ALUIZIO AZEVEDO (continued 4)
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E na sua alma enfermiça e aleijada, no seu espirito rebelde de flôr mimosa e peregrina criada n'um monturo, violeta infeliz, que um estrume forte de mais para ella atrophiára, a moça presentio bem claro que nunca daria de si ao marido que ia ter uma companheira amiga, leal e dedicada; presentio que nunca o respeitaria sinceramente como a um ser superior por quem damos a vida; que nunca lhe votaria enthusiasmo, e por conseguinte nunca lhe teria amor; d'esse de que ella se sentia capaz de amar alguem, se na terra houvéra homens dignos disso, Ah! não o amaria de certo, porque o Costa era como os outros, passivo e resignado, aceitando a existencia que lhe impunham as circumstancias, sem ideaes proprios, sem temeridades de revolta, sem atrevimentos de ambição, sem vicios tragicos, sem capacidade para grandes crimes; era mais um animal que viera ao mundo para propagar a especie; um pobre diabo emfim que já a adorava cegamente e que mais tarde, com ou sem razão, derramaria aquellas mesmas lagrimas, ridiculas e vergonhosas, que elle vira decorrendo em quentes camarinhas pelas asperas e mal tratadas barbas do marido de Leocadia.
E não obstante, até então, aquelle matrimonio era o seu sonho doirado. Pois agora, nas vesperas de obtel-o, sentia repugnancia em dar-se ao noivo, e, se não fôra a mãe, seria muito capaz de dissolver o ajuste.
Mas, d'ahi a uma semana, a estalagem era toda em reboliço desde logo pela manhã. Só se fallava em casamento; havia em cada olhar um sanguineo reflexo de noites nupciaes. Desfolharam-se rosas á porta da Pombinha. Ás onze horas parou um carro á entrada do cortiço com uma senhora gorda, vestida de seda côr de perola. Era a madrinha, que vinha buscar a noiva para a egreja de São João Baptista. A cerimonia estava marcada para o meio dia. Toda esta formalidade embatucava os circumstantes, que se alinhavam immoveis defronte do numero 15, com as mãos crusadas atraz, o rosto paralysado por uma commoção respeitosa; alguns sorriam enternecidos; quasi todos tinham os olhos resumbrados d'agoa.
Pombinha surgio á porta de casa, já prompta para desferir o grande vôo; de véo e grinalda, toda de branco, vaporosa, linda. Parecia commovida; despedia-se dos companheiros atirando-lhes beijos com o seu ramalhete de flores artificiaes. Dona Isabel chorava como criança, abraçando as amigas, uma por uma.
—Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que lhe dê um bom parto, quando vier a primeira barriga!
A noiva sorria, de olhos baixos. Uma fimbria de desdem toldava-lhe a rosada candura de seus labios. Encaminhou-se para o portão, cercada pela bênção de toda aquella gente, cujas lagrimas rebentaram afinal, feliz cada um por vel-a feliz e em caminho da posição que lhe competia na sociedade.
—Não! aquella não nascera para isto!... sentenciou o Alexandre, retorcendo o reluzente bigode. Seria lastima se a deixassem ficar aqui!
O velho Liborio, cascalhando uma risada decrepita, queixou-se de que o maganão do Costa lhe passara a perna, roubando-lhe a namorada.
Ingrata! Elle que estava disposto a fazer uma asneira!
Nênêm deu uma corrida até á noiva, na occasião em que esta chegava á carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca, pedio-lhe com empenho que se não esquecesse de mandar-lhe um botão da sua grinalda de flores de larangeira.
—Diz que é muito bom para quem deseja casar!... e eu tenho tanto medo de ficar solteira...! É todo o meu susto!
XIII
Á proporção que alguns locatarios abandonavam a estalagem, muitos pretendentes surgiam disputando os commodos desalugados. Delporto e Pompeu foram varridos pela febre amarella e tres outros italianos estiveram em risco de vida. O numero dos hospedes crescia, os casulos subdividiam-se em cubiculos do tamanho de sepulturas, e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procreador. Uma familia, composta de mãe viuva e cinco filhas solteiras, das quaes d'estas a mais velha tinha, trinta annos e a mais moça quinze, veio occupar a casa que Dona Isabel esvasiou poucos dias depois do casamento de Pombinha.
Agora, na mesma rua, germinava outro cortiço ali perto, o «Cabeça de Gato.» Figurava como seu dono um portuguez que tambem tinha venda, mas o legitimo proprietario, era um abastado conselheiro, homem de gravata lavada, a quem não convinha, por decoro social, apparecer em semelhante genero de especulações. E João Romão, estalando de raiva, vio que aquella nova republica da miseria promettia ir adiante e ameaçava fazer-lhe á sua perigosa concurrencia. Poz-se logo em campo, disposto á luta, e começou a perseguir o rival por todos os modos, peitando os fiscaes e guardas municipaes, para que o neo deixassem respirar um instante com multas e exigencias vexatorias; emquanto pela sorrelfa plantava no espirito dos seus inquilinos um verdadeiro odio de partido, que os incompatibilisava com a gente do Cabeça de Gato. Aquelle que não estivesse disposto a isso ia direitinho para a rua, «que ali se não admittia meias medidas a tal respeito! Ali: ou bem peixe ou bem carne! Nada de embrulho!» É inutil dizer que a parte contraria lançou mão igualmente de todos os meios para guerrear o inimigo, não tardando que entre os moradores das duas estalagens rebentasse uma tremenda rivalidade, dia a dia aggravada por pequenas brigas e resingas, em que as lavadeiras se destacavam sempre com questões de freguezia de roupa. No fim de pouco tempo os dois partidos estavam já perfeitamente determinados; os habitantes do Cabeça de Gato tomaram por alcunha o titulo do seu cortiço, e os de São Romão, tirando o nome do peixe que a Bertoleza mais vendia á porta da taverna, foram baptisados por «Carapicús.» Quem se désse com um carapicú não podia entreter a mais ligeira amisade com um cabeça de gato; mudar-se alguem de uma estalagem para a outra era renegar idéas e principios e ficava apontado a dedo; denunciar a um contrario o que se passava, fosse o que fosse, dentro do circulo opposto, era commetter traição tamanha, que os companheiros a puniam a páo. Um vendedor de peixe, que cahio na asneira de fallar a um cabeça de gato a respeito de uma briga entre a Machona e sua filha, a das Dôres, foi encontrado quasi morto perto do cemiterio de São João Baptista. Alexandre, esse então não cochilava com os adversarios: nas suas partes policiaes figurava sempre o nome de um delles pelo menos, mas entre os proprios policias havia adeptos de um e de outro partido; o urbano que entrava na venda de João Romão tinha escrupulo de tomar qualquer coisa ao balcão da outra venda. Em meio do pateo do Cabeça de Gato arvorára-se uma bandeira amarella; os carapicús responderam logo levantando um pavilhão vermelho. E as duas côres olhavam-se no ar como um desafio de guerra.
A batalha era inevitavel. Questão de tempo.
Firmo, assim que se instaurara a nova estalagem, abandonou o quarto na officina e metteu-se lá de sucia com o Porfiro, apezar da opposição de Rita, que mais depressa o deixaria a elle do que aos seus velhos camaradas de cortiço. D'ahi nasceu certa ponta de discordia entre os dois amantes; as suas entrevistas tornavam-se agora mais raras e mais difficeis. A bahiana, por coisa alguma d'esta vida, poria os pés no Cabeça de Gato e o Firmo achava-se, como nunca, incompatibilisado com os carapicús. Para estar juntos tinham encontros mysteriosos n'um calogio de uma velha miseravel de rua de São João Baptista, que lhe cedia a cama, mediante esmolas. O capoeira fazia questão de ficar no Cabeça de Gato, porque ahi se sentia resguardado contra qualquer perceguição que o seu delicto motivasse; de resto, Jeronymo não estava morto e, uma vez bem curado, podia vir sobre elle com gana. No Cabeça de Gato, o Firmo conquistára rapidas sympathias e constituira-se chefe de malta. Era querido e venerado; os companheiros tinham enthusiasmo pela sua destreza e pela sua coragem; sabiam-lhe de cór a legenda rica de façanhas e victorias. O Porfiro secundava-o sem lhe disputar a primasia, e estes dois, só por si, impunham respeito aos carapicús, entre os quaes, não obstante, havia muito boa gente para o que désse e viesse.
Mas ao cabo de tres mezes, João Romão, notando que os seus interesses nada soffriam com a existencia da nova estalagem e, até pelo contrario, lucravam com o progressivo movimento de povo que se ia fazendo no bairro, retornou á sua primitiva preoccupação com o Miranda, unica rivalidade que verdadeiramente o estimulava.
Desde que o visinho surtio com o baronato, o vendeiro transformava-se por dentro e por fóra a causar pasmo. Mandou fazer boas roupas e aos domingos refestelava-se de casaco branco, e de meias, assentado defronte da venda, a ler jornaes. Depois deu para sahir a passeio, vestido de casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabello á escovinha; pôz a barba abaixo, conservando apenas o bigode, que elle agora tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. Já não era o mesmo lambusão! E não parou ahi fez-se: socio de um club de dança e, duas noites por semana, ia aprender a dançar; começou a uzar relogio e cadeia de ouro; correu uma limpeza no seu quarto de dormir, mandou soalhal-o, forrou e pintou-o; comprou alguns moveis em segunda mão; arranjou um chuveiro ao lado da retrete: principiou a comer com guardanapo e a ter toalha e copos sobre a mesa; entrou a tomar vinho, não do ordinario que vendia aos trabalhadores, mas de um especial que guardava para seu gasto. Nos dias de folga atirava-se para o passeio publico depois do jantar ou ia ao theatro São Pedro de Alcantara assistir aos espectaculos da tarde; do Jornal do Commercio, que era o unico que elle assignava havia já tres annos e tanto, passou a receber mais dois outros e a tomar fasciculos de romances francezes traduzidos, que o ambicioso lia de cabo a rabo, com uma paciencia de santo, na doce convicção de que se instruia.
Admittio mais tres caixeiros; já se não prestava muito a servir pessoalmente á negralhada da vizinhança, agora até mal chegava ao balcão. E em breve o seu typo começou a ser visto com frequencia na rua Direita, na praça do commercio e nos bancos, o chapéu alto derreado para a nuca e o guarda-chuva debaixo do braço. Principiava a metter-se em altas especulações, aceitava acções de companhias de titulos inglezes e só emprestava dinheiro com garantias de boas hypothecas.
O Miranda tratava-o já de outro modo, tirava-lhe o chapéo, parava risonho para lhe fallar quando se encontravam na rua, e ás vezes trocava com elle dois dedos de palestra á porta da venda. Acabou por offerecer-lhe a casa e convidal-o para o dia de annos da mulher, que era d'ahi a pouco tempo. João Romão agradeceu o obsequio, desfazendo-se em demonstrações de reconhecimento, mas não foi lá.
Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula suja, sempre atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo; essa, em nada, em nada absolutamente, participava das novas regalias do amigo; pelo contrario, á medida que elle galgava posição social, a desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. João Romão subia e ella ficava cá em baixo, abandonada como uma cavalgadura de que já não precisamos para continuar a viagem. Começou a cahir em tristeza.
O velho Botelho chegava-se tambem para o vendeiro, e ainda mais do que o proprio Miranda. O parasita não sabia agora depois do almoço para a sua prosa na charutaria, nem voltava á tarde para o jantar, sem deter-se um instante á porta do visinho ou, pelo menos, sem lhe gritar lá para dentro: «Então, seu João, isso vai ou não vai?...» E tinha sempre uma phraze amigavel para lhe atirar cá de fóra. Em geral o taverneiro acudia a apertar-lhe a mão, de cara alegre, e propunha-lhe que bebesse alguma coisa.
Sim, João Romão já convidava para beber alguma coisa. Mas não era á tôa que o fazia, que aquelle mesmo não mettia prego sem estopa! Tanto assim que uma vez, em que os dois sahiram á tardinha para dar um giro até á praia, Botelho, depois de fallar com o costumado enthusiasmo do seu bello amigo Barão e da virtuosissima familia d'este, accrescentou com o olhar fito:
—Aquella pequena é que lhe estava a calhar, seu João!...
—Como? Que pequena?
—Ora morda aqui! Pensa que já não dei pelo namoro?... Maganão!
O vendeiro quiz negar, mas o outro atalhou:
—É um bom partido, é! Excellente menina ... tem um genio de pomba ... uma educação de princeza: até o francez sabe! Toca piano como você tem ouvido ... canta o seu bocado ... aprendeu desenho ... muito boa mão de agulha!... e...
Abaixou a voz e segredou grosso no ouvido do interlocutor:—Ali, tudo aquillo é solido!... Predios e acções do banco!...
—Você tem certeza d'isso? Já vio?
Já! Palavra d'honra!
Calaram-se um instante.
Botelho continuou depois:
—O Miranda é bom homem, coitado! tem lá as suas fumaças de grandeza, mas não o podemos criminar ... são coisas pegadas da mulher; no emtanto acho-o com boas disposições a seu respeito ... e, se você souber leval-o, apanha-lhe a filha...
—Ella talvez não queira...
—Qual o que! Pois uma menina d'aquellas, criada a obedecer aos pais, sabe lá o que é não querer? Tenha você uma pessoa, de intimidade com a familia, que de dentro empurre o negocio e verá se consegue ou não! Eu, por exemplo!
—Ah! se você se mettesse n'isso, que duvida! Dizem que o Miranda só faz o que você quer...
—Dizem com razão.
—E você está resolvido a...?
—A protegel-o?... Sim, de certo: n'este mundo estamos nós para servir uns aos outros!... apenas, como não sou rico...
—Ah! Isso é dos livros! Arranje-me você o negocio e não se arrependerá...
—Conforme, conforme...
—Creio que não me suppõe um velhaco!...
—Por amor de Deus! Sou incapaz de semelhante sacrilegio!
—Então!...
—Sim, sim ... em todo o caso fallaremos depois, com mais vagar... Não é sangria desatada!
E desde então, com effeito, sempre que os dois se pilhavam a sós discutiam o seu plano de ataque á filha do Miranda. Botelho queria vinte contos de réis, e com papel passado a praso de casamento; o outro offerecia dez.
—Bom! então não temos nada feito ... resumio o velho. Trate você do negocio só por si; mas já lhe vou prevenindo de que não conte comigo absolutamente... Comprehende?
—Quer dizer que me fará guerra...
—Valha-nos Deus, creatura! não faço guerra a ninguem! guerra está você a fazer-me, que não me quer deixar comer uma migalha da bella fatia que lhe vou metter no papo!... O Miranda hoje tem para mais de mil contos de réis! Agora, fique sabendo que a coisa não é assim tambem tão facil, como lhe parece talvez...
—Paciencia!
—O Barão ha de sonhar com um genro de certa ordem!...
Ahi algum deputado ... algum homem que faça figura na politica aqui da terra!
—Não! melhor seria um principe!...
—E mesmo a pequena tem um doutorzinho de boa familia, que lhe ronda muito a porta... E ella, ao que parece, não lhe faz má cara...
—Ah! n'esse caso é deixal-os lá arranjar a vida!
—É melhor, é! Creio até que com elle será mais facil qualquer transacção...
—Então não fallemos mais n'isto! Está acabado!
—Pois não fallemos!
Mas no dia seguinte voltaram á questão:
—Homem! disse o vendeiro; para decidir, dou-lhe quinze!
—Vinte!
—Vinte, não!
—Por menos não me serve!
—E eu vinte não dou!
—Nem ninguem o obriga... Adeuzinho!
—Até mais ver.
Quando se encontraram de novo, João Romão rio-se para o outro, sem dizer palavra. O Botelho, em resposta, fez um gesto de quem não quer intrometter-se com o que não é da sua conta.
—Você é o diabo!... faceteou aquelle, dando-lhe no hombro uma palmada amigavel, Então não ha meio de chegarmos a um accordo?...
—Vinte!
—E, caso esteja eu pelos vinte, posso contar que...?
—Caso o meu nobre amigo se decida pelos vinte, receberá do Barão um chamado para lá ir jantar ao primeiro domingo; acceita o convite, vae, e encontrará o terreno preparado.
—Pois seja lá como você quer! mais vale um gosto do que quatro vintens!
O Botelho não faltou ao promettido: dias depois do contracto sellado e assignado, João Romão recebeu uma carta do visinho, solicitando-lhe a fineza de ir jantar com elle mais a familia.
Ah! que revolução não se ferio no espirito do vendeiro! passou dias a estudar aquella visita; ensaiou o que tinha que dizer, conversando sósinho defronte do espelho do seu lavatorio; afinal, no dia marcado, banhou-se em varias agoas, areiou os dentes até fazel-os bem limpos, perfumou-se todo dos pés á cabeça, escanhoou-se com esmero, aparou e burnio as unhas, vestio-se de roupa nova em folha, e ás quatro e meia da tarde apresentou-se, risonho e cheio de timidez, no espelhado e pretencioso salão de S. Ex.ª.
Aos primeiros passos que déra sobre o tapete, onde seus grandes pés, affeitos por toda vida á independencia do chinello e do tamanco, se destacavam como um par de tartarugas, sentio logo o suor dos grandes apuros innundar-lhe o corpo e correr-lhe em bagada pela fronte e pelo pescoço, nem que se o desgraçado acabasse de vencer n'aquelle instante uma legoa de carreira ao sol. As suas mãos, vermelhas e redondas, gottejavam, e elle não sabia o que fazer d'ellas, depois que o Barão, muito solicito, lhe tomou o chapéo e o guarda-chuva.
Arrependia-se já de ter lá ido.
—Fique a gosto, homem! bradou-lhe o dono da casa. Se tem calor venha antes aqui para a janella. Não faça cerimonia! Ó Leonor! trago vermouth! Ou o amigo prefere tomar um copinho de cerveja?
João Romão acceitava tudo, com sorrisos de acanhamento, sem animo de arriscar palavra. A cerveja fel-o suar ainda mais e, quando appareceram na sala Dona Estella e a filha, o pobre diabo chegava a causar dó de tão atrapalhado que se via. Por duas vezes escorregou, e n'uma d'ellas foi apoiar-se a uma cadeira que tinha rodizios; a cadeira afastou-se e elle quasi vai ao chão.
Zulmira rio-se, mas disfarçou logo a sua hilaridade pondo-se a conversar com a mãe em voz baixa. Agora, refeita nos seus desesete annos, não parecia tão anemica e deslavada; vieram-lhe os seios e engrossára-lhe o quadril. Estava melhor assim. Dona Estella, coitada! é que se precipitava, a passos de granadeiro, para a velhice, a despeito da resistencia com que se rendia; tinha já dois dentes postiços, pintava o cabello, e dos cantos da bocca duas rugas serpenteavam-lhe pelo queixo abaixo, desfazendo-lhe a primitiva graça maliciosa dos labios; ainda assim, porém, conservava o pescoço branco, liso e grosso, e os seus braços não desmereciam dos antigos creditos.
Á meza, a visita comeu tão pouco e tão pouco bebeu, que os donos da casa a censuraram jovialmente, fingindo acceitar o facto como prova segura de que o jantar não prestava; o obsequiado pedia por amor de Deus que não acreditassem em tal e jurava sob palavra de honra que se sentia satisfeito e que nunca outra comida lhe soubéra tão bem. Botelho lá estava, ao lado de um velhote fazendeiro, que por essa occasião hospedava-se com o Miranda. Henrique, approvado no seu primeiro anno de medicina, fôra visitar a familia em Minas. Isaura e Leonor serviam aos commensaes, rindo ambas á socapa por verem ali o João da venda engravatado e com piegas de visita.
Depois do jantar appareceu uma familia conhecida, trazendo um rancho de moças; vieram tambem alguns rapazes; formaram-se jogos de prendas, e João Romão, pela primeira vez em sua vida, vio-se mettido em taes funduras. Não se sahio mal todavia.
O chá das dez e meia correu sem novidade; e, quando emfim o neophyto se pilhou na rua, respirou com independencia, remexendo o pescoço dentro do collarinho engommado e soprando com allivio. Uma alegria de Victoria transbordava-lhe do coração e fazia-o feliz n'esse momento. Bebeu o ar fresco da noite com uma volupia nova para elle e, muito satisfeito comsigo mesmo, entrou em casa e recolheu-se, rejubilando com a idéa de que ia descalçar aquellas botas, desfazer-se de toda aquella roupa e atirar-se á cama, para pensar mais á vontade no seu futuro, cujos horizontes se rasgavam agora illuminados de esperança.
Mas a bolha do seu desvanecimento engelhou logo á vista de Bertoleza que, estendida na cama, roncava, de papo para o ar, com a boca aberta, a camisa soerguida sobre o ventre, deixando ver o negrume das pernas gordas e lustrosas.
E tinha de estirar-se ali, ao lado d'aquella preta fedorenta a cozinha e bodum de peixe! Pois, tão cheiroso e radiante como se sentia, havia de pôr a cabeça n'aquelle mesmo travesseiro sujo em que se enterrava a hedionda carapinha da crioula?...
—Ai! ai! gemeu o vendeiro, resignando-se.
E despio-se.
Uma vez deitado, sem animo de afastar-se da beira da cama, para não se encostar com a amiga, surgio-lhe nitida ao espirito a comprehensão do estorvo que o diabo d'aquella negra seria para o seu casamento.
E elle que até ahi não pensara n'isso!... Ora o demo!
Não poude dormir; pôz-se a malucar:
Ainda bem que não tinham filhos! Abençoadas drogas que a Bruxa déra á Bertoleza nas duas vezes em que esta se sentio gravida! Mas, afinal, de que modo se veria livre d'aquelle trambolho? E não se ter lembrado d'isso ha mais tempo!... parecia incrivel!
João Romão, com effeito, tão ligado vivêra com a crioula e tanto se habituara a vel-a ao seu lado, que nos seus devaneios de ambição, pensou em tudo, menos n'ella.
E agora?
E malucou no caso até ás duas da madrugada, sem achar furo. Só no dia seguinte, ao contemplal-a de cocaras á porta da venda, abrindo e destripando peixe, foi que, por associação de idéas, lhe acudio esta hypothese:
—E se ella morresse?...
XIV
Iam-se assim os dias, e assim mais de tres mezes se passaram depois da noite da navalhada. Firmo continuava a encontrar-se com a bahiana na rua de São João Baptista, mas a mulata, já não era a mesma para elle; apresentava-se fria, distrahida, ás vezes impertinente, puxando questão por dá cá aquella palha.
—Hun! hun! temos mouro na costa! rosnava o capadocio com ciumes. Ora queira Deus que eu me engane!
Nas entrevistas apresentava-se ella agora sempre um pouco depois da hora marcada, e a sua primeira phrase era para dizer que tinha pressa e não podia demorar-se.
—Estou muita apertada de serviço! accrescentava á replica do amante. Uma roupa de uma familia que embarca amanhã para o norte! Tem de ficar prompta esta noite!
Já hontem fiz serão!
—Agora estás sempre apertada de serviço!... resmungava o Firmo.
—É que é preciso puxar por elle, filho! Ponha-me eu a dormir e quero ver do que como e com que pago a casa! Não ha de ser com o que levo daqui!
—Ora essa! Tens coragem de dizer que não te dou nada? E quem foi que te deu esse vestido que tens no corpo?!
—Não disse que nunca me désse nada, mas com o que você me dá não pago a casa e não ponho a panella no fogo! Tambem não lhe estou pedindo coisa alguma! Oh!
Azedavam-se d'este modo as suas entrevistas, esfriando as poucas horas que os dois tinham para o amor. Um domingo, Firmo esperou bastante tempo e Rita não appareceu. O quarto era acanhado e sombrio, sem janellas, com um cheiro máo de bafio e humidade. Elle havia levado um embrulho de peixe frito, pão e vinho, para almoçarem juntos. Deu meio dia e Firmo esperou ainda, passeiando na estreiteza da miseravel alcova, como uma onça enjaulada, rosnando pragas obscenas; o sobrolho intumescido, os dentes cerrados. «Se aquella safada lhe apparecesse n'aquelle momento, elle seria capaz de torcel-a nas mãos!»
Á vista do embrulho da comida estoirou-lhe a raiva. Deu um pontapé n'uma bacia de louça que havia no chão, perto da cama, e soltou um murro na cabeça.
—Diabo!
Depois assentou-se no leito, esperou ainda algum tempo, fungando forte, sacudindo as pernas crusadas, e afinal sahio, atirando para dentro do quarto uma palavra porca.
Pela rua, durante o caminho, jurava que «aquella caro pagaria a mulata!» Um sofrejo desejo de castigal-a, no mesmo instante, o attrahia ao cortiço de São Romão, mas não se sentio com animo de lá ir, e contentou-se em rondar a estalagem. Não conseguio vel-a; resolveu esperar até á noite para lhe mandar um recado. E vagou aborrecido pelo bairro, arrastando o seu desgosto por aquelle domingo sem pagode. Ás duas horas da tarde entrou no botequim do Garnizé, uma espelunca, perto da praia, onde elle costumava beber de sucia com o Porfiro. O amigo não estava lá. Firmo atirou-se n'uma cadeira, pedio um martello de paraty e accendeu um charuto, a pensar. Um mulatinho, morador no Cabeça de Gato, veio assentar-se na mesma meza e, sem rodeios, deu-lhe a noticia de que na vespera o Jeronymo tivera baixa no hospital.
Firmo acordou com um sobresalto.
—O Jeronymo?!
—Apresentou-se hoje pela manhã na estalagem.
—Como soubeste?
—Disse-me o Pataca.
—Ora ahi está o que é! exclamou o capoeira, soltando um murro na meza.
—Que é o que? interrogou o outro.
—Nada! É cá comigo. Toma alguma coisa?
Veio novo copo, e Firmo resmungou no fim de uma pausa:
—É! não ha duvida! Por isto é que a perua ultimamente me anda de vento mudado!...
E um ciume doido, um desespero feroz rebentou-lhe por dentro e cresceu logo como a sede de um ferido. «Oh! precisava vingar-se d'ella! d'ella e d'elle! O amaldiçoado resistio á primeira, mas não lhe escaparia da segunda!»
—Veja mais um martello de paraty! gritou para o portuguezinho da espelunca. E acrescentou, batendo com toda a força o seu petropolis no chão:—E não passa de hoje mesmo!
Com o chapéo á ré, a gaforina mais assanhada que de costume, os olhos vermelhos, a boca espumando pelos cantos, todo elle respirava uma febre de vingança e de odio.
—Olha! disse ao companheiro de meza. D'isto, nem pio lá com os carapicús! Se abrires o bico dou-te cabo da pelle! Já me conheces!
—Tenho nada que fallar! Pr'a que?
—Bom!
E ficaram ainda a beber.
Jeronymo, com effeito, tivera alta e tornára aquelle domingo ao cortiço, pela primeira vez depois da doença. Vinha magro, pallido, desfigurado, apoiando-se a um pedaço de bambú. Crescêra-lhe a barba e o cabello, que elle não queria cortar sem ter cumprido certo juramento feito aos seus brios. A mulher fôra buscal-o ao hospital e caminhava ao seu lado, igualmente abatida com a molestia do marido e com as causas que a determinaram. Os companheiros receberam-no compungidos, tomados de uma tristeza respeitosa; um silencio fez-se em torno do convalescente; ninguem fallava senão a meia voz; a Rita Bahiana tinha os olhos arrazados d'agoa.
Piedade levou o seu homem para o quarto.
—Queres tomar um caldinho? perguntou-lhe. Creio que ainda não estás de todo prompto...
—Estou! contrapôz elle. Diz o doutor que preciso é de andar, para ir chamando força ás pernas. Tambem estive tanto tempo preso á cama! Só de uma semana p'ra cá é que encostei os pés no chão!
Deu alguns passos na sua pequena sala e disse depois, tornando junto da mulher:—O que me saberia bem agora era uma chicrinha de café, mas queria-o bom como o faz a Rita... Olha! pede-lhe que o arranje.
Piedade soltou um suspiro e sahio vagarosamente, para ir pedir o obsequio á mulata. Aquella preferencia pelo café da outra doía-lhe duro que nem uma infidelidade.
—Lá o meu homem quer do seu café e torce o nariz ao de casa... Manda pedir-lhe que lhe faça uma chicara. Pode ser? perguntou a portugueza á bahiana.
—Não custa nada! respondeu esta. Com poucas está lá!
Mas não foi preciso que o levasse, porque d'ahi a um instante, Jeronymo, com o seu ar tranquillo e passivo de quem ainda se não refez de todo depois de uma longa molestia, surgio-lhe á porta.
—Não vale a pena estorvar-se em lá ir... Se me dá licença, bebo o cafézinho aqui mesmo...
—Entra, seu Jeronymo.
—Aqui elle sabe melhor...
—Você pega já com partes! Olha, sua mulher, anda de pé atraz comigo! E eu não quero historias!...
Jeronymo sacudio os hombros com desdem.
—Coitada!... resmungou depois. Muito boa creatura, mas...
—Cala a boca, diabo! Toma o café e deixa de maldizencia! E mesmo vicio de Portugal: comendo e dizendo mal!
O portuguez sorveu com delicia um gole de café.
—Não digo mal, mas confesso que não encontro n'ella umas tantas coisas que desejava...
E chupou os bigodes.
—Vocês são tudo a mesma sucia! Bem tola é quem vai atraz de labia de homem! Eu cá não quero mais saber d'isso... Ao outro despachei já!
O cavouqueiro teve um tremor de todo o corpo.
—Outro quem? O Firmo?
Rita arrependeu-se do que disséra, e gaguejou:
—É um coisa ruim! Não quero saber mais d'elle!... Um traste!
—Elle ainda vem cá? perguntou o cavouqueiro.
—Aqui? Qual! N'essa não cáe! E se vier não lhe abro a porta! Ah! quando embirro com uma pessoa é que embirro mesmo!
—Isso é verdade, Rita?
—Que? Que não quero saber mais d'elle? Esta que aqui está nunca mais fará vida com semelhante cábula! Juro por esta luz!
—Elle fez-lhe alguma?
—Não sei! não quero! acabou-se!
—E que então você tem outro agora...
—Que esperança! Não tenho, nem quero mais ter homem!
—Porque, Rita?
—Ora! não paga a pena!
—E ... se você encontrasse um ... que a quizesse devéras ... para sempre?...
—Não é com essas!...
—Pois sei de um que a quer como Deus aos seus!...
—Pois diga-lhe que outro officio!
Ella se chegou para recolhera chicara, e elle apalpou-lhe a cintura.
—Olha! Escuta!
Rita fugio com uma rabanada, e disse rapido, muito a serio:
—Deixa d'isso. Póde tua mulher ver!
—Vem cá!
—Logo.
—Quando?
—Logo mais.
—Onde?
—Não sei.
—Preciso muito te fallar...
—Pois sim, mas aqui fica feio.
—Onde nos encontramos então?
—Sei cá!
E, vendo que Piedade entrava, ella disfarçou, dizendo sem transição:
—Os banhos frios é que são bons para isso! Põem duro o corpo!
A outra, embesourada, atravessou em silencio a pequena sala, foi ter com o marido e communicou-lhe que o Zé Carlos queria fallar-lhe, junto com o Pataca.
—Ali! fez Jeronymo. Já sei o que é. Até logo, nhá Rita. Obrigado. Quando quizer qualquer coisa de nós, lá estamos.
Ao sahir no pateo aquelles dois vieram ao seu encontro. O cavouqueiro levou-os para a casa, onde a mulher havia posto já a meza do almoço, e com um signal prevenio-os de que não fallassem por emquanto sobre o assumpto que os trouxera ali. Jeronymo comeu ás pressas e convidou as visitas a darem um giro lá fóra.
Na rua, perguntou-lhes em tom mysterioso:
—Onde poderemos fallar á vontade?
O Pataca lembrou a venda do Manoel Pépé, defronte do cemiterio.
—Bem achado! confirmou Zé Carlos. Ha lá bons fundos para se conversar.
E os tres puzeram-se a caminho, sem trocar mais palavra até á esquina.
—Então está de pé o que dissemos?... indagou afinal aquelle ultimo.
—De pedra e cal! respondeu o cavouqueiro.
—E o que é que se faz?
—Ainda não sei... Preciso antes de tudo saber onde o cabra é encontrado á noite.
—No Garnizé, affirmou o Pataca.
—Garnizé?
—Aquelle botequim ali ao entrar da rua da Passagem, onde está um gallo á taboleta.
—Ah! Defronte da pharmacia nova...
—Justo! Elle vai lá agora todas as noites, e lá esteve hontem, que o vi, por signal que n'um gole...
Muito bebedo, hein?
—Como uma gambá! Aquillo foi alguma, que a Rita Bahiana lhe pregou de fresco!
Tinham chegado á venda. Entraram pelos fundos e assentaram-se sobre caixas de sabão vazias, em volta de uma meza de pinho. Pediram paraty com assucar.
—Onde é que elles se encontravam?... informou-se Jeronymo, affectando que fazia esta pergunta sem interesse especial. Lá mesmo no São Romão?...
—Quem? A Rita mais elle? Ora o que! Pois se elle agora é todo Cabeça de Gato!...
—Ella ia lá?
—Duvido! Então logo aquella! Aquella é carapicú até o sabugo das unhas!
—Nem sei como ainda não romperam! interveio Zé Carlos, que continuou a fallar a respeito da mulata; emquanto Jeronymo o escutava abstracto, sem tirar os olhos de um ponto.
O Pataca, como se acompanhasse o pensamento do cavouqueiro, disse-lhe emborcando o resto do copo:
—Talvez o melhor fosse liquidar a coisa hoje mesmo!..
—Ainda estou muito fraco ... observou lastimoso o convalescente.
—Mas o teu páo está forte! E alem disso cá estamos nós dois. Tu podes até ficar em casa, se quizeres...
—Isso é que não! atalhou aquelle. Não dou o meu quinhão pelos dentes da boca!
—Eu cá tambem vou que o melhor seria pespegar-lhe hoje mesmo a sova ... declarou o outro. Pão de um dia pr'a outro fica duro!
—E eu estou-lhe com uma gana!... accrescentou o Pataca.
—Pois seja hoje mesmo! resolveu Jeronymo. E o dinheiro lá está em casa, quarenta pr'a cada um! Em seguida á méla corre logo o cobre! E ao depois vai a gente tomar uma fartadela de vinho fino!
—A que horas nos juntamos? perguntou Zé Carlos.
—Logo ao cahir da noite, aqui mesmo. Está dito?
—E será feito, se Deus quizer!
O Pataca accendeu o cachimbo, e os tres puzeram-se a cavaquear animadamente sobre o effeito que aquella sova havia de produzir; a cara que o cabra faria entre tres bons cacetes. «Então é que queriam ver até onde ia a imposturia da navalha! Diabo de um colhordas que, por um—vai tu, irei eu—arrancava logo pelo ferro!...»
Dois trabalhadores, em camisa de meia, entraram na tasca e o grupo calou-se. Jeronymo fogueou um cigarro no cachimbo do Pataca e despedio-se, relembrando aos companheiros a hora da entrevista e atirando sobre a meza um nikel de duzentos reis.
Foi direito para o cortiço.
—Fazes mal em andar por ahi com este sol!... reprehendeu Piedade, ao vel-o entrar.
—Pois se o doutor me disse que andasse quanto pudesse...
Mas recolheu-se á casa, estirou-se na cama e ferrou logo no somno. A mulher, que o acompanhara até lá, assim que o vio dormindo, enxotou as moscas de junto d'elle, cobrio-lhe a cara com uma cambraia que servia para os taboleiros de roupa engommada, e sahio na ponta dos pés, deixando a porta encostada.
Jantara d'ahi a duas horas, Jeronymo comeu com appetite, bebeu uma garrafa de vinho, e a tarde passaram-na os dois de palestra, assentados á frente de casa, formando grupo com a Rita e a gente da Machona. Em torno d'elles a liberdade feliz do domingo punha alegrias naquella tarde. Mulheres amamentavam o filhinho ali mesmo, ao ar livre, mostrando a uberdade das tetas cheias. Havia muito riso, muito parolar de papagaios; pequenos travessavam, tão depressa rindo como chorando; os italianos faziam a ruidosa digestão dos seus jantares de festa; ouviam-se cantigas e pragas entre gargalhadas. A Augusta, que estava gravida de sete mezes, passeava solemnemente o seu bandulho, levando um outro filho ao collo. O Albino, installado defronte de uma mezinha em frente á sua porta, fazia, á força de paciencia, um quadro, composto de figurinhas de caixa de phosphoros, recortadas a tesoura e grudadas em papelão com gomma arabica. E lá em cima, numa das janellas do Miranda, João Romão, vestido de casimira clara, uma gravata á moda, já familiarisado com a roupa e com a gente fina, conversava com Zulmira que, ao lado d'elle, sorrindo de olhos baixos, atirava migalhas de pão para as gallinhas do cortiço; ao passo que o vendeiro lançava para baixo olhares de desprezo sobre aquella gentalha sensual, que o enriquecêra, e que continuava a mourejar estupidamente, de sol a sol, sem outro ideal senão comer, dormir e procrear.
Ao cahir da noite, Jeronymo foi, como ficára combinado, á venda do Pépé. Os outros dois já lá estavam. Infelizmente havia mais alguem na tasca. Tomaram juntos, pelo mesmo copo, um martello de paraty e conversaram em voz surda n'uma conspiração sombria em que as suas barbas roçavam umas com as outras.
—Os páos onde estão?... perguntou o cavouqueiro.
—Ali, junto ás pipas ... segredou o Pataca, apontando com disfarce para uma esteira velha enrolada. Preparei-os ainda ha pouco... Não os quiz muito grandes... D'este tamanho.
E abrio a mão contra a terra no logar do peito.—Estiveram de molho até agora ... acrescentou, piscando o olho.
—Bom! approvou Jeronymo, esgotando o copo com um ultimo gole. Agora onde vamos nós? Parece-me ainda cedo para o Garnizé.
—Ainda! confirmou o Pataca. Deixemo-nos ficar por aqui mais um pouco e ao depois então seguiremos. Eu entro no botequim e vocês me esperam fóra no logar que marcarmos... Se o cabra não estiver lá, volto logo a dizer-lhes, e, caso esteja, fico ... chego-me para elle, procuro entrar em conversa, puxo discussão e afinal desafio-o pr'a rua; elle cáe na esparrella, e então vocês dois surgem e mettem-se na dansa, como quem não quer a coisa! Que acham?
—Perfeito! applaudio Jeronymo, e gritou para dentro.—Olha mais um martello de paraty!
Em seguida enterrou a mão no bolso da calça e saccou um rôlo grosso de notas.
—Podem enxugar á vontade! disse. Aqui ainda ha muito com que!
E, ordenando as notas, separou oitenta mil reis, em cedulas de vinte.
—Isto é o do ajuste! Este é sagrado! acrescentou, guardando-as na algibeira do lado esquerdo.
Depois separou ainda vinte mil reis, que atirou sobre a meza.
—Esse ahi é para festejarmos a nossa victoria!
E fazendo do resto do seu dinheiro um bolo, que elle, um pouco ebrio, apertava nos dedos, agora claros e quasi descalejados, socou-o na algibeira do lado direito, explicando entre dentes que ali ficava ainda bastante para o que désse e viesse, no caso de algum contratempo.
—Bravo! exclamou Zé Carlos. Isto é o que se chama fazer as coisas á fidalga! Haja contar comigo pr'a vida e pr'a morte!
O Pataca entendia que podiam tomar agora um pouco de cerveja.
—Cá por mim não quero, mas bebam-na vocês, acudio Jeronymo.
—Preferia um trago de vinho branco, contraveio o terceiro.
—Tudo o que quizerem! franqueou aquelle. Eu tomo tambem um pouco de vinho. Não! que o que estamos a beber não é dinheiro de navalhistas, foi ganho ao sol e á chuva com o suor do meu rosto! E entornar pr'a baixo sem caretas, que este não pesa na consciencia de ninguem!
—Então, á sua! brindou Zé Carlos, logo que veio o novo reforço. Pr'a que não torne você a dar que fazer á má casta dos boticarios!
—Á sua, mestre Jeronymo! concorreu o outro. Jeronymo agradeceu e disse, depois de mandar encher os copos:
—Aos amigos e patricios com quem me achei para o meu desforço!
E bebeu.
—Á da Sóra Piedade de Jesus! reclamou o Pataca.
—Obrigado! respondeu o cavouqueiro, erguendo-se. Bem! Não nos deixemos agora ficar aqui toda a noite; mãos á obra! São quasi oito horas.
Os outros dois esvaziaram de um trago o que ainda havia no fundo dos copos e levantaram-se tambem.
—É muito cedo ainda ... obtemperou Zé Carlos, cuspindo de esguelha e limpando o bigode nas costas da mão.
—Mas talvez tenhamos alguma demora pelo caminho, advertio o companheiro, indo buscar junto ás pipas o embrulho dos cacetes.
—Em todo o caso vamos seguindo, resolveu. Jeronymo, impaciente, nem se temesse que a noite lhe fugisse de subito.
Pagou a despeza, e os tres sahiram, não cambaleando, mas como que empurrados por um vento forte, que os fazia de vez em quando dar para frente alguns passos mais rapidos. Seguiram pela rua de Sorocaba e tomaram depois a direcção da praia, conversando em voz baixa, muito excitados. Só pararam perto do Garnizé.
—Vais tu então, não é? perguntou o cavouqueiro ao Pataca.
Este respondeu entregando-lhe o embrulho dos páos e afastando-se de mãos nas algibeiras, a olhar para os pés, fingindo-se mais bebado do que realmente estava.
XV
O Garnizé tinha bastante gente essa noite. Em volta de umas doze mezinhas toscas, de páo, com uma coberta de folha de Flandres pintada de branco fingindo marmore, viam-se grupos de tres e quatro homens, quasi todos em mangas de camisa, fumando e bebendo no meio de grande algazarra. Fazia-se largo consumo de cerveja nacional, vinho virgem, paraty e laranginha. No chão coberto de areia havia cascas de queijo de Minas, restos de iscas de figado, espinhas de peixe, dando idéa de que ali não só se enxugava como tambem se comia. Com effeito, mais para dentro, n'um engordurado bufete, junto ao balcão e entre as prateleiras de garrafas cheias e arrolhadas, estava um travessão de assado com batatas, um osso de presunto e varios pratos de sardinhas fritas. Dois candieiros de kerozene fumegavam, encarvoando o tecto. E de uma porta ao fundo, que escondia o interior da casa com uma cortina de chita vermelha, vinha de vez em quando uma baforada de vozes roucas, que parecia morrer em caminho, vencida por aquella densa atmosphera cor de opala.
O Pataca estacou á entrada, affectando grande bebedeira e procurando com disfarce, em todos os grupos, ver se descobria o Firmo. Não o conseguio; mas alguem, em certa meza, lhe chamára a attenção, porque elle se dirigio para lá. Era uma mulatinha magra, mal vestida, acompanhada por uma velha quasi cega e mais um homem, inteiramente calvo, que soffria de asthma e, de quando em quando, abalava a meza com um frouxo de tosse, fazendo dansar os copos.
O Pataca bateu no hombro da rapariga.
—Como vais tu, Florinda?
Ella olhou para elle, rindo; disse que ia bem, e perguntou-lhe como passava.
—Róla-se, filha. Tu que fim levaste? Ha um par de quinze dias que te não vejo!
—É mesmo. Desde que estou com seu Bento não tenho sahido quasi.
—Ah! disse o Pataca, estas amigada? Bom!...
—Sempre estive!
E ella então, muito expansiva com a sua folga d'aquelle domingo e com o seu bocado de cerveja, contou que, no dia em que fugio da estalagem, ficou na rua e dormio n'umas obras de uma casa em construcção na travessa da Passagem, e que no seguinte, offerecendo-se de porta em porta, para alugar-se de criada ou de ama secca, encontrou um velho solteiro e agebado que a tomou ao seu serviço e metteu-se com ella.
—Bom! muito bom! annuio Pataca.
Mas o diabo do velho era um safado; dava-lhe muita coisa, dinheiro até, trazia-a sempre limpa e de barriga cheia; sim senhor! mas queria que ella se prestasse a tudo! Brigaram. E, como o vendeiro da esquina estava sempre a chamal-a para casa, um bello dia arribou, levando o que apanhára ao velho.
—Estás então agora com o da venda?
Não! O tratante, a pretexto de que desconfiava d'ella com o Bento marceneiro, pôl-a na rua, chamando a si o que a pobre de Christo trouxéra da casa do outro e deixando-a só com a roupa do corpo e ainda por cima doente por causa de um aborto que tivera logo que se mettêra com semelhante peste. O Bento tomára-a então á sua conta, e ella, graças a Deus, por em quanto não tinha razões de queixa.
O Pataca olhou em torno de si com o ar de quem procura alguem, e Florinda, suppondo que se tratava do seu homem, accrescentou:
—Não está cá, está lá dentro. Elle, quando joga, não gosta que eu fique perto; diz que encabula.
—E tua mãe?
—Coitada! foi pr'o hospicio...
E passou logo a fallar a respeito da velha Marcianna; o Pataca, porém, já lhe não prestava attenção, porque n'esse momento acabava de abrir-se a cortina vermelha, e Firmo surgia muito ebrio, a dar bordos, contando, sem conseguir, uma massagada de dinheiro, em notas pequenas, que elle afinal entrouxou n'um bolo e recolheu na algibeira das calças.
—Ó Porfiro! não vens? gritou lá para dentro, arrastando a voz.
E, depois de esperar inutilmente pela resposta, fez alguns passos na sala.
O Pataca deu á Florinda um «até logo» rapido e, fingindo-se de novo muito bebado, encaminhou-se na direcção em que vinha o mulato.
Esbarraram-se.
—Oh! Oh! exclamou o Pataca. Desculpe!
Firmo levantou a cabeça e encarou-o com arrogancia; mas desfranzio o rosto logo que o reconheceu.
—Ah! és tu, seu gallego? Como vai isso? A ladroeira corre?
—Ladroeira tinha a avó na cuia! Anda a tomar alguma coisa. Queres?
—Que ha de ser?
—Cerveja. Vai?
—Vá lá.
Chegaram-se para o balcão.
—Uma Guarda velha, ó pequeno! gritou o Pataca.
Firmo puxou logo dinheiro para pagar.
—Deixa! disse o outro. A lembrança foi minha!
Mas, como o Firmo insistisse, consentio-lhe que fizesse a despeza.
E os nikeis do troco rolaram no chão, fugindo por entre os dedos do mulato, que os tinha duros na tensão muscular da sua embriaguez.
—Que horas são? perguntou Pataca, olhando quasi de olhos fechados o relogio da parede. Oito e meia. Vamos a outra garrafa, mas agora pago eu!
Beberam de novo, e o coadjutor de Jeronymo, observou depois: Você hoje ferrou-a devéras! Estás que te não podes lamber!
—Desgostos ... resmungou o capoeira, sem conseguir lançar da bocca a saliva que se lhe grudava á lingua.
—Limpa o queixo que estás cuspido. Desgostos de que? Negocio de mulher, aposto!
—A Rita não me appareceu hoje, sabes? Não foi, e eu bem calculo porque!
—Porque?
—Porque a peste do Jeronymo voltou hoje á estalagem!
—Ah! Não sabia!... A Rita está então com elle?...
—Não está, nem nunca ha de estar, que eu d'aqui mesmo vou á procura d'aquelle gallego ordinario e ferro-lhe a sardinha no pandulho!
—Vieste armado?
Firmo saccou da camisa uma navalha.
—Esconde! não deves mostrar isso aqui! Aquella gente ali da outra meza já não nos tira os olhos de cima!
—Estou me ninando pr'a elles! E que não olhem muito, que lhes dou uma de amostra!
—Entrou um urbano! Passa-me a navalha!
O capadocio fitou o companheiro, estranhando o pedido.
—E que, explicou aquelle, se te prenderem não te encontram ferro...
—Prender a quem? a mim? Ora, vai-te calar!
—E ella é boa? Deixa ver!
—Isto não é coisa que se deixe ver!
—Bem sabes que não me entendo com armas de barbeiro!
—Não sei! Esta é que não me sae das unhas, nem para meu pai, que a pedisse!
—É porque não tens confiança em mim!
—Confio nos meus dentes, e esses mesmos me mordem a lingoa!
—Sabes quem vi ainda ha pouco? Não és capaz de adivinhar!...
—Quem?
—A Rita.
—Onde?
—Ali na praia da Saudade.
—Com quem?
—Com um typo que não conheço...
Firmo levantou-se de improviso e cambaleou para o lado da sahida.
—Espera! rosnou o outro, detendo-o. Se queres vou comtigo; mas é preciso ir com geito, porque, se ella nos bispa, foge!
O mulato não fez caso d'esta observação e sabio a esbarrar-se por todas as mezas. Pataca alcançou-o já na rua e passou-lhe o braço na cintura, amigavelmente.
—Vamos de vagar... disse; senão o passaro se arisca!
A praia estava deserta. Cahia um chuvisco. Ventos frios sopravam do mar. O ceu era um fundo negro, de uma só tinta; do lado opposto da bahia os lampeões pareciam surgir d'agoa, como algas de fogo, mergulhando bem fundo as suas tremulas raizes luminosas.
—Onde está ella? perguntou o Firmo, sem se aguentar nas pernas.
—Ali mais adiante, perto da pedreira. Caminha, que has de ver!
E continuaram a andar para as bandas do hospicio. Mas dois vultos surdiram da treva; o Pataca reconheceu-os e abraçou-se de improviso ao mulato.
—Segurem-lhe as pernas! gritou para os outros.
Os dois vultos, pondo o cacete entre os dentes, apoderaram-se de Firmo, que bracejava seguro pelo tronco.
Deixára-se agarrar—estava perdido.
Quando Pataca o vio preso pelos sovacos e pela dobra dos joelhos, sacou-lhe fóra a navalha.
—Prompto! Está desarmado!
E tomou tambem o seu páo.
Soltaram-no então. O capoeira, mal tocou com os pés em terra, desferio um golpe com a cabeça, ao mesmo tempo que a primeira cacetada lhe abria a nuca. Deu um grito e voltou-se cambaleando. Uma nova páulada cantou-lhe nos hombros, e outra em seguida nos rins, e outra nas coxas, outra mais violenta quebrou-lhe a clavicula, emquanto outra logo lhe rachava a testa e outra lhe apanhava a espinha, e outras, cada vez mais rapidas, batiam de novo nos pontos já espancados, até que se converteram n'uma carga continua de porretadas, a que o infeliz não resistio, rolando no chão, a gottejar sangue de todo o corpo.
A chuva engrossava. Elle agora, assim, debaixo d'aquelle bate-bate sem tregoas, parecia muito menor, mingoava como se estivesse ao fogo. Lembrava um rato morrendo a páo. Um ligeiro tremor convulsivo era apenas o que ainda lhe denunciava um resto de vida. Os outros tres não diziam palavra, arfavam, a bater sempre, tomados de uma irresistivel vertigem de pizar bem a cacete aquella trouxa de carne molle e ensanguentada, que grunhia frouxamente a seus pés. Afinal, quando de todo já não tinham forças para bater ainda, arrastaram a trouxa até a ribanceira da praia e lançaram-na ao mar. Depois, arquejantes, deitaram a fugir, á tôa, para os lados da cidade.
Chovia agora muito forte. Só pararam no Cattete, ao pé de um kiosque; estavam encharcados; pediram paraty e beberam como quem bebe agoa. Passava já de onze horas. Desceram pela praia da Lapa; ao chegarem debaixo de um lampeão, Jeronymo parou, suando apezar do agoaceiro que cahia.
—Aqui têm vocês, disse, tirando do bolso as quatro notas de vinte mil reis. Duas para cada um! E agora vamos tomar qualquer coisa quente em logar secco.
—Ali ha um botequim, indicou o Pataca, apontando a rua da Gloria.
Subiram por uma das escadinhas que ligam essa rua á praia, e d'ahi a pouco installavam-se em volta de uma meza de ferro. Pediram de comer e de beber e puzeram-se a conversar em voz soturna, muito cansados.
A uma hora da madrugada o dono do café pôl-os fóra. Felizmente chovia menos. Os tres tomaram de novo a direcção de Botafogo; em caminho Jeronymo perguntou ao Pataca se ainda tinha comsigo a navalha do Firmo e pedio-lh'a, ao que o companheiro cedeu sem objecção.
—É para conservar uma lembrança d'aquelle bisborria! explicou o cavouqueiro, guardando a arma.
Separaram-se defronte da estalagem. Jeronymo entrou sem ruido; foi até á casa, espiou pelo buraco da fechadura; havia luz no quarto de dormir; comprehendeu que a mulher estava á sua espera, acordada talvez; pensou sentir, vindo lá de dentro, o bodum azedo que ella punha de si, fez uma careta de nojo e encaminhou-se resolutamente para a casa da mulata, em cuja porta bateu devagarinho.
Rita, essa noite, recolhêra-se afflicta e assustada. Deixára de ir ter com o amante e mais tarde admirava-se como fizera semelhante imprudencia; como tivera coragem de pôr em pratica, justamente no momento mais perigoso, uma coisa que ella, até ahi, não se sentira com animo de praticar. No intimo respeitava o capoeira; tinha-lhe medo. Amára-o a principio por affinidade de temperamento, pela irresistivel connexão do instincto luxurioso e canalha que predominava em ambos, depois continuou a estar com elle por habito, por uma especie de vicio que amaldiçoamos sem poder largal-o; mas desde que Jeronymo propendeu para ella, fascinando-a com a sua tranquilla seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferio no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo ás imposições mesologicas, enfarava a esposa, sua congenere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, era a volupia, era o fructo doirado e acre d'estes sertões americanos, onde a alma de Jeronymo aprendeu lascivias de macaco e onde seu corpo porejou o cheiro sensual dos bodes.
Amavam-se brutalmente, e ambos sabiam d'isso. Esse amor irracional e empirico carregára-se muito mais, de parte a parte, com o tragico incidente da lucta, em que o portuguez fôra victima. Jeronymo aureolou-se aos olhos d'ella com uma sympathia de martyr sacrificado á mulher que ama; cresceu com aquella navalhada; illuminou-se com o seu proprio sangue derramado; e, depois, a ausencia no hospital veio completar a crystallisação do seu prestigio, como se o cavouqueiro houvera baixado a uma sepultura, arrastando atraz de si a saudade dos que o choravam.
Entretanto, o mesmo phenomeno se operava no espirito de Jeronymo com relação á Rita: arriscar espontaneamente a vida por alguem é aceitar um compromisso de ternura, em que empenhamos alma e coração; a mulher por quem fazemos tamanho sacrificio, seja ella quem fôr, assume de um só vôo em nossa phantasia ás proporções de um ideal. O desterrado, á primeira troca de olhares com a bahiana, amou-a logo, porque sentio n'ella o resumo de todos os quentes mysterios que o enleiaram voluptuosamente n'estas terras da luxuria; amou-a muito mais quando teve occasião de jogar a existencia por esse amor, e amou-a loucamente durante a triste e dolorosa solidão da enfermaria, em que os seus gemidos e suspiros eram todos para ella.
A mulata bem que o comprehendeu, mas não teve animo de confessar-lhe que tambem morria de amores por elle; receiou prejudical-o. Agora, com aquella loucura de faltar á entrevista justamente no dia em que Jeronymo voltava á estalagem, a situação parecia-lhe muito melindrosa. Firmo, desesperado com a ausencia d'ella, embebedava-se naturalmente e vinha ao cortiço provocar o cavouqueiro; a briga rebentaria de novo, fatal para um dos dois, se é que não seria para ambos. Do que ella sentira pelo navalhista persistia agora apenas o medo, não como elle era d'antes, indeterminado e frouxo, mas ao contrario, sobresaltado, nervoso, cheio de apprehensões que a punham afflicta. Firmo já lhe não apparecia no espirito como um amante ciumento e perigoso, mas como um simples facinora, armado de uma velha navalha desleal e homicida. O seu medo transformava-se em uma mistura de asco e terror. E, sem achar só cego na cama, deixava-se atordoar pelos seus presentimentos, quando ouvio bater na porta.
—É elle! disse, com o coração a saltar.
E via já de fronte de si o Firmo, bebado, a reclamar o Jeronymo aos berros, para esfaqueal-o ali mesmo. Não respondeu ao primeiro chamado; ficou escutando.
Depois de uma pausa bateram de novo.
Ella estranhou o modo pelo qual batiam. Não era natural que o facinora procedesse com tanta prudencia. Ergueu-se, foi á janella, abrio uma das folhas e espreitou pelas rotulas.
—Quem está ahi?... perguntou á meia voz.
—Sou eu ... disse Jeronymo, chegando-se.
Reconheceu-o logo e correu a abrir.
—Como?! É você, Jeromo?
—Schit! fez elle, pondo o dedo na bocca. Falla baixo. Rita começou a tremer: no olhar do portuguez, nas suas mãos encardidas de sangue, no seu todo de homem ebrio, encharcado e sujo, havia uma terrivel expressão de crime.
—D'onde vens tu?... segredou ella.
—De cuidar da nossa vida... Ahi tens a navalha com que fui ferido!
E atirou-lhe sobre a meza a navalha de Firmo, que a mulata conhecia como as palmas da mão.
—E elle?
—Está morto.
—Quem o matou?
—Eu.
Calaram-se ambos.
—Agora ... acrescentou o cavouqueiro, no fim de um silencio arquejado por ambos; estou disposto a tudo para ficar comtigo. Sahiremos os dois d'aqui para onde melhor fôr... Que dizes tu?
—E tua mulher?...
—Deixo-lhe as minhas economias de muito tempo e continuarei a pagar o collegio á pequena. Sei que não devia abandonal-a, mas pódes ter como certo que, ainda que não queiras vir commigo, não ficarei com ella! Não sei! já não a posso supportar! Um homem enfára-se! Felizmente minha caixa de roupa está ainda na Ordem e posso ir buscal-a pela manhã.
—E para onde iremos?
—O que não falta é pr'onde ir! Em qualquer parte estaremos bem. Tenho aqui sobre mim uns quinhentos mil réis, para as primeiras despezas. Posso ficar cá até ás cinco horas; são duas e meia; saio sem ser visto por Piedade; mando-te ao depois dizer o que arranjei, e tu irás ter commigo... Está dito? Queres?
Rita, em resposta, atirou-se ao pescoço d'elle e pendurou-se-lhe nos labios, devorando-o de beijos.
Aquelle novo sacrificio do portuguez; aquella dedicação extrema que o levava a arremeçar para o lado familia, dignidade, futuro, tudo, tudo por ella, enthusiasmou-a loucamente. Depois dos sobresaltos d'esse dia e d'essa noite, seus nervos estavam afiados e toda ella electrica.
Ah! não se tinha enganado! aquelle homemzarrão herculeo, de musculos de touro, era capaz de todas as meiguices do carinho.
—Então? insistio-elle.
—Sim, sim, meu captiveiro! respondeu a bahiana, fallando-lhe na bocca; eu quero ir comtigo; quero ser a tua mulata, o bem do teu coração! Tu és os meus feitiços!
E apalpando-lhe o corpo:—Mas como estás ensopado! Espera! espera! o que não falta aqui é roupa de homem pr'a mudar!... Podias ter uma recahida, cruzes! Tira tudo isso que está alagado! Eu vou accender o fogareiro e estende-se em cima o que é casimira, para te poderes vestir ás cinco horas. Tira as botas! Olha o chapéo como está! Tudo isto secca! Tudo isto secca! Mira, toma já um golle de paraty pr'atalhar a friage! Depois passa em todo o corpo. Eu vou fazer café!
Jeronymo bebeu um bom trago de paraty, mudou de roupa e deitou-se na cama de Rita.
—Vem pr'a cá ... disse, um pouco rouco.
—Espera! espera! O café está quasi prompto!
E ella só foi ter com elle, levando-lhe a chave na fumegante da perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores; assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos o pires e com a outra a chicara, ajudava-o a beber, golle por golle, emquanto seus olhos o acarinhavam, scintillantes de impaciencia no antegoso d'aquelle primeiro enlace.
Depois, atirou fóra a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu amado, n'um frenezi de desejo doido.
Jeronymo, ao sentil-a inteira nos seus braços; ao sentir na sua pelle a carne quente d'aquella brasileira; ao sentir innundar-lhe o rosto e as espaduas, n'um effluvio de baunilha e cumarú, a onda negra e fria da cabelleira da mulata: ao sentir esmagarem-se no seu largo e pelludo collo de cavouqueiro os dois globos tumidos e macios, e nas suas coxas as coxas d'ella; sua alma derreteu-se, fervendo e borbolhando como um metal ao fogo, e sahio-lhe pela bocca, pelos olhos, por todos os póros do corpo, escandescente, em braza, queimando-lhe as proprias carnes e arrancando-lhe gemidos surdos, soluços irrepremiveis, que lhe sacudiam os membros, fibra por fibra, n'uma agonia extrema, sobrenatural, uma agonia de anjos violentados por diabos, entre a vermelhidão cruenta das labaredas do inferno.
E com um arranco de besta féra cahiram ambos prostados, arquejando. Ella tinha a bocca aberta, a lingoa fóra, os braços duros, os dedos inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés, continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que elle, de subito arremeçado longe da vida por aquella explosão inesperada dos seus sentidos, deixava-se mergulhar n'uma embriaguez deliciosa, atravez da qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como sombras fatuas. E, sem consciencia de nada que o cercava, nem memoria de si proprio, sem olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas conservava em todo o seu ser uma impressão bem clara, viva, inextinguivel: o attrito d'aquella carne quente e palpitante, que elle em delirio apertou contra o corpo, e que elle ainda sentia latejar-lhe debaixo das mãos, e que elle continuava a comprimir machinalmente, como a criança que, já dormindo, affaga ainda as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.
XVI
A essas horas Piedade de Jesus ainda esperava pelo marido.
Ouvíra, assentada impaciente á porta de sua casa, darem oito horas, oito e meia; nove, nove e meia. «Que teria acontecido, Mãe Santissima ... Pois o homem ainda não estava prompto de todo e punha-se ao fresco, mal engolira o jantar, para demorar-se d'aquelle modo?... Elle que nunca fôra capaz de semelhantes tonteiras!...»
—Dez horas! Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo!
Foi até ao portão da estalagem, perguntou a conhecidos que passavam se tinham visto Jeronymo; ninguem dava noticias d'elle. Sahio, correu á esquina da rua; um silencio de cansaço bocejava n'aquelle resto de domingo; ás dez e meia recolheu-se sobresaltada, com o coração a sahir-lhe pela garganta, o ouvido alerta, para que ella acudisse ao primeiro toque na porta; deitou-se sem tirar a saia, nem apagar de todo o candieiro. A ceia frugal de leite fervido e queijo assado com assucar e manteiga ficou intacta sobre a meza.
Não conseguio dormir: trabalhava-lhe a cabeça, afastando para longe o somno. Começou a imaginar perigos, rôlos, em que o seu homem recebia novas navalhadas; Firmo figurava em todas as scenas do delirio; em todas ellas havia sangue. Afinal, quando, depois de muito virar de um para outro lado do colchão, a infeliz ia cahindo em modorra, o mais leve rumor lá fóra a fazia erguer-se de pulo e correr á rotula da janella. Mais não era o cavouqueiro, da primeira, nem da segunda, nem de nenhuma das vezes.
Quando principiou a chover, Piedade ficou ainda mais afflicta; na sua sobre excitação afigurava-se-lhe agora que o marido estava sobre as agoas do mar, embarcado, entregue unicamente á protecção da Virgem, em meio de um temporal medonho. Ajoelhou-se defronte do oratorio e rezou com a voz emmaranhada por uma agonia suffocadora. A cada trovão redobrava o seu sobresalto. E ella, de joelhos, os olhos fitos na imagem de Nossa Senhora, sem consciencia do tempo que corria, arfava soluçando. De repente, ergueu-se, muito admirada de se ver sozinha, como se só n'aquelle instante déra pela falta do marido a seu lado. Olhou em torno de si, espavorida, com vontade de chorar, de pedir soccorro; as sombras espichadas em volta do candieiro, tracejando tremulas pelas paredes e pelo tecto, pareciam querer dizer-lhe alguma coisa mysteriosa. Um par de calças, dependurado á porta do quarto, com um paletó e um chapéo por cima, representou-lhe de relance o vulto de um enforcado, a mexer com as pernas. Benzeu-se. Quiz saber que horas eram e não poude; afigurava-se-lhe terem decorrido já tres dias pelo menos durante aquella afflicção. Calculou que não tardaria a amanhecer, se é que ainda amanheceria; se é que aquella noite infernal não se fosse prolongando infinitamente, sem nunca mais apparecer o sol! Bebeu um copo d'agoa, bem cheio, apezar de haver pouco antes tomado outro, e ficou immovel, de ouvido attento, na espectativa de escutar as horas de algum relogio da visinhança.
A chuva diminuíra e os ventos principiavam a soprar com desespero. Lá de fóra a noite dizia-lhe segredos pelo buraco da fechadura e pelas frinchas do telhado e das portas; a cada assobio a misera julgava ver surgir um espectro que vinha contar-lhe a morte de Jeronymo. O desejo impaciente de saber que horas eram punha-a doida; foi á janella, abrio-a; uma rajada humida entrou na sala, esfuziando, e apagou a luz. Piedade soltou um grito e começou a procurar a caixa de phosphoros, aos esbarrões, sem conseguir reconhecer os objectos que tacteava. Esteve a perder os sentidos; afinal achou os phosphoros, accendeu de novo o candieiro e fechou a janella. Entrára-lhe um pouco de chuva em casa; sentio a roupa molhada no corpo; tomou um novo copo d'agoa; um calafrio de febre percorreu-lhe a espinha, e ella atirou-se para a cama, batendo o queixo, e metteu-se debaixo dos lençóes, a tiritar de febre. Veio de novo a modorra, fechou os olhos; mas ergueu-se logo, assentando-se no colchão: parecia lhe ter ouvido alguem fallar lá fóra, na rua; o calafrio voltou; ella, tremula, procurava escutar. Se se não enganava, distinguira vozes abafadas, conversando, e as vozes eram de homem; deixou-se ficar á escuta, concheando a mão atraz da orelha; depois ouvio baterem, não na sua porta, mas lá muito mais para adiante, na casa da das Dôres, da Rita, ou da Augusta. «Devia ser o Alexandre que voltava do serviço...» Quiz ir ter com elle e pedir-lhe noticias de Jeronymo, o calafrio porém obrigou-a a ficar debaixo das cobertas.
Ás cinco horas levantou-se de novo com um salto. «Já havia gente lá fóra com certeza!...» Ouvira ranger a primeira porta; abrio a janella, mas ainda estava tão escuro que se não distinguia patavina. Era uma preguiçosa madrugada de Agosto, nebulosa, humida; parecia disposta a resistir ao dia. «Ó senhores! aquella noite dos diachos não acabaria nunca mais?...» Entretanto, adivinhava-se que ia amanhecer. Piedade ouvio dentro do pateo, do lado contrario á sua casa, um zum-zum de duas vozes cochichando com interesse. «Virgem do céo! dir-se-ia a voz do seu homem! E a outra era voz de mulher, credo! Illusão sua com certeza! ella essa noite estava para ouvir o que não se dava...» Mas aquelles cochichos dialogados na escuridão causavam-lhe extremo alvoroço. «Não! Como poderia ser elle?... Que loucura! se o homem estivesse ali teria sem duvida procurado a casa!...» E os cochichos persistiam emquanto Piedade, toda ouvidos, estalava de agonia.
—Jeromo! gritou ella.
As vozes calaram-se logo, fazendo o silencio completo; depois nada mais se ouvio.
Piedade ficou á janella. As trevas dissolveram-se afinal; uma claridade triste formou-se no nascente e foi, a pouco e pouco, se derramando pelo espaço. O ceu era uma argamassa cinzenta e gorda. O cortiço acordava com o remancho das segundas feiras; ouviam-se os pigarros das resacas de paraty. As casinhas abriam-se; vultos espreguiçados vinham bocejando fazer a sua lavagem á bica; as chaminés principiavam a fumegar; rescendia o cheiro do café torrado.
Piedade atirou um chale em cima dos hombros e sahio ao pateo; a Machona, que acabava de apparecer á porta do numero 7 com um berro para acordar a familia de uma só vez, gritou-lhe:
—Bons dias, visinha! Seu marido como vai? melhor?
Piedade soltou um suspiro.
—Ai, não m'o porgunte, sóra Leandra!
—Peiorou, filha?
—Não veio esta noite pr'a casa...
—Olha o demo! Como não veio? Onde ficou elle então?
—Cá está quem não lh'o sabe responder.
—Ora já se vio?!
—Estou com o miolo que é agoa de bacalháo! Não preguei olho durante a noite! Forte desgraça a minha!
—Teria-lhe succedido alguma?...
Piedade pôz-se a soluçar, enxugando as lagrimas no chale de lã; ao passo que a outra, com a sua voz rouca e forte, que nem o som de uma trompa enferrujada, passava adiante a nova de que o Jeronymo não se recolhera aquella noite á estalagem.
—Talvez voltasse pr'o hospital ... obtemperou Augusta, que lavava junto a uma tina a gaiola do seu papagaio.
—Mas elle hontem veio de muda ... contrapoz Leandra.
—E lá não se entra depois das oito horas da noite, acrescentou outra lavadeira.
E os commentarios multiplicavam-se, palpitando de todos os lados, n'uma boa disposição para fazer d'aquillo o escandalo do dia. Piedade respondia friamente ás perguntas curiosas que lhe dirigiam as companheiras; estava triste e succumbida; não se lavou, não mudou de roupa, não comeu nada, porque a comida lhe crescia na bocca e não lhe passava da garganta; o que fazia só era chorar e lamentar-se.
—Forte desgraça a minha! repetia a infeliz a cada instante.
—Se vais assim, filha, estás bem arranjada! exclamou-lhe a Machona, chegando á porta de sua casa a dar dentadas num pão recheado de manteiga. Que diabo, creatura! O homem não te morreu, pr'a estares agora ahi a carpir d'esse modo!
—Sei-o eu lá se me morreu?... disse Piedade entre soluços. Vi tanta coisa esta noite!...
—Elle te appareceu nos sonhos?... perguntou Leandra com assombro.
—Nos sonhos não, que não dormi, mas vi a modos que phantasmas...
E chorava.
—Ai, credo, filha!
—Estou desgraçada!
—Se te appareceram almas, de certo; mas põe a fé em Deus, mulher! e não te rales d'esse modo, que a desgraça pode ser maior! O choro puxa muita coisa!
—Ai, o meu rico homem!
E o mugido lugubre d'aquella pobre creatura abandonada antepunha á rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vacca chamando ao longe, perdida ao cahir da noite n'um logar desconhecido e agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta á outra da estalagem; ria-se, cantava-se, soltava-se a lingua; o formigueiro assanhava-se com as compras para o almoço; os mercadores entravam e sahiam: a machina de massas principiava a bufar. E Piedade, assentada á soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a hora em que sahíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo, n'aquelle limiar de granito, onde ella, tantas vezes, com a cabeça encostada ao hombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na guitarra d'elle os queridos fados de além mar.
E Jeronymo não apparecia.
Ella ergueu-se finalmente, foi lá fóra ao capinzal, pôz-se a andar agitada, fallando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de desespero, quando levantava para o ceu os punhos fechados, dir-se-ia que não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquella amaldiçoada luz allucinadora, contra aquelle sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e mettia-lhes no corpo luxurias de bode. Parecia rebellar-se contra aquella natureza alcoviteira, que lhe roubára o seu homem para dal-o a outra, porque a outra era gente do seu peito e ella não.
E maldizia soluçando a hora em que sahira da sua terra; essa boa terra cansada, velha, como que enferma; essa boa terra tranquilla, sem sobresaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e melancolicos, de um verde aloirado e quieto, e não ardentes e esmeraldinos e affogados em tanto sol e em tanto perfume como os d'este inferno, onde em cada folha que se pisa ha debaixo um reptil venenoso, como em cada flôr que desabotôa e em cada moscardo que adeja ha um virus de lascivia. Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouviam em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao romper do dia, rilhava o bando truculento dos queixadas; lá não varava pelas florestas a anta feia e terrivel, quebrando arvores; lá a sucurujú não chocalhava a sua campainha funebre, annunciando a morte, nem a coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciume de um capoeira; lá Jeronymo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e meigo, seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que á tarde levanta para o ceu de opala o seu olhar humilde, compungido e biblico.
Maldita a hora em que ella veio! Maldita! mil vezes maldita!
E tornando á casa, Piedade ainda mais se enraivecia, porque ali defronte, no numero 9, a mulata bahiana, a dansadeira de chorado, a cobra assanhada, cantava alegremente, chegando de vez em quando á janella para vir soprar fóra a cinza da fornalha do seu ferro de engommar, olhando de passagem para a direita e para a esquerda, a affectar indifferença pelo que não era de sua conta, e desapparecendo logo, sem interromper a cantiga, muito embebida no seu serviço. Ah! essa não fez commentarios sobre o estranho procedimento de mestre Jeronymo, nem mesmo quiz ouvir noticias d'elle; pouco arredou o pé de dentro de casa e, n'esse pouco que sahio, foi ás pressas e sem dar trela a ninguem.
Nada! que as penas e desgostos não punham a panella no fogo!
Entretanto, ah! ah! ella estava bem preoccupada. Apezar do allivio que lhe trouxera ao espirito a morte do Firmo e a despeito do seu contentamento de passar por uma vez aos braços do cavouqueiro, um sobresalto vago e oppressivo esmagava-lhe o coração e matava-a de impaciencia por atirar-se á procura de noticias sobre as occorrencias da noite; tanto assim que, ás onze horas, mal percebeu que Piedade, depois de esperar em vão pelo marido, sahia afflicta em busca d'elle, disposta a ir ao hospital, á policia, ao necroterio, ao diabo, com tanto que não voltasse sem algum esclarecimento, ella atirou logo o trabalho para o canto, enfiou uma saia, crusou o chale no hombro, e ganhou o mundo, tambem disposta a não voltar sem saber tim-tim por tim-tim o que havia de novo.
Foi cada uma para seu lado e só voltaram á tarde, quasi ao mesmo tempo, encontrando o cortiço cheio já e assanhado com a noticia da morte de Firmo e do terrivel effeito que esta causara no Cabeça de Gato, onde o crime era attribuido aos Carapicús, contra os quaes juravam-se extremas vinganças de desaffronta. Soprava de lá, rosnando, um halito morno de colera mal soffrida e sequiosa que crescia com a approximação da noite e parecia sacudir no ar, ameaçadoramente, a irrequieta flamula amarella.
O sol descambava para o ocaso, indefesso e nú, tingindo o ceu de uma vermelhidão presaga e sinistra.
Piedade entrou carrancuda na estalagem; não vinha triste, vinha enfurecida; soubera na rua a respeito do marido mais do que esperava. Soubera em primeiro logar que elle estava vivo, perfeitamente vivo, pois fôra visto aquelle mesmo dia, mais de uma vez, no Garnizé e na praia da Saudade, a vagar macambuzio; soubera, por intermedio de um rondante amigo de Alexandre, que Jeronymo surgira de manhãzinha do capinzal perto da pedreira de João Romão, o que fazia crer viesse elle n'aquelle momento de casa, sahindo pelos fundos do cortiço; soubera ainda que o cavouqueiro fôra á Ordem buscar a sua caixa de roupa e que, na vespera, estivera a beber á farta na venda do Pépé, de sucia com o Zé Carlos e com o Pataca, e que depois seguiram para os lados da praia, todos tres mais ou menos no gole. Sem a menor desconfiança do crime, a desgraçada ficou convencida de que o marido não se recolhera aquella noite á casa, porque ficára em grossa pandega com os amigos e que, voltando tarde e bebado, dera-lhe para metter-se com a mulata, que o aceitou logo. «Pudera! Pois se havia muito a deslambida não queria outra coisa!...» Com esta convicção inchou-lhe de subito por dentro um novello de ciumes, e ella correu incontinenti para a estalagem, certa de que iria encontrar o homem e despejaria contra elle aquella tremenda tempestade de resentimentos e despeitos accumulados, que ameaçavam suffocal-a se não rebentassem de vez. Atravessou o cortiço sem dar palavra a ninguem e foi direito á casa; contava encontral-a aberta e a sua decepção foi cruel ao vel-a fechada como a deixára. Pedio a chave á Machona, que, ao entregal-a, inquirio sobre Jeronymo e pespegou-lhe ao mesmo tempo a noticia do assassinato de Firmo.
Com esta nova é que Piedade não contava. Ficou livida; um pavoroso presentimento varou-lhe o espirito como um raio. Afastou-se logo, com medo de fallar, e foi tremula e offegante que abrio a porta e metteu-se no numero 35.
Atirou-se a uma cadeira. Estava morta de cansaço; não tinha comido nada esse dia e não sentia fome; a cabeça andava-lhe á roda, as pernas pareciam-lhe de chumbo.
Seria elle?!... interrogou a si propria.
E os raciocinios começaram a surdir-lhe em massa, ensarilhados, atropellando-lhe a razão. Não conseguia coordenal-os; entre todas uma idéa insubordinava-se com mais teima, a perturbar as outras, ficando superior, como uma carta maior que o resto do baralho: «Se elle matou o Firmo, dormio na estalagem e não veio ter commigo, é porque então deixou-me de feita pela Rita!»
Tentou fugir a semelhante hypothese; repellio-a indignada. Não! não era possivel que o Jeronymo, seu marido de tanto tempo, o pai de sua filha, um homem a quem ella nunca déra razão de queixa e a quem sempre respeitára e quizera com o mesmo carinho e com a mesma dedicação, a abandonasse de um momento para outro, e por quem?! por uma não sei que diga! um diabo de uma mulata assanhada, que tão depressa era de Pedro como de Paulo! uma sirigaita, que vivia mais para a folia do que para o trabalho! uma peste, que... Não! Qual! Era lá possivel?! Mas então porque elle não viéra?... porque não vinha?... porque não dava noticias suas?... porque fôra pela manhã á Ordem busquar a caixa da roupa?... O Roberto Papa-defuntos dissera-lhe que o encontrara ás duas da tarde ali perto, ao dobrar da rua Bambina, e que até pararam um instante para conversar. Com mais alguns passos teria chegado á casa! Seria possivel, santos do ceu! que o seu homem estivesse disposto a nunca mais tornar para junto d'ella?
Nisto entrou a outra, acompanhada por um pequeno descalço. Vinha satisfeita; estivera com Jeronymo, jantaram juntos, n'uma casa de pasto; ficára tudo combinado; arranjára-se o ninho. Não se mudaria logo para não dar que fallar na estalagem, mas levaria alguma roupa e os objectos mais indispensaveis e que não dessem na vista por occasião do transporte. Voltaria no dia seguinte ao cortiço, onde continuaria a trabalhar; á noite iria ter com o novo amante, e, no fim de uma semana—zaz! fazia-se a mudança completa, e adeus coração!—Por aqui é o caminho! O cavouqueiro, pelo seu lado, mandaria uma carta a João Romão, despedindo-se do seu serviço, e outra á mulher, dizendo com boas palavras que, por uma d'essas fatalidades de que nenhuma creatura está livre, deixava de viver em companhia d'ella, mas que lhe conservaria a mesma estima e continuaria a pagar o collegio da filha; e, feito isto, prompto! entraria em vida nova, senhor da sua mulata, livres e sozinhos, independentes, vivendo um para o outro, n'uma eterna embriaguez de gosos.
Mas, na occasião em que a bahiana, seguida pelo pequeno, passava defronte da porta de Piedade, esta deu um alto da cadeira e gritou-lhe:
—Faz favor?
—Que é? resmungou Rita, parando sem voltar senão o rosto, e já a dizer no seu todo de impaciencia que não estava disposta a muita conversa.
—Diga-me uma coisa, inquerio aquella; você muda-se?
A mulata não contava com semelhante pergunta, assim á queima-roupa; ficou calada sem achar o que responder.
—Muda-se, não é verdade? insistio a outra, fazendo-se vermelha.
—E o que tem você com isso? Mude-me ou não, não lhe tenho de dar satisfações! Metta-se lá com a sua vida! Ora esta!
—Com a minha vida é que te metteste tu, cigana! exclamou a portugueza, sem se conter e avançando para a porta com impeto.
—Hein?! Repete, cutruca ordinaria! berrou a mulata, dando um passo em frente.
—Pensas que já não sei de tudo? Maleficiaste-me o homem e agora carregas-me com elle! Que a má coisa te saiba, cabra do inferno! Mas deixa estar que has de amargar o que o diabo não quiz! quem t'o jura sou eu!
—Pula cá pr'a fóra, perúa chóca, se és capaz!
Em torno de Rita já o povaréo se reunia alvoroçado; as lavadeiras deixaram logo as tinas e vinham, com os braços nús, cheios de espuma de sabão, estacionar ali ao pé, formando roda, silenciosas, sem nenhuma d'ellas querer metter-se no barulho. Os homens riam e atiravam chufas ás duas contendoras, como succedia sempre quando no cortiço qualquer mulher se disputava com outra.
—Isca! Isca! gritavam elles.
Ao desafio da mulata, Piedade saltara ao pateo, armada com um dos seus tamancos. Uma pedrada recebeu-a em caminho, rachando-lhe a pelle do queixo, ao que ella respondeu desfechando contra a adversaria uma formidavel pancada na cabeça.
E pegaram-se logo a unhas e dentes.
Por algum tempo luctaram de pé, engalfinhadas, no meio da grande algazarra dos circumstantes. João Romão acudio e quiz separal-as; todos protestaram. A familia do Miranda assomou á janella, tomando ainda o café de depois do jantar, indifferente, já habituada áquellas scenas. Dois partidos todavia se formavam em torno das luctadoras; quasi todos os brasileiros eram pela Rita e quasi todos os portuguezes pela outra. Discutia-se com febre a superioridade de cada qual dellas; rebentavam gritos de enthusiasmo a cada mossa que qualquer das duas recebia; e estas, sem se desunharem, tinham já arranhões e mordeduras por todo o busto.
Quando menos se esperava, ouvio-se um baque pesado e vio-se Piedade de bruços no chão e a Rita por cima, escarranchada sobre as suas largas ancas, a socar-lhe o cachaço de murros contínuos, desgrenhada, rota, offegante, os cabellos cahidos sobre a cara, gritando victoriosa, com a bocca escorrendo sangue:
—Toma pr'o teu tabaco! Toma, gallinha podre! Toma, pr'a não te metteres commigo! Toma! Toma, baiacú da praia!
Os portuguezes precipitaram-se para tirar Piedade de debaixo da mulata. Os brasileiros oppozeram-se ferozmente.
—Não póde?
—Enche!
—Não deixa!
—Não tira!
—Entra! Entra!
E as palavras «gallego» e «cabra» cruzaram-se do todos os pontos, como bofetadas. Houve um vaváo rapido e surdo, e logo em seguida um formidavel rôlo, um rôlo a valer, não mais de duas mulheres, mas de uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. As cercas e os giráos desappareceram do chão e estilhaçaram-se no ar, estalando em descarga; ao passo que n'uma berraria infernal, n'um fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquella onda viva ia arrastando o que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de planta, tudo rolava entre aquella centena de pernas confundidas e doidas. Das janellas do Miranda apitava-se com furia; da rua, em todo o quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela frente surgia povo e mais povo. O pateo estava quasi cheio; ninguem mais se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças berravam. João Romão, clamando furioso, sentia-se impotente para conter semelhantes demonios. «Fazer rôlo áquella hora, que imprudencia!» Não conseguio fechar as portas da venda, nem o portão da estalagem; guardou ás pressas na burra o que havia em dinheiro na gaveta, e, armando-se com uma tranca de ferro, pôz-se de sentinella ás prateleiras, disposto a abrir o casco ao primeiro que se animasse a saltar-lhe o balcão. Bertoleza, lá dentro na cozinha, apromptava uma grande chaleira de agoa quente, para defender com ella a propriedade do seu homem. E o rôlo a ferver lá fóra, cada vez mais inflammado com um terrivel sopro de rivalidade nacional. Ouviam-se, n'um clamor de pragas e gemidos, vivas a Portugal e vivas ao Brazil. De vez em quando, o povaréo, que continuava a crescer, afastava-se em massa, rugindo de medo, mas tornava logo, como a onda no refluxo dos mares. A policia appareceu e não se achou com animo de entrar, antes de vir um reforço de praças, que um permanente fôra buscar a galope!
E o rôlo fervia.
Mas, no melhor da lucta, ouvio-se na rua um côro de vozes que se approximava das bandas do Cabeça de Gato. Era o canto de guerra dos capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos Carapicús, para vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta.
XVII
Mal os Carapicús sentiram a approximação dos rivaes, um grito de alarma echoou por toda a estalagem e o rôlo dissolveu-se de improviso, sem que a desordem cessasse. Cada qual correu á casa, rapidamente, em busca do ferro, do páo e de tudo que servisse para resistir e para matar. Um só impulso os impellia a todos; já não havia ali brasileiros e portuguezes, havia um só partido que ia ser atacado pelo partido contrario; os que se batiam ainda ha pouco emprestavam armas uns aos outros, limpando com as costas da mão o sangue das feridas. Agostinho, encostado ao lampeão do meio do cortiço, cantava em altos berros uma coisa que lhe parecia responder á musica barbara que entoavam lá fora os inimigos; a mãe déra-lhe licença, a pedido d'elle, para pôr um cinto de Nênêm, em que o pequeno enfiou a faca da cozinha. Um mulatinho franzino, que até ahi não fôra notado por ninguem no São Romão, postou-se defronte da entrada, de mãos limpas, á espera dos invasores; e todos tiveram confiança n'elle, porque o ladrão, além de tudo, estava rindo.
Os Cabeças de Gato assomaram afinal ao portão. Uns cem homens, em que senão via a arma que traziam. Porfiro vinha na frente, a dansar, de braços abertos, bamboleando o corpo e dando rasteiras para que ninguem lhe estorvasse a entrada. Trazia o chapéo á ré, com um laço de fita amarella fluctuando na copa.
—Aguenta! Aguenta! Faz frente! clamavam de dentro os Carapicús.
E os outros, cantando o seu hymno de guerra, entraram e approximaram-se lentamente, a dansar como selvagens.
As navalhas traziam-nas abertas e escondidas na palma da mão.
Os Carapicús enchiam a metade do cortiço. Um silencio arquejado succedia á estrepitosa vozeria do rôlo que findara. Sentia-se o hausto impaciente da ferocidade que atirava aquelles dois bandos de capoeiras um contra o outro. E no emtanto o sol, unico causador de tudo aquillo, desapparecia de todo nos limbos do horizonte, indifferente, deixando atraz de si as melancolias do crepusculo, que é a saudade da terra quando elle se ausenta, levando comsigo a alegria da luz e do calor.
Lá na janella do Barão, o Botelho, enthusiasmado como sempre por tudo que lhe cheirava a guerra, soltava gritos de applauso e dava brados de commando militar.
E os Cabeças de Gato approximavam-se cantando, a dansar, rastejando alguns de costas para o chão, firmados nos pulsos e nos calcanhares.
Dez Carapicús sahiram em frente; dez Cabeças de Gato se alinharam defronte d'elles.
E a batalha principiou, não mais desordenada e cega, porém com methodo, sob o commando de Porfiro que, sempre a cantar ou a assobiar, saltava em todas as direcções, sem nunca ser alcançado por ninguem.
Desferiram-se navalhas contra navalhas, jogaram-se as cabeçadas e os vôa-pés. Par a par, todos os capoeiras tinham pela frente um adversario de igual destreza que respondia a cada investida com um salto de gato ou uma queda repentina que annullava o golpe. De parte a parte esperavam que o cansaço desequilibrasse as forças, abrindo furo á victoria; mas um facto veio neutralisar inda uma vez a campanha: Immenso rebentão de fogo esgargalhava-se de uma das casas do fundo, o numero 88. E agora o incendio era a valer.
Houve nas duas maltas um subito espasmo de terror. Abaixaram-se os ferros e calou-se o hymno de morte. Um clarão tremendo ensanguentou o ar, que se fechou logo de fumaça fulva.
A Bruxa conseguira afinal realisar o seu sonho de louca: o cortiço ia arder; não haveria meio de reprimir aquelle cruento desovar de labaredas. Os Cabeças de Gato, leaes nas suas justas de partido, abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o auxilio de um sinistro e dispostos até a soccorrer o inimigo, se assim fosse preciso. E nenhum dos Carapicús os ferio pelas costas. A lucta ficava para outra occasião. E a scena transformou-se n'um relance; os mesmos que barateavam tão facilmente a vida, apressavam-se agora a salvar os miseraveis bens que possuiam sobre a terra. Fechou-se um entra-e-sáe de maribondos defronte d'aquellas cem casinhas ameaçadas pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao hombro, numa balburdia de doidos. O pateo e a rua enchiam-se agora de camas velhas e colchões espocados. Ninguem se conhecia n'aquelle zumba de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas pela dôr e pelo desespero. Da casa do Barão sahiam clamores apopleticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava com um ataque. E começou a apparecer agoa. Quem a trouxe? Ninguem sabia dizel-o; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chammas.
Os sinos da visinhança começaram a badalar.
E tudo era um clamor.
A Bruxa surgio á janella da sua casa, como a bocca de uma fornalha accesa. Estava horrivel; nunca fôra tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de cabocla velha, reluzia que nem metal em braza; a sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como a das egoas selvagens, dava-lhe um caracter phantastico de furia sabida do inferno. E ella ria-se, ebria de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, victoriosa no meio d'aquella orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em segredo a sua alma extravagante de maluca.
Ia atirar-se cá para fóra, quando se ouvio estalar o madeiramento da casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca n'um montão de brazas.
Os sinos continuavam a badalar afflictos. Surgiram agoadeiros com as suas pipas em carroça, alvoroçados, fazendo cada qual maior empenho em chegar antes dos outros e apanhar os dez mil reis da gratificação. A policia defendia a passagem ao povo que queria entrar. A rua lá fóra estava já atravancada com o despojo de quasi toda a estalagem. E as labaredas iam galopando desembestadas para a direita e para a esquerda do numero 88. Um papagaio, esquecido á parede de uma das casinhas e preso á gaiola, gritava furioso, como se pedisse soccorro.
Dentro de meia hora o cortiço tinha de ficar em cinzas. Mas um fragor de repiques de campainhas e estridente silvar de valvulas encheu de subito todo o quarteirão, annunciando que chegava o corpo dos bombeiros.
E logo em seguida apontaram carros á desfilada, e um bando de demonios de blusa clara, armados uns de archotes e outros de escadinhas de ferro, apoderaram-se do sinistro, dominando-o incontinenti, com uma expedição magica, sem uma palavra, sem hesitações e sem atropellos. A um só tempo viram-se fartas mangas d'agoa chicoteando o fogo por todos os lados; emquanto, sem se saber como, homens, mais ageis que macacos, escalavam os telhados abrazados por escadas que mal se distinguiam; e outros invadiam o coração vermelho do incendio, a dardejar duchas em torno de si, rodando, saltando, piruetando, até estrangularem as chammas que se atiravam ferozes para cima d'elles, como dentro de um inferno; ao passo que outros, cá de fóra, imperturbaveis, com uma limpeza de machina moderna, fusilavam d'agoa toda a estalagem, numero por numero, resolvidos a não deixar uma só telha enxuta.
O povo applaudia-os enthusiasmado, já esquecido do desastre e só attenção para aquelle duello contra o incendio. Quando um bombeiro, de cima do telhado, conseguio suffocar uma ninhada de labaredas, que surgira defronte d'elle, rebentou cá de baixo uma roda de palmas, e o heróe voltou-se para a multidão, sorrindo e agradecendo.
Algumas mulheres atiravam-lhe beijos, entre brados de ovação.
XVIII
Por esse tempo, o amigo de Bertoleza, notando que o velho Liborio, depois de escapar de morrer na confusão do incendio, fugia agoniado para o seu esconderijo, seguio-o com disfarce e observou que o miseravel, mal deu luz á candeia, começou a tirar offegante alguma coisa do seu colchão immundo.
Eram garrafas. Tirou a primeira, a segunda, meia duzia d'ellas. Depois puxou ás pressas a coberta do catre e fez uma trouxa. Ia de novo ganhar a sahida, mas soltou um gemido surdo e cahio no chão sem forças arrevessando uma golfada de sangue e cingindo contra o peito o mysterioso embrulho.
João Romão appareceu, e elle, assim que o vio, redobrou de afflicção e torceu-se todo sobre as garrafas, defendendo-as com o corpo inteiro, a olhar aterrado e de esguelha para o seu interventor, como se déra cara a cara com um bandido. E, a cada passo que o vendeiro adiantava, o tremor e o sobresalto do velho recresciam, tirando-lhe da garganta grunhidos roucos de animal batido e assustado. Duas vezes tentou erguer-se; duas vezes rolou por terra moribundo. João Romão objurgou-lhe que qualquer demora ali seria morte certa: o incendio avançava. Quiz ajudal-o a carregar o fardo. Liborio, por unica resposta, arregaçou os beiços, mostrando as gengivas sem dentes e tentando morder a mão que o vendeiro estendia já sobre as garrafas.
Mas, lá de cima, a ponta de uma lingoa de fogo varou o tecto e illuminou de vermelho a miseravel pocilga. Liborio tentou ainda um esforço supremo, e nada poude, começando a tremer da cabeça aos pés, a tremer, a tremer, grudando-se cada vez mais á sua trouxa, e já estrebuchava, quando o vendeiro lh'a arrancou das garras com violencia. Tambem era tempo, porque, depois de insinuar a lingoa, o fogo mostrou a bocca e escancarou afinal a guela devoradora.
O tratante fugio de carreira, abraçado á sua preza, em quanto o velho, sem conseguir pôr-se de pé, rastreava na pista d'elle, difficultosamente, estrangulado de desespero senil, já sem falla, rosnando uns vagidos de morte, os olhos turvos, todo elle roxo, os dedos enriçados como as unhas de um abutre ferido.
João Romão atravessou o pateo de carreira e metteu-se na sua tóca para esconder o furto. Ao primeiro exame, de relance, reconheceu logo que era dinheiro em papel o que havia nas garrafas. Enterrou a trouxa na prateleira de um armario velho cheio de frascos e voltou lá fóra para acompanhar o serviço dos bombeiros.
Á meia noite estava já completamente extincto o fogo e quatro sentinellas rondavam a ruina das trinta e tantas casinhas que arderam. O vendeiro só poude voltar á trouxa das garrafas ás cinco horas da manhã, quando Bertoleza, que fizera prodigios contra o incendio, passava pelo somno, encostada na cama, com a saia ainda enxarcada d'agoa, o corpo cheio de pequenas queimaduras. Verificou que as garrafas eram oito e estavam cheias até á bocca de notas de todos os valores, que ahi foram mettidas, uma a uma, depois de cuidadosamente enroladas e dobradas á moda de bilhetes de rifa. Receioso, porém, de que a crioula não estivesse bem adormecida e desse pela coisa, João Romão resolveu adiar para mais tarde a contagem do dinheiro e guardou o thesouro n'outro logar mais seguro.
No dia seguinte a policia averiguou os destroços do incendio e mandou proceder logo ao desentulho, para retirar os cadaveres que houvesse.
Rita desapparecêra da estalagem durante a confusão da noite; Piedade cahíra de cama, com um febrão de quarenta gráos; a Machona tinha uma orelha rachada e um pé torcido; a das Dôres a cabeça partida; o Bruno levara uma navalhada na coxa; dois trabalhadores da pedreira estavam gravemente feridos; um italiano perdêra dois dentes da frente, e uma filhinha da Augusta Carne Molle morréra esmagada pelo povo. E todos, todos se queixavam de damnos recebidos e revoltavam-se contra os rigores da sorte. O dia passou-se inteiro na computação dos prejuizos e a dar-se balanço no que se salvara do incendio. Sentia-se um fartum aborrecido de estorrilho e cinza molhada. Um duro silencio de desconsolo embrutecia aquella pobre gente. Vultos sombrios, de mãos crusadas atraz, permaneciam horas esquecidas, a olhar immoveis os esqueletos carbonisados e ainda humidos das casinhas queimadas. Os cadaveres da Bruxa e do Liborio foram carregados para o meio do pateo, disformes, horrorosos, e jaziam entre duas vélas accesas, ao relento, á espera do carro da Misericordia. Entrava gente a rua para os ver; descobriam-se defronte d'elles, e alguns curiosos lançavam piedosamente uma moeda de cobre no prato que, aos pés dos dois defuntos, recebia a esmola para a mortalha. Em casa de Augusta, sobre uma meza coberta por uma ceremoniosa toalha de rendas, estava o cadaverzinho da filha morta, todo enfeitado de flôres, com um Christo de latão á cabeceira e dois cirios que ardiam tristemente. Alexandre, assentado a um canto da sala, com o rosto escondido nas mãos, chorava, aguardando o pesame das visitas; fardára-se, só para isso, com o seu melhor uniforme, coitado!
O enterro da pequenita foi feito á custa de Leonie, que appareceu ás tres da tarde, vestida de setineta côr de creme, n'um carrinho dirigido por um cocheiro de calção de flanella branca e libré agaloada de ouro.
O Miranda apresentou-se na estalagem logo pela manhã, o ar compungido, porém superior. Deu um ligeiro abraço em João Romão, fallou-lhe em voz baixa, lamentando aquella catastrophe, mas felicitou-o porque tudo estava no seguro.
O vendeiro, com effeito, impressionado com a primeira tentativa de incendio, tratara de segurar todas as suas propriedades; e, com tamanha inspiração o fez que, agora, em vez de lhe trazer o fogo prejuizo, até lhe deixava lucros.
—Ah, ah, meu caro! Cautela e caldo de gallinha nunca fizeram mal a doente!... segredou o dono do cortiço, a rir. Olhe, aquelles é que com certeza não gostaram da brincadeira! accrescentou, apontando para o lado em que maior era o grupo dos infelizes que tomavam conta dos restos de seus tarecos atirados em montão.
—Ah, mas esses, que diabo! nada têm que perder!... considerou o outro.
E os dois visinhos foram até o fim do palco, conversando em voz baixa.