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Os meus amores

INDICE

Reading edition

Idyllio rustico 1

Sultão 18

Ultima dadiva 41

Preludios de festa 55

Typos da terra 73

Vae Victoribus 101

Maricas 111

Para a escola 119

Tragedia rustica 131

Abyssus abyssum 153

Mãe 169

Arrulhos 179

Batalhas domesticas 195

OS MEUS AMORES E A CRITICA

Da Revista Illustrada (extracto da chronica):―«...

Os meus amores

, de Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições agradabilissimas ao paladar d'ambos os sexos, e com delicadas circumstancias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das preoccupações litterarias mais evidentes d'este escriptor primoroso é fazer jus á amisade das leitoras, e como dispõe de pericia no ferir de certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento, consegue-o.―

Alfredo Mesquita

.

Jornal da Noite:―«Trindade Coelho―Este illustre escriptor, nosso talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo livro de contos

Os meus amores

.

De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distinctamente, e impõe-se á admiração dos que apreciam os talentos brilhantes privilegiados.

Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e encantadora são dignos do maior apreço, pela elegancia da fórma, burilada a primor n'um estylo finissimo e scintillante, despertam os mais francos, sinceros e enthusiasticos encomios dos que os lêem.

Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distincto collega.»

Diario Popular:―«

Os meus amores

.―Assim se chama um livro de graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo, que acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho.

O escriptor, como verdadeiro artista que é, localisa todas as suas attenções, de ha muito, no trabalho de apprehender com fidelidade o viver campezino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi berço. Por isso o seu fabrico litterario se aprimora de dia para dia n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito:

Os meus amores

o attestam, quando postos em parallelo com os primeiros contos publicados avulso.

Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e consegue photographar com particular exactidão. Em vez dos descriptivos, quasi despresados, são trechos successivos de conversas d'uma encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de todas as suas producções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho pessoal da sua obra, que proporciona agradaveis e confortaveis momentos de leitura.»

Diario Illustrado:―«Abrem

Os meus amores

, de Trindade Coelho, com um admiravel soneto de Luiz Osorio, que depômos nas mãos da leitora, como o perfumado ramo de cravos valencianos, a flôr actual das suas predilecções femininas: (

segue o soneto incial

.)

E pelo braço do poeta da

Alma lyrica

subimos ao doce convivio espiritual da alma de Trindade Coelho.

O conto

Mãe

, uma rica joia engastada n'este livro, brilhando ahi por todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e melodico, o diploma do seu notavel talento.

É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade espontanea que estes contos nos captivam.

O auctor diz-nos, sem preoccupações de escola e sem pretenções a abrir caminho pela deslocação do vocabulo ou pela selva escura do escandalo, o que viu, analysou, observou e sentiu.

As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam suavemente, tocadas a espaços de uma inegualavel melancolia contemplativa que lhes duplica o encanto.

Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade Coelho revela o superior poder evocativo da visão intima, que o singularisa.

A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle, como para todos os artistas de raça, attitudes, expressões, côres e sons, que o auctor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento, que só nos transmitte a simples leitura dos poetas.

Ha rapidos traços de analyse emotiva ou de commoção reflexa que valem poemas.

E não serão o

Idylio rustico

, a

Mãe

e outros contos, soberbamente delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa?

Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o seu primeiro triumpho.―

Gabriel Claudio

.»

Jornal do Porto:―«

Os meus amores

.―A collecção Antonio Maria Pereira augmentou se d'um novo volume original. Intitula-se

Os meus amores

e está escripto pelo nosso illustre collega e litterato distincto o sr. Trindade Coelhho.

D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve achar grande acceitação no nosso publico, escreveremos em breve as palavras apreciadoras que elle merece.»

Correio Elvense

:―Trindade Coelho.―Este nosso amigo e festejado escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a que deu o titulo:

Os meus amores

, editado pela acreditada livraria de Antonio Maria Pereira.

Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto estylista.

Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons e sinceros amigos.

N'um dos proximos numeros falaremos da impressão colhida em

Os meus amores

, agradecendo desde já as expressões affectuosissimas que acompanham a dedicatoria do livro, que o seu auctor nos offertou.»

Correio do Norte:―«

Os meus amores

.―Contos e balladas.―Trindade Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escriptor, acaba de publicar um livro de contos com o titulo acima indicado. É esta uma bella novidade para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de ha muito soube conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello talento e poderosas qualidades de escriptor.

Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle.

Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu offerecimento.»

O Globo:―«

Os meus amores

.―Mais um livro editado pela livraria de Antonio Maria Pereira. Intitula-se

Os meus amores

e subscreve-o o nome de Trindade Coelho.

Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser por certo trabalho de grande valor artistico, como invenção e como execução, porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra litteraria má. A sua educação litteraria está feita, e os seus numerosos trabalhos tão apreciados, tão portuguezmente escriptos, tão sentidos e tão espontaneos revelam qualidades de escriptor de raça. Elle tanto póde ser um jornalista eminente como é um contista original.

Os meus amores

é uma collecção de contos e balladas. Conhecemos alguns capitulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para não errar na apreciação. Vamos lel-o com a convicção de que teremos de saborear um d'esses raros mimos litterarios que só os privilegiados de talento sabem offerecer aos seus leitores.»

Diario de Noticias

:―«

Os meus amores

.―

Contos e balladas

.―Anunciámos, em tempo, o proximo apparecimento d'este trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega do

Portugal

, o sr. Trindade Coelho, ia augmentar a collecção, já tão valiosa, das edições do sr. Antonio Maria Pereira.

O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores.

Com uma observação escrupulosa, e um pittoresco estylo, d'uma pujança e d'uma riqueza não vulgares, sem attentados contra o bom gosto, nem rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade Coelho são, a todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que ha-de entrar, sem hesitações, na acceitação do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a attestar, n'uma formosa prova, a riqueza de um espirito, superiormente educado, ductil e promptamente malleavel.

Porque esses contos são a obra de um genuino artista, cuja

maneira

, simultaneamente facil e apuradissima, revelando a espontaneidade de uma fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de seiva.

Não póde entrar nos curtos limites de uma simples noticia, a mais desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na proprio nome do seu auctor, o melhor e o mais seguro titulo de recommendação para obter do publico a consagração de um largo e legitimo successo.

Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz Osorio―preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias litterarias.»

A Actualidade:―«

Os meus amores

.―Este nome é o de um novo livro da collecção Antonio Maria Pereira. Pelo titulo presume-se um volume de versos; mas não é, o que não quer dizer que n'elle se não surprehenda legitima poesia. Trata-se de contos e balladas, originaes do sr. Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escriptores.

Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso contista:

Estylo correcto, elegante, vivo; descripções ricas de observação e attrahentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da fórma; despidos de grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre tudo, pela propriedade.

Com estes predicados o livro

Os meus amores

, do sr. Trindade Coelho, deve incontestavelmente ser de valor. E é. São encantadoras todas as narrativas que contém. Logo ao abrir depara-se-nos um

Idylio rustico

, que embriaga e predispõe para a leitura de todo o volume, onde se encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notavel poder de observação e que deixam o espirito suavemente impressionado. Leiam, e verão que não exageramos na opinião que ahi deixamos rapidamente exposta.

Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.»

Correio da Manhã

:―«Registar o apparecimento de um livro bom, linguagem elevada e singella, desartificioso e artistico, repositorio vasto de observação, vibrado por uma grande impressão pessoal e subjectiva, é sempre agradavel á chronica, n'este tempo sobretudo de litteratura gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica.

Os meus amores

que amavelmente acaba de nos offerecer sr. Trindade Coelho é um livro d'esses. Collecção primorosa de contos e balladas, em que no mais despretencioso dos estylos nos conta recordações e idylios e nos mostra uma galeria rica de typos e de figuras cuidadosamente observados e primorosamente expostos.

O ultimo conto

Para a escola

, que d'essa bella collecção acabamos de ler, é encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assimelha se notavelmente á maneira de Gustavo Droz.

Não é o logar nem a accasião de fazermos a critica do livro e a apreciação d'este novo, d'este debutante, que ao primeiro assalto parece estar já senhor da batalha.

É por isso que sinceramente o felicitamos.»

Vanguarda

:―«

Os meus amores

.―O nosso collega, o sr. Trindade Coelho, que quasi só conheciamos pelos seus libellos accusatorios, acaba de nos enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a feição carregada e sombria do agente do ministerio publico desapparece por completo, para nos deixar apreciar só o espirito finalmente delicado do homem de lettras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente sabedor do seu officio.

Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do ministerio publico, que parece lhe oblitera ás vezes as suas excellentes faculdades.»

Primeiro de Janeiro

:―«

Os meus amores

.―Acabamos de receber o formosissimo livro de contos «

Os meus amores

», de Trindade Coelho.

Não é ainda a occasião de pôrmos em relevo todas as qualidades litterarias, complexas e brilhantissimas, que se evidenciam n'este livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assignalaveis entre os mais illustres cultores da prosa portugueza.

Os contos por onde «

Os meus amores

» se repartem não são apenas maravilhas de linguagem, onde tão sómente se destaquem dextrezas e fulgurações do estylo: a acção que os anima constitue uma deliciosa galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de observação e trasladados a uma fórma superiormente artistica, onde ha firmemente accentuados todos os caracteres de uma esplendida organisação litteraria.

É um livro vibrante e magnifico―adoraveis paginas intensamente ou delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas, cuja leitura é um verdadeiro encanto.

As nossas cordeaes felicitações a Trindade Coelho, a quem agradecemos a gentilissima offerta do seu livro.»

Folha do Povo

:―«

Os meus amores

.―Esta publicada em volume uma série de

contos e balladas

com que o sr. Trindade Coelho, o brilhante collaborador do

Portugal

, vem enriquecer a litteratura

contista

entre nós, hoje tão querida do publico, depois que os trabalhos de Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um valor até então mesquinho.

A primeira qualidade que notamos logo nos

contos e balladas

do sr. Trindade Coelho é um estylo muito seu, cheio de uma crystallina naturalidade,

affastando-se completamente d'essas excrescencias de mau gosto

, que ultimamente têm abastardado a lingua portugueza,―prova da superioridade intellectual do escriptor de que nos occupamos―, visto que não mira a uma falsa gloria, conquistada facilmenle pelas excentricidades de estylo, que são hoje uma verdadeira mania entre alguns escriptores da chamada geração moderna.

O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo á espontaneidade das suas impressões, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista, porque nunca a phrase lhe sae banal, nem tão pouco envolvida em ouropeis de mau gosto litterario.

E no entanto encanta-nos,―prova de que está alli um primoroso escriptor, um espírito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da natureza por uma fórma de observação, que não é d'esta nem d'aquella escola. É simplesmeate sua, individual.

Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porque as suas primeiras producções litterarias ressentiam-se de uma tal ou qual preoccupação de

effeito

no modo de construir a phrase. Hoje, o escriptor adquire a independencia da sua maneira, do seu processo, e feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia, visto que os seus quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reproducção do que o artista observa em volta de si.

Certamente que o publico lerá com encanto o novo livro do sr. Trindade Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e―podemos mesmo dizer―a litteratura portugueza.―

Silva Lisboa

.»

Diario Illustrado

:―«De tempos a tempos chegava-nos do Atemtejo um periodico que não deixavamos nunca de lêr pelo fino gosto litterario, pittoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos, incluindo os politicos. Esse periodico era redigido por Tindade Coelho, cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade verdadeiramente notavel.

De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o

Diario Illustrado

e, vindo establecer residencia em Lisboa, algumas vezes tivemos a honra de receber n'esta redacção a sua visita, sempre agradabillíssima para nós, porque a sua conversação scintillante aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho.

Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume―que faz parte da collecção

Antonio Maria Pereira

―os seus deliciosos contos, cheios de observação, de verdade, de simplicidade artistisca, que é, a nosso vêr, suprema expressão de belleza n'este genero de composições litterarias.

Os meus amores

são um bello livro, em que o estylo se não contorce atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade. Tudo alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres e dos episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos períodos.

N'uma palavra,

Os meus amores

são a obra de um artista, de um homem que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem definida por traços profundos de verdadeira originalidade.»

Voz Publica

:―«

Os meus amores

.―Trindade Coelho, innegavelmente um talento de primeira agua, acaba de brindar a litteratura portugueza com um excellente livro de contos subordinado áquelle titulo e que constitue o duodecimo volume da elegantissima

Collecção Antonio Maria Pereira

.

Contos e balladas

é o sub-titulo do livro, e muitos ao lêrem-n'o julgarão que se trata de versos; mas não, é em prosa, em prosa vernacula, correcta e vibrante que estão escriptos os bellos contos de que se compõe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido.

São todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e verdade dos seus typos e das suas situações, lembrando um tudo-nada os formosos typos de aldeia, tão magistralmente desenhados pelo mallogrado auctor da

Morgadinha dos Canaviaes

e dos

Fidalgos da Casa Mourisca

.

Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a lêr deixará de o fazer como nós; tão attrahente é a fórma por que Trindade Coelho conduz todos os ligeiros contos de que elle se compõe, que sem querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste d'elle ter acabado.

Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem, foram os que se intitulam

Typos da terra

uma galeria curiosa de typos, e

A mãe

, um conto de natureza, simples e commovente na sua simplicidade, e notavel pela sua originalidade.

Recommendar o livro de Trindade Coelho é prestar um serviço aos nossos leitores.»

Ordem do Dia

:―«

Os meus amores

.―Este é o titulo do 12.º volume da collecção Antonio Maria Pereira, innegavelmente a publicação mais elegante, mais barata e mais interessante do paiz.

Os meus amores

são uma serie de contos e balladas, em prosa, devidos á penna d'um moço talentosissímo, de ha muito conhecido nas lides do jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda não lançára ao mercado um livro; com este debuta o auctor, e é uma estreia auspiciosissima a sua.

A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle é cultivado um genero―o de contos, alguns á maneira de Gustave Droz, que prendem e interessam o leitor em todo o sentido.

Foi gratissima a impressão que elle nos deixou no espirito e esperamos que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas bellas producções, porque estamos certos de que quem lêr

Os meus amores

será com sofreguidão que esperará novo volume do distincto escriptor, tal é o encanto da sua escriptura».

O Sorvete

, (com o retrato do auctor):―«Dr. Trindade Coelho.―Mais uma prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez justificada a alta competencia e finissimo espirito de escriptor disctinctissimo!

O novo livro de Trindade Coelho,―

Os meus amores

―contos e balladas―editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, é, no dizer dos entendidos em litteratura,―uma verdadeira joia.»

O Espozendense

:―«

Os meus amores

(contos e balladas) por Trindade Coelho.―Faz parte este volume da interessantissima collecção Antonio Maria Pereira, tão bem acceite do publico, pela superior escolha das obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus preços.

Os meus amores

é um precioso agrupamento de contos, alguns ineditos, outros já conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com applauso por differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em plena aldeia trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra, pois é natural de Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos, delegado do procurador regio n'uma cidade de provincia―os contos d'esta collecção tornam-se sobretudo notaveis pela propriedade e pela fidelidade da acção, verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da côr propria da paizagem, vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens e das cousas.

Entre as nossas obras litterarias originaes,

Os meus amores

merecem, pois, um logar á parte, não como uma estreia auspiciosa, que o nome de Trindade Coelho é já demasiado conhecido de todos quantos se interessam pela litteratura nacional, mas como a poderosa affirmação de um prosador elegante e de um contista distincto, no meio da grande maioria da chata vulgaridade indigena.

Os meus amores

é, em summa, um livro de valor, bem cabido nas mais escolhidas bibliothecas.»

O Portuguez

:―«

Os meus amores

.―Delicioso titulo de um livro delicioso.

O livro é uma collecção de graciosos contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor é o nosso collega do O livro é uma collecção de graciosos contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor é o nosso collega do

Portugal

, sr. Trindade Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que é digno representante, cultiva as lettras com desvelado amor.

Em Coimbra, estudante ainda, era já litterato apreciado, collaborando, com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que ha mais de dez annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu título de jornalista a invejavel nomeada de contista esmerado, e brinda as lettras portuguezas com um volume, que está tendo a mais justa e lisonjeira acolhida.

O primeiro conto do livro,

Idylio rustico

, não obstante ser agora publicado pela primeira vez, cremos nós, é já nosso conhecido, porque appareceu manuscripto n'um concurso litterario da extinta

Associação dos jornalistas

, sendo premiado. Depois da consagração de um jury, terá agora a consagração do publico.

Depois do

Idylio rustico

, vem o

Sultão

, um quadro magnifico da vida campesina, notavel de simplicidade e graça; e a

Ultima dadiva

; e os

Preludios de festa

; e os

Typos da terra

; e as

Balladas

; e a

Tragedia rustica

; e a

Mãe

; e os

Arrulhos

; e as

Batalhas domesticas

: outros tantos primores, que ás vezes nos fazem lembrar as deleitosas e serenas paizagens de Daudet.

Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por não haver ainda expirado entre nós a litteratura san, que, ou nos desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas, não nos deixa no espirito a impressão doentia das nevroses litterarias...»

Jornal da Manhã

, Porto:―«

Os meus amores

.―Mais um volume acaba de ser publicado da collecção Antonio Maria Pereira, por sem duvida a mais elegante, a mais escolhida e a mais economica bibliotheca que se publica em Portugal.

É o primeiro livro de Trindade Coelho,

Os meus amores

, contos e balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir todos os seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos.

Do primeiro ao ultimo, os contos que compõem

Os meus amores

são specimens no genero, porque, além de constituirem uma esplendida galeria de quadros intimos, de retratos, de typos, são a confirmação d'uma verdade já por nós ha muito acceite: que o seu auctor tem todos os requisitos d'um escriptor de primeira ordem; estylista vibrante, correcto e sempre elegante.

E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em serios embaraços, porque são todos por igual deliciosos, constituindo a sua leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que mostrar predilecções por algum d'elles parece-nos que os melhores serão

A Mãe

e

Para a escola

, aquelle uma delicada e emocionante historia arrancada flagrantemente á natureza, e este saudosas recordações d'um passado que não volta.

A edição, escusado é dizel-o, é nitidissima.»

O Tempo

:―«

Os meus amores

.―Este livro teria vindo melhor nas noites invernosas para serões ás lareiras crepítantes:―as faíscas d'ouro subindo no tecto, o vento zenindo fóra açoitando a chuva, e dentro, no conforto recolhido, gosar-se o contraste das paizagens alegrdas pelo sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios e trinados d'aves, paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delicia suave e subtil d'illudidor ameno. Mas não se póde aconselhar o leitor a que se prive de saboreal-o desde já, tanto mais que os tempos vão agoureiros para a arte de manancial, e os que a cultívam teem de separar-se dos estragadores d'Ella e das cabeças quasi vasias que expremem e segregam o pus nauseabundo do sadismo mediocre.

Estes estão agora entretendo o publico arrebanhado para saborear com prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala―o vingador―ao imbecil que escreveu o

Senhor Dupont

e aos auctores das

Pimentinhas

e

Berbigões Ardentes

.

Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o perfumador dos excrementicios e appareça em plena luz nas mesas e nas familias dos que compravam os outros, é o voto que faz o alinhavador d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda á attenção um artista recolhido que sabe ter força nos traços tenues e meias tintas dos seus quadros, que capricha em suavisar idylicamente as dôres vulgares da vida acceite, da materialidade animal, dourando-as com recantos de natureza chilreante. Que me perdõem insistir na impertínencia: mas, o que no livro mais particularisa o talento de quem o assigna é a comprehensão das paizagens, o sabel-as colorir, animar, pôl-as ante os olhos que lêem.

As grandes dôres obscuras e sinceras, as brandas affeições, amisades arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples sustentados por ingenuas crenças s suavisada fé, tudo o que a aldeia tem de ameno, d'attraente, de pittoresco, de consolador, os seus ridiculos mesmo, vestindo atitudes de parodia em theatrinho de curiosos, tudo reveste bem o sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom humor, sublinhando aqui e acolá umas notas reaes, bem apanhadas, como se diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de ventaróla. O livro encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o auctor encerrou por annos a sua nostalgia―a peior de todas: nostalgia de delegado!―apertando os vôos do seu espírito d'artista que ama pairar com a fantasia para o longiquo, para o que se Imagina, para o Distante, o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de recordação e de saudade d'onde brotou o livro, escripto decerto nas horas feriadas do trabalho arido, com a documentação da natureza que vivifica, com a elaboração pachorrenta de quem não tem pressa e se compraz na arte libertadora.

Especificar um ou outro conto não é depreciar os não citados, mas dar preferencia pessoal―e talvez peccadora―ao

Idylio rustico

, á

Ultima dadiva

, á

Mãe

, ás

Batalhas domesticas

, que fecham o livro e deixam entrever no auctor um desejo de animar os personagens tanto como anima a natureza onde elles sentiram. Ha contos nos

Meus amores

que fazem lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem lê da patada epica do que fez

Créte-Rouge

e

Ompdrailles

.

O sr. Trindade Coelho é um escriptor tão distincto quanto aclarado pelo jorro d'arte que vem de ha muito confundindo os convulsionarios do talento; os serenos no desdem; os enthusiastas; o que, despindo o metaphorico, quer significar que elle está em posição artistica onde decerto o seu talento e o seu trabalho continuarão a chamar attenção e respeito.―

M. Caldas Cordeiro

.»

Antonio Maria

, (com o retrato do auctor, desenho de Raphael Bordallo):―«

Os meus amores

por Trindade Coelho.―A livraria portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede, na ultima quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho, com a amavel denominação de

Os meus amores

.

Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido... É originalissimo, agradabilissimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar, que usa o auctor d'este bello livro,―agradabilissimo contista, escriptor originalissimo, cujo nome a bibliographia regista hoje, tão notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara.

A quem o lêr, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas horas muito bem passadas, passeadas por aquellas paizagens e recantos provincianos que elle pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão photographicos, tão nitidos, que é estar a gente a vêl-os, a ouvil-os, a falar-lhes...

―

Os meus amores

, meus amores, que encanto!»

O Tempo

:―«

Os meus amores

.―É como Trindade Coelho intitula a collecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela livraria do sr. Antonio Maria Pereira.

Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de Trindade Coelho, desde quando lhe lêmos as suas producções litterarias n'um jornal de Coimbra, e que eram as primicias de trabalhos mais primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo.

O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira á ultima pagina sem um momento de cansaço ou de fastio. O espirito do leitor delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma singeleza tão commovente, e que nos

Meus amores

são descriptas n'uma forma em que se revelam todas as qualidades d'um distincto e notavel escriptor. Só póde apreciar bem o merito d'aquelles contos quem souber quanto cuidado ha no labôr paciente do artista para conseguir dar ao estylo o tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este genero de pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos.

Não nos demoraremos a falar dos

Meus amores

, que contém preciosas joias litterarias, e ao qual está, sem duvida, destinado um honroso logar na nossa litteratura contemporanea.»

Correio Elvense

:―«Trindade Coelho.―Este nosso amigo e festejado escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas que deu o titulo:

Os meus amores

, editado pela acreditada livraria de Antonio Maria Pereira.

Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto estylista.

Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons e sinceros amigos.

N'um dos proximos numeros fallaremos da impressão colhida em

Os meus amores

.»

O Dia

:―«

Os meus amores

.―Se fosse no seculo passado, os fazedores de proemios, prologos e conversações preambulares com os pios leitores, á falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo aproveitariam a occasião para sobre o nome do auctor glozarem varios elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e é ao mesmo tempo um poeta sincero, um escriptor de raça, e um observador attento, qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto nasceu uma obra formosissima, animada de verdadeira commoção, sentida nas suas mais pequenas minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.

A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta reunião de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso, copiando do natural, e em que os personagens foram surprehendidos nos seus labores de cada dia ou nas suas intimas cogitações.

Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na noticia d'este livro, e por isso nos limitamos a recommendal-o como leitura attrahente, como obra d'arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma egualdade nem com o mesmo folego, como uma grande licção litteraria aos fazedores de naturalismo brutal.

Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo meio o magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos provar que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não prejudica a indole do escripior.»

Novidades

,(entrevista com João de Deus ácerca dos

novos

):―«

Litteratura nova

.―Eu conheço limitadamente os novos, porque não leio jornaes, e não os leio porque os litterarios occupam-se na propaganda da immoralidade, e os politicos na propaganda do suicidio, e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os engeitados da fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte, as agruras da sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre joga os trinta réis de tres quartos d'um pão.

Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que elle dispa a toga, que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha muito. Já leu o

Sultão

? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem lh'o ler.

―Li já todo o livro.

―E depois, meu amigo, nós andavamos precisados d'uma coisa casta, onde fossemos purificar o espirito d'essas taes observações physiologicas, e não sei que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O livro do Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem definir-lhe. Olhe: alli está aquelle quadro, em que os traços são correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma bella cabeça de rapariga, a physionomia dôce, o olhar abstracto: este tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus por ter graça. A graça na litteratura é tudo, mas é muito rara.»

Novidades

:―«

Novellas rusticas

.―Trindade Coelho.―

Os meus amores

(contos e balladas.)―Lisboa, livraria de Antonio Maria Pereira―1891.

No seu penultimo artigo do

Temps

, dizia M. Anatole France, esse sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas as doutrinas axiomaticas da critica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou mauvais.»

O conto moderno é como o romance, essencialmente analytico e psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paixões e todas as energias depravadas do coração. A arte do sr. Trindade Coelho é muito differente d'isso, porém. O seu idylico livro de contos e balladas, aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples, colhidos com intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem, decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros dos escriptores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao emprehender a leitura dos

Meus amores

, duzentas paginas suaves e simples, sem pedantescas pretenções a passarem como tratado didactico de psychologia.

Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e que as suas figuras só serviam para dar expressão e vida á paizagem.

O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a sensação visual particularmente desenvolvida, e as suas descripções são tambem, como as do auctor das

Pupillas do sr. Reitor

, magicamente poetisadas, como que apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade. Chega-se ás vezes a ter a illusão de que o artista está alli, paginas a dentro do seu livro, fazendo reviver no pensamento a alacre impressão das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal, cuja lembrança, elle conserva sempre viva, como nos versos de Salvador Rueda:

Por donde voy me sigue como memoria tierna tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar; ¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna el coro que tus árboles entonan á la mar!

Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manhã aldeã, quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horisonte:

A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim, e o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o ceu em cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de azas―passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convísinhos onde a vegetação era mais rica de seivas e mais facil a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada

cho

! que se ouvia na outra ladeira. Já nas povoações proximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no ceu immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza accordada para a labuta interminavel do dia.»

«No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr. Paulhan sobre a descripção pittoresca, então habilmente apreciados os elementos constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na qualidade e na intensidade.

«Chama-se imaginação sensivel», diz o distincto observador, «o acto pelo qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação, como tem sido ha bastante tempo notada, não é,―principalmente se considerarmos só certas classes de imagens,―senão uma copia enfraquecida d'uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar um momento, um quadro, uma estatua, qualquer coisa que imagino, se as minhas recordações são bastante nitidas, é uma especie de copia enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o quadro ou a estatua. A imaginação, tomada até no sentido restricto que lhe damos aqui, varia muito d'uma pessoa para outra, quer em intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas teem as imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais concretas; em uma palavra, as suas imagens approximam-se muito da sensação; outras, pelo contrario, são inclinadas para as idéas abstractas e teem necessidade d'um esforço para se representarem as sensações d'uma maneira um pouco nitidas. Tem-se reparado que a visão mental, nitidissima em geral nas creanças e nas mulheres, torna-se muito fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas sobretudo de ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual. Eis uma pequena experiencia indicada por Wundt, que, mostrando as analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo tambem as differenças individuaes com relação á intensidade com que a imagem concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma superficie parda, vemos uma mancha corada da côr complementar da primeira. Se o objecto era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul indigo, a mancha será amarella, etc. Ora é possivel, mas isto não succede a toda a gente, perceber esta côr complementar não só depois de ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter imaginado. Póde-se, por exemplo, pensar n'uma cruz vermelha: lançando em seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se ha uma boa imaginação visual.»

«Essa imaginação parece tel-a o sr. Trindade Coelho. A vivacidade, tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descriptivo, que nos dá conjunctamente a impressão da forma, da côr, do som, e até ás vezes do aroma, representa um phenomeno especial de evocação sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois d'esse, a intima satisfação que faz aflorar, aos labios do leitor inteligente, um sorriso de doce commoção, a cada singelo episodio das suas narrativas, todas frescas e sadias, e cujo menor merito não é, decerto, o de serem escriptas n'uma linguagem airosa e despreoccupada, mas tersa e legitimamente portugueza.

O livro do sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas analyses introspectivas, o papel da critica perante

Os meus amores

é bem facil, porque ella deve quasi cingir-se á affirmação do seu applauso incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escriptor, o que póde muito bem representar uma livre depravação de gosto.

Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel recordação, para a oxygenada, a leitura d'essas bellas novellas rusticas, todas impregnadas d'uma ideal graça campesina, tilintando d'um ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o livro e o caso do

Sultão

.―

Armando da Silva

.»

Tim Tim Por Tim Tim

:―«Um grande poder d'observação e uma enorme justeza d'expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes qualidades litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de verdadeiro artista, aberta á comprehensão ampla da natureza, e fundindo os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um conjuncto nitido que se desata em descripções opulentas de vida e de calor, fulgurantes d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o melhor crystal de Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias possantes que prendem o espirito mais inculto e o obrigam, alli, a fixar e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar.

E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos que compõem

Os meus amores

, realçadas ainda pela fina emotividade que o delicado sentir do auctor transmittiu a cada scena onde o coração tem parte, ou seja o coração de qualquer d'aquelles dois pequenos do

Idylio rustico

, ou o da

Russa

, a bella cabra que no meio de mil angustias de mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a elle proprio, a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida, vejam o affecto que irradia d'aquelle

Para a escola

, quando falla da velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras.

Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das descripções naturaes, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um pedaço caricaturando uns typos com tanta sobriedade de

charge

que mais nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da villoria da

Comedia na provincia

, que entreteem a tarde na praça a dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos

croquis

como nos habitos. E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes, aquella

Vespera da festa

exemplifica vantajosamente o que elle sabe fazer.

No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto das

Batalhas domesticas

, onde me pareceu descobrir uma novissima orientação do auctor, inspirada porventura n'uma atmosphera densa d'innovações que vae por ahi. Claro que o seu talento adapta-se mais essa fórma com a malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos escriptos, não a sacrificaria a coisa alguma.

O que o livro é, em summa, é um conjuncto de bellezas que tem sido largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e oxalá seja apenas a promessa de muitos outros, que pennas como aquella não devem calotear-nos na contribuição que nos devem.

―Mas,―perguntou-me um dia d'estes alguem―porque

Os meus amores

, e não qualquer outro titulo?

Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de rapaz que nenhuma lama d'este mundo é capaz de conspurcar.―

Santos Gonçalves

.»

Revolução de Setembro

:―«

Os meus amores

, contos e balladas por Trindade Coelho.―Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns contos singelos, attrahentes, delicadissimos, admiraveis de observação e de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admiravel simplicidade de colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade!

Uma bella obra d'arte e uma altiva lição.

Alli está como se póde chegar ao naturalismo na litteratura, sem estropear a lingua e sem chegar ás torpezas da pornographia. Para attrahir, para ser original, para impôr a supremacia do seu talento, para conquistar o applauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não precisou de escrever extravagancias, nem de escalavrar pustulas, nem de escancarar bordeis.

Ahí fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar d'elle, se o tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu auctor.»

Correio Elvense

:―«

Os meus amores

.―Com poucos dias d'intervallo as lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de livraria.

Depois de apreciar o

Barão de Lavos

, obra de analyse, de profunda observação, resentida do exaggero do naturalismo e do caracter quasi scientifico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem ser exclusivamente litterarios, mas que, não obstante este pequeno senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel Botelho creára com os seus livros anteriores, a critica tem de render respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo como aquelle e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu espirito, pela sua notavel orientação litteraria e pelo esplendor de fórma que caracteriza todos os seus escriptos, mesmo os mais despreoccupadamente feitos.

Sinto um delicioso prazer de consciencia ao traçar estas linhas. Momentos como este são mesmo os unicos oasis em que se reconfortam os que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina improductiva e ingloria do jornal.

Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem intimas relações de confraternidade e sympathia e ao ter de formular o meu juizo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e applauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo d'um sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira d'uma admiração justamente sentida, solidamente baseada.

O livro a que me refiro intitula-se:

Os meus amores

. E em tudo corresponde ao encanto d'este titulo.

Com que saudade li as ultimas paginas!

Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar a naturalidade das descripções, a limpidez e o crystallino do estylo emocionante e simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio, até á recordação saudosa e terna que o auctor sente do primeiro dia em que entrou na aula d'instrução primaria da sua modesta aldeia.

Dando a impressão singela e despretenciosa que me cansaram

Os meus amores

, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na epoca actual quando os vicios da sociedade e a decadencia dos nossos dias nos gravam no espirito, a cada hora, um carimbo de desanimo e descrença, quando a litteratura, obedecendo á vertigem mais do que nervosa, allucinada, que caracterisa o

fin de siècle

, cria as escolas mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em apedrejar as normas mais impeccaveis e até agora consagradas da arte, e em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo, desannuvia-se o espirito ao vêr que ainda ha alguem, a quem sobeja talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa sã, eminentemente sentida, deliciando-se na descripção das scenas mais simples e tocantes, na apotheose da natureza em toda a sua magnificencia e no convívio da vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das convenções e pretenciosidades que dão um tom falso e mentido aos sentimentos da sociedade em que vivemos.

Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um dos contos e balladas que formam

Os meus amores

. Não representa este proposito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto amor o escreveu. Ao contrario, sinto que não posso, a não transformar este artigo n'um hymno laudatorio, referir-me especialmente a cada um d'aquelles contos e balladas. Mais do que este motivo domina-me o de não poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo.

Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em differentes jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso estylista dos

Meus amores

pelos seus trabalhos jornalisticos, já na bohemia coimbrã, já em pequenas folhas de provincia e ultimamente nos jornaes da capital, trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a correcção que nunca abandonam os verdadeiros artistas.

Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que formára a opinião de que elle se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no meu parecer, são, em Portugal, os mais distinctos escriptores contemporaneos d'este genero, na apparencia tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difficil, a que se denomina:

Contos

.

A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada.

Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dos

typos

, pela naturalidade do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria sem o minimo esforço a todas as impressões que pretende transmittir, o auctor dos

Meus amores

prova que não desconhece nenhum dos segredos do genero de litteratura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na amizade a opinião dos que, não obstante elle terçar agora quasi as primeiras armas, o consideram já como um escriptor distinctissimo e n'um futuro muito proximo um mestre consagrado.

O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado ás bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com uma riqueza oriental.

Não obstante o meu proposito de não me referir nomeadamente a nenhum dos pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que me causou a

Ultima dadiva

, um primor de sentimento, uma pagina emotiva arrancada em flagrante a uma das scenas em que tão variadamente se divide a tragedia em que se debate a humanidade; o

Vae victoribus

, onde passa um folego de epopeia, em que o estylo attinge alturas quasi desconhecidas, casando se com uma verdade admiravel a grandiosa ideia em que se inspira o conto;

Para a escola

, quadro delicioso a cuja leitura cada um de nos sente accordar uma recordação muito querida de infancia descuidada e alegre, e por ultimo: os

Arrulhos

, em que Trindade Coelho ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo tão malleavel e tão justo.

Além d'estes contos, que especialmente destaco pela admiração que me inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois

Preludios de festa

e

Typos da terra

.

Quem escreveu os

Preludios de festa

e especialmente os

Typos da terra

, é porque estudou com muita attenção, com muito cuidado, os personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras pequenas. São typos tirados do natural, com uma perfeição photographica em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na descripção da natureza nos seus mais variados aspectos.

Por ultimo, e para não se dizer que eu n'este paiz de má lingua realisei o cumulo de escrever um artigo só de palavras encomiasticas e sem a minima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do

Sultão

, lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas paginas d'um estylo formosissimo n'um assumpto que sem duvida é verdadeiro, mas que não commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a minima impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus recursos d'estylista, não precisava realmente do

Sultão

.

O livro faz parte da edição mensal d'obras portuguezas, editada por Antonio Maria Pereira, um trabalhador incansavel a quem as lettras portuguezas devem assignalados serviços.

Está impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado e esmero a que nem sempre estamos habituados.

Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas á semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos como este, para honra do seu nome de escriptor já tão justamente laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do seu livro, archivando a dedicatoria que elle contem como nova prova d'uma amisade a que somos profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.―

Lourenço Cayola

.»

Tribuno Popular

:―«

Os meus amores

.―Recebemos o volume da

Collecção Antonio Maria Pereira

, que sob aquelle titulo contém alguns contos do apreciado contista Trindade Coelho.

Pela rapida leitura de dois d'elles―

O Sultão

e

Typos da terra

, parece nos que a collecção é estimavel, e que os contos são joias de grande preço da nossa litteratura, pela linguagem pura genuínamente portugueza, e pela graça da contextura originalissima, nacional, sem laivos d'imitação estrangeira, em que se pintam scenas e episodios, cheios de verdade e de encantadoras descripções, da vida portugueza nas provincias.»

O Seculo

:―«

Os meus amores

, por Trindade Coelho.―É um livro de contos, editado pela casa editorial do Antonio Maria Pereira, a publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no fundo, sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de não ser rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem―diga-se a verdade.

Parece uma contradicção; mas não é. Se o nosso bom publico fosse dado a esbanjamentos de emoção artistica, não o sobresaltaria tanto a pessoalidade, e o imprevisto.

O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de lettras, nas suas horas de remanso.

É só, porém, como homem de lettras, que nos compete em tal logar aquilatar-lhe a esthésia, e as faculdades de emoção, ou de attenção artistica.

Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A fórma adapta-se perfeitamento ao fundo, e é sempre fluente, vernacula, concisa, e precisa. É sóbrio no descriptivo, e não raras vezes enternece. Não commette a velharia de desenterrar obsoletos termos classicos, sem incisão, sem propriedade, e sem côr, muito parecidos com o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portuguezes, nem onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto. Nem perpetra tambem o mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na linguagem patria instrumentos magnificos d'expressão. Sabe a sua lingua, como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais completa, e mais delicada da prosa, e tambem a mais transcendente e lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado interpetre. Os contos

Sultão

,

Maricas

,

Typos da terra

,

Mãe

e sobretudo

Para a escola

, não contam muitos rivaes na lingua portugueza nem nas estranhas.

O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de centenas de romances em seiscentos volumes já ninguem rememorar o titulo sequer.―

Gomes Leal

.»

Revista Illustrada

:―«

Os meus amores

, de Trindade Coelho.―Que deliciosa impressão me deixou aquelle livro, tão adoravelmente simples e sentido!

Antes, porém, de começar a analysar, conto por conto, esse fino trabalho de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de nome conheço só.

Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre, notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito, distincto em todos os exames.

Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de que―o delegado de Portalegre―era um excellente rapaz.

E digo rapaz, porque todos nós temos o habito de considerar sempre muito novos aquelles que são da nossa edade... Depois, graças a uma amiga minha, escriptora de grande talento soube que Trindade Coalho era um grande admirador de Loti―o meu preferido romancista!―admiração enthsiasta que elle descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição publical-as!

Traduzia elle então o «Pescador de Islandia»; tradução esplendida que a

Gazeta de Portalegre

publicou e que o trazia

empoigné

. Para elle era já uma suggestão, aquelle trabalho primoroso.

E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente alguem se comprazia em querer negar ao academico gentil.

Em seguida li uma suavissima elegia escripta á memoria de Antonio Fogaça―uma flor ceifada ao desabrochar!―Eram meia duzia de palavras cortadas por soluços:―eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!...

Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os jornaes annunciaram que elle arrancára um preso á cadeia de Portalegre. Um preso que era um innocente, e que, como tantos outros, estava condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam tambem o effusivo telegramma em que Trindade Coelho agradecia ao nosso magnanimo rei o seu perdão.

E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem põe a lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu coração ao serviço da humanidade que soffre...

O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha alma.

Eu só fixo o nome dos bons.

E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe d'aquelle homem! Os filhos herdam, geralmente, o coração das mães...

Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de lêr. Pedi-o rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego.

Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz Osorio―uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos filigranados e vibrantes...

Segue se o

Idylio rustico

―um amor―atravez do qual nós vêmos subir lentamente a estrella d'alva que illuminava, coando a sua dôce luz pelo colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da outra...

Depois o

Sultão

um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o Thomé nos communica a sua alegria contagiosa levada á loucura com a volta do... amigo―bem mais fiel do que muitos outros!

A

Ultima dadiva

, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma sepultura onde lhe ficára preso o coração para sahir de lá no dia em que teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o Brazil.

A

Comedia da provincia

, magnifica de côr local. Magnífica, principalmente para quem conhece typos semelhantes e já tem visto a

Morgadinha de Valflôr

―essa perola!―representada pelo Marques do correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valôr a esse esplendido estudo de costumes provincianos.

Vae victoribus

, uma sugestão de remorso primorosamente traçada...

Maricas

, uma adoravel poesia escripta em prosa.

Para a escola

, um beijo de gratidão de uma singelesa adoravel.

Tragedia rustica

, um vibrantissimo estudo das miserias humanas.

Abyssus abyssum

, o agonisar de dois anjos, sob o olhar de uma estrella...

Mãe

, a flôr mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas as mães que eram capazes de morrer assim―sem abandonarem os filhos... E, finalmente, as

Batalhas domesticas

.

Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho, que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro honesto, que não fatiga os homens nem faz córar as mulheres. Por isso aconselho a todos que o leiam.―

Margarida de Sequeira

.»

Portugal:―«

Livros Novos

.―A acolhida feita ao notabilísissimo livro

Os meus amores

, do nosso querido amigo e illustre confrade, Trindade Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais carinhoso triumpho.

Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos que na caça de sensações e effeitos novos hoje pavorosamente desarticulam o

meio

litterario europeu, tem uma força de restringir-se a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquilla, a melodia emocionante, ingenua e simples do viver aldeão; e que por entre o estridulo

hallali

de obscenidades, imprecações, blasphemias, dôres, gemidos, que doloridamente rebôam pelas soturnas naves d'este immenso hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar, enternecedoramente, um doce

trillo

sentimental, uma ou outra ligeira nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do coração.

Bem haja.

Do côro unisono de quasi incondicional applauso com que a imprensa tem celebrado a apparição d'

Os meus amores

transcrevemos hoje um magnifico artigo do

Correio Elvense

, devido à penna d'um dos mais lucidos e impetuosos engenhos da novissima geração.» (

Seguia-se a transcripção

.)

Diario Illustrado

:―«

Os meus amores

, contos e balladas, por Trindade Coelho.―A forja do tempo caldeia-nos o espirito á proporção que envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram ás vezes de ouvir os velhos, e parece-me que teem razão, porque nem sempre o são juizo de uma experiencia larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com singular scepticismo, este meu seculo, que está no fim, e com elle tenho vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias litterarias, revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de estylo, arrancou-se o chiró ás velhas phrases, e todo um mundo novo, extravagante e phantastico tem surgido,―mau grado as furias rabídas de escriptores paleontologicos, apparafusados á Arte e á Critica de ha 50 annos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu seculo tem-me custado amarguras aterrantes, desequilibrios de espirito e um desfolhar de verdes illusões, que eu tenho visto irem-me fugindo n'um

marche-marche

triumphal, para nunca mais voltarem,―ai! para nunca mais voltarem!...

A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica, dá-me a impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo ao pedaço de chumbo de uma capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas; Julio Machado, de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do filho,―a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros, bom Deus! Dir-se-hia que uma

má sina

persegue os homens de lettras:―quando não é a navalha de barba, é o rewolver, é a consumpção, é a tisica, é o retrahimento amargo, é o abandono proprio e alheio! Por isso o meu visinho Gervasio todo se ufana, com certo profundo bom senso pratico, da insistencia com que quer fazer do filho um

artista

pintor―de portas, e de fóra de portas...

Na

troupe

de escriptores em flôr do meu tempo,―parece-me que já lá vão 30 annos, e tudo isto é apenas de hontem!―havia, joeirados com singular amor de arte pura, uma duzia de rapazes de incontestavel valor litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos, miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam triumphantes,―poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que é quasi o mesmo, deram-se a callejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos incipientes, nas minas de oiro e de ferro da lucta pela vida. Dos

felizes

, dos que triumpharam,―como quem diz, dos vencidos da vida,―me sorria eu ás vezes em horas de bom humor, lembrando-me como elles com um livro de versos foram nomeados consules; com um tratado sobre a cultura do repolho abriram o

Banco Mineral do Douro

, por acções; com um drama em

D. Maria

foram eleitos deputados; ou como com uma critica do

Salon

de S. Francisco, se guindaram a bibliothecarios das bellas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dos

perdidos

pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os philisteus do Pará, applicando-lhes aos figados hypertrophicos a vermelha caudal da sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em Paris pelo alçapão macabro da

correspondencia

barata; Gualdino Gomes anda ahi amparando o seu rheumatismo a uma certa

maneira

de má lingua e a uma bengala de canna; Leopoldino Gonçalves viaja como medico da armada; e Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alemtejo, onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e apparece ás vezes nedio, côr de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tedio os copinhos de cognac do

Leão

...

De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias côr de rosa, o que me traz mais doces recordações é Trindade Coelho,―porque eu ligara á minha a alma d'elle, n'um tempo em que dos salgueiraes de Coimbra elle me fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas chronicas soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de affirmações de uma personalidade litteraria. A sua prosa, a um tempo humana e lyrica, dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como sabem, além de bachareis anonymos, tem-nos vindo a

elite

das letras. É da tradição universitaria, fazerem os doutores as suas primeiras armas de litteratos e de poetas, na academia, a intervallos do pesado estudo do Lobão e do direito publico, esvurmado ás cavalleiras do nariz de Pedro Penedo... Toda a nossa legião distinctissima de poetas e prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia coimbrã:―Theophilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Anthero, etc. É a affirmação do bom Antonio Ferreira feita axioma:

Não fazem mal as musas aos doutoures.

E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquerir a Junqueiro das bellezas do Codigo Civil, meio metaphysicamente original e meio copiado dos codigos de Napoleão! Ah, mas em compensação que appareça ahi o primeiro advogado a escrever a

Morte de D. João

e a

Musa em ferias

!

Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descripções n'uma bella prosa colorida e transparente, trechos de psychologia trasmontana, e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a

maneira

do proceder litterario d'este escriptor é deliciosa de côr e de verdade, sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem deslumbramentos de imagens na apparencia côr de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios ingenuos dos cordões de latão... Tem-se chegado ahi, no abuso da originalidade do estylo, a fazer uma prosa estrelicada, engommada, cabellinho á banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O burguez já conhece os processos da

chinoiserie

, e d'ahi não ha espantal-o com nephelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe elle que debaixo d'essas bellezas está a oleographia reles de porta de escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota a mosca do nariz,―muito de apreciar nos covis da municipal em Alcantara...

O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho, feito com honestidade e sem as preoccupações deploraveis que levam os corypheus da escola modernissima, mais que zolaista, á descripção e estudo de pathologias e casos sporadicos, ou não vivos, ou pouco vívidos. Este livro á quasi um parenthesis aberto como uma clareira consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos trabalhos apparecidos, do

sujet

de um dos quaes, que é em todo o caso a monographia de um caracter, assombrosamente executada, o

Gil Blas

dizia,―

qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière

...

A feição litteraria de Trindade Coelho parece-me que se define na parte do livro sub-titulada

Balladas

. Os

Arrulhos

, principalmente, são uma duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma elegia... tragica,

encadrée

n'uma linguagem côr de opala, em que a gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma obra prima. Assim a

Tragedia rustica

e a

Mãe

. Dos

contos

destaco eu os

Preludios de festa

,

Idylio rustico

, os

Typos da terra

, onde ha paginas soberbamente observadas, suggestivas,

d'après nature

. Magnifico o assasino

José Gaio

.

Trindade Coelho é inquestionavelmente um lyrico. E nem eu sei como elle chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos―

Florinhas de Luar

, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os diccionarios de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista encantador... sossobrado!―

Ignacio da Silva

.»

Nova Alvorada

:―«

Meu caro Trindade Coelho

.―Sabe você, amigo Trindade, que as palavras affectuosas que me endereçou no offerecimento do seu livro

Os meus amores

, vislumbraram no meu espirito um mundo de saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsamicas d'uma quadra primaveril que não volta mais―a vida coimbrã?

Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa mas robusta, as

suas feições masculas e energicas

, e a sua

allure

um pouco receiosa ao dobrar a soleira da legendaria Porta Ferrea.

Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando á direita e á esquerda, entrou você nos

Geraes

resignado a um diluvio de troças, martyrios, horrores...

Os segundannistas, de cuja respeitavel corporação eu fazia orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a d'um Armelim, nem um rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom Raphael do Ranhados.

Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados!

Em uma medalha d'oiro que você trazia, á guiza de berloque, na corrente!

O amigo arrancou pressuroso a

pedra de escandalo

, de forma que a tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato.

Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com accentuações de academico fallado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua individualidade a destacar-se, como se fôra um

urso

. E assim se fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feijó por causa dos versos, do Passaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel Baptista―pobre amigo!―pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.

Você desencubou o seu nome, pol-o em evidencia―o Trindade―, mas foi por causa d'um excellente resumo das lições de direito romano, d'um bello discurso no centenario pombalino, e sobretudo das suas graciosas chronicas no

Diario Illustrado

.

Ah! e lembra-se você d'aquelle anno em que formámos «republica» na rua da Trindade, tendo por creada a sr.

a

Maria de qualquer coisa, que denominavamos a

Gorda

, matrona muito caroavel e de enxundiosas formas?

Eramos uns poucos:

O Souza, que já tem o galão branco dos tribunaes administrativos, espirito facil, perspicaz e alegre, nada para massadas, que tinha orientações definidas em politica partidaria e expedientes reservados de galopim graúdo contra os progressistas da Barca.

O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o evangelho do

Correio da Noite

, sempre em questiunculas com aquelle por causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e jogador de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente dos theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada pela

Gorda

n'um cantinho do fogão.

E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe chamavamos o Pêgas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario plano, rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe diziamos que elle se applicava... 25 horas por dia!

Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspecto

sournois

, olhos á bufo, que não fallava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e contumaz!

Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas, muito guitarrista e risonho, se bem que intelligente e applicado.

Eramos mais―você e eu. Você que se mettia muito com a litteratura, fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por signal dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas de feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo condescendia em o acompanhar na guitarra.

Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribanaes de Lisboa e eu no berço da monarchia.

Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus bellos contos em um elefante volume―

Os meus amores

.

E bellos na verdade, como todos dizem.

A

Mãe

, aquella cruciante tragedia da pobre

Russa

, morta de terror e de amor, é para mim o mais apreciavel e sentido conto da sua collecção.

Costuma-se dizer d'uma mãe descaroavel, d'uma Francisca Fortunata―é uma cabra!―; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando as calumniadas affeições dos pobres ruminantes.

Quem ler as angustias da misera

Russa

, na espectactiva do filhito devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituirá áquelle inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a natural comprehensão das suas obrigações de mãe e protectora.

E os

Arrulhos

? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra. Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella producção vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de

Palomas

.

Nos restantes contos, entre os quaes me não agradaram menos

Vae Victoribus

, o

Abyssus abyssum

e o

Sultão

, revela o amigo a força da sua educada phantasia, moderada por um largo peculio de observação; a sua poderosa intuição artistica; o seu dialogo curto, vibrante e natural; o seu estylo já caracteristico pela feição franca,

saccadèe

, de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos; a verdade das suas descripções e pinturas, que, ao contrario de muitos, não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, n'uma pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa similhante.

Olhe, amigo. Eu careço de geito para a critica litteraria; mas, emquanto me é licito exprimir a minha humilima opinião, dir-lhe-hei que você alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de litterato distincto e de contista precioso; e que este conceito é merecido, attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua elegante brochura recem-editada.

Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua fineza com um abraço de―Velho amigo―

Eduardo Carvalho

.»

Nova Alvorada

:―«

Os meus amores

.―Acabamos de ser distinguidos com a offerenda do novo livro de Trindade Coelho,―o sympathico e distincto escriptor que de ha tempos se vae honrosamente evidenciando no certamen das lettras patrias, onde já agora a sua individualidade tem uma reputação firmada.

Os meus amores

é o titulo que o sr. Trindade Coelho escolheu para o seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama, segundo cremos, não é porque estas 200 paginas sejam um auto-historiographico dos idylios romanescos do auctor, n'quella aurea quadra da sua vida academica, ou um repositorio de alheias aventuras amorosas com acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario.

Não. A razão do titulo parece-nos antes proceder da affectividade psychologica do auctor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:

Folhas dispersas dos meus annos de oiro, Vivo enxame das minhas alvoradas, Tenho zelos de vós, folhas sagradas, As Desdemonas sois de um outro moiro.

Se não fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade do aphorismo―o habito não faz o monge―, porque o

Idylio rustico

, com que abre esta bella collecção de contos, não seria bastante para justificar o titulo sob que se enfeixam.

Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e a tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se que se ha na urdidura dos varios contos muitas situações que nos pintam o ridiculo, a desgraça ou o crime, poucas ha, entretanto, que nos prendam o espirito ao devaneio piégas d'um Romeu e d'uma Julieta.

Mas, ou bem ou mal baptisado, o que é consoladoramente verdadeiro é que os contos do sr. Trindade Coelho constituem uma das mais bellas collecções que no genero conhecemos.

Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores preceitos da arte.

Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das situações e dos dialogos.

Uns assumptos de felicissíma escolha, a reproduzirem fielmente costumes, a pôr em jogo com a maior verdade os vicios e as virtudes do povo.

Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade Coelho são a fiel expressão da vida rustica do nosso povo, e facil é de comprehender a importancia moral que estes livros terão quando as gerações que nos succedam queiram inventariar nas suas tradições o modo de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, n'este periodo historico em que vamos.

Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a toda a prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na narração e nos personagens.

E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de François Copée e Theodore de Bauville, a artistica encenação que, sem desvirtuar-lhe a naturalidade da fórma e do fundo, lhes imprime o attractivo romanesco que falla à imaginação do leitor.

O

Idylio rustico

, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa, e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora.

A

Ultima dadiva

é a expressão fiel de muitas scenas que a emigração multiplica cruelmente pelas nossas provincias do norte.

A acção d'este conto é conduzida com uma tal uncção de sentimentalidade, que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a commoções, se poderá esquivar a partilhal-a.

O conto―

Typos da terra

é a descripção fiel, fidelissima, da mesquinha intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de provincia.

Os Preludios de festa

são de um comico admiravel;

Maricas

é de um sentimentalismo commovente;

Vae Victoribus

de uma moralidade edificante;

Arrulhos

,

Mãe

,

Tragedia Rustica

, tudo, tudo n'este livro é bom, e de util e agradabilissima leitura.

A forma―já o dissemos―é correctamente vernacula e elegantemente rendilhada.

A titulo de amostra, para aqui trasladámos do conto―

Sultão

―este bello

croquis

de uma tarde de agosto:

«Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as suaves e brandas pulverisações doiradas da ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.

Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do azul.»

E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra á altura da boa reputação do auctor.

A redacção da

Nova Alvorada

congratula-se com o seu illustre collega por tão brilhante producção, e d'aqui lhe envia um cordealissimo aperto de mão.»

A Independencia

:―«

Os meus amores

.―Acabamos de ler o primoroso livro de Trindade Coelho,

Os meus amores

. Sem largas aspirações, modestamente, apenas com a consciencia tranquilla de quem escreve bem e com criterio,―Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume, que acaba de dar á estampa, algumas producções litterarias que a sua vida de jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de revistas e diarios.

Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogeneo o que se nos offerece para apreciar: são pequenas joias litterarias, buriladas por mão de artista e d'um fino sabor de naturalismo.

Considerado assim, sem dependencia de escola e confrontação de originaes, o livro é bom.

As suas descripções são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se acostumou, desde creança, a ler muita e a adivinhar mais na biblia riquissima e inexhaurivel da Natureza.

Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as tintas proprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos outros, deixam-nos uma impressão agradavel de realismo, e alta comprehensão. São typos exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que enjoam. Antonio Fagote é um especimen do juiz de festa das nossas aldeias, basofão e vingativo, prompto, olá! a gastar as ultimas moedas da venda do ultimo gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e a deliciosa ballada

Mãe

é uma preciosidade litteraria, magnificamente pensada escripta, digna da penna dos nossos primeiros escriptores.

Não encomíamos, pois, o valor do livro, dizendo que elle é digno de figurar ao pé das mais bellas producções dos nossos escriptores mais consagrados.»

Correio de Portalegre

:―«

Os meus amores

, contos e balladas por Trindade Coelho.

Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois não?

Eu creio bem isso, porque a verdade é que apezar da celeuma que Trindade Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento algumas antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os senhores jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico. É por isso que escolhemos para encetar esta secção a producção brilhante do distincto litterato, editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor escrupulosissimo.

Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a attenção do nosso cerebro, á contemplação da nossa alma; e essa leitura, feita n'umas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me d'

Os meus amores

a agradabilissima impressão d'uma caricia, que persiste a sorrir consoladora.

Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do

Commercio

e da

Gazeta

, tem, como viram, o poder invejavel de dar á ideia,―algumas vezes injusta, dirão alguns,―a mais correcta fórma, iriada sempre da limpidez mais viva; e isso, n'um trabalho feito agora para apparecer amanhã, à pressa sempre, n'uma fugida aos calhamaços manuscriptos que demandam a sua attenção de magistrado, e em que o periodo mais suggestivo é o do

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo

.

É-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do auctor desbasta, romodela, lima, muito tranquillamente, muito socegadamente, sob a vigilante direcção do seu delicado gosto artistico.

Os meus amores

teem poesia, e teem verdade; e na maioria dos seus differentes quadros, adoravel descripção das scenas simples da vida do campo, da natureza singellamente formosa, o sentimento vibra intensissimo, e é encantadora a phrase, que um conhecimento profundo dictou, de que uma subtil observação resáe. Ha alli retratos d'um brilho sem limite,

typos

que resumem um estudo fidelissimo.

É um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa embaraçadissimo, se queremos escolher alguma,―tão valiosas são todas.

Todavia,―e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,―

Vae victoribus

, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estylo,

Para a escola

, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de creança, e os admiraveis contos de fina graça e tão verdadeiros,

Preludios de festa

e

Typos da terra

, são os meus eleitos, depois d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre tantos quadros da perfeição mais rara, e onde a

Maricas

e

Arrulhos

captivam tambem a minha admiração.

O livro é, como todos os sahidos na

Collecção Antonio Maria Pereira

, esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em percalina.

N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'

Os meus amores

receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradavel como sinceramente.»

O Nordeste

:―«Editado pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, em volume d'impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado o primeiro livro de Trindade Coelho―

Os meus amores

, que vieram pôr em relevo as complexas e brilhantissimas qualidades litterarias do auctor, um

novo

que já hoje occupa, por direitos justamente adquiridos, um logar proeminente entre os nossos melhores escriptores.

Os meus amores

teem obtido na imprensa do paiz uma acolhida enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos leitores do

Nordeste

não dessemos conta da apparição d'esse livro, juntando ao côro unisono d'applausos as nossas sinceras saudações.

Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro primoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas historias aldeãs, d'uma simplicidade campesina, repassadas por vezes d'um sentimentalismo suave, lyrico...

A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima sympathia, um affecto antigo e vehemente, seguindo com interesse quaesquer particularidades da sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado intelligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de lêr o seu livro, e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio nol-o trouxe. E, agradabilíssima coincidencia! succedeu-nos deparar com o conto

Para a escola

, quadro tocantissimo que marca distinctamente os dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a altura em que entra na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial, de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de continuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e caracter diamantino.

Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio, deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto―sem pejo o confessâmos...―de lagrimas espontaneas nos marejarem os olhos, tão enternecedoras são essas paginas que evocam em nós as reminiscencias queridas d'um passado que não volta, e no espirito nos reproduzem, com uma precisão photographica, completa, scenas eguaes da nossa infancia, como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lêl-as e sentil-as...

Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente, que

devorámos

o livro, onde o auctor, n'um esbanjamento prodigo de verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras narrativas, descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e rhythmica, apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em flagrante,

d'après nature

, com uma extraordinaria lucidez d'observação, e um outro

caso

humano trasladado para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente artista, e que são uma eloquente affirmação da distincta personalidade de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados cultores da prosa portugueza.

Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve noticia a uma critica a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as impressões que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso caloroso para todo o livro, sem predilecções por este ou por aquelle conto; e d'aqui, d'esta columna de modesto jornal de provincia, enviamos ao nosso queridissimo Trindade Coelho, n'uma effusão d'acrisolada estima, com um aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que não deixe de ser um cultor assiduo da litteratura nacional, e continue a honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons livros.―

José Pessanha

.»

Da Revista do Minho

:―«

Os meus amores

.―Poucos livros terão vindo á luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplendidos como aquelle cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as suas paginas se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e estimavel debaixo de todos os pontos de vista.

Este volume pertence á formosissima collecção Antonio Maria Pereira, e é devido á brilhantissima penna de um dos nossos mais festejados escriptores―Trindade Coelho.

Não precisâmos alongar-nos em chamar a attenção do publico para esta obra, pois é ella sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons livros.»

Revista Illustrada

:―«

Os meus amores

.―Ha tempo,―não ha muito,―começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando, umas cartas de provincia,―

Cartas alemtejanas

, nos parece,―assignadas pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de apparecer de todo.

Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada jubilosa e cantante de um bom escriptor. Trindade Coelho entrava nas lettras portuguezas pela porta aurea dos victoriosos, apresentando natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira n'uma só peça o seu talento alliado com a sua observação e o seu estudo, sem esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamellas de apaniguados e sequazes.

Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas; escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli á mão, das scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar á solidão do seu eremiterio, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas. Era um talento e era um caracter.

Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua formatura. Bom signal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciencias do amor proprio, sacrificando ás altas occupações do seu curso os brilhos attrahentes da facil nomeada. O escriptor experimentara já o pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar.

Eis que nos apparece um dia, subito, no fôro, honrando e glorificando n'um processo de rehabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de lettras, que elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros trabalhos.

Alguns mezes de collaboração diaria, n'um jornal bem lançado e bem redigido, avigoraram no conceito publico o renome conquistado, e Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da paiz, o logar a que tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem contestar.

Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos apresentação mais prometedora e mais sympathica.

Os meus amores

são uma collecção de esbocetos, alguns dos quaes, como o

Idylio rustico

,

Ultima dadiva

,

Vae victoribus

!,

Abyssus abyssum

, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros. Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o auctor os trabalhou, solicito na sua obra, no empenho de uma execução immaculada. Não porque se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem elle era impossivel conseguir tão completo effeito, tão seguro resultado.

O estylo do prosador é, quasi sempre, firme, opulento, erudito, original e variado. Não tem reminiscencias d'este ou d'aquelle, e realisa uma das condições essenciaes que deve ter em mira todo o escriptor consciencioso: conservar uma feição propria e individual, sem se afastar da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso archaico, e contribuindo para a evolução progressiva d'ella.

Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cançaremos de louvar, em vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria facil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estylistas, procurou modo de illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas mais primitivas do povo campezino, enriquecendo n'esse manancial o thesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, scenas e quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e adoravel.

É de indiscutível belleza a pastoral com que abre o volume. Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A descripção da madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e Rosaria,―Daphnis e Chloe,―teem um sabor antigo, como o de uma narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias. É de um bom gosto supremo a fórma subtilmente delicada como o narrador, deixando primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma brutalidade instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da candura a uma situação divinamente sublime.

E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce e prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espirito aquelles dois vultos de creança a esfumarem-se nas distancias do espaço e do tempo, longe, muito longe, n'uma paizagem ideal, vista nos dias da infancia, vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio ou Theocrito, talvez mais longe ainda, na Biblia...―seguindo, com os olhos da alma, em esquecida contemplação, longe, muito longe,

«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.»

Em

Vae victoribus

!, outro quadro de mestre, ha como que um mixto do tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christão. Não é vulgar a concepção do assumpto, nem vulgar, tambem, o desenvolvimento que o escriptor lhe deu, o scenario é horrivel e magnifico. Está bem descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro se annuncia, depois se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma convulsão pavorosa e enorme; bem descripto o terror angustioso e suppliciante do misero assassino, o qual vê, na chamma de cada relampago, projectada a cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende os pés ao chão, emquanto o seu ouvido, allucinado pelo terror, lhe dá a sensação de uma voz insistente, que detraz de cada arvore, da espessura de cada moita, de cima de cada pedra, da resonancia de cada trovão, o chama inexoravelmente pelo nome:―Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio!

Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho fóros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe não engeitaria o assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria com muita maior perfeição. Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas tão engenhosas como as da

Genese de um Poema

, para alguma composição tão extraordinaria e tão transcendentalmente bella como

O corvo

ou

Ulalume

.

Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade das suas aptidões litterarias, o prosador que recortou nos mais perfeitos moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras, detem-se na commovente e lacrimosa narrativa da

Ultima dadiva

e nas ligeiras e facetas descripções dos

Typos da terra

, dos

Preludios de festa

, do

Sultão

, onde transparecem dotes de observação sarcastica, de ironia graciosa e de bem humorado espirito.

Um livro de tantas promessas não póde ser, comtudo, e por isso mesmo, um livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se abalançar a empreza maior, estamos certos d'isso. Já no final do presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado:

Batalhas domesticas

, se annuncia a transição da presente phase litteraria e artistica do auctor, para uma outra phase progressiva.

Progressiva, dizemos nós, porque assim o crêmos. Qual ha-de ser, porém, a predominante caracteristica d'essa phase? Póde a critica conjectural-a desde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazel-o. Porque, a verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que o seu temperamento litterario tem energias que lhe hão de abrir novos caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha já precedentes, que enormemente o obrigam.

Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-ha ainda de um ou outro francezismo escusado, e ha-de adquirir novos dotes de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde procural-os. Não é em lexicons, nem em alfarrabios, nem em cartapacios. É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a falar o portuguez do povo, os seus typos populares.

Não se póde ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som, da melodia. Uma das maneiras de adquirir pericia n'esta fórma de escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um exercicio util para chegar a fazer boa prosa. Não é, porem, indispensavel, bem entendido.

Contudo, não admittimos que repute possuir as qualidades completas de escriptor, aquelle que só d'uma das duas fórmas da arte de escrever seja conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima.

Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase e maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso, embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena empregar todos os esforços para attingir uma perfeição, que não está longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade continuamente o approximam.―

Fernandes Costa

.»

Aurora do Lima

:―«

Os meus amores

, contos e balladas, por Trindade Coelho. Quando prometti á

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