Volume 1 — VOLUME I (continued 2)
Reading edition
*
O Carnaval, é como ainda nós por aqui o conhecemos nos seus dias aureos, tríduo de folia desatada, guerra porfiada e bem rida de todos contra cada um, e de cada um contra todos.
São as pulhas, as peças, os esguichos, os pós, a laranja
.....que derruba o chapeo,
de que o bom
Filinto com tanta saudade se lembrava lá em París, o rabo-leva de tripas entufadas, a mão de ferrugem da chaminé com azeite pelos fucinhos, as estôpas apegadas ás costas e incendidas, o vinho com sal, as filhós com trapos, e todos os mais adminiculos, que no ritual classico se conteem.
Por qualquer parte que então se caminhe, ainda que se não veja povoa nem viva alma, duas coisas se hão-de ouvir infallivelmente: uma é rir e apupar; toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra são descargas de espingardaria. Ninguem tem caçadeira velha em termos de dar fogo, que não saia com ella a salvar.
N'esta occasião (não sei por quê) o rio de S. Mamede parece marcar fronteira entre duas nações inimigas; a metade cíterior, e a metade ulterior da freguesia, formam dois exercitos, que, disposto cada um na sua banda pelos altos mais patentes e convisinhos aos seus adversarios, para lá lhe atira por cima da torrente, sem folga nem misericordia, turbilhões de chascos, de apupos, de rugidos de buzinas, de buxas accezas, e fumarada. Estremece a terra sob os pés; retumbam pelo ouco dos valles, pelas refolhadas e sinuosas lapas das ribanceiras, os rolantes trovões centuplicados...
O Entrudo ébrio, que vai, titubante cavalleiro em derreado asninho, visitando as povoações, com barbas brancas em faces avinhadas, e canna em punho para se abordoar, facil, prasenteiro, com séquito de rapazía a abuzinar, e de mascarados saltões, satyricos, e brutescos, bem poderá ser o próprio Sileno das bacchanaes, metamorphoseado pelo tempo, constante parodiador das suas mesmas obras, pois não é necessaria grande perspicácia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se conciliaram diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as saturnaes; por embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e quejandas (o numero era folgado).
As pastoras, que não podem deixar por tres dias o gado nos redís e apriscos, para se estarem regalando ao banquete da familia, teem um Carnaval particular, um Carnaval nómada e silvestre, cosinhado e comido ao ar livre, e a que ellas chamam «o seu gôrdo».
O
gôrdo
, para o qual de tempos se andam aparelhando, é feito por varias d'ellas em commum, convidadas e admittidas outras amigas, e algumas vezes tambem alguns moços seus parentes.
Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um gôrdo; e ainda agora me está sabendo.
Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um vestíbulo de areia parda e fina, á borda da agua.
não lhes faltando os competentes
.....vivo sedilia saxo.
O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de leite recem-mugido.
Terminaram com uma dança no areal, por não haver melhor, e debandaram, cada uma atraz do seu gado, quando já lá por cima branquejavam estrellas. A fogueira serviçal lá ficou sosinha, remirando-se ainda na corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as levaria.
Innocentes leviandades são todas estas, e, mais ou menos, parecidas com o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas, travada com ellas, uma usança ha ali, que só ali ha, e que eu aponto, não só porque me ajuda no retrato d'aquella gente optima, se não porque dará luz para se entender o poema que a diante vai, com o titulo de
Domingo gordo dos montanhezes
.
N'este dia, pois, logo de manhan, acodem á matta de S. Sebastião, que já sabeis orla o passal pela banda do poente, todos os moços solteiros da freguesia, a plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o quê, e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que já para isso a Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para suas terras a folgar.
Nem o introductor, nem o tempo da introducção d'esta pratica, são já hoje conhecidos. É uma tradição piedosa, uma lei moral, sem nenhum genero de comminação, mas tão á risca obedecida, como se as tivera.
É, mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um bello exemplo de desinteresse; pois na plantação quem só ganha é a selva, que se dilata, e o Santo, a quem se engrossam os rendimentos.
Se de S. Gonçalo ou Santo Antonio fôra a capellinha, ou de algum outro Bemaventurado, com fama de boa-mão para casamentos, ainda se aventaria um motivo pessoal para o obsequio; ¡mas S. Sebastião, que só da peste é advogado!...
Seja o que fôr: o amavel instituto persevéra, ¡e oxalá dure sempre! ¡e oxalá por muitas partes o imitassem!
*
Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de nós outros, bastam duas considerações: a d'elles é festa do espirito, e mais do corpo; a nossa nem do corpo o é, nem do espirito.
Digo que é do espirito a sua, porque a Fé viva lhes faz estar vendo ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie humana; e do corpo tambem, porque o brodio paschal, opíparo, rescendente, de viandas succulentas e escolhidas, lhes dá mate á longa e bem jejuada quarentena.
Move suavemente os corações acompanhar a procissão, que da egreja sai depois da Missa cantada, com os seus cirios accezos, cantando as aleluias, atravessa o amplo adro alcatifado de bordada relva, sombreado das suas cerejeiras já revestidas, atravessa o passal por entre as alas das pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastião, e se espairece ao longe, como uma piedosa exultação, por entre os mattos rejuvenescentes.
O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pôz por fora todas suas galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a Natureza parece ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe entôam canticos, como os homens, as mulheres, e as creanças. A aleluia ressôa em toda a parte; lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os corações ferve o amor de Deus, o amor da Natureza, e o amor mutuo.
¡Oh! ¡que bem que se chegam ali a entender os arroubados requebros do Esposo e da Esposa dos Cantares! ¡Oh! ¡que permutar de boas-festas! Mal o presumem, os que todas as cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um cartão alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada.
Recolhida a procissão, tornam-se todos correndo a suas casas, a acabar de as pôr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se de ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores baixellas; crepíta o lume na cosinha revôlta; idéia-se um simulacro de altar, ou se enroupa uma cama de lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o senhor Prior, com a sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar (quando mais não seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da familia falta á porta para receber a aspersão de agua benta, que elle ao entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras rituaes da benção: «Paz a esta casa, e a todos que n'ella moram.»
Tal visitação, que (já se vê) se não conclue no primeiro, nem muitas vezes, no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; não pela moeda de prata, de meio tostão ou seis vintens, recebida em cada fogo; não pelos saccos de folares que se ajuntam; mas pelo muito que assim de novo se apertam os vinculos mutuos do Pastor e do rebanho.
*
No 1.º de Maio põem, á entrada das habitações,
maias
, que são ramos de sabugueiro e giestas florídas; e nos linhares, rocas com seus fuzos, carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo se fadam a terra e a casa: a terra, para que dê linho comprido e sedoso; a casa, para que se guarde e mantenha próspera.
¿Quem não vê n'estas maias outra degenerada herança dos nossos antigos senhoreadores?
No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo domestico dos seus
Lares
, deuses protectores da poisada, e cujos idolos se tinham junto ao fogo da cosinha, ou em nichos por de traz da porta principal. Revestiam-n-os de pelle canina; e em monumentos antigos se vê ao pé d'estes deuses representado o animal symbolo da fidelidade, e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio nos seus
Fastos
nol-o descreve. Brindavam-n-os com libações de bom comer e beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, já de flores, e já de lan.
Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois acreditavam que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se compraziam de habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde vivia gente do seu sangue.
Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas. Vieram Lares
viaes
(dos caminhos),
compitaes
(das encruzilhadas),
urbanos
(os padroeiros de cada cidade),
publicos
(os mantenedores dos publicos edificios),
rusticos
(os custodios do campo),
hostis
(os amparadores contra inimigos),
marinhos
(os guardiães dos navios).
É portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem Romanos, se haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de suas religiosas praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre estrangeiros; e bem boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle cahos de poeticissimos desatinos e devassidões. Fazia venerar e amar a casa; com a casa, a familia; com a familia, os sãos costumes da creação. Ainda por cima, fazia resplandecer luzeiros de esperança na cerração das adversidades; o que dá coração e brios para as resistir.
Pressupponhâmos como verisimillimo, e certo, que na romana provincia Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que, aliás, podem ser documentos, além de outros, o nome de
lareira
, geralmente conservado ao lastro da chaminé, e o proprio de
lar
, com que em Traz-os-Montes se chama a corrente de ferro, de que pende na cosinha o caldeirão sobre a fogueira.
Já cada um inferirá que as
maias
dos meus serranos, festejo que só á casa se refere, coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como quer que seja, o seu linhar (linho por lan), teem, e não podem deixar de ter, aquella origem.
Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito christão, ainda mais poetico, chamado das
Rogações ou Ladainhas de Maio.
Os lavradores seguem, com as cabeças descobertas, e acompanhando em chusma as entoadas preces da Egreja, a procissão, que lá se vai, humilde, atravez dos campos desatados em flor. Imploram as bençãos do Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos não devorem a vinha ou seára; que intempéries do ar e trovejados granizos não derribem mortas as benevolas esperanças dos pomares.
*
O S. João por larga vespera de semanas se annuncia: cantado de dia pelos oiteiros, de noite pelos serões.
Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que se vão lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora, não sem graça), que por ali em louvor do Baptista se exhalaram outr'ora do seio de poetas desconhecidos.
A medo me rendo á tentação urgente de as mostrar; que, despojadas da sua melodia, desquitadas das vozes tão frescas e juvenís das suas cantoras, e nuas dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e sombras em pino de verão, trovas taes aqui mal poderão parecer-se comsigo mesmas.
Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto não haja differença na substancia, vai tanto, como de uma formosa donzella podéra differir o seu cadaver.
Sem mais precauções, eis aqui alguns trechos, que no fundo da alma se me estão ainda cantando, por entre simulacros de figueiras, que entretecem sobreceo verde á fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros, não as contem; basta que todos elles acertem na cantoria ás mil maravilhas. Tão pouco embiquem na confiança, com que umas rusticasinhas de roca á cinta tratam o Santo Precursor. São amores velhos; não ha que lhes dizer.
―¿San-João das barbas doiradas, onde foste ter as orvalhadas? ―Fui as ter áquellas hortas, recordar aquellas cachopas. Recordae, recordae, perguiçosas, que da fonte já veem as formosas, com as talhas cheias de cravos, que lh'os deram os seus namorados, com as talhas cheias de flores, que lh'as deram os seus amores. San-João, rico cavalleiro, companheiro de Nosso Senhor, acompanhae a minha alma quando d'este mundo fôr. ―¿Por que tendes, San-João, esses sapatinhos brancos? ―Para passear ás moças domingos e dias santos. ―¿D'onde vindes, San-João, que assim cheirais á macella? ―Venho da serra da Estrella, de fazer uma capella. ―¿D'onde vindes, San-João, pela calma sem chapeo? ―Venho beber agua fresca, que faz calor lá no ceo.
Basta, basta, que já pressinto ali á esquina os aferidores e malsins da Literatura, que, se me tomam, com isto nas mãos, dão comigo do avêsso.
Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes. Á noite accendem fogueiras, dançam, cantam, namoram, e galhofeiam em de redor d'ellas.
Á meia noite, quebram ovos para os expôrem ao sereno, que lhes ha-de n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu futuro, e chamuscam as hervas e flores, que sabem de constancias e inconstancias.
Vão nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes virtudes e preservativos; mas especialmente o de S. João do Monte, á conta do seu nome bento.
Sobre a madrugada vão lavar seus gados, e á volta colhem ramos orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram de raio; trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os partos, apertando-se nas mãos.
A agua da fonte da manhan de S. João é como a primeira que chove em Maio: torna o carão formoso.
*
Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo descoberto, não correndo o tempo de invernia. São rebordans a granel, entre grande larada de brazido, a estoirarem e a acerejar-se, em quanto um farto lombo de cevado rechína e fumega em vergante espeto de pau, a pingar n'uma telha ou frigideira.
É dia já de longe apetecido pelos velhos, pelos rapazitos, e pelos visinhos menos folgados, que todos então se convidam.
Bebe-se, como requer a quadra, que assaz é já então arripiada. Mas... quanto mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e para a noite, mais se vão pendendo com scismadora tristeza os animos dos convivas.
Á fé que lhes não falta por quê. O dia que apóz vem, é o dos finados; dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos, para todos quantos, com Fé ou sem ella, possuem um entendimento, e meditam.
¡E que mais meditabundo que as montanhas! ¡E quem mais devaneador e recolhido, que homens acostumados a solidão, curtidos nas duras realidades da vida, remotos do cortesão bulicio, embotador pessimo de toda a sensibilidade!
*
Mal soaram as Ave-Marias, começa dobre funebre, que toda a noite não quieta.
Pela escuridão pasmada se devolvem, a longe, a longe, até se esvaecerem, os tons afflictos, que a nenhuma de tantas poisadas deixam de dizer algum segredo de dor, e de encommendar algum suffragio. ¡Oh! ¡se não se elevarão elles, e bem ferventes, exhalados pela voz do sangue, pelo amor, pela amisade, pela caridade!
Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz bruxuleia de nenhuma fresta, e já nenhuns olhos por ventura se descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis côro de Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta, pelo meio da povoação, a supplicar em nome dos penados de alem mundo, que para si não podem requerer, esmola de orações, refrigerio para os ardores que lá padecem.
Não ha seio tão escudado, que um santo horror o não estremeça; egoismo tão empedrenido, que sustenha as lagrimas.
...Até que o solemne pregão transpõe e se esvai; e na calada se torna a perceber o dobre longinquo da egreja.
Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o interior.
Estes devotos cantores, que ninguem vê, mas que vão de aldeia em aldeia
amentando
as almas, arrastavam d'antes grilhões aos pés, o que ainda augmentava o pavor do seu pregão.
Com grilhões ou sem elles, ¿despertadores taes quem entre nós os soffreria? Por lá querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se, como exactores que são de um tributo da outra vida.
Desde o romper d'alva não descança a egreja de absorver povo. Todos os caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques, todas as ladeiras, todos os valles, todos os oiteiros, o brotam e expedem á porfia.
Vem o ancião alquebrado, atido ao bordão; o moço em flor de annos; a donzella; os irmãos, pequeninos e já orphãos, pela mão de sua mãe; todos graves, cuidosos, taciturnos; todos lá por dentro orando; todos anhelando irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali assistirem ao incruento Sacrificio.
Todos os confessionarios n'este dia estão apinhados, e o semi-festim da vespera é quasi geralmente descontado pelo jejum mais rigoroso.
*
Emfim vem o Natal.
Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas christianissima (quizera eu dizer) do Christianismo, nenhures cabe tão em cheio, nem tanto com os animos e corações se coaduna, de veras crida e com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres.
Víreis o Presépio de Belem, não já por caprichosas artes remedado, mas em tão cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a adoral o.
Disséreis que ao soar da ave da meia-noite, desferiu vôo d'entre as estrellas, de que se corôa a montanha, côro de Anjos a dar rebate aos pegureiros com o pregão de «Gloria e Paz», com a nova de ser nascido o Desejado das gentes.
¡Tanto é o ruido de alegres passos e falas, que de toda a parte confluem pelo escuro em demanda do Menino!
Cada qual lhe traz nas mãos o seu presente, e o mais valioso dentro n'alma.
O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par aberto, é a santa Gruta.
Lá no tôpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o Divino Infante.
O adro vê dançar as rondas de camponezes á roda de um monte de arvores accezas, ao som da gaita e do tamboril.
Os sinos doidejam de alvoroço na torre illuminada.
Sob o tecto religioso se alternam em dois córos feminis as cantigas da benta noite. Cada um d'estes córos é exclusivamente composto das moradoras de cada margem do rio que biparte a freguesia. Vai entre ellas a mesma rivalidade, que já descobrimos entre os homens, quando no Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um estrepitoso arremêdo de combate.
É a qual dos bandos trará mais formosas quadras para entretecer com as antigas, mais argentinas falas e melhores requebros para as gargantear. Cuida-se ouvir musica de Seraphins; exulta o coração; e, sem vergonha, se estão sentindo as faces humedecer-se.
Por meio d'estes córos, cujos enthusiasmos devotos como que se estão vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em braços do Parocho o Menino, a fazer colheita de beijos e louvores, de supplicas e offertas. Então é que surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e á porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de ordinario, a todos, os mui primorosos artefactos de pinhões e frutos sêccos.
¡Oh! ¡que invejas para as creanças, que ali pendem ao collo de suas mães! vão-se-lhes os olhos, e os sorrisos, e as mãosinhas, apóz lindezas tão guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se destinam, com os seus olhos tão azues, a bocca tão amorosa, as faces tão coradas como as maçans que se lhe offerecem, é já a Elle que só cubiçam; e só choram, porque o não deixam
acompanhal-o
.
*
Taes são as mais notaveis festas d'esta singela gente.
¿Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem a destruir-lh'as com lhe tirarem a Fé?
É uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na resposta.
*
Assim crêem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza, nobres de humildade, e pela rudez ainda sãos, os moradores de S. Mamede da Castanheira do Vouga.
XX
Que eu por lá versejasse, já a ninguem ficará sendo maravilha; antes, sim, a podéra ser, que de tal assumpto só tal volume se estillasse; mas as rasões d'isso de si mesmas se confessam.
Já eu disse, que os annos que por lá sumi, me foram totalmente desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos jámais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo.
Assim, só por desabhorrimento é que poetava de longe em longe; isto é: poetava por fóra, e no papel, que no coração e no animo estava eu comigo a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de leve me acreditarão os que d'isto sabem) não foi a que se escreveu, se não a que deslizou suave, entre sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta, suspira e medita.
Escrever só para si, não sei que ninguem escreva; é trabalho supérfluo, e que, se dá fruto, o dá ruim, que de pêco e descorado nos desconsola.
¿Pois qual é, em boa verdade, o pensamento, ou affecto, que no trabalho de se corporificar para sahir a lume e correr por mãos e olhos, não perde muito do seu primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graça, ou do seu calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja que era seu, e que era elle mesmo em grande parte?
Isto dos livros não são senão uns retratos mortos, umas toadas, reflexos, e sombras, de festas que se fazem n'um interior, e de que os passageiros, por mais que se lhes abram as janellas, e que elles appliquem os olhos e ouvidos, só podem perceber a totalidade, e conjecturar as circumstancias.
O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder, ás concepções e aos affectos.
*
Outra explicação da exiguidade, e tenuidade (que peor é) do livrinho, está em que a maior e melhor parte dos condões e feitiços da montanha, que ora cá ao longe me apparecem tão inteiros e gentis, então que eu os tratava e d'elles vivia colmado, me não faziam os effeitos, que atravéz dos vidros da saudade me produzem.
Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistér havel-o perdido; que já por isso dizia Rousseau, que nunca tão bem falaria da liberdade, como entre ferros da Bastilha.
¿Onde é que nos ri a imagem da primavera a abrolhar? é no meio do outono a desvestir-se. ¿A do verão, que tressúa afogueado? no inverno, que tirita e se encanece de geada.
¿A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros, não é paraiso, para onde todos, todos, nos quizéramos tornar?
¡Que bem que o Poeta cantava: «Aventurados em summo extremo os camponezes, se acabassem de entender os bens que logram!»
Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar, é este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a instante m'o explica.
Á saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e collo descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando importunas obrigações me veem ripar e consumir as semanas a dia e dia, os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto.
Pela conversação pacifica das moitas e torrentes me definho, quando, no mais fortuito, no mais leve, tratar com homens me aguardam sempre desencantamentos, desconsolos, rasões para os desprezar, ou para fugil-os.
Lá, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor. Aqui, pelo contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste.
Lá, a benevolencia é semente de benevolencia, para dar cento por um. Aqui, é grão que sempre degenéra, ou não germina, ou brota villans ingratidões, que envergonham até a quem as ouve.
Lá, o folgar é franco, e as festas são festas. Aqui, o folgar é escaço e fingido; as festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de gladiadores, que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns aos outros, e aos ausentes, e aos amigos, e aos finados.
O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavoneará pelo mais cortesão e de maior donaire; far-lhe-hão roda; e em vez de o esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como o Iscariotes por sua mão, para escarmento a sevandijas e lição a paes que estão creando feras bravas para andarem sôltas no povoado, hão-de applaudil-o por medo, apertar lhe a mão dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas, com sabel-o expulso de muitas portas.
Acobertam-se lá e ufanam-se as terras com os linhares, para o que Deus os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia, para macío agazalho nas horas do somno ou da doença, para gala candida dos altares, e a final para curativo de feridas.
Ora, ¿que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao alvorecer de Maio, a sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do seu linho, a cabo de tão bons serviços, poderia vir ainda a converter-se em papel para a nossa Imprensa, isto é, em pregoeiro e depositario de quanto erro, e absurdo, a ignorancia ou maldade podérem delirar, em ventilador de descredito e odios, em disseminador de todos os principios de dissolução, já moral, e já politica?! ¡Pôr-lhe ella a sua roca para benção! ella, a boa filha das serras, fêmea sincera e verdadeira, coração lavado, animo propenso em tudo para o bem! ¡Pôr-lhe ella encamisada e florída a sua roca, a sua casta e alegre companheira, a que tão santas maximas e tão formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar á sementeira o fogo, ou amaldiçoal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que vale o mesmo.
XXI
¡Que de vantagens para o ermo não são todas estas!
E no gosal-as, ¡que assumpto inexhaurivel para um engenho bem nascido!
Sim; mas, torno a dizel-o, é em distancia de espaço e tempo, e pela contraposição, que se conhecem. ¡E eu malbaratei quasi tudo isso!...
........ munera nondum Intellecta deum!....
Havia de ser agora, depois de tão prolixo, de tão quebrantador martyrio da experiencia,
¡Como me não agarrára, com raizes mais fundas e tenazes que o meu cedro, ao chão da vida facil, innocente, e obscura! ¡Como não borbotára em hymnos o meu jubilo! ¡Como não saudára com lagrimas de gratidão a aurora, tornando a encontral-a! ¡Que não palrára com as torrentes! ¡Que noites desveladas sob o pavilhão estrellado e vastissimo da montanha!
Em vez de rebuscar (como agora me foi forçado) para esboçar este painel noticias de logares, e até de usos, tudo eu mesmo visitára com devoção de peregrino; tudo revolvêra; com tudo me identificára.
As saudades, que de lá para aqui me estão salteando, d'aqui para lá já não atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira sarça onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me perdessem logo.
*
―O abdicar―dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro e hortelão de Salona―o abdicar é o começo do viver.
¡Quantos dos que desaprenderam no regaço espinhoso da fortuna o rir, o dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na primeira hora que empunhassem, com animo feito, uma rabiça ou um foicinho!
¡Se não ha-de ser inefavel o abdicar muito, e até imperios romanos, como elle, quando renunciar o pouco, o quasi nada, que se tem de cidade.... só de o cuidar, tanto namora a phantasia!
¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras minhas, a cabeça encanecida e regalada!
Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e limas, como o presbyterio. Á roda d'ella, tanto de fazenda, quanto o filhinho mais pequeno atravessasse correndo de um fôlego. Mas isto em solidão bem solidão, onde só os astros me enxergassem, só as estações me visitassem, e da banda do mundo nada me chegasse, senão o vento, já expurgado e esquecido de humanas vozes.
Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor.
Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos.
Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol remoçador de quanto existe.
A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa eólia entre jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.
Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephémeras e sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me desbarataram na galé da Imprensa periodica, ou (com mais propriedade) nas palhas d'essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do Universo; doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis.
Só me não rira d'ella, quando me lembrasse que me enguliu, com os annos que me tomou, outros tantos da minha existencia para diante; pois em cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia escrever este epitaphio:
Aqui jaz um anno de fadiga e dois de vida de.... Orae por elle
.
[4]
Vendem-se ainda primogenituras por menos que prato de lentilhas.
Vingára-me (¡oh! ¡se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes, appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os seus do desterro, aviaría eu os meus do meu eden.
*
―¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e desejos?―dirá (e ha-de dizer) algum d'estes que sabemos, que nunca faltam, escoimadores
ex-officio
do alheio.
―Senhor meu,―lhe respondo eu já:―pois é por isso mesmo, de não passarem de fabula os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o dar-lhes eu largas no papel.
Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal, coroados de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar do Empyrio a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o tempo que n'estas palavras gasto aproveitara-o melhor, em correr para o meu refugio, beijal-o, replantal-o, aformosental-o. E em lá vindo o florído Maio, ride-vos de pagão que brindasse os seus lares com mais fé ou egual amor.
*
¡A liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade, que nem por longe se pareça com a de um viver remançado, em casa sem numero, nem espias, ao som da Natureza, á lei da propria inclinação; sem ouvir horas que nos chamem, sem encontrar com glosadores que nos aboquem no ar acções e palavras, para nol-as tingirem de branco em preto; nem cahir nas garras de ociosos, que vos emprazarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma noite de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que são a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de abhorrimento; seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de quem vos não vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido, refulgente epigramma de esmalte contra meritos e virtudes; e de noite, interrompido na meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens, que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correrem para nada, pygmeus, histriões, da farça séria d'este mundo?
Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura, ennobrece, e concilía os homens, na montanha encontrareis mais depressa coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles, onde se blasona que ella tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao mesmo tempo: este, o
Te Deum
; aquelle, o
De profundis
; um, o
Quomodo cecidit civitas plena populo
; outro, o
Cantemus Domino
; qual, o
Miseremini mei
; qual, o
Ecce sacerdos magnus
.
Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade, derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de Noé, quando arrojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o pedestal razo, com o formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha de ser ermo pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira. Aqui, pregôam-n-a; lá a disfrutam. Assim vai tudo.
*
E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia; e, deixado o palavrório que não sôa muito senão por ser vazio (como tambor de foliões), dizei-me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem que desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado, e não porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de praças, e reboliço de vizinhos, pois diante de suas janellas o que só se meneia e conversa são arvores, e por cima do seu tecto não moram senão hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas passarinhos ou borboletas?
¿Quem mais livre?
Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu, sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos convites. ¿Quem mais livre?
Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as occupações de todo o dia. ¿Quem mais livre?
Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons somnos, pão, e para conduto um apetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta, ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chyméras (que tambem as tem como qualquer outro); e é este o mais invejavel privilegio do trabalho corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não captivar senão os braços; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a alegria que se esconde.
Este
deus in nobis
, unica das divindades campestres em que se pode crer, perguntae se não será para muitas invejas aos taciturnos enxames que pejam escritórios e secretarías; perguntae-o a quasi todos os que remam á consciencia o seu remo na galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais livre?
Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoço, para folgar entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de coser ao lume que o aquece. Não tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio; não ha que ciar se de mulher e filhas, que não dá a terra operas nem bailes; filhas e mulher á roda lhe serôam, tão satisfeitas como elle. Não se levanta ali jogo, que, por tentação ou falso pondonor, o obrigue a pôr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. Não o compellem a ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em sêcco; nem mesmo a ouvir ler, n'uma coisa mal-cheirosa chamada periodico (especie de cogumellos da Imprensa, em que entre os não maléficos tantos ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem quê nem para quê, lhe levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do chylo. Quem não tem com que incite invejas, seguro está de vis praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?
Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não creal-os o sitio, nada reluz na poisada que os attráia.
Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os pães para a tulha, o vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortaliça para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o Ceo, onde crêem de fé que os estão seus parentes esperando.
¿Então, será, ou não será, este um viver dez vezes mais livre e afortunado que o nosso? Pois não disse eu d'elle tudo que poderia, nem o direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo, que não deixei na matéria udo nem miudo; ¡como se miudos houvera no que são condições de boa ventura!
Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao coração de alguns d'estes, que vivem na Côrte por fadario, por vezo, ou por inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou podendo, se uma hora olhassem por si, adquirir, sem nenhuma difficuldade, o que eu, e outros taes, tão baldadamente supplicamos á fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda, florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons costumes, e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que, a de mais de retemperar corpo, animo, e coração, para se n'ella saborearem, até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto, quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.
*
Toda a gente, e os abhorridos mais que todos, deveriam ler e meditar o medicinalissimo
Livro da Solidão
do
Doutor Zimmermann. Aprenderiam a perder-lhe o medo e ganhar-lhe amor, a embellezarem-se n'ella, a serem e a fazerem venturosos, quanto é dado havel-os n'este mundo tão instavel, tão fugidio, tão calabreado de bens e males.
O homem na sociedade é um instrumento, que se gasta e quebra servindo; na solidão é um homem. Na sociedade, é uma partícula irresistivelmente arrebatada n'um redemoinho; na solidão um todo quieto.
Puericia, edade de oiro da vida, não torna jamais por onde uma vez passou; mas na solidão se esconde ainda uma sombra d'ella; porque o homem, redimido dos cepos do mundo, e fôrro das humanas tirannias, se faz em algum modo semelhante á creança; readquire o que quer que seja da sua innocencia, da sua simplicidade, dos seus gostos, dos seus brincos.
¿Quem se lembraria de pôr um barco de cortiça (ainda que de seu natural tivesse o ousal-o) n'um tanque do
Passeio publico, cercado dos fumantes do Marrare, e dos collaboradores dos periodicos? ¿quem o ousaria, mas que fosse para entreter a seus filhinhos? E no campo, uma pessoa, até só para si, faz d'isso; e mais se encanta em o fazer, que um ricaço em torrear palacios.
Em quanto dá tempo aos passaros para irem picar no cêvo das armadilhas que lhes andou dispondo, edifica á borda de um arroio uma azenha de dois palmos, com seu rodizio de canna a espadanar. Só no vêl-o voltear, respingando aljôfares pelos ares, tem entretenimento para horas.
Alevanta ao pé uns paços nobres, que se encheriam com a familia de um coelho, estira-se a espreitar para dentro da relva, como Werther e Hugo se embebem nas maravilhas d'aquellas selvas e reinos de animálculos, em que só o mancebinho muito pequeno, ou o muito grande homem, se poderiam enlevar.
¡A solidão! ¡a solidão!... provae-a, sequer, affligidos do mundo, e pregoareis d'ella o que eu me não affoito a encarecer-vos.
*
Um só achaque hei-de eu impôr á boa da solidão, á gentil namorada de Rousseau, de Petrarca, e de todos os espiritos grandiosos; e vem a ser: que, pois nos descalleja o coração, banhado nas suavidades da mãe Natureza, e para a sensibilidade nos ajunta o que do egoismo nos detrai, assim nos deixa mais expostos ao pungir de alheias penas, quando não as podemos extirpar. No ermo ressôam mais alto os gemidos, como na calada da noite se dão a ouvir mais claras as vozes.
Quizera-se, ao ver a penuria de muita casa, o escasso de muita colheita, o mal roupido de innocentinhos, o desagasalho de velhos enfermos, quizera-se ter mãos de Midas para acudir a tudo aquillo; e o coração, que não tem para dar senão suspiros, no fundo do peito se confrange todo, e se espedaça.
¡Cada uma d'aquellas curas dependeria de tão pouco! ¡sería tão festejada! ¡tantos effeitos afortunados produziria! ¡deixaria, por corôa de beneficios, tão sinceros, tão duradoiros agradecimentos!
*
Numerosas, numerosissimas, são as coisas das cidades, que d'aquellas alturas se não percebem; mas a que menos de todas se percebêra é o coração metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos, os seus ouvidos que só vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como deuses propicios, c Numerosas, numerosissimas, são as coisas das cidades, que d'aquellas alturas se não percebem; mas a que menos de todas se percebêra é o coração metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos, os seus ouvidos que só vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como deuses propicios, conquistar a unica invejavel gloria, emendando os erros da fortuna, espargindo felicidade, e felicidade enthesoirando.
Então sim, que haveria que se lhes invejar.
Dôr d'alma é, na verdade, não poder homem na solidão pagar por estes, e por si mesmo, dividas grandes e urgentes da Humanidade. Entretanto, lá estende os braços valedores até onde lhe é dado. Onde não chega a remediar com obras, ajuda com o bom conselho, com as recommendacões poderosas, com as esperanças, com a presença, com a uncção da palavra amigavel, com o deixar correr sobre a ferida o balsamico das lagrimas. Assim, se terá sempre que dar; sempre, em quanto houver no proximo trabalhos, e no seio coração.
XXII
Isto presenciei eu:
O espiritual Pastor do rebanho de S. Mamede do Monte, de quem natural pejo me veda transladar louvores, que por lá se lêem em todos os peitos, contava entre as primeiras de suas ditas a beneficencia, que não pára onde se lhe exhauriu a bolsa; que, depois de dar a capa, como o Santo Bispo Martinho, e a coberta, como Frei Bartholomeu dos Martyres, tem ainda para dar a pessoa, como S. Vicente de Paulo.
Era para ver (se elle não poséra tanto em recatal-a) a alacridade, a sôffrega alacridade, com que ia levar aqui um pão, que se devorava como vida que em realidade era, ali o remedio para a doença; aos mal avindos, a reconciliação; ao ocioso, o convite para trabalho; ao orphanado, a paciencia; ao errado, a luz para atinar com a senda, e o bordão para a seguir; ao moribundo, o conforto e a alegria; a todos a moeda aurea, cunhada de uma banda com a effigie do coração, da outra com a da Cruz florida; a moeda riquissima, que por nenhuma outra se cambía; o affecto fraternal.
Ali, sim, que é o ser Parocho.
¡Oh officio divinamente instituido, como te hão degenerado annos frios de descrença e desamor! ¡Com que maravilhoso laço não cifravas o que de mais nobre, o que de mais amavel, se abrange nas ideias da eternidade e nas do mundo!
O rei dos sacrificios era ao mesmo tempo o servo dos indigentes. Vaso de eleição, elle diffundia ao povo ajoelhado os mysterios, os preceitos, os exemplos, as ameaças, os anáthemas, as absolvições, os confortos, e os jubilos. Todos os destinos terrestres se formavam, ou passavam, á sombra d'elle.
Entrados á vida, encontravamol-o, resplandecente de Fé, á nossa espera diante da fonte da Graça, para n'ella, com a bocca cheia de riso, nos purificar.
Arribados á edade da rasão e dos delirios, tornavamol-o a achar na piscina da penitencia para nos restituir, com eloquencia affectiva de Apóstolo, a foragida paz do interior.
No consorcio, eram as suas mãos castas as que nos entregavam, com bençãos d'alma e sincera prophecia, a mão tremente da futura mãe de nossos filhos.
Nas calamidades publicas, era a sua voz supplice e crente, e afogada em lagrimas, a que levava, como guia segura, o côro de todas as nossas á presença do Senhor da Natureza.
Em nossas dissensões domesticas, elle o Anjo da concordancia, que primeiro apparecia.
Nas nossas quédas, elle o primeiro braço que nos alçava.
Nas tribulações, elle o nosso mais previsto conselheiro.
Na enfermidade, elle o medico gratuito e não chamado.
Na agra hora da partida, elle o que nos apercebia para a alma confusa e aterrada o pão, o oleo, e o fardel das esperanças para o caminho.
Elle o que ainda nos seguia, depois que já todos os outros medicos iam longe, e até nossos paes e nossos filhos nos deixavam sós. Com preces fervorosas nos acompanhava, até que a terra nos submergisse; e ainda então nos não largava, senão para ir instaurar novas preces por nós sobre os altares.
Solitario na sua vivenda, elle tinha por familia o seu rebanho, com quem, por quem, e para quem, vivia; sempre lhano, sempre dadivoso da sua pobreza, sempre paschoas-florídas para grandes e pequenos, só temido dos maus, ainda que tambem d'esses respeitado.
Se carecia de progénie, se não tinha uma esposa, elle, que tão amenos quadros do casamento sabia apresentar aos noivos ao recebel-os, contava por irmãos e filhos todos os seus parochianos; tinha o seu thálamo de oiro a aguardal-o no paraizo, região que todos os dias entrevia atravéz das folhas do seu breviário; e, se ainda no coração lhe podia alguma ternura sobejar, tinha a sua egreja, que elle amava como esposa; em quem se revía; que se recreava em ataviar, em enriquecer, em lhe adquirir galas de roupas, de sedas, de joias, de flores, de perfumes; em cujas festas se remoçava; em cujos canticos se desvanecia de misturar a sua voz.
No seu sacerdocio se acreditava a pleno, porque elle mesmo acreditava tambem. Se, perante a ara santa a Fé via n'elle um representante da Divindade, nenhum lance da sua vida desdizia esse caracter augusto e sobrehumano.
A hora em que elle expirava, hora de consternação e alaridos para todo um povo, era a unica, talvez, em que pelos espiritos fuzilavam alguns relampagos de duvidas sobre a justiça e a misericordia do ENTE SUPREMO; duvidas, que a bocca do velho emmudecida, que a reprehensão dos seus olhos fechados, já não podia fulminar, mas que a sua presença, mal chegavam a beijar-lhe os pés como a bemaventurado, promptamente desvanecìa. Bem se adivinhava, ao olhal-o, que a sua morte não era mais que somno; e bem se entendia como, ao cabo de tão prolixo, de tão zeloso trabalhar, era rasão colher descanço e premio, como só lá em cima os pode haver.
*
Taes eram, pelo commum, pastor e grei, nas eras cheias e prospérrimas da Christandade.
De taes greis, e taes pastores, ainda hoje ha, mas raro; mas tão raro, que a dedo se apontam; e ainda se não hão-de crer, se não fôrem vistos bem por miudo, e contrasteados bem de espaço.
De ninguem é a culpa, sendo de todos a desgraça.
Não; de ninguem é a culpa. O genero humano curte sempre algum achaque principal; e quasi sempre maleitas. Passou-lhe a febre da superstição; está agora no frio da incredulidade ¿Que lhe ha-de fazer? jazer-se com elle, até que do alto lhe venha o remedio.
*
Existe um phantasma de altar, um phantasma de sacerdocio, um phantasma de vulgo fiel, um phantasma de culto; mas de Fé intrinzeca, nem um phantasma.
A pseudo-philosophia, de que a mean classe engafecêra, pegou-se d'ella, pelo contacto, primeiro á superior, depois á infima.
Ha doenças que teem os seus periodos determinados; esta entra na conta.
A classe que primeira a padeceu, por primeira e por mais illustrada já quer ir convalescendo; já convalesce em muitas partes, se em nenhuma se acha ainda san; mas a que mais tarde cahiu, por isso mesmo, e por ser a mais rude e numerosa, labora no auge da enfermidade, e ainda muito longe (segundo todos os symptômas) de se restaurar.
Hoje o materialismo é especialmente plebeu.
Dos cumes da ordem social podia-se ir desferindo a raio e raio, e descendo manso e manso, a luz, que adelgaçasse, que por derradeiro desfizesse, essas trevas humidas e frias, que nada criam, e afogam tudo.
Mas nem de lá baixa, porque por lá faz ainda noite, nem se derrama da Imprensa, de que a mean classe é representante.
O Poder, fingindo
proteger
, apenas
tolera
os escassos restos da crença. Se alguma vez lhes dá consideração, é quando se lhe antólha que os poderá empregar, por material, para obras politicas a seu modo.
A Literatura, ou por especulação de popularidade, ou por extravagancia de muito joven, ou porque o seculo XVIII do «Paiz modelo» só poude chegar cá no XIX; a Literatura, figurando tributar a sua homenagem á unica Religião civilisadora, tão decepada e desgeitosa se avém, que, por entre as suas expremidas lagrimas de compuncção, se lhe está vendo voltear por dentro dos labios o seu lembrado sorriso de septicismo.
A sua religiosidade é um cálculo; ¡grande mal! é um cálculo transparente; ¡mal ainda muito mais funesto!
Reconhece-se que, se de alguma coisa está convencida, não é da verdade real e absoluta que diz, mas da utilidade (ou necessidade) de que seus ouvintes a acreditem.
Forceja para reaccender na ara um pouco de lume santo, que allumie e aqueça; aconselha que se lhe cheguem; mas ella fica fria e ás escuras por de traz da nave, olhando com ar sobranceiro para a turba.
Nunca dobra tanto o joelho e a cerviz perante «o
Christo
» (como lhe ella sempre chama), que a sua cabeça ennastrada de loiros não fique, mais ou menos, sobre-sahindo á pendida fronte coroada de espinhos.
¿Que poderá jamais conseguir para verdadeiras aleluias da Fé e da Moral, este vaidoso e vanissimo apostolado da eloquencia e poesia, que de baixo do falso nome de Christianismo pregôa d'elle uma, ou outra, ou muitas, paginas desconnexas, reformadas, e adulteradas?
Quanto entre si concordavam as inspirações dos quatro Evangelistas, tanto discrepam uns dos outros (e não raro de si mesmos) os novos evangelhos d'estes missionarios sem missão. Á prima-vista se averigua que lhes fallece a convicção, a coherencia, a logica, e a unidade. ¿Quem se irá apóz taes innovadores? Ninguem.
Pelo contrario: as suas diligencias para reedificar só valeriam para acabar de destruir, se podesse ser destruida a Religião de Jesu-Christo.
A Fé é uma obra celeste, que nem a sciencia, nem a força, nem o poder da terra tem a minima jurisdicção para alterar.
Ou a Fé toda completa, cabal, absoluta, sem um átomo de menos, sem um átomo de mais... ou nenhuma Fé. Fraccional-a, decompôl-a, temperal-a cada um para o seu paladar, é pregar-se o homem estupidamente n'uma cruz desbenzida, revirado com a cabeça para a terra, e os calcanhares contra o Ceo. Em tal caso o indifferentismo, e até o atheismo, seria menos descommodo e mais logico dobradamente.
*
Em quanto a Literatura assim acode á obra de Christo, como o poderia fazer n'uma hora de ebriedade o proprio anti-Christo, ¿como é que a trata a autoridade mundana?
Como se fôra obra sua, ou sua propriedade: estende-lhe, protectora desdenhosa, a barra do seu terrestre manto sobre a cabeça despojada do diadema luminoso, diz-lhe que se apegue, para não cahir, ao sceptro que a diante lhe caminha. ¡Elle, o Christianismo, elle, que ainda ha pouco roborava os thronos com a sua benção, permitte, quasi, que os seus inimigos o ludibriem!
A blasphemia, que vai picar, verme peçonhento, a raiz da arvore da vida, d'onde se colhe a moral, a blasphemia pode qualquer derramal-a sobre as multidões pelo crivo immenso da Imprensa, e ficar impune; ou o seu castigo, se por erro lhe cahir o da Lei, orçará apenas pelo dos crimes leves, e indifferentes ao Estado.
*
Não é ainda tudo.
Aos ministros do culto, já de si por ventura tibios, como filhos e herdeiros de uma edade desfervorosa, sal da terra já meio derretido, luz do mundo já mortiça, deixam-n-os, ou fazem-n-os enfraquecer-se e relaxar-se ainda mais, desautorisando-os, dessangrando-os, infundindo os nas temporalidades odiosas.
Repitâmol o: não é isto culpa de ninguem, sendo de todos desaventura. É uma calamidade providencial, que lá se encaminha para fins certamente gloriosos, que não podemos enxergar.
Em Religião, como em Politica, somos nós, enfatuada geração de hoje, mesquinho adubío n'um chão semeado, que outros hão-de ceifar em vindo a quadra.
Chegarão tempos (dil-o o instincto da rasão) em que os direitos e os deveres tenham egual pezo; em que o bom e merecido nome não seja, como pomba timida, empolgado por abutres ferozes logo ao abrir o primeiro vôo; em que todas as causas santas e uteis se conheçam e respeitem; em que nem a régia tribu de Judá seja, como outr'ora, apesinhada pela de Levi, nem a tribu sacerdotal de Levi, como hoje, mercenária, captiva, e escrava da de Judá.
Então quando o lenho sêcco da Cruz, reflorir, e frutear (como a vara do Propheta) frutos de suavidade, de concordia, de alimento, de forças, de esperança, e de felicidade, de felicidade para abarcar dois mundos, então os pastores, quasi espancados agora pelos seus rebanhos, quasi mendigos, e cuja fronte perdeu o sello da eleição, tornarão a assentar ao-pé da arca santa a sua tenda humilde e venerada, não opulenta mas dadivosa, tenda pobre e rôta, para que pelas aberturas penetrem melhor até ao velho os gemidos do mais necessitado que elle, e para que os olhos d'elle entrevejam as estrellas.
¡Oh! ¡como volverão a ser bellos os dias da Egreja acrisolada pelo fogo! Mal venha por quem, de imprudente, pretendesse retardal os.
*
O autor d'este livrinho (que ainda, apesar de tudo, não acredita em malignidades gratuitas) apressa-se de inculcar, de recommendar aqui, uma verdade, que a sua posição d'elles lhes não deixou talvez ainda perceber; verdade importante para applicações, verdade a cujo escurecimento se pode imputar já muito e muito damno:
O officio pastoral tem, ou pode ter, especialmente fora das cidades, uma importancia para a felicidade das familias, para o bom regimento e prosperidade do Estado, a que nenhuma instituição humana poderia confrontar a sua.
Nas cidades é talvez licito o ignoral-o. O Parocho urbano é quasi um pastor sem rebanho; não conhece as ovelhas, nem as ovelhas o conhecem. A ellas, falta-lhes o tempo e a vontade para o rodearem; a elle, se para o officio entrou com zelo e propositos magnanimos, tudo se lhe veio a acabar com a esperança, e logo a caridade tambem; e a final talvez tambem a fé, mal se inteirou de que todos seus esforços se haviam sempre de quebrar no indifferentismo publico, e de que a sua voz, se lograsse vencer o estrépito circumfuso, só serviria para lhe atrahir escárneos e motejos, ou de fanatico, ou de tartufo.
Nas freguesias ruraes, nas mais remotas, nas serranas e abscônditas sobre tudo, ainda não é totalmente assim. Á entidade abstracta
Parocho
se conserva, no respeito e benevolencia dos subdítos, um resto da sua antiga majestade, da sua benéfica influencia, das suas altissimas prerogativas.
Ainda é um parente proximo e autorisado de todas as casas, uma especie de maioral de tribu (como entre os Hebreus do tempo dos Patriarchas, e os Arabes do deserto); um juiz de paz insuspeito; um magistrado sem appellação para as consciencias; um censor, não em nome da Lei (como os de Roma), porém em nome, e com delegação, e por inspiração, do Espirito de Verdade, com quem se crê ter commercio no fundo do santuario. Qualquer que seja a sua sciencia, é a ella que se recorre como á principal.
Tal é, repito, a entidade
Parocho
em abstracto.
XXIII
Isto posto, e acceito por certo, como é, pergunto: se não deverão empregar-se as mais incessantes, as mais efficazes diligencias, para que o provimento das parochias (das rusticas ao menos) recaia sempre em homens de cultivado e provado entendimento, de sincera e illustrada Fé, humanos e caritativos, desambiciosos, modestos, e de facil e aprasivel trato.
Ninguem o negará, pois são elles as fontes, que, segundo sua qualidade, teem de dessedentar e fertilisar, ou de esterilisar e consumir, a terra que os rodeia.
N'estes agros tempos de contínua revolução e peleja, ou porque tão momentosa ponderação não occorresse, ou porque a vista, de dentro da cidade, não traspassa os muros d'ella, ou porque conveniencias pessoaes e ephémeras, mas urgentes, mas gravissimas, tenham feito postergar considerações de maior utilidade, mas de effeito mais tardío; as egrejas ruraes, como as urbanas, jazem, pelo commum, peor que ao desamparo: entregues, não como egrejas, a homens de oração e de esmola, mas, como torres e castellos, a alcaides e capitães eleitoraes, que no dia do conflicto arvorem e defendam o estandarte do seu bando.
¡Oh! que não sem rasão se collocou a rixosa urna dos suffragios politicos na extranhada mansão dos serenos suffragios religiosos. A um clero secularisado, competia um templo secularisado tambem.
*
E não ha aqui arguir esta ou aquella parcialidade; é peccado, que todas ellas peccam; ou, para falar com mais justiça, é açoite que Deus mette na mão de cada uma, quando lhe chega a sua hora de ephémero triumpho.
Se ellas bem considerassem n'isto (suppondo-as a todas, até ás mais illusas, como as devemos suppôr, cordealmente empenhadas na civilisação e no progresso), deixariam o uso d'esta arma, que para servir a
O direito mesmo da Guerra, com ser tão largo e licencioso, nem tudo permitte. ¿Porque não ha-de logo, nas suas pelejas, a Politica reconhecer limites, onde o Ceo e a rasão os teem marcado?
Combatam se os adversarios; mas não se envenenem as aguas; e se a desavença é entre consanguineos, e em solo commum, não cortemos, para aquecer o rancho dos nossos soldados, as oliveiras centannarias, que já deram oleo, sombra, e paz a nossos avós, e que ainda podem liberalisar o mesmo a nossos netos.
¿Por que é trazer aos festins profanos os vasos do Templo?
Se é chyméra a Religião, se Jesus não é em realidade senão «o Christo», vão fóra tartufías, que não deshonram menos a uma nação que a um individuo; acabe-se de uma vez com
superstições
importunas e dispendiosas.
Mas se «o Christo» foi o Verbo; se o Verbo foi o sol; se o sol é ainda agora a vida do genero humano; se a Cruz é o unico pezo que faz crescer a quem a soffre; se na terra não ha luz senão a que vem de cima; se toda a negação expira nos labios de quem chega a ouvir como se amiudam os anhélitos do estertor, forcejae, forcejae para restituir, ó vós que ainda o podeis, ao santuario do Deus vivo os unicos sacerdotes que elle conhece, ao Povo os unicos oráculos em que elle pode crer, ás miserias o seu antigo e tão amado refugio, aos vicíos e aos crimes o dique onde já tantas vagas suas rebentaram em flor, e refugiram.
¿Não é assaz amplo o thesoiro que entre as mãos tendes de destinos humanos?
¿Os exercitos e as armadas, os tribunaes, os governos, todas as magistraturas, todos os magisterios, todas as exacções, todas as administrações, não vos dão de sobejo com que pagar ou empenhar amisades, zelos, e serviços, sem ser mistér que o povo de Deus venha, escravo e deshonrado, desde a sua Jerusalem deserta e muda, carregar a pedra e a areia para o vosso arco de triumpho?
Rachel chorosa chora os seus filhos, e não quer consolada porque elles não existem para ella. Os moradores de Sião não entôam os seus inspirados canticos, porque os trasladaram para a beira dos rios de Babylonia. Ressuscitae para Rachel os seus filhos; reponde em Sião os seus moradores.
A voz grande que se ouve em Rama prantear pela noite muda, calar-se-ha. A Cidade santa restaurará as suas festas.
Não vos arreceeis de que, feriando os levitas, e despedindo-os das vossas tendas para a da Arca santa, o exercito da vossa parcialidade, qualquer que ella seja, se torne mais fraco.
Pelo contrario: então é que a victoria, filha das bençãos da terra e do Ceo, ha-de poisar para sempre, como uma auréola, sobre a hasta do vosso estandarte, porque se dirá de toda a parte: «Eis ali os fortes, os que bastam per si para se defenderem. E Pelo contrario: então é que a victoria, filha das bençãos da terra e do Ceo, ha-de poisar para sempre, como uma auréola, sobre a hasta do vosso estandarte, porque se dirá de toda a parte: «Eis ali os fortes, os que bastam per si para se defenderem. Eis ali os justos, a quem o Senhor outorgará dominação, porque elles lhe hão restituido os sacrificios.»
XXIV
Mas redescendâmos o estylo á lhaneza do nosso assumpto.
*
Logo que na legislação entrar mais
bom-senso
que
politica
, mais realidade que ficção, mais pensamento de semear que de ceifar, mais amor do homem que de homens, o recrutamento e a disciplina da milicia sagrada devolver-se-hão inteiramente, francamente, sem restricções mesquinhas e nocivas, das mãos profanas para as dos seus superiores e arbitros naturaes: os Prelados.
O Governo se gloriará de haver se desembaraçado de uma tarefa, de pouca importancia aos olhos mundanos, e todavia cheia de incerteza, e de responsabilidade incommensuravel. Gloriar-se-ha ainda mais, de haver facultado com a sua restituição o incremento da religiosidade; por ella o das virtudes domesticas; por ellas, o das virtudes politicas; por tudo, o da prosperidade do Estado.
Quando cada Bispo, maioral responsavel e zeloso de uma profusa grei, podér escolher por si mesmo, affeiçoar de espaço, collocar por sua mão, os vigias de cada um dos seus rebanhos parciaes, ¿quem duvída de que então os desacertos nas ponderadas escolhas hão-de ser tão raros, como os acertos o são no actual systema, em que são as casualidades, quando não as affeições ou os interesses, que predominam?
*
Quanto aos Bispos (honra a quem a merece, e justiça a todos), as eleições do poder temporal teem merecido a geral approvação; teem recahido, pelo commum, em varões de mui notoria sciencia e prudencia, equidistantes dos dois oppostos fanatismos, concertados nos costumes, e zelosos discretamente.
Graças, graças ao poder temporal, que já deu o primeiro passo, passo de gigante, para a suspirada reformação. Agora os restantes hão de seguir-se, porque são consequencia.
Logo que soube, e quiz, prepôr ao Episcopado varões taes, logo que manifestou ao mundo que n'elles a todos os respeitos se fiava, tacitamente se obrigou a lhes repôr... (estas suas usurpadas regalias, ia eu dizer, e era um erro) estes seus onus, estes cahidos galhos da sua cruz, este accrescimo de trabalhos e mortificações, este para uma consciencia melindrosa martyrio das horas todas.
Seriam elles, elles mesmos, os Bispos, os que poderiam furtar os hombros a tão duro redobramento de carga, se a caridade, obrigada nos do seu officio, os não forçára a beijal-a com lagrimas, tomal-a com exultação, e seguir via pelas asperezas do Calvario para o Ceo.
*
¿E que são em verdade os Parochos, ou antes: ¿que foram os Parochos desde os antigos seculos da sua instituição, que foram, se não uns coadjutores dos Prelados maiores, para fazerem chegar até aos minimos e mais obscuros recantinhos das Diocéses a sua doutrina, a sua caridade, e os seus exemplos?
Pois que os olhos, os ouvidos, os passos, e as mãos, de um só, e quasi sempre velho e cançado, não podiam alcançar tão longe como o seu espirito; medicos de populosos hospitaes de almas (e de corpos tambem), não lhes chegando as forças para estarem dia e noite a todas as cabeceiras, contarem todos os gemidos, ministrarem todos os remedios, estudarem todos os symptomas, limparem todos os suores, padecerem em todos e com todos, segundo a maravilhosa expressão do Apóstolo das gentes; distribuiram em cada enfermaría quem os supprisse, quem os fizesse sempre estar presentes, quem em seu nome, e segundo a sua sciencia, receitasse e administrasse, e nos casos duvidosos os fizesse de subito acudir.
¿Como póde portanto, quando militam as mesmas rasões que presidiram á creação dos Parochos, consentir-se uma praxe, em que tudo vai falsificado?
Dar ao medico, para seus ajudantes, homens escolhidos por homens inexpertos e ignaros da sua arte, não pode ser; e não ha-de ser sempre; e cabe nos esperar que nem continuará a ser por muito tempo.
O Episcopado vai reassumir a sua autoridade imprescriptivel, o indispensavel respeito e obediencia dos seus primeiros subditos. Os presbytérios civis, hoje de tantos corvos e abutres, vão ser como essas torrinhas, que se branqueiam e se perfumam de incenso para morada de pombas. As parochias reverdecerão: e florescerão, até ao possivel auge, em creanças innocentes e instruidas, em adultos pios e laboriosos, em mulheres castas e amantes do seu lar e dos seus deveres, em velhos pacientes, resignados e conselheiros, em sólo bem cultivado e bem festivo; e o Throno se alegrará com os novos reflexos de ventura, que lhe virão de cada palmo da terra comprehendida no seu horizonte.
XXV
Não venha agora, no processo d'esta santificação, intrometter se o
Cardeal-diabo
do ciume, com máscara de amor da Liberdade. Ainda que a máscara é de vidro, já d'aqui lh'a havemos de quebrar nas mãos, batendo-lhe em cheio com tres nomes todos presados: França, Italia, Inglaterra.
*
¿Que nação mais ciosa das suas immunidades, que a franceza? ¿Que nação menos para consentir á Egreja o que de jus estricto lhe não compita?
Nenhuma.
Ora em França, bem sabemos todos que são unicamente os Prelados os que formam o seu Clero. Educam-n-o longamente. Instruem-n o copiosamente, por livros não escolhidos (como entre nós) pela Autoridade civil, ainda que (de si se entende) sujeitos á sua inspecção. Acostumam n-o ás praticas do seu não facil ministerio. Estudam, provam, e contraprovam, a aptidão e especial préstimo de cada um. Aproveitam só os que n'esse crivo pertinazmente bandejado sobrenadaram; e outra vez os escolhem á mão, para os irem repartindo pelas Parochias do modo que mais aproveitem; pois de ver está, que, differindo em indole e circumstancias as povoações como os individuos, tal individuo, que em tal povoação quadrará á justa, a afortunará afortunando-se; n'outra, que menos lhe molde, valerá menos, trabalhando e padecendo mais.
*
O exemplo da Italia, tenho eu que ainda apérta melhor; porque, se lá os Bispos são independentes, como em França, para o provimento de suas egrejas, não é porque em mãos leigas esteja o sceptro do Estado. Ali o Sceptro é Bago juntamente.
*
Documento, porém, sobre todos frisante nos offerece por ultimo a Gran Bretanha.
Ali a Egreja Catholica, sem ser a do Estado, não protegida se não tolerada, não acarinhada se não temida pelo seu progressivo, cada vez mais rapido, mais assombroso, engrandecimento, gosa se, não obstante, por longa e pacifica posse, d'este seu não
privilegio
, se não
direito
essencial; e os seus Bispos são pelo menos tão independentes no tocante á cura de almas dentro de suas Diocéses, como dentro nas suas os proprios Bispos protestantes.
XXVI
Ora pois: logo que entre nós se houver perfeito d'este modo a regeneração do Clero pelos seus principes (unicos legitimos em tudo que ao seu ministerio se refere) cabe esperar que a optima parte das nossas populações ruraes se ha-de ir tambem insensivelmente regenerando, e que a minha gente de S. Mamede do Monte será querida, e comprehendida até por cortesãos, quando sahirem a folgar no campo algum estio.
Para então é que este livrinho, semelhante aos frutos que amadurecem em casa e ás escuras, ha-de ter para mais alguem o sabor que eu já lhe tomo.
*
Se elle consegue, para além das raias da minha expectação, fazer com que um só captivo da Cidade cobre amor á vida solitária, ou que um unico solitário aprenda a conhecer alguma parte da sua encoberta bemaventurança, já não trocarei o pobre gosto de o ter escrito, pelos maiores triumphos literarios.
FIM DO PROLOGO
Notas de Castilho a este Preambulo
NOTA I
Fontes de estudo
Como, durante a minha estada na serra, me não passava pela mente que houvesse algum dia de bosquejar esta humilde Odyssêa dos sitios e gente d'ella, nada trouxe apontado a tal respeito. Revolvendo as minhas memorias não escritas, achei n'ellas consideraveis lacunas, mormente no tocante á topographia, que eu desejava (quanto dado me fosse) completar. N'esta pressa me soccorri á officiosa amisade do actual Prior de S. Mamede da Castanheira, o Rev.
do
Padre Antonio Jozé Rodrigues de Campos, a cujo zelo devo o ter podido apresentar menos imperfeito o meu painel, em que faltará tudo, á excepção de verdade nas coisas, e nos retratos parecença.
NOTA II
Parochos
Na generalidade que estabeleço, por muito convencido, caberá fazer algumas gloriosas excepções; e, sem ir mais longe, o meu Parocho, n'esta freguesia de Santa Isabel
[5]
, o Rev.
do
Padre Jozé Jacintho Tavares, é varão de copiosas Letras, tanto sacras como profanas, de sãos costumes, sobredoirados de indole sociavel e amena, e incançavel na caridade. As reparações e embellezamentos, com que se tem remoçado o templo em que elle serve, nada são comparados com os soccorros de pão, de letras, e de instrucção christan e civil, que já começam a disfrutar os indigentes da sua freguesia. Largos são ainda os seus projectos; ajude-o a Providencia; deixará formoso exemplo aos do seu officio, e muita saudade filial de mulheres e homens prestaveis, em que elle haverá transformado, pela educação, creancinhas ainda hontem desamparadas, e a pique de perdimento. Não quiz perder este lanço de ajudar com um pequeno brado o clamor da gratidão popular, que algum dia ha-de ser alto.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
Notas:
[1]
O Doutor de capello José Feliciano de Castilho Barreto falleceu na Castanheira do Vouga a 6 de Março de 1827, e foi enterrado na capella mór da egreja parochial. Foram em 6 de Outubro de 1872 transportados os seus restos mortaes para o jasigo da sua familia no cemiterio dos Praseres em Lisboa, onde se conservam.
Os Editores
[2]
Existe ainda este cedro que tem alcançado descommunal corpulencia. Chamam-lhe por lá
o cedro do poeta
, ou
do Castilho
.
Os Editores.
[3]
Ovidio―
Os Fastos
―Liv. VI.
[4]
Allusão aos amargores da redacção da
Revista Universal Lisbonense
, minuciosamente narrados
nas Memorias de Castilho
.
Os Editores.
[5]
Castilho morava então na rua de S. Marçal.
Os Editores.
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL Sociedade editora
Livraria Moderna 95―RUA AUGUSTA―LISBOA
