ALUIZIO AZEVEDO (continued 5)
Reading edition
—Vou reedificar tudo isto! declarou João Romão, com um gesto energico que abrangia toda aquella babylonia desmantelada.
E expoz o seu projecto: Tencionava alargar a estalagem, entrando um pouco pelo capinzal. Levantaria do lado esquerdo, encostado ao muro do Miranda, um novo correr de casinhas, aproveitando assim parte do pateo, que não precisava ser tão grande; sobre as outras levantaria um segundo andar, com uma longa varanda na frente toda gradeada. Negociozinho para ter ali, a dar dinheiro, em vez de uma centena de commodos, nada menos de quatrocentos a quinhentos, de doze a vinte e cinco mil reis cada um!
Ah! elle havia de mostrar como se fazem as coisas bem feitas.
O Miranda escutava-o calado, fitando-o com respeito.
—Você é um homem dos diabos! disse afinal, batendo-lhe no hombro.
E, ao sahir de lá, no seu coração vulgar de homem que nunca produzio e levou a vida, como todo o mercador, a explorar a boa fé de uns e o trabalho intellectual de outros, trazia uma grande admiração pelo visinho. O que ainda lhe restava da primitiva inveja transformou-se n'esse instante n'um enthusiasmo illimitado e cego.
—É um filho da mãe! resmungava elle pela rua, em caminho do seu armazem. É de muita força! Pena é estar mettido com a peste d'aquella crioula! Nem sei como um homem tão esperto cahio em semelhante asneira!
Só lá pelas dez e tanto da noite foi que João Romão, depois de certificar-se de que Bertoleza ferrára n'um somno de pedra, resolveu dar balanço ás garrafas de Liborio. O diabo é que elle tambem quasi que se não aguentava nas pernas e sentia os olhos a fecharem-se-lhe de cansaço. Mas não podia socegar sem saber quanto ao certo apanhára do avarento.
Accendeu uma véla, foi buscar a immunda e preciosa trouxa, e carregou com esta para a casa de pasto ao lado da cozinha.
Depôz tudo sobre uma das mezas, assentou-se, e principiou a tarefa. Tomou a primeira garrafa, tentou despejal-a, batendo-lhe no fundo; foi-lhe porém necessario extrahir as notas, uma por uma, porque estavam muito socadas e peganhentas de bolor. A proporção que as fisgava, ia logo as desenrolando e estendendo cuidadosamente em maço, depois de seccar-lhes a humidade ao calor das mãos e da véla. E o prazer que elle desfructava n'este serviço punha-lhe em jogo todos os sentidos e afugentava-lhe o somno e as fadigas. Mas, ao passar á segunda garrafa, soffreu uma dolorosa decepção: quasi todas as cedulas estavam já prescriptas pelo thesouro; veio-lhe então o receio de que a melhor parte do bôlo se achasse inutilisada; restava-lhe todavia a esperança de que fosse aquella garrafa a mais antiga de todas e a peior por conseguinte.
E continuou com mais ardor o seu delicioso trabalho.
Tinha já esvaziado seis, quando notou que a véla, consumida até o fim, bruxuleava a extinguir-se; foi buscar outra nova e vio ao mesmo tempo que horas eram. «Oh! como a noite corrêra depressa!...» Tres e meia da madrugada. «Parecia impossivel!»
Ao terminar a contagem, as primeiras carroças passavam lá fóra na rua.
—Quinze contos, quatrocentos e tantos mil reis!... disse João Romão entre dentes, sem se fartar de olhar para as pilhas de cedulas que tinha defronte dos olhos.
Mas oito contos e seiscentos eram em notas já prescriptas. E o vendeiro, á vista de tão bella somma, assim tão estupidamente compromettida, sentio a indignação de um roubado. Amaldiçoou aquelle maldito velho Liborio por tamanho relaxamento; amaldiçoou o governo porque limitava, com intenções velhacas, o praso da circulação dos seus titulos; chegou até a sentir remorsos por não se ter apoderado do thesouro do avarento, logo que este, um dos primeiros moradores do cortiço, lhe appareceu com o colchão as costas, a pedir chorando que lhe dessem de esmola um cantinho onde elle se mettesse com sua miseria. João Romão tivera sempre uma vidente cobiça sobre aquelle dinheiro engarrafado; fariscára-o desde que fitou de perto os olhinhos vivos e redondos do abutre decrepito, e convenceu-se de todo, notando que o miseravel dava prompto sumisso a qualquer moedinha que lhe cahia nas garras.
—Seria um acto de justiça! concluio João Romão; pelo menos seria impedir que todo este pobre dinheiro apodrecesse tão barbaramente!
Ora adeus! mas sete ricos continhos quasi inteiros ficavam-lhe nas unhas. «E depois, que diabo! os outros assim mesmo haviam de ir com geito... Hoje impingiam-se dois mil reis: amanhã cinco. Não nas compras, mas nos trocos... Porque não? Alguem reclamaria, mas muitos enguliriam a bucha... Para isso não faltavam estrangeiros e caipiras!... E demais, não era crime!... Sim! se havia n'isso ladroeira, queixassem-se do governo! o governo é que era o ladrão!
—Em todo o caso, rematou elle, guardando o dinheiro bom e máo e dispondo-se a descançar; isto já serve para principiar as obras! Deixem estar, que d'aqui a dias eu lhes mostrarei para quanto presto!
XIX
D'ahi a dias, com effeito, a estalagem mettia-se em obras. Á desordem do desentulho do incendio succedia a do trabalho dos pedreiros; martelava-se ali de pela manhã até á noite, o que aliás não impedia que as lavadeiras continuassem a bater roupa e as engommadeiras reunissem ao barulho das ferramentas o choroso falsete das suas eternas cantigas.
Os que ficaram sem casa foram aboletados a troxe-moxe por todos os cantos, á espera dos novos commodos. Ninguem se mudou para o Cabeça de Gato.
As obras principiaram pelo lado esquerdo do cortiço, o lado do Miranda; os antigos moradores tinham preferencia e vantagens nos preços. Um dos italianos feridos morreu na Misericordia e o outro, tambem lá, continuava ainda em risco de vida. Bruno recolhêra-se á Ordem de que era irmão, e Leocadia, que não quiz attender áquella carta escripta por Pombinha, resolveu-se a ir visitar o sou homem no hospital. Que alegrão para o infeliz a volta da mulher, aquella mulher levada dos diabos, mas de carne dura, a quem elle, apezar de tudo, queria muito. Com a visita reconciliaram-se, chorando ambos, e Leocadia decidio tornar para o São Romão e viver de novo com o marido. Agora fazia-se muito séria e ameaçava com pancada a quem lhe propunha bregeirices.
Piedade, essa é que se levantou das febres completamente transformada. Não parecia a mesma depois do abandono de Jeronymo; emmagrecêra em extremo, perdêra as côres do rosto, ficara feia, triste e resmungona; mas não se queixava, e ninguem lhe ouvia fallar no nome do esposo.
Esses mezes, durante as obras, foram uma época especial para a estalagem. O cortiço não dava idéa do seu antigo caracter, tão accentuado e no emtanto tão mixto: aquillo agora parecia uma grande officina improvisada, um arsenal, em cujo fragor a gente só se entende por signaes. As lavadeiras fugiram para o capinzal dos fundos, porque o pó da terra e da madeira sujavam-lhes a roupa lavada. Mas, dentro de pouco tempo, estava tudo prompto; e, com immenso pasmo, viram que a venda, a sebosa bodega, onde João Romão se fez gente, ia tambem entrar em obras. O vendeiro resolvera aproveitar d'ella sómente algumas das paredes, que eram de um metro de largura, talhadas á portugueza; abriria as portas em arco, suspenderia o tecto e levantaria um sobrado, mais alto que o do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. Prédio para metter o do outro no chinello; quatro janellas de frente, oito de lado, com um terraço ao fundo. O logar em que elle dormia com Bertoleza, a cozinha e a casa de pasto seriam abobadadas, formando, com a parte da taverna, um grande armazem, em que o seu commercio iria fortalecer-se e alargar-se.
O Barão e o Botelho appareciam por lá quasi todos os dias, ambos muito interessados pela prosperidade do visinho; examinavam os materiaes escolhidos para a construcção, batiam com a biqueira do chapéo de sol no pinho de Riga destinado ao assoalho, e affectando-se bons entendedores, tomavam na palma da mão e esfarelavam entre os dedos um punhado da terra e da cal com que os operarios faziam barro. Ás vezes chegavam a ralhar com os trabalhadores, quando lhes parecia que não iam bem no serviço! João Romão, agora sempre de paletó, engravatado, calças brancas, collete e corrente de relogio, já não parava na venda, e só acompanhava as obras na folga das occupações da rua. Principiava a tomar tino no jogo da Bolsa; comia em hoteis caros e bebia cerveja em larga camaradagem com capitalistas nos cafés do commercio.
E a crioula? Como havia de ser?
Era isto justamente o que, tanto o Barão como o Botelho, morriam porque lhe dissessem. Sim, porque aquella bôa casa que se estava fazendo, e os ricos moveis encommendados, e mais as pratas e as porcelanas que haviam de vir, não seriam de certo para os beiços da negra velha! Conserval-a-ia como criada? Impossivel! Todo Botafogo sabia que elles até ahi fizeram vida commum!
Todavia, tanto o Miranda, como o outro, não se animavam a abrir o bico a esse respeito com o visinho e contentavam-se em boquejar entre si mysteriosamente, palpitando ambos por ver a sahida que o vendeiro acharia para semelhante situação.
Maldita preta dos diabos! Era ella o unico defeito, o senão, de um homem tão importante e tão digno!
Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse jantar á casa do Miranda. Iam juntos ao theatro. João Romão dava o braço á Zulmira, e, procurando galanteal-a e mais ao resto da familia, desfazia-se em obsequios brutaes e dispendiosos, com uma franqueza exagerada que não olhava gastos. Se tinham de tomar alguma coisa, elle fazia vir logo tres, quatro garrafas ao mesmo tempo, pedindo sempre o triplo do necessario e accumulando compras inuteis de doces, flôres e tudo que apparecia. Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a sua febre de obsequiar á gente do Miranda, que nunca voltavam para casa sem um homem atraz, carregado com os mimos que o vendeiro arrematava.
E Bertoleza bem que comprehendia tudo isso e bem que estranhava a transformação do amigo. Elle ultimamente mal se chegava para ella e, quando o fazia, era com tal repugnancia, que antes o não fizesse. A desgraçada muita vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes de cocotes estrangeiras, e chorava em segredo, sem animo de reclamar os seus direitos. Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não era amor o que a misera desejava, era sómente confiança no amparo da sua velhice, quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida. E contentava-se em suspirar no meio de grandes silencios durante o serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus paes que a deixaram nascer e crescer no captiveiro. Escondia-se de todos, mesmo da gentalha do frege e da estalagem, envergonhada de si propria, amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-se a mancha negra, a indecorosa nodoa d'aquella prosperidade brilhante e clara.
E, no emtanto, adorava o amigo; tinha por elle o fanatismo irracional das caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravisam, d'essas que morrem de ciumes, mas que tambem são capazes de matar-se para poupar ao seu idolo a vergonha do seu amor. O que custava áquelle homem consentir que ella, uma vez por outra, se chegasse para junto d'elle? Todo o dono, nos momentos de bom humor, affaga o seu cão... Mas qual! o destino de Bertoleza fazia-se cada vez mais estreito e mais sombrio; pouco a pouco deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma sua escrava. Como sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a deitar-se; de manhã escamando peixe, á noite vendendo-o á porta, para descançar da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo nem dia santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, immunda, repugnante, com o coração eternamente emprenhado de desgostos que nunca vinham á luz. Afinal, convencendo-se de que ella, sem ter ainda morrido, já não vivia para ninguem, nem tão pouco para si, desabou n'um fundo entorpecimento apathico, estagnado como um charco podre que causa nojo. Fizera-se aspera, desconfiada, sobrolho carrancudo, uma linha dura de um canto ao outro da bocca. E durante dias inteiros, sem interromper o serviço, que ella fazia agora automaticamente, por um habito de muitos annos, gesticulava e mexia com os labios, monologando sem pronunciar as palavras. Parecia indifferente a tudo, a tudo que a cercava.
Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com Botelho, as lagrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ella teve de abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam fazer nada.
Botelho havia dito ao vendeiro:
—Faça o pedido! É occasião.
—Hein?
—Póde pedir a mão da pequena. Está tudo prompto!
—O Barão dá-m'a?
—Dá.
—Tem certeza d'isso?
—Ora! se não tivesse não lh'o diria d'este modo!
—Elle prometteu?
—Fallei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava autorisado por você. Fiz mal?
—Mal? Fez muito bem. Creio até que não é preciso mais nada!
—Não, se o Miranda não vier logo ao seu encontro é bom você lhe fallar, comprehende?
—Ou escrever.
—Tambem.
—E a menina?
—Respondo por ella. Você não tem continuado a receber as flôres?
—Tenho.
—Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando tambem as suas e faça o que lhe disse.—Atire-se, seu João, atire-se emquanto o angú está quente!
Por outro lado, Jeronymo empregára-se na pedreira de São Diogo, onde trabalhava d'antes, e morava agora com a Rita numa estalagem da Cidade Nova.
Tiveram de fazer muita despeza para se installarem; foi-lhes preciso comprar de novo todos os arranjos de casa, porque do São Romão Jeronymo só levou dinheiro, dinheiro que elle já não sabia poupar. Com o asseio da mulata a sua casinha ficou, todavia, que era um regalo; tinham cortinado na cama, lençóes de linho, fronhas de renda, muita roupa branca, para mudar todos os dias, toalhas de meza, guardanapos; comiam em pratos de porcelana e uzavam sabonetes finos. Plantaram á porta uma trepadeira que subia para o telhado, abrindo pela manhã flôres escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram gaiolas de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que mais gostavam; compraram gallinhas e marrecos e fizeram um banheiro só para elles, porque o da estalagem repugnou á bahiana que, n'esse ponto, era muito escrupulosa.
A primeira parte da sua lua de mel foi uma cadeia de delicias continuas; tanto elle como ella, pouco ou nada trabalharam; a vida dos dois resumíra-se, quasi que exclusivamente, nos oito palmos de colchão novo, que nunca chegava a esfriar de todo. Jámais a existencia pareceu tão boa e corredia para o portuguez; aquelles primeiros dias fugiram-lhe como estrophes seguidas de uma deliciosa canção de amor, apenas espacejada pelo estribilho dos beijos em dueto; foi um prazer prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir os olhos, n'aquelle collo carnudo e doirado da mulata, a que o cavouqueiro se abandonara como um bebedo que adormece abraçado a um garrafão inesgotavel de vinho gostoso.
Estava completamente mudado. Rita apagára-lhe a ultima restea das recordações da patria; seccou, ao calor dos seus labios grossos e vermelhos, a derradeira lagrima de saudade, que o desterrado lançou do coração com o extremo arpejo que a sua guitarra suspirou.
A guitarra! substituio-a ella pelo violão bahiano, e deu-lhe a elle uma rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos de amante prostrado com as suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em que ha caboclinhos corropiras que no sertão vêm pitar á beira das estradas em noites de lua clara, e querem que todo o viajante que vae passando lhes ceda fumo e cachaça, sem o que, ai d'elles! o corropira transforma-os em bicho do matto. E deu-lhe do seu de comer da Bahia, temperado como fogoso azeite de dendem, côr de braza; deu-lhe das suas muquecas escandescentes, de fazer chorar, e habituou-lhe a carne ao cheiro sensual d'aquelle seu corpo de cobra, lavado tres vezes ao dia e tres vezes perfumado com hervas aromaticas.
O portuguez abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das extravagancias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fôra-se-lhe de vez o espirito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, á felicidade de possuir a mulata e ser possuido só por ella, só ella, e mais ninguem.
A morte do Firmo não vinha nunca toldar-lhes o goso da vida; quer elle, quer a amiga, achavam a coisa muito natural. «O facinora matara tanta gente; fizera tanta maldade; devia pois acabar como acabou! Nada mais justo! Se não fosse Jeronymo, seria outro! Elle assim o quiz—bem feito!»
Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem se conformar com a ausencia do marido, chorava o seu abandono e ia tambem agora se transformando de dia para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, uma dura desesperança, a que nem as lagrimas bastavam para adoçar as agruras. A principio, ainda a pobre de Christo tentou resistir com coragem áquella viuvez peior que essa outra, em que ha, para elemento de resignação, a certeza de que a pessoa amada nunca mais terá olhos para cobiçar mulheres, nem bocca para pedir amores; mas depois começou a afundar sem resistencia na lama do seu desgosto, covardemente, sem forças para illudir-se com uma esperança fatua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus principios, do seu proprio caracter, sem se ter já n'este mundo na conta de alguma coisa e continuando a viver sómente porque a vida era teimosa e não queria deixal-a ir apodrecer lá em baixo, por uma vez. Deu para desleixar-se no serviço; as suas freguezas de roupa começaram a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e moleirona, precisando já empregar grande esforço para não bolir nas economias que Jeronymo lhe deixára, porque isso devia ser para a filha, aquella probrezita orphanada antes da morte dos paes.
Um dia, Piedade levantou-se queixando-se de dôres de cabeça, zoada nos ouvidos e o estomago embrulhado; aconselharam-lhe que tomasse um trago de paraty. Ella aceitou o conselho e passou melhor. No dia seguinte repetio a doze; deu-se bem com a perturbação em que a punha o alcool, esquecia-se um pouco durante algum tempo das amofinações da sua vida; e, gole a gole, habituára-se a beber todos os dias o seu meio martello de aguardente, para enganar os pezares.
Agora, que o marido já não estava ali para impedir que a filha puzesse os pés no cortiço, e agora que Piedade precisava de consolo, a pequena ia passar os domingos com ella. Sahira uma criança forte e bonita; puxara do pae o vigor physico e da mãe a expressão bondosa da physionomia. Já tinha nove annos.
Eram esses agora os unicos bons momentos da pobre mulher, esses que ella passava ao lado da filha. Os antigos moradores da estalagem principiavam a distinguir a menina com a mesma predilecção com que amavam Pombinha, porque em toda aquella gente havia uma necessidade moral de eleger para mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior, a quem elles privilegiavam respeitosamente, como subditos a um principe. Chrismaram-na logo com o cognome de «Senhorinha».
Piedade, apezar do procedimento do marido, ainda no intimo se impressionava com a idéa de que não devia contrarial-o nas suas disposições de pae. «Mas que mal tinha que a pequena fosse ali?... Era uma esmola que fazia á mãe! Lá pelo risco de perder-se... Ora adeus, só se perdia quem mesmo já nascêra para a perdição! A outra não se conservára sã e pura? não achára noivo? não casára e não vivia dignamente com o seu marido? Então?!» E Senhorinha continuou a ir á estalagem, a principio nos domingos pela manhã, para voltar á tarde, depois já de vespera, nos sabbados, para só tornar ao collegio na segunda feira.
Jeronymo, ao saber disto, por intermedio da professora, revoltou-se no primeiro impeto, mas, pensando bem no caso, achou que era justo deixar á mulher aquelle consolo. «Coitada! devia viver bem aborrecida da sorte!» Tinha ainda por ella um sentimento compassivo, em que a melhor parte nascêra com o remorso. «Era justo, era! que a pequena aos domingos e dias santos lhe fizesse companhia!» E então, para ver a filha, tinha que ir ao collegio nos dias de semana. Quasi sempre levava-lhe presentes de doce, fructas, e perguntava-lhe se precisava de roupa ou de calçado. Mas, um bello dia, apresentou-se tão ebrio, que a directora lhe negou a entrada. Desde essa occasião, Jeronymo teve vergonha de lá voltar, e as suas visitas á filha tornaram-se muito raras.
Tempos depois, Senhorinha entregou á mãe uma conta de seis mezes da pensão do collegio, com uma carta em que a directora negava-se a conservar a menina, no caso que não liquidassem promptamente a divida. Piedade levou as mãos á cabeça: «Pois o homem já nem o ensino da pequena queria dar?! Que lhe valesse Deus! onde iria ella fazer dinheiro para educar a filha?!»
Foi á procura do marido; já sabia onde elle morava. Jeronymo recusou-se, por vexame; mandou dizer que não estava em casa. Ella insistio; declarou que não arredaria d'alli sem lhe fallar; disse em voz bem alta que não ia lá por elle, mas pela filha, que estava arriscada a ser expulsa do collegio; ia para saber que destino lhe havia de dar, porque agora a pequena estava muito taluda para ser engeitada na roda!
Jeronymo appareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que não tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao vel-o, perdeu logo toda a energia com que chegára e com moveu-se tanto, que as lagrimas lhe saltaram dos olhos ás primeiras palavras que lhe dirigio. E elle abaixou os seus e fez-se livido defronte d'aquella figura avelhantada, de pelles vazias, de cabellos sujos e encanecidos. Não lhe parecia a mesma! Como estava mudada! E tratou-a com brandura, quasi a pedir-lhe perdão, a voz muito expremida no aperto da garganta.
—Minha pobre velha!... balbuciou, pousando-lhe a mão larga na cabeça.
E os dois emmudeceram um defronte do outro, arquejantes. Piedade sentio ancias de atirar-se-lhe nos braços, possuida de imprevista ternura com aquelle simples affago do seu homem. Um subito raio de esperança illuminou-a toda por dentro, dissolvendo de relance os negrumes accumulados ultimamente no seu coração. Contava não ouvir ali senão palavras duras e asperas, ser talvez repellida grosseiramente, insultada pela outra e coberta de ridiculo pelos novos companheiros do marido; mas, ao encontral-o tambem triste e desgostoso, sua alma prostrou-se reconhecida; e, assim que Jeronymo, cujas lagrimas corriam já silenciosamente, deixou que a sua mão fosse descendo da cabeça ao hombro e depois á cintura da esposa, ella desabou, escondendo o rosto contra o peito d'elle, n'uma explosão de soluços que lhe faziam vibrar o corpo inteiro.
Por algum tempo choraram ambos abraçados.
—Consola-te! que queres tu?... São desgraças!... disse o cavouqueiro afinal limpando os olhos. Foi como se eu te tivesse morrido ... mas pódes ficar certa de que te estimo e nunca te quiz mal!... Volta para casa; eu irei pagar o collegio de nossa filhinha e hei de olhar por ti. Vae, e pede a Deus Nosso Senhor que me perdôe os desgostos que te tenho eu dado!
E acompanhou-a até ao portão da estalagem.
Ella, sem poder pronunciar palavra, sahio cabisbaixa, a enxugar os olhos no chale de lã, sacudida ainda de vez em quando por um soluço retardado.
Entretanto, Jeronymo não mandou saldar a conta do collegio, no dia seguinte, nem no outro, nem durante todo o resto do mez; e elle, coitado! bem que se mortificou por isso; mas onde ir buscar dinheiro n'aquella occasião? o seu trabalho mal lhe dava agora para viver junto com a mulata; estava já alcançado nos seus ordenados e devia ao padeiro e ao homem da venda. Rita era desperdiçada e amiga de gastar á larga; não podia passar sem uns tantos regalos de barriga e gostava de fazer presentes. Elle, receioso de contrarial-a e quebrar o ôvo da sua paz, até ahi tão completo com respeito á bahiana, subordinava-se calado e affectando até satisfação; no intimo, porém, o infeliz soffria deveras. A lembrança constante da filha e da mulher apoquentavam-no com pontas de remorso, que dia a dia alastravam na sua consciencia, á proporção que esta ia acordando d'aquella cegueira. O desgraçado sentia e comprehendia perfeitamente todo o mal da sua conducta; mas só a idéa de separar-se da amante, punha-lhe logo o sangue doido e apagava-lhe de novo a luz dos raciocinios. «Não! não! Tudo que quizessem, menos isso!»
E então, para fugir áquella voz irrefutavel, que estava sempre a serrazinar dentro delle, bebia em camaradagem com os companheiros e habituára-se, dentro em pouco, á embriaguez. Quando Piedade, quinze dias depois da sua primeira visita, tornou lá, um domingo, acompanhada pela filha, encontrou-o bebendo, n'uma roda de amigos.
Jeronymo recebeu-as com grande escarcéo de alegria. Fel-as entrar. Beijou a pequena repetidas vezes e suspendeu-a pela cintura, soltando exclamação de enthusiasmo.
Com um milhão de raios! Que linda estava a sua morgadinha!
Obrigou-as logo a tomar alguma coisa e foi chamar a mulata; queria que as duas mulheres fizessem as pazes no mesmo instante. Era questão decidida!
Houve uma scena de constrangimentos, quando a portugueza se vio defronte da bahiana.
—Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! bradava Jeronymo, a empurral-as uma contra a outra. Não quero aqui caras fechadas!
As duas trocaram um aperto de mão, sem se fitarem. Piedade estava escarlate de vergonha.
—Ora muito bem! accrescentou o cavouqueiro, agora, para a coisa ser completa, hão de jantar comnosco!
A portugueza oppoz-se, resmungando desculpas, que o cavouqueiro não aceitou.
—Não as deixo sahir! É boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem matar as saudades?
Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela occasião de entender-se com o marido sobre o negocio do collegio. Rita, voluvel como toda a mestiça, não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obzequios com a familia do amigo. As outras visitas sahiram antes do jantar.
Puzeram-se á mesa ás quatro horas e principiaram a comer com boa disposição, carregando no virgem logo desde a sopa. Senhorinha destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de collegio parecia, entre aquella gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pae acabrunhava-a com as suas solicitudes brutaes e com as suas perguntas sobre os estudos. Á excepção d'ella, todos os outros estavam, antes da sobremeza, mais ou menos chumbados pelo vinho. Jeronymo, esse estava de todo. Piedade, instigada por elle, esvasiára frequentes vezes o seu copo e, ao fim do jantar, déra para queixar-se amargamente da vida; foi então que ella, já com azedume na voz, fallou na divida do collegio e nas ameaças da directora.
—Ora, filha! disse-lhe o cavouqueiro. Agora estás tu tambem para ahi com essa mastigação! Deixa as tristezas para outra vez! Não nos amargures o jantar!
—Triste sorte a minha!
—Ai, ai! que temos lamuria!
—Como não me hei de queixar, se tudo me corre mal?!
—Sim? Pois se é para isso que aqui vens melhor será não tornares cá!... resmungou Jeronymo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com choradeiras nada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?... Tambem o sou e não me queixo de Deus!
Piedade abrio a soluçar.
—Ahi temos! berrou o marido, erguendo-se e dando uma punhada forte sobre a meza. E aturem-na! Por mais que um homem se não queira zangar, ha de estoirar por força! Ora bolas!
Senhorinha correu para junto do pae, procurando contel-o.
—Sebo! berrou elle, desviando-a. Sempre a mesma coisa! Pois não estou disposto a aturar isto! Arre!
—Eu não vim cá por passeio!... proseguio Piedade entre lagrimas! Vim cá para saber da conta do collegio!...
—Pague-a você, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que não tenho nenhum!
—Ah! então com que não pagas?!
—Não! Com um milhão de raios!
—É que és ainda muito peior do que eu suppunha!
—Sim, hein?! Pois então deixe-me cá com toda a minha ruindade e despache o becco! Despache-o, antes que eu faça alguma asneira!
—Minha pobre filha! Quem olhará por ella, Senhor dos afflictos?!
—A pequena já não precisa de collegio! deixe-a cá commigo, que nada lhe faltará!
—Separar-me de minha filha? a unica pessoa que me resta?!
—Ó mulher! você não está separada d'ella a semana inteira?... Pois a pequena, em vez de ficar no collegio, fica aqui, e aos domingos irá vel-a! Ora ahi tem!
—Eu quero antes ficar com minha mãe!... balbuciou a menina, abraçando-se a Piedade.
—Ah! tambem tu, ingrata, já me fazes guerra?! Pois vão com todos os diabos! e não me tornem cá para me ferver o sangue, que já tenho de sobra com que arreliar-me!
—Vamos d'aqui! gritou a portugueza, travando da filha pelo braço. Maldita a hora em que vim cá!
E as duas, mãe e filha, desappareceram; emquanto Jeronymo, passeiando de um para outro lado, monologava, furioso sob a fermentação do vinho.
Rita não se mettêra na contenda, nem se mostrára a favor de nenhuma das partes. «O homem, se quizesse voltar para junto da mulher, que voltasse! Ella não o prenderia, porque amor não era obrigado!»
Depois de fallar só por muito espaço, o cavouqueiro atirou-se a uma cadeira, despejou sombrio dois dedos de laranginha n'um copo e bebeu-os de um trago.
—Arre! Assim tambem não!
A mulata então approximou-se d'elle, por detraz; segurou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na bocca, arredando com os labios a espessura dos bigodes.
Jeronymo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e assentou-a em cheio sobre as suas coxas.
—Não te rales, meu bem! disse ella, affagando-lhe os cabellos. Já passou!
—Tens razão! besta fui eu em deixal-a pôr pé cá dentro de casa!
E abraçaram-se com impeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas fosse uma interrupção nos seus amores.
Lá fora, junto ao portão da estalagem, Piedade, com o rosto escondido no hombro da filha, esperava que as lagrimas cedessem um pouco, para as duas seguirem o seu destino de enxotadas.
XX
Chegaram á casa ás nove horas da noite. Piedade levava o coração feito em lama; não déra palavra por todo o caminho e logo que recolheu a pequena, encostou-se á commoda, soluçando.
Estava tudo acabado! Tudo acabado!
Foi á garrafa de aguardente, bebeu uma boa porção; chorou ainda, tornou a beber, e depois sahio ao pateo, disposta a parasitar a alegria dos que se divertiam lá fóra.
A das Dôres tivera jantar de festa; ouviam-se as risadas d'ella e a voz avinhada e grossa do seu homem, o tal sujeito do commercio, abafadas de vez em quando pelos berros da Machona, que ralhava com Agostinho. Em diversos pontos cantavam e tocavam viola.
Mas o cortiço já não era o mesmo; estava muito differente; mal dava idéa do que fôra. O pateo, como João Romão havia promettido, estreitára-se com as edificações novas; agora parecia uma rua, todo calçado por igual e illuminado por tres lampeões grandes, symetricamente dispostos. Fizeram-se seis latrinas, seis torneiras d'agoa e tres banheiros. Desappareceram as pequenas hortas, os jardins de quatro a oito palmos e os immensos depositos de garrafas vasias. Á esquerda, até onde acabava o predio do Miranda, estendia-se um novo correr de casinhas de porta e janella, e d'ahi por diante, acompanhando todo o lado do fundo e dobrando depois para a direita até esbarrar no sobrado de João Romão, erguia-se um segundo andar, fechado em cima do primeiro por uma estreita e extensa varanda de grades de madeira, para a qual se subia por duas escadas, uma em cada extremidade. De cento e tantos, a numeração dos commodos elevou-se a mais de quatrocentos; e tudo caiadinho e pintado de fresco; paredes brancas, portas verdes e gotteiras encarnadas. Poucos logares havia desoccupados. Alguns moradores puzeram plantas á porta e á janella, em meias tinas serradas ou em vazos de barro. Albino levou o seu capricho até á cortina de labyrintho e chão forrado de esteira. A casa d'elle destacava-se das outras; era no andar de baixo, e cá de fóra via-se-lhe o papel vermelho da sala, a mobilia muito brunida, jarras de flôres sobre a commoda, um lavatorio com o espelho todo cercado de rosas artificiaes, um oratorio grande, resplandescente de palmas doiradas e prateadas, toalhas de renda por toda a parte, n'um luxo de egreja, casquilho e defumado. E elle, o pallido lavadeiro, sempre com o seu lenço cheiroso á volta do pescocinho, a sua calça branca de bocca larga, o seu cabello molle cahido por detraz das orelhas bambas, preoccupava-se muito em arrumar tudo isso, eternamente, como se esperasse a cada instante a visita de um estranho. Os companheiros de estalagem elogiavam-lhe aquella ordem e aquelle asseio; pena era que lhe dessem as formigas na cama! Em verdade, ninguem sabia porque, mas a cama de Albino estava sempre coberta de formigas. Elle a destruil-as, e o demonio do bichinho a multiplicar-se cada vez mais e mais todos os dias. Uma campanha desesperadora, que o trazia triste, e aborrecido da vida. Defronte justamente ficava a casa do Bruno e da mulher, toda mobiliada de novo, com um grande candieiro de kerosene em frente á entrada, cujo reverbero parecia olhar desconfiado lá de dentro para quem passava cá no pateo. Agora, entretanto, o casal vivia em santa paz. Leocadia estava discreta; sabia-se que ella dava ainda muito que fazer ao corpo sem o concurso do marido, mas ninguem dizia quando, nem onde. O Alexandre jurava, que, ao entrar ou sahir fora d'horas, nunca a pilhara no vicio; e a esposa, a Augusta Carne Molle, ia mais longe na defeza, porque sempre tivera pena de Leocadia, pois entendia que aquelle assanhamento por homem não era maldade n'ella; era praga de algum bocca do diabo que a quiz e a pobrezinha não deixou.—Estava se vendo d'isso todos os dias!—tanto que ultimamente, depois que a creatura pedio a um padre um pouco de agua benta e benzeu-se com esta em certos logares, o fogo desapparecêra logo, e ella ahi vivia direita e séria que não dava que fallar a ninguem! Augusta ficára com a familia n'uma das casinhas do segundo andar, á direita; estava gravida outra vez; e á noite via-se o Alexandre, sempre muito circumspecto, a passeiar ao comprido da varanda, acalentando uma criancinha ao collo, emquanto a mulher dentro de casa cuidava de outras. A filharada crescia-lhes, que mettia medo. «Era um no papo, outro no sacco!» Moravam agora tambem d'esse lado os dois cumplices de Jeronymo, o Pataca e o Zé Carlos, occupando juntos o mesmo commodo; defronte da porta tinham um fogãozinho e um fogareiro, em que preparavam elles mesmos a sua comida. Logo adiante era o quarto de um empregado do correio, pessoa muito callada, bem vestida e pontual no pagamento; sahia todas as manhãs e voltava ás dez da noite invariavelmente; aos domingos só ia á rua para comer, e depois fechava-se em casa e, houvesse o que houvesse no cortiço, não punha mais o nariz de fóra. E, assim como este, notavam-se por ultimo na estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata e sem meias. A feroz engrenagem d'aquella machina terrivel, que nunca parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro. Começavam a vir os estudantes pobres, com os seus chapéos desabados, o paletó fuveiro, uma pontinha de cigarro a queimar-lhes a pennugem do buço, e as algibeiras muito cheias, mas só de versos e jornaes; surgiam continuos de repartições publicas, caixeiros de botequim, artistas de theatro, conductores de bonde, e vendedores de bilhetes de loteria. Do lado esquerdo, toda a parte em que havia varanda foi monopolisada pelos italianos; habitavam cinco a cinco, seis a seis no mesmo quarto, e notava-se que n'esse ponto a estalagem estava já muito mais suja que nos outros. Por melhor que João Romão reclamasse, formava-se ahi todos os dia uma esterqueira de cascas de melancia e laranja. Era uma communa ruidosa e porca a dos demonios dos mascates! Quasi que se não podia passar lá, tal a accumulação de taboleiros de louça e objectos de vidro, caixas de quinquilharia, molhos e molhos de vasilhame de folha de Flandres, bonecos e castellos de gesso, realejos, macacos, o diabo! E tudo isso no meio de um fedor nauseabundo de coisas podres, que empestava todo o cortiço. A parte do fundo da varanda era asseiada felizmente e destacava-se pela profusão de passaros que lá tinham, entre os quaes sobresahia uma arara enorme que, de espaço a espaço, soltava um formidavel sibilo estridente e rouco. Por debaixo ficava a casa da Machona, cuja porta, como a janella, Nênêm trazia sempre enfeitadas de tinhorôes e begonias. O predio do Miranda parecia ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a casa do vendeiro, que lá defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar sobranceiro e triumphante. João Romão conseguira metter o sobrado do visinho no chinello; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as cortinas e com a mobilia nova impunha respeito. Foi abaixo aquelle grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de cocheira, e a entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro, tendo entre ella e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo ao meio, de cimento, imitando pedra. Fôra-se a pittoresca lanterna de vidros vermelhos; foram-se as iscas de figado e as sardinhas preparadas ali mesmo á porta da venda sobre as brazas; e na taboleta nova, muito maior que a primitiva, em vez de «Estalagem de São Romão» lia-se em lettras caprichosas:
«Avenida São Romão»
O Cabeça de Gato estava vencido finalmente, vencido para sempre; nem já ninguem se animava a comparar as duas estalagens. Á medida que a de João Romão prosperava d'aquelle modo, a outra decahia de todo; raro era o dia em que a policia não entrava lá e baldeava tudo aquillo a espadeirada de cego. Uma desmoralisação completa! Muitos Cabeças de Gato viraram casaca, passando-se para os Carapicús, entre os quaes um homem podia até arranjar a vida, se soubesse trabalhar com geito em tempo de eleições. Exemplos não faltavam!
Depois da partida de Rita, já se não faziam sambas ao relento com o choradinho da Bahia, e mesmo a canna verde pouco se dansava e cantava; agora o forte eram os forrobodós dentro de casa, com tres ou quatro musicos, ceia de café com pão; muita calça branca e muito vestido engommado.—E toca a enfiar para ahi quadrilhas e polkas até romper a manhã!
Mas n'aquelle domingo o cortiço estava banzeiro; havia apenas uns grupos magros, que se divertiam com a viola á porta de casa. O melhor, ainda assim, era o da das Dôres. Piedade dirigio-se logo para lá, sombria e cabisbaixa.
—Com o demo! você anda agora que nem o boi castrado! exclamou-lhe o Pataca, assentando-se ao lado d'ella. As tristezas atiram-se para traz das costas, creatura de Dons! A vida não dá para tanto! O homem deixou-te? Ora sebo! mette-te com outro e põe o coração á larga!
Ella suspirou em resposta, ainda triste; porém a garrafa de paraty correu a roda, de mão em mão, e, á segunda volta, Piedade já parecia outra. Começou a conversar e a tomar interesse no pagode. D'ahi a pouco era, de todos a mais animada, fallando pelos cotovellos, criticando e arremedando as figuras ratonas da estalagem. O Pataca ria-se, a quebrar a espinha, cahindo por cima della e passando-lhe o braço na cintura.
—Você ainda é mulher pr'um homem fazer uma asneira!
—Olha p'ra que lhe deu a ebria! Solta-me a perna, estupor! O grupo achava graça nos dois e applaudia-os com gargalhadas. E o paraty a circular sempre de mão em mão. A das Dôres não descansava um momento; mal vinha de encher a garrafa lá dentro de casa, tinha de voltar outra vez para enchel-a de novo. «Olha que estafa! Vão beber pr'o diabo!» Afinal appareceu com o garrafão e pousou o no meio da roda.
—Querem saber? Empinem por ahi mesmo, que já estou com os quartos doendo de tanto andar de lá p'ra cá!
Essa noite, a bebedeira de Piedade foi completa. Quando João Romão entrou, de volta da casa do Miranda, encontrou-a a dansar ao som de palmas, gritos e risadas, no meio de uma grande troça, a saia levantada, os olhos requebrados, a pretender arremedar a Rita no seu choradinho do Bahia. Era a bôba da roda. Batiam-lhe palmadas no trazeiro e com o pé embaraçavam-lhe as pernas, para a ver cahir e rebolar-se no chão.
O vendeiro, de fraque e chapéo alto, foi direito ao grupo, então muito mais reforçado de gente, e intimou a todos que se recolhessem. Aquillo já não eram horas para semelhante algazarra!
—Vamos! Vamos! Cada um para sua casa!
Piedade foi a unica que protestou, reclamando o seu direito de brincar um pouco com os amigos.
Que diabo! Não se estava fazendo mal a ninguem!
—Ora vá mas é p'ra cama cozer a mona! vituperou-lhe João Romão, repellindo-a. Você, com uma filha quasi mulher, não tem vergonha de estar aqui a servir de palhaço?! Forte bebada!
Piedade assomou-se com a descompostura, quiz despicar-se, chegou a arregaçar as mangas e sungar a saia; mas o Pataca metteu-se no meio e conteve-a, pedindo a João Romão que não levasse aquillo em conta, porque era tudo cachaça.
—Bom, bom, bom! mas aviem-se! Aviem-se!
E não se retirou sem ver a roda dissolvida, e cada qual procurando a casa.
Recolheram-se todos em silencio; só o Pataca e Piedade deixaram-se ficar ainda no pateo, a discutir o acto do vendeiro. O Pataca tambem estava bastante toucado. Ambos reconheciam que lhes não convinha demorar-se ali, porém nenhum dos dois se sentia disposto a metter-se no quarto.
—Você tem lá alguma coisa que beber em casa? perguntou elle afinal.
Ella não sabia ao certo; foi ver. Havia meia garrafa de paraty e um resto de vinho. Mas era preciso não fazer barulho, por'mor da pequena que estava dormindo.
Entraram em ponta de pés, a fallar surdamente. Piedade deu mais luz ao candieiro.
—Olha agora! Vamos ficar ás escuras! Acabou-se o gaz! O Pataca sahio, para ir á casa buscar uma véla, e de volta trouxe tambem um pedaço de queijo e dois peixes fritos, que levou ao nariz da lavadeira, sem dizer nada. Piedade, aos bordos, desoccupou a meza do engommado o servio dois pratos. O outro reclamou vinagre e pimentas e perguntou se havia pão.
—Pão ha. O vinho é que é pouco!
—Não faz mal! Vae mesmo com a canninha!
E assentaram-se. O cortiço dormia já e só se ouviam, no silencio da noite, cães que ladravam lá fóra na rua, tristemente. Piedade começou a queixar-se da vida veio-lhe uma crise de lagrimas e soluços. Quando poude fallar contou o que lhe succedêra essa tarde, narrou os pormenores da sua ida com a filha á procura do marido, o jantar em commum com a peste da mulata, e afinal a sua humilhação de vir de lá enxovalhada e corrida.
Pataca revoltou-se, não com o procedimento de Jeronymo mas com o d'ella.
Rebaixar-se áquelle ponto! com effeito!... Ir procurar o homem lá na casa da outra!... Oh!
—Elle tratou-me bem, quando lá fui da primeira vez... Hoje é que não sei o que tinha: só faltou pôr-me na rua aos pontapés!
—Foi bem feito! Ainda acho pouco! Devia ter lhe mettido o páo, para você não ser tôla!
—É mesmo!
—Pois não! O que não falta são homens, filha! O mundo é grande! Para um pé doente ha sempre um chinello velho!—E ferrou-lhe a mão nas pernas—chega-te para mim, que te esquecerás do outro!
Piedade repellio-o.
Que se deixasse de asneiras!
—Asneiras! É o que se leva d'esta vida!
A pequena acordára lá no quarto e viera descalça até á porta da sala de jantar, para espiar o que faziam os dois.
Não deram por ella.
E a conversa proseguio, esquentando á medida que a garrafa de paraty se esvasiava. Piedade deu de mão aos seus desgostos, pôz-se a papaguear um pouco; as lagrimas foram-se-lhe; e ella manducou então com appetite, rindo já das pilherias do companheiro, que continuava a apalpar-lhe de vez em quando as coxas.
Aquellas coisas, assim, sem se esperar, é que tinham graça!... dizia elle, excitado e vermelho, comendo com a mão, a embeber pedaços de peixe no molho das pimentas. Bem tolo era quem se matava!
Depois lembrou que não viria fóra de proposito uma chicrinha de café.
—Não sei se ha, vou ver, respondeu a lavadeira, erguendo-se agarrada á meza.
E bordejou até á cozinha, a dar esbarrões pela direita e pela esquerda.
—Tento no leme, que o mar está forte! exclamou Pataca, levantando-se tambem, para ir ajudal-a.
Lá perto do fogão agarrou-a de subito, como um gallo abafando uma gallinha.
—Larga! reprehendeu a mulher, sem forças para se defender.
Elle apanhou-lhe as fraldas.
—Espera! Deixa!
—Não quero!
E ria-se por ver a attitude comica do Pataca vergado defronte d'ella.
—Que mal faz?... Deixa!
—Sahe d'ahi, diabo!
E, cambaleando, amparados um no outro, foram ambos ao chão.
—Olha que peste! resmungou a desgraçada, quando o adversario conseguio saciar-se n'ella. Marráios te partam!
E deixou-se ficar por terra. Elle pôz-se de pé e, ao encaminhar-se para a sala de jantar, sentio uma ligeira sombra fugirem sua frente. Era a pequena, que fora espiar á porta da cozinha.
Pataca assustára-se.
—Quem anda aqui a correr como gato?... perguntou voltando a ter com Piedade, que permanecia no mesmo logar; agora quasi adormecida.
Sacudio-a.
—Olá! Queres ficar ahi, ó creatura! Levanta-te! Anda a ver o café!
E, tentando erguel-a, suspendeu-a por debaixo dos braços. Piedade, mal mudou a posição da cabeça, vomitou sobre o peito e a barriga uma golphada fetida.
—Olha o demo! resmungou Pataca. Está que se não póde lamber!
E foi preciso arrastal-a até á cama, que nem uma trouxa de roupa suja. A infeliz não dava accordo de si.
Senhorinha acudira, perguntando afflicta o que tinha a mãe.
—Não é nada, filha! explicou o Pataca. Deixa-a dormir, que isso passa! Olha! se ha limão em casa passa-lhe um pouco atraz da orelha, e verás que amanhã acorda fina e prompta p'ra outra!
A menina desatou a soluçar.
E o Pataca retirou-se, a dar encontrões nos trastes, furioso, porque, afinal, não tomára café.
—Sebo!
XXI
Ao mesmo tempo, João Romão, em chinellas e camisola, passeava de um para outro lado no seu quarto novo. Um aposento largo e forrado de azul e branco com flôrinhas amarellas fingindo oiro; havia um tapete aos pés da cama, e sobre a peniqueira um despertador de nikel, e a mobilia toda era já de casados, porque o esperto não estava para comprar moveis duas vezes.
Parecia muito preoccupado; pensava em Bertoleza que, a essas horas, dormia lá em baixo, n'um vão de escada, aos fundos do armazém, perto da commúa.
Mas que diabo havia elle de fazer afinal d'aquella peste?...
E coçava a cabeça, impaciente por descobrir um meio de ver-se livre d'ella.
É que n'essa noite o Miranda lhe fallára abertamente sobre o que ouvira de Botelho, e estava tudo decidido: Zulmira aceitava-o para marido e Dona Estella ia marcar o dia do casamento.
O diabo era a Bertoleza!...
E o vendeiro ia e vinha no quarto, sem achar uma boa solução para o problema.
Ora, que raio de difficuldade armára elle proprio para se coser!... Como poderia agora mandal-a passear, assim, de um momento para outro, se o demonio da crioula o acompanhava já havia tanto tempo e toda a gente na estalagem sabia d'isso?
E sentia-se revoltado e impotente defronte d'aquelle tranquillo obstaculo que lá estava em baixo, a dormir, fazendo-lhe em silencio um mal horrivel, perturbando-lhe estupidamente o curso da sua felicidade, retardando-lhe, talvez sem consciencia, a chegada d'esse bello futuro conquistado á força de tamanhas privações e sacrificios!
Que ferro!
Mas, só com lembrar-se da sua união com aquella brasileirinha fina e aristocratica, um largo quadro de victorias rasgava-se defronte da desensoffrida avidez da sua vaidade. Em primeiro logar fazia-se membro de uma familia tradicionalmente orgulhosa, como era, dito por todos, a de Dona Estella; em segundo logar augmentava consideravelmente os seus bens com o dote da noiva, que era rica; e em terceiro, afinal, caber-lhe-ia mais tarde tudo o que o Miranda possuia, realisando-se d'este modo um velho sonho que o vendeiro affagava desde o nascimento da sua rivalidade com o visinho.
E via-se já na brilhante posição que o esperava: uma vez de dentro, associava-se logo com o sogro e iria, pouco a pouco, como quem não quer a coisa, o empurrando para o lado, até empolgar-lhe o logar e fazer de si um verdadeiro chefe da colonia portugueza no Brasil; depois quando o barco estivesse navegando ao largo a todo o panno—Tome lá alguns pares de contos de reis e passe-me para cá o titulo de Visconde!
Sim, sim, Visconde! Porque não? E mais tarde, com certeza, Conde! Eram favas contadas!
Ah! elle, posto nunca o disséra a ninguem, sustentava de si para si nos ultimos annos o firme proposito de fazer-se um titular mais graduado que o Miranda. E, só depois de ter o titulo nas unhas, é que iria á Europa, de passeio, sustentando grandeza, mettendo invejas, cercado de adulações, liberal, prodigo, brasileiro, atordoando o mundo velho com o seu oiro novo americano!
E a Bertoleza? gritava-lhe do interior uma voz impertinente.
—É exacto! E a Bertoleza?... repetia o infeliz, sem interromper o seu vae-e-vem ao comprido da alcova.
Diabo! E não poder arredar logo da vida aquelle ponto negro; apagal-o rapidamente, como quem tira da pelle uma nódoa de lama! Que raiva ter de reunir aos vôos mais fulgurosos da sua ambição a idéa mesquinha e ridicula d'aquella inconfessavel concubinagem! E não podia deixar de pensar no demonio da negra, porque a maldita ali estava perto, a rondal-o ameaçadora e sombria; ali estava como o documento vivo das suas miserias, já passadas mas ainda palpitantes. Bertoleza devia ser esmagada, devia ser supprimida, porque era tudo que havia de máo na vida d'elle! Seria um crime conserval-a a seu lado! Ella era o torpe balcão da primitiva bodega; era o aladroado vintemzinho do manteiga em papel pardo; era o peixe trazido da praia e vendido á noite ao lado do fogareiro á porta da taberna; era o frege immundo e a lista cantada das comezanas á portugueza; era o somno roncado num colchão fetido, cheio de bichos; ella era a sua cumplice e era todo o seu mal—devia pois extinguir-se! Devia ceder o logar á pallida mocinha de mãos delicadas e cabellos perfumados, que era o bem, porque era o que ria e alegrava, porque era a vida nova, o romance solfejado ao piano, as flôres nas jarras, as sedas e as rendas, o chá servido em porcelanas caras; era emfim a doce existencia dos ricos, dos felizes e dos fortes, dos que herdaram sem trabalho ou dos que, a puro esforço, conseguiram accumular dinheiro, rompendo e subindo por entre o rebanho dos escrupulosos ou dos fracos. E o vendeiro tinha defronte dos olhos o namorado sorriso da filha do Miranda, sentia ainda a leve pressão do braço melindroso que se apoiara ao seu, algumas horas antes, em passeio pela praia de Botafogo; respirava ainda os perfumes da menina, suaves, escolhidos e penetrantes como palavras de amor; nos seus dedos grossos, curtos, asperos e vermelhos, conservava a impressão da tepida caricia d'aquella mãozinha enluvada que, dentro em pouco, nos prazeres garantidos do matrimonio, affagar-lhe-ia as carnes e os cabellos.
Mas, e a Bertoleza?...
Sim! era preciso acabar com ella! despachal-a! sumil-a por uma vez!
Deu meia noite no relogio do armazem. João Romão tomou uma véla e desceu aos fundos da casa, onde Bertoleza dormia. Approximou-se d'ella, pé ante pé, como um criminoso que leva uma idéa homicida.
A crioula estava immovel sobre o enxergão, deitada de lado, com a cara escondida no braço direito, que ella dobrára por debaixo da cabeça. Apparecia-lhe uma parte do corpo, núa.
João Romão contemplou-a por algum tempo, com asco.
E era aquillo, aquella miseravel preta que ali dormia indifferentemente, o grande estorvo da sua ventura!... Parecia impossivel!
—E se ella morresse?...
Esta phrase, que elle tivera, quando pensou pela primeira vez n'aquelle obstaculo á sua felicidade, tornava-lhe agora ao espirito, porém já amadurecida e transformada n'esta outra:
—E se eu a matasse?
Mas logo um calafrio de pavor correu-lhe por todos os nervos.
Além disso, como?... Sim, como poderia despachal-a, sem deixar signaes compromettedores do crime?... Envenenando-a?... Dariam logo pela coisa!... Matal-a a tiro?... Peior! Leval-a a um passeio fóra da cidade, bem longe e, no melhor da festa, atiral-a ao mar ou por um despenhadeiro, onde a morte fosse infallivel?... Mas como arranjar tudo isso, se elles nunca passeiavam juntos?...
Diabo!
E o desgraçado ficou a pensar, abstracto, de castiçal na mão, sem despregar os olhos de cima de Bertoleza, que continuava immovel, com o rosto escondido no braço.
—E se eu a esganasse aqui mesmo?...
E deu, na ponta dos pés, alguns passos para frente, parando logo, sem deixar nunca de contemplal-a.
Mas a crioula ergueu de improviso a cabeça e fitou-o com olhos de quem não estava dormindo.
—Ah! fez elle.
—Que é, seu João?
—Nada. Vim só ver-te... Cheguei ainda não ha muito... Como vais tu?... Passou-te a dôr do lado?...
Ella meneou os hombros, sem responder ao certo. Houve um silencio entre os dois. João Romão não sabia o que dizer e sahío afinal, escoltado pelo imperturbavel olhar da crioula, que o intimidava mesmo pelas costas.
—Teria desconfiado? pensou o miseravel, subindo de novo para o quarto. Qual? Desconfiar de que?...
E metteu-se logo na cama, disposto a não pensar mais n'isso e dormir incontinenti. Mas o seu pensamento continuou rebelde a parafusar sobre o mesmo assumpto.
—É preciso despachal-a! É preciso despachal-a quanto antes, seja lá como fôr! Ella, até agora, não deu ainda signal de si; não abrio o bico a respeito da questão; mas, Dona Estella está a marcar o dia do casamento; não levará muito tempo para isso ... o Miranda naturalmente communica a noticia aos amigos ... o facto corre de bocca em bocca ... chega aos ouvidos da crioula, e esta, vendo-se abandonada, estoira! estoira com certeza! E agora o verás! Como deve ser bonito, hein?... Ir tão bem até aqui e esbarrar na opposição da negra!... E os commentarios depois!... O que não dirão os invejosos lá da Praça?... «Ah, ah! elle tinha em casa uma amiga, uma preta immunda com quem vivia! Que typo! Sempre ha de mostrar que é gentinha de laia muito baixa!... E aqui a engazopar-nos com uns ares de capitalista que se trata á véla de libra! Olha o Carapicú para que havia de dar! Sáe sujo!» E, então, a familia da menina, com medo de cahir tambem na bocca do mundo, volta atraz e dá o dito por não dito! Bem sei que ella está a par de tudo; isso, olé se está! mas finge-se desentendida, porque conta, e com razão, que eu não serei tão parvo que espere o dia do casamento sem ter todo sumisso á negra! contam que a coisa correrá sem o menor escandalo! E eu, no emtanto, tão besta que nada fiz! E a peste da crioula está ahi senhora do terreiro como d'antes, e não descubro meio de ver-me livre d'ella!... Ora já se vio como arranjei semelhante entalação?... Isto contado não se acredita!
E pisava e repisava o caso, sem achar meio de dar-lhe sahida.
Diabo!
—Ella ha muito que devia estar longe de mim ... fiz mal em não cuidar logo d'isso antes de mais nada!... Fui um pedaço d'asno! Se eu a tivesse despachado logo, quando ainda se não fallava no meu casamento, ninguem desconfiaria da historia: «Porque diabo iria o pobre homem dar cabo de uma mulher, com quem vivia na melhor paz e que era até, dentro de casa, o seu braço direito?...» Mas agora, depois de todas aquellas reformas de vida; depois da separação das camas, e principalmente depois que corresse a noticia do casamento, não faltaria de certo quem o accusasse, se a negra apparecesse morta de repente!
Diabo!
Deram quatro horas, e o desgraçado nada de pregar olho; continuava a matutar sobre o assumpto, virando se de um para o outro lado da sua larga e rangedora cama de casados. Só pelo abrir da aurora conseguio passar pelo somno; mas, logo ás sete da manhã, teve de pôr-se a pé: o cortiço estava todo alvoroçado com um desastre.
A Machona lavava á sua tina, ralhando e discutindo como sempre, quando dois trabalhadores, acompanhados de um ruidoso grupo de curiosos, trouxeram-lhe sobre uma taboa o cadaver ensanguentado do filho. Agostinho havia ido, segundo o costume, brincar á pedreira com outros dois rapazitos da estalagem; tinham, cabritando pelas arestas do precipicio, subido a uma altura superior a duzentos metros do chão e, de repente, faltára-lhe o equilibrio e o infeliz rolou de lá abaixo, partindo os ossos e atassalhando as carnes.
Todo elle, coitadinho, era uma só massa vermelha; as canellas quebradas no joelho, dobravam molles para debaixo das coxas; a cabeça, desarticulada, abrira no casco e despejava o pirão dos miolos; n'uma das mãos faltavam-lhe todos os dedos e no quadril esquerdo via-se-lhe sahir uma ponta de osso ralado pela pedra.
Foi um alarme no pateo quando elle chegou.
Cruzes! que desgraça!
Albino, que lavava ao lado da Machona, teve uma syncope; Nênêm ficou que nem doida, porque ella queria muito áquelle irmão; a das Dôres imprecou contra os trabalhadores, que deixavam um filho alheio matar-se d'aquelle modo em presença d'elles; a mãe, essa apenas soltou um bramido de monstro apunhalado no coração e cahio mesquinha junto do cadaver, a beijal-o, vagindo como uma criança. Não parecia a mesma!
As mães dos outros dois rapazitos esperavam immoveis e lividas pela volta dos filhos, e, mal estes chegaram á estalagem, cada uma se apoderou logo do seu e cahio-lhe em cima, a soval-os ambos que mettia medo.
—Mira-te n'aquelle espelho, tentação do diabo! exclamava uma d'ellas, com o pequeno seguro entre as pernas e a encher-lhe a bunda de chinelladas. Não era aquelle que devia ir, eras tu, peste! aquelle, coitado! ao menos ajudava a mãe, ganhava dois mil reis por mez regando as plantas do Commendador, e tu, coisa ruim, só serves para me dar consumições! Toma! Toma! Toma!
E o chinello cantava entre o berreiro feroz dos dois rapazes.
João Romão chegou ao terraço de sua casa, ainda em mangas de camisa, e de lá mesmo tomou conhecimento do que acontecera. Contra todos os seus habitos impressionou-se com a morte de Agostinho; lamentou-a no intimo, tomado de estranhas condolencias.
—Pobre pequeno! tão novo ... tão esperto ... e cuja vida não prejudicava a ninguem, morrer assim, desastradamente!... ao passo que aquelle diabo velho da Bertoleza continuava agarrado á existencia, envenenando-lhe a felicidade, sem se decidir a despachar o beco!
E o demonio da crioula parecia mesmo não estar disposta a ir só com duas razões; apezar de triste e acabrunhada, mostrava-se forte e rija. Suas pernas curtas e lustrosas eram duas peças de ferro unidas pela culatra, das quaes ella trazia um par de balas penduradas em sacco contra o peito; as roscas lustrosas do seu cachaço lembravam grossos chouriços de sangue, e na sua carapinha compacta ainda não havia um fio branco. Aquillo, arre! tinha vida para o rosto do seculo!
—Mas deixa estar, que eu te despacho bonito e asseiado!... disse o vendeiro de si para si, voltando ao quarto para acabar de vestir-se.
Enfiava o collete quando bateram pancadas familiares na porta do corredor.
—Então?! Ainda se está em val de lençóes?...
Era a voz do Botelho.
O vendeiro foi abrir e fel-o entrar ali mesmo para a alcova.
—Ponha-se a gosto. Como vai você?
—Assim. Não tenho passado lá essas coisas...
João Romão deu-lhe noticia da morte do Agostinho e declarou que estava com dôr de cabeça. Não sabia que diabo tinha elle aquella noite, que não houve meio de pegar direito no somno.
—Calor ... explicou o outro. E proseguio depois de uma pausa, accendendo um cigarro: Pois eu vinha cá fallar-lhe... Você não repare, mas...
João Romão suppoz que o parasita ia pedir-lhe dinheiro e preparou-se para a defeza, queixando-se inopinadamente de que os negocios não lhe corriam bem; mas calou-se, porque Botelho accrescentou com o olhar fito nas unhas:
—Não devia fallar n'isto ... são coisas suas lá particulares, em que a gente não se mette, mas...
O taberneiro comprehendeu logo onde a visita queria chegar e approximou-se d'ella, dizendo confidencialmente:
—Não! Ao contrario! falle com franqueza... Nada de receios...
—É que ... sim, você sabe que eu tenho tratado do seu casamento com a Zulmirinha... Lá em casa não se falla agora n'outra coisa ... até a propria Dona Estella já está muito bem disposta a seu favor ... mas...
—Desembuche, homem de Deus!
—É que ha um pontinho que é preciso pôr a limpo... Coisa insignificante, mas...
—Mas, mas! você não desembuchará por uma vez?... Falle, que diabo!
Um caixeiro do armazem appareceu á porta, prevenindo de que o almoço estava na meza.
—Vamos comer, disse João Romão. Você já almoçou?
—Ainda não, mas lá em casa contam commigo...
O vendeiro mandou o seu empregado dizer lá defronte á familia do Barão que seu Botelho não ia ao almoço. E, sem tomar o casaco, passou com a visita á sala de jantar.
O cheiro activo dos moveis, polidos ainda de fresco, dava ao aposento um caracter insociavel de logar deshabitado e por alugar. Os trastes, tão nús como as paredes, entristeciam com a sua fria nitidez de coisa nova.
—Mas vamos lá! Que temos então?... inquirio o dono da casa, assentando-se á cabeceira da meza, emquanto o outro, junto d'elle, tomava logar á extremidade de um dos lados.
—É que, respondeu o velho em tom de mysterio, você tem cá em sua companhia uma ... uma crioula, que... Eu não creio, note-se, mas...
—Adiante!
—É! Dizem que ella é coisa sua... Lá em casa rosnou!... O Miranda defende-o, affirma que não... Ah! aquillo é uma grande alma! mas Dona Estella, você sabe o que são mulheres!... torce o nariz e... Em uma palavra: receio que esta historia nos traga qualquer embaraço!...
Calou-se, porque acabava de entrar um portuguezinho, trazendo uma travessa de carne ensopada com batatas.
João Romão não respondeu, mesmo depois que o pequeno sahio; ficou abstracto, a bater com a faca entre os dentes.
—Porque você a não manda embora?... arriscou-o Botelho, despejando vinho no seu e no copo do companheiro.
Ainda d'esta vez não obteve logo resposta; mas o outro tomando, afinal, uma resolução, declarou confidencialmente:
—Vou dizer-lhe toda a coisa como ella é ... e talvez que você até me possa auxiliar!...
Olhou para os lados, chegou mais a sua cadeira para junto da de Botelho e accrescentou em voz baixa:—Esta mulher metteu-se commigo, quando eu principiava minha vida... Então, confesso ... precisava de alguem nos casos d'ella, que me ajudasse ... e ajudou-me muito, não nego! Devo-lhe isso! não! ajudar-me ajudou!... mas...
—E depois?
—Depois, ella foi ficando para ahi; foi ficando ... e agora...
—Agora é um trambolho que lhe póde escangalhar a egreginha! É o que é!
—Sim, que duvida! póde ser um obstaculo sério ao meu casamento! Mas, que diabo! eu tambem, você comprehende, não a posso pôr na rua, assim, sem mais aquellas!... Seria ingratidão, não lhe parece?...
—Ella já sabe em que pé está o negocio?...
—Deve desconfiar de alguma coisa, que não é tola!... Eu, cá por mim, não lhe toquei em nada...
—E você ainda faz vida com ella?
—Qual! ha muito tempo que nem sombras d'isso...
—Pois então, meu amigo, é arranjar-lhe uma quitanda em outro bairro; dar-lhe algum dinheiro e... Boa viagem! O dente que já não presta arranca-se fóra!
João Romão ia responder, mas Bertoleza assomou á entrada da sala. Vinha tão transformada e tão livida que só com a sua presença intimidou profundamente os dois. A indignação tirava-lhe faiscas dos olhos e os labios tremiam-lhe de raiva. Logo que fallou veio-lhe espuma aos cantos da bocca.
—Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e me atira á tôa! exclamou ella. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! Quem me comeu a carne tem de roer-me os ossos! Então ha de uma creatura ver entrar anno e sahir anno, a puxar pelo corpo todo o santo dia que Deus manda ao mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, para ao depois ser jogada no meio da rua, como gallinha podre?! Não! Não ha de ser assim, seu João!
—Mas, filha de Deus, quem te disse que eu quero atirar-te á tôa?... perguntou o capitalista.
—Eu escutei o que você conversava, seu João! A mim não me cegam assim só! Você é fino, mas eu tambem sou! Você está armando casamento com a menina de seu Miranda!
—Sim, estou! Um dia havia de cuidar de meu casamento!... Não hei de ficar solteiro toda a vida, que não nasci para pandego! Mas tambem não te sacudo na rua, como disseste; ao contrario agora mesmo tratava aqui com seu Botelho de arranjar-te uma quitanda e...
—Não! Com a quitanda principiei; não hei de ser quitandeira até morrer! Preciso de um descanço! Para isso mourejei junto de você emquanto Deus Nosso Senhor me deu força e saude!
—Mas afinal que diabo queres tu?!
—Ora essa! Quero ficar a seu lado! Quero desfructar o que nós dois ganhámos juntos! quero a minha parte no que fizemos com o nosso trabalho! quero o meu regalo, como você quer o seu!
—Mas não vês que isso é um disparate?... Tu não te conheces?... Eu te estimo, filha; mas por ti farei o que fôr bem entendido e não loucuras! Descança que nada te ha de faltar!... Tinha graça, com effeito, que ficassemos vivendo juntos!... Não sei como não me propões casamento!
—Ah! agora eu não me enxergo! agora eu não presto para nada! Porém, quando você precisou de mim não lhe ficava mal servir-se de meu corpo e aguentar a sua casa com o meu trabalho! Então a negra servia para um tudo; agora não presta para mais nada, e atira-se com ella no monturo do cisco! Não! assim tambem Deus não manda! Pois se aos cães velhos não se enxotam, porque me hão de pôr fóra d'esta casa, em que metti muito suor do meu rosto?... Quer casar, espere então que eu feche primeiro os olhos; não seja ingrato!
João Romão perdeu por fim a paciencia e retirou-se da sala, atirando á amante uma palavrada porca.
—Não vale a pena encanzinar-se ... segredou-lhe o Botelho, acompanhando-o até á alcova, onde o vendeiro enterrou com toda a força o chapéu na cabeça e enfiou o paletó com a mão fechada em murro.
—Arre! Não a posso aturar nem mais um instante! Que vá para o diabo que a carregue! em casa é que não me fica!
—Calma, homem de Deus! Calma!
—Se não quizer ir por bem, irá por mal! Sou eu quem o diz!
E o vendeiro esfuziou pela escada, levando atraz de si o velhote, que mal podia acompanhal-o na carreira. Já na esquina da rua parou e, fitando no outro o seu olhar flammejante, perguntou-lhe:
—Você vio?!
—É ... resmungou o parasita, de cabeça baixa, sem interromper os passos.
E seguiram em silencio, andando agora mais de vagar; ambos preoccupados.
No fim de uma boa pausa, Botelho perguntou se Bertoleza era escrava quando João Romão tomou conta d'ella.
Esta pergunta trouxe uma inspiração ao vendeiro. Ia pensando em mettel-a como idiota no Hospicio de Pedro II, mas accudia-lhe agora coisa muito melhor: entregal-a ao seu senhor, restituil-a legalmente á escravidão.
Não seria difficil ... considerou elle; era só procurar o dono da escrava, dizer lhe onde esta se achava refugiada e aquelle ir logo buscal-a com a policia.
E respondeu ao Botelho:
—Era e é!
—Ah! Ella é escrava? De quem?
—De um tal Freitas de Mello. O primeiro nome não sei. Gente de fóra. Em casa tenho as notas.
—Ora! então a coisa é simples!... Mande-a para o dono!
—E se ella não quizer ir?...
—Como não?! A policia a obrigará! É boa!
—Ella ha de querer comprar a liberdade...
—Pois que a compre, se o dono consentir!... Você com isso nada mais tem que ver! E se ella voltar á sua procura, despache-a logo; se insistir, vá então á autoridade e queixe-se! Ah, meu caro, estas coisas, para ser bem feitas, fazem-se assim ou não se fazem! Olhe que aquelle modo com que ella lhe fallou ha pouco é o bastante para você ver que semelhante estupor não lhe convém dentro de casa nem mais um instante! Digo-lhe até: já não só pelo facto do casamento, mas por tudo! Não seja molle!
João Romão escutava, caminhando calado, sem mais vislumbres de agitação. Tinham chegado á praia.
—Você quer encarregar-se d'isto? propoz elle ao companheiro, parando ambos á espera do bonde; se quizer, póde tratar, que lhe darei uma gratificação menos má...
—De quanto?...
—Cem mil reis!
—Não! dobre!
—Terá os duzentos!
—Está dito! Eu cá, para tudo que fôr pôr cobro a relachamentos de negro, estou sempre prompto!
—Pois então logo mais á tarde lhe darei, ao certo, o nome do dono, o logar em que elle residia quando ella veio para mim e o mais que encontrar a respeito.
—E o resto fica a meu cuidado! Póde dal-a por despachada!
XXII
Desde esse dia Bertoleza fez-se ainda mais concentrada e resmungona e só trocava com o amigo um ou outro monosyllabo inevitavel no serviço da casa. Entre os dois havia agora d'esses olhares de desconfiança, que são abysmos de constrangimento entre pessoas que moram juntas. A infeliz vivia n'um sobresalto constante; cheia de apprehensões, com medos de ser assassinada; só comia do que ella propria preparava para si e não dormia senão depois de fechar-se á chave. Á noite o mais ligeiro rumor a punha de pé; olhos arregalados, respiração convulsa, bocca aberta e prompta para pedir soccorro ao primeiro assalto.
No emtanto, em redor do seu desassocego e do seu máo estar, tudo ali prosperava forte em grosso, aos contos de reis, com a mesma febre com que d'antes, em torno da sua actividade de escrava trabalhadeira, os vintens choviam dentro da gaveta da venda. Durante o dia paravam agora em frente do armazem carroças e carroças com fardos e caixas, trazidas da alfandega, em que se liam as iniciaes de João Romão; e rodavam-se pipas e mais pipas de vinho e de vinagre, e grandes partidas de barricas de cerveja e de barris de manteiga e de saccos de pimenta. E o armazem, com as suas portas escancaradas sobre o publico, engolia tudo de um trago, para depois ir deixando sahir de novo, aos poucos com um lucro lindissimo, que no fim do anno causava assombros. João Romão fizera-se o fornecedor de todas as tabernas e armarinhos de Botafogo; o pequeno commercio sortia-se lá para vender a retalho. A sua casa tinha agora, um pessoal complicado de primeiros, segundos e terceiros caixeiros, além do guarda livros, do comprador, do despachante e do caixa; do seu escriptorio sahiam correspondencias em varias linguas e, por dentro das grades de madeira polida, onde havia um bufete sempre servido com presunto, queijo e cerveja, faziam-se largos contractos commerciaes, transacções em que se arriscavam fortunas; e propunham-se negociações de emprezas e privilegios obtidos do governo; e realisavam-se vendas e compras de papeis; e concluiam-se emprestimos de juros fortes sobre hypothecas de grande valor. E ali ia de tudo: o alto e o baixo negociante; capitalistas adulados e mercadores fallidos; corredores da praça, zangões, cambistas; empregados publicos, que passavam procuração contra o seu ordenado; emprezarios de theatro e fundadores de jornaes, em apuros de dinheiro; viuvas, que negociavam o seu monte pio; estudantes, que iam receber a sua mezada; e capatazes de vários grupos de trabalhadores pagos pela casa; e, destacando-se de todos, pela quantidade, os advogados e a gente miuda do fôro, sempre inquieta, farisqueira, a metter o nariz em tudo, feia, a papelada debaixo do braço, a barba por fazer, o cigarro babado e apagado a um canto da bocca.
E, como a casa commercial de João Romão, prosperava igualmente a sua avenida. Já lá se não admittia assim qualquer pé rapado: para entrar era preciso carta de fiança e uma recommendação especial. Os preços dos commodos subiam, e muitos dos antigos hospedes, italianos principalmente, iam, por economia, desertando para o Cabeça de Gato e sendo substituidos por gente mais limpa. Decrescia tambem o numero das lavadeiras, e a maior parte das casinhas eram occupadas agora por pequenas familias de operarios, artistas e praticantes de secretaria. O cortiço aristocratisava-se. Havia um alfaiate logo á entrada, homem sério, de suissas brancas, que cosia na sua machina entre officiaes, ajudado pela mulher, uma lisboeta côr de nabo gorda, velhusca, com um principio de bigode e cavagnac, mas extremamente circumspecta; em seguida um relojoeiro calvo, de oculos, que parecia mumificado atraz da vidraça em que elle, sem mudar de posição, trabalhava, da manhã até á tarde; depois um pintor de tectos e taboletas, que levou a phantasia artistica ao ponto de fazer, a pincel, uma trepadeira em volta da sua porta, onde se viam passaros de varias côres e feitios, muitos compromettedores para o credito profissional do autor; mais adiante installára-se um cigarreiro, que occupava nada menos de tres numeros na estalagem e tinha quatro filhas e dois filhos a fabricarem cigarros, e mais tres operarias que preparavam palha de milho e picavam e desfiavam tabaco. Florinda, mettida agora com um despachante da estrada de ferro, voltára para o São Romão e trazia a sua casinha em muito bonito pé de limpeza e arranjo. Estava ainda de luto pela mãe, a pobre velha Marcianna, que ultimamente havia morrido no hospicio dos doidos. Aos domingos o despachante costumava receber alguns camaradas para jantar, e como a rapariga puxava os feitios da Rita Bahiana, as suas noitadas acabavam sempre em pagode de dansa e cantarola, mas tudo de portas a dentro, que ali já se não admittiam sambas e chinfrinadas ao relento. A Machona quebrára um pouco de genio depois da morte de Agostinho e era agora visitada por um grupo de moços do commercio, entre os quaes havia um pretendente á mão de Nênêm, que se mirrava já de tanto esperar a secco por marido. Alexandre fôra promovido a sargento e empertigava-se ainda mais dentro da sua farda nova, de botões que cegavam; a mulher, sempre indifferentemente fecunda e honesta, parecia criar bolôr na sua molleza humida e tinha um ar triste de cogumelo; era vista com frequencia a dar de mammar a um pequerrucho de poucos mezes, empinando muito a barriga para a frente, pelo habito de andar sempre gravida. A sua comadre Léonie continuava a visital-a de vez em quando, aturdindo a actual pacatez d'aquelle cenobio com as suas roupas gritadoras. Uma occasião em que lá fóra, um sabado á tarde, produzira grande alvoroço entre os decanos da estalagem, porque comsigo levava Pombinha, que se atirára ao mundo e vivia agora em companhia d'ella.
Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois annos de casada já não podia supportar o marido; todavia, a principio, para conservar-se mulher honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espirito, os gostos razos e a sua risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouvio-lhe, resignada, as confidencias banaes nas horas intimas do matrimonio; attendeu-o nas suas exigencias mesquinhas de ciumento que chora; tratou-o com toda a solicitude, quando elle esteve a decidir com uma pneumonite aguda; procurou afinar em tudo com o pobre rapaz: não lhe fallou nunca em coisas que cheirassem a luxo, a arte, a esthetica, a originalidade; escondeu a sua mal educada e natural intuição pelo que é grande, ou bello, ou arrojado, e fingio ligar interesse ao que elle fazia, ao que elle dizia, ao que elle ganhava, ao que elle pensava e ao que elle conseguia com paciencia na sua vida estreita de negociante rotineiro; mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilibrio e a misera escorregou, cahindo nos braços de um bohemio de talento, libertino e poeta, jogador e capoeira. O marido não deu logo pela coisa, mas começou a estranhar a mulher, a desconfiar d'ella e a espreital-a, até que um bello dia, seguindo-a na rua sem ser visto, o desgraçado teve a dura certeza de que era trahido pela esposa, não mais com o poeta libertino, mas com um artista dramatico, que muitas vezes lhe arrancára, a elle, sinceras lagrimas de commoção, declamando no theatro em honra da moral triumphante e estigmatisando o adulterio com a rethorica mais vehemente e indignada.
Ah não poude illudir-se! ... e, a despeito do muito que amava á ingrata, rompeu com ella e entregou-a á mãe, fugindo em seguida para São Paulo. Dona Isabel, que sabia já, não d'esta ultima falcatrua da filha, mas das outras primeiras, que bem a mortificaram, coitada! desfez-se em lagrimas, aconselhou-a a que se arrependesse e mudasse de conducta; em seguida escreveu ao genro, intercedendo por Pombinha, jurando que agora respondia por ella e pedindo-lhe que esquecesse o passado e voltasse para junto de sua mulher. O rapaz não respondeu á carta, e dahi a mezes, Pombinha desappareceu da casa da mãe. Dona Isabel quasi morre de desgosto. Para onde teria ido a filha?... «Onde está? onde não está! Procura d'aqui! procura d'ahi!» Só a descobrio semanas depois; estava morando n'um hotel com Léonie. A serpente vencia afinal. Pombinha foi, pelo seu proprio pé, attrahida, metter-se-lhe na bocca. A pobre mãe chorou a filha como morta; mas, visto que os desgosto não lhe tiraram a vida por uma vez e, como a desgraçada não tinha com que matar a fome, nem forças para trabalhar, aceitou de cabeça baixa o primeiro dinheiro que Pombinha lhe mandou. E, desde então, aceitou sempre, constituindo-se a rapariga no seu unico amparo da velhice e sustentando-a com os ganhos da prostituição. Depois, como n'este mundo uma creatura a tudo se acostuma, Dona Isabel mudou-se para a casa da filha. Mas não apparecia nunca na sala quando havia gente de fóra; escondia-se; e, se algum dos frequentadores de Pombinha a pilhava de improviso, a infeliz, com vergonha de si mesma, fingia-se criada ou dama de companhia. O que mais a desgostava, e o que ella não podia tolerar sem apertos de coração, era ver a pequena endemoninhar-se com champanha depois do jantar e pôr-se a dizer tolices e a estender-se ali mesmo no collo dos homens. Chorava sempre que a via entrar ébria, fóra d'horas, depois de uma orgia; e, de desgosto em desgosto, foi se sentindo enfraquecer e enfermar, até cahir de cama e mudar-se para uma casa de saude, onde afinal morreu.
Agora, as duas cocotes, amigas, inseparaveis, terriveis n'aquella inquebrantavel solidariedade, que fazia d'ellas uma só cobra de duas cabeças dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro. Eram vistas por toda a parte onde houvesse prazer; á tarde, antes do jantar, atravessavam o Catette em carro descoberto, com a Jujú ao lado; á noite, no theatro, em um camarote de bocca, chamavam sobre si os velhos conselheiros desfibrados pela politica e avidos de sensações extremas, ou arrastavam para os gabinetes particulares dos hoteis os sensuaes e gordos fazendeiros de café, que vinham á côrte esbodegar o farto producto das safras do anno, trabalhadas pelos seus escravos. Por cima d'ellas duas passára uma geração inteira de devassos. Pombinha, só com tres mezes de cama franca, fizera-se tão perita no officio como a outra; a sua infeliz intelligencia, nascida e criada no modesto lodo da estalagem, medrou logo admiravelmente na lama forte dos vicios de largo folego; fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos d'aquella vida; seus labios não tocavam em ninguem sem tirar sangue; sabia beber, gotta a gotta, pela bocca do homem mais avarento, todo o dinheiro que a victima pudesse dar de si. Entretanto, lá na Avenida São Romão, era, como a mestra, cada vez mais adorada pelos seus velhos e fieis companheiros de cortiço; quando lá iam, acompanhadas por Jujú, a porta da Augusta ficava, como d'antes, cheia de gente, que as abençoava com o seu estupido sorriso de pobreza hereditaria e humilde. Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jeronymo, a cuja filha, sua protegida predilecta, votava agora, por sua vez, uma sympathia toda especial, identica á que n'outro tempo inspirára ella propria á Léonie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta n'aquella pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.
E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa de Piedade não faltava de todo o pão, porque já ninguem confiava roupa á desgraçada, e nem ella podia dar conta de qualquer trabalho.
Pobre mulher! chegára ao extremo dos extremos. Coitada! já não causava dó, causava repugnancia e nojo. Apagaram-se-lhe os ultimos vestigios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria, d'essa embriaguez sombria e morbida que se não dissipa nunca. O seu quarto era mais immundo e o peior de toda a estalagem; homens malvados abusavam d'ella, muitos de uma vez, aproveitando-se da quasi completa inconsciencia da infeliz. Agora, o menor trago de aguardente a punha logo prompta; acordava todas as manhãs apatetada, muito triste, sem animo para viver esse dia, mas era só correr á garrafa e voltavam-lhe as risadas frouxas, de bocca que já se não governa. Um empregado de João Romão, que ultimamente fazia as vezes d'elle na estalagem, por tres vezes a enxotou, e ella, de todas, pedio que lhe dessem alguns dias de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte ao ultimo em que Pombinha appareceu por lá com Léonie e deixou-lhe algum dinheiro, despejaram-lhe os tarecos na rua.
E a misera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no Cabeça de Gato que, á proporção que o São Romão se engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjecto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro regeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalteravel, para sempre, o verdadeiro typo da estalagem fluminense, a legitima, a legendaria; aquella em que ha um samba e um rôlo por noite; aquella em que se matam homens sem a policia descobrir os assassinos; viveiro de larvas sensuaes em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma lama; paraiso de vermes; brejo de lodo quente o fumegante, donde brota a vida brutalmente, como de uma podridão.
XXIII
A porta de uma confeitaria da rua do Ouvidor, João Romão, apurado n'um fato novo de casimira clara, esperava pela familia do Miranda, que n'esse dia andava em compras.
Eram duas horas da tarde e um grande movimento fazia-se ali. O tempo estava magnifico; sentia-se pouco calor. Gente entrava e sahia, a passo frouxo, da casa Pascoal. Lá dentro janotas estacionavam de pé, soprando o fumo dos charutos, á espera que desoccupassem uma das mezinhas de marmore preto; grupos de senhoras, vestidas de seda, faziam lanche com vinho do Porto. Respirava-se um cheiro agradavel de essencias e vinagres aromaticos; havia um rumor quente e garrido, mas bem educado; namorava-se forte, mas com disfarce, furtando-se olhares no complicado encontro dos espelhos; homens bebiam ao balcão e outros conversavam, comendo empadinhas junto ás estufas; algumas pessoas liam já os primeiros jornaes da tarde; serventes, muito atarefados, despachavam compras de doce e biscoitos e faziam sem descançar, pacotes de papel de côr, que os compradores levavam pendurados n'um dedo. Ao fundo, de um dos lados do salão, aviavam-se grandes encommendas de banquetes para essa noite, traziam-se lá de dentro, já promptas, torres e castellos de balas e trouxas d'ovos e imponentes peças de cozinha caprichosamente enfeitadas; criados desciam das prateleiras as enormes baixellas de metal branco, que os companheiros iam embalando em caixões com papel fino picado. Os empregados das secretarias publicas vinham tomar o seu vermuth com siphão; reporteres insinuavam-se por entre os grupos dos jornalistas e dos politicos, com o chapéo á ré, avidos de noticias, uma curiosidade indiscreta nos olhos. João Romão sem deixar a porta, apoiado no seu guarda chuva de cabo de marfim, recebia cumprimentos de quem passava na rua; alguns paravam para lhe fallar. Elle tinha sorrisos e offerecimentos para todos os lados; e consultava o relogio de vez em quando.
Mas a familia do Barão surgio afinal. Zulmira vinha na frente, com um vestido côr de palha justo ao corpo, muito elegante no seu typo de fluminense pallida e nervosa; logo depois Dona Estella, grave, toda de negro, passo firme e ar severo de quem se orgulha das suas virtudes e do bom cumprimento dos seus deveres. O Miranda acompanhava-as, de sobrecasaca, fitinha ao peito, o collarinho até ao queixo, botas de verniz, chapéo alto e bigode cuidadosamente raspado. Ao darem com João Romão, elle sorrio e Zulmira tambem; só Dona Estella conservou inalteravel a sua fria mascara de mulher que não dá verdadeira importancia senão a si mesma.
O ex-taverneiro e futuro visconde foi, todavia, ao encontro d'elles, cheio de solicitude, descobrindo-se desde logo e convidando-os com empenho a que tomassem alguma coisa.
Entraram todos na confeitaria e apoderaram-se da primeira meza que se esvaziou. Um criado acudio logo e João Romão, depois de consultar Dona Estella, pedio sandwichs doces e moscatel de Setubal. Mas Zulmira reclamou sorvete e licor. E só esta fallava; os outros estavam ainda á procura de um assumpto para a conversa; afinal o Miranda que, durante esse tempo considerava o tecto e as paredes, fez algumas considerações sobre as reformas e novos adornos do salão da confeitaria. Dona Estella dirigio, de má, a João Romão varias perguntas sobre a companhia lyrica, o que confundio por tal modo ao pobre homem, que o poz vermelho e o desnorteou de todo. Felizmente, n'esse instante chegava o Botelho e trazia uma noticia: a morte de um sargento no quartel; questão entre inferior e superior. O sargento, insultado por um official do seu batalhão, levantara a mão contra elle, e o official então arrancára da espada e atravessára-o de lado a lado. Estava direito! Ah! elle era rigoroso em pontos de disciplina militar! Um sargento levantar a mão para um official superior!... devia ficar estendido ali mesmo, que duvida!
E faiscavam-lhe os olhos no seu inverterado enthusiasmo por tudo que cheirasse á farda. Vieram logo as anecdotas analogas; o Miranda contou um facto identico que se dera vinte annos atraz e Botelho citou uma enfiada d'elles interminavel.
Quando se levantaram, João Romão deu o braço a Zulmira e o Barão á mulher, e seguiram todos para o largo de São Francisco, lentamente, em andar de passeio, acompanhados pelo parasita. Lá chegados Miranda queria que o visinho acceitasse um logar no seu carro, mas João Romão tinha ainda que fazer na cidade e pedio dispensado obsequio. Botelho tambem ficou; e, mal a carroagem partio, este disse ao ouvido do outro, sem tomar folego:
—O homem vae hoje, sabe? Está tudo combinado!
—Ah! vae? perguntou João Romão com interesse, estacando no meio do largo. Ora graças! Já não é sem tempo!
—Sem tempo! Pois olhe, meu amigo, que tenho suado o topete! Foi uma campanha!
—Ha que tempo já tratamos d'isto!...
—Mas que quer você, se o homem não apparecia?... Estava fóra! Escrevi-lhe varias vezes, como sabe, e só agora consegui pilhal-o. Fui tambem á policia duas vezes e já lá voltei hoje; ficou tudo prompto! mas você deve estar em casa para entregar a crioula quando elles lá se apresentarem ...
—Isso é que seria bom se se pudesse dispensar... Desejava não estar presente...
—Ora essa! Então com quem se entendem elles?.... Não! tenha paciencia! é preciso que você lá esteja!
—Você podia fazer as minhas vezes...
—Peior! Assim não arranjamos nada! Qualquer duvida póde entornar o caldo! E melhor fazer as coisas bem feitas Que diabo lhe custa isto?... Os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da lei, e você a entrega—prompto! Fica livre d'ella para sempre, e d'aqui a dias estoira o champanha do casorio! Hein, não lhe parece?
—Mas...
—Ella ha de choramigar, lazer lamurias e coisas, mas você pôe-se duro e deixe-a seguir lá o seu destino!...
Bolas! não foi você que a fez negra!...
—Pois vamos lá! creio que são horas.
—Que horas são!
—Tres e vinte.
—Vamos indo.
E desceram de novo a rua do Ouvidor até ao ponto dos bondes de Gonçalves Dias.
—O de São Clemente não está agora, observou o velho. Vou tomar um copo d'agoa emquanto o esperamos.
Entraram no botequim do logar e, para conversar assentados, pediram dois calices de cognac.
—Olhe, acrescentou Botelho; você nem precisa dizer palavra ... faça como coisa que não tem nada com isso, comprehende?
—E se o homem quizer os ordenados de todo o tempo em que ella esteve em minha companhia?...
—Como, filho, se você não a alugou das mãos de ninguem?!... Você não sabe lá se a mulher é ou era escrava; tinha-a por livre naturalmente; agora apparece o dono, reclama-a, e você a entrega, porque não quer ficar com o que lhe não pertence! Ella sim, póde pedir o seu saldo de contas; mas para isso você lhe dará qualquer coisa...
—Quanto devo dar-lhe?
—Ahi uns quinhentos mil reis, para fazer a coisa á fidalga.
—Pois dou-lh'os.
—E feito isso—acabou-se! O proprio Miranda vae logo, logo, ter com você! Verá!
Iam fallar ainda, mas o bonde de São Clemente acabava de chegar, assaltado por todos os lados pela gente que o esperava. Os dois só conseguiram logar muito separados um do outro, de sorte que não puderam conversar durante a viagem.
No largo da Carioca uma victoria passou por elles, a todo o trote. Botelho vergou-se logo para traz, procurando os olhos do vendeiro, a rir-se com intenção. Dentro de carro ia Pombinha, coberta de joias, ao lado de Henrique; ambos muito alegres, em pandega. O estudante, agora no seu quarto anno de medicina, vivia á solta com outros da mesma idade e pagava ao Rio de Janeiro o seu tributo de rapazola rico.
Ao chegarem á casa, João Romão pedio ao cumplice que entrasse e levou-o para o seu escriptorio.
—Descance um pouco ... disse-lhe.
—É, se eu soubesse que elles se não demoravam muito, ficava para ajudal-o.
—Talvez só venham depois do jantar, tornou aquelle, assentando-se á carteira.
Um caixeiro approximou-se d'elle respeitosamente e fez-lhe varias perguntas relativas ao serviço do armazem, ao que João Romão respondia por monosyllabos de capitalista; interrogou-o por sua vez e, como não havia novidade, tomou Botelho pelo braço e convidou-o a sahir.
—Fique para jantar. São quatro e meia, segredou-lhe na escada.
Já não era preciso prevenir lá defronte, porque agora o velho parazita comia muitas vezes em casa do visinho.
O jantar correu frio e contrafeito; os dois sentiam-se ligeiramente dominados por um vago sobresalto. João Romão foi pouco além da sôpa e quiz logo a sobremeza.
Tomavam café, quando um empregado subio para dizer que lá em baixo estava um senhor, acompanhado de duas praças, e que desejava fallar ao dono da casa.
—Vou já! respondeu este.
E accrescentou para o Botelho:—São elles!
—Deve ser, confirmou o velho.
—E desceram logo.
—Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, chegando ao armazem.
Um homem alto, com ar de estroina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha de papel.
João Romão, um pouco tremulo, abrio-a defronte dos olhos e leu-a demoradamente. Um silencio formou-se em torno d'elle; os caixeiros pararam em meio do serviço, intimidados por aquella scena em que entrava a policia.
—Está aqui com effeito ... disse afinal o negociante. Pensei que fosse livre...
—É minha escrava, affirmou o outro. Quer entregar-m'a?...
—Mas immediatamente.
—Onde está ella?
—Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar...
O sujeito fez signal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, á frente delles, ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atraz, pallido, com as mãos crusadas nas costas.
Atravessaram o armazem, depois um pequeno corredor que dava para um pateo calçado, e chegaram finalmente á cozinha. Bertoleza, que havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cocaras no chão, escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando vio parar defronte d'ella aquelle grupo sinistro.
Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. N'um relance de grande perigo comprehendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matal-a, restituia-a ao captiveiro.
Seu primeiro impulso foi de fugir, Mal, porém, circumvagou os olhos em torno de si, procurando escapúla, o senhor adiantou-se d'ella e segurou-lhe o hombro.
—É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a seguil-os.—Prendam-na! É escrava minha!
A negra, immovel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para elles, sem pestanejar:
Os policias, vendo que ella se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com impeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguem conseguisse alcançal-a, já de um só golpe certeiro e fundo rasgára o ventre de lado a lado.
E depois emborcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.
João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazem, tapando o rosto com as mãos.
N'esse momento parava á porta da rua uma carruagem. Era uma commissão de abolicionistas que vinham, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de socio benemerito.
Elle mandou que os conduzissem para a sala de visitas.