BALLADAS
Reading edition
A Luiz Osorio
I
MARICAS
Vocês
lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos muito castanhos, quasi louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benevola e complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o dia e de toda a noite. E vocês bem sabem que taes ellas eram, as nossas balburdias e algazarras...
Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e encantadora―a de não mostrar jamais na sua amisade preferencia por algum de nós. Dir-se-hia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e brando...
Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ella vos perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela solicitude e interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao escriptorio.
―Então esses cabulas? então esses marotinhos? Doente, algum?
―Na esturdia, Maricas. Andam todos por lá...
―Ora vejam!―fazia ella quasi escandalisada.
Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um
tête-à-tête
que durava horas, muito familiares, muito dados, quasi que chamando-lhe por tu e ella a nós!
Como eu me lembro!
Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil perguntas que lhe faziamos, e então uma grande paciencia inexhaurivel. Nós, os estroinas, quasi que chegavamos a adorar aquella ingenuidade singela do seu coração de vinte annos. A boa da Maricas era adoravel, toda ella bondade e paciencia para os nossos disturbios e para as nossas algazarras de toda a hora e de todo o instante.
Mas como se familiarisou ella comnosco e nós com ella, é que me não lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes, é que nós como que a consideravamos uma companheira de redacção, especie de directora com casa áparte e viver independente pois que se entravamos no escriptorio (parece mesmo que estou a ver aquella barafunda d'escriptorio!) e, assomando á janella, a não viamos na sua, diziamos quasi sem querer, mas invariavelmente:
―Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?
E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo, á formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde fóra, em casa da
freira
de Quebra-Costas―d'essa lembram-se vocês... No emtanto, deveis recordar-vos que ella, no dia seguinte...―coitada!―...a primeira cousa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui, estive alli, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborisada e confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar alli a aturar-nos. Por pouco ella nos não pedia de mãos postas que lhe perdoassemos, a boa da rapariga.
E nós então galhofeiros, brincalhões:
―Sem mais
aquellas
, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora essa!...
E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra:
―Pois sim, mas é que ás vezes...
―Ás vezes quê?...
«Não! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella estivesse zangada comnosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...»
―Pois não era verdade―perguntavamos-lhe―que ella adorava aquella
troupe
de bohemios?
―São todos muito bons rapazes―dizia já a sorrir.―Todos me tractam muito bem...
E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se illuminava de prazer e sorria de intima gratidão. Mas porque sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas?
Quando nos via em palestras interminaveis, nas libações do
congnac
e do café, ouvia-se lá da janella um
pschiu
! muito sibilado.
―Que manda a D. Maricas? É servida?
E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada:
―Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?
O cuidado que lhe dava o jornal!
―Ora faz favor de não fallar em coisas tristes? Olhem agora que lembrança, o jornal!
Ella então, por unica resposta, dizia-nos ás vezes que na semana passada o typographo viera queixar-se de que havia falta de originaes, quantas vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.
E por fallar em provas:―a Maricas sabia todos os signaes das emendas, todos.
―Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais n'esta palavra.
―Risco por cima, risco á margem, e um
d
cortado; é facil.
―Um
m
de pernas para o ar, e esta?
―Risca-se, e um tres cortado, á margem. Está farto de o saber...
Quando via algum sentado á meza, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse mostrando as tiras, á medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a janella, acenando-lhe com o papel:
―Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escripta d'alto a baixo.
Á terceira que se lhe mostrava, ella saía-se de lá com um
bravo
! e recommendava, solicita, cinco minutos de folga, emquanto se fumava um cigarro.
A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia a gomma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bella gomma! Em paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi sempre nos sabbados á noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era estreita atirava-se-lhe da janella.
―Maricas, ahi vae ainda fresquinho!
―'stá bem, obrigada. Vou lêr, até ámanhã.
Corriamos todos á janella, a dar as boas noites á nossa amiga.
―Durma bem, ouviu?
E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito bom, «escripto com muita graça e muito bem», como ella dizia.
Nos serões que faziamos e que por via de regra não passavam de um interminavel cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escandalos, desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da Maricas ninguem tinha que dizer senão bem; era a privilegiada n'aquellas sessões de má lingua. Quasi sempre a conversa degenerava em algazarra―um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e gemia fados com acompanhamento de violão. E era de vêr o Santos Mello, d'olhos cerrados e cabeça á banda, como cantava a sua quadra predilecta:
Sei cantigas mysteriosas, Cantigas de endoidecer, Que os lirios dizem ás rosas, Que as rosas me vêm dizer.
Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava silencio.
«Com mil demonios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...»
Todavia...―ó suprema bondade!―...ella nunca se queixava quando no dia seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes que as cadeiras tinham caido.
«Ora viam?! Não a tinhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse; palavra d'honra! d'óra ávante...»
Ella então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:
―Não, não, eu até gósto. Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora essa...
Pois, meus amigos, a boa da Maricas―morreu! vocês não sabiam! E morreu tysica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a pensar n'aquella tossesinha muito secca em que ás vezes a surprehendiamos, n'aquelle branco pallido das suas faces, no bistre das suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas mãositas de marfim...
Pobre Maricas!
Haverá tres mezes que ella me desappareceu da sua janella, onde continuei a vêl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ella tinha ido?!...
Mal diria eu que estavas no cemiterio, tão longe e tão só! porventura na valla commum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura humilde,―onde n'este instante cáe chuva e chuva! Ainda se as noites fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita resignação:
―...«Entretem-me vêl-os alegres, até me faz bem»...
Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobresinha! que n'essa phrase singela ia a revelação do presentimento que tinhas da tua morte prematura?! Triste creança que nós não mais veremos!
Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes―
bravo
!―ora não?...
...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella rebentem flôres, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as seivas...

II
PARA A ESCOLA
No
velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras lettras. A porta lá estava, amarella com fortes pinceladas vermelhas, ao cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subil-a. Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula quando a Helena entrou commigo pela mão. Fez-se um silencio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua taboada, n'um rithmo cadenciado e monotono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o senhor professor, um d'oculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:
―Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encommendinha.
Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez á escola. Ali estava a encommendinha!
―Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?
E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia mettido nem eu sabia o quê. Meu pae é que lá sabia... E alli estava eu entre os joelhos do senhor professor, com o
bonnet
n'uma das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.
―Adeus, Josésinho, logo venho cá pelo menino.
Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella.
―Não, agora o menino fica―disse-me a Helena.―Isto aqui é a escola, é onde se aprende a ler.―E agachando-se, deante de mim:―Olhe tanto menino, vê?
―Mas fica tu tambem―disse-lhe eu então.
Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, iracundo:
―Caluda, sua canalha! Não veem que está gente de fóra? Caluda, que vae tudo razo com bolaria!
Foi então que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos. Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes, cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estevão principalmente.
―Isto é preciso muita paciencia, senhora Helena, muita somma de paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.―(Pausa. Olho duro sobre as bancadas.)―Mas está bem, diga lá que a encommendinha cá fica. Em boa hora entrasse...
―Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Josésinho?
Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.
―É verdade,―insistiu por sua vez o professor―o menino ha-de estudar as suas lições, não é assim?
―Diga, sim senhor―ensinou-me então a Helena.―Hei-de estudar muito e ser socegadinho na aula, diga.―E a meia voz para o professor:―isto em casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?
Elle riu, já sabia; as creanças são todas assim, emquanto estão no mimo das mães. Mas uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam um pouco. E piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou transida.
―Faz milagres, sr.
a
Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz milagres.
Eu tinha percebido. Começava de novo a
embezerrar
, com vontade de sair quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que servia, a palmatoria...
―Mas para o nosso Zézito não ha de ser precisa, ora não?
―Diga assim: não senhor, porque eu hei de cumprir com as minhas obrigações, diga.
―Ora ahi é que está―atalhou o professor.―Vê, sr.
a
Helena? Aqui já os pequenos tem a sua obrigaçãosinha, os seus deveres a cumprir, as suas coisas...
―Sim senhor, sim, emquanto que em casa...
―Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu menino aquillo. Vão assim creados á lei da natureza, sabe vossemecê? É mau isso, pessimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?―E bateu n'um «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:―Olhe, aqui está n'este livro: «
de pequenino
...
―...
é que se torce o pepino
»―concluiu rapida a Helena, orgulhosa de saber o que estava no livro, coitada!
―Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma cousa que se cria na horta...
Risota dos rapazes!
―Ora vê isto, sr.
a
Helena? vê estes brutinhos?―E com entono, de palmatoria alta, fazendo-se carrancudo:
―Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença á sr.
a
Helena, começo n'uma ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o que se chama tudo!
E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella ameaça, os rapazes ficaram transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que elle podia pedir licença á sr.
a
Helena, e mesmo deante d'ella
cascar
de rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, socegaram; até o Estevão deixou de me fazer caretas.
―É o que vê, sr.
a
Helena―disse então victorioso, a sorrir-se, o bom do professor.―É o que vê! Um mestre sem palmatoria é um artista sem ferramenta, não faz nada.
Santa Luzia
milagrosa! Aqui onde a vê tem feito muitos doutores.
―Essa?―perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle pedaço de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito muitos doutores.
―Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não faz ao caso.
Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena. Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes investigara com magua o motivo por que a sua palmatoria não fazia um unico doutor... Morreria sem ter essa «gloria,» decerto! Forte martyrio que a Helena veio recordar-lhe!...
Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia para ir lá fóra.
―
Licéte
!―foi como elle disse, arremedando o latim
licet
. Outros havia que diziam, por troça,
Aniceto
!
―Ora já a mim me admirava,―tornou-lhe o professor.―Se tu não havias de pedir para ir lá fóra, tu...―E ficou-se a fital-o, meneando pausadamente a cabeça.―Ora vá você lá fóra.
O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.
―Olá?―chamou zangado o sr. professor.
O outro assomou á porta, contrafeito.
―Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça favor de esperar um pouco.
Poz-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:
―Tu não... tu não... tu não... Tu, olá, venha cá!
Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.
―Canalha!―gritou-lhes então, batendo o pé.―Corja de atrevidos! Sentados, já!
Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era elle, apontando para o peito.
―Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.
Mediu-o d'alto a baixo. Depois:
―Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do
regulamento
, fóra com ella. Agora, sim senhor. Ora vês além aquelle sujeito? o tal das pressas?...
―Vejo, sim senhor.
―Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra que. E sempre quero ver se tenho de vos ir lá buscar pelas orelhas.
Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor:
―Olá?
Elles assomaram, outra vez, atrapalhados.
―Então, seus cabeças d'avelã, torres de vento, então não falta nada?
Os dois pozeram-se a coçar a cabeça, muito compromettidos. Faltava com effeito alguma coisa...
―Então é ahi?
Elles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.
―Ora passa por esta vez, em attenção a estar aqui a sr.
a
Helena.―E enrugando o sobr'olho, commandou em tom marcial:―Ordinario! marche!
Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir ordens suas:
―Ordinario! marche!
Sentou-me então no joelho e perguntou:
―Olha lá, Josésinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o sr. capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?
―Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o sr. prior, dizer missas.
Riram-se. Quem sabia lá o que d'ali sairia? Mas o sr. professor fez notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendencia qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas bochechas.
―Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.―E para a Helena:―Pois olhe que os tenho conhecido, sr.
a
Helena, que respondem a pés junctos que não querem ser nada. Mau signal, pessimo, sr.
a
Helena! Quando elles assim dizem, de ordinario assim fazem, depois. Nunca são gente.―E virando-se para mim:―Mas então, Josésinho, em que ficamos? Corneta ou prior?
Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente em dias de festa, com aquella capa toda doirada...
―Muito bem, escolheste bem. «
Telha de egreja
...
―...
sempre gotteja
»―concluiu a Helena que ainda hoje é forte em adagios.
O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.
―Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josésinho, para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?
―É.
―Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor―emendou a Helena.
O sr. professor teve um gesto de indulgencia.
―Mas tu não sabes ainda, ora não?
―Não senhor.
Elle então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia na sacca era um livro.
―Querem ver que é um livro?...
―Diga―ensinou a Helena―é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá ao sr. professor, tome.
Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do meu livro.
―Muito bem! muito bem!―applaudiu o sr. professor.―Mas este livro é mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que queria ser prior, ora já?
Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquillo; mas como é que elle o sabia?
―Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar, não queres?
―Quero, sim senhor,―ensinou ainda a Helena e eu repeti.―O que eu quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.
―Primeiro do que aquelles?―perguntou voltando-me para as bancadas.
Então fui eu mesmo que respondi:―«Sim senhor!»―contente com a lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos aquelles. Até podia acontecer que o Estevão das caretas me ajudasse a alguma...
―Ora então está muito bem, estamos entendidos.―E com intenção, ferindo muito as palavras, para m'as gravar no espirito:―A primeira coisa que é precisa para prior é saber bem isto, vês?―E punha-me deante dos olhos o livro aberto na primeira pagina.―Isto aqui é já missa, chama-se o
a b c
, e é aquillo que os priores dizem quando vão para o altar.
―
Ito
?―inquiri curioso, furando a pagina com o dedo.
―Sim, isto. E amanha já me has-de trazer sabido d'aqui até ali. Hein? valeu?
―Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.
Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira lição!
A B C D E F
!
A minha primeira lição!
―Ora sabe vossemecê o que isto é, sr.
a
Helena? isto que eu tenho estado a fazer?
―Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... é...
―Não sabe, não admira,―disse complacente o sr. professor.―Puxar o gosto, sr.
a
Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vae estudar com mais gosto, digo-lh'o eu; olé se vae!
«Mas elle não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»
―Pois isso é verdade, sr. professor; mas não sei que é, custa-me a separar do menino...―disse a boa da Helena, quasi a chorar.
―Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi é que está a coisa. Pois tenha paciencia. Aprender é tão preciso como mamar―concluiu n'uma prosa que é mesmo poesia.
―Pois é preciso, é!...
E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:
―sr.
a
Helena!
―Meu senhor!―respondeu, levando aos olhos o avental.
―Já agora, espere mais um instante.
Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula. Depois, intimou:
―Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo um pouco.―E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:―Ora é alli, sr.
a
Helena, alli é que é o logar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe não deve pesar.
E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo, lagrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu logar...―o meu primeiro posto na arriscada milicia das lettras...
Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por acenos com a pessoa que estava de fóra. Pequeno como era, percebi, no emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica:
―Bolos?... Não?!... Perdoe a sr.
a
Helena, mas isso, quando forem precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a mão?... Está bem... Descance... Mesmo com a mão...
E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...
...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que principiei n'esse dia. Não volto mais á escola! Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquelle beijo―dulcissimo beijo aquelle!―que tu então me déste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena?
Em Coimbra,
no dia do meu acto de formatura.
TRAGEDIA RUSTICA
I
Madrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, á porta do José Grillo
Truz! truz! truz!
Os de casa acordaram, sobresaltados.
―Schiu! nem pio!―fez o José Grillo para a mulher.―Moita!
―Truz! truz! truz!
Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a chamar pelo pae.―Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria divertir...
Mas logo outra vez na porta:
―Truz! truz!
―Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José Grillo, zangado. E pois que se poz á cóca, de orelha fita, olhos cravados na telha-van do casebre, sentiu distinctamente os passos de alguem que fugia.
―Eu não te disse? aquillo foi bruto que se quiz divertir―explicou elle para a mulher.
Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á ideia que lhe tinham vindo pôr zôrro...
―Ó mulher, queres tu ver que ha novidade?
De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do casebre.
―Elle que demonio de embrulho...?
Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma creança, envolta em dois trapinhos muito velhos.
―Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a creancinha.
―Grandes cadellas!―E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a gente da casa.
―Andem! a pé! levantem-se! está aqui este innocentinho que vem dar os bons dias á gente!
Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grillo mettera a creança na cama, visto que a pobresinha estava gelada...
―Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha do Antonio das Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.
Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites que chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a rapariga que ia correndo:
―Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquillo que fôr.
Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de pé no meio da casa, a saia amarella deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito embezerrada, permanecia sem dizer palavra.
―Ó mulher, nada de afflicções, é tal e qual como se fosse nosso, faz de conta...―observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar taciturno da femea.
Ella só redarguiu que
nosso
era um modo de fallar. Seria d'elle, mais de qualquer desavergonhada...
O José Grillo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e pregou-lhe uma gargalhada.
―Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E deixa-te de cantigas, que hoje é dia de entrudo.
A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé da creança, affirmando-lhe ás risadas que sim, que o pequeno era filho d'elle.
―O pequeno?... mas é que pode ser cachopa―disse o José Grillo para a mulher.―E certificando-se:―Nada! é rapaz.
Seguiu-se uma altercação. A senhora Joanna, a chorar, ia jurando pela sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.
―Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, braços no ar, o balandrau da saia amarella enfiado pelo pescoço n'um geito de sobrepeliz.―Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae ser de mim!
―Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz―disse-lhe de lá o José Grillo, muito fleugmatico, debruçado sobre a creança.
Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalhaço, muito afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grillo virou-se para ella e disse-lhe muito solemne:
―Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.
Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se logo para elle, olhos esbugalhados, muito suspensa.
―Juras pelas cinco chagas, ó homem?
―Juro pelas cinco chagas.
―Assim te Deus dê saude, ó José?
―Assim me Deus dê saude.
―Preto sejas tu como o teu chapeu?
―Preto seja eu como o meu chapeu.
A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da Conceição, pegada na face interna da tampa, com boccadinhos d'hostia.
Depois desabafou, muito aliviada:
―Ai!
O José Grillo poz-se a rir.―«O demonio da Joanna, com ciumes!»
―Mas ciumes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo tens tu ciumes?―perguntava muito casto o amigo José Grillo, serenissimo deante da mulher desconfiada.
A outra, muito delambida, redarguiu com ironia―«que o seu homem era um santinho...»―O José Grillo ia defender-se. Mas ella, atalhando logo, reguingou d'alto:
―Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a cadella que engeitou este...
Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:
―Mas quem seria a grande cadella?
Poz-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguem, murmurando phrases d'odio, moralistas:
―Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo entranhas de lobo.
O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do José Grillo.
―É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar―disse contristado o lavrador.
Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas.
―Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demonio vens tu cá fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?―E deu um bofetão na filha, «para que soubesse dar o recado».
A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é que a mandara para levar a creança, porque ella, adoentada, fazia-lhe mal sair de casa assim cedo...
―Só se lhe queres tu dar de mamar―insistiu ainda o José Grillo, virado para a Dorotheia, irreverente pelos seus dezenove annos inda virgens.
A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse:
―Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.
―Eu sei lá se não se dizem?―observou o lavrador, muito zangado.―Dá cá d'ahi o pequeno.
Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao José Grillo. O lavrador depol-o nos braços da Dorotheia, com mil cuidados, e depois elle mesmo ajudou as mulheres a ageitar o pequenino, em termos que fosse bem quente.
―Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá appareço, p'ra ver isto do ajuste.
A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que tinham alli ficado os farrapos, gritou para a rapariga:
―Ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto.
Então poz-lhe os farrapos ao hombro―uns pedaços miseraveis de velha chita―e a Dorotheia partiu onde á irmã.
II
Quarta-feira anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de Antonio Palma, casado com Rufina Maria
O Antonio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher, a Rufina, principiava a lavar a louça, quando á grade do quinchoso uma voz chamou:
―Ó sr.
a
Rufina!
Vieram os pequenos, veio o Antonio Palma, a mulher com as mãos fumegantes. Foi preciso fazer calar o
Farrusco
para se poder ouvir o que dizia aquella mulher que lhes estava fallando do caminho.
―Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.
O Palma foi abrir o cancelorio. E foi com grande desgosto que deu de cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Thomaz negociante de gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os proprios pequenos olhavam desconfiados e silenciosos aquella grande mulher gorda que elles não conheciam. Ella sentou-se logo n'um sacco, muito esfalfada, emquanto o Palma e a mulher affectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se, com tregeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O
Farrusco
investiu com a mulher, achando-a extranha; mas uma vez enxotado com o pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silencio, e a mulher começou assim:
―Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias. Já veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá em casa de minha mãe aquillo é uma grande miseria, passam-se dias que não comemos. Não ha uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem geitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando n'este estado, bem veem como eu ando...
Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miseravel. O Palma e a mulher diziam não sei que monosyllabos, o
Farrusco
rosnava. A outra proseguiu:
―Não é por mim, sabem? não é por mim. É este innocentinho que tem de nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse... Coitadinho!
Ergueu-se n'um impeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o Palma e para a mulher.
―Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.
O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lastima. Cada um de seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo se havia de arranjar, que socegasse.
―Que a fallar os pontos de verdade, sr.
a
Fortunata, vossemecê é que tem a culpa d'esses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.
Ella escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.
―Má sorte d'aquelle pobre José Thomaz, acabou-se! Quando elle casou com vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.
Ella chorava cada vez mais, parecendo muito afflicta.
―Agora ahi o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado, nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vae a uma feira. Pois olhe que era homem para junctar, videiro como poucos.
Poz-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos attonitos. Depois continuou:
―Esteve aqui um d'estes dias, por signal que sentado n'esse mesmo sacco...
A Fortunata levantou-se n'um impeto, como se o sacco a repelisse. O Palma proseguiu:
―Sente se vossemecê, mulher, o sacco não faz ao caso. Pois foi ahi mesmo que elle esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal. Que a bem dizer elle quasi não conversa, anda a modos que amalucado, sempre a levar a mão á cabeça, como se lá dentro aquillo andasse azoado. E mais é que bem póde o rapaz dar em doido...
A senhora Rufina foi de parecer que doido já elle andava. Passavam-se dias que não apparecia em casa do tio José Garção, que o levára logo para elle, mal a sr.
a
Fortunata o deixára. Por onde andava? que fazia? Contava-se que uma noite dormira n'uma coutada, no mesmo telheiro que os porcos. Que d'outra vez fôra ter com o vigario para que lhe baptisasse o filho, dizendo que já tinha nascido.
―No filho inda elle aqui se poz a fallar, lembrou o Palma.―Anda com ella ferrada que o filho já nasceu.
Aqui, a Fortunata, de pé junto á porta, rompeu n'uma choradeira, ouvindo fallar no filho. O Palma interveio, condoido, dizendo que se não affligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.
Ella ia ajoelhar, o Palma não deixou.
―Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por vossemecê. Mas é que o innocentinho que ahi traz esse é que não tem culpa. Faço de conta que é o pae que me pede, o pobre José Thomaz. Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Thomaz. Diabo! a gente já diz
era
, já falla n'elle como se o pobre tivesse morrido...
N'isto vieram chamar o Palma, que no lameiro alli embaixo andavam uns bois que não eram d'elle. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois, quando já ia para sair, disse em resumo:
―Fique vossemecê então, sr.
a
Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ella inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.
Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para domingo gordo, desentupiu e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha feito uma caricia, quando por volta do meio dia a avó do pequeno alli chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota aos cevados, ficou espantado:
―Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, sr.
a
Anna!
Ella, sem mais rodeios, perguntou se a creança já tinha nascido.
―Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha d'ahi.
Mas iam ainda á porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe perguntou n'um sobresalto:
―Vivo ou morto, sr. Antonio?
O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a creança nascesse morta. Aquillo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a pontapés. Conteve-se. Mas todo elle vibrou de colera, quando em presença do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de fazer.
O Palma, furioso, repelliu a mulher com despreso. E como ella insistisse com a pergunta: «que se ha de agora fazer a isto?» elle redarguiu, irado;
―Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se ha de fazer á creança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar...
A velha ia fallar.
―Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu uma cadella quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer cadella vale mais que vocês duas.
O Palma ia-se pondo amarello, a sr.
a
Rufina interveio, aconselhando-o a que saisse.
―Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a egua e vou-me de vespera até á feira.
Poz-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da egua.
―Tanto faz ir ámanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mette-me qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a egua.
D'ahi a meia hora, o Palma montava á porta, no meio do rancho dos cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:
―Em estando capaz, rua!
―D'aqui a tres dias, talvez...
―Então até d'aqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando esses estafermos sairem.
Ora o Antonio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fóra―com o embrulhinho do neto ao colo...
Como ella corre, a maldita! Parece que o leva roubado...
Onde passou ella o dia? Onde passou ella a noite? Não sei. Caso é que na madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino á porta do José Grillo.
Madrugada de fevereiro, nevava...
III
Quando a Dorotheia saiu com o pequeno, para o levar á irmã, tinha amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidissimo retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquella atmosphera de gelo. Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto, faziam-lhe mais viva e mais cortante aquella impressão de frio. O chão estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céo muito azul annunciava um dia de sol.
A rapariga ia triste. Dir-se-hia que a tristeza lhe nascia toda d'aquelle lado em contacto com o pequenino...
Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe perguntou o que levava alli, erguendo a voz sobre o ruido forte da levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um engeitadinho.
―Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.
Mas o moleiro, que vinha chegando, espécou deante da mulher, e repetiu como um echo:
―...Um engeitadinho.
Entreolharam-se os tres, n'uma incerteza vaga.
―Sim, um engeitadinho, deve ser isso...―continuou o moleiro.―E d'ahi... póde ser que não seja...
A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.
―Nada! pode ser que a historia seja outra―elucidou o moleiro.―Onde foi que isso foi posto?
―Esta madrugada, á porta do José Grillo.
―Olá! isso então pode ser coisa d'elle―observou a rir o moleiro.―Esse diabo não é seguro.
Pozeram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôz-se a explicar á rapariga:
―É que hontem á noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a modos que adoidado. Boa figura d'homem, por signal. Assim ás primeiras, tanto eu como a Luiza tivemos o nosso medo...
―Ó Dorotheia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobresinho ha-de ter fome.
A Dorotheia passou a creança para os braços da moleira. Foi uma alegria ao verem-no sugar no peito, minusculo, com os olhitos inda fechados.
―Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria a desavergonhada?...
―Mas depois? inquiriu a Dorotheia, voltando-se para o moleiro.
―Depois, dormiu cá, ahi lhe demos da ceia e ahi ficou. Mas dá-se o caso que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, n'um fallatorio pegado. «Que o filho era d'elle, que se a cabra da mãe teimasse em o engeitar, elle ia dar parte á justiça.» Um arrazoado assim, muito comprido.
Espantada, a Dorotheia ia fallar.
―Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que onde elle o tinha escondido ninguem lh'o ia roubar.
Ficaram-se um instante a mirar consolados a creança.
A pobresinha vagia, mamando com sofreguidão.
―Mas então sempre elle sabe do filho, reatou com interesse a Dorotheia.―Ora! assim este engeitadinho soubesse quem era o pae, coitadinho!
A sr.
a
Luiza, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar compungido:
―Um doido, o pobre de Christo! Deixal-o ir!
Fez-se um silencio, mirando todos a creança. A taramella do moinho batia, n'um rithmo vivo. Maquiando uns saccos, o moleiro explicou ainda que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquellas horas, o outro lhe respondera:―«Para a feira. Vender um gado.»
―Ora vá lá o diabo entender isto!―rematou por fim o moleiro. Um doido a vender gado.
Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Dorotheia, com pressa por causa da irmã, pegou outra vez na creança e abalou pela porta fóra, direita á casa do pae.
―Olha os trapos, ó Dorotheia! olha que deixas cá isto.―E o Paulo correu a levar á rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram todo o enxoval do triste pequenino...
Ia mais contente, a Dorotheia. Ao menos levava a certeza de que a creança não ia com fome. E para que tambem não fosse com frio, a boa da rapariga achegava ao peito o engeitadinho, n'uma solicitude toda materna.
―Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja capaz d'estas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um innocentinho, embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José Grillo não dava fé! Alli se morria de frio o anjinho, capaz de virem depois os cães e comel-o.
E espreitando pela fenda estreita do chale:
―Meu anjinho! que ruim cadella que foi a tua mãe, ora foi?
―Foi! rugiu uma voz detraz d'ella, como um echo.
A Dorotheia deitou a fugir, espavorida. Mas aquelle homem que já de longe a acompanhava, sem ella dar fé, corria tambem atraz d'ella, e não tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair com o susto; mas valeu-lhe que n'esse mesmo instante uma voz que ella conhecia gritou alli de perto:
―Larga a rapariga, ó José Thomaz! Larga a cachopa!
E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.
―É o José Thomaz que está doido,―explicou o pastor.―Desde que a mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!
Mas palavras não eram ditas, eis que o José Thomaz de novo se arremessa á rapariga.
―Tu que levas ahi? Tu levas ahi o meu filho!―rugiu elle com voz furiosa.
E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas, impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...
A Dorotheia cobrou animo, ao ver-se rodeada de gente.
E fez-se luz no seu espirito, quando reparou que os trapos do engeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a rir-se...
―Conheces? perguntou-lhe a rapariga.
No extasi em que cahira, mirando e remirando os farrapos, o doido não respondeu.
―Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.
Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como estava de joelhos, quizeram levantal-o; mas elle então oppoz-se, caindo sobre os calcanhares.
E ria... ria... emquanto dos olhos amortecidos, cravados no miseravel farrapo, as lagrimas corriam, copiosas...
Mas d'ahi a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram percebendo. Os farrapos que embrulhavam a creança eram da saia da mãe. A mãe era a mulher do José Thomaz, e o pequenino era filho d'elle... A grande cadella tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao homem!
―Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.―Ora vês ahi um estafermo que precisava que a matassem!
O José Thomaz poz-se a rir muito, fitando aquella gente. Uma forte impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.
―Ó Dorotheia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pae deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.
Mas não foi preciso; que o José Thomaz, sempre de joelhos sobre a neve, foi para ella de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos labios do pae a rapariga achegasse o pequenino, no silencio que se fez ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.
Como se fôra uma chuva de petalas, do céo de madreperola a neve cahia mais densa...―ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como no seio immenso de um orgão, o vento sul―gemia...

ABYSSUS ABYSSUM...
N'esse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. Assim elles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de ameaça, aquellas terriveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia que lhe appareceram em casa tarde e ás más horas.
―Ouvistes?―ralhara-lhes a mãe.―Olhae se ouvistes: se voltaes ao rio, mato-vos com pancada. Andae lá...
Ih! como ella dissera aquillo, Mãe Santissima! Colerica, ameaçadora, com a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob aquella ameaça terminante. E então, n'esse dia, elles não tinham ido ao rio. Aos passaros sim...―lá estavam as calças rotas do Manuel a dizel-o―...aos passaros é que elles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe que o soubesse...
Ah, mas então não os deixassem dormir n'aquelle quarto. Logo de manhã, mal abriam as janellas, a primeira coisa que viam era o rio, uma corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos salgueiros. Lá estava a ponte velha, d'onde os rapazes se atiravam despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do fidalgo,―lindo barquinho!―sempre á espera que o fidalgo o desamarrasse para passar á grande quinta que tinha na margem de lá.
De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois rapazes era o de irem por alli abaixo, muito madrugadores, tão madrugadores como os melros, metterem-se dentro do barco, desprendel-o da praia, e deixal-o ir então por onde elle quizesse, comtanto que fosse sempre para deante... Quando fechavam as janellas para se deitar, a sua vista seguia, mesmo atravez da escuridão da noite, a linha que ia dar ao barco. Era o seu―«adeus até ámanhã!»―áquelle pequeno objecto que valia thesoiros, que para os dois valia mais que tudo, tudo...
Ah! tivessem elles assim um barquinho, que não queriam mais nada...
―Mais nada?
―Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.
Mas n'essa manhã, bella manhã, na verdade! a mãe viera acordal-os mais cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida―gente que passava para os campos, os solavancos dos carros no empedrado pessimo da rua, os patos da visinhança que saiam em rancho para a digressão pelos prados, grasnando ruidosamente, levantando-se em vôos curtos, espantados da aggressão accintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que alli perto se ouvia o retimtim agudo do martello do ferrador atarracando cravos na bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e vagaroso, as chaves da egreja na mão esquerda e na direita a cabacita do vinho. E áquella hora, onde iria já a missa! A ultima beata, encapuchada e lenta, recolhera, trazendo comsigo a esteira em que ajoelhára na egreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, dava com valentia n'um carro cujo eixo
ardera
na vespera, e que era urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a loja, e subira á varanda a regar os mangericos. Começos da labuta diaria, emfim; os senhores sabem.
Pois como lhes disse, a mãe viera n'essa manhã acordar mais cedo os dois pequenos.
―Fóra, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal está! Ai, ai, dia claro ha que tempos, vem ahi o sol, e os morgadinhos na cama.―E emquanto fallava, ia-lhes abrindo as janellas.―Persignar e vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem.
E poz-lhes tudo sobre a cama.
―Mãe, a benção!―balbuciaram os dois, tontos do somno ainda.
―Deus os abençôe. Que Deus não abençôa mandriões, ouviram? Ora eu já volto. Queira Deus que não vos encontre cá fóra, tendes que ver.
Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os olhos áquella hostilidade viva da luz que invadira o quarto n'um jacto repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito que elles afagavam n'uma ultima caricia, suavemente, docemente. Seria tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!
Mas a mãe não tardava alli. Era preciso vestirem-se, que remedio! Foi então que o Manuel, mais esperto do somno, olhando para o campo o achou encantador, todo resplandecente de verduras.
―Bonita manhã, não vês? As arvores parecem mais lindas, repara. Porque será?
O outro encolheu os hombros, não sabia: só se fosse por não haver nuvens...
Pela janella aberta, avistava-se um trecho de paizagem que a luz viva da manhã fazia muito nitida. As vinhas tinham um verde encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares humidos das baixas. Revestidos de folhagem, ascendiam ares fóra os olmos gigantescos. Pedaços d'horta estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.
Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que n'essa manhã deslisava muito sereno, esverdeado d'aguas, espelhante sob aquelle céo immaculado.
―Ah! ah!...―riu-se o Manuel, contemplando-o.―O rio! Que te parece? Olha que é lindo, o rio; ora é, ó Antonio?
―É, lá isso... Mas
tamem
de que vale?―tornou-lhe com desalento o irmão.―A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han?―E mirando por sua vez a paizagem perguntou:―Já reparaste no barco, ó Manuel?
―Tão bonito!
Os dois riram.
―Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara.
―Podera!...―explicou o Manuel―...amarrado com uma corda...―E depois radiante, gesticulando para o irmão:―Mas eu era capaz de o desamarrar...
―Ai eras!―disse duvidoso o Antonio, para o incitar.
Calaram-se. Era bom podel-o desamarrar, lá isso era. Ambos dentro d'elle, sósinhos, isso é que seria bom! E elles então que estavam mortos por ir ás azenhas, e pelo rio era um instante emquanto lá chegavam. O barco! Era tão bom andar no barco! E aquelle então era lindo, como não tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido―olhem lá não esquecessem!―aquellas tardes em que o fidalgo os levara dentro do barquinho, ensinando-lhes como se remava.
O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito á janella. Passava n'aquelle instante um bando de andorinhas, chilreando.
―Está um dia lindo, avia-te.
―Olha avia-te! p'ra que?―perguntou o Antonio torcendo e retorcendo o pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.
O Manuel sorriu-se, triste.―Era verdade... Aviarem-se p'ra que? A mãe não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada se desceis a ladeira.» Já se vê que depois d'isto...―E os dois suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!
N'isto o Antonio chegou-se tambem para a janella. Que lindo, o campo! Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demonio de tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo o comprimento, uma faxa azul-clara destacava nitidamente, parece que apenas meio palmo acima do nivel da agua.
―Táte, ó Manuel! E se fugissemos?
―Ora! se fugissemos!... E depois? A gente tinhamos de voltar...
Ora ahi esta! isso é que era o peor! A mãe, depois, era capaz de fazer o que tinha promettido. E arregalando muito os olhos, imitando a colera da mãe:―«Se voltaes ao rio...» Ai, ai, a triste sorte!
Recahiram em silencio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia ao nascente, n'uma explosão violenta de luz, accendendo coloridos na largura muito ampla da paizagem.
―Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com alegria o Manuel.
―Mas é que está, palavra que está. Agora é que ha-de ser bom andar dentro d'elle...
Os dois riram-se muito áquella ideia encantadora de andarem no barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso, cobrando animo, o Antonio disse resoluto:
―Olha agora o medo! Seguro que nos mata.―E puxando-o pela jaqueta:―Vamos lá, ó Manuel?
O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não vinha, disse baixo ao irmão:
―Á tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão facil dar pela nossa falta, alli á tardinha. A gente finge que vae para o adro. Levam-se os peões...
―Ha-de ser mesmo assim! á tardinha!―concordou o Antonio.―Eh! eh! tu cá desatraco.
―E eu remo,―disse logo o Manuel com gesto de quem remava.
―Ao leme vou eu: o leme é aquillo que regula―explicou.
―Pois sim, mas á vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quizeres assim...
―Pois está bem, quero! Assim mesmo é que ha-de ser!
E recapitulando, para melhor ficarem combinados:
―Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?
―Remas.
―E tu regulas, ora regulas?
―Regúlo.
―Ao p'ra cima é ás avessas, ora é?
―É.
Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se impozeram segredo...
―Schiu!...
―Schiu!
A tarde descahia limpida. Na vasta cupula do céo, penachos de nuvens alvejavam, immoveis.
Accesas n'aquella explosão rubra do occaso, as arestas dos montes franjavam-se de purpura e oiro, na decoração magica dos poentes. Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquilla dos crepusculos, e uma quietação dulcissima e vagamente melancolica entrava de adormecer a natureza para o grande somno reparador de toda a noite.
...E a tarde ia descahindo, cada vez mais limpida.
N'aquella luz indecisa de crepusculo que mansamente se ia accentuando, os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, immobilisados n'um fundo em que se iam apagando ao de leve todos os cambiantes de luz. Os pormenores da paizagem perdiam-se n'aquella indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma especie de silencio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida n'um como spasmo amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as formas ás coisas...
Muda de gorgeios, atravessando o espaço em vôos muito rapidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. Cahiam já pesadas sobre os valles as sombras das montanhas, e um fumosito subtilmente azulado nadava á flor das coisas, velando-as para o tranquillo somno em que iam adormecer.
E a tal hora e no meio de tal silencio, o barquinho branco deslisava mansamente sobre a agua tranquilla do rio, onde as primeiras estrellas começavam de lampejar. Dentro d'elle, os dois irmãositos silenciosos iam-se deixando enlevar n'aquelle ruido suave dos remos abrindo fendo nas aguas... Não! era bem certo que elles não tinham jámais sentido uma tão poderosa e viva alegria―alegria doida que lhes trasvasava do peito, fundindo-se em energia nos musculos e crystallisando-se nos labios em sorrisos.
Dentro d'aquelle adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres de admoestações alheias, sósinhos, independentes. E esta feliz convicção de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de alegria. Por certo elles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o seriam jámais?... No emtanto a noite accentuava-se. Espertava nas margens o marulho da agua nas raizes fundas dos salgueiros. No céo alto e sereno scintillavam as estrellas em cardumes.
―Remas, Antonio?―perguntou o do leme.―Olha se a vês...―E apontava para Vesper, a estrella que mais brilhava.
Tinham os dois concebido o extranho desejo de alcançar a estrella cujo brilho diamantino os fascinava. Tão linda!
―Anda-me tu com o leme!―tornou-lhe com intimativa o Manuel.―Ai a estrellinha! Deixa que ella faz-se fina, mas havemos de passar-lhe adeante, só por isso...
―Olha o milagre! Ella está quêda!―fez o outro, convencido da facilidade da empreza.
―Está quêda, está quêda, mas sempre na frente de nós; vae lá entendel-a. Olha como brilha, ó Antonio.
―Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito d'aquella fraga é que ella está.
Não era difficil passar-lhe adeante, qual era? Era menos de meia hora era certo alcançal-a.
E engastada no azul escuro do céo, a estrella parecia brilhar mais, quanto mais a olhavam.
―De que são feitas as estrellas?―perguntou o mais novito.
―De prata, pois está visto.
Então o outro, lançando um amplo olhar á vastidão infinita do céo, exclamou:
―Eh! tanta prata!
―O sol, esse é d'oiro―disse ainda o Manuel.
―Bem de ver!―volveu-lhe convencido o irmão.―Que eu, se me dessem á escolha, antes queria as estrellas. Olha que rebanho!
―Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais grande.
E emquanto fallavam, os dois não desfitavam olhos da estrella feiticeira que perseguiam. Os remos, no emtanto, iam abrindo fenda na agua, com certo ruido muito doce... E lá no alto céo, dir-se-hia que de instante para instante a feiticeira estrella mais brilhava, incitando-os.
―Vêl-a a fazer assim?―e poz-se a pestanejar, imitando a palpitação crebra e irregular da luz sideral.
―É que tem somno―respondeu o outro.
―Olha que não. Aquillo é a fazer-nos negaças,
tamem
t'o digo.
―Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo, bem se afoga...―E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:―Eh,
boieira
!
N'este momento, uma estrella cadente abriu esteira de prata no azul, sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram em tom de reza as palavras rituaes:
Deus te guie bem guiada, Que no céo foste creada.
―Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.―Torna a apontar para ellas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.
―A ti talharam-te o ar, ó Manuel.
―Diz a mãe. Á meia noite levaram-me á fonte e esparrinharam-me agua para o corpo. E a agua havia-de estar fria... observou, encolhendo os hombros. Depois, viraram-me para as estrellas e disse então a mãe:
Ar vejo, Lua vejo, Estrellas vejo: O mal do meu corpo Pr'a tráz das costas o despejo.
Riram muito. O Manuel, despidinho, coiracho ao colo da mãe, havia-de ser engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.
―Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por anno, ao menos uma vez por anno, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as
cinco chagas
, umas estrellas que além estão, e rezar uma Ave-Maria.
―Sempre, sempre?
―Até que morra. Depois de morrer vou morar tres dias com tres noites dentro de uma.
―Ora! tornou-lhe incredulo o irmão.―Tu não cabes lá...
―Não sei: assim é que anda nos livros.
...Mas os braços doiam já dos remos, doiam muito...
Devia ser tarde, e elles sem darem fé, enlevados como iam no desejo louco de alcançar a estrella.
A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um silencio continuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a agua da corrente ia espumando na quilha, com certo ruido de uma brandura suavissima e doce.
...Mas os braços cada vez doiam mais!...
Agora, no céo, havia muitas estrellas brilhantes, muitas, mas nenhuma como aquella, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar menos para ella, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o peito, e as palpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.
...E os braços sempre a doerem!...
Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente, cortando-a com levissimo ruido. Immobilisara-se tambem o cabo do leme, sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do subito desleixo do outro.
...E os braços já não doiam, nem ao de leve sequer...
O pequeno barco vogava agora á mercê da corrente, sem impulso algum extranho. Dentro d'elle... a musica levissima das respirações dos dois pequenos adormecidos...
Algum tempo assim. Senão quando, um ruido surdo, e logo um movimento brusco de balanço, fez acordar o do leme.
Na grande allucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou immediatamente:
―Manuel! Ó Manuel!
O remador acordou, sobresaltado.
―A estrella? Ainda lá está, olha!―disse incoherente, estonteado pelo somno.
―Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!—-continuou afflicto o Antonio.
―Então não lhe passamos adeante?―perguntou ingenuamente o Manuel, referindo-se ainda á estrella.
Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamal-o á realidade, de novo lhe gritou, com lagrimas na voz:
―Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!
E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam n'um choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrivel susto que a hora e o logar augmentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho aquelle marulhar continuo da corrente, affligia-os como se fosse o psalmodear monotono e rouco de uma legião de espiritos maus, preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os rochedos informes das margens affiguravam-se-lhes negros gigantes, que n'um requinte de malvada indifferença houvessem jurado assistir impassiveis e mudos á escura tragedia da sua desgraça.
E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem d'alli. Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguem viesse acudir-lhes, alguem que ouvisse de longe os seus afflictivos gritos.
Crudelissimo transe!...
E então os braços continuavam a doer, doia-lhes agora o corpo todo, ao mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes opprimia o espirito, parece que embrutecendo-os.
―Mas a estrella sempre além...―notou ainda o Manuel, balbuciante de medo, como se quizesse increpar a propria estrella da sua indifferença criminosa, no meio d'aquelle enorme infortunio em que por causa d'ella se haviam precipitado.―Se ella podesse acudir-nos...
Até que por fim, prostrados da fadiga e das lagrimas de novo se deixaram adormecer, era já alta noite.
Mas na sua furia constante, a corrente que alli era muito forte não cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as aguas se contorciam em remoinho, e entrou de girar com elle, violentamente. Quando a agua se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de subito acordados romperam em gritos lancinantes:
―Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!
Tinha surgido a manhã, serena, tranquilla, cheia de gorgeios e de azul. Mas como ninguem acudisse e a lucta no rio fosse desegual, n'um repelão mais violento o pobre barco esphacelado investiu de proa com o abysmo e lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ultimo paroxismo da sua enorme dor desesperada, os dois irmãositos abraçados sumiram-se tambem com elle!...
...N'esse mesmo instante...―e mais longe do que nunca―...a estrella feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!...

MÃE!
Ao dr. J.C. da Moita Prego
Bella
cabra, a Russa!―posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada, luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva de porte quando á frente do rebanho parecia commandal-o, badalando cadencialmente o seu chocalho enorme―tlão! tlão! Era no rebanho a que mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilancias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia arvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
E depois, alli onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas vezes illudira ella a attenção do pastor, e se ficara por hortas e quintalorios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro. Por isso Alipio José, pastor, a quem doiam as denuncias, ao pescoço da Russa prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais facil rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito mais grave.
Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia gosto vel-a trepar ás ultimas cumiadas, subir destemidamente ás arestas superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas, pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as hervas dos declives alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e corregos, saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas excursões arriscadas de
touriste
.
Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que encontrasse por essas paragens era para ella um desespero―tamanha a furia com que a perseguia, e a insistencia com que se ficava ás marradas na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o Alipio que dormia á sombra das azinheiras, de chapeu sobre a cara, levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu vozeirão que fazia echo:
―Toma tento, Russa!
E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alipio José ficava-se a olhar a cabra, invejoso d'aquella facilidade em subir aos ultimos pinaculos, admirado dos saltos que ella fazia para salvar gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria infallivel. E por lá andava dias inteiros a Russa, n'aquella vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho, resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam ninho.
Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por lá se deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia quiz ella descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio José gritara cá debaixo, cada vez mais desesperado:
―Volta ao rebanho, Russa!
E, cuidando que mais lhe feria assim a attenção, punha-se a agitar com furia o mólho dos chocalhos, gritando sem cessar:
―Russa! torna ao rebanho, Russa!
Mas impossivel! que a não deixava a quebreira em que toda ella ficara do parto, nem o pequeno poderia―pobresinho!―descer por taes ladeiras, de pedregosas e asperas que eram.
Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno congelava unindo-se á mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o aconchegava mais e mais para lhe transmittir o natural calor do seu corpo enfraquecido e doente.
Por altas horas da noite, na solidão lugubre d'aquelle sitio, alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido da mãe, traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao vagido fraco do filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.
Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por taes frios e doenças, impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e mais n'um como abraço de eterna despedida―amigos que se iam apartar para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade, soluçando e gemendo, n'um adeus! que era infinito, como o infinito amor que os unia...
E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle fôra o signal para o transe derradeiro...
Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abobada, as estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa indifferença por aquella dôr suprema de que eram as unicas testemunhas.
E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céo a vida do filho, ao menos,―ora supplice em balidos de resignação que uma profundissima dôr ungia, ora desvairada e louca, em gritos que significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o céo que a não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe estrangular o filhinho que ella amava tanto.
E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dôr―a ironia acerba da chocalhada longinqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra banda, deixando-a a ella sósinha com o filho, á espera da morte que era inevitavel.
Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar fóra o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, n'um adeus! adeus! de despedida ás companheiras felizes que lá iam, n'um ruido longinquo de chocalhos...
N'aquella solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam e o sangue circulava.
E o cabritinho sem poder ainda descer!...
De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e tremula, como que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio, lá baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio.
Impossivel! impossivel!
E sentia-se enfraquecer á mingua de sustento, pois a herva, por alli, estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres dias.
N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito, assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo...
Impossivel! impossivel!
Nada que signifique a dôr d'aquella mãe, e traduzir possa em linguagem toda a gamma de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia, estendido para alli, na prostração pesada do ultimo desalento; animava-o com caricias, aproximava-lhe da bocca os uberes já flaccidos e amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse levar ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe afflictivo...
Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a ultima cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues. Á medida que a treva se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte, accentuando-se cada vez mais a melopéa somnolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos volateis de arminho, cortavam em vôos mansos a profundidade calma do céo, demandando os pombaes e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo. Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas rastejavam apressados os reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama...
...E tudo tinha ninho―pombas que voavam e perdizada sonora, quem passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou alegremente o seu dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia ámanhã...
Só a desgraçada cabra, alli, junto do filho tenro, não mais fizera passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração alanceado de mãe. Ahi vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...―o filho que já tremia a ella aconchegado―o triste pobresinho!
Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céo era baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a espaços a abobada, irradiando uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em ultimos transes de creanças, em que a vida gradualmente se extinguisse, n'um latejar vagaroso de palpebras somnolentas...
Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva apparencia da atmosphera e do céo. Noite peor do que as outras, porém com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancal-os do abraço em que se uniram, mal cerrara a noite!
A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos, accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz sinistra na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retrahia-se n'um como pavôr medonho, concentrado de intimos terrores e silencios lobregos d'horas altas. Cerrava-se mais no céo a phalange muda das nuvens, densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas, sem scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem...
E sempre, e constantemente immoveis na escuridão pesada, aquelles dois olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme dôr, a pobre mãe não ousava arriscar um unico movimento e mais e mais cerrava contra si o corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.
Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes, quasi eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis angustias, vasias de esperança na vida do seu pequenino filho.
De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distancia. Estremeceu a pobre de subita alegria,―e no abalo que soffreu o seu corpo, até então retrahido, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleoptéros de azas phosphorescentes, os olhos até então immoveis do inimigo. E por alli levou a noite toda, farejando e uivando, até que cançado de perscrutar o insondavel, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada que vinha, docemente, alumiando pincaros e arestas.
Ao romper d'alva o céo era azul. Apenas de longe em longe pennachos de nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando, diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações imperceptiveis e suaves.
Começavam de animar-se os longes da paizagem, e a retina accusava já as differenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados de restolhos, tons pardos de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e pinheiraes cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céo no alto dos montados.
Pelas ladeiras d'além, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao areal da margem. Em turbilhões de espuma alvissima precipitava-se a agua nos açudes, marulhando nos altos penedos marginaes, denegridos e informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto do moinho, lá em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se tranquillamente no ar sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma ambição ou como um sonho...
Foi então que Alipio José, á frente do rebanho, de novo abordou áquellas paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.
―Russa! torna ao rebanho, Russa!
Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida sobre o cadaver do pobre filhinho morto!...
E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos rochedos―passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...

ARRULHOS
A.M. da Silva Gayo.
Ao
fundo do jardim ficava o pombal―uma casinhola redonda, com orificios triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impeccavel do muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de distancia.
―Pombal da Morgada! diziam.―Lá se vê além...―E um gesto muito longo levava a vista horizontes fóra, á cata do Pombal da Morgada, que alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros, como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e osso provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde seriam encantadoras as tardes quentes de estio, á sombra de arvores seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda, pardalada sonora, gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa semceremonia―frangãos assados e boa vinhaça da terra.
Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte desastrada do noivo―um trambulhão de um cavallo que o matara logo alli, sem mais pio, n'um ai.
A recordar esse amor―um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera na vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a castidade das suas intenções d'elle...
Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procreou, vieram pombos novos―todos brancos uns, rajados outros, de um
gris
delicadissimo alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos.
Bellos pombos, na verdade!
Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo começavam de esbater-se n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas entrava de se desfazer em imperceptiveis
nuances
subtis, n'um
smorzando
melancholico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida cessava no campo e começava no céo em scintillações argenteas de estrellas―todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto, espalhando no pavimento terreo, com solicitudes de
menagère
, as provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço―milho em abundancia e fartura de alpista.
Assim todas as tardes, ia já em quatro annos, que não havia forças que levassem a Morgada para fóra do seu pequeno solar, onde vivia só, retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel a pedidos de amigas que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e que a queriam levar para que se distrahisse, para que se alegrasse―«era nova ainda, podia arranjar noivo, nada mais facil...»
―E as pombas? objectava.―Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo. Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que matassem, haviam-de até roubal-as, entrar de noite no pombal, leval-as todas.
―Que não e que não! insistia renitente;―que tivessem paciencia, que se divertissem muito, ella ficava.
―Platonismos! gargalhavam depois as amigas.―Saudades do outro que rebentou do trambolhão. Bem tola!
E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da simplicidade habitual da sua
toilette
―vestido preto todo liso, muito afogado, um pequeno
ruche
no pescoço e mangas, nem uma préga, nem sequer um laço.
Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de hoje para ámanhã, desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortavel, muito abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram flaccidos―folhas de milho mudadas cada dois dias.
Que bom, ser pombo da Morgada!
A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, começava com o aclarar, muito cedo, depois do descanço do somno na placidez do ninho, quando as forças eram sãs e as azas pediam vôos.
Hora dos amores!
Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente, lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam, ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam, possuindo-as á força, a tremer, azas em concha, pennugem erriçada, arrulhando muito, arrulhando sempre, cahindo desfallecidos depois, hirtos, palpebras cerradas, trementes, frementes, em spasmos de luxuria e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de contentes, sacudindo as azas, pescoço levantado, orgulhosas talvez, muito felizes.
Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo, quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, n'uma doçura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo ás boas, não querendo violencias, detestando-as, bem se via, supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos, redobravam os carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos―beijos com certeza.
Isto todos os dias, nas manhãs ennevoadas especialmente. Imagine-se a vida do pombal áquellas horas:―pombas que voejavam assustadas, esquivas mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava; e tudo gozava―quem era feliz e quem estava para o ser, quem era sanguineo e quem era pachorrento.
Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um pousava, retomando vôo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, n'um ruido muito doce de bicos que sorviam.
Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao balcão da sua janella, alegre de trepadeiras em flôr, pousar-lhe nos hombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lagrimas, mas que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis:
―Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...
D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios felisões, vida de concubinagem, n'uma promiscuidade sem limites e n'uma libertinagem de harem.
Polygamia desenfreada!
Excepção a ella, apenas um casal―a melhor pomba da manada, pomba branca, de uma alvura impeccavel de neve, e então um pombo rajado, preto e cinzento, de
nuances
azues-escuras, ares aguerridos de luctador vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.
Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de pescoço, nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a, sem arrulhos previos, sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe no ninho, disputando primazias á força de bicadas.
E umas atraz de outras, e dias após dias, sempre assim!
Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar logar a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado d'elle, paciente, resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o ufanava, incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam entregar a outros, e de se affeiçoar á branca, a ella só, acarinhando-a muito, arrulhando com ella, alternadamente, ora um ora outro, gemendo amores.
Não imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da desordem, da perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instinctos commodos de polygamia, tão avesso a duetos d'aquella natureza, onde os pombos eram de todos e as pombas eram communs.
E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava de egoista. E quando saíam não se juntavam com os outros―uma desfeita! uma offensa!―tomavam rumo differente: para a direita se os outros iam para a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao contrario.
Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os encontravam no pombal, em ninhos contiguos a principio, no mesmo ninho depois!
Um escandalo! Um desaforo!
E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.
Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as azas, levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados...
Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a pomba branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia depois, luctava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além, entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido de azas, receiando acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido sob a aza veludinea.
Dois mezes assim―dois mezes!―n'uma fidelidade conjugal ininterrupta, digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conheço, que os senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e esplendida de alegrias, passada em bellas digressões campos fóra, pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...
Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter desconfianças, suspeitas de inconstancias e receios de infidelidades, de noite, emquanto dormia. Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos, modos de enfadada ás vezes, certas perrices, resistencias mal disfarçadas. Ficava-se em casa se o rajado sahia, impassivel a supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e quebramentos de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o vôo, tomava para norte se o rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.
Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam―rameira do rajado!―um dia levantou vôo e fez-se ao largo.
Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao
vinagrinho
de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
quinzena
e calça de alçapão, feros, muito rijos, á prova de rheumatismo e á prova de vintem, felizes na sua pobreza, amigos das creanças, bem humorados sempre, flôres de uma arvore que ora vae dando cardos. Perto do solar da Morgada, a tres kilometros só, havia um assim, o abbade das Donas, bom prégador n'outras eras, com famas de theologo ainda ao tempo.
―Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!―era assim que muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins, sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos.
―Theologia velha, diziam, a genuina!
A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes a desabar,―uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era terreo, rimas de lenha secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha, um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que estavam.
Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas devoções, e n'essa tarde quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, oculos na ponta do nariz, breviario na mão direita, a dois palmos, a esquerda a segurar a aba da
quinzena
, e um pequeno solideo com borla resguardando-lhe a calvicie.
A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações de desgosto, arremessos de breviario, e por fim levantando a voz:
―Fome as pombas, sr.
a
Luiza: não fazem senão saltar...
―Bem fartas!―retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,―mas têm lá visita, pomba que arribou.
E depois informando:
―Pomba guapa, toda branca. São agora tres ao todo, e então o pombo...
―Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.―Percebo... percebo perfeitamente...―E foi metter-se no quarto, continuar a leitura.―Deixal-as! concluiu evangelico.
Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar á reles pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um caixão velho, com grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'alli ao fundo da varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros, um nojo.
Quando a mostrava á creada, o abbade dizia-lhe sempre:
―A sua vergonha, sr.
a
Luiza; a vergonha da sua cara. Como se os animaes não fossem tambem creaturas de Deus...
As pombas eram magras e o pombo era esqueletico.
Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que ambos se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e bem tratada, flaccida de pennugens e de carnação consistente, apetitosa, o pombo não a largava―genio de libertino em corpo de tisico.
Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida, tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,―saudosa do rajado, o seu primeiro amor, quem sabe!
E depois, o pombo sujo já não se importava com ella, desprezava-a, tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras, dando-lhe maus tratos,―á intrusa. Dôr incomparavel!
Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar, descançando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando sempre, arrastando-se em vôos baixos, sentindo vertigens se subia mais alto. Para passar um ribeiro descançou uma hora, e quando cobrou alento e começou o vôo, viu-se na agua e estremeceu, molhou ainda as azas, viu um corvo na sua propria imagem, um corvo negro que a perseguia silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ella tinha sido e o que era!...
Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do rajado... Oh! o rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a quereria, tinha pomba, decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um vôo valente e estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda.
Fez-se de vôo e partiu.
A manhã era calma e o céo era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva tinha os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra cançada e adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado esplendido―decoração triumphal com que se orna aguardando a visita de quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o hemispherio e fecundando tudo―o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...
N'aquelle repontar da manhã, o alto céo era de uma limpidez crystallina. Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcissima paz, e pelas ramagens verdejantes a volata suavissima dos ninhos começava, como uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras, florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa d'alva.
Em manhãs placidas como aquella, quantas vezes a branca não fizera as suas excursões alegres de
touriste
, na companhia do rajado, perdendo-se com elle atravez do horizonte áquella hora tranquillo e para toda a banda transparente!
Como tudo isto lembrava, agora!
Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam descançado muitas vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura ineffavel o amor extraordinario que os unia! Em toda a largura não se descobria um só campanario ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres, contentes, doidos! E ella sempre ufana, acompanhava o macho nos seus vôos ainda os mais arrojados, perdia-se com elle para além das serranias mais distantes, destemida com a companhia que levava―um amigo que empenharia a vida só para salvar a da amante.
E que bella manhã, aquella! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu vôo perpendicular e rapido!
Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos; melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a largura―nem uma aza de pomba palpitava. Ella só, desalentada e cheia de maguas, ia para onde a levava o destino,―quem sabe se para a morte...
Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as azas contra o muro, arremettendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo muito as azas combinando ataque.
E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a passagem.
De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou vôo n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a desgraçada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue nos bicos e pennas voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam com furia. Por fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado, bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho guttural de vida que se esvae lentamente, gradualmente, com dôr. Um estremecimento de membros por fim, uma agitação geral repentina, e―morta!
Ares além, os assassinos em bando voavam á busca talvez de um ribeiro onde lavassem os bicos ensanguentados...
E o rajado?―hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e vel-o-hão sair da janella das trepadeiras, alegres, felizão, bohemio, depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ella, arrulhando, ora um ora outro,―debicando... debicando... debicando...