempre havemos de viver. Ha gente mais pobre.

--Acho que não! acho que não!...

Depois da morte da mãe, ella o cuidava como quem cuida um filho. E o Gebo d'olhos postos em Sofia, embevecido, só sabia dizer, n'uma voz molhada de lagrimas:

--A minha filha! a minha pobre filha!...

Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga, elle era como uma bola de gordura, d'onde corria um ruido de choro resignado e triste. Se sahia chegava se a todos, pedindo pão, com os cabellos em pé e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perdera a timidez. Arrastava-se pelos amigos, que o achavam pittoresco, sempre a carpir desgraças, afflicto, cambado, exhausto, e cada vez mais pedinchão e mais gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha--o

Gebo

, e perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:

--Hein, dize lá, ó Gebo, então tu não tens uma filha?

E elle logo com um riso no olhar:

--Tenho, sim, uma filha, a minha filha...

--E que tal, hein, boas pernas, dize, boas pernas?

Humilde, cossado, á espera da esmola, sem forças para protestar, respondia com um sorriso e lagrimas á mistura:

--Boas pernas... boas pernas...

Vida negra, de cão, a que nem sequer resistir podia. Lá ia levado, enlameado e de rastros, a chorar. Illusões? já as não tinha, se illusões não servem senão para se soffrer. Quando viva, a mulher, era quem ainda arcava com a desgraça. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar, com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os ultimos farrapos, agazalha com a propria alma. Um sonho cahe por terra? Estreia-se outro sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ella, secca e nervosa, prégava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e, juntos, todos tres illudidos ficavam n'aquella negrura e desespero, todos tres a scismar.

Mas agora nem isso... Enregelados não apellavam para a illusão. Elle chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que dissessem. Oh seria tão bom morrer, descançar, dormir por uma vez sem mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridiculo, aquelle homem picaro, apegava-se como um desesperado á vida. Ainda por cima o Gebo era cobarde: tinha um grande medo á morte.

Assim comiam o pão negro, ajuntando-lhe as lagrimas que choravam. Sob este solo que calcamos atraz, das nossas ambições, anda um humilde rio de lagrimas, um rio subterraneo de dor, de gritos, que se alastra e corre sem ruido...

Já não sahia a pedir todas as madrugadas. Agora cansava, mal podia andar; embrulhado e tiritando de frio, não se erguia da enxerga. Quereis crêr que estava mais gordo e mais picaro?

E como elle dormia! com fome, afflicto, tombava n'um somno de sepulchro, espapaçado, os cabellos todos brancos e a physionomia cansada e amargurada. Nunca se queixava; apenas repetia a miudo:

--Tenho pena de ter sido honrado...

Porque é que a desgraça se não cansava de o perseguir? Este aguilhão cravado no peito não lhe deixava um minuto de descanço: a sorte da filha. Nada lhe custava mais do que deixal-a no mundo ao desamparo.

--Tenho pena de ter sido honrado.

Para que serve ser bom? Os máos que conhecera, estavam ricos e escarneciam-no, os bons espesinhados. Creaturas a quem o Gebo salvára acolhiam-no com risos e só fizera ingratos.

O Gebo não entendia a vida.

--Ó Gebo! ó Gebo!--gritavam-lhe.

E elle meio tonto:

--Anh? anh?.... Se eu não tivesse sido honrado...

Ella era uma creaturinha triste, resignada e pallida. Falava pouco. Scismava. Da vida tudo ignorava, a não ser a historia dos seus: o lar apagado, a afflicção da mãe, o choro do pae ao voltar para casa sem pão. A velha dizia ás vezes más palavras ao Gebo, quando lhe perguntava anciosa:

--Arranjaste?

E elle a bufar, exclamava succumbido:

--Valha-me Deus, mulher!

N'esses dias aziagos ella dizia improperios á vida e ao Gebo, que nem sequer tinha forças para as sustentar a ambas.

--Olha os outros! olha os outros!

E elle atrapalhado:

--Mas que hei-de eu fazer, mulher?

--Vae roubal-o! vae roubal-o!...

Aquillo terminava por lagrimas e por o velho perguntar, perdido de fome, todo o dia na negra faina:

--E agora como ha-de ser?

A mãe tinha escondidos alguns vintens tirados á bocca e em torno do pão, esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miseria. Ella dizia que não havia honra nem Deus--tudo no mundo era questão de dinheiro--oiro! Mas quantas vezes a velha repartia com os pobres o pão que lhes fazia falta!... O que a tornava amarga era a lucta exasperada com a má sorte.

De fórma que Sofia nada sabia da vida, e assim fôra crescendo sem queixas, resignada e pura. A Deus resava todas as noites pela vida do velho, pela saude d'aquelle sêr offegante e grotesco, que passava horas e horas a chorar.

--...O pão nosso de cada dia nos dae hoje...

--Filha que ha-de ser de ti!

Engordára, não se podia mexer. Faltavam-lhe de todo as forças. Extendia a mão na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e expulsavam-n'o das lojas. A idêa da filha abandonada e com fome, allucinava-o:

--Eu já não posso mais! eu já não posso mais!...

Os dias passaram-se desesperados, identicos, ferozes. Todos os dias se pareciam, como a desgraça se assemelha á desgraça. Até que cahiu por terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquelle ruido de lagrimas baixinho e monotono; toda a noite infinita o Gebo chorou prostrado. Quiz tentar, quiz ainda erguer-se, mas a desgraça havia-o emfim aniquilado: engordára-o, exhaurira-o e pregára-o para sempre a chorar n'um colxão de trapos.

Então Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem tregoas, d'olhos postos n'ella; que outro dia e outra noite, sem gritos nem phrases, o viu todo branco e com fome, d'olhos aguados, no mesmo choro d'afflicção--alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com pão para o Gebo, que só lagrimejava prostrado, gordo e ridiculo, como uma bola de sebo--e de cabellos brancos estacados.

Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz dos desgraçados, dos pobres, dos que não têm pão, nem felicidade, nem arrimo na terra!...

XIX O GABIRU TRESLÊ

Noite

de luar. A Arvore mergulha os braços n'um oceano de luar translucido, biliões de atomos luminosos errando. É um collosso de verdura e de bondade, uma construcção cheia de frescura e rumores. Cruzam-se as pernadas solidas, torcidas, esgalhadas, d'onde partem ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida mysteriosa e grande. E o luar é tanto que faz afflicção. Sente-se a satisfação gigantea da Arvore, por mergulhar as raizes no seio da terra e por ser forte, simples e bondosa. Por pouco ouvil-a hieis falar... Escutae-a na noite callada, branca e cheia de tanto luar que faz afflicção. Por entre os raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas sobrepostas. No chão a sombra faz mancha e os fios de luar dão-lhe vida. Dirieis que alli anda folego vivo. Fóra da Sombra é tanto o luar que só se vê uma brancura.

O Gabiru scisma. Os olhos abertos, todo elle dolorido, deita-se ainda a scismar. Vivera sempre tão transido e pobre, tão sosinho--que lhe não fugisse o seu sonho--e nada lhe ficara entre as mãos. Só escarneo! só escarneo!...

Bate o luar em cheio n'aquella figura exotica e transforma-a. Não é ridiculo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mãos estendidas, e cheio de luar sorri extasiado...

Hein, que queres tu? Nasce uma creatura para a desgraça. Em pequena anda rôta, quasi nusinha, e o pão da vida dão-lh'o os ladrões e soldados. Maltratam-n'a, irmã da terra, raza como a terra. Nada sabe do sonho--e que culpa tem ella de não sonhar? Violam-n'a, tornam-n'a egual das pedras, secca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as aspirações, cospem-lhe em todos os sonhos. Só soffre. Vêm uns, vêm outros para a fazerem gritar, e ella um dia põe se a rir e ri-se até da desgraça.

Julgarieis que na sombra, sob a arvore, o luar constroe e tece, á medida que o Gabiru vae tecendo. É não sei o quê de incerto que mexe--fio de luar ou vento que passa e vae transir a sombra mysteriosa. O Gabiru olha extasiado.

Da terra dilacerada surgem fórmas de prodigio. Quanto mais revolvida a materia, mais bella é a eclosão do sonho. Da vida da Mouca que começou a soffrer em pequenina, logo a principio se creou algo de radioso. Ella ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare senão prostitutas e ladrões. Nasceu para gritar--e ri. Mas nada se perde na vida. Ella que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro, conhecerá o extraordinario sonho. D'aquella materia espesinhada vae nascendo uma maravilhosa forma de luar.

O philosopho sorri extasiado para a Sombra. Eil-a! Uma physionomia pallida, onde os olhos cegos se perdem, tenue, construida de luar ou construida de sonho. Dirieis que essa figura esguia, sustentada a luar, de negros cabellos de sombra, desapparece no escuro, torna a surgir nos fios de luar...

--Fui eu que te criei, és minha!--diz elle absorto, erguendo-se. Caminhas para mim alheada, não me querendo olhar e não me podendo fugir, pallida e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te hei-de dizer, ajoelhado, que singulares monologos feitos de nada e enormes, arrancados á via lactea, com palavras que nunca aprendi, nem soube dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me déra ser a noite, a arvore, o luar, que me enche d'afflicção! Juro-o, as arvores falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas tantas estrellas pelo céu, meu amor!... Os sapos, confundidos deante da gigantea natura, cantam n'esses pios que, ao longe, na solidão, magoam como ais d'alguem a quem aconteceu desgraça...

Olha: eu sento-me distante de ti, para que não fujas desfeita em luar. Gostava tanto de sentir a tua mão pousada na minha cabeça, tanto! Olha!...

Sob a Arvore--realidade ou illusão?--uma figura se constroe de luar, na sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar, amontoam-se nevoas e alguma coisa treme, prestes a fugir--mas viva! viva!... Dirieis que é só um sorriso, um olhar muito triste... O Gabirú corre e tudo se esvae... Só a Sombra resta e um ruido de gotas de luar tombando sobre folhas.

Elle sorri e diz:

--Eis como se cria uma alma!

Todas as noites, muito tarde, volta para ao pé da Arvore.

--Uma é terra, outra é luar,--murmura. Quanto mais a Mouca soffre, mais esta se cria. Oh, não me fujas! Vens com a noite, melancholica e pallida como as mortas arrancadas ao sepulchro. Criei-te de lagrimas. Os teus cabellos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escuridão os teus olhos, mas sinto a irradiação da tua alma!...

O Gabiru, na noite branca e callada, sente-a approximar-se e olhal-o muito tempo.

--Minha alma!

Nem um murmurio. Noite a noite era mais o luar. Absorvia tudo. A sua claridade mysteriosa diluia a terra e as coisas. A Arvore, esmaecida, toda se desfazia em pó claro. E noite a noite tambem a Sombra opaca se tornava mais espessa e funda. A certas horas o silencio estremecia, n'um ai baixinho e triste. Era a creação! A alma da Sombra acordava. Eil-a! eil-a!...

--Minha vida!

Via-a perfeitamente. O oval do rosto pallido, os negros cabellos compridos, inteiramente feita de sonho e de lagrimas. Só os olhos se perdiam em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado--por a outra rir.

--Não fujas!

Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo imbebido em luar, era como um grande sonho de belleza. Logo a imagem se esvaiu e na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas vagas e dispersas, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruido ainda--pelo chão corria um fio de agua ou um fio de choro...

--Meu amor! meu amor!

XX A MOUCA

Noite

de chuva, d'esta chuva miuda que enlameia e entristece como uma angustia. Na rua Sofia passa com o chale de rastro. Ha um clarão de tochas á porta. Vae sahir um enterro. Morreu o pequeno do gato pingado. Trouxe-a para casa uma noite, a essa creança que encontrou cahida na rua. Um rapaz de dez annos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe quer o gato pingado fazer, não me dirão?...

Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão d'um garoto, que não lhe é nada. Elle que não tem onde cahir morto, chora o pão que tiraria á propria bocca para o dar a outro.

Morreu-lhe hontem. É decerto um gato pingado a menos.

Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, d'essa noite de primavera negra, em que todos se põem a contar baixinho os seus sonhos á escuridão.

--Deitam flôr á noite...--diz o Sabio.

A treva entupe os buracos das ruellas. As tochas tem debaixo da chuva sinistros clarões d'incendio. Vae uma balburdia na rua e o redemoinho da noite traga o bairro acastellado. Eis o enterro. Vão mulheres perdidas e a Rata, a tossir, vae o Astronomo, e na frente d'um caixão de passarito, comboiando a turba, lá marcha o gato pingado, de brandão em punho, chapeo alto e casaca a esvoaçar... A que irão elles deitar fogo na noite tragica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho tisico... Na volta vêm decerto a cahir de bebados.

Todos os dias desapparece alguma das mulheres levada para o Hospital. Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe resta? O Gebo a sustentar.

Todas as manhãs sobe á mansarda onde o velho dorme, levando-lhe pão, que elle mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lagrimas e só diz:

--Filha!

A existencia é como um circo. Não ha piedade.

Dizem-me: a que recanto espantoso vae a natureza buscar esta ignea bondade? A que esconderijo, a que veio occulto? De que força é que se constroe, de que chimica é que se forma a bondade profunda, inabalavel, inextinguivel, que sustenta e ampára os pobres?...

As prostitutas que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora

menina

, depois que a vem sua egual. Repartem com ella o pão que ganham, e ao vel-a tombada, chorando, ficam afflictas, pois não sabem consolal-a.

--Mais lhe valia deitar-se a afogar,--diz uma.

--Isto aqui é uma vida de cão.

--Olhae que ter fome!... Sempre a fome é negra,--conclue outra.

Só a Mouca a odeia. Ella que foi sempre a mais maltratada, maltrata agora. Se podesse, pizal-a-hia aos pés. Ella, de quem todos se riram com escarneo, cuspida pelos soldados, queria emfim fazer soffrer. Não havia ser mais degradado, não porque fosse má, mas porque era como todas as creaturas filhas da terra, que o homem cria para o gozo.

A principio todas faziam soffrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de a verem chorar lagrimas d'afflicção, para a igualarem.

--Cá temos a

menina

!

--Quem no diria? Não falava a ninguem a mosquinha morta! É para aprender!

--Deixae-a!

--Deixae-a o que? Ella é como as outras.

--Deixae a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não tem coração.

--Tambem a gente soffre.

Riam-se, empurravam-n'a para os peores tratos, mas pouco e pouco, deante d'aquella dôr silenciosa e profunda, callaram-se e pozeram-se a amal-a. Tratavam-n'a por

menina

. Uma queria penteal-a, outra ajudal-a. Só a Mouca lhe tinha o mesmo odio.

--Olha lá, ó parida!

--É commigo que fala?

--Faz-te tola! Acaba lá com esses ares de senhora. Já estou farta. Tu aqui és tanto como eu, sabes?

--Sei--diz Sofia.

--Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem sou. Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

--Ah, tu não falas? Olhas p'ra mim com cara d'escarneo? Não quero que olhes p'ra mim, não quero, ouviste? Ai, não falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

--E agora? agora? Quizeste, ahi tens. Toma. Tu aqui és uma desgraçada como eu. Aqui não ha meninas. E agora? agora? pensas que és mais do que as outras?

--Sou mais desgraçada.

E poz-se a soluçar.

Mas de subito a Mouca clamou:

--Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: não a podia ver por inveja. Fui sempre assim. Não me fique com raiva. Eu dizia cá commigo: Então os outros tem mãe e eu nunca a tive? Os outros são infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Sou filha da terra. Crearam me os ladrões, já deve ter ouvido. Tenho sido muito má p'ra a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peço-lhe que se ria p'ra mim, para me mostrar que não está zangada commigo. É bôa! eu dizia cá por dentro: Hei-de pôl-a tão raza como eu. Que é ella mais do que eu? Sabe porque lhe tinha esta

osga

? Por vêr que a menina era infeliz e bôa p'ra todos. Eu sou assim, sou como um cão. Peço-lhe uma coisa... Bata-me para eu acreditar que é minha amiga.

XXI AHI TÉM OS SENHORES A NATUREZA!

N'essa

madrugada o Pitta arrastou o Gabiru por um esgoto que do predio ia desaguar ao outro lado do Hospital e de que só elle sabia a existencia. As paredes arrombára-as d'onde a onde a raiz torcida da Arvore.

--Anda! anda! Estas raizes são mais duras que a pedra. Nada lhes resiste, nem o granito. A Arvore ha-de acabar por nos tragar a todos.

Tinha chovido na vespera e era ainda noite quando sahiram do esgoto. Abala-os logo uma lufada de ar vivo, d'este ar que é como a agua da rocha, que appetece sempre beber e que traz comsigo existencias d'arvores, cheiinho de emoção. Param. Uma brancura, nebulosa na cova onde se criam mundos, ainda erra esparsa. No céu brilham estrellas e sente-se sobre as terras lavradias o nevoeiro espesso, que das arvores tomba em gotas grossas como chuva de verão. Os troncos além são espectros e outros, mais longe, de todo desapparecem. Ao norte luz uma estrella enorme. Sobre o monte abre-se um rasgão de claridade... Eis o sol fraco, escorrendo por entre troncos, misturado de branco e sem calor, tal qual luar. Nos regos do arado correm rolos de nevoa e a verdura da herva, na manhãsinha, é immaterial, como se fosse a respiração da terra. As aves, nas moutas, começam o seu dia cantando.

--Que sentes?--pergunta o Pitta ao Gabiru.

--Espera! espera!--diz o outro entontecido.

--Ouço gritos e só vejo uma brancura e gestos... Mas o que eu ouço! que sem numero de vozes, de palavras precipitadas!

--Vês arvores?

--Só vejo um clarão. É como um relampago, offusca-me! Mas o que eu ouço! quantos gritos, que amalgama de gritos! Sei agora que existem arvores porque ouço o seu ruido e a sua voz...

--Procedamos com methodo. Eis ahi a terra, ahi a tens a teus pés. Ahi tens um charco.

Tudo já estava cheio de sol.

--Isto negro e isto de oiro? pergunta o Gabiru.

--Sim. Revolve isso negro, inerte e no emtanto vivo. Afunda as mãos. Ahi nas tuas mãos, n'esse pedaço de lama, tens tudo, particulas d'arvores e de sonho, realidade e emoção...

--Isto é então...

--Um turbilhão,--affiança gravemente o Pitta.

--Isto é vida?

--É vida. Esse pedaço de terra é humus. Incha com a primavera, fala. Está morna e escuta, põe-n'a ao ouvido... Ouves?

--Ruido, vozes, gritos d'embryões, um borborinho...

--Ora repara. É sempre a mesma coisa. Maquinações philosophicas... Isto é um mundo e isto--e aponta um charco--é um mundo. N'esse charco adeante, ahi, vês?...

--É oiro.

--Não, é agua onde o sol se espelha, apenas agua...

O Gabiru curvado mergulha as mãos afiladas e negras na poça. Tira-as depois para fóra fascinado. As gottas d'aquella agua turva cahem qual oiro liquido, trespassadas pelo sol, n'um chuveiro de faiscas.

--Eis estrellas! exclama commovido.

--Perdão, é apenas como te disse, um charco, um desprezivel charco. Habitua-te primeiro a vêr.

--Quero vêr mais!

--Habitua-te primeiro a vêr...

O sol que tomba a flux corre, afoga, doira, penetra os sêres e as coisas. No dia humido ouve-se o resurgir da vida: a lama mexe-se, os troncos engrossam, a agua nasce inchada, n'essa manhã de primavera, em que tudo se transforma sob a esteira do sol. Tinha chovido na vespera e até nas mais pequenas coisas, na pegada dos bois onde a chuva encharcára, irrompe uma vida exuberante, apressada, de sêres que em minutos de existencia têm uma prodigiosa tarefa a cumprir: amar, crear, morrer...

--Eis uma arvore--aponta o Pitta.

--Como ella gesticula para nós!

--Pois ahi tens uma arvore.

--Que coisa enorme e bella que é uma arvore! É differente da outra... E é uma arvore? Uma arvore dá agua, ouço a agua a cahir.

--E o ruido das suas folhas.

--Uma arvore é viva. Fala? É o ser mais bello que eu conheço. É verde, mexe-se...

--E alli, longe, um monte.

--Aquillo pequeno? Um torrão como este que os meus pés desfazem. Só é violeta. Maior é uma arvore! maior!... E esta poeira luminosa que nos envolve, que é? Alma?

--Maquinações philosophicas... Caminha agora, vê... Eu vou-me deitar á sombra... Podes vêr...

O Pitta tirou as botas e estendeu-se ao pé d'um sobro. Da algibeira saccou o caderno de notas e poz-se a escrever:

Deve

á D. Antonia, tres mezes em atrazo--30:500 rs.;

a Haver

das explicações da natureza aos domicilios--25$000... Differença...

O Gabiru vae andando ao acaso. Pica-se nos espinhos, esmaga entre as mãos flores e rebentos, magoa-se nas pedras. Encontra sebes orvalhadas, arvores brancas todas flor, abrunheiros em flor, e uma hora fica absorvido defronte d'um velho muro, encostado ao qual uma macieira treme, carregadinba de flor. Ha galhos que lhe parecem emoção. Os pés calcam hervas espesinhadas, que tambem deitam cá fóra o seu sonho; esquece-se ao pé das fontes vendo-as jorrar e põe-se a respirar fundo, querendo imbeber-se d'aquelle ar carregado de vida.

De repente cahe um d'estes chuveiros de primavera, precipitados e rapidos. A chuva que tomba é morna. As plantas bebem-n'a, as flores abrem-se tontas e escondem gotas nas corollas; vêm-se crescer as pequeninas folhas verdes como se inchassem e os gommos tingidos de resina estalam, abrem, com um ruido suffocado--ah!... Tudo fica baço a principio, a terra molhada é d'um negro gordo; um fremito corre nas folhas tenras... Depois, como um veo que se rompe, o sol começa de novo a correr. As fontes deitam oiro, as plantas têm fios d'oiro e no chão ha toalhas e caminhos d'oiro e sombras.

--Senhor Pitta, eu quero ser isto...

--Isto quê? resmunga o outro concentrado.

--Quero ser isto!...

Mas o Pitta, enfronhado nos calculos resmoneia:

--Maquinações philosophicas. Deixa-me... Eis a differença--22$000 réis... Eis!...

O Gabiru caminha. Depois cahe entre a herva tenra e nascida e deita-se a vêr os rabiscos do sol e um galho tão em flor, que parece uma teia de luar esquecido. Primeiro o tronco incha: ha como ponto negro que estoura, para ser botão e depois flor... Medita. Está um dia morno e humido. Sahiram das tocas os bichos internados todo o inverno. Vespas passeiam a sua roupa d'oiro no marmore das flores e toda a terra remexe. Acredital-a hieis viva.

Em que se põe a pensar? O seu ouvido de enclausurado, affeito ao silencio, ouve até ao fundo da terra o rumor dos bichos, tanto tempo empedernidos, que esfuracam para o sol; das sementes que rebentam e sobem para a luz, o

glu glu

das raizes gordas e felizes ao mergulharem no humus.

É um barulho de maré longinqua que cresce, galga, augmenta, trasborda... Espavorido deita a correr... Por toda a parte as sebes, as hervas escondidas, os tojos bravios, para quem ninguem repara, crescem. Ha-os nas pedras; ha-os no ventre resequido dos calháos.

Anda, anda, e dá com aguas grossas, felizes, apressadas; com quintalorios onde a verdura cresce aos borbotões; pinheiros, depois silvas, bravios--e até nos sitios mais estereis encontra a mesma vida e o mesmo amor.

Que força é esta que faz mexer a terra e a abala?

É uma torrente, um rio subterraneo branco e verde, que vem á suppuração? Um riacho de tintas, brotando á superficie do solo em labaredas verdes, todas roxas, inteiramente brancas? Ha verdura tão tenue que dil-a-hieis uma nevoa verde; folhinhas que parecem feitas d'um halito que se pegou aos troncos.

A sombra das arvores enche-o de refrigerio, envolve-o na atmosphera de sympathia e frescura que ellas exhalam.

Por fim o Pitta vae encontral-o tolhido, d'olhos estasiados entre flores esmagadas, Nas mãos flores, aos seus pés flores esmigalhadas.

XXII PHILOSOPHIA DO GABIRU

Oh

descubro agora a torrente esplendida que é a vida! É a emoção. Ella é o veio limpido onde todas as sedes se estancam. Liga os homens, prende-os--e o egoismo afasta-os.

Todos os rios, como todas as vidas, vão desaguar ao grande atlantico de belleza. As creaturas humildes e simples tem uma existencia como um fio corrente--agua ou lagrimas, mas sempre claro. A colera, a ambição, os interesses turvam a vida, como a terra revolvida turva a agua.

Amar os outros, soffrer pelos outros, viver para os outros, é tornar a existencia simples, monotona e grande; é fazel-a parecida com as mantas grossas, d'uma unica côr neutra, que agasalham os pobres.

O homem que tem emoção e que ama é sempre feliz: as coisas conhecem-n'o, as arvores são suas amigas. Sente-se enternecido deante do mais resequido calháo.

O que odeia, o ambicioso e o máu, passaram pela natureza como o homem na guerra: não viram nem ouviram. As coisas emmudecem para elles. Nada lhe dizem, porque não sabem ouvir. Tu, que enternecido paraste deante d'um sitio recolhido e simples, deante das desgraças alheias, tu, pobre, que tombaste na cóva desprezado, rôto, e a quem a terra recebe como a um amigo, tu que adormeceste no derradeiro somno quasi consoladoramente, como morre tudo o que é simples, tu viveste... Communicaste pela piedade e pela emoção, com a natureza inteira e o teu amor repartiste o pelos mundos que rolam no infinito, por Deus, pelo homem, pela pedra. Tu soubeste e presentiste tudo.

O que é grande é sempre simples.

Desperta em ti a emoção para que possas dizer:--Vivi!

Todo o homem que nasce deve ter um quinhão de terra--seu sustento e sua cóva. O pão de cada dia deve grangeal-o com o suor do seu rosto.

É singular a inconsciencia com que o homem trata as coisas mais profundas da vida--e a gravidade com que discute as que são apenas apparencias vans.

A desgraça é sempre boa--porque approxima o homem dos desgraçados.

Tudo na vida se simplifica sendo a gente simples. É como a folha que se deixa vogar na mansidão de um rio até que o oceano a traga.

Nada na existencia nos prende como os grandes espectaculos da natureza: o monte, a arvore, o fio de lagrimas que as fragas choram, o homem de coração e vida simples, pacifica e grande.

Para se ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se que o pão que se come não é tirado a nenhuma bocca, nem o lume que nos aquece roubado a alguma velhice friorenta.

Ser pobre, lavrar uma terra que nos dá o pão saboroso e negro e o tronco para o nosso lume!...

Quando se ama, a emoção sahe de nós como d'uma fonte e a gente prende-se aos outros. Não se sente sósinha: faz parte da Vida, d'uma torrente d'amor mysteriosa e esplendida. O amor torna-nos irmãos.

O homem não faz senão complicar a vida, que em si é afinal bem simples.

As coisas despresadas são as melhores da vida: a paz, as horas esquecidas, a agua desnevada que se bebe, os minutos de silencio em que se sente Deus comnosco.

De que serve accumular odios, ambições, riquezas? Não é isto demais para uma vida terrena?

Não saber nada senão amar--repartir emoção com os outros!

De rastros! de rastros! Odio, ambição, gritos, tudo isso é nada! Toda a existencia perdida a sonhar, a viver sósinho, absorto em coisas nullas, quando a vida é tão grande e tão simples e se reduz--a amar! Pelo amor conhece-se tudo, até o que os sabios ignoram. Olha para um mysterio com amor, e elle desvenda-se logo; olha para um calháo com amor, que até n'elle encontras mil coisas imprevistas; chega-te ao homem, teu irmão, até ao mais degradado, com amor, que n'elle depararás com Deus. Deus vive ao pé de ti, comtigo, tocal-o a toda a hora. Que precisas para o sentir? Amor.

Vive uma vida simples, a vida de que os pobres se approximam, com emoção e o teu pedaço de pão negro, olhando o prodigioso mysterio, e serás feliz.

Lavra o teu campo, e, nas horas perdidas, olha, prende-te á abobada do céo, ao homem, á montanha, á arvore, ao mar--e ouvirás Deus em ti, sentindo atravessar-te uma frescura mais viva do que a agua das rochas.

Deus está muito perto de ti--e é por isso mesmo que o não vês. A palmos da seccura passa muitas vezes um veio d'agua escondido. Basta cavar na crosta da terra, para que o chão gretado e pedregoso se transforme. Que torrente de emoção não vae atravessando os mundos, os homens, as folhas seccas e os globos d'oiro do céo!

O homem enredou se de tal forma na ambição, no odio, na guerra, que perdeu o sentido da vida--tão simples e tão larga--e que deixou de vêr Deus, sempre presente ao seu lado.

Para o encontrar, precisa de voltar ao amor das coisas simples e grandes--ao amor dos seus irmãos, da natureza, e de abrir o seu coração a esse fluido mysterioso.

A vida artificial é que transformou o homem. Da vida artificial é que nasceu o orgulho, e que nasceram a ambição, os erros, o crime--e até a piedade. Se todos vivessemos da verdadeira existencia--o homem seria feliz. Como se pode redimir tudo isto? Prégando o Amor. Só o Amor nos pode ainda salvar.

Agora vejo! agora vejo! Que montão d'infamias! que montão de crimes! O homem trabalha desesperado, atraz do oiro, da ambição, da vaidade, do sonho vão, para quê? Para ser desgraçado. Um trabalho ferreo e herculeo--para gritar, e encontrar-se ao fim, a dois passos da cova, com inutilidades, carregado de dores e de opprobrios. Não hesitou em despedaçar, em calcar, em mentir--em busca do que elle julgava a felicidade, e que era apenas o erro. Não teve tempo para olhar a montanha, o mar, o ceo--o espectaculo de Deus não o viu--porque corria atraz da felicidade. Não perdeu uma hora apanhando sol como um mendigo, tendo piedade de seus irmãos, dando a mão aos desgraçados, porque vivia n'uma afflicção, atraz do quê? Da felicidade. Não se sentiu a sós comsigo, não se encontrou, nem sequer um dia da sua vida perdeu olhando-se cara a cara, elle e a sua alma, fechado com o seu coração. Porquê? Porque corria atraz da felicidade. Desprezou tudo, a vida, a respiração dos montes; riu-se do amor, da emoção--futilidades--porque feroz, incansavel, negro como um mineiro, elle buscava, sem perder um minuto--a felicidade! Chegou ao termo da jornada, tendo amontoado oiro e pão, tirado a outras boccas, tendo feito gritar, blasphemar, contente o seu orgulho e a sua vaidade mas afinal profundamente desgraçado. Está a dois passos da cóva. Interroga-se e não comprehende. Então isto é que era a felicidade? De que me serve tudo isto? O desgraçado não reparou que a felicidade na vida estava exactamente no que elle tinha desdenhado!

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