ALUIZIO AZEVEDO (continued 2)
Reading edition
—Não! Este creio que está vivo...
—O que lhe digo é que aquelle numero 35 tem máo agouro! Eu cá por mim não o queria nem de graça! Foi lá que morreu a Maricas do Farjão!
Tres horas depois, Jeronymo e Piedade achavam-se installados e dispunham-se a comer o almoço, que a mulher preparara o melhor e o mais depressa que poude. Elle contava aviar até á noite uma infinidade de coisas, para poder começar a trabalhar logo no dia seguinte.
Era tão methodico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem.
Jeronymo viéra da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena, tentar a vida no Brazil, na qualidade de colono de um fazendeiro, em cuja fazenda moirejou durante dois annos, sem nunca levantar a cabeça, e donde afinal se retirou de mãos vazias e com grande birra pela lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha que sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com elles no mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações, nem futuro, trabalhando eternamente para outro.
Não quiz. Resolveu abandonar de vez semelhante estupor de vida e atirar-se para a côrte, onde, diziam-lhe patricios, todo o homem bem disposto encontrava furo. E, com effeito, mal chegou, devorado de necessidades e privações, metteu-se a quebrar pedra n'uma pedreira, mediante um miseravel salario. A sua existencia continuava dura e precaria; a mulher já então lavava e engommava, mas com pequena freguezia e mal paga. O que os dois faziam chegava-lhes apenas para não morrer de fome e pagar o quarto da estalagem.
Jeronymo, porém, era perseverante, observador e dotado de certa habilidade. Em poucos mezes se apoderava do seu novo officio e, de quebrador de pedra, passou logo a fazer parallelepipedos; e depois foi se ageitando com o prumo e com a esquadria e metteu-se a fazer lagedos; e finalmente, á força de dedicação pelo serviço, tornou-se tão bom como os melhores trabalhadores de pedreira e a ter salario igual ao d'elles. Dentro de dois annos, distinguia-se tanto entre os companheiros, que o patrão o converteu n'uma especie de contra-mestre e elevou-lhe o ordenado a setenta mil réis.
Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôz assim para a frente; duas outras coisas contribuiram muito para isso: a força de touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade do seu caracter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo de viver. Sahia de casa para o serviço e do serviço para a casa, onde nunca ninguem o vira com a mulher senão em boa paz; traziam a filhinha sempre limpa e bem alimentada, e, tanto um como o outro, eram sempre os primeiros á hora do trabalho. Aos domingos iam ás vezes á missa ou, á tarde, ao passeio publico; n'essas occasiões, elle punha uma camisa engommada, calçava sapatos e enfiava um paletó; ella o seu vestido de ver a Deus, os seus oiros trazidos da terra, que nunca tinham ido ao monte de soccorro, máo grado as difficuldades com que os dois lutaram a principio no Brazil.
Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta, forte, bem acommodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando sempre tão boas contas da obrigação, que os seus freguezes de roupa, apezar d'aquella mudança para Botafogo, não a deixaram quasi todos.
Jeronymo, ainda na cidade nova, logo que principiara a ganhar melhor, fizéra-se irmão de uma ordem terceira e tratára de ir pondo alguma coisinha de parte. Metteu a filha num collegio, «que a queria com outro saber que não elle, a quem os paes não mandaram ensinar nada.» Por ultimo, no cortiço em que então moravam, a sua casinha era a mais decente, a mais respeitada e a mais confortavel; porém, com a morte do seu patrão e com uma reforma estupida que os successores d'este realisaram em todo o serviço da pedreira, o colono desgostou-se d'ella e resolveu passar para outra.
Foi então que lhe indicaram a do João Romão, que, depois do desastre do seu melhor empregado, andava justamente á procura de um homem nas condições de Jeronymo.
Tomou conta da direcção de todo o serviço, e em boa hora o fez, porque dia a dia a sua influencia se foi sentindo no progresso do trabalho. Com o seu exemplo os companheiros tornavam-se igualmente serios e zelosos. Elle não admittia relaxamentos, nem podia consentir que um preguiçoso se demorasse ali tomando o logar de quem precisava ganhar o pão. E alterou o pessoal da pedreira, despedio alguns trabalhadores, admittio novos, augmentou o ordenado dos que ficaram, estabelecendo-lhes novas obrigações e reformando tudo para melhor. No fim de dois mezes já o vendeiro esfregava as mãos de contente e via, radiante, quanto lucrara com a acquisição de Jeronymo; tanto assim que estava disposto a augmentar-lhe o ordenado para conserval-o em sua companhia, «Valia a pena! Aquelle homem era um achado precioso! Abençoado fosse o Machucas que lh'o enviára!» E começou a distinguil-o e respeital-o como não fazia a ninguem.
O prestigio e a consideração que Jeronymo gosava entre os moradores da outra estalagem d'onde vinha, foi a pouco e pouco se reproduzindo entre os seus novos companheiros de cortiço. Ao cabo de algum tempo era consultado e ouvido, quando qualquer questão difficil os preoccupava. Descobriam-se defronte d'elle, como defronte de um superior; até o proprio Alexandre abrira uma excepção nos seus habitos e fazia-lhe uma ligeira continencia com a mão no boné, ao atravessar o pateo, todo fardado, por occasião de vir ou de ir para o serviço. Os dois caixeiros da venda, o Domingos e o Manoel, tinham enthusiasmo por elle. «Aquelle é que devia ser o patrão, diziam. É um homem sério e destemido! Com aquelle ninguem brinca!» E, sempre que a Piedade de Jesus ia lá a taverna fazer as suas compras, a fazenda que lhe davam era bem escolhida, bem medida ou bem pezada. Muitas lavadeiras tomavam inveja d'ella, mas Piedade era de natural tão bom e bemfazejo que não dava por isso e a maledicencia murchava antes de amadurecer.
Jeronymo acordava todos os dias ás quatro horas da manhã, fazia antes dos outros a sua lavagem á bica do pateo, soccava-se depois com uma boa palangana de caldo de unto, acompanhada de um pão de quatro; e, em mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os grossos pés sem meias mettidos em um formidavel par de chinellos de couro crú, seguia para a pedreira.
A sua picareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquella ferramenta movida por um pulso de Hercules valia bem os clarins de um regimento tocando alvorada. Ao seu retinir vibrante surgiam do chaos opalino das neblinas vultos côr de cinza, que lá iam, como sombras, galgando a montanha, para cavar na pedra o pão-nosso de cada dia. E, quando o sol desfechava sobre o pincaro da rocha os seus primeiros raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de granito, aquelle misero grupo de obscuros batalhadores.
Jeronymo só voltava á casa ao descahir da tarde, morto de fome e de fadiga. A mulher preparava-lhe sempre para o jantar alguma das comidas da terra d'elles. E ali, n'aquella estreita salinha, socegada e humilde, gosavam os dois, ao lado um do outro, a paz feliz dos simples, o voluptuoso prazer do descanso após um dia inteiro de canceiras ao sol. E, defronte do candieiro de kerosene, conversavam sobre a sua vida e sobre a sua Marianita, a filhinha que estava no collegio e que só os visitava aos domingos e dias santos.
Depois, até ás horas de dormir, que nunca passavam das nove, elle tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher, dedilhar os fados da sua terra. Era n'esses momentos que dava plena expansão ás saudades da patria, com aquellas cantigas melancolicas em que a sua alma de desterrado voava das zonas abrazadas da America para as aldeias tristes da sua infancia.
E o canto d'aquella guitarra estrangeira era um lamento choroso e dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto mar, quando a tempestade agita as negras azas homicidas, e as gaivotas doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos presagos, tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abobada de chumbo.
VI
Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz e pouco calor.
As tinas estavam abandonadas; os córadoiros despidos. Taboleiros e taboleiros de roupa engommada sahiam das casinhas, carregados na maior parte pelos filhos das proprias lavadeiras que se mostravam agora quasi todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de côr. Desprezaram-se os grandes chapéos de palha e os aventaes de aniagem; agora as portuguezas tinham na cabeça um lenço novo de ramagens vistosas e as brazileiras haviam penteado o cabello e pregado nos cachos negros um ramalhete de dois vintens; aquellas traçavam no hombro chales de lã vermelha, e estas de crochet, de um amarello desbotado. Viam-se homens de corpo nú, jogando a placa, com grande algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma arvore, conversava ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam os filhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhe murros, a praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A casa da Machona estava n'um reboliço, porque a familia ia sahir a passeio; a velha gritava, gritava Nênêm, gritava o Agostinho. De muitas outras sahiam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se harmonicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em quando interrompida por um ronco forte de trombone.
Os papagaios pareciam tambem mais alegres com o domingo e lançavam das gaiolas phrases inteiras, entre gargalhadas e assobios. Á porta de diversos commodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornaes ou livros; um declamava em voz alta versos d'«Os Luziadas», com um empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia n'elles o prazer da roupa mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro bom de refogados de carne fresca, fervendo ao fogo. Do sobrado do Miranda só as duas ultimas janellas já estavam abertas e, pela escada que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de agoas servidas. Sentia-se n'aquella quietação do dia inutil a falta do resfolegar afflicto das machinas da visinhança, com que todos estavam habituados. Para além do solitario capinzal do fundo a pedreira parecia dormir em paz o seu somno de pedra; mas, em compensação, o movimento era agora extraordinario á frente da estalagem e á entrada da venda. Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar quem passava; ao lado d'ellas o Albino, vestido de branco, com o seu lenço engommado ao pescoço, entretinha-se a chupar balas de assucar, que comprara ali mesmo ao taboleiro de um baleiro freguez do cortiço.
Dentro da taverna, os martellos de vinho branco, os copos de cerveja nacional e os dois vintens de paraty ou laranginha succediam-se por cima do balcão, passando das mãos do Domingos e do Manoel para as mãos ávidas dos operarios e dos trabalhadores, que os recebiam com estrondosas exclamações de pandega. A Izaura, que fôra n'um pulo tomar o seu primeiro capilé, via-se tonta com os apalpões que lhe davam. Leonor não tinha um instante de socego, saltando de um lado para outro, com uma agilidade de mono, a fugir dos punhos callosos dos cavouqueiros que, entre risadas, tentavam agarral-a; e insistia na sua ameaça do costume: «que se queixava ao juiz de orfe!» mas não se ia embora, porque defronte da venda viera estacionar um homem que tocava cinco instrumentos ao mesmo tempo, com um acompanhamento desafinado de bombo, pratos e guizos.
Eram apenas oito horas e já muita gente comia e palavreava na casa de pasto ao lado da venda. João Romão, de roupa mudada como os outros, mas sempre em mangas de camisa, apparecia de espaço a espaço, servindo os commensaes; e a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panellas e enchendo os pratos.
Um acontecimento, porém, veio revolucionar alegremente toda aquella confederação da estalagem. Foi a chegada da Rita Bahiana, que voltava depois de uma ausencia de mezes, durante a qual só déra noticias suas nas occasiões de pagar o aluguel do commodo.
Vinha acompanhada por um moleque, que trazia na cabeça um enorme samburá carregado de compras feitas no mercado; um grande peixe espiava por entre folhas de alface com o seu olhar embaciado e triste, contrastando com as risonhas côres dos rabanetes, das cenouras e das talhadas de abobora vermelha.
—Põe isso tudo ahi n'essa porta. Ahi no numero 9, pequeno! gritou ella ao moleque, indicando-lhe a sua casa, e depois pagou-lhe o carreto.—Podes ir embora, carapeta!
Desde que do portão a bisparam na rua, levantou-se logo um côro de saudações.
—Olha! quem ahi vem!
—Olé! Bravo! É a Rita Bahiana!
—Já te faziamos morta e enterrada!
—E não é que o demo da mulata está cada vez mais sacudida?...
—Então, coisa ruim! por onde andaste atirando esses quartos?
—D'esta vez a coisa foi de esticar, hein?!
Rita havia parado em meio do pateo.
Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos queriam novas d'ella. Não vinha em trajo de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que lhe deixava ver o pé sem meia n'um chinello de polimento com enfeites de marroquim de diversas côres. No seu farto cabello, crespo e reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um pedaço de baunilha espetado por um gancho. E toda ella respirava o asseio das brazileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromaticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril bahiano, respondia para a direita e para a esquerda, pondo á mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua physionomia com um realce fascinador.
Acudio quasi todo o cortiço para recebel-a. Choveram abraços e as chufas do bom acolhimento.
Por onde andara aquelle diabo, que não apparecia para mais de tres mezes?
—Ora, nem me falles, coração! Sabe? pagode de roça! Que hei de fazer? é a minha cachaça velha!...
—Mas onde estiveste tu enterrada tanto tempo, creatura?
—Em Jacarepaguá.
—Com quem?
—Com o Firmo...
—Oh! Ainda dura isso?
—Cala a bocca! A coisa agora é seria!
—Qual! Quem mesmo? tu? Passa fóra!
—Paixões da Rita! exclamou o Bruno com uma risada. Uma por anno! Não contando as miudas!
—Não! isso é que não! Quando estou com um homem não olho p'ra outro!
Leocadia, que era perdida pela mulata, saltára-lhe ao pescoço ao primeiro encontro, e agora, defronte d'ella, com as mãos nas cadeiras, os olhos humidos de commoção, rindo, sem se fartar de vel-a, fazia-lhe perguntas sobre perguntas:
—Mas porque não te mettes tu logo por uma vez com o Firmo? porque não te casas com elle?
—Casar? protestou a Rita. N'essa não cáe a filha de meu pae! Casar? livra! Para que? para arranjar captiveiro? Um marido é peior que o diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre! Não ha como viver cada um senhor e dono do que é seu!
E sacudio todo o corpo n'um movimento de desdem que lhe era peculiar.
—Olha só que peste! considerou Augusta, rindo, muito molle, na sua honestidade preguiçosa.
Esta tambem achava infinita graça na Rita Bahiana e seria capaz de levar um dia inteiro a vel-a dansar o chorado.
Florinda ajudava á mãe a preparar o almoço, quando lhe cheirou que chegara a mulata, e veio logo correndo, a rir-se desde longe, cahir-lhe nos braços. A propria Marcianna, de seu natural sempre triste e mettida comsigo, appareceu á janella, para saudal-a. A das Dôres, com as saias arrepanhadas no quadril e uma toalha por cima amarrada pela parte de traz e servindo de avental, o cabello ainda por pentear, mas entrouxado no alto da cabeça, abandonou a limpeza que fazia em casa e veio ter com a Rita, para dar-lhe uma palmada e gritar-lhe no nariz:
—D'esta vez tomaste um fartão, hein, mulata assanhada?...
E, ambas a cahirem de riso, abraçaram-se em intimidade de amigas, que não têm segredos de amor uma para a outra.
A Bruxa veio em silencio apertar a mão de Rita e retirou-se logo.
—Olha a feiticeira! bradou esta ultima, batendo no hombro da idiota. Que diabo você tanto reza, tia Paula? Eu quero que você me dê um feitiço para prender meu homem!
E tinha uma phrase para cada um que se aproximasse. Ao ver Dona Isabel, que appareceu toda cerimoniosa na sua saia da missa e com o seu velho chale de Macáo, abraçou-a e pedio-lhe uma pitada, que a senhora recusou, resmungando:
—Sae d'ahi, diabo!
—Cadê Pombinha? perguntou a mulata.
Mas, nessa occasião, Pombinha acabava justamente de sahir de casa, muito bonita e asseiada com um vestido novo de setineta. As mãos occupadas com o livro de rezas, o lenço e a sombrinha.
—Ah! Como está chique! exclamou a Rita, meneando a cabeça. É mesmo uma flor!—E logo que Pombinha se pôz ao seu alcance, abraçou-lhe a cintura e deu-lhe um beijo.—O João Costa se não te fizer feliz como os anjos sou capaz de abrir-lhe o casco com o salto do chinello! Juro pelos cabellos do meu homem!—E depois, tornando-se séria, perguntou muito em voz baixa á Dona Isabel:—Já veio?...—ao que a velha respondeu negativamente com um desconsolado e mudo abanar de orelhas.
O circumspecto Alexandre, sem querer declinar da sua gravidade, pois que estava fardado e prompto para sahir, contentou-se em fazer com a mão um cumprimento á mulata, ao qual retrucou esta com uma continencia militar e uma gargalhada que o desconcertaram.
Iam fazer commentarios sobre o caso, mas a Rita, voltando-se para o outro lado, gritou:
—Olha o velho Liborio! Como está cada vez mais duro!... Não se entrega por nada o demonio do judeu!
E correu para o lugar, onde estava, aquecendo-se ao bello sol de abril, um octogenário, secco, que parecia mumificado pela idade, a fumar n'um resto de cachimbo, cujo pipo desapparecia na sua bocca já sem labios.
—Ê! ê! fez elle, quando a mulata se approximou.
—Então? perguntou Rita, abaixando-se para tocar-lhe no hombro. Quando é o nosso negocio?... Mas você ha de deixar-me primeiro abrir o bahuzinho de folha!...
Liborio rio-se com as gengivas, tentando apalpar as coxas da Bahiana, por caçoada, affectando luxuria.
Todos acharam graça n'esta pantominice do velhinho, e então, a mulata, para completar a brincadeira, deu uma volta entufando as saias e sacudio-as depois sobre a cabeça d'elle, que se fingio indignado, a fungar exageradamente.
E entre a alegria levantada pela sua reapparição no cortiço, a Rita deu conta do que pintára na sua ausencia; disse o muito que festou em Jacarepaguá; o entrudo que fizera pelo Carnaval. Tres mezes de folia! E, afinal, abaixando a voz, segredou ás companheiras que á noite teriam um pagodinho de violão. Podiam contar como certo!
Esta ultima noticia causou verdadeiro jubilo no auditorio. As patuscadas da Rita Bahiana eram sempre as melhores da estalagem. Ninguem como o diabo da mulata para armar uma funcção que ia pelas tantas da madrugada, sem saber a gente como foi que a noite se passou tão depressa. Além de que «era aquella franqueza! emquanto houvesse dinheiro ou credito, ninguem morria com a tripa murcha ou com a guéla secca!»
—Diz me cá, ó Leocadinha! quem são aquelles jururús que estão agora no 35? indagou ella, vendo o Jeronymo á porta de casa com a mulher.
—Ah! explicou a interrogada, é o Jeronymo e mais a Piedade, um casal que inda não conheces. Entrou ao depois que arribaste. Boa gente, coitados!
Rita carregou para dentro de seu commodo as provisões que trouxera; abrio logo a janella e poz-se a cantar. Sua presença enchia de alegria a estalagem toda.
O Firmo, o mulato com quem ella agora vivia mettida, o demonio que a desencabeçara para aquella maluqueira de Jacarepaguá, ia lá jantar esse dia com um amigo. Rita declarava isto ás companheiras, amolando uma faquinha no tijollo da sua porta, para escamar o peixe; emquanto os gatos, aquelles mesmos que perseguiam o sardinheiro, vinham, um a um, chegando-se todos só com o ruido da afiação do ferro.
Ao lado direito da casinha da mulata, no numero 8, a das Dores preparava-se tambem para receber n'esse dia o seu amigo e dispunha-se a fazer uma limpeza geral nas paredes, nos tectos, no chão e nos moveis, antes de metter-se na cozinha. Descalça, com a saia levantada até ao joelho, uma toalha na cabeça, os braços arregaçados, viam-na passar de carreira, de casa para a bica e da bica outra vez para casa, carregando pezados baldes cheios d'agoa. E d'ahi a pouco appareciam ajudantes gratuitos para os arranjos do jantar, tanto do lado da das Dores, como do lado da Rita Bahiana. O Albino encarregou-se de varrer e arrumar a casa d'esta, entretanto que a mulata ia para o fogão preparar os seus quitutes do norte. E veio a Florinda, e veio a Leocadia, e veio a Augusta, impacientes todas ellas pelo pagode que havia de sahir á noite, depois do jantar. Pombinha não appareceu durante o dia, porque estava muito occupada, aviando a correspondencia dos trabalhadores e das lavadeiras: serviço este que ella deixava para os domingos.
N'uma pequena mesa, coberta por um pedaço de chita, com o tinteiro ao lado da caixinha de papel, a menina escrevia, emquanto o dono ou dona da carta dictava em voz alta o que queria mandar dizer á familia ou a algum máo devedor de roupa lavada. E ia lançando tudo no papel, apenas com algumas ligeiras modificações, para melhor, no modo de exprimir a idéa. Prompta uma carta, subscriptava-a, entregava-a ao dono e chamava por outro, ficando a sós com um de cada vez, pois que nenhum d'elles queria dar o seu recado em presença de mais ninguem senão de Pombinha. De sorte que a pobre rapariga ia accumulando no seu coração de donzella toda a summula d'aquellas paixões e d'aquelles resentimentos, ás vezes mais fetidos do que a evaporação de um lameiro em dias de grande calor.
—Escreva lá, Nhan Pombinha! disse junto d'ella um cavouqueiro, coçando a cabeça; mas faça letra grande, que é pr'a mulher entender! Diga-lhe que não lhe mando d'esta feita o dinheiro que me pedio, porque agora não no tenho e estou muito acossado de apertos; mas que lh'o prometto pr'o mez. Ella que se va arrajando por lá, que eu cá sabe Deus como me coso; e que, se o Luiz, o irmão, resolver de vir, que m'o mande dizer com tempo, para ver se se lhe dá furo á vida por aqui; que isto de vir sem inda ter pr'onde, é fraco negocio, porque as coisas por cá não correm lá para que digamos!
E depois que Pombinha escreveu, accrescentou:
—Que eu tenho sentido muito a sua falta d'ella; mas tambem sou o mesmo e não me metto em porcarias e relaxamentos; e que tenciono mandar buscal-a, logo que Deus me ajude, e a Virgem! Que elle não tem de que se arreliar por mór do dinheiro não ir d'esta; que, como lá diz o outro: quando não ha el-rei o perde! Ah! (ia esquecendo!) quanto á Libania, é tirar d'ahi o juizo! que a Libania se atirou aos cães e faz hoje má vida na rua de São Jorge; que se esqueça d'ella por vez e perca o amor ás duas coroas que lhe emprestou!
E a menina escrevia tudo, tudo, apenas interrompendo o seu trabalho para fitar, com a mão no queixo, o cavouqueiro, á espera de nova phrase.
VII
E assim ia correndo o domingo no cortiço até ás tres da tarde, horas em que chegou mestre Firmo, acompanhado pelo seu amigo Porfiro, trazendo aquelle o violão e o outro o cavaquinho.
Firmo, o actual amante de Rita Bahiana, era um mulato pachola, delgado de corpo e agil como um cabrito; capadocio de marca, pernostico, só de maçadas, e todo elle se quebrando nos seus movimentos de capoeira. Teria seus trinta e tantos annos, mas não parecia ter mais de vinte e poucos. Pernas e braços finos, pescoço estreito, porém forte; não tinha musculos, tinha nervos. A respeito de barba, nada mais que um bigodinho crespo, petulante, onde reluzia cheirosa a brilhantina do barbeiro; grande cabelleira encaracolada, negra e bem negra, dividida ao meio da cabeça, escondendo parte da testa e estufando em grande gaforina por debaixo da aba do chapéo de palha, que elle punha de banda, derreado sobre a orelha esquerda.
Vestia, como de costume, um paletó de lustrina preta já bastante usado, calças apertadas nos joelhos, mas tão largas na bainha que lhe enguliam os pésinhos seccos e ligeiros. Não trazia gravata, nem collete, sim uma camisa de chita nova e ao pescoço, resguardando o collarinho, um lenço alvo e perfumado; á bocca um enorme charuto de dois vintens e na mão um grosso porrete de Petropolis, que nunca socegava, tantas voltas lhe dava elle a um tempo por entre os dedos magros e nervosos.
Era official de torneiro, official perito e vadio; ganhava uma semana para gastar n'um dia; ás vezes porém os dados ou a roleta multiplicavam-lhe o dinheiro, e então elle fazia como n'aquelles ultimos tres mezes; afogava-se n'uma boa pandega com a Rita Bahiana. A Rita ou outra «O que não faltava por ahi eram saias para ajudar um homem a cuspir o cobre na bocca do diabo!» Nascera no Rio de Janeiro, na Côrte; militara dos doze aos vinte annos em diversas maltas de capoeiras; chegára a decidir eleições nos tempos do voto indirecto. Deixou nome em varias freguezias e mereceu abraços, presentes e palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a isso a sua época de paixão politica; mas depois desgostou-se com o systema de governo e renunciou ás lutas eleitoraes, pois não conseguira nunca o logar de continuo n'uma repartição publica—o seu ideal!—Setenta mil reis mensaes; trabalho das nove ás tres.
Aquella amigação com a Rita Bahiana era uma coisa muito complicada e vinha de longe; vinha do tempo em que ella ainda estava chegadinha de fresco da Bahia, em companhia da mãe, uma cafusa dura, capaz de arrancar as tripas ao Manduca da Praia. A cafusa morreu e o Firmo tomou conta da mulata; mas pouco depois se separaram por ciumes, o que aliás não impedio que se tornassem a unir mais tarde, e que de novo brigassem e de novo se procurassem. Elle tinha «paixa» pela Rita, e ella, apezar de voluvel como toda a mestiça, não podia esquecel-o por uma vez; mettia-se com outros, é certo, de quando em quando, e o Firmo então pintava o caneco, dava por páos e por pedras, enchia-a de bofetadas, mas, afinal, ia procural-a, ou ella a elle, e ferravam-se de novo, cada vez mais ardentes, como se aquellas turras constantes reforçassem o combustivel dos seus amores.
O amigo que Firmo trazia aquelle domingo em sua companhia, o Porfiro, era mais velho do que elle e mais escuro. Tinha o cabello encarapinhado. Typographo. Afinavam-se muito os dois typos com as suas calças de bocca larga e com os seus chapéos ao lado; mas o Porfiro tinha outra linha: não dispensava a sua gravata de côr saltando em laço frouxo sobre o peito da camisa; fazia questão da sua bengalinha com cabeça de prata e da sua piteira de ambar e espuma, em que elle equilibrava um cigarro de palha.
Desde a entrada dos dois, a casa da Rita esquentou. Ambos tiraram os paletós e mandaram vir Paraty, «a abrideira pr'a muqueca Bahiana.» E não tardou que se ouvissem gemer o cavaquinho e o violão.
Ao lado chegava tambem o homem da das Dôres, com um companheiro do commercio; vinham vestidos de fraque e chapéo alto. A Machona, Nênêm e o Agostinho, já de volta do seu passeio á cidade, lá estavam ajudando. Ficariam para o regabofe.
Um rumor quente, do dia de festa, ia-se formando n'aquelle ponto da estalagem.
Tanto n'uma casa, como na outra, o jantar seria ás cinco horas. Rita «botou» vestido branco, de cambraia, encanudado a ferro. Leocadia, Augusta, o Bruno, o Alexandre e o Albino jantariam com ella no numero 9; e no numero 8, com a das Dôres, ficariam, além dos parentes d'esta, Dona Isabel, Pombinha, Marcianna e Florinda.
Jeronymo e sua mulher foram convidados para ambas as mezas, mas não acceitaram o convite para nenhuma, dispostos a passar a tarde ao lado um do outro, tranquillamente, como sempre, comendo em boa paz o seu cozido á moda da terra e bebendo o seu quartilho de verde pela mesma infusa.
Entretanto, os dois jantares visinhos principiaram ruidosos logo desde a sôpa e assanharam-se progressivamente.
Meia hora depois vinha das duas casas uma algazarra infernal. Fallavam e riam todos ao mesmo tempo; tilintavam os talheres e os copos. Cá de fóra sentia-se perfeitamente o prazer que aquella gente punha em comer e beber á farta, com a bocca cheia, os beiços envernisados de molho gordo. Alguns cães rosnavam á porta, roendo os ossos que traziam lá de dentro. De vez em quando, da janella de uma das casas apparecia uma das moradoras, chamando a visinha, para entregar um prato cheio, permutando as duas entre si os quitutes e as petisqueiras em que eram mais peritas.
—Olha! gritava a das Dôres para o numero 9, diz á Rita que prove d'esse zôrô, pr'a ver que tal o acha, e que o vatapá estava muito gostoso! Se ella tem pimentas, que me mande algumas!
Do meio para o fim do jantar o barulho em ambas as casas era medonho. No numero 8 berravam-se brindes e cantos desafinados. O portuguez amigo da das Dôres, já desengravatado e com os braços á mostra, vermelho, lustroso de suor, intumescido de vinho virgem e leitão de forno, repotreava-se na sua cadeira, a rir forte, sem calar a bocca, com a camisa a espipar-lhe pela braguilha aberta. O sujeito que o accompanhára fazia fosquinhas a Nênêm, protegido no seu namoro por toda a roda, desde a respeitavel Machona até ao endemoninhado Agostinho, que não ficava quieto um instante, nem deixava socegar a mãe, gritando um contra o outro como dois possessos. Florinda, sempre muito risonha e esperta, divertia-se a valer e, de vez em quando, levantava-se da mesa, para ir de carreira levar lá fora ao numero 12 um prato de comida á sua velha que, á ultima hora, vindo-lhe o aborrecimento, resolvêra não ir ao jantar. Á sobremesa o esfogueado amigo da dona da casa exigio que a amante se lhe assentasse nas coxas e dava-lhe beijos em presença de toda a companhia, o que fez com que Dona Isabel, impaciente por afastar a filha d'aquelle inferno, declarasse que sentia muito calor e que ia lá para a porta esperar mais á fresca o café.
Em casa da Rita Bahiana a animação era ainda maior. Firmo e Porfiro faziam o diabo, cantando, trocando bestialogicos, arremedando a falla dos pretos cassanges. Aquelle não largava a cintura da mulata e só bebia no mesmo copo com ella; o outro divertia-se a perseguir o Albino, galanteando-o affectadamente, para fazer rir á sociedade. O lavadeiro indignava-se, dava o cavaco. Leocadia, a quem o vinho produzia delirios de hilaridade, torcia-se em gargalhadas, tão fortes e sacudidas que desconjuntavam a cadeira em que ella estava; e, muito lubrificada pela bebedeira, punha os pezados pés sobre os de Porfiro, roçando as pernas contra as d'elle e deixando-se apalpar pelo capadocio. O Bruno, defronte d'ella, rubro e suado como se estivesse a trabalhar na forja, fallava e gesticulava sem se levantar, praguejando ninguem sabia contra quem. O Alexandre, á paizana, assentado ao lado da mulher, conservava quasi toda a sua seriedade e pedia que não fizessem tanto barulho porque podiam ouvir da rua. E notou, em voz mysteriosa, que o Miranda tinha vindo já espiar por varias vezes da janella do sobrado.
—Que espie as vezes que quizer! bradou a Rita. Pois então a gente não é senhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os amigos que entender?... Que vá pr'o diabo que o lixe! Eu não como nem bebo do que é d'elle!
Os dois mulatos e o Bruno tambem eram da mesma opinião. «Pois então! Desde que se não offendia, nem prejudicava a safardana nenhum com aquelle divertimento, não havia de que fallar!»
—E que não entiquem muito, ameaçou o Firmo, que commigo é nove! E o trunfo é páos!
O Porfiro exclamou:
—Se se incommodam com a gente ... os incommodados são os que se mudam! Ora pistolas!
—O domingo fez-se pr'a gosar!... resmungou o Bruno, deixando cahir a cabeça nos braços crusados sobre a mesa.
Mas ergueu-se logo, cambaleando, e acrescentou, despindo o braço direito até ao hombro:—Elles que se façam finos, que os racho!
O Alexandre procurou acalmal-o, dando-lhe um charuto.
Em uma outra casinha do cortiço acabava de estalar uma nova sobremesa, engrossando o barulho geral: era o jantar de um grupo de italianos mascates, onde o Delporto, o Pompêo, o Francesco e o Andréa representavam as principaes figuras. Todos elles cantavam em coro, mais afinados que nas outras duas casas; quasi, porém, que se lhes não podiam ouvir as vozes, tantas e tão estrondosas eram as pragas que soltavam ao mesmo tempo. De quando em quando, de entre o grosso e macho vozear dos homens, esguichava um falsete feminino, tão estridente que provocava replica aos papagaios e aos perus da visinhança. E, d'aqui e d'ali, iam rebentando novas algazarras em grupos formados cá e lá pela estalagem. Havia nos operarios e nos trabalhadores decidida disposição para pandegar, para aproveitar bem, até ao fim, aquelle dia de folga. A casa de pasto fermentava revolucionada, como um estomago de bebado depois de grande brodio, e arrotava sobre o pateo uma baforada quente e ruidosa que entontecia.
O Miranda appareceu furioso á janella, com o seu typo de commendador, a barriga empinada pr'a frente, de paletó branco, um guardanapo ao pescoço e um trinchante empunhado na destra, como uma espada.
—Vão gritar pr'a o inferno, com um milhão de raios! berrou elle, ameaçando para baixo. Isto tambem já é de mais! Se não se calam, vou d'aqui direito chamar a policia! Sucia de brutos!
Com os berros do Miranda muita gente chegou á porta de casa, e o côro de gargalhadas, que ninguem podia conter n'aquelle momento de alegria, ainda mais o pôz fóra de si.
—Ah, canalhas! O que eu devia fazer era atirar-lhes d'aqui, como a cães damnados!
Uma vaia unisona echoou em todo o pateo da estalagem, emquanto em volta do negociante surgiam varias pessoas, puxando-o para dentro de casa.
—Que é isso, Miranda! Então! Estás agora a dar palha?...
—O que elles querem é que encordôes!...
—Saia d'ahi, papáe!
—Olhe alguma pedrada, esta gente é capaz de tudo!
E via-se de relance Dona Estella, com a sua pallidez de flôr meio fanada, e Zulmira, livida, um ar de fastio a fazel-a feia, e o Henriquinho, cada vez mais bonito, e o velho Botelho, indifferente, a olhar para toda esta porcaria do mundo com o profundo desprezo dos que já não esperam nada dos outros, nem de si proprio.
—Canalhas! repisava o Miranda.
O Alexandre, que fôra de carreira enfiar a sua farda, apresentou-se então e disse ao negociante que não era prudente atirar insultos cá pr'a baixo. Ninguem o tinha provocado! Se os moradores da estalagem jantavam em companhia de amigos, lá em cima o Miranda tambem estava comendo com os seus convidados! Era máo insultar, porque palavra puxa palavra, e, em caso de ter de depor na policia, elle, Alexandre, deporia a favor de quem tivesse razão!...
—Fomente-se! respondeu o negociante, voltando-lhe as costas.
Já se vio chubregas mais atrevido?! exclamou Firmo, que até ahi estivera calado, á porta da Rita, com as mãos nas cadeiras, a fitar provocadoramente o Miranda.
E gritando mais alto, para ser bem ouvido:—Facilita muito, meu boi manso, que te escorvo os galhos na primeira occasião!
O Miranda foi arrancado com violencia da janella, e esta fechada logo em seguida com estrondo.
—Deixa lá esse labrego! resmungou Porfiro, tomando o amigo pelo braço e fazendo-o recolher-se á casa da mulata. Vamos ao café, é o que é, antes que esfrie!
Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos moradores do cortiço, jornaleiros de baixo salario, pobre gente miseravel, que mal podia matar a fome com o que ganhava. Ainda assim não havia entre elles um só triste. A mulata convidou-os logo a comer um bocado e beber um trago. A proposta foi acceita alegremente.
E a casa d'ella nunca se esvasiava.
Anoitecia já.
O velho Liborio, que jamais ninguem sabia ao certo onde almoçava ou jantava, surgio do seu buraco, que nem jaboti quando vê chuva.
Um typão, o velho Liborio! Occupava o peior canto do cortiço e andava sempre a fariscar os sobejos alheios, filando aqui, filando ali, pedindo a um e a outro, como um mendigo, chorando miserias eternamente, apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o sumitico roubára de um pobre cego decrepito. Na estalagem diziam todavia que Liborio tinha dinheiro aferrolhado, contra o que elle protestava resentido, jurando a sua extrema penuria. E era tão feroz o demonio n'aquella fome de cão sem dono, que as mães recommendavam ás suas crianças todo o cuidado com elle, porque o diabo do velho, quando via algum pequeno desacompanhado, punha-se logo a rondal-o, a cercal-o de festas e a fazer-lhe ratices para o engabelar, até conseguir furtar-lhe o doce ou o vintemzinho que o pobrezito trazia fechado na mão.
Rita fel-o entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição de que o esfomeado não se soccasse demais, para não rebentar ali mesmo.
Se queria estoirar, fosse estoirar para longe!
Elle pôz-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os lados, como se temesse que alguem lhe roubasse a comida da boca. Engolia sem mastigar, empurrando os bocados com o dedo, agarrando-se ao prato e escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez metter para dentro do corpo.
Causava terror aquella sua implacavel mandibula, assanhada e devoradora; aquelle enorme queixo, avido, ossudo e sem um dente, que parecia ir engolir tudo, tudo, principiando pela propria cara, desde a immensa batata vermelha e grelada, que ameaçava já entrar-lhe na boca, até as duas bochechinhas engelhadas, os olhos, as orelhas, a cabeça inteira, inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida em redor por uns pellos puídos e ralos como farripas de côco.
Firmo propoz embebedal-o, só para ver a sorte que elle daria. O Alexandre e a mulher oppuzeram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar de rir, apezar do espanto, vendo aquelle resto de gente, aquelle esqueleto velho, coberto por uma pelle secca, a devorar, a devorar sem tregoas, como se quizesse fazer provisão para uma outra vida.
De repente, um pedaço de carne, grande de mais para ser ingerido de uma vez, engasgou-o sériamente. Liborio começou a tossir, afflicto, com os olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apopletica. A Leocadia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas costas.
O glutão arrevessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio triturado.
Foi um nojo geral.
—Porco! gritou Rita, arredando-se.
—Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. Parece que nunca vio comida, este animal!
E notando que elle continuava ainda mais sofrego por ter perdido um instante:—Espera um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Ha muito ahi com que te fartares por uma vez! Com effeito!
—Beba agoa, tio Liborio! aconselhou Augusta.
E, boa, foi buscar um copo d'agoa e levou-lh'o á boca.
O velho bebeu, sem despregar os olhos do prato.
—Arre diabo! resmungou Porfiro, cuspindo para o lado. Este é mesmo capaz de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas!
Albino, esse, coitado! é que não comia quasi nada e o pouco que conseguia metter no estomago fazia-lhe mal. Rita, para bulir com elle, disse que semelhante fastio era gravidez com certeza.
—Você já começa, hein?... balbuciou o pobre moço, esgueirando-se com a sua chicara de café.
—Olha, cuidado! gritou-lhe a mulata. Pouco café, que faz mal ao leite, e a criança póde sahir trigueira!
O Albino voltou para dizer muito serio á Rita que não gostava d'essas brincadeiras.
Alexandre, que havia accendido um charuto, depois de offerecer outros, galantemente, aos companheiros, arriscou, para tambem fazer a sua pilheria, que o sonso do Albino fôra pilhado ás voltas com a Bruxa no capinzal dos fundos da estalagem, debaixo das mangueiras.
Só a Leocadia achou graça n'isto e rio a bandeiras despregadas. Albino declarou, quasi chorando, que elle não mexia com pessoa alguma, e que ninguem, por conseguinte, devia mexer com elle.
—Mas afinal, perguntou Porfiro, é mesmo exacto que este pamonha não conhece mulher?...
—Elle é quem póde responder! accudio a mulata. E esta historia vae ficar hoje liquidada! Vamos lá, ó Albino! confessa-nos tudo, ou mal te terás de haver com a gente!
Se eu soubesse que era para isto que me chamaram, não tinha vindo cá, sabe? gaguejou o lavadeiro, amuado. Eu não sirvo de palito!
E ter-se-ia retirado chorando, se a Rita não lhe cortasse a sahida, dizendo, como se fallasse a uma creatura do seu sexo, mais fraca do que ella:
—Ora não sejas tôlo! Deixa-te ficar ahi! Se deres o cavaco é peior!
Albino limpou as lagrimas e foi assentar-se de novo.
Entretanto, a noite fechava-se, refrescando a tarde com o sudoeste. Bruno roncava no logar em que tinha jantado. A Leocadia passára livremente a perna para cima da de Porfiro, que a abraçava, bebendo paraty aos calices.
Mas o Firmo lembrou que seria melhor irem lá para fóra; e todos, menos o Bruno, dispozeram-se a deixar a sala, emquanto o velho Liborio pedia a Alexandre um cigarro para despejar no cachimbo. Servido, o filante desappareceu logo, correndo ao faro de outros jantares. Rita, Augusta e Albino ficaram lavando a louça e arrumando a casa.
Lá fóra o côro dos italianos se prolongava n'uma cadencia monotona e arrastada, em que havia muito pezo de embriaguez. Junto á porta de varias casas faziam-se grupos de pessoas assentadas em cadeiras ou no chão; mas a roda da Rita Bahiana era a maior, porque fóra engrossada pelos convivas da das Dôres. O fumo dos cachimbos e dos charutos elevava-se de toda a parte. Decrescera o ruido geral; fazia-se a digestão; já ninguem discutia e todos conversavam.
Accendeu-se o lampeão do pateo. Illuminaram-se diversas janellas das casinhas.
Agora, no sobrado do Miranda é que era o maior barulho. Sahia de lá uma terrivel gritaria de hippes e burrahs, virgulada pelo desarolhar de garrafas de champanha.
—Como elles atacam!... observou Alexandre, já de novo sem farda.
—E no emtanto reprovam que a gente coma o que é seu com um pouco mais de alegria! commentou a Rita. Uma sucia!
Fallou-se então largamente a respeito da familia do Miranda, principalmente de Dona Estella e do Henrique. A Leocadia afiançou que, uma occasião, espiando por cima do muro, trepada n'um montão de garrafas vazias que havia no pateo do cortiço, vira a sirigaita com a cara agarrada á do estudante, aos beijos e aos abraços, que era obra; e assim que os dois deram fé que ella os espreitava, deitaram a fugir que nem cães apedrejados.
A Augusta Carne-molle benzeu-se, com uma invocação á Virgem Santissima, e o companheiro do amigo da das Dôres, que insistia no seu namoro com a Nênêm, mostrou-se muito admirado com a noticia, «suppunha Dona Estella um modelo de seriedade.»
—Qual! negou Alexandre. Isso por ahi é tudo uma pouca vergonha, que faz descrer um homem de si mesmo!
Eu tambem já vi de uma feita bem boas coisas pela sombra d'ella na parede; mas não era com o estudante, era com um sujeito que lá ia ás vezes, um barbado, careca e comido de bexigas. E a pequena vae pelo mesmo conseguinte...
Esta novidade produzio grande surpreza no grupo inteiro. Quizeram os pormenores e o Alexandre não se fez rogado: o namoro da Zulmira era com um rapazola magro, de lunetas, bigode loiro, bem vestido, que lhe rondava a casa á noite e ás vezes de madrugada. Parecia estudante!
—O que elles tem feito? inquerio a das Dôres.
—Por emquanto a coisa não passa de namorico da janella pr'a rua. Conversam sempre n'aquella ultima do lado de lá de fóra. Já os tenho apreciado quando estou de serviço. Elle falla muito em casamento e a pequena o quer; mas, pelo geito, o velho é que lhe corta as azas.
—Elle não tem entrada na casa?
—Não! Pois isso é que eu acho feio!... Se elle quer casar com a menina, devia entender-se com a familia e não estar agora d'aqui debaixo a fazer-lhe fosquinhas!
—Sim! intrometteu-se o Firmo; mas não vê que aquelle mesmo, o Miranda, vae dar a filha a um estudante! Guarda-a para um dos seus... Quem sabe até se o bruto não tem já de olho por ahi algum cafezista pé de boi!... Eu sei o que é essa gente!
—Por isso é que se vê tanta porcaria por esse mundo de Christo! disse a Augusta. Filha minha só se casará com quem ella bem quizer; que isto de casamentos empurrados á força acabam sempre desgraçando tanto a mulher como o homem! Meu marido é pobre e é de côr, mas eu sou feliz, porque casei por meu gosto!
—Ora! Mais vale um gosto que quatro vintens!
N'isto começou a gemer á porta do 35 uma guitarra; era de Jeronymo. Depois da ruidosa alegria e do bom humor, em que palpitara áquella tarde toda a republica do cortiço, ella parecia ainda mais triste e mais saudosa do que nunca.
«Minha vida tem desgostos, Que só eu sei comprender... Quando me lembro da terra Parece que vou morrer...»
E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. E, por fim, a monotona cantiga dos portuguezes enchia de uma alma desconsolada o vasto arraial da estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade que vinha lá de cima, do sobrado do Miranda.
«Terra minha, que te adoro, Quando é que eu te torno a ver? Leva-me d'este desterro; Basta já de padecer.»
Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostalgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e cahindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado bahiano. Nada mais que os primeiros accordes da musica crioula para que o sangue de toda aquella gente despertasse logo, como se alguem lhe fustigasse o corpo com ortigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lubricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras n'uma floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenezi de amor; musica feita de beijos e soluços gostosos; caricia de fera, caricia de doer, fazendo estalar de goso.
E aquella musica de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas brasileiras, em torno das quaes se nutrem, girando, moscardos sensuaes e besoiros venenosos, freneticamente, bebedos do delicioso perfume que os mata de volupia.
E á viva crepitação da musica bahiana calaram-se as melancolicas toadas dos de além-mar. Assim á refulgente luz dos tropicos amortece a fresca e doce claridade dos céos da Europa, como se o proprio sol americano, vermelho e esbrazeado, viesse, na sua luxuria de sultão, beber a lagrima medrosa da decahida rainha dos mares velhos.
Jeronymo alheiou-se da sua guitarra e ficou com as mãos esquecidas sobre as cordas, todo attento para aquella musica estranha, que vinha dentro d'elle continuar uma revolução começada desde a primeira vez em que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz d'este sol orgulhoso e selvagem, e lhe cantou no ouvido o estribilho da primeira cigarra, e lhe acidulou a garganta o succo da primeira fructa provada n'estas terras de braza, e lhe entonteceu a alma o aroma do primeiro bogary, e lhe transtornou o sangue o cheiro animal da primeira mulher, da primeira mestiça, que junto d'elle sacudio as saias e os cabellos.
—Que tens tu, Jeromo?... perguntou-lhe a companheira, estranhando-o.
—Espera, respondeu elle, em voz baixa; deixa ouvir!
Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por um acompanhamento de palmas.
Jeronymo levantou-se, quasi que machinalmente, e, seguido por Piedade, aproximou-se da grande roda que se formara em torno dos dois mulatos. Ahi, de queixo grudado ás costas das mãos contra uma cerca de jardim, permaneceu, sem tugir nem mugir, entregue de corpo e alma áquella cantiga seductora e voluptuosa que o enleiava e tolhia, como á robusta gameleira brava o cipó flexivel, carinhoso e traiçoeiro.
E vio a Rita Bahiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de hombros e braços nus, para dansar. A lua destoldára-se n'esse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se accentuavam, cheios de uma graça irresistivel, simples, primitiva, feita toda de peccado, toda de paraiso, com muito de serpente e muito de mulher.
Ella saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como n'uma sofreguidão de goso carnal, num requebrado luxurioso que a punha offegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse afundando n'um prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse á vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miudo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, emquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, titillando.
Em torno o enthusiasmo tocava ao delirio; um grito de applausos explodia de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito sabido do sangue. E as palmas insistiam, cadentes, certas, n'um rhythmo nervoso, n'uma persistencia de loucura. E, arrastado por ella, pulou á arena o Firmo, agil, de borracha, a fazer coisas phantasticas com as pernas, a derreter-se todo, a sumir-se no chão, a resurgir inteiro com um pulo, os pés no espaço batendo os calcanhares, os braços a querer fugirem-lhe dos hombros, a cabeça a querer saltar-lhe. E depois, surgio tambem a Florinda, e logo o Albino e até, quem diria! o grave e circumspecto Alexandre.
O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que não sabiam dansar. Mas, ninguem como a Rita; só ella, só aquelle demonio, tinha o magico segredo d'aquelles movimentos de cobra amaldiçoada; aquelles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquella voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e supplicante.
E Jeronymo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos enamorados.
N'aquella mulata estava o grande mysterio, a synthese das impressões que elle recebeu chegando aqui: ella era a luz ardente do meio dia; ella era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas mattas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o assucar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do cajú, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ella era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo d'elle, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as arterias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha d'aquelle amor septentrional, uma nota d'aquella musica feita de gemidos de prazer, uma larva d'aquella nuvem de cantharidas que zumbiam em torno da Rita Bahiana e espalhavam-se pelo ar n'uma phosphorescencia aphrodisiaca.
Isto era o que Jeronymo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. De todas as impressões d'aquelle resto de domingo só lhe ficou no espirito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no calice de flores americanas, d'essas muito alvas, cheirosas e humidas, que elle na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos pantanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade.
E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dansaram, mas o portuguez só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fôra cahir nos braços do amigo. Piedade, a cabecear de somno, chamára-o varias vezes para se recolherem; elle respondeu com um resmungo e não deu pela retirada da mulher.
Passaram-se horas, e elle tambem não deu pelas horas que fugiram.
O circulo do pagode augmentou: vieram de lá defronte a Izaura e a Leonor; o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina, quizeram dar fé da patuscada um instante antes de cahirem na cama; a familia do Miranda puzera-se á janella, divertindo-se com a gentalha da estalagem; reunira povo lá fóra na rua; mas Jeronymo nada vira de tudo isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espirito: a mulata offegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo.
Só deu por si, quando, já pela madrugada, se callaram de todo os instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu á casa.
E vio a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava pela cintura.
Jeronymo ficou sózinho no meio da estalagem. A lua, agora inteiramente livre das nuvens que a perseguiam, lá ia caminhando em silencio na sua viagem mysteriosa. As janellas do Miranda fecharam-se. A pedreira, ao longe, por detraz da ultima parede do cortiço, erguia-se como um monstro illuminado na sua paz. Uma quietação densa pairava já sobre tudo; só se distinguiam o bruxulear dos pyrilampos na sombra das hortas e dos jardins, e os murmurios das arvores que sonhavam.
Mas Jeronymo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquella musica embalsamada de baunilha, que lhe entontecêra a alma; e comprehendeu perfeitamente que dentro d'elle aquelles cabellos crespos, brillantes e cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e venenosas, que lhe iam devorar o coração.
E, erguendo a cabeça, notou no mesmo céo, que elle nunca vira senão depois de sete horas de somno, que era já quasi occasião de entrar para o seu serviço, e resolveu não dormir, porque valia a pena esperar de pé.
VIII
No dia seguinte, Jeronymo largou o trabalho á hora de almoçar e, em vez de comer lá mesmo na pedreira com os companheiros, foi para casa. Mal tocou no que a mulher lhe apresentou á mesa e metteu-se logo depois na cama, ordenando-lhe que fosse ter com João Romão e lhe dissesse que elle estava incommodado e ficava de descanço aquelle dia.
—Que tens tu Jeromo?...
—Morrinhento, filha. Vae anda!
—Mas sentes-te mal?...
—Ó mulher! vae fazer o que te disse e ao depois então darás á lingoa!
—Valha-me a Virgem! Não sei se haverá chá preto na venda!
E ella sahio, afflicta. Qualquer novidade no marido, por menor que fosse, punha-a doida, «Pois um homem rijo, que nunca cahia doente? Seria a febre amarella?...» Jesus, Santo Filho de Maria, que nem pensar n'isso era bom! Credo!
A noticia espalhou-se logo ali entre as lavadeiras.
—Foi da friage da noite, affirmou a Bruxa; e deu um pulo á casa do trabalhador para receitar.
O doente repellio-a, pedindo-lhe que o deixasse em paz; que elle do que precisava era de dormir. Mas não o conseguio: atraz da Bruxa correu a segunda mulher, e a terceira, e a quarta; e, afinal, fez-se durante muito tempo em sua casa um entrar e sahir de saias. Jeronymo perdeu a paciencia e ia protestar brutalmente contra semelhante invasão, quando, pelo cheiro, sentio que a Rita se approximava tambem.
—Ah!
E desfranzio-se-lhe o rosto.
—Bons dias! Então que é isso, vizinho? Você cahio doente com a minha chegada? Se tal soubéra não vinha!
Elle rio-se. E era a primeira vez que ria desde a vespera.
A mulata aproximou-se da cama.
Como principiara a trabalhar esse dia, tinha as saias apanhadas na cintura e os braços completamente nús e frios da lavagem. O seu casaquinho branco abria-lhe no pescoço, mostrando parte do peito côr de canella.
Jeronymo apertou-lhe a mão.
—Gostei de vel-a hontem dansar, disse, muito mais animado.
—Já tomou algum remedio?...
—A mulher fallou ahi em chá preto...
—Chá! Que asneira! Chá é agoa morna! Isso que você tem é uma resfriagem. Vou lhe fazer uma chicara de café bem forte para você beber com um gole de paraty, e me dirá se súa ou não, e fica depois fino e prompto para outra! Espere ahi!
E sahio logo, deixando todo o quarto impregnado d'ella.
Jeronymo, só com respirar aquelle almiscar, parecia melhor. Quando Piedade tornou, pesada, triste, resmungando comsigo mesma, elle sentio que principiava a enfaral-a; e, quando a infeliz se approximou do marido, este, fora do costume, notou-lhe o cheiro azedo do corpo. Voltou-lhe então o máo-estar e desappareceu o ultimo vestigio do sorriso que elle tivera havia pouco.
—Mas que sentes tu, Jeromo?... Falla, homem! Não me dizes nada! Assim m'assustas... Que tens, diz'lo!
—Não cozas o chá. Vou tomar outra coisa...
—Não queres o chá? Mas é o remedio, filhinho de Deus!
—Já te disse que tomo oitra mezinha. Oh!
Piedade não insistio.
—Queres tu um escalda-pés?...
—Tomal-o tu!
Ella calou-se. Ia a dizer que nunca o vira assim tão aspero e secco, mas receiou importunal-o. «Era naturalmente a molestia que o punha resinguento.»
Jeronymo fechára os olhos, para a não ver, e ter-se-ia, se pudesse, fechado por dentro, para a não sentir. Ella, porém, coitada! fôra assentar-se á beira da cama, humilde e solicita, a suspirar, vivendo n'aquelle instante, pura e exclusivamente, para o seu homem, fazendo-se muito escrava d'elle, sem vontade propria, acompanhando-lhe os menores gestos com o olhar, inquieta, que nem um cão que, ao lado do dono, procura adivinhar-lhe as intenções.
—'Stá bem, filha, não vaes tratar do teu serviço?...
—Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho! Pedi á Leocadia que me esfregasse a roupa. Ella hoje tinha pouco que fazer e...
—Andaste mal...
—Ora! Não ha tres dias que fiz outro tanto por ella... E de mais, não foi que tivesse o homem doente, era a calaçaria do capinzal!
—Bom, bom, filha! não digas mal da vida alheia!... Melhor seria que estivesses á tua tina em vez de ficar ahi a murmurar do proximo... Anda! vae tomar conta das tuas obrigações.
—Mas estou-te a dizer que não ha transtorno!...
—Transtorno já é estar eu parado; e peior será pararem os dois!
—Eu queria ficar a teu lado, Jeromo!...
—E eu acho que isso é tolice! Vae! anda!
Ella ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a Rita, que entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a fumegante palangana de café com paraty e no hombro um cobertor grosso para dar um suadoiro ao doente.
—Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata.
E deixou-se ficar.
Rita, despreoccupadamente, alegre e bemfazeja como sempre, pousou a vasilha sobre a commoda do oratorio e abrio o cobertor.
—Isto é que o vae pôr fino! disse. Vocês tambem, seus portuguezes, por qualquer coisinha ficam logo pr'a morrer, com uma cara da ultima hora! E ai, ai, Jesus, meu Deus! Ora esperte-se! Não me seja maricas!
Elle rio-se, assentando-se na cama.
—Pois não é assim mesmo? perguntou ella á Piedade, apontando para o carão barbado de Jeronymo. Olhe só pr'aquella cara e diga-me se não está a pedir que o enterrem!
A portugueza não dizia nada, sorria contrafeita, no intimo, resentida contra aquella invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu homem. Não era a intelligencia nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instincto, o faro subtil e desconfiado de toda a femea pelas outras, quando sente o seu ninho exposto.
—Está-me a parecer que agora te achas melhor, hein?... desembuchou afinal, procurando o olhar do marido, sem conseguir disfarçar de todo o seu descontentamento.
—Só com o cheiro! reforçou a mulata, apresentando o café ao doente. Beba, ande! beba tudo e abafe-se! Quero, quando voltar logo, encontral-o prompto, ouvio?—E acrescentou fallando á Piedade, em tom mais baixo e pousando-lhe a mão no hombro carnudo:—Elle d'aqui a nada deve estar ensopado de suor; mude-lhe toda a roupa e dê-lhe dois dedos de paraty, logo que peça agua. Cuidado com o vento!
E sahio expedita, agitando as saias, d'onde se evolavam effluvios de mangerona.
Piedade chegou-se então para o cavouqueiro, que já tinha sobre as pernas o cobertor offerecido pela Rita, e, ajudando-o a levar a tigela á bocca, resmungou:
—Deus queira que isto não te vá fazer mal em vez de bem!... Nunca tomas café, nem gostas!...
—Isto não é por gosto, filha, é remedio!
Elle com effeito nunca entrara com o café e ainda menos com a cachaça; mas engolio de uma assentada o conteúdo da tigela, puxando em seguida o cobertor até ás ventas.
A mulher tratou de abafar-lhe bem os pés e foi buscar um chale para lhe cobrir a cabeça.
—Trata de socegar! Não te mexas!
E dispôz-se a ficar junto da cama, a vigial-o, só andando na ponta dos pés, abafando a respiração, correndo a cada instante á porta de casa para pedir que não fizessem tanta bulha lá fóra; toda ella desassocegada, numa afflicção quasi supersticiosa por aquelle incommodo de seu homem. Mas Jeronymo não levou muito que a não chamasse para lhe mudar a roupa. O suor inundava-o.
—Ainda bem! exclamou ella, radiante.
E, depois de fechar hermeticamente a porta do quarto e metter um punhado de roupa suja n'uma fresta que havia n'uma das paredes, saccou-lhe fóra a camisa molhada, enfiando-lhe logo outra pela cabeça; em seguida tirou-lhe as ceroulas e começou, munida de uma toalha, a enxugar-lhe todo o corpo, principiando pelas costas, passando depois ao peito e aos sovacos, descendo logo ás nadegas, ao ventre e ás pernas, e esfregando sempre com tamanho vigor de pulso, que era antes uma maçagem que lhe dava; e tanto assim que o sangue do cavouqueiro se revolucionou.
E a mulher, a rir-se, lisongeada, ralhava:
—Tem juizo! Acommoda-te! Não vês que estás doente?...
Elle não insistio. Agasalhou-se de novo e pedio agua.
Piedade foi buscar o paraty.
—Bebe isto, não bebas a agua agora.
—Isto é cachaça!
—Foi a Rita que disse para te dar...
Jeronymo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos de restillo que havia no copo.
Sobrio como era, e depois d'aquelle despendio de suor, o alcool produzio-lhe logo de prompto o effeito voluptuoso e agradavel da embriaguez nos que não são bebedos: um delicioso desfallecer de todo o corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede á satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ella algum tempo, aproxima-se afinal de nós, n'uma avidez gulosa de beijos. Agora, no conforto da sua cama, na doce penumbra do quarto, com a roupa fresca sobre a pelle, Jeronymo sentia-se bem, feliz por ver-se longe da pedreira ardente e do sol caustico; ouvindo, de olhos fechados, o rom-rom monotono da machina de massas, arfando ao longe, e o zum-zum das lavadeiras a trabalharem, e, mais distante, um interminavel cantar de gallos á porfia, emquanto um dobre de sinos rolava no ar, tristemente, annunciando um defunto da parochia.
Quando Piedade chegou lá fóra, dando parte do bom resultado do remedio, a Rita correu de novo ao quarto do doente.
—Então, que me diz agora? Sente-se ou não melhorzinho?
Elle voltou para a rapariga o seu olhar de animal prostrado e, por unica resposta, passou-lhe o braço esquerdo na cintura e procurou com a mão direita segurar a d'ella. Queria com isto traduzir o seu reconhecimento, e a mulata assim o entendeu, tanto que consentiu; mal porém a sua carne lhe tocou na carne, um desejo ardente apossou-se d'elle; uma vontade desensoffrida de senhorear-se no mesmo instante d'aquella mulher e possuil-a inteira, devoral-a num só hausto de luxuria, trincal-a como um cajú.
Rita, ao sentir-se empolgar pelo cavouqueiro, escapou-lhe das garras com um pulo.
—Olha que peste! Faça-se de tolo, que digo á sua mulher, hein? Ora vamos lá!
Mas, como a Piedade entrava na salinha ao lado, disfarçou logo, acrescentando n'outro tom:—Agora é tratar de dormir e mudar de roupa, se suar outra vez. Até logo!
E sahio.
Jeronymo ouvio as suas ultimas palavras já de olhos fechados e, quando Piedade entrou no quarto, parecia succumbido de fraqueza. A lavadeira aproximou-se da cama do marido em ponta de pés, puxou-lhe o lençol mais para cima do peito e afastou-se de novo, abafando os passos. Á porta de entrada a Augusta, que fora fazer uma visita ao enfermo, perguntou-lhe por este com um gesto interrogativo; Piedade respondeu sem fallar, pondo a mão no rosto e vergando d'esse lado a cabeça, para exprimir que elle agora estava dormindo.
As duas sahiram para fallar á vontade; mas, n'essa occasião, lá fóra no pateo da estalagem, acabava de armar-se um escandalo medonho. Era o caso que o Henriquinho da casa do Miranda ficava ás vezes á janella do sobrado, nas horas de preguiço, entre o almoço e o jantar, entretido a ver a Leocadia lavar, seguindo-lhe os movimentos uniformes do grosso quadril e o tremular das redondas tetas á larga dentro do cabeção de chita. E, quando a pilhava sozinha, fazia-lhe signaes bregeiros, piscava lhe o olho, batendo com a mão direita aberta sobre a mão esquerda fechada. Ella respondia, indicando com o pollegar o interior do sobrado, como se dissesse que fosse procurar a mulher do dono da casa.
N'aquelle dia, porém, o estudante appareceu á janella, trazendo nos braços um coelhinho todo branco, que elle na vespera arrematára n'um leilão de festa. Leocadia cobiçou o bichinho e, correndo para o deposito de garrafas vasias, que ficava por debaixo do sobrado, pedio com muito empenho ao Henrique que lh'o désse. Este, sempre com o seu systema de conversar por mimica, declarou com um gesto qual era a condição da dadiva.
Ella meneou a cabeça affirmativamente, e elle fez-lhe signal de que o esperasse por detraz do cortiço, no capinzal dos fundos.
A familia do Miranda havia sahido. Henrique, mesmo com a roupa de andar em casa e sem chapéo, desceu á rua, ganhou um terreno que existia á esquerda do sobrado e, com o seu coelho debaixo do braço, atirou-se para o capinzal. Leocadia esperava por elle debaixo das mangueiras.
—Aqui não! disse ella, logo que o vio chegar. Aqui agora podem dar com a gente!...
—Então onde?
—Vem cá!
E tomou á sua direita, andando ligeira e meio vergada por entre as plantas. Henrique seguio-a no mesmo passo, sempre com o coelho sobraçado. O calor fazia-o suar e esfogueava-lhe as faces. Ouvia-se o martellar dos ferreiros e dos trabalhadores da pedreira.
Depois de alguns minutos, ella parou n'um lugar plantado de bambús e bananeiras, onde havia o resto de um telheiro em ruinas.
—Aqui!
E Leocadia olhou para os lados, assegurando-se de que estavam a sós. Henrique, sem largar o coelho, atirou-se sobre ella, que o conteve:
—Espera! preciso tirar a saia; está encharcada!
—Não faz mal! segredou elle, impaciente no seu desejo.
—Póde me vir um corrimento!
E sacou fóra a saia de lã grossa, deixando ver duas pernas, que a camisa a custo só cobria até ao joelho, grossas, massiças, de uma brancura levemente rósea e toda marcada de mordeduras de pulgas e mosquitos.
—Avia-te! Anda! apressou ella, lançando-se de costas no chão e arregaçando a fralda até á cintura; as coxas abertas.
O estudante atirou-se sofrego, sentindo-lhe a frescura da sua carne de lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho.
Passou-se um instante de silencio entre os dois, em que as folhas seccas do chão rangeram e farfalharam.
Olha! pedio ella, faze-me um filho, que eu preciso alugar-me de ama de leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne Molle, n'esta ultima barriga, tomou conta de um pequeno ahi na casa de uma familia de tratamento, que lhe dava setenta mil reis por mez!... E muito bom passadio!... Sua garrafa de vinho todos os dias!... Se me arranjares um filho dou-te outra vez o coelho!
E o pobre brutinho, cujas pernas o estudante não largava, começou a queixar-se dos repellões que recebia cada vez mais accelerados.
—Olha que matas o bichinho! reclamou a lavadeira. Não batas assim com elle! mas não o soltes, hein!
Ia dizer ainda alguma coisa, mas acudio-lhe o espasmo e ella fechou os olhos e pôz-se a dar com a cabeça de um lado para outro, rilhando os dentes.
N'isto, passos rapidos fizeram-se sentir galgando as plantas, na direcção em que os dois estavam; e Henrique, antes de ser visto, lobrigou a certa distancia a insociavel figura do Bruno.
Não lhe deu tempo a que se approximasse; de um salto galgou por detraz das bananeiras e desappareceu por entre o mattagal de bambús, tão rapido como o coelho que, vendo se livre, ganhára pela outra banda o caminho do capinzal.
Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da mulher, esta ainda não tinha acabado de vestir a saia molhada.
—Com quem te esfregavas tu, sua vacca?! bradou elle, a botar os bofes pela bocca.
E, antes que ella respondesse, já uma formidavel punhada a fazia rolar por terra.
Leocadia abrio n'um berreiro. E foi debaixo de uma chuva de bofetadas e pontapés que acabou de amarrar a roupa.
—Agora eu vi! sabes? Nega se fores capaz!
—Vá á pata que o pôz! exclamou ella, com a cara que era um tomate. Já lhe disse que não quero saber de você pr'a nada, seu bebado!
E, vendo que elle ia recomeçar a dansa, abaixou-se depressa, segurou com ambas as mãos um matacão de granito que encontrou a seus pés, e gritou, erguendo-o sobre a cabeça:
—Chega-te pr'a cá e verás se te abro aqui mesmo ou não o casco!
O ferreiro comprehendeu que ella era capaz de fazer o que dizia e estacou livido e offegante.
—Arme a trouxa e rua! sabe?
—Olha a desgraça! Tinha de muito assentado de ir! Queria era uma occasião! Nem preciso de você pra nada, fique sabendo!
E, para metter-lhe mais raiva, acrescentou, empinando a barriga:—Já cá está dentro com que hei de ganhar a vida! Alugo-me de ama! Ou pensará que todos são como você, que nem para fazer um filho serve, diabo do sem-prestimo?
—Mas não me has de levar nada de casa! Isso te juro eu, biraia!
—Ah, descance! que não levarei nada do que é seu, nem preciso!
—Põe essa pedra no chão!
—Um corno! Eu arrumo-l'a na cabeça se te chegas pr'a cá!
—Sim, sim, sim, com tanto que te musques por uma vez!
—Pois então despache o beco!
Elle virou-lhe as costas e tornou lentamente por onde viera, de cabeça pendida, as mãos nas algibeiras das calças, aparentando agora um soberano desprezo pelo que se passava.
Só então foi que ella se lembrou do coelho.
—Ora gaitas! disse, endireitando-se e tomando direcção contraria á do marido.
Este fôra d'ahi direito ao cortiço narrar, a quem quizesse ouvir, o que se acabava de dar. O escandalo assanhou a estalagem inteira, como um jacto de agua quente sobre um formigueiro. «Ora aquillo tinha de acontecer mais hoje mais amanhã!—Um bello dia a casa vinha abaixo!—A Leocadia parecia não desejar senão isso mesmo!» Mas ninguem atinava com quem diabo pilhára o Bruno a mulher no capinzal. Fizeram-se mil hypotheses; lembraram-se nomes e nomes, sem se chegar a nenhum resultado satisfactorio. O Albino tentou logo arranjar a reconciliação no casal, jurando que o Bruno estava enganado com certeza e que vira mal. «Leocadia era uma excellente rapariga, incapaz de tamanha safadagem!» O ferreiro tapou-lhe a bocca com uma bolacha, e ninguem mais se metteu a congraçal-os.
Entretanto, o Bruno entrara em casa e lançava pela janella cá para fóra tudo o que ia encontrando pertencente á mulher. Uma cadeira fez-se pedaços contra as pedras, depois veio um candieiro de kerozene, uma trouxa de roupa, saias e casaquinhos de chita, caixas de chapéos cheias de trapos, uma gaiola de passaro, uma chaleira; e tudo era arremessado com furia ao meio da área, entre o silencio commovido dos que assistiam ao despejo. Um chim, que entrára para vender camarões e parara distrahido perto da janella do ferreiro, levou na cabeça com uma bilha da Bahia e berrava como criança que acaba de ser esbordoada. A Machona, que não podia ouvir ninguem gritar mais alto do que ella, cahio-lhe em cima aos murros e o pôz fóra do portão com tremenda descompostura. «Era o que faltava que viesse tambem aquelle salamaleque do inferno para azoinar uma creatura mais do que já estava!» Dona Isabel, com as mãos crusadas sobre o ventre, tinha para aquella destruição um profundo olhar de lastima. Augusta meneava a cabeça tristemente, sem conceber como havia mulheres que procuravam homem, tendo um que lhes pertencia. A Bruxa, indifferente, não interrompêra sequer o seu trabalho; ao passo que a das Dôres, de mãos nas cadeiras, a saia pelo meio das canellas, um cigarro no canto da boca, encarava desdenhosa a sanha daquelle marido, tão brutal como o d'ella o fôra.
—Sempre os mesmos pedaços d'asno!... commentava franzindo o nariz. Se a tôla da mulher só lhes procura agradar e fazer-lhes o gosto, ficam enjoados, e, se ella não toma a sério a borracheira do casamento, dão por páos e por pedras, como esta besta! Uma sucia, todos elles!
Florinda ria, como de tudo, e a velha Marcianna queixava-se de que lhe respingaram kerozene na roupa estendida ao sol. N'essa occasião justamente, um sacco de café, cheio de borra, deu duas voltas no ar e espalhou o seu conteúdo, pintalgando de pontos negros os coradoiros. Fez-se logo um alarido entre as lavadeiras. «Aquillo não tinha geito, que diabo! Armavam lá as suas turras e os outros é que haviam de aturar?!... Cebo! que os mais não estavam dispostos a supportar as furias de cada um! Quem parira Matheos que o embalasse! Se agora, todas as vezes que a Leocadia se fosse espojar no capinzal, o bruto do marido tinha de sujar d'aquelle modo o trabalho da gente, ninguem mais poderia ganhar ali a sua vida! Que espiga!» Pombinha chegára á porta do numero 15, dando fé do barulho, com uma costura na mão, e Nênêm, toda afogueada do ferro de engommar, perguntava, com um frouxo de riso, se o Bruno ia reformar a mobilia da casa. A Rita fingia não ligar importancia ao facto e continuava a lavar á sua tina. «Não faziam tanta festa ao tal casamento? Pois que aguentassem! Ella estava bem livre de soffrer uma d'aquellas!» O velho Liborio chegára-se, para ver se, no meio da confusão, apanhava alguma coisa do despejo, e a Machona, notando que o Agostinho fazia o mesmo, berrou-lhe do logar em que se achava:
—Sae d'ahi, safado! Toca lá no quer que seja, que te arranco a pelle do rabo!
Um irmão do santissimo entrára na estalagem, com a sua capa encarnada, a sua vara de prata em uma das mãos, na outra a salva do dinheiro, e parára em meio do pateo, supplicando, muito fanhoso: «Uma esmola para a cera do Sacramento!» As mulheres abandonaram por um instante as tinas e foram beijar devotamente a columbina imagem do Espirito Santo. Pingaram na salva moedinhas de vintem.
Todavia, o Bruno acabava afinal de despejar o que era da mulher e sahia de novo de casa, dando uma volta feroz á fechadura. Atravessou por entre o murmurante grupo dos curiosos que permanecia defronte da sua porta, mudo, com a cara fechada, jogando os braços, como quem, apezar de ter feito muito, não satisfizera ainda completamente a sua colera.
Leocadia appareceu pouco depois e, vendo por terra tudo que era seu, partido e inutilisado, apoderou-se de furia e avançou sobre a porta, que o marido acabava de fechar, arremettendo com as nadegas contra as duas folhas, que cederam logo, indo ella cahir lá dentro de barriga para cima.
Mas ergueu-se, sem fazer caso das risadas que rebentaram cá fóra e, escancarando a janella com arremeço, começou por sua vez a arrazar e destruir tudo que ainda encontrara em casa.
Então principiou a verdadeira devastação. E a cada objecto que ella varria para o pateo, gritava sempre: «Upa! Toma, diabo!»
—Ahi vae o relogio! Upa! Toma, diabo!
E o relogio espatifou-se na calçada.
—Ahi vae o alguidar!
—Ahi vae o jarro!
—Ahi vão os copos!
—O cabide!
—O garrafão!
—O bacio!
Um riso geral, communicativo, absoluto, abafava o barulho da louça quebrando-se contra as pedras. E Leocadia já não precisava acompanhar os objectos com a sua phrase de imprecação, porque cada um d'elles era recebido cá fóra com um côro que berrava:
—Upa! Toma, diabo!
E a limpeza proseguia. João Romão acudio de carreira, mas ninguem se incommodou com a presença d'elle. Já defronte da porta do Bruno havia uma montanha de cacos accumulados; e o destroço continuava ainda, quando o ferreiro reappareceu, vermelho como malagueta, e foi galgando a casa, com um raio de roda de carro na mão direita.
Os circumstantes o seguiram, atropelladamente, num clamor.
—Não dá!
—Não póde!
—Prende!
—Não deixa bater!
—Larga o páo!
—Segura!
—Aguenta!
—Cérca!
—Toma o porrete!
E Leocadia escapou afinal das páoladas do marido, a quem o povaréo desarmára num fecha-fecha.
—Ordem! Ordem! Vá de rumor! exclamava o vendeiro, a quem, aproveitando a confusão, haviam já ferrado um pontapé por detraz.
O Alexandre, que vinha chegando do serviço n'esse momento, apressou-se a correr para o logar do conflicto e cheio de autoridade, intimou o Bruno a que se contivesse e deixasse a mulher em paz, sob pena de seguir para a estação no mesmo instante.
—Pois você não vê esta gallinha, que apanhei hoje com a boca na botija, não me vem ainda por cima dar cabo de tudo?!... interrogou o Bruno, espumando de raiva e quasi sem folego para fallar.
—Porque você pôz em cacos o que é meu! gritou Leocadia.
—Está bom! está bom! disse o policia, procurando dar á voz inflexões autoritarias e reconciliadoras. Falle cada um por sua vez! Seu marido ... accrescentou elle, voltando-se para a accusada, diz que a senhora...
—É mentira! interrompeu ella.
—Mentira?! É boa! Tinhas a saia despida e um homem por cima!
—Quem era?—Quem foi?—Quem era o homem? interrogaram todos a um só tempo.
—Quem era elle, no fim de contas? inquirio tambem Alexandre.
—Não lhe pude ver as fuças!... respondeu o ferreiro; mas, se o apanho, arrancava-lhe o sangue pelas costas!
Houve um côro de gargalhadas.
—É mentira! repetio Leocadia, agora succumbida por uma reacção de lagrimas. Ha muito tempo que este malvado anda caçando pretexto para romper commigo e, como eu não lh'o dou...
Uma explosão de soluços a interrompeu.
D'esta vez não riram, mas um bichanar de cochichos formou-se em torno do seu pranto.
—Agora ... continuou ella, enxugando os olhos na costa da mão; não sei o que será de mim, porque este homem, além de tudo, escangalhou-me até o que eu trouxe quando me casei com elle!...
—Não disseste que já tinhas ahi dentro com que ganhar a vida?... E andar!
—É falso! soluçou Leocadia.
—Bem, interveio Alexandre, embainhando o seu refle: está tudo terminado! Seu marido vae recebel-a em boa paz...
—Eu?! esfuziou o ferreiro. Você não me conhece!
—Nem eu queria! retorquio a mulher. Prefiro metter-me com um cavallo de tilbury a ter de aturar este bruto!
E, catando em casa alguma coisa sua que ainda havia, e recolhendo do montão dos cacos o que lhe pareceu aproveitavel, fez de tudo uma grande trouxa e foi chamar um carregador.
A Rita sahio-lhe ao encontro.
—Para onde vais tu?... perguntou-lhe em voz baixa.
—Não sei, filha, por ahi!... Hei de encontrar um furo!... Os cães não vivem?...
—Espera um instante ... disse a mulata. Olha, empurra a trouxa ahi para dentro do meu commodo.—E correndo ao Albino, que lavava:—Passa-me no sabão aquella roupa, ouviste? E, quando Firmo acordar, diz-lhe que precisei ir á rua.
Depois, deu um pulo ao quarto, mudou a saia molhada, atirou nos hombros o seu chale de crochet e, batendo nas costas da campanheira, segredou-lhe:
—Anda cá commigo! não ficarás á tôa!
E as duas sahiram, ambas sacudidas, deixando atraz de si suspensa a curiosidade do cortiço inteiro.
IX
Passaram-se semanas. Jeronymo tomava agora, todas as manhãs, uma chicara de café bem grosso, á moda da Ritinha, e tragava dois dedos de paraty «pr'a cortar a friagem. »
Uma transformação, lenta e profunda, operava-se n'elle, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho mysterioso e surdo de chryzallida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brazil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e seductores que o commoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealisar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, ás imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espirito eternamente revoltado do ultimo tamoyo entrincheirou a patria contra os conquistadores aventureiros.
E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus habitos singelos de aldeão portuguez: e Jeronymo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquelle ar sombrio e concentrado que a entristecia; já appareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de canna substituio o vinho; a farinha de mandioca succedeu á brôa; a carne secca e o feijão preto ao bacalháo com batatas e ceboulas cozidas; a pimenta malagueta e a pimenta de cheiro invadiram victoriosamente a sua mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repellidos pelos ruivos e gostosos quitutes bahianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo carurú; a couve á mineira desthronou a couve á portugueza; o pirão de fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu aroma quente, Jeronymo principiou a achar graça no cheiro do fumo e não tardou a fumar tambem com os amigos.
E o curioso é que, quanto mais ia elle cahindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças physicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a musica, comprehendia até as intenções poeticas dos sertanejos, quando cantam á viola os seus amores infelizes; seus olhos, d'antes só voltados para a esperança de tornar á terra, agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céo e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros illimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, surge um monarcha gigante, que o sol veste de oiro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, n'um luxo oriental de arabicos principes voluptuosos.
Ao passo que com a mulher, a S'ôra Piedade de Jesus, o caso mudava muito de figura. Essa, feita de um só bloco, compacta, inteiriça e tapada, recebia a influencia do meio só por fóra, na maneira de viver, conservando-se inalteravel quanto ao moral, sem conseguir, á semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova patria que adoptaram. Cedia passivamente nos habitos de existencia, mas no intimo continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel ás suas tradições como a seu marido. Agora estava até mais triste; triste porque o Jeronymo fazia-se outro; triste porque não se passava um dia que lhe não notasse uma nova transformação; triste, porque chegava a estranhal-o, a desconhecel-o, afigurando-se-lhe até que commettia um adulterio, quando á noite acordava assustada ao lado d'aquelle homem que não parecia o d'ella, aquelle homem que se lavava todos os dias, aquelle homem que aos domingos punha perfumes na barba e nos cabellos e tinha a boca cheirando a fumo. Que pesado desgosto não lhe apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repellindo o caldo que ella lhe apresentava ao jantar, disse-lhe:
—Ó filha! porque não experimentas tu fazer uns pitéos á moda de cá?...
—Mas é que não sei ... balbuciou a pobre mulher.
—Pede então á Rita que t'o ensine... Aquillo não terá muito q'aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ella preparou aquelles d'outro dia. Souberam-me tão bem!
Este resvalamento do Jeronymo para as coisas do Brasil, penalisavam profundamente a infeliz creatura. Era ainda o instincto feminil que lhe fazia prever que o marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a quereria para mais nada e havia de reformar a cama, assim como reformou a mesa.
Jeronymo, com effeito, pertencia-lhe muito menos agora do que d'antes. Mal se chegava para ella; os seus carinhos eram frios e distrahidos, dados como por condescendencia; já lhe não affagava os rins, quando os dois ficavam a sós, malucando na sua vida commum; agora nunca era elle que a procurava para o matrimonio, nunca; se ella sentia necessidade do marido, tinha de provocal-o. E, uma noite, Piedade ficou com o coração ainda mais apertado, porque elle, a pretexto de que no quarto fazia muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde esse dia não dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou uma rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em casa da Rita.
Uma outra noite a coisa ainda foi peior. Piedade, certa de que o marido não se chegava, foi ter com elle; Jeronymo fingio-se indisposto, negou-se, e terminou por dizer-lhe, repellindo-a brandamente:
—Não te queria fallar, mas ... sabes? deves tomar banho todos os dias e ... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que senão cheira-se mal!... Tem paciencia!
Ella desatou a soluçar. Foi uma explosão de resentimentos e desgostos que se tinham accumulado no seu coração. Todas as suas magoas rebentaram n'aquelle momento.
—Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso! Ella continuou a soluçar, sem folego, dando arfadas com todo o corpo.
O cavouqueiro, acrescentou no fim de um intervallo:
—Então que é isto, mulher? Pôes-te agora a fazer tamanho escarcéo, nem que se cuidasse de coisa séria!
Piedade desabafou:
—E que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! D'antes não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal!
E os soluços recrudesciam.
—Não digas asnices, filha!
—Ah! eu bem sei o que isto é!...
—É bobagem tua, é o que é!
—Maldita hora em que viemos dar ao raio d'esta estalagem! Antes me tivéra cahido um calháo na cabeça!
—Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus te não castigue!
Esta resinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram amiudando. Ah! já não havia duvida que mestre Jeronymo andava meio cahido para o lado da Rita Bahiana; não passava pelo numero 9, sempre que vinha á estalagem durante o dia, que não parasse á porta um instante, para perguntar-lhe pela «saúdinha». O facto de haver a mulata lhe offerecido o remedio, quando elle esteve incommodado, foi pretexto para lhe fazer presentes amaveis, pôr os seus prestimos á disposição d'ella e obsequial-a em extremo todas as vezes que a visitava. Tinha sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito da Leocadia, por exemplo; pois, desde que a Rita se arvorara em protectora da mulher do ferreiro, Jeronymo affectava grande interesse pela «pobrezinha de Christo.»
—Fez bem, 'nhá Rita, fez bem!... A se'ora mostrou com isso que tem bom coração...
—Ah, meu amigo, n'este mundo hoje por mim, amanhã por ti!...
Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas engommadeiras do Catette, muito suas camaradas; depois passou-a para uma familia, a quem Leocadia se alugou como ama secca; e agora sabia que ella acabava de descobrir um bom arranjo n'um collegio de meninas.
—Muito bem! muito bem! applaudia Jeronymo.
—Ora, o que! O mundo é largo! sentenciou a Bahiana! Ha logar pr'o gordo e ha logar pr'o magro! Bem tolo é quem se mata!
Em uma das vezes em que o cavouqueiro perguntou-lhe, como de costume, pela pobrezinha de Christo, a mulata disse que Leocadia estava gravida.
—Gravida? mas então não é do marido!...
—Póde bem ser que sim. Barriga de quatro mezes...
—Ah! mas ella não foi ha mais tempo do que isso?...
—Não. Vae fazer agora pelo São João quatro mezes justamente.
Jeronymo já nunca pegava na guitarra senão para procurar acertar com as modinhas que a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro a chegar-se e o ultimo a ir embora; e durante o pagode ficava de queixo bambo, a ver dansar a mulata, abstracto, pateta, esquecido de tudo; babão. E ella, consciente do feitiço que lhe punha, ainda mais se requebrava e remexia, dando-lhe embigadas ou fingindo que lhe limpava a baba no queixo com a barra da saia.
E riam-se.
Não! definitivamente estava cahido!
Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um remedio que lhe restituisse o seu homem. A cabocla velha fechou-se com ella no quarto, accendeu vélas de cêra, queimou hervas aromaticas e tirou a sorte nas cartas.
E, depois de um jogo complicado de reis, valetes e damas, que ella dispunha sobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que sahia do baralho uma phrase cabalistica, declarou convicta, muito calma, sem tirar os olhos das suas cartas:
—Elle tem a cabeça virada por uma mulher trigueira.
—É o diacho da Rita Bahiana! exclamou a outra. Bem cá me palpitava por dentro! Ai, o meu rico homem!
E a chorar, limpando, afflicta, as lagrimas no avental de canhamo, supplicou á Bruxa, pelas alminhas do purgatorio, que lhe remediasse tamanha desgraça.
—Ai, se perco aquella creatura, S'ôra Paula, lamuriou a infeliz entre soluços; nem sei que virá a ser de mim n'este mundo de Christo!... Ensine-me alguma coisa que me puxe o Jeromo!
A cabocla disse-lhe que se banhasse todos os dias e désse a beber ao seu homem, no café pela manhã, algumas gottas das aguas da lavagem; e, se no fim de algum tempo, este regimen não produzisse o desejado effeito, então cortasse um pouco dos cabellos do corpo, torrasse-os até os reduzir a pó e lh'os ministrasse depois na comida.
Piedade ouvio a receita com um silencio respeitoso e attento, o ar compungido de quem recebe do medico uma sentença dolorosa para um doente que estimamos. Em seguida, metteu na mão da feiticeira uma moeda de prata, promettendo dar-lhe coisa melhor se o remedio tivesse bons resultados.
Mas não era só a portugueza quem se mordia com o descahimento do Jeronymo para a mulata, era tambem o Firmo. Havia muito já que este andava com a pulga atraz da orelha e, quando passava perto do cavouqueiro, olhava-o atravessado.
O capadocio ia dormir todas as noites com a Rita, mas não morava na estalagem; tinha o seu commodo na officina em que trabalhava. Só pelos domingos é que ficavam juntos durante o dia e então não relaxavam o seu jantar de pandega. Uma vez em que elle gazéara o serviço, o que não era raro, foi vel-a fóra das horas do costume e encontrou-a a conversar junto á tina com o portuguez. Passou sem dizer palavra e recolheu-se ao numero 9, onde ella foi logo ter de carreira. Firmo não lhe disse nada a respeito das suas apprehensões, mas tambem não escondeu o seu máo-humor; esteve impertinente e resingueiro toda a tarde. Jantou de cara amarrada e durante o paraty, depois do café, só fallou em rôlos, em dar cabeçadas e navalhadas, pintando-se terrivel, recordando façanhas de capoeiragem, nas quaes sangrára taes e taes typos de fama; «não contando dois gallegos que mandara pr'ás minhocas, porque isso para elle não era gente!—Com um par de cocadas boas ficavam de pés unidos pra sempre!» Rita percebeu os ciumes do amigo e fez que não dera por coisa alguma.
No dia seguinte, ás seis horas da manhã, quando elle sahia da casa d'ella, encontrou-se com o portuguez, que ia para o trabalho, e o olhar que os dois trocaram entre si era já um cartel de desafio. Entretanto, cada qual seguio em silencio para o seu lado.
Rita deliberou prevenir Jeronymo de que se acautelasse. Conhecia bem o amante e sabia de quanto era elle capaz sob a influencia dos ciumes; mas, na occasião em que o cavouqueiro desceu para almoçar, um novo escandalo acabava de explodir, agora no numero 12, entre a velha Marcianna e sua filha Florinda.
Marcianna andava já desconfiada com a pequena, porque o fluxo mensal d'esta se desregrára havia tres mezes, quando, n'esse dia, não tendo as duas acabado ainda o almoço, Florinda se levantou da meza e foi de carreira para o quarto. A velha seguio-a. A rapariga fôra vomitar ao bacio.
—Que é isto?... perguntou-lhe a mãe, apalpando-a toda com um olhar inquiridor.
—Não sei, mamãe...
—Que sentes tu?...
—Nada...
—Nada, e estás lançando?... Hein?!
—Não sinto nada, não senhora!...
A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe violentamente o vestido, levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o corpo, tacteando-lhe o ventre, já zangada. Sem obter nenhum resultado das suas diligencias, correu a chamar a Bruxa, que era mais que entendida no assumpto. A cabocla, sem se alterar, largou o serviço, enxugou os braços no avental, e foi ao numero 12; tenteou de novo a mulatinha, fez-lhe varias perguntas e mais á mãe, e depois disse friamente:
—Está de barriga.
E afastou-se, sem um gesto de surpreza, nem de censura.
Marcianna, tremula de raiva, fechou a porta da casa, guardou a chave no seio e, furiosa, cahio aos murros em cima da filha. Esta, em balde tentando escapar-lhe, berrava como uma louca.
Abandonaram-se logo todas as tinas do pateo e algumas das mezas do frege, e o populacho, curioso e alvoroçado, precipitou-se para o numero 12, batendo na porta e ameaçando entrar pela janella.
Lá dentro, a velha escarranchada sobre a rapariga que se debatia no chão, perguntava-lhe gritando e repetindo:
—Quem foi?! Quem foi?!
E de cada vez desfechava-lhe um sopapo pelas ventas.
—Quem foi?!
A pequena berrava, mas não respondia.
—Ah! não queres dizer por bem? Ora espera!
E a velha ergueu-se para apanhar a vassoura ao canto da sala.
Florinda, vendo imminente o cacete, levantou-se de um pulo, ganhou a janella e cahio de um salto lá fóra, entre o povo amotinado. Coisa de uns nove palmos de altura.
As lavadeiras a apanharam, cuidando em defendel-a da mãe, que surgio logo á porta, ameaçando para o grupo, terrivel e armada de páo.
Todos procuraram chamal-a á razão:
—Então que é isso, tia Marcianna?! Então que é isso?!
—Que é isto?! É que esta assanhada está de barriga! Está ahi o que é! Para tanto não lhe faltou geito, nem foi preciso que a gente andasse atraz d'ella se matando, como succede sempre que ha um pouco mais de serviço e é necessario puxar pelo corpo! Ora está ahi o que é!