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O presbyterio da montanha

Volume 1 — VOLUME I

Reading edition

Illustration from O presbyterio da montanha

LISBOA Empreza da Historia de Portugal Sociedade Editora

LIVRARIA MODERNA TYPOGRAPHIA

Rua Augusta, 95 45, Rua Ivens, 47

1905

Advertencia dos Editores

Em 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solidão de mais de sete annos de homisio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que ia publicar com o titulo de

O Presbyterio da montanha

, escreveu um prologo extenso, descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dôze annos de distancia, desafogou as lembranças d'aquelles logares, e as saudades de um irmão, o melhor dos irmãos, o já então fallecido Abbade de S. Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo concluiu-se, imprimiu-se na sua maxima parte, mas não chegou a publicar-se.

O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje considerados espe O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje considerados especies bibliographicas de primeira raridade.

Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador, bibliógrapho, e escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz, outro; a fallecida snr.

a

D. Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuia outro, que parece ter levado caminho; Innocencio no Tomo I do Supplemento do seu immortal

Diccionario

, não declara se era dono de algum; menciona a obra, apenas.

Quanto á parte poetica do livro projectado, essa, não impressa, desappareceu em parte. Só algumas poucas peças encontrámos, umas inteiras outras incompletas; materiaes truncados da collecção. Salvando esses versos, cumprimos um dever moral, e outro literario.

O prologo de Castilho é pois o brilhante pórtico de um edificio ainda em construcção, e já em ruinas; é inquestionavelmente uma das obras mais curiosas e instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a historia, a lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, o

folk-lore

, d'aquella região alpestre, tão portugueza, mas tão desconhecida, tudo isso é tratado com amor, com o cuidadoso amor de um archeologo-poeta.

Appareceu tambem uma

Introducção

em verso sôlto a certo poema intitulado

O Sepulcro, historia de uma noite de S. João

, projectado pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito phantastico, infelizmente por concluir. Entendemos não menos intercalar essa curiosa Introducção, no seu logar chronologico, por varios motivos: dá-nos Castilho sob uma feição poetica diversa da sua habitual, e pinta-nos o estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia soffregamente o ar, a vida, os usos populares da montanha. O

Sepulcro

é pois optimo contribuinte d'este truncado banquete literario, e fôra imperdoavel, apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do borrão original, que possuimos pela letra do amoravel secretario Augusto Frederico, para esta licção actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor ditadas em 1864.

Além do

Sepulcro

, outras peças, portuguezas e latinas, já impressas nas

Excavações

, teriam logar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data, pela sua indole; mas o autor preferiu collocal-as n'aquelle seu volume. Facil é ao leitor intelligente o procural-as.

Á MEMORIA DO EXEMPLAR DE IRMÃOS

AUGUSTO FREDERICO DE CASTILHO PRIOR DE S. Mamede da Castanheira do Vouga

Em testemunho publico e perenne DE AFFECTO E GRATIDÃO

Offerece Antonio Feliciano de Castilho

PREAMBULO

I

O livro que apresento, havia de ser difficil de classificar, se o classifical-o podesse por alguma via valer a pena.

Não é historico, nem ficticio; não é didactico, philosophico, nem descriptivo; não é prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada de tudo isso, de tudo isso participa.

Nem sequer é um livro; é uma congérie de pequenas coisas, todas mais ou menos obscuras, e quasi todas desconnexas, e de pensamentos não procurados, se não tomados como elles quizeram vir, sem nenhum bem determinado fim moral, social, ou literario; em summa: um d'aquelles banquetes de aldeão, engenhados á pressa do que ha em casa,

para hospedar a cortesãos que lhe passaram pela porta. Não procura enganal os: com mãos limpas e coração lavado lhes põe diante o que só para si tinha tratado na sua horta, ceifado no seu chão, cevado no seu pateo, ou colhido do seu pomar. Porcelanas e pratarias, não as tem; algumas flores, já pode ser que as apresentará em vasos de barro; mas como vos assoalha com bom rosto quanto possue, não se vos alardeia de abastado, nem se compara com os visinhos de casas altas e balcões envidraçados. Como quer que vós d'elle o fiqueis, não ficará elle descontente de si mesmo á despedida.

*

Foi o geral d'esta collecção, parte escrito de carreira, parte apenas esboçado ou apontado, ha hoje doze, treze, quatorze, quinze, e dezasseis annos, sem pensar no Publico; para mero desenfadamento de horas abhorrecidas; para ajudar a correr mais depressa, em sitios tristes e ermos, uns tempos muito ermos, muito tristes, e para mim, que nunca bem atinei com o futuro, muito desconfortados de esperanças.

Como todo o meu fim em fazer versos não era outro senão o fazel-os, de todo o modo me nasciam bem. Não tinham de apparecer entre gente; não os educava; não os corrigia; não lhes punha galas e arrebiques. Assim sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci.

Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde já cuidei que não tornasse; achei-os os mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas incultos e semi-silvestres, como nados e creados que eram por entre troncos e penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por dentro faz a consciencia.

Vieram-me tentações de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam já annos: recordavam-me tempo de saudades; eram me saudades elles proprios; reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com elle os apresento.

II

Todos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu que

se compõem

para o Publico; e, bem hajam elles!: não levam á praça senão o que teem averiguado que por lá se deseja e se procura; põem de parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto alheio.

Nada d'isso tenho eu n'estas paginas.

Não sou eu que vou para os leitores; são os leitores que teem de vir para mim, se as quizerem ler. Hão-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo; as suas occupações, pelo meu ocio; a sua polidez, pela minha rudeza; os seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da sua vida, pelo recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, só vista de cima pelo ramo de tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre branco ella retrata no seu vôo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui (a fim de que não venham depois obrigar-me por divida que eu não contraio), que a unica deleitação que esta leitura pode dar, se pode dar alguma, será a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa alheia, e nos segredos do visinho.

É o que faz com que, por mais futeis que pareçam as memorias, que alguns escrevem de suas vidas, e as correspondencias epistolares, quando por acaso vão dar ao prelo sem terem sido ordenadas para elle, commummente são lidas com interesse.

É o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as achadas de antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda particular ou casa rustica, onde os vasos e utensís do viver quotidiano veem logo suscitar na phantasia os costumes, o trato, e o ser intimo, da gente que ali houve.

Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos v Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e a lampada que allumiou calada os prazeres ou os somnos de seus senhores.

Os monumentos são artificiaes, e artificiosos; são estudados, e emphaticos; a historia que elles resam é fria. Mas cá, o romance que engenhamos, ageitado ás memorias e saudades do nosso mesmo passado, é todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.

*

As

impressões de viagens

estão sendo ao presente um genero de Literatura mixta mui usado e mui querido.

Não admira: para os autores é facil; para os leitores, recreativo quando menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco; sem cançasso nem más poisadas por terra; sem enjôo nem temporaes por aguas do mar; sem desabrimento de estações; sem saudades do que lá fica para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que é repetir algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a pessoa a viajar em corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando aonde ninguem a espera, nem festeja, nem conhece, e onde não ouve pelas ruas palavra nem som da sua creação.

A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos atmosphericos tão suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa casa e familia, sem até nos demovermos do nosso quarto nem da nossa cama, se como Ovidio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler deitado.

*

Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens é o gosto de conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos são extranhos, e não medir as distancias que nol os apartam, que esse, pelo contrario, é o maior desconto do peregrinar, ¿por que se apeteceriam mais as viagens á França, á Inglaterra, á Suissa, á Italia, ás margens do Rheno, á Russia, ao Egypto, á China, ou ainda á Lua, do que a um qualquer monte da nossa terra, só conhecido de seus moradores e visinhos?

¿Que sabeis vós mais da serra do Caramulo, em cujas faldas está assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regaço de sua avó triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se abriu a arca depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto.

Viréis pois ás raizes do Caramulo conversar montanhezes, agrestes porém bons; e tão bons, que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal productivos, nos seus paupérrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e pendurados á laia de ninhos pela escarpa dos precipicios, entalados nos córregos, ou inclinados a scismar tristezas sobre algum rio fundo e triste, nunca se lembraram de vos invejar a vós outros as vossas cidades opulentas e festivas.

Estes, com falarem portuguez, são para vós estrangeiros, ou quasi. Como taes, não vos despraza conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com quem por entre elles demorou annos, e de boa-mente lá iria agora enterrar os restos cançados da vida ao-pé do sepulcro de um Pae, que lhe lá ficou em quieto desterro para todo sempre.

[1]

III

A 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana região o novo Prior, meu sempre e em tudo irmão, e agora saudade minha continuada e sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena familia, de que era eu parte inseparavel.

Coimbra, d'onde iamos, fôra a terra dos nossos annos mais florídos; Lisboa, a do nosso berço e da nossa infancia. Uma e outra me chamariam pelos affectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e não houvera eu valído a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que então cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos elle e eu, por nos sentirmos um como o outro tão encantados com o nosso futuro, já palpado e colhido ás mãos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias, mais amenas ou mais vívidas, por aquellas gentilezas incultas e mais poeticas de uma natureza quasi primitiva.

*

Passámos n'uma bateirinha remada por uma velha moleira da margem, o viçoso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a tradição, o

bom fiar

de certa moça mui santa, que junto d'elle vivia n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da sua roca; se não quizerdes antes que dos Moiros lhe viesse o appellido, significando

pepinal

, ou

rio das terras dos pepinos

; pacifico rio, que então ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter enlevado na amenidade de tal painel.

Começam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para um e outro cabo, arripiadas gândaras de carqueja e urzes, só de longe a longe interruptas de um sovereiro torcido e mal posto, ou de um rebanho; terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se houvesse petrificado por encanto. São já fronteiras do Caramulo.

IV

A freguezia de S. Mamede não se vê em parte alguma; é dispersa, e emboscada. A magreza da terra não dá para grandes espessuras de povoação.

O aspecto do paiz, para quem só o atravessa é de inhospedeiro. Mas que se detenham, e o tratem; acharão a hospitalidade espontanea e desinteressada, em todas as falas, em todas as mãos, e em todos os corações. É porque a solidão é de si mais affectuosa, e a pobreza mais liberal e larga, que o rico povoado.

Esta differença e vantagem que os moradores levam á sua terra, experimentámol-as nós ainda antes de chegarmos á egreja e residencia, sahindo a receber o seu Pastor novo não só os maioraes, se não quasi todo o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das cerejeiras e nogueiras do adro os tres sinos do campanario, d'onde áquelle som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas brancas.

A egreja, alva, com o seu largo portão vermelho aberto para o seu adro muito verde, apresenta-se solitaria. Das povoações em que a freguezia se divide, nenhuma lhe é contigua nem visinha. O presbyterio, ou residencia parochial, é o unico edificio que a acompanha, mas por de traz, como serva humilde e boa, e não descobrindo mais, por entre os plátanos, que o portal do seu pateo toucado e semi-velado das mais espêssas, crespas, e lustrosas heras, onde jámais se esconderam e cantaram melros.

Ambos os edificios ficam no meio do

passal

, antiga quinta «das Limeiras», dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do sinuoso deserto, por onde se disseminam as aldeias, povoas, e casaes, que ali teem o seu foco espiritual.

Um grande silencio rodeia largamente a casa da oração. O presbyterio não lh'o quebra.

Baixo, de um só andar, e retirado para o fundo do seu pateo rustico mas espaçoso, a olhar pelas quatro janellinhas da sua frontaria principal unicamente para o ceo, e para umas formosas e corpolentas laranjeiras, que dentro do mesmo recinto vegetam, como elle clausuradas, o modesto domicilio, proporcionado pelo que sempre deverá ser o pastor de tal rebanho, não se retrahiu para mais longe, por traz da sombra do santuario, porque não poude: porque lh'o embargou a longa e cada vez mais precipitosa descida, que desde os seus calcanhares começa para

além

a esconcear, descer, e afundir-se, até á borda do estreito, rumoroso, e espumifero rio de S. Mamede.

Uma ponte de madeira, arremessada e trémula nos ares a grande altura, por cima das aguas escuras e raro alcançadas do sol, communica esta com a ribanceira ulterior, não menos carrancuda, fragosa, arripiada, e a pique.

Da residencia, corôa de um dos dois alcantis, até ao moirisco logar de Falgozelhe, seu visinho na fronteira crista da penedia d'alem-rio, entremeia apenas distancia, que, pela calada das noites, deixa ouvir de parte a parte os ladridos dos cães de gado, as cantigas do serão, e os alertas dos gallos a deshoras. E comtudo, aquelle

quasi-nada

para os ouvidos e olhos, é para os pés caminho dilatado, fadigoso, e não sem perigos.

As duas veredas, que levam ás duas extremidades da ponte, giram enleadas e perplexas, torcendo-se e refugindo, ora para a direita ora para a esquerda, como espavoridas do abysmo lá em baixo; descendo, tornando a subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra.

Pouco matto ressequido, e alguns medronheiros silvestres, são os unicos entes vivos, que por ali se affoitam a tomar pé. Os seus frutos vermelhos, quando o vento lh'os despega maduros, vão sumir-se entre as espumas arrebatadas.

Aquella ponte, vacillante sobre tal pégo e entre taes escarpas, com poucas braças de ceo por cima, e por baixo de si o rugir de tantas aguas, dá as sensações de um bello horror.

Muita vez me deleitei de as colher, debruçado horas esquecidas para aquelle inferno liquido; e este pensamento algumas vezes ahi me veio por tardes de Junho, em quanto, calado e estendido sobre as táboas, gastadas e rôtas da humidade, me gosava da viração transpirada pela corrente. ¿Foi a simples providencia do acaso, ou uma inspiração de religiosa poesia no fundador, a que fez reunir n'um ermo, e em tão pequeno espaço, como tres cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta egreja? ¡Esta corrente, emblema da vida terrestre, tão escura, tão angustiada, tão clamorosa, e com tão pouco de azul por cima das suas ribanceiras inaccessiveis, d'onde insperado vem, cada dia, algum novo penedo ferir-lhe o seio! Aquella egreja, tão serenamente alegre, tão aberta, o dia inteiro, ao generoso sol dos campos, tão gorgeada a ambas suas portas de passarinhos, tão garrida de espadanas sobre as campas do pavimento, e nos seus cinco altares tão ridente de flores silvestres, symbolo da alma refugida das tormentas do mundo para o ineffavel asylo da Fé e das Esperanças! E entre o santuario e o rio, como intermedio e transição dos dois extremos, a casinha do Pastor, alva como a confiança, verdejante e florida como as promessas, recatada como a esmola, inexhaurivel no seu celleiro como a Providencia, tácita como a meditação, com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas para a torrente, o rosto para a arca santa, os olhos atravez das arvores de Deus para o firmamento.....

O mesmo nome de S. Mamede, com que se appellidam o santuario, a torrente, e o albergue, é uma nova harmonia. Mamede, ou Mamante, foi um humilde e obscuro pastor de gado na Capadócia, e do qual toda a Egreja do Oriente pregôa virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou martyr, por volta do anno 274 da nossa era.

O logar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Martyr; o vigilante e benéfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres e pacificos arredores, para o Menino, já moço na valentia, ou para o moço, ainda menino na innocencia.

Não poude ser o acaso, quem tantos acêrtos concertou.

V

Era a residencia, quando a ella chegámos, decrépita e caduca: apparencia de choça fabricada de pedra ensôssa, escura e descommoda no interior; por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de inuteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor a havia em parte feito, em parte deixado, chegar áquelle estado.

A transformação foi rapida e completa. Os alpendres desappareceram. Na casa remoçada entrou por vidraças abundancia de luz. O pateo desafrontado foi revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de cal bem candida, logo de roseiras e limeiras bem viçosas. Um cedro n'elle plantado começou de levantar-se animoso e gentil; e sei que n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um já não existe na terra, o outro declina para o occaso, elle, medrando ainda, é já, como lh'o eu augurára nos meus versos, brasão do presbyterio; tem no seu tronco cinco palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura.

[2]

O novo Prior, o Rev.

do

snr. Padre Antonio José Rodrigues de Campos, a quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varão de virtude, e espirito cultivado por Letras, filho d'aquellas boas terras, e amigo nosso que sempre foi, como ainda hoje o é do nosso nome, conserva e zéla tudo aquillo com amor.

É para mim delicia o considerar, que á sombra grande d'aquelle cedro, que eu regava todos os dias, quando um menino de tres annos o poderia ainda arrancar sem custo, lerá talvez, depois do seu Breviario, este livrinho das minhas memorias, em que deposíto o seu nome mollemente reclinado entre tantas outras saudades minhas.

VI

Já os leitores conhecem, como quer que seja, o asylo que me escondeu sete annos, desde Outubro de 1826 até Fevereiro de 1834, o ninho em que nasceram, sem pensarem em abrir o vôo que hoje abrem para o mundo, estas poesias montesinhas.

Mas, como todo o seu assumpto se não limita ao que deixo esboçado, peço-lhes ainda um pouco de indulgencia, para lhes dar a conhecer, por alto, os arredores.

*

O passal rodeia por todos os lados a egreja e a residencia, correndo por traz d'ellas até onde lh'o consente o pendor do terreno, a escoar-se cada vez mais rapido para o rio de S. Mamede.

Por essas lombas inclinadas, fronteiras á encosta alta e erma de Falgozelhe, se boleiam melancolica mas graciosamente as suas hortas, os seus pomares, a sua fonte, as suas parreiras, e as fraldas das seáras, que até ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois de povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada horizontal, por onde, ao sahir da egreja, folga a vista de se espraiar, até ir bater, lá ao longe, na capellinha e matta de S. Sebastião, que lhe servem de limite.

Seáras eram os atrios, que os Romanos pelas suas aldeias folgavam de avisinhar aos templos de Ceres, e mais divindades protectoras da Agricultura. ¿Que mais proprio, para um povo agricola como este, do que achar a casa do

Creador

, e a do seu dispenseiro, no centro da abundancia das messes, e saudal a com a invocação de um Pastorinho santo?

O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S. Sebastião, por entre duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal até ao adro; costeia a egreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, lá se vai mergulhando para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja antiga, um altar de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas, assoberbada com um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um troço de lança enferrujado de musgo.

VII

Detenhâmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-pé d'este altar, onde já ninguem ajoelha, sobre sepulturas que hoje são tremoços, e recordemos a obscura historia d'este sitio.

¿Por que razão só as grandes ruinas se hão-de haver por merecedoras de attenção? Todo o passado é poetico; todo o evocar imagens humanas de sob a terra que pisamos, é proveitoso para alguma coisa. Nas solidões, mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha, e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, só algum pipilar de ninho quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos bons, e até festas.

Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela margem de cá ás aguas do S. João do Monte, que logo a diante troca o nome no de S. Mamede, um moço por nome Jorge, humilde de geração como tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de coração alto e espiritos levantados.

Namorára-se Jorge (me contou n'um serão do Natal uma velha, que o ouvira em pequenina a seus paes, que o tinham recebido não sabia de quem)... mas emfim, namorára-se, que o sabia ella, de certa moça de alem-rio, guardadora de cabras, mas filha de um Capitão, e sobrinha em primeiro grau de um snr. Vigario. Lá de baixo, perto da sua vivenda entre penedos, levava, os dias com os olhos sempre içados aos cabeços de Falgozelhe, na outra banda, á caça da sua saia de serguilha, ou do seu sombreiro preto; e ainda não de todo malcontente, quando, por entre os penedos pardos e as urzes côr de fogo, a enxergava, pendurada á borda do precipicio, e pascendo descançadamente uma das cabrinhas que obedeciam á sua voz melodiosa.

A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiçava cantando n'aquellas solidões, parecia-lhe a elle, que lá de baixo lh'a estava captando com ambas as mãos, escutar um Anjo de amor escondido entre as nuvens; e quereria mal até ao rouxinol que lh'a interrompesse, porque não sabia de coisa mais de molde para o seu coração.

Vel-a á sua vontade, não a via se não aos domingos na egreja; e nem então, que para esses dias tinha ella umas roupinhas muito sécias, meias muito alvas, e tamancos de galão de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das aguas. Fazem-se pontes para os rios; não se fazem que prestem para communicar dois estados tão diversos.

*

Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas é poesia; e poesia não é vida. Ousou, e declarou-se a medo á sua formosa; não foi repellido. Affoitou-se a mais: ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario em confissão. O que entre elles se passou, não se sabe; taboas de confessionario não são carvalhos dodónios que chocalhem tudo. O que se sabe, é que a moça não tornou a apascentar para aquella banda, e que elle, pouco depois, deixou a terra, onde tinha mãe e irmãos pequenos, sem dizer nada a ninguem, e não levando senão o fatinho que tinha no corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo dizem, era grande, e o seu amor, que não era pequeno.

Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el Rei, e que se abalára por esses mares de Christo, sabe Deus para onde, e para quê.....

No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento, assim a fazenda que andára moirejando, como a propria vida, apegou-se com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse com tudo seu a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capella da sua invocação com duas Missas por semana, defronte de Falgozelhe, onde vivia a noiva do seu coração, por cima da Talhada, onde tinha os irmãos e a mãe, e pegada com a egreja onde o baptisaram a elle, e onde a avistava todos os domingos.....

Mas de crer é que n'essa imagem se não demoraria muito em semelhante lance, em que as ondas formavam, por instantes montanhas tão altas e escarpadas, porém mais temerosas e feias que ess'outras, entre cujas quebradas, e por cujos visos, elle variára a sua infancia.

Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido.

Tornou á Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em Angeja, que em boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a aventurar-se sobre aguas do mar.

Reliquias são pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se divisam. O de mais, já desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir como materiaes na edificação de parte da residencia, e da egreja nova, que já sabeis lhe estão visinhas.

*

―¿Mas o fim de seus amores?―me perguntareis vós.

Memoria é essa que eu tambem procurei, porém não consegui desencantal-a.

O que só pude desenterrar da tradição, foi: que este mesmo Jorge viera a casar-se na freguezia; que tivera um filho nascido na póvoa da Talhada; que este se ordenára de Clérigo, fôra a Roma, e arribára a Cardeal; em memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada da antiga, e mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito amadas, uma Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com braços em baixo e em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e n'ella pintados tres cravos, duas chagas, e uma corôa de espinhos.

Vê se, venera-se, e commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na parede do arco cruzeiro da banda direita; e affirma-se, que na capella de S. Jorge permanecêra com egual honra em quanto ella durou.

Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma póvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro velho, e onde o que só fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, rôto por todos os lados aos ventos e chuvas, foi, ou não, nascido do consorcio a que o Padre Vigario e seu irmão se tinham opposto, eis ahi o que eu não alcancei; e não quero invental-o. Provavel me parece que sim, quando me lembro do que a minha velha me contava d'aquelles amores, e o combino com a ideia que formei da constancia no bem querer dos moradores da minha serra.

A moça deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhára com riqueza o abysmo que os separava; e S. Jorge, que não é Santo para meias victorias, havia forçosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto.

Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante d'aquella Imagem de pedra, muitas vezes o marinheiro e a sua formosa de esquecido nome ouviriam juntos a Missa; e talvez diante d'aquelle mesmo altar os recebesse o proprio Padre Vigario, indo depois jantar com elles, e beber á saúde da futura geração algumas malgas de vinho verde na sua casa da Talhada, ao rouco murmurinho das aguas de S. João do Monte.

VIII

A egreja velha, de que foi parte esta capellinha, fôra o antigo oratorio dos Condes da Feira; e a residencia, já depois duas vezes transformada, albergue do feitor que elles ahi tinham para lhes receber os fóros, e lhes tratar d'aquella sua quinta, chamada, como já tocámos, «das Limeiras».

Cederam tudo elles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto, havendo sido a primeira freguesia d'estes povos no Guardão, do Bispado de Viseu, por de traz da serra da Alcoba, e a tres leguas de distancia da que ao presente é, d'ali a haviam achegado para Alcafaz, pertencente agora á freguezia de Agadão, sitio ainda desfavoravel pelo estirado e descommodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem ermida, casa, e quinta, com largas rendas e fóros para a sustentação de Parochia sobre si.

N'esta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos hoje permanecem para memoria, costumavam elles vir passar com seus amigos algum tempo do anno na montaria dos javalís, que a espessura das moitas então creava, segundo parece, como ainda hoje cria lobos. Folga a phantasia comparando e contrapondo aquelles tempos a estes, e reanimando o actual silencio com um reflexo e ecco da vida estrepitosa de outra edade.

IX

Explorámos as convisinhanças do templo e residencia. Estendâmos agora os olhos até ás fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico senhorio.

*

D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o logar das Maçadas, com cincoenta almas, sua ermida de S. João Baptista, e sua fonte muito fresca.

Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que desde as ultimas guerras lhe ficou até hoje a pantomimar no alto do seu oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam, de extrema a extrema do Reino, quantas noticias o revolvem, sem que a boa da villa, nem outro algum dos logares que entram na sua abençoada confederação de rustica ignorancia, as adivinhem, nem suspeitem, nem cubicem.

A tres quartos de legua para nor-nordeste, dá-se com a humilde póvoa de Falgarinho, de não mais que oito visinhos.

Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se, n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres pessoas.

Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores, e a pequena distancia, se dá de improviso com a vistosa e agradavel quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de Nossa Senhora do Livramento.

Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S. João do Monte, que a seus pés corre, está em amphitheatro o Avelal-de-cima, de vinte e quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da egreja.

Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis, a meio quarto de legua está para o nordeste o Avelal-de-baixo, logarejo de quarenta e sete almas, e uma capella de Nossa Senhora da Conceição.

Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observação.

Para o nascente, descendo até á Cruzinha, e d'ahi toda a costa dos Ferreiros, passa-se o rio de S. João do Monte, junto ao seu confluente Alcafaz (nome arabe, que significa

«o salto»)

nome que para ali está, ha mais de setecentos annos, soando em bocca de christãos sem renegar a sua origem, nem se corromper.

Para a esquerda do S. João do Monte, se descortina a nossa Talhada, de honrada memoria, berço de um Cardeal, de um fundador de capellas, e de um namorado de lei; tres celebridades para um ninho hoje de quatorze almas, coberto de loisas e colmo, e coroado de sarças e medronheiros; dista-nos um quarto de legua para nordeste.

Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede (que toma este nome na juncção dos dois afluentes) se atravessa na ponte de pau que já sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomára a apanhar á fresca.

Subindo um pouco espaço a costa, atravez de alcantiladas rochas, toma-se a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia da montanha, sobre a esquerda do rio, leva até ao casal do Fontão, de onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeço de Santa-Cruz, a quarto e meio de legua para nós.

Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta; e no cimo se encontra a povoação de Falgozelhe, de setenta e uma almas, posta a um quarto de legua da egreja, a les-sueste, quasi na extremidade occidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de oração é o que á sua altura melhor convinha: Santa-Cruz.

Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agadão por outra ponte de pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo está o pequeno e vistoso logar da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora da Boa-Morte, a tres quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o delicioso de seus pomares de caroço e de espinho, com a annosa matta de sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo, com ter dado á luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje rege aquelle rebanho.

Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de se terem abraçado os dois afluentes Agadão e S. Mamede.

Subindo-se até ao vizo, está o logar da Redonda, de cincoenta almas, com sua capella de S. Gonçalo, a quarto e meio de legua a sudoeste da egreja. Redonda se chama, por estar á borda de um leito semi-circular.

*

Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas confrontações externas.

Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do Préstimo; pelo poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da Aguada de cima, e Balazaima; pelo nascente, com a de Agadão, filial, ou annexa, que aínda então era, á de S. Mamede, e parochia hoje sobre si; paiz ainda por ventura mais serrano e variado, mas que eu não cheguei a descobrir.

X

O territorio de S. Mamede é o extremo occidental de um corpulento ramo do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer dizer «abobada», ou montanha boleada á feição d'ella.

Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros ramos, alguma coisa quizera eu dizer, á conta do muito que merece. Mas, sobre que nunca o visitei, apesar de tão visinho, recearia apoucar-lhe a veneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas noticias que d'elle tive.

Em summa: é uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando d'entre as nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em tempestades, em frutos magra, mas opíma em homens e mulheres de antiga tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da fome, e da nudez; é um paiz de selvagens christãos, para o qual as rudes terras do meu S. Mamede estão, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios poderia estar a antiga Attica.

*

Dois monumentos accrescentam veneração ao Caramulo, quanto o podem mesquinhas obras humanas ás grandiosas moles naturaes.

N'um dos seus cabeços mais alterosos foi erguido, nos principios d'este seculo,

uma especie de zimborio de doze palmos de altura, pouco mais ou menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para quê, não dizem; mas dizem que por um engenheiro francez; rasão por que, os povos da circumvisinhança, por occasião da guerra peninsular, commetteram demolil-o; mas só lhe poderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura em pé, e só é accessivel do nascente por uma vereda estreita e tortuosa.

O outro monumento não é menos enigmatico, e deve estar farto de ver passar seculos e desfazer-se gerações.

N'uma arremeçada crista, a duzentos passos da egreja do Espirito Santo de Arca, se alevanta elle, com o titulo immemorial de «Pedra de Arca». É

uma desconforme loisa inteiriça, horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra; quatro em numero a principio, hoje só tres, havendo sido um arrancado para as obras da visinha egreja.

Tem esta lágea de comprido vinte palmos, e de largura dezasseis; de grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte quatorze, pelo poente onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos, só da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio, e pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por baixo quatro palmos e meio, e por cima tres, e de grossura um palmo de cada lado. O ultimo, que está para o norte, tem de largura, por baixo cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada.

¿Com que possantes machinas, por que mãos, em que eras, e para que fim, se alevantou ali aquella, que á phantasia se figura bruta meza de gigantes silvestres? ¿Sería obra de fortificação n'um systema de guerra desconhecido? Quasi que nem possibilidades o abonam. Uso agrícola, industrial, ou civil, nem a imaginação mais inventiva lh'o rastreia. Memoria de algum varão ou feito insigne, já a poderia ser. Mas então, ¡a que rudes tempos a não havemos de referir, visto como nem data, nem letra, nem escultura tôsca, nem vestigio algum de arte nem de architectura, mas só uma bruta mechanica, ali se admira!

Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais, quando se adverte na semelhança que tem com os altares druidicos, ainda hoje conservados em varias partes do que foram Gallias e Germania.

Verdade é, que por estas nossas terras não rezam as Historias, que se estendesse aquella abominavel seita de sacrificadores de humanas victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que, perseguidos, como o vieram a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druidas se refugiassem para este Occidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos accessiveis a pesquizas e perseguições, professassem e mantivessem o seu culto, do qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade comparadas) não muito discreparia talvez a religião do Endovélico lusitano.

Este ponto, porém, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus affectos.

XI

Nada concita aos logares veneração, como a antiguidade.

Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para além de Moiros, Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, não rastejo noticia d'essas edades, com que fazer obra.

Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve memoraveis edificios, se varões insignes pisaram aquellas terras, nem ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem tradições o denunciam. O solo enguliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou letra para enigmas.

Só ao sudoeste de Falgozelhe, já fóra da sua lavoira, na primeira valleira que se encontra á direita do caminho indo para Agueda, se vê uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta palmos; das quaes torrinhas, só duram hoje em dia os alicerces, e algumas porções deseguaes de muros esboroados a delir-se.

E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se dá em uma furna chamada «a buraca da cerejeirinha», aberta a picão em rocha viva; a qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna é geral fama que fôra aberta pelos Moiros.

*

Em tempos de mais abusão do que estes nossos, acreditou se, dizem os netos, que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S. João, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus thesoiros por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados.

N'esses seculos, entendido está que o terror lhe velava a estancia, e que ninguem se affoitou nunca a ir lá dentro.

Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente já não ha novas d'ella. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a sua visinhança; cantam aos seus hombraes trovas muito christans; e quem quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palacio subterraneo.

A opinião dos modernos tem, que fôra aquella mina aberta, pelos Moiros sim, mas não para tirar oiro, que é sempre a primeira conjectura, nem para serventia militar, que é sempre a segunda, se não só, e prosaicamente, á busca de agua, que em verdade de lá mana, muito fresca e saborosa, mas em pequena copia.

*

Sobre as fortificações engenha cada um a sua hypóthese.

Ha quem as supponha posteriores á invenção da artilharia, por se lhe figurar que só a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros as attribua, fundado em que, posto não ficassem d'elles por ali outros vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares demonstra, que elles por lá viveram. E se por lá nasceram e se crearam, não podiam deixar de fortificar-se e defender-se contra commettimentos de inimigos, que é esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das montanhas mais energico.

*

Falgozelhe, em verdade se crê ter sido d'elles povoada, posto que o seu nome, se christão não é (como de certo não é), tambem por arabe se não reconhece. ¿Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga?

Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que podemos ficar por mais que verosimil é que, por toda aquella serrana região, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi deixaram menos rasto que em muitas das terras visinhas, seria porque a bruteza do monte era já então como hoje, que não dava meios nem licença para grandes obras. Pequenas póvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em tirar da terra pão com que se manterem; ¡quanto mais, erigirem castellos, pontes, ou mesquitas, de que se podessem admirar fragmentos depois de sete seculos!

Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo de outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar d'estes, se acalentaram creanças com versos do Alcorão. Outras arvores, de que estas são remota descendencia, viram passar á sombra das suas copas esvoaçadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda, e turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje é talvez poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e ficariam confusos e immoveis se revivessem para ouvir as da nossa lingua.

Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos, que eu desejaria fazer tão amados de meus leitores, como de mim o são e serão sempre.

*

Não digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes, manteem-se ainda antigos. As novidades das civilisações são como a escravidão, e os diluvios: tarde chegam a engulir as serras.

A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucidez. Se os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se perdessem, pela conversação corrente d'aquellas aldeias e póvoas se poderia restaurar.

Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocábulos, phraseado, e construcção, n'uma seroada de inverno, ou n'um palrar de sésta de segadores entre carvalheiras rusticas, ao estridor das cigarras amadas de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das balas, n'um anno inteiro da melhor typographia de Lisboa.

Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos, como o

nanja

o

bofé

, o

canté

, o

quiçá

, e mil outros, sôam por lá sem extranheza em boccas de mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de namoradas de dezoito nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria.

Com a honesta herança da Linguagem, veio dos avós aos netos a das crenças e praticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e abusões. São os insectos e musgos parasitas da arvore robustissima da Fé. Abençoada a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os ramos ou cerceal-a pelo pé.

O tempo vai fazendo a pouco e pouco o seu officio. Não ha curas nem reformações mais prudentes e certas do que as suas, quando á força lh'as não ajudam ou contrariam.

Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade de apparições, phantasmas de almas do outro-mundo, Moiras encantadas, thesoiros escondidos e lobis-homens; e ainda hoje a mór parte dos moradores acredita nos esconjuros, feitiços, bruxarias, adivinhações, e virtudes de certas praticas e fórmulas, para curar ou empecer.

Estas abusões, sem deixarem de ser males muilo innegaveis, dão comtudo sua côr poetica muito particular ao Povo, cuja simplicidade primitiva no viver e trajar harmonisam com taes simplezas da intelligencia.

*

Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos, são por ora totalmente incognitos na serra. A moda não exerce por lá as suas costumadas devastações de cabedaes, bons costumes, e saude. Os vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal renova as suas folhas e flores.

Os homens vestem de burel, ou saragoça caseira, creada ás costas das suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e tecida por suas mães, mulheres, e filhas, apizoada e tinta (quando o é) sem sahir da freguesia. Trazem grandes chapeos pretos desabados, grande bordão ferrado, menos para defensa, que para arrimo pelo resvaladio das ladeiras, e tamancos cravejados.

As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra, sáia de burel de meio pizão, côr de pinhão ou preta, collete comprido justo, sem apêrto, e mandil; isto é, obra de vara e meia de burel mais apertado no tear, e sem pizão, que lhes serve de capa, lançado ao desgarre por sobre os hombros. A cabeça, cobrem-n-a, ou com o mesmo mandil, ou com um chapeo como o dos homens. As suas tamancas são menos grosseiras. O lenço de seda ao pescoço é, como as arrecadas e o cordão de oiro, o ultimo da magnificencia, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite dos seus sombreiros.

São luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando calçam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia palla de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou chita, põem gorjetes de filó, ou lenços de cassa bem pregados, e capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as mais ricas e senhoras teem mantilhas e sapatos.

XII

A educação apenas desbasta. Parca e imperfeita como a cultura do solo ingrato, só põe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos naturaes e religiosos, o afferro á justiça e á verdade, os differentes amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o respeito á velhice e ao infortunio.

As polidezes requintadas do trato são lhes desconhecidas. Esses discursos de cortezãos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam, inspirar-lhes-hiam compaixão. Pensam o que dizem, e dizem-n-o como o pensam.

Das artes de seduzir, não cultivam nenhuma. Aprendem para ser bons lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas mães, depois de terem sido bons filhos e boas filhas; e n'isso limitam a sua ambição.

Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras, em saraus esplendidos.

Não falam extranhas Linguas, como nós, mas falam a nossa, que é melhor.

Fora da casa de algum Ecclesiastico, não se desencantaria um só livro em toda a freguezia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que encher mais de um livro para nos envergonhar.

A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o coração bem nascido dará gosto. A

mercê

e o

vós

de nossos maiores são tratamentos para os raros casos em que não cabe o

tu

.

Os logarejos são todos amigos, e em grande parte parentes um dos outros. O mais pobre vai sentar-se festejado ao serão ou á meza do mais rico; isto é, do que na sua tulha tem centeio ou milho para todo o anno; e o abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a geirasinha do indigente que a não pode pagar; e lhe leva pendurado na canga do arado o sacco da semente, para que elle tenha tambem, lá para o verão, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por instinto, que as lagrimas, no meio da alegria geral, são mais amargosas para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as presenceia.

É um povo agricola, que ainda não aprendeu a envergonhar-se do seu parentesco chegado com a terra. Entre elles se diz «lavrador», e «trabalhador», como em Londres «fabricante», ou «lord», em Roma «cardeal», ou «monsenhor», em Paris «sabio», ou «homem de Letras», e em Lisboa «deputado», ou «millionario».

As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podão, com o seu paquife de pâmpanos e espigas, e a letra

Ut operaretur terram, de qua sumptus

.

*

¡Que impressão, a principio de espanto, logo de respeito, e a final de amor, me não fez o presenciar, como, ao revéz da pragmatica das cidades, o trabalho das mãos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior vergonha!!

Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido o sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava (como as andorinhas do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal roupido, carrear o adubío para a sua fazenda, ou levar do enxadão na roça dos mattos entre os seus operarios. A estes, ¿que os poderia admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios, e dos Camillos, se alguem lh'a lesse, a não ser a admiração dos historiadores?

*

As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens não poderiam deixar de ser mais varonís do que os homens de muitas outras terras, e de todas as deliciosas.

Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lançadeira, e a agulha, com o seu costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes, que vão formando semelhante á precedente a geração seguinte, só são passatempos do serão, á luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que allumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente jungir e guiar pelas suas mãos. Na vindima, carregam á cabeça cestos, que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as mãos alvas e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam á cabeça montanhas de espigas, tão leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan sob o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em bemaventurança para dez familias. Nas renques dos saxadores e dos roçadores, vel-as-heis brandindo um alvião não mais leve, deixal-os muitas vezes para traz, e envergonhal-os com seu riso de triumpho.

Não ha fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O exercicio, Anjo custodio da innocencia e virtude feminil, lhes infiltra ao mesmo tempo no sangue a saude, que do sangue se côa ao leite, e do leite aos filhos. Seriam as amasonas da paz, se não tivessem ambos os peitos muito bem inteiros, e se os homens seus eguaes as não acompanhassem em todas as lidas.

*

Uma usança patriarchal, ou homérica, d'este paiz, que moralmente parece distar do nosso duas mil léguas, é a sujeição da mulher; facto que eu não moraliso, mas só historio.

As mais graves, tanto como as mais somenos, não só á laia das Penélopes e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, mettidas no rio até meia-perna; não só no tráfego de porta a dentro, na cosinha para a familia e para os animaes domesticos; mas não se correm nem desdenham de ministrar de pé, como servas, á meza de seus maridos e filhos, nem em dias de festa ou bodo, quando a assistencia de hospedes mais poderia assoprar-lhes o recacho, e empavezal-as. São sempre aquillo: sempre passivas, boas, e contentes.

XIII

Bem estou eu pressentindo, que a muitos parecerão já minuciosas e pueris estas noticias; mas hei-de já agora continual-as, e seja com vénia sua. A outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para d'aqui a alguns annos, quando o nivel da civilisação tiver tambem renteado as asperezas das serras, alguem festejará encontrar estas antigualhas, nas folhas já por ventura rôtas e descosidas d'este livro.

Por antigualhas vivas poderiam ellas agradar já hoje ao commum da nossa gente; mas então hão-de ser antigualhas fosseis, e portanto com veneração duplicada venerandas.

*

A indole da gente é de si commedida e pacifica.

De todo o genero de vicios e desconcertos se poderão entre ella achar amostras, que emfim, terra é, e não paraiso; mas nem tantas proporcionalmente, nem tão feias e monstruosas em geral, como em outras partes, e em quasi todas.

Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em publico; ninguem é tão abastado, que possa eximir-se de trabalhar contínuo, para se despender em vida de enredos, corrupção e maleficios; nem tão extremadamente destituido da fortuna, que a miseria, a inveja, o despeito, o despenhem de salto em salto até ao fundo da depravação. É o

inter utrumque

, a

aurea mediocritas

.

Conservam inteira a Fé religiosa.

Não lêem, nem conhecem, nem levariam á paciencia, jornaes que desorientam, desencantam, e põem o genero humano em guerra viva comsigo mesmo.

E muito menos lêem, conhecem, ou soffreriam, esta Literatura toda novella, toda sophismadora de tudo, toda florída e venenosa, que por cá nos trabalha, e de cujos herpes adoecem até as familias, que a maldizem, e a repulsam da sua porta.

Por lá, não; o mal que se fizer, ha-de só provir da fragilidade, ou dos impulsos subitos da natureza; e, depois de consumado, ha-de deixar na consciencia remordimentos.

Uma apologia, uma deificacão para cada crime, nem possivel a julgam; quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida como aphorismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se conchava.

D'estas varias causas, negativas e positivas, e talvez de outras mais, resulta que tanta vantagem nos levam elles em bondade pratica e innocencia, quanta a que lhes nós levamos em polidez, em graças exteriores, em tactica, em egoismo infernal e assolador. Nos amores ponhâmos o exemplo:

*

Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e persuade: tendem á união, de que se originam as familias, e por onde a especie se mantém.

Como lhes falta o ocio, pelo qual muito bem disse Ovidio ser a maior arte do amor, e o culpado nos seus peores desatinos, e além do ocio lhes fallecem tambem sobejidões de cabedaes, que estimulam e irritam as phantasias, para o casamento se namoram, e não por alardo; para goso do coração, e não da vaidade. Põem no merecer as diligencias que outros põem no conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar no repellir e despresar depois de saciados.

Não vivem os sexos n'uma guerra perpétua de seducções, de emboscadas, enganando-se e sacrificando-se um ao outro.

A mulher não lavra registo dos seus adoradores; nem o homem se ufana em desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um theatro, ou no vão de uma janella de club, em noite de baile, um copioso canhenho, meio historico meio fabuloso, dos seus triumphos. Ali, ali é que as mulheres se podem gabar de ser amadas, pois o são sem disfarces nem encarecimentos; são-n-o pelas suas proprias graças, pois nem modistas, nem cabelleireiros, nem cosmeticos, nem perfumadores, nem mestres, nem lisonjeiros, nem romances, as transformaram. São-n-o pelo que são, e não pelo que possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada.

Palacios, creadagem, diamantes, não lhes vão lá supprir lindezas do corpo, graças do animo, ou preciosidades do coração.

Não é entre prestigios deslumbradores, n'um ambiente de calor artificial, estimuladas ou vencidas do exemplo, da occasião, do medo ao ridiculo, e da audacia emprehendedora, não é ao abrigo do estrondo e confusão de um baile, que ellas recebem e fazem as suas primeiras declarações; é ao serão, com a sua roca na cinta, na presença de suas mães; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva com as parentas e amigas, em derredor da merenda, á sombra das carvalheiras.

São amores que se não escondem, porque não teem de quê; amores que se exhalam debaixo do ceo azul; que se juram pelo Santo da illuminada capella do festejo, ao som folgasão da

Mirontella

roncada pela gaita de folle, rainha, alma, e feiticeira ambulante do arraial.

No progresso de taes inclinações é sabedora e consentidora toda a visinhanca; e esta mesma notoriedade defende os nossos namorados, tanto de se deixarem arrastar de seus mutuos desejos, como de se desvairarem e cahirem em infieis.

Ao consorcio da Egreja, antecede o dos corações, não menos obrigado a lealdade e observancia. Nenhum Lovelace de véstia commetteria galantear a conhecida por

emprêgo

de outrem, certo em que nenhuns lucros lhe surtiria o empenho, senão só motejos e descredito.

D'este modo se estende ás vezes por annos, com uma constancia verdadeiramente biblica, até ao dia da posse, o bem-querer d'estes Jacobs e d'estas Rachéis.

¡Quantas Lisboetas de saráus, se quizerem ser sinceras, hão de confessar que a escolha que n'um baile fizeram... só durou até que veio o baile seguinte! ¡Quantas, quantas, cujo numero de arrojados (concedendo que pelas duas orelhas que Deus lhes déra não ouviam dois ao mesmo tempo) se poderia contar, perguntando á sua modista franceza quantos vestidos novos lhes havia feito!

Não assim lá. A que foi vista, na ceifa do anno passado, demorar-se mais a encher a malga para certo segador que para todos os outros, e pedir-lhe sempre a elle que lhe ajudasse a pôr á cabeça a gavella das espigas, essa continuará a fazer o mesmo na colheita d'este anno; continual-o-ha na dos futuros, até que, tornada sua mulher, os cuidados dos filhos e da casa a impidam de seguir, como antes, por passos contados, o seu gosto.

Observação tão curiosa como verdadeira:

Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a sós, que a variedade dos serviços rusticos tão a miudo lhes depara, rodeadas da Natureza por todas as partes, vendo livre o amor nas aves e nos rebanhos, favorecidas pela solidão selvática e pelo silencio, e pelas moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois crepusculos em cada dia, e em cada semana de inverno por tantas tempestades improvisas, como aquella que rendeu e debellou a vidual constancia de Dido e a piedade de Enêas, quando o hymeneu deu com o relampago o signal de suas bôdas, e as nymphas pelos altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de fragilidade como a de Dido por phenómeno se apontam; e annos e annos se devolvem, sem que um só se realise.

Quando porém se dá, e vem a lume filho não de benção, o peccado de amor não se carrega de crueldade. O innocente não se faz victima expiatoria dos culpados, perdendo a vida entre as mãos de quem lh'a deu; horror nefandíssimo, inteiramente desconhecido d'aquelle horizonte para dentro; nem tão pouco é enviado, como um roubo, pelas trevas da noite, á porta lá ao longe de um desconsolado asylo, aberto pela misericordia em lagrimas ás lagrimas dos filhinhos sem mãe, nascidos em signo de rigor para se crearem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes, e se finarem sem heranças, nem lamentos, nem memorias.

Não, não. Nem pelo infanticidio physico, nem pelo infanticidio moral, mereceria qualquer das minhas serranas um falso titulo, que ainda mais a faria corar, que a tácita confissão da sua culpa. Sabe renunciar os louvores com que d'antes a coroavam; ousa desherdar de antemão o seu cadaver do palmito, symbolo pósthumo do feminil triumpho; tudo ousa; tudo... como lhe fique para consolação da sua queda o encanto ineffavel de apertar nos braços o seu filho. Se o mundo todo, se o proprio amante, a desamparasse, tudo tudo esquecêra vendo-o rir; sorrira, e sentira-se afortunada. De não ser donzella, nem esposa, harto a compensa a consciencia de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o sublime encargo, o natural sacerdocio da maternidade.

Estas resignadas victimas, immoladas por um amor, por outro amor ressuscitadas mais interessantes, estas victimas, em quem a virtude, produzida pelo arrependimento, excede talvez em quilates, e eguala quasi em lustre a virgindade, são poucas; são rarissimas; custar-nos-hia a encontrar uma. Quando porém a desencantasseis, lembrando vos do que sabeis d'estas nossas grandes terras, fio-vos que bastante commiseração e respeito vos infundira.

*

Casas de perdição para a mocidade, como nos povoados grandes se alinham em ruas e ruas, e até já por villas e aldeias vão surdindo, não se conhecem lá, nem se poderão tão cedo conhecer.

Como leprosa seria evitada, e pereceria á mingua, e de vergonha, a que se proposesse esse culto venal de praseres falsos, em que as sacerdotisas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso, são victimas das victimas que ellas sacrificam.

Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos casaes.

XIV

Dos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve de sepulcro, mas não lá; falemos do casamento.

*

Os casamentos não são nunca determinados por considerações de haveres ou de jerarchia. O cálculo rala pouco os pensamentos d'estas gentes, acostumadas a viver com pouco, e a confiar muito na Providencia. As palavras

dote

e

escrituras

apenas seriam entendidas.

Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e economia, a ajuntar para

uma cama de roupa

, uma teia de estôpa, outra de linho, uma peça de burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma panella e dois pratos, uma candeia de folha, um bácoro, seis alqueires de milho, e outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da fortuna, e trata logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor.

O noivo dá á sua futura um presente, o qual, pelo commum, consta de um anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro uma camisa para o dia grande.

Mal que este desponta, vê já de pé os dois afortunados, garridos e bizarros com o seu

aceio

dos domingos: ella, sobretudo, flammante como uma Imagem, com arrecadas, cordões, e alfinetes sobre lenço de seda, mantilha lustrosa, ou chapeo de feltro novo com enfeites.

As que para tanto não teem guarda-roupa, teem amigas e visinhas, que de boa-mente

lhes

acodem, cada uma com o seu

melhorado

, convencidas como estão (especialmente as solteiras) de que alguma coisa da benção matrimonial poderá vir apegada aos diches e galas que figuraram no apertar das mãos.

Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avós, se preparam de vespera para este acto, banhando-se em agua de alecrim, que sendo florído tem mais efficácia, e mettendo antes de adormecer debaixo do travesseiro (suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem liados entre si, e recobertos com alguns arméos de linho e lan; no que, vai grande condão de conformidade de animos, perfeição de ajuntamento, e dura do bem-querer; com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados, não faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio.

O pretendente, com os seus apaniguados, espera já á porta da noiva a sua sahida. Esta apparece emfim, como uma aurora da serra, incendida de pejo, e orvalhada com as lagrimas da mãe; e segue com o rancho, a pé, caminho da egreja, levando ás costas as bençãos do pae, em que ainda por lá se crê, a turbação no seio, e nos ouvidos os votos e resas de bom agoiro, recitadas com fé por alguma velha mais sabida.

A egreja está já á sua espera aberta, juncada de espadana, com o altar enflorado de fresco, e a alampada atiçada.

A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do sacramento, ou improvisa apóz ellas um affectuoso discurso sobre os deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo do templo não é interrompido com pregões de vendedores, rodar de seges, marchas de tropa, brados de mendigos, assobios de rapazes, martellar de artifices, zabumbas de arlequins.

Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e afugentar as evocadas memorias de

Lia, de Rachel, e de Rebecca.

O que unicamente chega lá de fóra, é o chilrar de algum passaro sobre alguma cerejeira do adro, o amoroso carpir de alguma rôla na matta de S. Sebastião, ou a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiçosos no trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da progénie de Adão.

Não sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com mais clara e muito mais formosa benção.

*

É um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a Deus não ser mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de dois nomes um só nome, como de duas metades distinctas se forma um todo inseparavel.

É um dia, sem duvida, para quem bem o pondéra, solemnissimo, e que, por isso mesmo, se deveria por todos os modos pintar com indeléveis e suaves tintas na memoria, para que a sua imagem no meio das tentações podesse acudir como Santelmo resplandecente no meio das tempestades.

Quem se recordar de que proferiu o seu voto, e escutou com jubilo outro egual, onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congéries de obras humanas encobriam as maravilhas da Mão Divina, onde com o sol entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e fragrancias naturaes com as virações, quem, repito, de tudo isto se recordar, ha-de-lhe parecer que Deus percebeu melhor as suas palavras; ha-de alguma vez devanear em si (mas que o não diga) que bem poderia ser que alguns Anjos estivessem ali, em tão donoso tabernáculo, a bafejar a prisão de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a mulher...

*

Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos alvoroçados, e por entre os parabens e vivas dos assistentes, encontram, começando logo no adro, de praso a praso, por toda a extensão do caminho até á casa, arcos, engenhados á pressa, de loiro, ramos de pinheiro, oliveira, roble, canas verdes, e quantas hervas e plantas bravas menos espinhosas ou mais floridas brota o monte.

Ao-pé de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua toalha, e ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa, estão, postos de antemão pelos muchachinhos que formam a primeira frente do préstito triumphal, um prato de bolos, e frutos verdes ou sêccos para quem os quizer tomar; outro vazio, para a gratificação voluntaria, que ninguem deixa de lhe lançar.

Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa, e industria mais esmerada; foram esses prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de seus afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem concertadas que podem, um á moça, outro ao mancebo; os quaes, logo a diante, de ordinario entre si os trocam; e junto á salva dos ramalhetes se vê um abundante refresco de bebida e comida para todo o acompanhamento, sendo o acepipe obrigado ás filhós de mel.

Em cada uma d'estas

estações

chove de todas as partes a saraivada dos confeitos; bebe-se á saúde dos «bem empregados» e «de quem d'ahi a nove mezes ha-de vir.»

*

O jantar d'este dia é copioso e demorado, com tantos convivas quantos admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as boas vontades prestes para quem se quizer apresentar.

Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse «o desposado» (contra a regra do nosso falar galanteador), porque o logar da direita se lhe dá a elle. A dignidade varonil em nenhum lance esquece entre aquellas gentes primitivas.

N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e com um só talher, e bebiam pelo mesmo copo; o que, não obstante fazer durar a refeição dobrado tempo, não deixava de ter graça pelo seu bonissimo sentido, que não podia ser outro senão representar a communidade e harmonia intima, em que esperavam e professavam de viver.

*

Á noite ha saráu rasgado, com concerto de violas, rabecas, e ferrinhos, dando se a rôdo comer e beber aos tangedores.

Em quanto dançam, algumas moças donzellas se furtam subtilmente á companhia, para irem enfeitar de flores o leito nupcial, desfolhar entre os lençoes rosas de cheiro (se a estação as dá), e guarnecer a roca e fuzo symbolicos de amores perfeitos.

Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita da quinta que é meia-noite, ha já muito que os obsequiadores bondosos teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas de calmaria de certo suavissimas, apóz um dia todo por fora e por dentro tão festejado e tão revôlto.....

XV

O nascer de cada filho é uma festa.

Como teem robusta fé na Providencia, crêem (e mostra a experiencia que se não enganam), crêem e repetem, que filhos ainda em casa pobre são riqueza; que por taes penhores se obriga Deus, que é o Pae commum, a lhes acudir com mais larga mão; e que a meza, por ter mais Anjinhos ao pé de si, se não ha-de fazer mais escaça, se não medrar á proporção de tão bons hóspedes.

E em verdade: se a descendencia nas cidades é tantas vezes um onus, um sorvedoiro, e um terror; se tão commummente se ouvem mães e paes deploral-a como castigo e praga; lá na serra, onde ha trabalho proporcionado a cada edade, lá na serra, onde, como em enxame bem regido, todos os consumidores são productores; lá, onde só são necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes são os mestres, o exemplo lição, a laboriosidade e sobriedade herança; ninguem se atormenta sorteando na phantasia empregos ou futuros novos para a sua progénie. Lá os filhos são rebentões, que alegram, remoçam, e espécarão a seu tempo a velhice decadente de quem lhes deu o ser, seiba, e sombra.

*

Vinda a lume a creanca, entre um côro de mulheres experimentadas em taes lances, que supprem a falta de parteiras e doutores, tem-se já prompta a canastra que lhe ha-de servir de berço.

Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, é escrupulosamente velada, para que não venham bruxas malfazejas a chuchal-a. Para esse fim se mantém de sol a sol candeia bem experta; e ao clarão d'ella, com os olhos fitos no innocente, e quasi sempre em pé para que as não tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as amigas da casa.

Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vão entoando com a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do pé embalam brandamente o bercinho. Algumas folhas de oliveira ou palma, que figuraram no altar em Domingo de Ramos, queimadas n'esta occasião, diz-se que tambem provam muito bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e janellas.

*

Não sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de romanas crenças a graça, a fragrancia poetica, o saudoso de innocente boa-fé, que lhes eu sinto.

¡Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e tão christan como ella é, praticam o mesmo que os legionários romanos provavelmente ensinaram a nossas avós ha mil annos, e mais, pelo terem visto fazer nas aldeias da sua terra a suas mães e mulheres! ¡Cuidar que estamos vendo, com pequena degeneração, o que o mais rico poeta da Antiguidade se deliciou em cantar das crenças da sua gente! E se não, oiçâmol-o, e julgareis:

Negreja ao réz do Tibre annoso Helerno,

santo bosque, onde levam sacrificios inda agora os Pontífices romanos.

Ali nasceu outr'ora, ali vivia

a que nossos avós chamavam Grane, casta Nympha, de excelsos pretensores

pedida vezes mil e em vão pedida. Era seu exercicio errar nos campos, as feras perseguir com dardo agudo, e as redes emboscar nos fundos valles. Inda que aljava ao lado não trouxesse, criam-n-a irman de Phebo; o parentesco não poderia, ó Phebo, envergonhar-te.

Quando algum namorado a requestava,

tinha prompta a resposta.―«Aqui,―dizia― ha nímia luz, e a luz dobra a vergonha... Se preferes entrar n'aquella gruta, sigo-te.»―Á gruta o crédulo voava; ella torcia o passo, ia á carreira das moitas na espessura homisiar-se; d'ali desencantal-a era impossivel.

Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;

combateu lhe o rigor com brandos rogos, e a sólita resposta obteve em prémio: que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe; segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge. O que lhe fica apóz vê Jano. Ó louca, no usado esconderijo em vão confias; olha como t'o observa, e t'o devassa. Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus braços; eil-o comtigo a sós na cava penha, onde havias buscado o teu refugio.

Saciados os sôffregos desejos,

―«Em paga d'este goso―exclama o Nume― dos quícios a tutella eu te confio; pela honra perdida esta conserva.» Assim falando, candida varinha lhe entrega, com que os tétricos asares das protegidas portas afugente.

Existem de brutal voracidade

umas infames aves; não já essas que de Phineu a meza espoliavam, mas da mesma relé: cabeça grande, fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas, garra adunca; esvoaçam pela noite; onde encontram creança ao desamparo, que a ama deixou só, prestes a empólgam, arrancam-n-a do berço, e a dilaceram. Diz que as lactentes vísceras co'os róstros lhes picam, lhes devoram; teem as fauces sempre repletas de sorvido sangue. Do estridor com que as trevas alvorótam, lhes vem o nome: estriges se nomeiam.

Estas pois, quer de si nascessem aves,

quer em aves, de velhas que antes foram, fatal conjuro marso as encantasse, penetraram de Proca no aposento.

Com cinco soes de edade, o innocentinho

era ao bando ferino egregio pasto. Já co'as gulosas linguas ferem, sugam o tenro peito nu; sôam do infante os consternados trémulos vagidos, com que, á falta de voz, auxilio pede.

Corre a ama assustada; acha nas faces

do caro alumno seu lavado em sangue das brutas garras os crueis vestigios. ¿Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho, que na côr arremeda as tardas folhas já do rígido inverno bafejadas.

Corre a Grane; o successo lhe relata.

―«Cobra valor―a Nympha lhe responde;― viverá teu alumno.»

Entrada ao berço,

acha a mãe, acha o pae, sôltos em pranto.

―«Eis-me; enxugae as lágrimas―exclama;―

vou tornar-vol-o são.» Diz, e tres vezes de medronheiro com frondosa vara fere da estancia as portas; outras tantas co'a mesma vara o limiar sinála; rega o ádito; as aguas com que o rega encerram salutifera mistura. Entranhas cruas de bimestre porca toma nas mãos, e diz:

―«Aves da noite,

í-vos, deixae as puerís entranhas. N'esta pequena victima tenrinha o tenro pequenino aqui resgato; é coração por coração; tomae-o; por visceras são visceras; redima esta existencia immunda outra mais nobre.»

Finda a sacra oblação, corta o deventre,

e esmiunçado o vai pôr aos ares livres, prohibindo do rito ás testemunhas olhal-a então ninguem; por fim colloca a vara de oxiacanta, o don de Jano, na janellinha que dá luz ao quarto.

Consta que desde então não mais volveram

ao berço aves ruins; saude, cores, tudo refloresceu no innocentinho. [3]

*

O padrinho presenteia a comadre no dia do Baptisado com dois côvados de baêta encarnada ou verde, vinho, assucar, arroz, um cabrito, ou peixe, conforme o dia em que acerta. A madrinha dá um vestido, duas camisas, e uma touca. Cada um dos convidados, um pichel de vinho, segundo o seu brio.

Este dia é quasi tão festivo como o do casamento, pois n'elle se cumpre a benção que no primeiro dia se recebêra, e está salvo o interessante pimpôlho para a outra e para esta vida; sendo averiguado, que as bruxas nada querem com sangue a que a agua e o sal tiraram o saibo do peccado.

XVI

Além d'estas duas festas, domesticas e privadas, casamento e baptisado, cada povoação celébra a sua, pública, no dia do Orago da sua capella. Tem fogo do ar e salva de morteiros á Missa cantada; banqueteiam-se uns aos outros; e, se o anno correu próspero, e as posses o consentem, andam já desde a vespera á tarde pelo adro, viellas, e azinhagas, a gaita e o tambor, e despovôa-se a visinhança com o chamariz do fogo de vistas nomeado de

armação

, ou

parreira

.

Por esta occasião, nas casas principaes, isto é, nas menos apertadas, saltam-se até a meia-noite as danças, pela mór parte cantadas, do bom Portugal velho; danças, das quaes, para fóra d'aquelle vivente archivo de antiguidades, nem já, quasi, os nomes se conservam. São o

caracol

, o

Senhor da serra

, o

lundú

, ou

landum

, o

escalhabardo

, a

ribaldeira

, o

Francisco bandalho

, etc.

A excitação do saltar, a virtude inspiradora do vinho verde, e um poucochinho o natural desejo de brilhar diante das raparigas e dos rapazes, fazem ás vezes com que ahi appareçam, como nas romarias, como nos serões dos lagares, escamisadas de milho, e outros ajuntamentos de gosto, poetas e poetisas que trovam de repente, e á porfia, por espaço de horas, ao som da flauta de canna, ou da viola.

*

Por de mais seria querer dar ideia de taes improvisos.

Os cantores, quer sejam homem e mulher, quer homem e homem, estão em pé, um diante do outro, no meio da roda dos ouvintes. A toada de que se ambos servem, é sempre das mais populares, e vai toda remançada, para que as ideias e rimas tenham lazer de acudir. Ás vezes, por desgarre ou desfastio, se deixa degenerar de cantoria n'uma especie de declamação accentuada.

O seu verso é o de sete syllabas; o seu periodo, quatro versos, correspondendo-se o segundo e o quarto com toantes ou consoantes; isto é: usam das quadras correntes em todo o Reino.

Alternam-se de quadra em quadra, ou de duas em duas quadras, conforme lhes convém.

Principiam (é obrigado) por uma especie de elogio, ou vénia, ao dono da casa, se é em casa que se tem o descante, ou aos assistentes, se é em terreiro. Passam logo a tratar do objecto da festa, ou dos seus proprios amores; e d'ahi, muitas vezes sem transição, saltam para um genero entre elles muito saboroso, que se poderá chamar o «rustico

fescenino»,

se, de envôlta com as chufas salgadas, fossem tambem como entre os Antigos, os dizeres e entenderes licenciosos. Um ao outro se empulham e desempulham, como os dois pastores virgilianos, com surriadas de impropérios sempre ao galarim, sem que o fogo das palavras prenda nunca nos corações. Com a mesma feição com que dizem, com a mesma ouvem; e tão avindos saem da contenda, como n'ella entraram.

Um primor d'este chancear consiste em tomar cada um, para urdimento da sua trova, o verso, phrase, ou palavra final, da do seu adversario, por mostrarem assim que não vinham aparelhados para o duello, e que tudo quanto esgrimem lhes acudiu, extemporaneo.

*

Uma coisa faz extranheza a quem assiste pela primeira vez a taes porfias, e em geral a todo o cantar aldeão; e é: que a primeira metade de cada quadra tem frequentemente um sentido diverso, e desconnexo do sentido da segunda metade.

Os primeiros dois versos conteem uma sentença geral, uma verdade vulgar, uma imagem campestre, a exposição succinta de qualquer facto, mas sem relação alguma com o assumpto que se versa, o qual só nos dois versos ultimos apparece.

Vão exemplos, visto não estar em academia, mas em pratica de amigos com meus leitores:

O loireiro bate bate, que eu bem o sinto bater. Para comigo cantares has-de tornar a nascer. Á couve se come a folha; come-se a raiz ao nabo. Só te espero ver casado sendo mulher o diabo. Navio d'el-Rei é grande, é grande e chega ao Brazil. Se namorares alguma, não seja á luz do candil. Sequidão cria o centeio, frescura cria os repolhos. ¡Quem me estreára comtigo, menina, os lençoes de folhos!

Já se vê, por estas amostras, que a improvisação não é tão difficil coisa, nem para tantos encarecimentos, como a teem feito alguns viajantes, d'estes que só viajam no seu quarto, embarcados na sua poltrona.

É por cá o mesmo, que provavelmente será por toda a parte, sem exceptuar a Italia, com que tanta bulha se nos faz.

Al porto di Livorno è giunto un bastimento. Cara, morir mi sento! mi sento, o Dio, mancar!

XVII

Muito, porém, se enganára, quem inferisse que toda a poesia dos meus serranos é de egual teor; porque, sobre conservarem muita xácara de bons tempos, com as suas lacrimosas cantilenas tão singelas, tão simplices e aprasiveis como ellas (o que já não seria pequeno cabedal), cantam, e ás vezes engenham com singular felicidade, quadras repassadas de amoroso affecto e graça natural, que um poeta de nome não enjeitaria.

E ¿que muito? ¿Por que não haviam de nascer estros por ali, onde ha tanta Natureza, tantos sitios inspirativos, tão bons ocios na solidão, tantos amores (¡e amores tão bem empregados!), e tão largos horizontes para a saudade!

¿Por que não haviam elles de nascer, quando até pelas nossas encruzilhadas mal cheirosas e escuras, pelos nossos botequins fumosos e azoinados, pelas casas d'essas ruas feias, onde olhos e ouvidos se perdem e afogam em prosidade vil, rebentam, viçam, e não raro florejam, talentos de estimação e de valia?

Mas a cada qual a sua boa dita, e o seu fadario: aos das cidades, muitas coisas lhes empecem (não falando no desamor que os esfria, e nas parvoas invejas que os matam); aos montanhezes, afóra a Natureza, que lhes abunda, tudo mais lhe mingúa. São poetas, sem adivinharem que ha poesia, como de Hesíodo se conta, a quem, sendo humilde pastor, appareceram as Musas, não invocadas, para o bemfadarem.

*

¡Oh! ¡Que de Hesíodos se não esperdiçam, e, por falta de um prodigio que os desencante, fenecem desconhecidos ao mundo, e a si mesmos!

De uma pobre mocinha ovelheira posso eu dizer; que por tardes de verão muita vez a ouvi sem que me ella visse; eu reclinado nos degraus da capella de S. Sebastião; ella ali perto, cantando e fiando em pé á sombra de um sobreiro, no meio dos balidos do seu fato; ella e eu, como bem se pode crer, ¡enfeitiçados com a placidez de tão livres horas em logares tão fugidos, tão sobranceiros ao mundo todo!

De amores eram os seus versos, e amorosa a sua fala. Brotavam-lhe todos corados, não da memoria se não do espirito; e o espirito d'ella, estava-se conhecendo que lhe residia no coração, tão bem, tão bem, tanto a seu grado, como em estufa bem quente uma planta mimosa, que um ameaço de frio mataria.

Não sabia ler; raro teria visto a quem o soubesse. Nunca ouvira de obras de poesia senão as cantigas da sua terra, o murmurinho dos seus rios; de madrugada a cotovia perdida pelos altos do ceo; ao meio-dia as porfias das cigarras; ao descahir da tarde o badalar longinquo das Ave-Marias; ao cerrar da noite o regosijo da aldeia, que torna a ajuntar os seus moradores, os seus rebanhos, os seus carros, as suas creanças, os seus rafeiros, toda a sua orchestra tão bem temperada para a alma; de noite os grilos e o rouxinol; e em sonhos... a fala talvez do seu namorado.

Por aqui se resumia a sua bibliotheca; e comtudo, não ha encarecer o que ella improvisava para as suas ovelhas, que a não entendiam; para mim, que me occultava com mil cuidados para não afugentar tão melodiosa ave; e para o ecco, para o ecco sobretudo, unica voz que podia levantar-se ao-pé da sua.

Era a inspiração lyrica mais formosa, se não a mais remontada. Eram os objectos do seu limitado universo a mirarem-se na limpidez dos seus affectos, virginaes e namorados ao mesmo tempo. Eram as palavras destillando-se cada uma da sua ideia com a propria côr, com a propria fragrancia que lhe competia. Era o metro a correr, sem quebra nem extravasamento, a flux, sereno, sonoroso como a fonte do passal. Eram as rimas a vir poisar espontaneas, faceis, afinadas, uma de fronte da outra, como em dois arbustos diversos no mesmo valle se respondem dois passaros gorgeando. Era tudo, emfim, quanto a Arte requer, e só a Natureza pode dar aos seus mimosos

¡Pobre mocinha! ¡Dezasseis primaveras!... Até já as suas ovelhas se esqueceriam d'ella. Dissipou-se como um sonho de poesia. Não deixou mais vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus poemas. Se ainda canta... já não é a terra quem a ouve. Remontou o vôo muito mais alto que o da cotovia sua mestra; engolfou-se por entre as scismadoras estrellas, que tantas coisas em segredo lhe ensinavam; e virgem entre os Anjos, irman entre seus irmãos, entretece a sua voz immortal no cantico sem limite

XVIII

Com a Poesia da montanha, releva fazer tambem menção da sua Musica.

É esta quasi toda antiga; antiquissima podéramos dizer de muita; e conserva puro e extréme o primitivo sabor. Condiz com a Linguagem, com o trajar, com os costumes; seria excellente oráculo para consultarem os modernos compositores de operas nacionaes. Assim se temperariam para os nossos ouvidos, os quaes, posto que affeitos de annos para cá a peregrinas melodias de muito mais altos quilates, ainda comtudo se ageitam e conchegam melhor com as toadas sentidas e singelas da nossa creação.

Nas boas horas fique a musica italiana, pois que entrou, e nos cahiu, e o merece; mas, porque bizarros agazalhamos a digna hóspeda, não se diga que aposentámos nos sótãos a parenta velha, bondosa, e amiga, por trazer vasquinha e falar chão.

Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; façam-n-o até (se já não pode ser por menos), façam-n-o a frouxo e a granel por essas comedias e farças, em que fala gente do nosso sangue e dos nossos nomes. Mas uma vez ou outra (

al de menos por cortezia

, como dizem os meus serranos), deixem-nos ouvir em boccas patricias coisa que nos alembre das cantilenas de nossas amas, cantilenas que, ainda depois de apagadas da memoria, lá se ficam algures no coração, com quanto basta de vida para ressurgirem ao primeiro aceno.

Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e arbustos exóticos da mais admiravel louçania; mostre-nos lá, emboscadinho na herva, o malmequer da nossa primeira adolescencia, a papoila retinta, que nos ria d'entre o verde da seára, quando meninos; a papoila e o malmequer muito mais nos hão-de conversar com o coração um só minuto, que todas ess'outras flores mais soberbas em toda uma primavera.

Se é vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que muita vez n'esses theatros, por ahi, me estão lembrando com saudades os descantes da serra.

Uma ária opulenta, refeita de sciencia, espinhada de difficuldades, a dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe revolve aos pés, a sumir os seus píncaros florídos e trémulos pelas nuvens, admiro-a, applaudo-a, e esqueço-a. Abalou-me tudo, a fora o coração.

Porém certas cantigas que eu sei... não as applaudi, não as admirei quando as ouvi, mas senti-as repassar-me até ás fibras intimas; assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do silencio.

Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares, da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter encontrado.

E tambem, ¡que melodiosas, que engraçadas não são algumas, até para orelhas forasteiras, quanto mais para as do seu molde!

*

¡Oh! ¡se a penna fôra varinha de condão! ¡Se, em vez de vos falar do que por vocábulos se não exprime, podesse apresentar-vos lá de subito, a beberdes com aquelles ares bonissimos aquellas cantorias agrestes, sem cultura, sem enxerto, luxuriantes de natureza, macias, avelludadas, rescendendo a amor e contentamento!

Comigo ficáreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas por mãos perítas, nos podiam abastar de muito oiro, que a Arte, batendo-o e cunhando-o a seu modo, poria em facil giro com geral proveito.

O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas solidões, edificaria como Amphião novas Thebas, attrahindo e congregando com a sua lyra penedias e florestas.

¿Mover-se-ha algum a tental-o? moverá a final. Mas por ora, o thermómetro do patriotismo assignala graus para baixo de zero.

Para a Poesia nacional antiga e popular já alguns olhos se teem voltado; e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo, querendo Deus; ¿mas quando? sabe-o Elle.

Dos que por ahi a professam, nenhum dá visos de querer levantar-se. Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que se admiram em alguns d'elles. ¡Oh que o fizera! e com bem pequeno custo, bem farta corôa grangeára.

¿Que digo «custo»? ¿Onde ha ahi delicia como é o viajar caçador de Artes, por toda a parte bem vindo, banquetear-se á farta com agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto dos thesoiros que se tomam?

*

Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus espaçosos ermos, e que lhe dava uma particular feição de melancolia mui suave, era a extensão das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes a perder de fôlego. É donosa coisa; mórmente pela noite, e ao longe...

A explicação d'esta singular maneira deve ser, segundo me parece, o costume de cantarem muitas vezes a sós por lombas descampadas e cumes de oiteiros, d'onde a voz tem de correr, e correr, primeiro que tope com ouvido em que se hospéde. Outras vezes é ao-pé de estrépito de aguas, que a afogariam a lhe faltar perseverança. Outras, em paragens de eccos, nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si mesma namorando.

*

De cabeço para cabeço, bem arredados um do outro por estirado valle, ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras conversando por cantoria; e, graças a este methodo de irem fiando cada syllaba... comprida... comprida... entendiam-se (podendo apenas enxergar-se), como se estiveram assentadas mão por mão, e muito manas, á soalheira no seu aido.

Sustentam-se estas entoadas conversações, em prosa inteiramente desatada de rithmo, e não obstante rimada, rimada por um modo tão insólito como facil.

Exemplo:

¿Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha:

―Ó ia, eu te digo ó Maria, Ó iga, que se tu és minha amiga, Ó á, botes as cabras para cá, Ó enda para me ajudares a comer a merenda, Ó eijo, que tenho aqui brôa e queijo, Ó ôas, e umas maçans muito bôas.

E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a outra interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mão no colloquio por ter chegado a sua vez.

XIX

Mas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica. Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas.

*

As geraes mais notaveis (pois até agora só vimos as de cada familia e as de cada aldeia) são: o Anno-bom, o Carnaval, a Paschoa, Maio, S. João, e o Natal.

*

O Anno-bom não é ao presente senão um rebate para comesaina rasgada, e se deitar uma can fora.

As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado, já lá vão.

Consistiam (archivemos, archivemos, pois que até as serras ao cabo se desmemoríam) consistiam em sahirem, logo ao romper do primeiro sol do anno os cachopinhos de cada povoação, todos em bando, o mais bem arreados que podiam, com suas sacólas, ou alcôfas, ás costas, a cantarem de porta em porta, e, percorrido o logar, de aldeia em aldeia, até se lhes acabar o dia, umas trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de campanudos louvores á bizarria do pae ou mãe de familias, e desfechando sempre em requerer alguma chouriça, gallinha, ou pão branco, para a ajuda do

refestêllo

; contribuição com força de Lei, mas de que todos se desempenhavam á boa-mente.

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