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Os meus amores

INDICE (continued 2)

Reading edition

Aurora do Lima

esta ligeira noticia bibliographica ácerca do livro do brilhante escriptor e meu querido amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os ultimos da ultima fila, nas saudações enthusiasticas á obra e ao seu auctor.

Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se começou a fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria, cruel, desoladora. Os que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida―e estes constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola, apezar do enorme

réclame

que antecede sempre a obra do velho mestre da escola realista.

Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende pela emoção intima, que interessa pela simplicidade elegante com que está trabalhado, que impressiona pela correcção impecavel do seu estylo, malleavel e harmonico.

Abre-se o livro e depara-se com o

Idylio rustico

, que é uma soberba tella, amoravelmente tratada, denunciando logo ás primeiras linhas um alto valor artistico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.

Segue-se-lhe o

Sultão

; e em boa verdade direi que me parece ser este um dos contos mais formosos do volume, em que pese ás opiniões contrarias e até ao proprio auctor, que não perde occasião de o depreciar.

Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A descripção da eira, do labutar alegre, da paizagem e dos personagens d'este pequeno quadro, são um primor notabilissimo de execução artistica, de rigorosa e completa observação.

Ultima dadiva

, um episodio commovente, completa a primeira parte do livro, a que se segue a

Comedia da provincia

, onde ha preciosos estudos da vida provinciana; as

Balladas

, onde se depara com o formoso conto

Para a escola

, de um alto valor litterario;

Arrulhos

, uma esplendida phantasia, etc.

Eis uma ligeira noticia do volume de contos

Os meus amores

, que tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que lhe foram dispensados.

Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do paiz, especialmente no

Portugal

, onde escreve como o pseudonymo de

Ch. A. Verde

, e na

Revista Illustrada

, do editor Antonio Maria Pereira. É um infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frivolo assumpto um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o espirito do leitor.―

Luiz Trigueiros

.»

Os Gatos

:―«Vem a proposito de historias, fallar, bem sei que tarde, dos

Meus amores

de Trindade Coelho, como do moderno livro portuguez que mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em polyedros de multiplices aptidões. Os contos dos

Meus amores

são pela maior parte uma bagagem de vida academica, assimilativa (Trindade Coelho, muito novo, findou ha quatro ou cinco annos o curso juridico) e como tal sahem da penna do escriptor ainda sem uma crystallisação homogenea de fórma e de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso d'um espirito buscando a perfeição com escrupulos d'eleito; de sorte que o volume até como auto-biographia se insinua, elle precisando as phases, notulas, e predilecções litterarias do contista, e emfim, depois de hesitações, emancipando-o n'um dos mais delicados microscopistas do coração, das nossas lettras. Como é provinciano, provinciano d'aldeia, e natureza contempladora inda por cima, Trindade Coelho captiva-se principalmente dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana, tempestades de campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o não faça por diletantismo de escriptor avocando de cór dramas lambidos, senão por esse estro de visão retrospectiva dos melancholicos despaizados em terras hostis, e que protestam contra o egoismo ambiente, recluinde-se no passado, como n'um sanctuario de mumias adoradas. É a tendencia geral dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes, especialmente dos campos, materia prima para seus contos e poemetos. Em poucos porém a predilecção se escóra na sinceridade e conhecimento pratico da vida rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma autopse sagaz da natureza psychica e moral do camponez. Grande parte dos que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos n'um scenario de convenção, e com o fazer fallar aos bonequinhos mancos que resultam, aravias mais ou menos inventadas d'um pictoresco sorna, em cuja trama não ha vislumbres d'alma regional, de caracter profissional, d'individualismo typico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra, mandem vir a collecção dos contistas rusticos portuguezes, e riam á larga das fantasias lorpas que lá virem. Em dialagos amorosos ha por exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam ás namoradas protestos de paixão, em linguagem que seria preciosa até na bocca d'um pisa-flôres do Martinho e da Havaneza. Ellas, de lhes retrucar em phrase equivalente, e de se mecherem em scena com os ademanes que a

Dama das Camelias

consagrou na cachimonia dos auctores, como os mais proprios para mimar o amor que as enchaquéca.

Em paizagens e descripções d'interior, a mesma ausencia de detalhe certo e de visão propria, que reduzem esses quadros, a méras caganifancias d'aguarellistas amadores. De tal maneira que o grupo de

campestres

a quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal imitação da Rua do Ouro, e o camponez como uma arreglo grotesco do alfacinha.

Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do problema, em fórma d'arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo á vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de genero, colhidos em prolongadas estações nas duas mais typicas provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha assím nos

Meus amores

, a par d'algumas benignas composições representativas da transição critica do rapaz para o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes, sobrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras primas.

Typos da terra

e

Preludias de festa

, por exemplo, são duas narrações que mordem fundo a attenção de quem nas lê, e que por sua admiravel sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido que ficarão modelarmente apontadas aos collecionadores de litteratura typica.

Qualquer das peças abrange apenas o folego d'uma ou duas duzias de paginas, deliciosas porém como factura, admiraveis de bonhomia, e d'uma saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o seu auctor.

Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante rico em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais finas intenções.

Typos da terra

é o quadro satyrico d'uma má lingua d'aldeia, tendo por club a porta da tenda, por scenario a praça publica, e por personagens o pessoal burocratico e elegante da terriola.

Preludios de festa

é um estimulo de festeiros preoccupados de qual fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os typos rapidos, a descripção dita a correr, mas no conjuncto ha um tal equilibrio esthetico, a meia tinta é tão fluida, e as intenções ironicas sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista, Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os semsaborões que por ahi medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno romance portuguez.―

Fialho d'Almeida

.»

Jornal de Santo Thyrso

:―«

Os meus amores

.―Foi penhorante e commovente para nós a gentilissima offerta que Trindade Coelho nos fez do seu adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta singela noticia.

O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje, porém, apparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a primorosissima fórma se allia com o mais delicado criterio d'artista d'

élite

e com a fina observação d'um talento verdadeiramente superior.

O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e obscura penna não está―seja este o seu unico merito!―habituada a vir entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as ondas d'esse barato incenso.

Os nossos leitores melhor ajuisarão, em presença do trecho que lhes offerecemos como mimo de rara valia.»

Diario Illustrado

, (com o retrato do auctor):―«Trindade Coelho.―N'esta aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras que ninguem sonha, ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,―que nem a todos é dado experimentar, accrescente-se.

Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,―na elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestigio do talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de adivinhar, logo aos primeiros passos, a revelação de Alguem, que vae ser unanimemente admirado.

Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo.

Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam; admirei-o, muito antes d'elle trazer á litteratura patria o livro

Os meus amores

, que foi como que a subita illuminação do seu nome.

Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...

O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de rapidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação, vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, escreve dos

Meus amores

o nosso grande critico Fialho d'Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do problema, em fórma de arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo á vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de genero, colhidos em prolongadas estações nas duas mais typicas provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes.»

Antes dos

Meus amores

, Trindade Coelho começara a affirmar a sua poderosa, individualidade em uma secção do

Diario Illustrado

,

Cartas alemtejanas

, chronicas expedidas de Portalegre, em um arranque de talento, com exuberancia de fantasia, modos de ver e dizer, flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo á Vacherai, velados a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante originalidade.

Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio das suas funcções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitaria de arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o condemnara.

E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos vôos, fez-se um côro de bençãos, como que uma apotheose de amor, que deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos, superiores a todas as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto.

Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterisam e lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam, uma dualidade, verdadeiramente phenomenal.

É que, sendo elle um artista, na rigorosa accepção titular da palavra, namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na extatica adoração de tudo quanto ella sobredoira do seu brilho immortal, é ao mesmo tempo um funccionario exemplar, um delegado do procurador regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter e no correcto exercicio da sua profissão, toda a perstigiosa soberania da Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito, quando se trata de aquilatar o merito de um auctor:

«Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante rico, em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais finas intenções.»

Ás vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade nostalgica ou treme de frio... legal.

É então que elle murmura, (perdoa a indiscreta allusão, meu caro Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz idéa, não! Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E là fóra, e lá em cima―que amplo céo azul para voar!»

Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda o esperam, meu illustre amigo?―

Guiomar Torrezão

.»

Revista de Portugal

:―(Excerpto de um artigo critico ácerca do

Só

de Antonio Nobre).―«Alma doente, o sr. Antonio Nobre soube extrahir da sua doença effeitos de Arte singulares e ás vezes intensos. Outros attingiram o mesmo objectivo pela descripção das emoções naturaes e pelo appello aos instinctos sãos do coração humano. Acabo de rêler o livro d'um escriptor tambem novo:

Os meus amores

de Trindade Coelho. Com casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser comprehendidos por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a affeição de dois pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida junto á cruz da sua victima, o amor materno de uma cabra que se deixa morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o narrador interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha atravez d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do suor dos lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade pessoal decisiva para a belleza das obras.―

Moniz Barreto

.»

Da Vid'Airada

: «Trindade Coelho.―Uma vez na sua frente, face a face, olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,―o que não seria difficil mesmo no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos―fixando o olhar no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples conversa de algum quarto de hora,―ao separar-se elle de nós, porque já então a gente não se atreve a separar-se d'elle, tem-se adquirido a certeza de que aquillo é o que é, e chegado á mais solida convicção de que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais insubmissas ao menor proposito do menor disfarce, do que na sua physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho intensíssimo do seu olhar muito limpido, muito penetrante, se expressam toda a sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso temperamento.

E ao vel-o partir pela rua fóra, decidido e tezo, resoluto e rijo, a cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que dá gosto vel-o, não resistem os olhos ao desejo de acompanhal-o de longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou pensa:―«Demonio!... Com meia duzia assim, poderia fazer-se

alguma coisa

ainda!...»

Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos quando com elles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando passam―só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este sólo e purificar esta atmosphera.

Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem da sua vida,―o mundo litterario e o mundo judicial―affigura-se-me elle, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelevel cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio Publico contra os altos reus de certas causas celebres,―ora imprimindo n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da fórma é posta sempre ao serviço das emoções mais dôces e das mais penetrantes, esse outro cunho, d'essa outra individualidade que n'elle ha, e tão diversa é, tão original e tão rara, tão comtemplativa e tão terna.

...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do seu impetuoso temperamento!

No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas palavras se não limitam ao cumprimento do dever de officio, não tardará que á serena exposição dos primeiros articulados succeda a expressão calorosa, indomita, sempre crescente, da indignação, e da colera, que lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vae deduzindo a tremenda accusação contra o réo―...esse réo que alli está, alli! sentado n'aquelle banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés! Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração accelera-se, a face ruborisa-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cerebro vigorisa-lhe os musculos, affirma-lhe a energia, parece transportal-o ao imperio da força, n'um arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta, quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem ferir de arripios a espinha dorsal do auditorio... Já não é para a justiça dos homens que elle appella; não lhe bastam, não o saciam as penas maximas dos Codigos! Quer o castigo do Céo, quer a justiça de Deus!

...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem peor que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana havia condemnado por assassino e ladrão―o pobre Manuel Barradas. Muito commentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministerio Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos agoniados da sua vida em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a collecção desses jornaes, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no principio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Elle, em premio da minha obediencia, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo do meu coração. Queres ouvil-o bater? Ausculta essas folhas... Bemdito seja Deus! serão ainda minhas as tuas lagrimas enternecidas, e, ainda depois de morto, viverei na tua commoção e na tua alegria, para a commoção e para a alegria da minha obra...»

Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto austero do magistrado, cedendo o logar á delicada individualidade do homem de lettras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa, muito á vontade e á fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a vaguear pelos campos do seu sonho―sonho feito de saudade, d'essa muito viva e muito affectuosa ternura que á sua alma de artista dá, e que a sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,―recordação a que andam para sempre ligados, n'uma doce e meiga associação de ideias, certos logares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo olmo, que já lá estavam quando elle nasceu, que o embalaram nos primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao baptismo o levaram, e o conduziram á escola; alegrando-se com as suas alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas...

N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se pousar-lhe nos beiços e nas palpebras a serenidade meiga de um sorriso, como que o doce agradecimento á alma de sua mãe, que tivesse vindo, muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito, aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a amorosa caricia dos seus beijos...

Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidade essas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos musculos e a effusão das lagrimas realisam o phenomeno das emoções reaes.

Os seus escriptos obedecem sempre á logica influencia d'esta convicção em que elle está, quando me diz, bem medindo e pezando cada uma das suas palavras:

―«Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais nada, que o escriptor preste na sua obra o culto que é devido á sua lingua. Depois, deseja que o commovam, que honesta e consoladoramente o emocionem, preferindo que o assumpto do quadro seja a exploração das coisas triviaes da vida, certamente porque reside no Simples a formula mais natural da Verdade... Comprehendo que o espirito dos que lêem está fatigado d'essa confusão do

romance

com o

estudo

, e convenci-me, emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro dever, e como condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferencia, mesmo, ás faculdades intellectuaes...»

Releio

Os meus amores

, o livro dos seus contos. É o primeiro d'elles,

Idylio rustico

, de uma deliciosa simplicidade de aguarella, parece que feito sobre um esbatido de céo purissimo, côr de sovaco de andorinha e não sei com que singular sabor eucharistico de primeira communhão... É um sonho de absynto, que serve de aperitivo divino para a leitura soffrega de todo o livro. Dois pastoritos ingenuos, a Rosaria e o Gonçalo, encontram-se e approximam-se, n'uma indecisa alvorada de derriço, cheios de boas tenções e puros ideaes. Acontece, porém, que por viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada, imaginem os que como elles se amem a alegria que inunda aquellas duas almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias longas, quiz Deus que os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se põe, vagueam nas frescuras marginaes do rio, a par, e sós, elle dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com murmurios d'agua correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz d'alma idylica de illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe immenso a separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as ovelhas durmam em mistura e que passem elles a noitada sobre o mesmo colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instinctiva reluctancia, Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as mantas cobertor commum, e pousando as cabeças nos bornaes unidos, parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo, e os bons dos namorados, n'uma placida orchestração final que se smorza, referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no somno e adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da maldade nossa.

Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fóra, e que vamos bisando e saboreando a pequeninos gólos, durante algumas horas bem fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos provincianos que elle nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivessemos; em companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão photographicos, tão nitidos, que é estar a gente a vel-os, a ouvil-os, a falar-lhes, a deitar-lhes o braço pelo hombro...

Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao serviço da moderna arte, o ineffavel goso de tão estranhas, tão novas, tão encantadoras surprezas! Quizera eu, inedita, bem fresca, pela primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante comparação:―dir-se-ia traçada com uma penna d'aguia... arrancada d'uma aza de pomba.

Os seus livros ficarão pertencendo ao numero d'aquelles que parecem possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espirito de quem os lê. Relêr o que elle escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de quando se contempla pela centesima vez algum querido, precioso objecto, que noventa e nove vezes se contemplara já: privilegio esse de eterna seducção, que só disfructam as obras em que o artista deixou pedaços da sua alma.―

Alfredo Mesquita

.»

Do Poema do Ideal

:

Os meus amores! que livro

Tão fragante e saboroso! Scentelhas aureas e vivas, D'um prosador luminoso!

Brisas da serra!

Trechos idylicos Da nossa terra!»

Fernandes Casta.

Illustration from Os meus amores: contos e balladas
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