Volume 1 — *NOSSA SENHORA DE PARIS*
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*NOSSA SENHORA DE PARIS*
Listas de som avançam para mim a fustigar-me Em luz. Todo a vibrar, quero fugir… Onde acoitar-me?… Os braços duma cruz Anseiam-se-me, e eu fujo tambem ao luar…
Um cheiro a maresia Vem-me refrescar, Longinqua melodia Toda saudosa a Mar… Mirtos e tamarindos Odoram a lonjura; Resvalam sonhos lindos… Mas o Oiro não perdura, E a noite cresce agora a desabar catedrais… Fico sepulto sob círios— Escureço-me em delirios, Mas ressurjo de Ideais…
—Os meus sentidos a escoarem-se… Altares e vélas… Orgulho… Estrelas… Vitrais! Vitrais!
Flores de liz…
Manchas de côr a ogivarem-se… As grandes naves a sagrarem-se… —Nossa Senhora de Paris!…
Paris 1913—Junho 15
*16*
Esta inconstancia de mim próprio em vibração É que me ha de transpôr ás zonas intermédias, E seguirei entre cristais de inquietação, A retinir, a ondular… Soltas as rédeas, Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar A tôrre d'ouro que era o carro da minh'Alma, Transviarão pelo deserto, muribundos de Luar— E eu só me lembrarei num baloiçar de palma… Nos oásis, depois, hão de se abismar gumes, A atmosfera ha de ser outra, noutros planos: As rãs hão de coaxar-me em roucos tons humanos Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes…
* * * * *
Ha sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos… A cada passo a minha alma é outra cruz, E o meu coração gira: é uma roda de côres… Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo… Já não é o meu rastro o rastro d'oiro que ainda sigo… Resvalo em pontes de gelatina e de bolôres… Hoje, a luz para mim é sempre meia-luz…
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As mesas do Café endoideceram feitas ar… Caiu-me agora um braço… Olha, lá vai êle a valsar Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei…
(Subo por mim acima como por uma escada de corda, E a minha Ansia é um trapézio escangalhado…).
Lisboa—Maio de 1914