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O Atheneu (chronica de saudades)

O ATHENEU (continued 4)

Reading edition

Do topo da escada, gritaram para o saguão que ia principiar a chamada dos de portuguez.

Quando subia, vi um movimento enorme de rapazes na rua: um rolo! Silvavam os apitos. Atracavam-se os estudantes com os carroceiros a sopapos de ida e volta, segundo o bello costume do tempo.

Prestavam-se os exames numa grande sala de muitas janellas, de velhos caixilhos em xadrez apertado, vidros grossos, antigos, mal fundidos, offerecendo espessuras desiguaes e densidades verdes. Um parapeito de ferro em grade dividia o salão por dous lances; o mais espaçoso para os assistentes. No outro havia duas mesas de exame: a de mathematicas, perto da entrada, a de portuguez, mais adiante, e tão chegadas que se fundiam-as respostas de uma com as perguntas da outra, resultando admiraveis effeitos de applicação das sciencias exactas á philologia.

Antes da cerimonia palestrava-se, a meia voz. Um sujeito entrou, deixando cair a bengala. Olharam todos, «Não conhece?» indagou-me o officioso companheiro.

Um sexagenario, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabellos brancos ondeando pelos hombros em bossa, sobrecasaca illimitada riscando o chão a cada passo. «O conselheiro Villela, ou, melhor, o conselheiro Tieitch, uma instituição! Vae presidir ás mathematicas. Preside a tudo, conforme é preciso. Incorruptivel! Catão e Bruto sommados... Na banca de inglez, ha uns annos, reprovava a todos... Como não?! dizia; se erram escandalosamente no tieitch! Muito depois, apanharam-no consultando o Tautphœus: Que diabo, Barão, é este celebre tieitch em que tanto se erra?...»

Quando no dia do jantar subi para o dormitorio com o Egbert, dançava-me no espirito, reduzida a miniatura, a imagem de Emma (era agradavel supprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, vibrante e incerta.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Sonhei: ella sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos. Mostrava-me a mão, recortada em puro jaspe, unhas de rosa, como petalas incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar; a mão fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo, fugia mais longe ainda, para o tecto, para o céu, e eu a via inattingivel na altura, clara, aberta como um astro.

Ella ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse; não permittia mais. Calçar-lhe apenas o arminho que alli estava, o pequeno sapato, branco, exanime, voltando a sola, sem o conforto calido do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do arminho, sobre o crivo de seda da meia, milagre de industria para o qual concorrera cada dia do seculo industrial com um esforço, tecido impalpavel, de fibras vivas, filtrando a transparencia branda do sangue, involucro subtil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo, irremediavelmente desfalcado do espolio glorioso da estatuaria pagã. Calçal-a apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dôres numa tortura ardente de beijos, exhalando eu proprio a alma toda em chamma.

Que outra creatura eu era ao despeitar! A apparição encantadora extincta; mas eu soffria da reacção de trévas que succede aos deslumbramentos.

Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua amizade agora uma cousa insufficiente como se houvesse em mim uma selvageria amordaçada de affectos.

Egbert parecia ás vezes um intruso. Passeiando com elle, que differença de outr'ora! produzia-me o effeito de uma terceira pessoa. Eu preferia andar só.

Não sei por que conveniencia de accommodação, fui transferido para o dormitorio dos maiores. Esta mudança distanciava-me ainda mais do Egbert; passámos a nos encontrar sómente á tarde, no campo.

Depois das aulas, subia para o dormitorio, aproveitando-me do relaxamento da policia do salão.

O inspector responsavel era o Sylvino. Receioso de uma represalia dos grandes, o prudente bedel deixava andar.

Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pateo, como cousa absolutamente alheia à minha vida. Contava as taboas do tecto, porção de traços parallelos que se perdiam num reflexo da tinta. Ás vezes lia narrativas de Dumas, que não distrahiam. Em outras camas, deitados como eu, de cai a para cima, cruzando os botins, alguns collegas fumavam, soprando, devagarinho, columnas de fumo que subiam verticalmente e rodavam azues. A um canto, no fim do salão, jogavam tres parceiros, bocejantes, accentuando sem enthusiasmo as alternativas do azar como uma partida de somnambulos. Muita vez na modorra pesada da sésta, as costas aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao brilho do sol que adivinhava lá fóra no terreiro abrazado, eu adormecia. A hora da aula ou do jantar, um companheiro puxava-me.

Estes intervallos de dormencia sem sonho, sem idéa, sem definida scisma, eram o meu socego. Pensar era impacientar-me. Que desejava eu? Sempre o desespero da reclusão collegial e da idade. Vinham-me crises nervosas de movimento, e eu cruzava de passos freneticos o pateo, sofrego, accelerando-me cada vez mais, como se quizesse passar adiante do tempo. Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas! exactamente a substancia do afamado mysterio do chalet.

A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do Sylvino, grande caixão de pinho a meia altura do tecto, com uma porta e uma janella de palmo quadrado, d'onde saiam emanações de roupas suadas e varias outras, cheiros indecifraveis de pouco asseio; d'onde saia mais, durante a noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado de narigudo.

Os rapazes furavam orificios com verrumas para espiar, e tinham achado a legenda do Sylvino. Depois d'isto, vinha a demographia especial da terceira classe, a distribuição por familias regulares, ou por aproximações eventuaes, conforme os caracteres, sob a divisa commum do nada haver, ou como entendiam outros nada vêr. Louvavam-se os exemplos de fidelidade; commentavam-se as traições; censuravam-se as tentativas de seducção; improvisava-se a theoria do lar e do leito; cantava-se o hymno bacchico dos caprichos volantes, do enthusiasmo passageiro. Chamavam-me a mim o Sergio do Alves. Fazia-se a critica dos novos sob um ponto de vista inteiramente d'elles. Apostavam a vêr quem seria primeiro. Exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma historia que tinham por sua vez jurado não contar a ninguem. Serviam-se mutuamente em pasto ás boas risadas, anecdotas espessas, com ou sem applicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a chronica obscura do Atheneu redigia-se alli, em termos explicitos e fortes, expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo escrupulo das commissões investigadoras. O Sylvino que se fosse! Não tinha nada com a conversa dos rapazes. Uma das melhores maximas do chalet era esta, caracteristica:—Fica revogado o director.

Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinario, alli era normal e corrente. Todas as idades, desde o Candido até o Sanches.

Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a terceira. No ambiente torvo da intriga, insinuava-se o vaevem silencioso das ficções, drama joco-sério dos instinctos, em illusão convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres convictamente os mancebos, explorando o momento ephemero da pelle, novidade tenra do semblante, como elemento de artificio, deleitando-se no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.

Havia o que affectava moderação no capricho, conhecendo o desvio em regra, como o ladrão sabe ser honesto no roubo; com o ar sério, espantadiço das femmes qui sortent; havia os ingenuos, perpetuamente infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de adiar a innocencia intacta atravez dos positivos extremos; havia os enthusiastas da profissão, conscientes, francos, impetuosos, apregoando-se por gosto, que não perdoavam á natureza o erro original da conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam grupo á parte, conhecidos publicamente e satisfeitos com isto, protegidos por um favor de sympathia geral, inconfessado mas evidente, beneplacito perverso e amavel de tolerancia que favoneia sempre a corrupção como um applauso. Elles, os bellos ephebos! exemplos da graça juvenil e da nobreza da linha. Ás vezes traziam pulseiras; ao banho triumphavam, nús, demorando attitudes de nympha, á beira d'agua, em meio da collecção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de meia, e carnes sem fórma. Havia os decaídos, portadores miseraveis de desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos ás vezes antes do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de outro, mendigos de compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de conformar-se deploravelmente com a solidão.

Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, pelludos, morenos, nodosos de musculos, largos de ossada, e outros mirrados de malicia, insaciaveis, de voz tremula e narinas ávidas de bode, os gorduchos de beiço vermelho relachado, fazendo praça de uma superioridade por que nem sempre zelaram antes da madureza das banhas.

Angela dominava-os a todos; vencia-os.

As janellas abertas para o quintal do director eram fortemente gradeadas de madeira; por entre as travessas olhavamos.

Angela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata. Rolava no chão, envolvendo a cara nos cabellos seccos, soltos. Saltava agitando o ar com as roupas; colhia flôres e jogava, distribuindo por igual a todos, que ella a todos queria bem. Quando não havia muitos, ás grades do salão, descuidava-se, apparecia em corpinho e saia branca, afrouxando o cordão sobre o seio, mostrando o braço desde a espadua, espreguiçando-se com as mãos ambas á nuca e os cotovellos para cima, contando para a janella historias que não acabavam mais, emquanto ás axillas, em fofos de camisa, ia escapando a indiscrição dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da luz, fauna indomavel das regiões quentes, affrontando a temperatura como as leoas, insensivel e sobranceira.

Cantava.

Só no canto era triste; canções nostalgicas repassadas do sentimento de cousas distantes, um lar amigo de paes, um coração de adolescente, conhecido uma vez antes da emigração para sempre, canções da ilha em que se ouvia o murmurio do oceano calmo e das brisas viajadas, e o grito angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja á faina; acompanhando um estribilho insistente de amor, amor malandro de gente pobre á beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.

Ás vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com quem quizesse; impacientava-se abruptamente e desapparecia, arremessando uma praga de bem acabada torpeza. Fazia pilheria; tinha um collegio tambem para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no ventre.

E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os descuidos do corpinho, com as flôres, com as turbulencias, de criança sem modos, Angela era a rainha da attenção e da curiosidade; inflammava-se o chalet em conflagrações de enthusiasmo. Se passava algum tempo sem apparecer, collavam-se ás grades, perscrutando a sombra das arvores do quintal, carinhas sem conta, chapadas de saudade.

E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos, entretendo-se a desesperal-os como quem atiça o brazeiro para vêr a erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um prazer graduado entre o orgulho da castellã requestada do cem paladinos o a expectativa palpitante do carname em postas de um festim de jaula.

Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira sophismar alguns páus da grade da ultima janella, tres ou quatro leitos além do meu, e passavam de noite, quando o silencio se fazia, a tomar fresco no jardim do director. Preferiam as noites escuras, que têm mais estrellas e mais segredo, e preferiam as noites de chuva, que em questão de fresco são decisivas. Desciam por uma corda de lençóes torcidos e voltavam ás vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por medida de prudencia, não passeavam mais de dous por noite, fazendo sentinella um durante a ausencia do outro.

Disse que me não interessavam as intrigas e preoccupações geraes do salão; não fui preciso; e não sei como possa ser neste ponto sem recorrer ás modalidades de expressão—actualmente, virtualmente, que o anachromismo injusto condemnou. Pouco se me davam factos; o espirito seduzia. Talvez por isso fiz a descoberta do sophisma da camarilha; incommodando-me a liberdade secreta, o regabofe ás altas horas, como um roubo feito a mim, aos companheiros, illudidos no somno, traição odiosa á nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação violenta de espalhar o segredo por todos, desmoralisar os finorios, conduzir o Sylvino e mostrar-lhe os sarrafos ageitados á deslocação, trahir mereridamente aos traidores. Medi as objecções: além de feia delação de voluntario da espionagem, podia ser asneira. Talvez soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de pouco na terceira classe. Experimentei. Conservei-me acordado até á hora, com uma paciencia e um esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante, ergui-me na cama, esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve remedio senão iniciar-me. Os dous da noite contaram. Malheiro era o chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito habeis; tambem quem trahisse apanhava.

A minha irritação contra o sophisma abrandou sem desfazer-se. Sempre que por acaso algum rapaz surprehendia os expedicionarios da frescata, era incontinente alliciado para as vantagens e sob as ameaças. O murro fabuloso do Malheiro era a sancção.

Não quiz as vantagens, mesmo murro á parte. Não que me não escaldassem as horas nocturnas ao chalet. Ah! o passeio livre do jardim! as grades abertas do carcere forçado! Mas uma hesitação prendia-me, de compromissos antigos commigo mesmo, compromissos de linha recta, não sei como diga, razões velhas de vaidade vertebrada; aversão ao subterfugio; ou talvez um medo que me occorreu por ultimo, sem fundamento: fosse uma vez, e de volta não achasse mais a corda para subir.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Outro signal de que não escapava á psychologia commum do chalet foi um accesso de furor que tive de suffocar, um dia que falaram de D. Emma diante de mim. Que me importava D. Emma? Uma boa senhora, nada mais, que me festejara com excesso de complacencia, nos limites, porém, da hospitalidade de rigor para muitas pessoas amaveis.

Deixara uma simples lembrança de gratidão, que começava a apagar-se.

Repetiam as murmurações do professor Chrysostomo, frioleiras de maldade. Pelas janellas gradeadas indicavam junto do muro da natação as venezianas da enfermaria e faziam a apologia da enfermeira, enfermeirazinha cuidadosa.

Com um geito incomparavel para o tratamento dos casos graves do coração. E vinham com historias de estudantes muito mal de imaginarias molestias... Doeu-me aquillo, como se me houvessem ferido o mais santo escrupulo de sentimento. Uma infamia, uma infamia, esta affirmação de cousas improvadas!

No meio d'esta temporada de descontentamento, tive um dia de prazer, prazer malvado, mas completo. Dormia no chalet o famoso Romulo. Occupava a cama inteira de ferro com a fartura de adipo e resomnava, no extremo opposto do salão, com a mesma intensidade que o Sylvino; falava fino o diabo e roncava grosso. Era um dos taes da troça do Malheiro.

Quando tocava-lhe a vez, reforçavam-se os lençóes e saíam mais dous páus.

Uma noite que o vi descer, tive idéa de pregar-lhe uma peça. Arriscadissima, como vão vêr, mas eu contava com o concurso, depois, do interesse de todos em abafar o negocio.

Lembram-se do receio infundado de que falei. Estava de sentinella o companheiro, que recollocava a grade, até que um aviso do quintal pedisse a corda. Offereci-me para substituil-o. O collega foi dormir.

Com o sangue-frio das boas vinganças, sem a menor pressa, evoquei a memoria da affronta que me devia Romulo. Era justo. Recolhi pouco a pouco a corda de lençóes, firmei forte as barras da grade e fui dormir. Chovia a potes; tanto melhor: a injuria, que o sangue não lava, bem póde lavar uma ducha de enchurro.

Estava vingado!

No outro dia appareceu o gorducho entanguido, encatarrhado, furibundo, em chinellos sem meias, calças, camisa de naufrago, miserando, cercado pelo espanto de todos e pela galhofa.

Passara a noite sob a janella pedindo misericordia ao sarrafo impassivel, toda a noite, inundado pelo aguaceiro, até que, ao romper do dia, Aristarcho o foi achar no lastimoso estado.

A noiva não viu, que acordava tarde. O sogro atinou espertamente com a aventura. Fez-se de esquerdo.

«Ora o rapaz!...» exclamou com uma satisfação muito intima.

E estranhou apenas que o bom do genro se deixasse pegar como um lorpa.

XI

O Dr. Claudio encetou uma serie de prelecções aos sabbados, á imitação das que fazia ás quintas Aristarcho sobre logares communs de moralidade. Philosophia, sciencia, litteratura, economia politica, pedagogia, biographia, até mesmo politica e hygiene, tudo era assumpto; interessantissimas, sem pesadas minuciosidades. Depois da astronomia do director, nenhuma curiosidade me valera tão bons minutos de attenção.

Narrava-nos a vida. As festas plutonianas do movimento, da ignição; a genese das rochas, fecundidade infernal do incendio primitivo, do granito, do porphyro, primogenitos do fogo; o grande somno millenario dos sedimentos, perturbado de convulsões titanicas.

Falava da anthracita e da hulha, o lucto feito pedra, lembrança tragica de muitas éras orgulhosas do planeta, monumento da prehistoria das arvores, negro, que a industria dos homens devasta. Descrevia a escadaria dos terrenos, onde existe a pegada impressa do genio das metamorphoses, subindo, desde a vegetação florestal dos fetos até ao homem quaternario. Falava-nos de Cuvier e da procissão dos monstros resurgidos, caminho dos museus, o megatherio potente, tardo, balançando as passadas, sujo, descamando saibro e as concreções seccas do lodo diluviano, solemne, conscio da carga de seculos que transporia.

Vinha depois a alluvião moderna das zonas formadas, o solo fecundo, lavradio. E o mestre passava a descrever a vida na humidade, na semente, a evolução da floresta, o gozo universal da chlorophylla na luz. Falava-nos do cerne, o generoso madeiro, o tronco, que sangra em Dante, que sustenta nos mares o commercio, Neptuno inglez do tridente de ouro. Falava-nos da poesia ignorada da vegetação marinha nos abysmos, e da giesta, isolada nas altas neves, flôr do ermo, a degradada eterna do inaccessivel.

Depois, a historia dos brutos, os grandes bramidos de macho nas regiões virgens, os dramas do egoismo na selva, do egoismo rude da força que póde, cégo, formidavel, sagrado como a fatalidade. E corria inteira a serie das classificações, mostrando a vida no infinitesimo, a microbia invisivel, omnipotencia do numero, sociedade inconsciente da monada, solidaria para a morte e para as reconstrucções impereciveis da terra.

O homem finalmente—ventre, coração e cerebro, politica, poemas, criterio: a alma, universo de universo, imagem de Deus, reflector immenso, anthropocentrico, do dia, das côres, que o sol inflamma, que o sol não sente.

Falava uma vez sobre educação.

Discutiu a questão do internado. Divergia do parecer vulgar, que o condemna.

É uma organisação imperfeita, aprendizagem de Corrupção, occasião de contacto com individuos de toda origem? O mestre é a tyrannia, a injustiça, o terror? o merecimento não tem cotação, cobrejam as linhas sinuosas da indignidade, approva-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, a maledicencia, a calumnia, opprimem os predilectos do favoritismo, opprimem os maiores, os mais fortes, abundam as seducções perversas, triumpham as audacias dos nullos? a reclusão exacerba as tendencias ingenitas?

Tanto melhor: é a escola da sociedade.

Illustrar o espirito é pouco; temperar o caracter é tudo. É preciso que chegue um dia a desillusão do carinho domestico. Toda a vantagem em que se realise o mais cedo.

A educação não faz almas: exercita-as. E o exercicio moral não vem das bellas palavras de virtude, mas do attrito com as circumstancias.

A energia para affrontal-as é a herança de sangue dos capazes da moralidade, felizes na loteria do destino. Os desherdados abatem-se.

Ensaiados no microcosmo do internato, não ha mais surprezas no grande mundo lá fora, onde se vão soffrer todas as convivencias, respirar todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialectica geral, e nos envolvem as evoluções de tudo que rasteja e tudo que morde, porque a perfidia terra-terra é um dos processos mais efficazes da vulgaridade vencedora; onde o aviltamento é quasi sempre a condição do exito, como se houvesse ascensões para baixo; onde o poder é uma redoma de chumbo sobre as aspirações altivas; onde a cidade é franca para as dissoluções babylonicas do instincto; onde o que é nullo, fluctua e apparece, como no mar as perolas immersas são ignoradas, e sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma.

O internato é util; a existencia agita-se como a peneira do garimpeiro: o que vale mais e o que vale menos, separam-se.

Cada mocidade representa uma direcção. Hão de vir os disfarces, as hypocrisias, as suggestões da habilidade, do esclarecimento intellectual; no fundo a direcção do caracter é invariavel. A constancia da bussola é uma; temos todos um norte necessario: cada um leva ás costas o sobrescripto da sua fatalidade. O collegio não illude: os caracteres exhibem-se em mostrador de franqueza absoluta. O que tem de ser, é já. E tanto mais exacto, que o encontro e a confusão das classes e das fortunas equipara tudo, supprimindo os enganos de apparato, que tanto complicam os aspectos da vida exterior, que no internato apagam-se no socialismo do regulamento.

E não se diga que é um viveiro de máus germens seminario nefasto de máus principios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflecte. A corrupção que alli viceja, vae de fóra. Os caracteres que alli triumpham, trazem ao entrar o passaporte do successo, como os que se perdem, a marca da condemnação.

O externato é um meio termo falso em materia de educação moral; nem a vida exterior impressiona, porque a familia preserva, nem o collegio vive socialmente para instruir a observação, porque falta a convivencia de mundo á parte, que só a reclusão do grande internato occasiona. O internato com a somma dos defeitos possiveis é o ensino pratico da virtude, a aprendizagem do ferreiro á forja, habilitação do luctador na lucta. Os deuses sacrificam-se; não prevalecem. Os gymnasios são para os privilegiados da saude. O rheumatismo deve ser um pessimo acrobata. Erro grave combater o internato.

Cumpre que se institua, que se desenvolva, que floresça e se multiplique a escola positiva do conflicto social com os máus educadores e as companhias perigosas, na communhão corruptora, no tédio de claustro, de inacção, de carcere; cumpre que os generosos ardores da alma primitiva e ingenua se disciplinem na desillusão crua e prematura, que nunca é cedo para sentir que o futuro importa em mais que flanar facilmente, mãos ás costas, fronte ás nuvens, através das praças desimpedidas da republica de Platão.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Durante a conferencia pensei no Franco. Cada uma das opiniões do professor, eu applicava onerosamente ao pobre eleito da desdita, pagando por trimestre o seu abandono naquella casa, aluguel do desprezo. Lembrava-me do desembargador em Matto-Grosso e da carta que eu lera e da irmã raptada, da vingança extravagante dos cacos, da timidez baixa das maneiras, da concentração muda de odios, dos movimentos incompletos de revolta, da submissão final de escorraçado que se resigna. Tive pena.

Depois da conferencia fui visital-o.

Estava de cama no salão verde, á direita, perto das janellas. Andava adoentado desde a ultima vez que fôra á prisão.

Embaixo da casa. Fazia-se entrada pelo saguão cimentado dos lavatorios; sentia-se uma impressão de escuro absoluto; para os lados, á distancia, brilhavam vivamente, como olhos brancos, alguns respiradouros gradeados daquella especie de immensa adega. O chão era de terra batida, mal enxuta. Impressionava logo um cheiro humido de cogumelos pisados. Com a meia claridade dos respiradouros, habituando-se a vista, distinguia-se no meio uma especie de gaiola ou capoeira de travessões fortes de pinho. Dentro da gaiola um banco e uma taboa pregada, por mesa. Sobre a mesa um tinteiro de barro. Era a cafúa.

Engaiolava-se o condemnado na amavel companhia dos remorsos e da execração; ainda em cima, uma tarefa de paginas, para a qual o mais difficil era arranjar luz bastante. De espaço a espaço, galopava um rato no invisivel; ás vezes vinham subir ás pernas do condemnado os animaezinhos repugnantes dos logares lobregos. Á soltura surgia o preso, pallido como um redivivo, espantado do ar claro como de uma cousa incrivel. Alguns achavam meio de voltar verdadeiramente abatidos.

Franco saiu doente.

Alguns collegas mostravam interesse por elle. Franco respondia com aspereza: não tinha nada! Eram todos culpados; havia de adoecer, havia de adoecer gravemente para que tivessem remorsos, elles mesmos, o Sylvino, Aristarcho, todos os seus algozes! Raciocinava como as victimas da antiga escola, que se deixavam morrer fiadas no espectro. E occultou que soffria.

Devorou-o por semanas uma febre ligeira, mas impertinente. Expunha-se á soalheira, ao sereno, de proposito.

Um dia não pôde levantar-se.

Dorzinha de cabeça, explicava. Vinham-lhe nauseas, elle corria á janella. Em baixo havia um pé de magnolias, copado como um bosque; elle no intervallo dos arrancos entretinha-se em aprumar o fio visguento do vómito contra as amplas flôres alvas.

Encontrei-o mal.

Com a cabeça afundada no travesseiro, sumido sob a porção de cobertores que os vizinhos haviam cedido, affectava o descuido infantil, na physionomia, a indifferença horripilante, suprema dos que não vão longe. Fiquei surprehendido e aterrado.

O medico, a chamado de Aristarcho, viera duas vezes. Condemnou a idéa de remover-se o doente; recommendou cuidado com as vidraças; diagnosticou uma febre qualquer, redigindo o recipe, partindo ambas as vezes com a discrição hermetica que faz a importancia da classe.

Perguntei ao Franco como passava. Elle agitou de vagar as palpebras e sorriu-se. Nunca lhe conheci tão bello sorriso, sorriso de criança á morte. Oito horas da noite. O gaz attenuado produzia effluvios contristadores de claridade. Retirei-me sem aprofundar a vista pelos outros dormitorios, em cujas vidraças espelhantes devia passar successivamente a minha sombra. Procurei o director e communiquei-lhe os meus terrores.

No dia seguinte, um domingo alegre. Franco estava morto.

O correspondente compareceu em pessoa para as indispensaveis providencias. Transferiu-se o corpo para a capella, onde se erigia a eça. Aristarcho chorou; mas o saimento foi modesto; não convinha ao collegio o apparato de um grande enterro, pregão talvez de insalubridade.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Eu nada vi; quando subi ao salão verde novamente, estava tudo acabado. Alguns rapazes revolviam curiosos na gaveta do Franco o espolio da morte, uma escova de dentes esfiapada, tingida do carmim de um pó chinez, uma velha correia sem fivella, uma photographia gorda de mulher despindo os seios, cartas á tôa e um maço consideravel de boas notas, arranjadas ninguem sabe como, com assignaturas falsas de professores, e o nome de Franco, fraude de successo com que o pobre pretendia maravilhar o magistrado de Cuyabá.

Desmanchando-se a cama, caiu dos lençóes um cartão: uma gravura, Santa Rosalia! a minha padroeira desapparecida. Morrera talvez beijando-a, o pária.

Pouco tempo depois, o Atheneu em festa.

Preparava-se a solemnidade da distribuição biennal dos premios. As benemerencias andavam famintas de corôas. Suspenderam-se as aulas. Era preciso começar o preparativo com grande anterioridade, porque se projectava cousa nunca vista. Alguns discipulos tinham prevenido ao director, guardavam-lhe uma surpreza: a offerta de um busto de bronze! Aristarcho predispunha-se para a surpreza com todas as veras da alma. Um busto! era a remuneração que chegava dos impagaveis esforços, a sonhada estatua. Vinha-lhe aos pedaços. Começavam pela cabeça; mais tarde, offerecer-lhe-iam o abdomen, bella pança metallica e magnifico umbigo de bonzo gordo, saliente como um murro; depois, o prolongamento do corpo, aos roletes, gradualmente... Ah! quando lhe offerecessem as botas!... Depois, não seria preciso mais: o pedestal, elle mesmo offerecer-se-ia para adiantar. E parafusaria, accumuladas, as peças do seu orgulho, a pilha dos seus anhelos, a estatua! surgida aos poucos da sinceridade vagarosa das oblações, como difficilmente a gloria, do escrutinio demorado dos tempos.

Devia ser uma solemnidade sem memoria nos fastos da pedagogia triumphante, um obelisco de despezas, de luxo, de esplendor, a cuja ponta, como a erupção de uma cratera, saltasse a surpreza, galardão das altas qualidades e pirraça suprema á concorrencia dos rivaes.

Não havia sala no Atheneu que comportasse tão vasta festividade; nem o proprio logar dos recreios abrigados. Resolveu-se cobrir de lona o pateo central, sobre grandes mastros plantados convenientemente. Uma barraca incalculavel, a maior barraca que a imaginação humana tem concebido, que abrangesse na sombra quatro mil pessoas, com o panno emprestado aos toldos, ao velame de uma esquadra. Embaixo, as archibancadas; reservando-se, no meio, espaçosa arena para a exhibição dos laureados. Por intermedio do ajudante-general da armada, que tinha dous filhos no estabelecimento, podia-se commodamente obter a lona.

Durante alguns dias chegaram ao Atheneu cargas immensas de panno. Espichavam-se os rolos no pateo, ao longo das paredes. Appareceram em seguida as madeiras e os carpinteiros, um povo de carpinteiros.

Em meio dos operarios iam e vinham os estudantes, ajudando, atrapalhando, ás carreiras, aos saltos, aos gritos, presentindo a felicidade do dia solemne. Aristarcho approvava o tumulto; queria vêl-os alegres. A morte do Franco produzira uma penumbra de panico; alguns rapazes tinham ido para casa, receiosos da febre.

O alvoroço dos preparativos reanimava o Atheneu. Em poucos dias atravancou-se o pateo de postes e travessões, taboas e pés de serra, como um desmedido estaleiro. Os martellos batiam por todos os cantos com a crepitação continua dos tiroteios. Desapparecia a terra sob a poeira dos páus cortados. Aristarcho fiscalisava o serviço como mestre de obras, rondando calado, sério, sorvendo satisfeito as emanações da serragem fresca, cheiro de officina, cheiro do trabalho, ouvindo attritar os serrotes com um rumor de fabrica, que lembrava os haustos de offego do vapor ao vaevem poderoso dos embolos. Havia um prazer especial naquillo; crescer do chão em tres dias por honra sua a floresta das vigas e barrotes, ao esforço de tantos homens activos e azafamados; cantarem as taboas sob os malhos, desdobrando-se escadas e bancadas como um desafio ás exaltações, e prejulgar do effeito total, quando tudo fosse belbutina e panninho, e o concurso da população invadisse, e assomasse, de um terremoto de acclamações o busto, altaneiro e luzente.

Certo não foi tão nobre o orgulho d'aquelles monarchas das pyramides, idiotas macabros e collossaes, architectos inuteis de sepulcros.

Partiram os carpinteiros, apresentaram-se os armadores. Estenderam-se sobre o vigamento os toldos, as velas, como um céu de lona. As janellas do pateo abriam-se para o amphitheatro como tribunas.

Os armadores comprometteram em sanefas todo o pundonor do talento. Tudo que póde produzir de apparatoso o bem combinado das côres vivas e os apanhados de cassa fluctuante, e os lambrequins pintados do coreto, e as columnatas de papelão; tudo que póde a concordancia assombrosa da scenographia e da ripa, armou-se no pateo profusamente.

Na arena central expandia-se um tapete pardo, de flôres claras. Em parte da archibancada, convenientemente disposta, alinhavam-se cadeiras. Os estudantes e os assistentes somenos sentar-se-iam na taboa dura. As abertas de construcção que não podiam ficar assim em osso, foram empannadas de velludo com frisos de galão. Vermelho e ouro. Acima dos assentos havia uma linha de balaustres espiralados de fitas. Em cada balaustre um escudo com o nome do um pedagogo celebre. Por delicadeza incluiram o nome de Aristarcho varias vezes. Aristarcho não reparou.

Um dos lados do tapete ondeava-se em quatro degráus para um longo estrado, fronteiro á entrada do amphitheatro, apoiado á parede da sala geral de estudo. Erguia-se alli um throno, sob um docel, para a Princeza Regente. De vez em quando, Aristarcho, cançado de tanto mover-se, subia ao throno, sentava-se. Fazia-lhe bem o docel por cima. E dava regras aos armadores, de lá, como um soberano precavido dictando o esplendor da coroação.

Os iniciadores da subscripção do busto haviam concluido a tarefa. Eram dous: o Climaco, alumno gratuito, e o professor de desenho. Climaco, moço de espirito pratico, não levou muito a ruminar uma feliz idéa. E se offerecessemos um busto ao nosso director? Lembrou-se a principio de congregar os gratuitos; mas repelliu immediatamente a lembrança por inexequivel. A gratidão podia-se subscrever por todos; saía mais barato. Entrou em campo. Os primeiros assaltados pelo convite ficaram frios. Diabo! não estavam dispostos assim, a ser gratos de uma hora para outra. Consultasse os collegas, que, se a idéa pegasse, não teriam duvida. Alguns mais acanhados assignaram logo; alguns, ainda, dos pequenos assignaram sem saber claramente o que significava a cousa. Em poucos minutos a existencia da subscripção estava no dominio publico. Começou a pressão irresistivel de facto. Que miseria! hesitar por dez mil réis! Quem teria coragem de furtar-se ao testemunho publico de agradecimento que a offerta do busto significava? Era uma desfeita ao director! Os primeiros signatarios encarniçavam-se com despeito em coagir os outros, como se não quizessem ser os unicos sangrados.

Já não era preciso esforço do iniciador. A idéa ganhava terreno por si; em dous dias inteirava-se a subscripção. Muitos pegavam á vista; os que não tinham dinheiro iam tirar ao escriptorio, e o guarda-livros em segredo debitava o valor, despezas diversas, na conta do trimestre.

Diante da facilidade de obter o dinheiro, Climaco resolveu sensatamente dispensar do rateio os gratuitos: adheriam com a intenção sincera. Razoavel. Quando principiaram os preparativos da solemnidade, já o busto, obra de zeloso artista, estava fundido.

No dia 13 de Novembro, ás nove horas, começou a affluencia. O amphitheatro do pateo estava fechado ainda. Os convidados que appareciam, depois de comprimentar o director, espalhavam-se a passear em grupos pelo jardim, ou percorriam as salas do estabelecimento, examinando os apparelhos escolares, as cartas de parede, as maximas sabias, meditando a seriedade do ensino naquella casa. A aflluencia augmentou. Os convites tinham sido distribuidos largamente pela cidade. As onze horas era difficil circular no Atheneu. A festa principiava ás duas. Ao meio-dia franqueou-se o amphitheatro.

Foi como se se houvera aberto o seio de Abrahão. A ultima demão dos armadores fôra digna do primeiro esforço. Cruzavam-se, fazendo volta ás archibancadas, no alto, em bambinella, em fachas entrelaçadas, balançantes, o côr de rosa dos sorrisos infantis com uma tira alaranjada do arrebol; immediatamente depois, uma zona de vivo escarlate, ferindo sangue ás veias do mais subido jubilo; aprumavam-se as columnatas dos escudos; debaixo dos escudos, oito soberbos degráus da archibancada, velludo e galões. Perto do throno, elevava-se um palanque para o corpo docente; ao lado opposto, symetricamente, outro palanque para a banda de musica e para os cantores. Não se via mais o tecto de lona: alças enormes de ramaria e flôres enredavam-se ao alto em graciosa desordem, flaccidas, pendentes, como um diluvio de primavera a desprender-se. Entre o verdor carregado dos festões do tecto e o tapete pardo, vagava a serenidade obscura das cathedraes e das florestas, neblina penetrante de recolhimento. As pessoas que entravam guardavam silencio. O pouco que se ouvia de vozes era baixinho, cochichos de missa, surdina avelludada, amortecida, como se estivesse falando o tapete. A cornija de sanefas vibrava em desconcerto com a melancolia religiosa do recinto. Algumas nesgas da lona sobre a folhagem contrastavam ainda mais, abrindo-se á irrupção do dia.

Os alumnos entravam fardados, subiam, abancavam-se á esquerda, fazendo tremer o edificio todo de carpintaria. Aristarcho veio ficar á porta. Immenso reposteiro, rubro, de grandes borlas, desviava-se acima d'elle como para mostral-o. Calças pretas, casaca, peito blindado de condecorações, uma fita de dignitario ao pescoço, que o enforcava de nobreza. Mirando! A suprema correcção, a envergadura imponente do talhe, a majestade dominadora da presença, fundia-se tudo numa mesma umbigada de empafia. Os rapazes olhavam com o prazer do soldado que se orgulha do commandante. O Mestre invejavel, desempenado, brilhante para a festa, como se houvesse engolido um armador.

Ao redor de Aristarcho, ajudantes de ordens, apressavam-se os membros de uma commissão de recepção, composta de professores de bella presença, e alumnos em condições semelhantes. Realisavam com o director um cerimonial interessante de hospitalidade. Na entrada do amphitheatro comprimia-se a multidão dos convidados. Aristarcho e os ajudantes espiavam, farejavam, descobriam os paes, as familias dos de mais elevada posição social, que pescavam para o ingresso preterindo os mais proximos. Os escolhidos eram levados para as archibancadas de cadeiras. Se encontravam nos logares especiaes quem para lá não houvessem conduzido, convidavam delicadamente a levantar-se; que a familia do visconde de Tres Estrellas não podia ir para as taboas núas. Este rigor de etiqueta fazia suar a commissão, embaraçada na massa da concorrencia. Aristarcho aproveitava tambem para desforrar-se dos pagadores morosos da escripturação. Afinal deu na vista a pescaria dos selectos. Houve murmurios, estremecimento de surda revolta; os convites eram todos iguaes! e a pretexto de haver crescido a multidão, foram-se muitos esgueirando sem mais vêr director nem commissionados de cortezia.

O amphitheatro encheu-se tumultuariamente.

A Princeza Serenissima, com o augusto esposo, chegou pontual ás duas horas, accedendo ao convite que recebera primeiro que ninguem.

As duas e tres minutos, subia á tribuna Aristarcho. Não preciso dizer que a caranguejola soffrera mais uma das grandes commoções da malfadada existencia. Alli estava, paciente e quadrada, no exercicio effectivo de porta-rhetorica. Ficava á direita do solio da princeza e diante do Orpheon.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Aristarcho inclinou-se ligeiramente para a Graciosa Senhora. Passeou um olhar sobre o amphitheatro. Não pôde dizer palavra. Pela primeira vez na vida sentiu-se mal diante de um auditorio. A massa de ouvintes apertava-se curiosa na linha das bancadas, em curva de ferradura. A côr preta das casacas e paletots generalisava-se no espaço como uma escuridão desnorteadora; amedrontava-o o semi-circulo negro, enorme. A impressão simultanea do publico impedia-lhe reconhecer uma physionomia amiga que o animasse. Mas urgia improvisar alguma cousa antes da eloquencia rabiscada que trazia em tiras de papel... Quando o olhar foi ter a um objecto que o chamou á consciencia de si mesmo. Diante da tribuna erigia-se uma peanha de madeira lustrosa; sobre a peanha uma fórma indeterminada, mysteriosamente envolta numa capa de lã verde. A surpreza! Era elle, que alli estava encapado na expectativa da opportunidade; elle bronze imperterrito, sua effigie, seu estimulo, seu exemplo: mais elle até do que elle proprio, a tremer; porque bronze era a verdade do seu caracter, que um momento absurdo de fraqueza desfigurava e subtrahia. Lembrou-se de que o vasto barracão, as alças de flôres, o vigamento, a belbutina, a architectura dos palanques, os galões alfinetados, todas as sanefas de panninho, o olhar dos discipulos, a presença da população, o busto na capa verde, tudo era o seu triumpho por seu triumpho, e o embaraço desvaneceu-se. A inspiração ferveu-lhe de engulho á guela, vibrou-lhe electrica na lingua, e elle falou. Falou como nunca, esqueceu o calhamaço sobresalente que trouxera, improvisou como Demosthenes, inundou a arena, os degráus do throno as ordens todas da archibancada até á oitava, com o mais espantoso chorrilho de facundia que se tem feito correr na terra.

O assumpto conjectura-se. Agradecimentos, o elogio de seus penares de apostolo. Abria a casaca e mostrava. Debaixo das commendas tinha as cicatrizes. As settas que lhe varavam a alma não se podiam vêr bem por causa do collete. Avaliava-se pela descripção: devia ser horrivel. Depois dos soffrimentos, os serviços.

O educador é como a musica do futuro, que se conhece em um dia para se comprehender no outro: a posteridade é que havia do julgar. Quanto ao seu passado, nem falemos! não olhava para traz por modestia, para não virar monumento, como a mulher de Loth. Com o Atheneu estava satisfeito; uma sementeira razoavel; não se fazia rogar para florescer. Corações de terra roxa, onde as licções do bem pegavam vivo. Era cair a semente e a virtude instantanea espipocava. Uma maravilha, aquella horta fecunda! Antes de maldizerem, do hortelão, calumniadores e invejosos julgassem-lhe os repolhos, pesassem-lhe os nabos, as tronchudas couves, crespas, modestas, serviçaes, as candidas alfaces, as sensiveis cebolas de lagrima tão facil quanto sincera, as instruidas batatas, as delicadas abóboras, que todos vão plantar e ninguem planta; os alhos, typos eternos, ás vezes porros, da vivacidade bem aproveitada; sem contar os arrepiados maxixes, nem as congestas beringelas, nem os mastruços innommaveis, nem os agriões amargos, nem os espinafres insignificantes, nem o caruru, a bertalha, a trapoiraba dos banhos, que tem uma flôr galante, mas que afinal é matto. Horta paradisiaca que ufanava-se de cultivar! A distribuição dos premios mostraria.

Podia concluir voltando á vacca fria do louvor em bocca propria; preferiu uma simples bomba qualquer de rhetorica, porque o mestriculo Venancio ia tambem falar, e, na qualidade de pagem por dedicação, disputava-lhe sempre uma ponta para carregar do manto de glorias.

Seguiram-se algumas peças da banda do Atheneu e os hymnos escolares.

Na parte concertante diziam que Aristarcho mandara encartar um solo de zabumba para exhibir o genro. Caçoadas.

A premiação foi, como devia ser, exuberante. Aristarcho leu um relatorio do movimento litterario nos dous ultimos annos. Lembrou o nome dos alumnos de medalhas de ouro e prata, desde a fundação da casa, e convidou o secretario a evocar, por ordem de merecimento, os novos premiados. Extensa lista. A cada nome descia um alumno, branco de emoção, atrapalhando os passos; e transpunha a arena.

Á esquerda do throno estava uma longa mesa, a que sentavam-se o Ex.mo ministro do imperio e varios figurões da Instrucção Publica.

Diante d'elles, a cavalleiro, encobrindo-os, erguia-se uma pyramide verde de corôas de carvalho, papel e arame, e outra de corôas de ouro, idem, idem. Ouro para os de medalha; carvalho para o resto, em quantidade.

No estrado, a pouca distancia, ramas de livros luxuosamente encadernados. O premiado recebia tres, dous, um d'aquelles volumes, a medalha, a menção honrosa, um sermãozinho amavel do ministro, e saía com tudo, zonzo.

Em caminho, pelas costas, á traição, um inspector enfiava-lhe um dos diademas de papel; até os olhos, quando era grande de mais; e peior ainda quando era pequeno, porque o misero laureado tinha de o aguentar em equilibrio até á bancada.

O publico batia palmas, talvez ao premio, talvez á sorte.

Ribas, o Matta Corcundinha, Nearcho, o Saulo das distincções e mais outro, alcançaram medalha de ouro. Romulo, Malheiro, Climaco, Sanches, Maurilio, Barreto, mais uns quinze, medalha de prata. Eu, o Egbert, o Cruz da doutrina, o açafroado Barbalho, o Almeidinha, o Negrão e numerosissimos outros, a singela menção honrosa. Aos não contemplados, ficava a compensação de desfazer raso na justiça distribuida.

Na massa dos convidados, diversas centenas de representantes da boa sociedade, havia pessoas verdadeiramente notaveis: titulares de solida grandeza, argentarios de mais solidos titulos, vultos politicos de bella estampa e tradições sonoras, uns exhibindo á fronte as neves pensativas do hibernal senado, outros a energia moça da camara temporaria, medicos celebrisados por façanhas cirurgicas, ou simplesmente pela vivisecção reciproca de mazellas em pleno logradouro publico dos «a pedidos».

Havia jornalistas, litteratos, pintores, compositores; entre as senhoras, accumuladas principalmente nas bancadas especiaes, distinguiam-se perfis soberbos de rainha em toda a efflorescencia da formosura, que a claridade branda do logar vaporisava idealmente; havia ostentações de pedraria e vestuarios que impressionavam; havia juventudes de labios e de olhar enervantes ou arrebatadoras, morenas, forçando magicamente o torpor da sésta sensual sob a caricia oppressora de um pequenino pé victorioso, louras convidando a um enlace de transporte á nuvem, mais alto! ao retiro ethereo onde vivem amor as estrellas duplas... Nada d'isso era o grande attractivo, nada conseguia altear-se para nós um palmo na perspectiva geral da multidão; o nosso grande cuidado era o poeta, «o poeta!» murmurava o collegio, uns á procura, outros indicando. Era aquelle de pé, mão ao quadril, vistosamente, no palanque do professorado, entornando para as duas bandas, sobre as pessoas mais proximas, uma profusão assombrosa de suissas.

D'entre as suissas, como um gorgeio do bosque, saía um bello nariz alexandrino de dous hemistichios, artisticamente longo, disfarçando o cavallete da cesura, tal qual os da ultima moda no Parnaso. Á raiz do poetico appendice brilhavam dous olhos, vivissimos, redondos, de coruja, como os de Minerva. Tão vivos ao fundo das orbitas cavas, que bem se percebia alli como deve brilhar o fundo na physionomia da estrophe. O grande Dr. Icaro de Nascimento! Vinha ao Atheneu exclusivamente para declamar uma poesia famosa, que havia algum tempo era o successo obrigado das festas escolares do Rio: O mestre. Logo depois dos premios, teve a palavra.

Durante meia hora houve uma cousa estranha: uma convulsão angustiosa de barbas no espaço. Crescente. Desappareceu o poeta, desappareceu o palanque, encheu-se o amphitheatro, foi-se o throno com a Alteza Regente, a longa mesa com Aristarcho e o Ex.mo do imperio, ennovellaram-se as archibancadas, desappareceu tudo numa expansão incalculavel de suissas, jubileu de queixos. Ninguem mais se via, nada mais, no cahos tormentoso de pellos, onde uma voz passava atroadora, carga tremenda de esquadrões pela noite espessa, calcando versos como patadas, esmagando, rompendo avante.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Até que tornamos a ver o nariz. Acalmaram pouco a pouco as barbas. Recolheram-se como uma inundação que se retira. Estava acabada a poesia. Ninguem percebeu palavra do berreiro, porém a impressão foi formidavel.

Depois de uma parte de concerto, que foi como descanço reparador, seguiu-se a offerta do busto. Teve a palavra o professor Venancio.

Aristarcho, na grande mesa, soffreu o segundo abalo de terror d'aquella solemnidade. Fez um esforço, preparou-se. É preciso ás vezes tanta bravura para arrostar o encomio face a face, como as aggressões. A propria vaidade acovarda-se. Venancio ia falar: coragem! A oscillação do thuribulo póde fazer enjôo. Elle receiava uma cousa que talvez seja a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito incenso. Gostava do elogio, immensamente. Mas o Venancio era de mais. E alli, diante d'aquelle mundo! Não importa! Viva o heroismo.

Era conveniente postar-se em attitude severa bastante e olympica, para corresponder á glorificação de Venancio. Prompto.

O orador accumulou paciente todos os epithetos de engrandecimento, desde o raro metal da sinceridade até o cobre ductil, cantante das adulações. Fundiu a mistura numa fogueira de calorosas emphases, e sobre a massa bateu como um cyclope, longamente, até accentuar a imagem monumental do director.

Aristarcho depois do primeiro receio esquecia-se na delicia de uma metamorphose. Venancio era o seu esculptor.

A estatua não era mais uma aspiração; batiam-na alli. Elle sentia metallisar-se a carne á medida que o Venancio falava. Comprehendia inversamente o prazer de transmutação da materia bruta que a alma artistica penetra e anima; congelava-lhe os membros uma frialdade de ferro; á epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente massiço por dentro, como se houvera bebido gesso. Parava-lhe o sangue nas arterias comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se, mineralisava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorganico, rochedo inerte, blóco metallico, escoria de fundição, fórma de bronze, vivendo a vida exterior das esculpturas, sem consciencia, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, gloria! mas feito estatua.

«Coroemol-o!» bradou de subito Venancio.

Neste momento, o Climaco estrategicamente postado, puxou com força um cordão. Da capa verde dilacerada, emergiu a surpreza: o busto da offerta. Um pouco de sol rasteiro, passando a lona, vinha de encommenda estilhaçar-se contra o metal novo.

—Coroemol-o! repetia Venancio, num vendaval de acclamações. E saccando da tribuna esplendida corôa de louros, que ninguem vira, collocou-a sobre a figura.

Aristarcho caiu em si. Referia-se ao busto toda a oração encomiastica de Venancio. Nada para elle das bellas apostrophes! Teve ciumes, O gozo da metamorphose fôra uma allucicação. O acclamado, o endeosado era o busto: elle continuava a ser o pobre Aristarcho, mortal, de carne e osso. O proprio Venancio, o fiel Venancio, abandonava-o. E por causa d'aquillo, d'aquella cousa mesquinha sobre a peanha, aquelle pedaço de Aristarcho, que nem ao menos era gente!

Mal acabou de falar o professor, viu-se Aristarcho levantar-se, atravessar freneticamente o espaço atapetado, arrancar a corôa de louros ao busto.

Louvaram todos a magnanimidade da modestia.

Mas o dia acabou insipido para o director. Ruminava confusamente a tristeza d'aquella rivalidade nova—o bronze invencivel.

Por que não usam os grandes homens, em vez de poltronas, pedestaes?

Que vale a estatua, se não somos nós? A adopção do pedestal nas mobilias teria ao menos a vantagem de facilitar a provação da gloria, de vez em quando, da gloria effectiva, gloria actual, gloria pratica.

Tinha-se alli a um canto a columna. Era vir a necessidade, nada mais facil: galgava-se a elevação, ensaiava-se a postura, esperava-se immovel que cedesse o espasmo. Mas... não! força era acceitar a verdade amarga.

O monumento prescinde do heróe, não o conhece, demitte-o por substituição, sopêa-o, anulla-o.

Com os diabos! Por que ha de ser isto afinal a immortalidade: um pedaço de marmore sobre um defunto?!

Á noitinha retiravam-se os convidados, as familias, multidão confusa de alegrias e despeitos. As mães acariciando muito o filho sem premio, os paes odiando o director, olhando como vencidos para os que passavam satisfeitos, os outros paes, os collegas do filho, menos infatuados da propria victoria que da humilhação alheia.

Humilde, a um canto, á beira da corrente dos que iam, pouco além da entrada do amphitheatro, mostraram-me uma familia de lucto—a familia do Franco. O desembargador, de chapéo na mão, esquecendo de cobrir-se; homem baixo, physionomia acabrunhada, longas barbas grisalhas, calvo, olhos miudos, palpebras em bolsa.

Tinha vindo de Matto Grosso um anno mais tarde do que pretendia. O correspondente dera a noticia.

Andava agora mostrando á familia o Rio de Janeiro. Viera á festa collegial, ao collegio do filho, para distrahir a filha, a raptada, que alli estava com a mãe e duas irmãs menores, muito pallida, delgada, num idiotismo sombrio, insanavel de melancolia e mudez, pestanas caidas, olhar na terra, como quem pensa encontrar alguma cousa.

XII

Musica estranha, na hora calida. Devia ser Gottschalk. Aquelle esforço agonisante dos sons, lentos, pungidos, angustia deliciosa de extremo gozo em que póde ficar a vida porque fôra uma conclusão triumphal. Notas graves, uma, uma; pausas de silencio e tréva em que o instrumento succumbe e logo um dia claro de renascença, que illumina o mundo como o momento phantastico do relampago, que a escuridão novamente abate...

Ha reminiscencias sonoras que ficam perpetuas, como um echo do passado. Recorda-me, ás vezes, o piano, resurge-me aquella data.

Do fundo repouso caído de convalescente, serenidade extenuada em que nos deixa a febre, infantilisados no enfraquecimento como a recomeçar a vida, inermes contra a sensação por um requinte morbido da sensibilidade—eu aspirava a musica como a embriaguez dulcissima de um perfume funesto; a musica envolvia-me num contagio de vibração, como se houvesse nervos no ar. As notas distantes cresciam-me n'alma em resonancia enorme de cisterna; eu soffria, como das palpitações fortes do coração quando o sentimento exacerba-se—a sensualidade dissolvente dos sons.

Lasso, sobre os lençóes, em conforto ideal de tumulo, que a vontade morrera, eu deixava martyrisar-me o encanto. A imaginação de azas crescidas, fugia solta.

E reconhecia visões antigas, no tecto da enfermaria, no papel das paredes rosa desmaiado, côr propria, enferma e pallejante... Aquelle rosto branco, cabellos de ondina, abertos ao meio, desatados, negrissimos, desatados para os hombros, a adorada dos sete annos que me tivera uma estrophe, parodia de um almanak, valha a verdade, e que lhe fôra entregue, sangrento escarneo! pelo proprio noivo; outra igualmente clara, a pequenina, a morta, que eu prezara tanto, cuja existencia fôra no mundo como o revoar das roupas que os sonhos levam, coma a phrase fugitiva de um hymno de anjos que o azul embebe... Outras lembranças confusas, precipitadas, mutações macias, incançaveis de nuvens, enlevando com a tonteira da elevação; lisas escapadas por um plano obliquo de vôo, oscillação de prodigioso aerostato, serena, em plena atmosphera...

Panoramas completos, uma partida, abraços, lagrimas, o steamer preto, sobre a agua esmeralda, inquieta e sem fundo, a gradezinha de cordas brancas cercando a pôpa, os salva-vidas como grandes collares achatados, cabos que se perdiam para cima, correntes que se dissolviam na espessura vitrea do mar; a camara dourada, baixa, suffocante, o torvelinho dos que se accommodam para ficar, dos que se apressam para descer aos escaleres...

Uma janella. Em baixo, o coradouro, espaçoso; para diante mangueiras arredondando a copa sombria na tela nitida do céu; além das mangueiras, conglobações de cumulus crescendo a olhos vistos, floresta collossal de prata; de outro lado, montanhas arborisadas, expondo num ponto e noutro, saliencias peitoraes de ferrugem como armaduras velhas. No coradouro estendidas, peças de roupa, iriadas de sabão, meias compridas de ourela vermelha, desenroladas na relva, saudosas da perna ausente, grandes lençóes, vestidos rugosos de molhados; acima do coradouro, cordas, ás cordas camisas transparentes, decotadas, rendadas, sem manga, lacrimejando espaçadamente a lavagem como se suassem ao sol a transpiração de muitas fadigas; saias brancas que dançavam na brisa a lembrança choreographica da soirée mais recente.

Quando o vento era mais forte, enfunava as roupas estendidas, inflando ventres de mulher nas saias, nas camisas. Angela apparecia. Sempre no seu raio de sol, como as fadas no raio de lua. Saudava-me á janella com uma das exclamações vivas de menino surpreso. Sem paletot, ás mãos, empilhados, dous montes de roupa enxaguada. Ajudava a lavadeira para distrahir-se. Falava olhando para cima, affrontando o dia sem cobrir os olhos.

Estava aborrecida, uma preguiça! uma preguiça! uma vontade de deitar no collo! começava as infinitas historias, narradas de vagar, como derretidas no labio quente, muito repisadas, de quando era pequena, aventuras da immigração, as casas onde trabalhara; contava as origens do drama do outro anno... Tratara de accommodar os dous para vêr se as cousas chegavam a bom termo; a desgraça não quiz. Agora, para falar a verdade, gostava mais do que morreu. O assassino era muito máu, exigia cousas d'ella como se fosse uma escrava; era bruto, bruto. Mas era de Hespanha; companheiros de viagem, e um homem bonito! sacudido, eu bem tinha conhecido; mas judiava d'ella; batia, empurrava: olhe, ainda tinha signaes, e levantava candidamente o vestido para mostrar, no joelho, na coxa, cicatrizes, manchas antigas que eu não via absolutamente, nem ella.

Cessava a musica...

As venezianas abertas davam entrada á claridade do tempo. Entrava simultaneamente um borborinho imperceptivel de arvores, falando longe, gorgeios ciciados de passaros, gritos humanos indistinctamente, attenuados pela immensa distancia, martelladas miudas de canteiro, tremor de carros nas ruas, miniatura extrema de trovão, parcellas infimas da vida pulverisadas na luz...

A porta da enfermaria descerrava-se de vagarinho e na matinée de musselina elegante e frouxa apparecia a amavel senhora. Vinha verificar se eu dormia, saber como passava agora.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Bastava a sua presença para reanimar-me no leito. Tão boa, tão boa no seu carinho de enfermeira, de mãe.

Junto da cama, um velador modesto e uma cadeira. Emma sentava-se. Pousava os cotovellos á beira do colchão, o olhar nos meus olhos aquelle olhar inolvidavel, negro, profundo como um abysmo, bordado pelas seducções todas da vertigem. Eu não podia resistir, fechava as palpebras; sentia ainda na palpebra com o halito de velludo a caricia d'aquella attenção.

Ao fim de algum tempo, a senhora, a vêr se eu tinha febre, demorava-me a pequenina mão sobre a testa, finissima, fresca, deliciosa como um diadema de felicidade.

Eu me perdia numa somnolencia sem nome que jamais lograram produzir os mais suaves vapores do narcotismo oriental.

Com o regimen fortificante d'esta therapeutica, voltava-me rapidamente a saude.

Logo depois da festa de educação physica, que foi alguns dias depois da grande solemnidade dos premios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pae seguira para a Europa, levando a familia. Eu ficara no Atheneu, confiado ao director, como a um correspondente.

Meia duzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrivel soledade o Atheneu deserto. No pateo, o silencio dormia ao sol, como um lagarto. Vagavamos, bocejando pelas salas desmontadas, despidas; as carteiras amontoadas num canto, na caliça os pregos sómente das cartas com alguns quadros restantes de maximas, por maior insipidez, os mais teimosos conselhos moraes. Nos dormitorios, as camas desfeitas mostravam o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas cruzadas. Principiava um serviço vasto de lavagem, envernizagem, caiação; vieram pintores reformar os aspectos do edificio que se renovavam todos os annos.

Os tristes reclusos das férias, ficavamos, no meio d'aquella restauração geral, como cousas antigas, do outro anno, com o deploravel inconveniente de se não poder caiar de novo e pintar.

Nesta situação, como do excesso de brilho das paredes em sol, que debatiam fulgores na melancolia morna da circumvizinhança dos morros, começaram a doer-me os olhos até á lagrima, forrou-me a lingua um sabor desagradavel de castanhas cruas. Seria isso o gosto do aborrecimento? Pesava-me a cabeça, o corpo todo, como se eu me cobrisse de chumbo.

Assim passei alguns dias, sem me queixar. Certa manhã, descubro no corpo, um formigueiro de pintinhas rubras. Aristarcho fez-me recolher na enfermaria, um prolongamento de sua residencia para os lados da natação. Veio medico, o mesmo do Franco; não me matou. D. Emma foi para mim o verdadeiro soccorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar, que a propria agonia aos cuidados do seu trato fôra uma resurreição.

A enfermaria era um simples lance da casa; especie de pavilhão lateral, com entrada independente pela chacara e communicando por dentro com as outras peças.

A senhora não deixava a enfermaria. Vigiava-me o somno, as crises de delirio, como uma irmã de caridade.

Aristarcho surgia ás vezes solemnemente, sem demorar. Angela nunca. Fôra-lhe prohibida a entrada.

Junto da cama, D. Emma commovia-se, mirando a prostração pallida, ao reabrir os olhos de um d'esses periodos de somno dos enfermos, que tão bem fingem de morte. Tirava-me a mão, prendia nas della tempo esquecido; luzia-lhe no olhar um brilho de pranto. A alimentação da dieta era ella quem trazia, quem servia. Ás vezes por gracejo carinhoso queria levar-me ella mesma o alimento á bocca, a colherinha de sagú, que primeiro provava com um adoravel amúo de beijo. Se precisava andar no aposento para mudar um frasco, entreabrir a janella, caminhava como uma sombra por um chão de paina.

Eu me sentia pequeno deliciosamente naquelle circulo de conchego como em um ninho.

Quando entrei em convalescença, a graciosa enfermeira tornou-se alegre. Ás escondidas do medico, embriagava-me, com aquella medicina de risos, gargarejo inimitavel de perolas a todo pretexto. Tagarellava, agitava-se como um passaro preso. Cantava, ás vezes, para adormecer-me, musicas desconhecidas, tão finamente, tão subtilmente, que os sons morriam-lhe quasi nos labios, brandos como o adejo brando da borboleta que expira. Quando me julgava adormecido, arranjava-me ao hombro a colcha, alisando-a sobre o corpo; uma vez beijou-me na tempora. E retirava-se, insensivelmente, evaporava-se.

Por um acaso da distribuição acustica dos compartimentos da casa, ouvia-se bem, agradavelmente amaciado, o som do piano do salão. A amavel senhora, para mandar-me da sua ausencia alguma cousa ainda, que acariciasse; que me fosse agradavel, traduzia no teclado com a mesma brandura sentida as musicas que sabia cantar. Nenhuma violencia de execução. Sentimento; apenas, sentimento, successão melodica de sons profundos, destacados como o dobre em Novembro, dos bronzes; depois, uma enfiada brilhante de lagrimas, colhidas num lago de repouso, final, sereno, consolado... effeitos commoventes da musica de Schopenhauer; fórma sem materia, turba de espiritos aereos.

A primeira vez que me levantei, tremulo da fraqueza, Emma amparou-me até á janella. Dez horas. Havia ainda a frescura matinal na terra. Diante de nós o jardim virente, constellado de margaridas; depois, um muro de hera, bambús á direita; uma zona do capinzal fronteiro; depois, casas, torres, mais casas adiante, telhados ainda á distancia, a cidade. Tudo me parecia desconhecido, renovado. Curioso esplendor revestia aquelle espectaculo. Era a primeira vez que me encantavam assim aquellas gradações de verde, o verde negro, de faiença, luzente da hera, o verde fluctuante mais claro dos bambús, o verde clarissimo do campo ao longe sobre o muro, em todo o fulgor da manhã. Tectos de casas, que novidade! que novidade o perfil de uma chaminé riscando o espaço! Emma entregava-se, como eu, ao prazer dos olhos. Sustinha-me em leve enlace; tocava-me com o quadril em descanço.

Absorvendo-me na contemplação da manhã, penetrado de ternura, inclinei a cabeça para o hombro de Emma, como um filho, entrecerrando os cilios, vendo o campo, os tectos vermelhos como cousas sonhadas em affastamento infinito, através de um tecido vibrante de luz e ouro.

Desde essa occasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da boa senhora. Não! eu não amara nunca assim a minha mãe. Ella andava agora em viagem por paizes remotos, como se não vivesse mais para mim. Eu não sentia a falta. Não pensava nella... Escureceu-me as recordações aquelle olhar negro, bello, poderoso, como se perdem as linhas, as fórmas, os perfis, as tintas, de noite, no anniquilamento uniforme da sombra... Bem pouco, um resto desfeito de saudades para aquella inercia intensa, avassallando.

Apavorava-me apenas um susto, alarma eterno dos felizes, azedume insanavel dos melhores dias: não fosse subitamente destruir-se a situação. A convalescença progredia; era um desgosto.

No pequeno aposento da enfermaria, encerrava-se o mundo para mim. O meu passado eram as lembranças do dia anterior, um especial affago de Emma, uma attitude seductora que se me firmava na memoria como um painel presente, as duas covinhas que eu beijava, que ella deixava dos cotovellos no colchão premido, ao partir, depois da ultima visita, á noite, em que ficava como a esperar que eu dormisse, apoiando o rosto nas mãos, os braços na cama, impondo-me a lethargia magnetica do vasto olhar.

O meu futuro era o despertar precoce, a anciada esperança da primeira visita. Saltava da cama, abria imprudentemente a vidraça, a veneziana. Ainda escuro. Uma luz em frente, longinqua, irradiava solitaria, reforçando pelo contraste a obscuridade. Por toda a parte o firmamento limpo. O mais completo silencio. Dir-se-ia ouvir no silencio azul das alturas a crepitação das estrellas ardendo.

Eu tomava ao leito. Esperava. Não dormia mais. Ao fim de muito tempo, entrava na enfermaria, vinha ter aos lençóes, de mansinho, como uma insinuação derramada de leite, a primeira manifestação da alvorada. O arvoredo movia-se fóra com um bulicio progressivo de folhagem que acorda. A luz meiga, receiosa, desenvolvia-se docemente pelo soalho, pelas paredes.

Havia no aposento um grande chromo de paysagem, montanhas de neve no fundo, mais á vista, uma vivenda desmantelada, uma cachoeira de anil e pinheiros espectraes, trabalhados, encanecidos por um seculo de tormentas. A madrugada subia ao quadro, como se amanhecesse tambem na região dos pinheiros. Eu esperando. A madrugada progredia.

Toucava-se a vegetação de côres diurnas. Dialogava o primeiro trilar da passarada. Eu esperando ainda. E ella vinha... com a aurora.

Trouxe-me uma vez uma carta, de Paris, de meu pae.

«... Salvar o momento presente. A regra moral é a mesma da actividade. Nada para amanhã, do que póde ser hoje; salvar o presente. Nada mais preoccupe. O futuro é corruptor, o passado é dissolvente, só a actualidade é forte. Saudade, uma covardia, apprehensão outra covardia. O dia de amanhã transige; o passado entristece e a tristeza afrouxa.

Saudade, apprehensão, esperança, vãos phantasmas, projecções inanes de miragem; vive apenas o instante actual e transitorio. É salval-o! salvar o naufrago do tempo.

Quanto á linha de conducta: para diante. É a honesta logica das acções.

Para diante, na linha do dever, é o mesmo que para cima. Em geral, a despeza de heroismo é nenhuma. Pensa nisto. Para que a mentira prevaleça, é mister um systema completo de mentiras harmonicas. Não mentir é simples.

... Estou numa grande cidade, interessante, movimentada. As casas são mais altas que lá; em compensação, os tectos, mais baixos. Dir-se-ia que o andar de cima esmaga-nos. E como cada um tem sobre a cabeça um vizinho mais pobre, parece que a oppressão, aqui, pesa da miseria sobre os ricos.

A agitação não me faz bem.

Abro a janella para o boulevard: uma effervescencia de animação, de ruido, de povo, a festa illuminada dos negocios, das tentativas, das fortunas... Mas todos vêm, passam diante de mim, affastam-se, desapparecem. Que espectaculo para um doente. Parece que é a vida que foge.

Dou-te a minha benção...»

Momento presente... Eu tinha ainda contra a face a mão que me dera a carta; contra a face, contra os labios, venturosamente, ardentemente, como se fosse aquelle o momento, como se bebesse na linda concha da palma o gozo immortal da viva verdade.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

«Ah! Tem ainda um pae» disse Emma, uma querida mãe, irmãos que o amam... Eu nada tenho; todos mortos... apparecem-me ás vezes á noite... sombras. Ninguem por mim. Nesta casa sou de mais... Deixemos essas cousas.

Não sabe o que é um coração isolado como eu... Todos mentem. Os que se aproximam são os mais traidores...»

A convivencia quotidiana na solidão do aposento estabelecera a entranhada familiaridade dos casaes.

Emma affectava não ter mais para mim avarezas de colchete. «Sergio, meu filhinho.» Dava-me os bons dias. Saia, voltava fresca, como grande, vernal sorriso rorejado ainda do orvalho das ablações. Rindo sem causa: da claridade feliz da manhã, de me vêr forte, quasi bom.

Debruçava-se expansiva, resplendendo a formosura sobre mim, na golla do peignoir, como um derramamento de flôres de uma cornucopia.

Tomava-me a fronte nas mãos, collava á d'ella; arredava-se um pouco e olhava-me de perto, bem dentro dos olhos, num encontro inebriante de olhares. Aproximava o rosto e contava, labios sobre labios, mimosas historietas sem texto, em que falava mais a vivacidade sanguinea da bocca, do que a imperceptivel confusão de arrulhos cantando-lhe na garganta como um collar sonoro.

Achava-me pequenino, pequenino. Sentava-se á cadeira. Tomava-me ao collo, acalentava-me, agitava-me contra o seio como um recem-nascido, inundando-me de irradiações quentes de maternidade, de amor. Desprendia os cabellos e com um ligeiro movimento de espaduas fazia cair sobre mim uma tenda escura. De cima, sobre as faces, chegava-me o bafejo tepido da respiração. Eu via, ao fundo da tenda, incerto como em sonhos, a fulguração sideral de dous olhos.

E fôra preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a propria vida uma pagina de sangue para fazer a historia dos dias que vieram, os ultimos dias...

E tudo acabou com um fim brusco de máu romance...

Um grito subito fez-me estremecer no leito: Fogo! logo! Abri violentamente a janella. O Atheneu ardia.

As chammas elevavam-se por cima do chalet, na direcção do edificio principal. Immenso globo de fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da parte de cima, que parecia chegar ao céu, illuminado inferiormente por um clarão côr de cobre.

Na casa de Aristarcho reinava o maior silencio.

As portas abertas, todos tinham saído. Precipitei-me para fóra da enfermaria.

Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado de pouco, o Americo. Vinha da roça. Mostrou-se contrariado desde o primeiro dia. Aristarcho tentou abrandal-o; impossivel: cada vez mais enfezado. Não falava a ninguem. Era já crescido e parecia de robustez não commum. Olhavam todos para elle como para uma fera respeitavel. De repente desappareceu. Passado algum tempo vieram tres pessoas reconduzindo-o; o pae, o correspondente e um criado. O rapaz, amarello, com manchas vermelhas, movediças, no rosto, mordia os beiços até ferir. O pae pediu contra elle toda a severidade. Aristarcho, que tinha velleidades de amansador, gloriando-se de saber combinar irresistivelmente a energia com o modo amoroso, tranquillisou o fazendeiro: «Tenho visto peiores.»

Carregando a vista com toda a intensidade da força moral, segurou o discipulo rijamente pelo braço e fel-o sentar-se. «Tu ficarás, meu filho! O moço limitou-se a responder, cabisbaixo, possuido de repentina complacencia: «Eu fico.» Dizem que o pae o tratava terrivelmente, vendo-o apresentar-se em casa, evadido.

Com a proximidade da festa dos premios o caso do desertor ficou esquecido, e ninguem foi jamais como elle exemplo de cordura.

Ardia effectivamente o Atheneu. Transpuz a correr a porta de communicação entre a casa de Aristarcho e o collegio.

Não havia ainda começado serviço serio de extincção. A maior parte dos criados eram licenciados por occasião das férias; os poucos restantes andavam como doudos, incertos, gritando: fogo!

Fui achar Aristarcho no terraço lateral, agitado, bradando pelas bombas, que estava perdido, que aquillo era a sua completa desgraça! Ao redor d'elle pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam para salvar o escriptorio, antes que viessem as chammas.

O incendio principiara no saguão das bacias.

Por maior incremento no desastre, ardia tambem, no pateo, uma porção de madeira que ficara das archibancadas, aquecendo as paredes proximas, reseccando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo.

O susto de tal maneira me surprehendera, que eu não tinha exacta consciencia do momento. Esquecia-me a vêr os dragões dourados revoando sobre o Atheneu, as salamandras immensas de fumaça arrancando para a altura, desdobrando contorsões monstruosas, mergulhando na sombra cem metros acima.

O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações, clamavam por soccorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito da policia em alarma, cortante, electrico, e o rebate plangente de um sino, á distancia, como o desanimo de um paralytico que quizera vir.

O fogo crescia impetos de enthusiasmo, como alegrado dos proprios clarões, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas.

Sobre o pateo, sobre o jardim, por toda a circumvizinhança choviam fagulhas, contrastando a mansidão da quéda com os tempestuosos arrojos do incendio. Por toda a parte caíam escorias incineradas, que a atmosphera flagrante repellia para longe como folhas seccas de immensa arvore sacudida.

Quando as bombas appareceram, desde muito tinham começado os desabamentos. De instante a instante um estrondo, prolongado de descarga, ás vezes surdo, agitando o solo como explosões subterraneas. Ás vezes, a um novo alento das chammas, a columna ardente desenvolvia-se muito, e avistavam-se as arvores terrificadas, immoveis, as mais proximas crestadas pelas ondas de ar torrido que o incendio despedia. As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lividas, olhando. Na rua, ouvia-se arquejar presurosamente uma bomba a vapor; as mangueiras, como interminaveis serpentes, insinuavam-se pelo chão, collavam-se ás paredes, desappareciam por uma janella. Nas cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as côres terriveis do incendio, moviam-se os bombeiros.

Perdido completamente o lance principal do edificio; sala de entrada, capella, dormitorios todos da primeira e da segunda classes. Uma turma de salvação procurava isolar o refeitorio e as salas proximas, entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado, cortando o vigamento, destruindo a mobilia.

Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarcho, impassivel sob a chuva chamuscante das fagulhas, chegavam continuamente os destroços miserandos da salvação: armarios despedaçados, apparelhos, quadros de ensino inutilisados, mil fragmentos irreconheciveis de pedagogia sapecada.

A frente do Atheneu apresentava o aspecto mais terrivel. De varios pontos do telhado, semelhando columnas torcidas, espiralavam grossas erupções de fumo; ás janellas superiores o fumo irrompia tambem, por braços immensos, que pareciam suster a mole incalculavel de vapores no alto. Com a falta de vento, as nuvens, accumuladas e comprimidas, pareciam consolidar-se em pavorosos rochedos inquietos. Ás janellas do primeiro andar as chammas appareciam, tisnando os humbraes, ennegrecendo as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de rumores o barulho crystallino dos vidros na pedra das saccadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.

Nos logares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados arremessavam para fóra camas de ferro, trastes diversos, veladores, que vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso de esmagamento. As imagens da capella tinham sido salvas no principio do incendio. Estavam enfileiradas ao sereno, á beira de um gramal, voltadas para o edificio, como entretidas a vêr. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antonio, com o menino Jesus ao collo, era o mais abstracto, equilibrando a custo um resplendor desproporcional, offerecendo ante os terrores a amostra de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro pulha.

O trabalho das bombas, nesse tempo das circumscripções lendarias, era uma vergonha. Os incendios acabavam de cançaço. A simples presença do Coronel, irritava as chammas, como uma impertinencia de petroleo. Notava-se que o incendio cedia mais facilmente sem o empenho dos profissionaes do esguicho.

No sinistro do Atheneu a cousa foi evidente. Depois das bombas, a violencia das chammas chegou ao auge. Do interior do predio, como das entranhas de um animal que morre, exhalava-se um rugido surdo e vasto. Pelas janellas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas, carbonisadas, via-se arder o tecto; desmembrava-se o telhado, furando-se boccas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisiveis brazeiros, como animados pela dôr, recurvavam crispações terriveis, precipitando-se no sumidouro.

No meio da multidão commentava-se, explicava-se, definia-se o incendio.

«Que felicidade ser o desastre em tempo de férias!—Dizem que foi proposital...» Affirmava-se que o fogo começara de uma sala onde estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da casa. Diziam que começara simultaneamente de varios cantos, por arrombamentos do tubo de gaz perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarcho e aventuravam considerações a respeito das circunstancias financeiras do estabelecimento e do luxo do director.

A noticia do incendio, apezar da hora, espalhara-se em grande parte da cidade. Nas ruas do arrabalde havia um movimento de festa. Grande numero de alumnos tinham concorrido a testemunhar. Alguns empenhavam-se com bravura no serviço. Outros cercavam o director, em silencio, ou fazendo exclamações sem nexo e manifestando os symptomas da mais perigosa desolação.

Aristarcho, que se desesperava a principio, reflectiu que o desespero não convinha á dignidade. Recebia com toda a calma as pessoas importantes que o procuravam, autoridades, amigos, esforçados em minorar-lhe a magoa com o lenitivo proficuo dos offerecimentos. Affrontava a desgraça soberanamente, contemplando o anniquilamento de sua fortuna com a tranquillidade das grandes victimas.

Acceitava o rigor da sorte.

Et comme il voit en nous des âmes peu communes Hors de l'ordre commun il nous fait des fortunes.

Depois de algumas horas de somno, voltei ao collegio. O fogo abatera. Parte da casa tinha escapado. Refeitorio, cozinha, copa, uma ou duas salas. Foram respeitados os pavilhões independentes, do pateo. Funccionavam ainda as bombas, refrescando o entulho carbonisado e as paredes. De todos os lados, como de extensa solfatara, nasciam filetes de fumaça, mantendo um nevoeiro terroso e um cheiro forte de madeiras queimadas. As paredes mestras sustentavam-se firmes, varadas de janellas, como arrombamentos iguaes, negrejantes como da acção continua de muitas idades de ruina.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Sobre as paredes internas que restavam, equilibravam-se pontas de vigamento, revestidas de um bolor claro de cinza, tições enormes, apagados. Na atmosphera luminosa da manhã fluctuava o socego funebre que vem no dia seguinte sobre o theatro de um grande desastre.

Informaram-me de cousas extraordinarias. O incendio fôra propositalmente lançado pelo Americo, que para isso rompera o encanamento do gaz no saguão das bacias. Desapparecera depois do attentado.

Desapparecera igualmente durante o incendio a senhora do director.

Dirigi-me para o terraço de marmore do outão. Lá estava Aristarcho, tresnoitado, o infeliz. No jardim continuava a multidão dos basbaques. Algumas familias em toilette matinal passeavam. Em redor do director muitos discipulos tinham ficado desde a vespera, inabalaveis e compadecidos. Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, immovel, absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte enorme de carvões, o cotovello espetado na perna, a grande mão felpuda envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobr'olho carregado.

Falavam do incendiario. Immovel! Contavam que não se achava a senhora. Immovel! A propria senhora com quem elle contava para o jardim de crianças! Dôr veneranda! Indifferença suprema dos soffrimentos excepcionaes! Majestade inerte do cedro fulminado! Elle pertencia ao monopolio da magoa. O Atheneu devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciavel dos seus esforços!... Em paz!... Não era um homem aquillo; era um de profundis.

Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, apparelhos de cosmographia partidos, enormes cartas muraes em tiras, queimadas, enxovalhadas, visceras dispersas das licções de anatomia, gravuras quebradas da historia santa em quadros, chronologias da historia patria, illustrações zoologicas, preceitos moraes pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, espheras terrestres contundidas, espheras celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos negros da vida, da historia, da crença tradicional, da vegetação de outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de uma astronomia morta, sóes de ouro desthronados e incinerados...

Elle, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.

Aqui suspendo a chronica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a occasião passageira dos factos, mas sobretudo—o funeral para sempre das horas.

Rio de Janeiro—Março de 1888.

FIN

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