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O Atheneu (chronica de saudades)

O ATHENEU (continued 2)

Reading edition

Eu tive idéa de armar em capella o compartimento do meu numero. Havia compartimentos enfeitados de chromos e desenhos; o meu seria um bosque de flôres, e eu acharia uma lampada minuscula para conservar lá dentro accesa. Ao fundo, em dourado passe-partout alojaria Santa Rosalia, a padroeira.

O projecto caiu pela difficuldade das flôres. Pagando a um criado, mal conseguia um bogari, um botão qualquer por dia. Tive de accommodar a gravura na gaveta do movel que possuiamos ao dormitorio, perto da cama, para as escovas e os pentes.

E todos os dias, sobre o papel, testemunho de assidua veneração, depositava uma flôr, mantendo na gaveta o clima tepido dos meus fervores, symbolisados num tributo de perfume.

Quando, no dia primeiro, sorriram as rosas mysticas de Maio, saudei-as enternecido do alto das janellas do salão azul, como as mensageiras do amor de Maria.

Iam começar os hymnos pela manhã no oratorio do Atheneu. Abençoados momentos de contricção e ternura, em que á disposição venturosa do corpo, depois do banho, vivia um pouco o recolhimento da poesia christã, no magnifico salão, guardando ainda, como os vapores matinaes das escarpas, as ultimas sombras da noite por entre os crespos do estuque.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

O sol vinha tambem á capella e collava de fóra a fronte ás vidraças, brando ainda do despertar recente, fresco da toilette da aurora, com medo de entrar, corado da vergonha de não rezar, pobre astro atheu. Pelas janellas abertas, esgalhavam-se para dentro frondosas ramas de jasmineiro, como uma invasão de floresta; e os jasmins da vespera, cançados, debulhavam-se em conchinhas de nacar pelo soalho, mortos, expirando no ambiente a alma livre do aroma.

Nós, ajoelhados, resentidos da influencia moral do scenario, oravamos sinceramente. Não havia muito mal a colher nos corações daquella mocidade, naquelle instante, repousando na tregoa da oração das miseriazinhas da hora commum.

Eu não olhava para o altar. Lá estava rica, no throno illuminado, sobre tres ordens de palmas, a imagem da Senhora da Conceição Immaculada, alteando á fronte a corôa de prata, onde engastavam pedraria os reflexos das luzes. A minha contricção, o meu canto pertenciam a Santa Rosalia, ao querido, cartão singelo que eu trazia dentro da blusa de brim, que comprimia ao peito com a mão, exacerbando o extase da fé pelo magnetismo do santo contacto.

O mez de Maio foi a culminação do periodo anagogico de crença. Coincidiu com essa época levarem-no ao leito os incommodos de meu pae, impedindo-lhe ás visitas do costume ao Atheneu. Eu pensava nos seus soffrimentos, e era isto mais um thema para as variações do mysticismo.

A neblina de melancolia, baixada sobre o collegio da altura da cordilheira, repercussão da tristeza verde das mattas, pesava-me aos hombros como a loba de um seminarista, como o voto de um frade; eu passeava na circumscripção do recreio como num claustro, olhando as paredes, brancas como tumulos caiados, limitando as preoccupações do espirito á minha humilhação diante de Deus, sem olhar para cima, na modestia curvada dos brutos—annullando-me a mim mesmo na angustia do pensamento religioso, como no sacco de panno bicudo, preto, do farricoco.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

O céu, que a imaginação buscara d'antes, como os canticos buscam os zimborios, caía agora sobre mim como um solideo de bronze.

Triste e feliz.

Ninguem sabia dos sonhos e attribuiam á excentricidade o meu amor á solidão e ao socego.

Durante o hymno do anjo da guarda, no recreio abrigado, ao meio-dia, os estudantes, afogueados e transpirando ainda dos folguedos, paletós empapuçados sobre a cinta de couro, cabellos revoltos, não tomavam o rito a sério, e era a dureza dos vigilantes que os constrangia ao respeito d'aquelles dez minutos de religião. Só o Ribas e eu... e se não diminuiam as afllicções da terra e os nossos apertos, não é que o não pedissemos ao Anjo...

Cantavamos a primeira estrophe (o Ribas marcava o diapasão) e as seguintes, até á ultima, que acabavam todas por uma longa nota esfusiada em foguete, cantavamos com um esforço de adoração que bem compensaria, em caso de balanço, a leviandade irreverente de todos os collegas.

O diapasão do Ribas era ama deliciosa nota, tratada a pastilhas, guardada a cache-nez nos dias frios, furto sem duvida ao thesouro de gorgeios de algum sabiá descuidado. Aristarcho adorava esta nota. As vezes, na aula de musica chamava o Ribas e pedia-lhe aquella, aquella... a do hymno...

Ribas candidamente, por agradar ao director, punha de fóra a mimosa nota, como uma balinha de parto, côr de ambar, na ponta da lingua. Ao meio-dia era o momento. Ribas volvia os olhos e deixava partir, primeiro que todos, o precioso som. O collegio entoava depois, e as vozes iam todas, as nossas, em perseguição da primeira. Baldado esforço; que a do Ribas recolhia-se aos córos celestiaes, festejada na cordialidade fraternal dos harmonicos, ao passo que as nossas, desenganadas, voltavam da investida num retrocesso icario, desmembradas, desengonçadas, espaços a baixo como um bando de garças tontas. A distancia, o conjuncto podia passar por um cantico.

Uma hora de oração que aborrecia era a da noite, antes do recolher.

O movimento do dia sobrecarregava-nos com uma reacção irresistivel de fadiga. O somno chumbava-nos as pestanas como linhas de tarrafa. O harmonium da capella, dedilhado pelo Sampaio, hoje medico parteiro, e applicado a extrahir vagidos como outr'ora extrahia os accordes—produzia vagarosamente roncos de somneira da sésta de um tigre, fungados sonoros da digestão dormida de um abbade. Alguns meninos cantavam cabeceando, desmaiando a voz em vastos bocejos. Nas primeiras linhas, dos pequenos, estavam muitos de olhos fechados, bem longe dos cuidados da prece. Eu gozava o prazer da mortificação, sustendo-me fervoroso durante a reza nocturna.

Para isso, levava no bolso um punhado de pedrinhas, com que formava no soalho um genuflexorio despertador, fitando arregaladamente os olhos, ardidos de somno, na lingueta tiritante do fogo das velas...

Alludi varias vezes ao revestimento exterior de divindade com que se apresentava habitualmente Aristarcho.

Era um manto transparente, da natureza d'aquelle tecido leve de brisas trançadas de Gautier, manto sobrenatural que Aristarcho passava aos hombros, revelando do estofo nada mais que o predicado de majestade, geralmente estranho á industria pouco abstracta dos tecelões e á trama concreta das lançadeiras.

Ninguem conseguiria tocar com o dedo a mysteriosa purpura. Sentia-se, porém, o influxo da realeza impalpavel.

Assim é que um simples olhar do director immobilisava o collegio fulminantemente, como se levasse no brilho ameaças de todo um despotismo cruento.

O director manobrava este talento de imperio com a pericia do corredor sobre o pur sang sensivel.

A sala geral do estudo tinha innumeras portas. Aristarcho faria apparições, de subito, a qualquer das portas, nos momentos em que menos se podia contar com elle.

Levava as apparições ás aulas, surprehendendo professores e discipulos. Por meio d'este processo de vigilancia de inopinados, mantinha no estabelecimento por toda parte o risco perpetuo do flagrante como uma atmosphera de susto. Fazia mais com isso que a espionagem de todos os bedeis. Chegava o capricho a ponto de deixar algumas janellas ou portas como votadas a fechamento para sempre, com o fim unico de um bello dia abril-as bruscamente sobre qualquer machinação clandestina da vadiagem. Sorria então no intimo, do effeito pavoroso das armadilhas, e cofiava os majestosos bigodes brancos de marechal, pausadamente, como lambe o jaguar ao focinho a pregustação de um repasto de sangue.

Nos momentos de ira e de exaltações eloquentes é que sabia fazer-se em verdade divino. Era mais que uma revelação temerosa do Olympo; era como se Jupiter mandasse Mercurio catar á terra os raios já disparados e os unisse ao stock inavaliavel dos arsenaes do Etna, para soltar tudo, de uma só vez, de uma só colera, num só trovão, anniquilando a natureza sob a bombarda omnipotente.

Mas não sómente parodiava elle os furores olympicos. Aquella alma ductil de artista sabia decair até á blandicia, até á lagrima a proposito.

Jupiter guardava para a opportunidade a caricia de edredon, o gesto flexuoso do soberano cysne. Expandia-se ás vezes sobre o Atheneu em rompimentos de amor paterno, tão derramado, tão geitosamente sincero, que não tinhamos remedio senão replicar no mesmo tom, por um madrigal de enternecimento de filhos.

E admiravamos.

A hora solemne do meio-dia Aristarcho aproveitava para distribuir uma merenda de conselhos, depois do canto e antes de outra de fatias, incomparavelmente mais bem recebida. Muitas vezes não eram só conselhos. Tambem reprimendas em massa por culpas collectivas, arrecadações de cigarros, ou pequenos processos summarios em que se averiguava a autoria de delictos importantes, como encher de papel picado uma sala, cuspir ás paredes, molhar a privada, e mesmo muito mais graves, como num episodio do Franco, que se prende ao periodo beato das minhas reminiscencias.

Assistia o Mestre com a attenção de costume á reza cantada, fazendo gyrar nos dedos uma medalha do relogio sobre o collete, na abertura do fraque. Ao final, depois de um intervallo preparatorio, aperitivo de emoções, tomou a palavra num tom solemne de revelação e referiu, com toda a grandeza de que era susceptivel, a hypothese, reclamando a indignação vingadora do Atheneu.

Franco, no domingo da vespera, aproveitando a largura da vigilancia no dia vago, fôra vadiar ao jardim. E para tomar agua de um poço ahi existente, cuja bomba não funccionava em regra, deliberou, imaginem! humedecer a bucha aspiradora com um liquido que Moysés seria capaz de obter no arido deserto, sem milagre mesmo e sem Horeb. Agora considerem que o referido poço fornecia agua para a lavagem dos pratos.

Um murmurio de horror elevou-se das alas de estudantes.

«Adianta-te, Franco», mandou Aristarcho.

Com a insensibilidade petrea que o encouraçava para as humilhações, saiu Franco do logar e de cabeça baixa, como um cão, foi parar no centro da sala. Alli esteve por alguns segundos, exposto, no meio do enorme quadrado de alumnos. Os olhares caíam-lhe em cima, como os projectis de um fuzilamento.

O que mais indignava, era pensar que se havia comido em pratos lavados depois da profanação irremediavel da lympha. Passado este effeito, com que contava para a punição moral, o director concluiu o libello. Ficassemos tranquillos, estavam puros os labios. Franco tinha sido surprehendido por um copeiro que o prendera, e fôra a bomba incontinente declarada—interdicta.

Muita gente duvidou da opportunidade da interdicção. Limpavam com asco a lingua no lenço, esfregavam a bocca até esfolar.

«O porco! bramia Aristarcho. O grandissimo porco!» repetia como um deus fóra de si. Em redor todos apoiavam a energia da corrigenda. Resolveu-se, porém, deixar com vida o criminoso.

Aristarcho marcou apenas dez paginas de castigo escripto á noite, e passar de joelhos as horas de recreio, a começar da presente.

Formulado o veredicto, Franco caiu de rotulas no soalho com estampido, como se repentinamente se lhe houvesse estalado ás pernas uma mola.

«Ahi não! aqui, tratante!» gritou o director, indicando a porta do salão. Cantava-se a oração do meio-dia, como sabem, na casa das recreações em dia de chuva, que alargava tres boas portas para o pateo central. Aristarcho estava perto da do meio.

De joelhos neste ponto, Franco, ao pelourinho: diante das chufas dos maus e da alegria livre de todos. Como esta porta era caminho dos rapazes até as bandejas onde se elevavam as pilhas seductoras da merenda, ficava ainda o condemnado com um reforçozinho de pena. Passando por elle, os mais enfurecidos deram empurrões, beliscaram-lhe os braços, injuriaram-no. Franco respondia a meia voz, por uma palavrinha porca, repetida rapidamente, e cuspia-lhes, sujando a todos com o arremesso dos unicos recursos da sua posição.

Até que um grande, mais estouvado, fel-o cair contra o portal, ferindo a cabeça. A este, Franco não respondeu; pôz-se a chorar.

Os inspectores fiscalisavam o serviço do pão, prevenindo espertezas inconvenientes.

Escaparam-lhes os máus tratos.

As desventuras do pobre rapaz e as minhas proprias haviam-me levado para o Franco. Eu me constituira para elle um quasi amigo. Franco era silencioso, como arreceiado de todos, tristonho, de uma melancolia parente da imbecilidade; tinha accessos refreados de raiva, queixas que não sabia formular. Os livros, causa primeira de seus desgostos, faziam-lhe horror. A necessidade de escrever por castigo promovera nelle a habilidade dos galés: adquirira um desembaraço pasmoso na faina de encher de garranchos paginas e paginas. Esta interminavel escripta fizera-lhe callos ao canto das unhas: meus dedos perderam o brio, dizia elle nos momentos de amargo humor, em que improvisava sarcasmos contra si mesmo.

A principio fugia de mim, resmungando cousas indecifraveis. Depois acceitou-me. Mas não excediam as suas confidencias o restrictissimo limite de uns grunhidos de aversão, historias de desastres pandegos que sabia, ingenuas observações a respeito de assumptos infantis, referencias de odio aos superiores.

Uma vez recebeu carta da provincia, uma das poucas que lhe chegavam por anno. Depois da leitura percebi que tinha lagrimas nos olhos. O pranto era-lhe um acontecimento na physionomia, invariavelmente de uma pasmaceira de mascara de arame. Interessei-me por aquelle soffrimento; elle deu-me a carta a ler. O pae do Franco era um pobre desembargador desterrado nos confins de Matto-Grosso, com oito filhos. Uma carta dolorosa. Fôra entregue directamente pelo caixeiro do correspondente, escapando á curiosidade do director, que gostava de espiar a correspondencia dos alumnos. Falava em vir á côrte no fim do anno, com todos os sacrificios, falava em encontrar o filho bom menino, educado, estudioso. Contava depois, entre exclamações consternadas, que uma filha, a mais velha, desapparecera do collegio onde estava, em companhia de um professor de piano, homem casado, sendo encontrada tres ou quatro dias depois ao abandono. Em vão tinham feito perguntas á infeliz no interesse da punição do culpado; sepultara-se a mocinha num mutismo desolador, como se houvesse perdido a voz, recusando alimento, não tirando do chão os olhos desvairados, escravos da contemplação demente da vergonha.

—Como tem descido Sergio, lastimavam os inspectores, palestrando a ordem do dia com o director, é o intimo do Franco.

Ainda que isso não fosse rigorosamente exacto, não foi surpreza para mim vêr o excommungado convidar-me para uma extraordinaria empreza á noite. «Vingar-me da corja!» murmurava, gargarejando um riso incompleto e azedo. Isto á tardinha, depois da gymnastica, no mesmo dia do processo da bomba.

Conseguira no lusco-fusco escapar á sala onde o haviam encerrado para a tarefa das paginas. E juntos eu e elle, porque eu lhe acceitara o convite com uma facilidade que ainda hoje não comprehendo, galgámos um canto de muro que havia no pateo e saltámos para o jardim florestal.

Em baixo das arvores era já noite espessa. Demos uma volta no escuro acompanhando a curva de uma alameda. O Franco ia adiante calado, andando leve e rapido como uma sombra no ar. En o seguia irresistivelmente, como sonhando, num sonho de curiosidade e de espanto. Que ia fazer o. Franco? Aonde ia elle? Chegámos ao capinzal a um de cujos lados extremos ficava a natação. Logo ao portão de ingresso nesse terreno, havia um deposito de lixo, onde os jardineiros accumulavam as varreduras da chacara, negrejando putrefactas, virando estrume ao tempo.

Franco deteve-se junto ao monturo. Sempre em silencio e activamente, como para não perder aquelle raro estimulo de vontade que o impellia, foi examinando o lixo com o pé.

A um canto, entre tocos de bambú, tiniram garrafas. Franco abaixou-se e como em acção mecanica, sem se voltar, apanhou uma garrafa, outra e outra; foi-me dando, sobraçou ainda outras e proseguimos, o Franco adiante, leve e rapido, sempre no seu andar de sombra, como suspenso e diffuso na nevoa quasi lucida do campo aberto.

Atravessámos o capinzal quasi sumidos entre as altas bandas de capim d'Angola, cuja escura vastidão se constellava de vagalumes e vibrava da grita intensa dos grilos e do clamor dos sapos. Diante da natação o Franco parou e me fez parar, «A minha vingança!» disse entre dentes, e me indicou a toalha d'agua do grande tanque. A massa liquida, immovel, na calma da noite, tinha o aspecto de lustrosa calçada de azeviche; algumas estrellas repetiam-se na superficie negra com uma nitidez perfeita.

Com o mesmo modo atarefado de todo aquelle singular emprehendimento, o Franco acercou-se de mim, tirou-me as garrafas que me dera e desappareceu da minha vista.

Eu ouvi que elle quebrava as garrafas uma por uma. D'ahi a pouco reapparecia, trazendo as abas da blusa em regaço. E começou a lançar então com o maior socego ao tanque para todos os lados, aqui, alli, dispersamente, como semeando, as lascas do vidro que partira. Um breve rumor de mergulho borbulhava á flôr d'agua, abrindo-se em circulos concentricos os reflexos do céu. Eu vi muitas vezes contra o albor mais claro do muro fronteiro, passando, repassando, a sombra do sinistro semeador.

«A minha vingança!» repetiu-me ainda o Franco. «Para o sangue, sangue, accrescentou com o rizinho secco. Amanhã rirei da corja!... Trouxe-te aqui para que alguem soubesse que eu me vingo!»

Ao falar mostrava-me o lenço que enxugara o sangue do golpe á testa.

O justo terror da aventura, era logar vedado, por aquellas horas, só me assaltou quando, a pular o muro do pateo, fui cair entre as mãos do Sylvino. Nos apuros da alhada, mal vi o Franco seguro pelo pescoço, como um ladrão em flagrante.

Em presença do director, no escriptorio inquisitorial, improvisei uma mentira. Foramos colher sapotis, affirmei, explicando á tremenda arguição a estranheza da sortida. O director marcou a pena de oito paginas. Franco, que andava com um deficit de vinte pelo menos, teve de accrescentar mais estas ao passivo insolvavel. Pela vergonha da tentativa de furto e no systema dos castigos moraes, addicionou-se a observação supplementar: passariamos, os delinquentes, no outro dia, as horas do almoço e do jantar, ao refeitorio, de pé, carregando em cada mão quantos sapotis coubessem.

Todo o requinte de punição não me deu cuidado; pelo contrario, estava nas condições do meu programma de pequeno martyr ad majorem gloriam. Ao deixar o escriptorio outra cousa preoccupava-me. Ardia de remorsos; tinha cacos de garrafa na consciencia. A armadilha sanguinaria de Franco obsedava-me como um delicto meu.

Depois das horas do serão de estudo, quando se retiravam os estudantes para os dormitorios, fiquei com o Franco a trabalhar. Tive que suspender, ao fim de quatro paginas. Devorava-me o remorso como uma febre; aterrava-me a idéa do banho na manhã seguinte, os rapazes atirando-se á vingança perfida, a agua toldada de rubro. Impossivel fazer mais uma linha. Deixei o companheiro e fugi para o salão dos medios.

A excitação recrudesceu; eu rolava na cama sobre um tormento de lascas cortantes. Que fazer? Denunciar o Franco de madrugada? Correr, ás escuras, e abrir o escoadouro ao tanque? Prevenir aos collegas, pedindo que espalhassem? A controversia avultava-me no craneo como uma inchação de meninges. Dar-se-ia caso que Franco, possuido de arrependimento, fosse apresentar cedinho aos inspectores a delação do proprio feito? Cheguei a tentar o engodo da consciencia com a ponderação de que talvez não saltassem ao tanque muitos de uma vez, e o primeiro ferido salvaria os outros. Mas a febre vencia, com a perspectiva do sangue. Dez, vinte, trinta rapazes, á borda, gemendo, extrahindo difficilmente da carne as lascas encravadas! E eu, cumplice, que o permittira, e maior culpado, que me não cegava a razão, em summa, de justa desforra...

Ergui-me da cama, e descalço nas taboas frias, para vêr se me acalmava o mal-estar, errei pelos salões adormecidos.

Os collegas, tranquillos, na linha dos leitos, afundavam a face nas almofadas, pallejante da anemia de um repouso sem sonhos. Alguns affectavam um esboço commovedor de sorriso ao labio; alguns, a expressão desanimada dos fallecidos, bocca entre-aberta, palpebras entre-cerradas, mostrando dentro a ternura embaciada da morte. De espaço a espaço, os lençóes alvos ondeavam do hausto mais forte do peito, alliviando-se depois por um d'esses longos suspiros da adolescencia, gerados, no dormir, da vigilia inconsciente do coração. Os menores, mais crianças, conservavam uma das mãos ao peito, outra a pender da cama, guardando no abandono do descanço uma attitude ideal de vôo. Os mais velhos, contorcidos no espasmo de aspirações precoces, vergavam a cabeça e envolviam o travesseiro num enlace de caricias. O ar de fóra chegava pelas janellas abertas, fresco, temperado da exhalação nocturna das arvores; ouvia-se o grito compassado de um sapo, martellando os segundos, as horas, a pancadas de tanoeiro; outros e outros, mais longe. O gaz, frouxamente, nas arandelas de vidro fosco, bracejando dos balões de aza de mosca, dispersava-se igual sobre as camas, doçura dispersa de um olhar de mãe.

Que venturosa segurança naquelle museu de somno! E amanhã, pobres collegas! o banho, a volta, pés ensanguentados, listrando de vestigios vermelhos o caminho!

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Voltei ao meu salão. Tirei da gaveta a imagem de Santa Rosalia; beijei-a com lagrimas, pedi conselho como um filho. A inquietação não passava. Atravessei ainda os dormitorios devagarinho, que me não ouvisse o Margal, accommodado num biombo a um dos angulos do salão azul. Uma crepitação dos ossos do tornozelo esteve a ponto de me comprometter. Dentro do biombo, tossiram; parei um momento; curou-se a tosse; prosegui.

Desci ao primeiro andar do edificio; entrei na capella.

A capella em trévas, de um negrume absoluto de merinó preto. A escuridão dava-lhe uma amplitude de subterraneo, mysteriosamente sentida no espaço. Não tive medo. Fui até ao altar. Tropecei no estrado. Ajoelhei-me no chão e descancei a testa nos braços a um dos angulos do estrado do oratorio. Rezei.

Na qualidade de máu estudante não sabia até ao fim nenhuma oração. Rogava por minha conta, improvisando supplicas, vehementes, angustiosas, que deviam forçar a hombro a porta de S. Pedro. Implorava de Deus directamente, sem o intermediario empenho da minha padroeira. Até que, não posso dizer como, adormeci.

Uma palmada acordou-me. Era dia. Ergui-me vexado, de camisola, diante do Margal e de uma porção de collegas que miravam. «É somnambulo, é somnambulo», explicavam.

Esta saída dispensava-me de dizer a que fôra alli; encampei a explicação, concordando. «Que horas são? perguntei. Seis horas, responderam. Chegamos agora mesmo do banho.» Tinham os cabellos empastados sobre os olhos. «E os cacos?!» gritei espavorido. Examinei os pés dos companheiros. Nas chinelas com que desciam ao banho não via sangue! Esclarecia-se: houvera ordem de banhos de chuva no competente banheiro, alojado em um dos commodos baixos do Atheneu, pelo motivo de ter servido seis vezes a agua da natação. Graças ao Senhor! Vinha-me do céu esta solução de aguas sujas, alcançada pela minha prece. Dilatou-se-me a alma em ditoso allivio.

Á minha interjeição explosiva de cacos, os collegas suppuzeram tontura de somno. Não assim o inspector, que me chamou a indagar. Nova mentira: durante a escapada dos sapotis, uma garrafa, que arremessei de máu geito, fizera-se em cacos contra o muro, sobre o tanque. Providenciou-se. O criado encarregado de varrer o tanque, com o zelo da domesticidade, chamou attenção para o numero dos fragmentos; tão extraordinaria era a hypothese da intenção perversa que não pegou.

No mesmo dia estive com o Franco, durante os recreios, a completar a pena. Não me disse palavra acerca da decepção da sua vingança. Julgando-se compromettido, concentrava-se na insensibilidade de carapaça que o defendia, esperando tudo, a minha delação, uma trovoada de doestos, a cafua, um accrescimo ao deficit permanente da divida penal. Aborrecia-se, porém, da necessidade de ser punido por um fiasco de tentativa.

Quanto ao requinte da exposição no refeitorio, mãos cheias de sapotis, não houve meio de obrigar-me Aristarcho. Concordara em ficar de pé; não era pouco. Franco naturalmente submetteu-se e lá esteve, braços abertos, a fazer de fructeira no interesse do systema das punições moraes. Tanto melhor para o systema.

Á vista da reluctancia, calculou-se em paginas de escripta quanto podiam valer dous punhados de sapotis; reducção difficil, que a justiça collegial alcançou mathematicamente, pronunciando uma condemnação que me daria que fazer até mais de meia-noite.

Este rasgo de vigor mentia ao meu religioso papel de submissão e soffrimento. Foi o repentino prenuncio de proxima refórma no interior espiritual. E, como as evoluções da vontade sabem extrahir de qualquer facto a hermeneutica do determinismo, deu-se immediatamente uma occorrencia que ponderou muito na transformação.

De noite, novamente ao lado do Franco, a fatigar-me na tarefa das paginas, tive que ficar até tarde numa das salas do primeiro andar. Pelas dez e meia, o director, antes de sair para casa, veio vêr-nos. «Ainda escrevem... estes peraltas?...» disse-nos de enorme altura, á guisa de boas-noites, e desappareceu confiando-nos ao amavel João Numa, bacoro, inspector das salas de cima. Na sua qualidade de gorducho, o João não era diligente. Apenas viu partir Aristarcho, trancou a ultima porta do Atheneu e foi dormir.

Acabrunhado pela noitada anterior, estava eu de somno que mal podia erguer a cabeça. De uma vez que cedi ao cançaço fui despertado por sentir que me alisavam a mão. Adormecera sobre o braço direito contra a carteira, pousando o rosto na tinta do castigo, deixando cair o braço esquerdo para o banco. Um instante depois estava fóra da sala, de um pulo, como se tivesse reconhecido em sonhos que o Franco era um monstro.

Ao dia immediato saí da cama como de uma metamorphose. Imaginei, generalisando errado, que a contemplação era um mal que o mysticismo andava traidoramente a degradar-me: a convivencia facil com o Franco era a prova. O Atheneu honrava-me, por esse tempo, com um conceito que só depois avaliei. Eu não me julgava assim tão apeiado, mas suppuz-me directamente a caminho de um mergulho. Se a alma tivesse cabellos, eu registraria neste ponto um phenomeno de horripilação moral.

Fiquei perplexo.

O triumpho na escola podia ser o Sanches; em compensação, a humildade vencida era o Franco. Entre os dous extremos repugnantes, revelavam-se-me tres amostras typicas á linha do bem viver: Rebello, um ancião; Ribas, um angelico; Matta, o corcunda, um policia secreta. Para angelico decididamente não tinha geito, estava provado, nem omoplatas magras; para ancião, não tinha idade, nem oculos azues, nem máu halito; para ser o Matta, faltava-me o justo caracter e a corcova... Onde estava o dever? Na cartilha? Na opinião de Aristarcho? Na misanthropia senil dos oculos azues?

Salteou-me nisto, ás avessas, o relampago de Damasco: independencia.

V

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Devo, entretanto, é minha ephemeride religiosa a maior somma de gratidão. Suavisou-me com a complacencia divina o periodo de vadiação profunda e amollecimento hypnotico com que me pesou a atmosphera do Atheneu. Toda a perseguição de castigos, sem prejuizo da minha delicadeza moral resvalava pelo cilicio da penitencia; eu emergia forte das provações. Que tranquillidade, na apathia, ter por fiador a Deus!

Iamos á missa nos domingos. Todos abriam os livrinhos, para que o director os visse attentos. Eu não abria o meu. Deixava apenas fugir-me o espirito para o alto e adherir á abóbada como as decorações sagradas, ajustar-se estreitamente nos detalhes da architectura do templo como o ouro subtil dos douradores, conservar-se lá em cima, ávido ainda de ascensão, ambicioso de céu como a baforada dos thuribulos.

Havia accessos communicativos de tosse que lavravam nas fileiras. Eu não tossia. Havia convulsões de riso, mal contidas no lenço, mal dominadas por um olhar de Aristarcho, de joelhos á frente do collegio e mãos cruzadas sobre o castão do unicornio; como certa vez que um cão bregeiro e sem principios, mesmo ao elevar-se a santa Particula, entrou e escapou-se com o casquete de um fiel contricto. Eu resistia ao riso.

Cantavamos ao côro em dias solemnes. Melhor organisação vocal possuiria o Orpheon do que a minha; mas se cantassem os corações em vez dos labios, nenhum hymno evolaria mais largo, mais bello que o meu. Traziam-nos agua com assucar num jarro de vidro para molhar as cordas vocaes. Eu rejeitava esta doçura terrena.

O Atheneu concorria para o brilhantismo das procissões. Eu me embrulhava amplamente na opa, encarnada como os sacrificios, que me podia enrolar tres vezes: empunhava uma tocha que me martyrisava os dedos com os pingos ardentes de cêra. E lá ia, cobiçando ainda a força lombar dos mascates para ter ás costas, eu só, aquelles pesados andores; invejando o garbo ao presidente da Philarmonica particular Prazer do Rio Comprido, que vinha após no prestito, com o estandarte S. P. M. P. R. C., e o punho athletico de um equilibrista de perchas para levar correcto e rijo os balançados guiões.

Com que tristeza, ao entrar a procissão, quando o director nos mandava seguir para o collegio, com que tristeza não espiava de longe, pela porta, o interior flammejante do templo! Lá ficava a festa de Deus... e nós para o Atheneu soturno, em marcha inexoravel! Eu sacudia a cabeça com desespero; não podia soffrer a privação d'aquella alegria, gozar na alma a orgia de fogo dos altares, subir com o pensamento, degráus, degráus, ao throno scintillante, arrojando-se para cima na escalada da Gloria.

Depois d'esses enthusiasmos foi-se-me a religião escurecendo.

Era meu vizinho, na sala geral do estudo, Barreto, um personagem duplo, que representava, nas horas de recreio, a folgança em pessoa e tinha momentos de meditação trevosa com esgares de terror e falava da morte, da outra vida, rezava muito, tinha figas de pau, bentinhos, medalhazinhas em cordões, que saltavam fóra do seio ao brinquedo.

Iniciara-me Sanches no Mal; Barreto instruiu-me na Punição. Abria a bocca e mostrava uma caldeira do inferno; as palavras eram chammas; ao calor d'aquellas praticas, as culpas ardiam como sardinhas em frege.

Barreto andara num seminario rigoroso, regimen de nitro para congelar as ardencias da idade. Era magro, testa de Alexandre Herculano, beiços finos, olhos pretos, refulgentes, saídos, physionomia geral de caveira em pelle reseccada de mumia. No queixo viam-se-lhe dous fios unicos de barba, em caracol, cada um para a sua banda.

Só elle, talvez, conheceu-me as preoccupações beatas. Senhor do meu fraco, pôz-se a informar dos pavores da fé com a emphase satisfeita de um cicerone. Recordo-me de um assumpto: a communhão sacrilega! A proposito, Barreto me deu um livro a ler, um livro cruel, que descrevia cousas dignas de Moloch; crianças directamente justiçadas pela celeste colera, uma d'ellas que, por haver commungado sem confissão prévia, illudindo ao sacerdote, fôra apanhada pela roupa entre dous cylindros de aço d'uma machina e reduzida a pasta, acabando impenitente, maldita, sem tempo para um ai Jesus... Era-me incrivel que de uma simples hostia podesse a thaumaturgia da crendice obter tantos effeitos de terror.

Barreto commentava reforçando. Mettia medo acceso em iras santas de prégador, demonstrando quão longe ainda estavam os castigos da Providencia, na terra, dos supplicios da eternidade. Descrevia o inferno como se tivesse visto. Rubida caverna, dragões verde-negros, côr de limo, serpentes de ferro em brasa enroscando os condemnados, demonios fulvos revolvendo tachos de asphalto em fusão, outros espiritos caudatos levando a chuço magotes, para os tachos, de inconsolaveis reprobos.

Li a Nova Floresta, de Bernardes. O reverendissimo autor veio retocar a obra do Barreto, com as suas narrativas de illuminado terrifico.

Comecei a achar a religião de insupportavel melancolia. Morte certa, hora incerta, inferno para sempre? juizo rigoroso; nada mais negro!

Era cedo demais, para que eu podesse pesar philosophicamente a revelação; encontrei, todavia, embaraço invencivel no ritual das ceremonias. Eu que, nos melhores dias, não conseguira formular litteralmente uma só prece do catecismo, esbarrei definitivamente na prescripção fastidiosa do preceito. Ir á missa, muito bem; mas o resto e ainda mais a dependencia dos senhores ministros do culto... Em duas palavras: a sacristia e o inferno, provaveis escandalos e horrores inevitaveis, desgostaram-me de tudo. Demais, eu tinha por vezes tentado dar boa conta, estudando um pouco e rezando muitissimo, com um pequeno jejum ainda por cima; ao dia seguinte, nota má! Era um descredito para o favor divino. Que custava á summa Omnipotencia modificar em licção sabida uma ignorancia soffrivel, como transmutara em fartura sem conta uma miseria de cinco pães?

Ia-se por esta fórma a exaltação dos meus fervores, quando me achei envolvido no episodio dos cacos. A attribulação do remorso reaccendeu por um momento a chamma decadente; o resultado da minha supplica nesse duro transe não provara mal; muito adiantada, porém, ia a decomposição do meu extase. Eu esqueci a circumstancia com a ingratidão facil dos pretendentes servidos. E cheguei á conclusão audaz.

Não tendo força para estacar de arranco a torrente dos seculos christãos, consegui ao menos ficar á margem. Ignorante do atheismo, limitei-me a voltar o rosto aos phantasmas do eterno. Subi ao dormitorio, tirei da gaveta Santa Rosalia, guardei a flôr da ultima offerenda, secca, porque a minha pontualidade de culto faiscava já, depuz-lhe em despedida um osculo, e, sem mais profanação, fil-a baixar á sala de estudo, onde lhe commetti o modesto encargo de marcar as paginas de um volume. Estava demittida a minha padroeira!

Pouco depois, algum apaixonado de gravuras raptou-m'a, e eu lamentei apenas perder a lembrança da saudosa prima.

Maio tinha passado e as rosas; acabaram-se as orações á Virgem. Sem os hymnos da manhã, sem o sorriso a côres de Santa Rosalia, restava-me o Deus dos novissimos, das communhões sacrilegas, o Deus selvagem do Barreto. Positivamente não quiz saber do carrasco; alijei a metaphysica como um pesadelo. E me achei de novo sósinho no Atheneu; sósinho mais do que nunca. Com os astros apenas do meu compendio, panorama da noite consoladora.

E ainda bem, que voltava da crença pela Via-lactea, como para a crença fôra. Retirada honrosa de um desengano.

Os dias de saída eram de quinze em quinze. Partia-se ao domingo, depois da missa; voltava-se á segunda-feira, antes das nove da manhã. Os dias santos de guarda occasionavam saídas de vespera. O commissario dos generos e despenseiro insistia com o director afrouxasse mais o systema de feriados. Os rapazes precisam passear, gryphava elle, com a liberdade de mordomo confidente. Aristarcho replicava com a invenção cordata dos generos de terceira, elasticidade insensivel dos orçamentos.

Havia, porém, saídas extraordinarias de premio ou de obsequio.

A cada licção julgada boa, o professor assignava um papelucho amarello, bom ponto, e entregava ao distincto. Dez premios d'estes equivaliam a um cartão impresso, boa nota, como dez vezes vinte réis em cobre valem um nickel de duzentos. O systema decimal applicava-se mais á conquista de um diploma honroso, equivalente a um baralho de dez cartões de boa nota. Com tal diploma era o estudante candidato á condecoração final de uma medalha, de prata ou de ouro, conforme fosse mais ou menos optimo nos diversos superlativos do merecimento escolar. Reduzia-se assim a papel o valor pessoal, na clearing-house da directoria; ou, melhor: adaptava-se a theoria de Fox ao processo das recompensas, com todos os riscos de um cambio incerto, sujeito aos panicos de banca-rota, sem um criterio de justiça a garantir, sob a ostentação do papel-moeda, a realidade de um numerario de bem aquilatada virtude.

Fosse como fosse, certo é que, com os bilhetes de boa nota, comprava-se uma saída, e isto era o importante, como nos paizes de más finanças: desde que o papel tem curso, de que vale o valor?

Inutil é dizer que me não chegavam nunca as saídas de premio. Tanto melhor me sabiam as outras.

Durante a primeira quinzena de collegio, o pensamento de um feriado e regresso á familia inebriou-me como a anciedade de um ideal fabuloso. Quando tornei a vêr os meus, foi como se os houvesse adquirido de uma resurreição milagrosa. Entrei em casa desfeito em pranto, dominado pela exuberancia de uma alegria mortal. Surprehendia-me a ventura incrivel de mirar-me ainda nos olhos queridos, depois da eternidade cruel de duas semanas. Não! A magnanimidade do cataclysmo temido favorecera o meu tecto. Deus permittira, na largueza prodiga da summa bondade, que eu revisse a nossa casa sobre os alicerces, o nosso tão lembrado tecto e a chaminé tranquilla a fumar o spleen infinito das cousas immoveis e elevadas.

Com o tempo habituei-me á feliz probabilidade de achar na mesma os prezados lares, e ousei nos momentos da scisma collegial fundamentar projectos de divertimento sobre a esperança de que, abusando a minha ausencia e só para me atormentar o coração, a terra se não havia de abrir e devorar exacta e exclusivamente o que me era mais caro.

Não foram, porém, preoccupações pueris de temor, nem prospectos de folguedo que levei ao primeiro dia de saída depois da demissão de Santa Rosalia.

Vinha buscar-me um criado. Eu, adiante do portador, na minha fardeta de botões dourados, parti do Atheneu, grave e mudo como um diplomata a caminho da conferencia. Ia effectivamente ruminando a mais séria das intenções: affrontar uma entrevista franca com meu pae, descrever-lhe corajosamente a minha situação no collegio e obter um auxilio para reagir.

Meu pae acabava de deixar o leito. Nada sabia dos meus ultimos insuccessos. Ficou admirado e consternado. D'ahi o exito completo da minha entrevista.

Dias depois, no collegio, eu era um pequeno potentado. Derrubei o Sanches; consegui a revogação da disciplina das espadas; reconquistei a benevolencia de Manlio; levantei a cerviz! Desembaraçado do arbitrio pretencioso de um vigilante, o trabalho agradou-me. Um conselho de casa affirmou-me que havia a nobre opinião de Aristarcho e a opinião ainda melhor da cartilha, mas havia uma terceira—a rainha propria, que se não era tão boa, tão abalisada como as outras, tinha a vantagem alta da originalidade. Com uma palavra fez-se um anarchista.

D'ahi por diante era fatal o condicio entre a independencia e a autoridade. Aristarcho tinha de roer. Em compensação, adeus esperanças de ser um dia vigilante! principalmente: adeus indolencia feliz dos tempos beatos!

Para a campanha da reacção, armazenei uma abastança inextinguivel de vaidade e deliberei menosprezar do melhor modo premios e applausos com que se diplomavam os grandes estudantes. Habituado á vida do internato, nutria a certeza de conseguir sósinho quanto não podera com o amparo de um amigo, nem com a ajuda de Deus. No firme proposito de me não fazer exemplar nem me applicar ao cobrejamento de habilidades a que o papel de modelo obrigava, estabeleci, comtudo, a razoavel mediocridade sem compromissos, de um novo programma.

Poucos premios ganhava dos papeluchos amarellos; era contrapeso facilitava aos poucos que me vinham a emancipação bohemia do cisco. Por esta escala foram ter alguns com o meu nome ao gabinete do director. Aggravo de desdem que se não perdoaria jamais.

Desenvolveu-se nas alturas uma antipathia por mim, que me lisongeava como uma das formas da consideração. Chegava eu assim, por trajecto muito differente do que sonhara á desejada personificação moral de pequeno homem.

Invejosos da minha altivez, os inimigos fizeram partido. Sanches era o chefe, na cortina; Barbalho era o leader abertamente. Eu sorria vaidoso, levando de vencida a guerrinha, como a espuma á proa de um barco.

Este foi o caracter que mantive, depois de tão varias oscillações. Porque parece que ás physionomias do caracter chegamos por tentativas, semelhante a um estatuario que amoldasse a carne no proprio rosto, segundo a plastica de um ideal; ou porque a individualidade moral a manifestar-se, ensaia primeiro o vestuario no sortimento psychologico das manifestações possiveis.

Reinavam no Atheneu duas perniciosas influencias que contrabalançavam efficazmente o porejamento de doutrina a transudar das paredes, nos conceitos de sabedoria decorativa dos quadros, e ainda mesmo a policia das apparições ubiquas e subitaneas do director. Cousa difficil de precisar, como a disseminação na sociedade, do principio do mal, elemento primario do dualismo theogonico. O meio, philosophemos, é um ouriço invertido: em vez da explosão divergente dos dardos—uma convergencia de pontas ao redor. Através dos embaraços pungentes cumpre descobrir o meato de passagem, ou acceitar a lucta desigual da epiderme contra as puas. Em geral, prefere-se o meato.

As maximas, o director, a inspecção dos bedeis, por exemplo, eram tres espinhos; as referidas influencias eram mais dous. A mocidade ia transigindo do melhor geito com as bicudas imposições das circumstancias.

Representavam-se as influencias dissolventes por duas especies de encarnação, fundidas em hybridismo de disparate—a da fórma feminina personificada em Angela, a canarina, ou antes a camareira de D. Emma, e a de um encontro de taboas humildes, conjunctadas ás pressas, por força do prosaismo incivil de um episodio da economia organica.

Falavam assim á imaginação, impressões de relance, um olhar banhado de lascivia, a tempestade galopante das roupas, em desordem de fuga, calculada para effeitos de irritação, um descuido de alças afrouxadas ao corpinho, um proposito de poças d'agua em dias de chuva, obrigando a saias curtas e canellas núas, ora a uma porta em rapida passagem, ora através do parque frondoso; ou ao escriptorio, por motivo de recados de D. Emma cuja frequencia desesperava o director; ou sobre o muro da natação, ou a qualquer canto com os copeiros, em duetto de idyllio que se espiava; ou em graçola aventurada aos inspectores, que se babavam.

Os grandes pilheriavam; os pequenos, sérios, olhavam como quem aprende.

Depois, a conspiração dos sarrafos, o favor ao vicio á sombra do pinho alcatroado, a penuria do fumo, a mendicidade das fumaças concedidas por beneplacito de dedicação, a pontinha do bird's eye de bocca em bocca, como o chimarrão do Rio Grande, mordida, salivada, saboreada com todo o gosto acre do que se esconde e que é vedado, e a lembrança solitaria, devastadora das imagens do mal, distantes, inalcançadas, dança de flôres doudas ao vento; a correspondencia covarde acolhida num intersticio de traves como em asylo de infima miseria; as obscenas leituras, e o alvoroço do receio perpetuo, adubo caustico de prazer máu; a vaidade de illudir, a secreta mofa, o appetite de cupim pela demolição invisivel do que está constituido, a urdidura preoccupada, extenuante de uma tramazinha de hypocrisias minimas e complicadas—vivescencia vermicular dos estimulos torpes, respirada no ambiente corrompido do retiro, nascida de baixo, de um buraco, propaganda obscura da lama.

E diluia-se pelos semblantes a pallidez creme, cavavam-se olhares vitreos das regiões do impaludismo endemico.

Soavam-me ainda aos ouvidos as predicas de ascetismo do Barreto. Para elle o mal era femea. O Sanches entendia que era macho. Amarrava-lhe um rabo ao coccyx e criava o Satanaz bilontra, immoral e alegre. A cauda do demonio do Barreto era de rendas. Na rua do Ouvidor, faria o Satanaz—fanfreluche. Uma cousa horrivel, com dous olhos, destinados á perdição dos homens. Saia digna de consideração, só a de padre, que, por signal, é batina, não é saia. O mais não passava de pretexto da moda parisiense para disfarçar o pé de cabra. Cuidado com Satanaz sorriso! um sorriso com duas pernas, um abraço com dous seios, uma pantomima do inferno, faceira e traidora, gracioso e comburente, d'onde por descuido e por acaso vae-se desprendendo a humanidade, como as cobrinhas pyrotechnicas de Pharaó. O menor descuido, desgraça eterna!

Contou-me que o porteiro do seminario em que estivera, para não ser despedido, fôra intimado a separar-se da propria irmã. Deus, para vir ao mundo, tinha severamente elaborado o mysterio excepcional de uma virgindade sem mancha. E, se não fossem as prophecias, que não podiam ficar compromettidas, o vehiculo a Conceição, por amor da insexual pureza, teria sido o carapina José, ou mesmo o velho Zacarias, ainda mais respeitavel pela calva.

A theologia do Barreto me calara fundo, e eu resolvera piedoso enxotar quanta imagem de sorriso viesse pousar-me á idéa. Virando a pagina dos fervores, a theoria ficou-me de resto, do Satanaz feminino. Com a pureza a mais, natural da idade, ia zombando de Angela e pompas adjacentes. Fechado o peito como a paz de Jano, e exteriormente a vaidade me amparava.

Para me prevenir ainda mais, veio uma occorrencia provar pelo facto que o Barreto tinha razão acerca da influencia feminina; uma occorrencia que ensanguentou os annaes do estabelecimento, entristecendo o director, embora a final se lhe tornasse agradavel pelo muito que fez falar do Atheneu.

Tinhamos acabado de jantar e corria como sempre a recreação, que precedia a hora da gymnastica. Das bandas da copa, ordinariamente socegada, chegou-nos subitamente um rumor de algazarra. Era estranho.

O alarido cresceu; uma altercação violenta; depois fragor de lucta, o estrondo de uma mesa tombando. Depois gritos de soccorro; mais gritos; a voz de Aristarcho aguda, dando ordens como em combate. Estavamos attonitos.

De repente vimos assomar á porta, que dominava o pateo sobre a escada de cantaria, um homem coberto de sangue. Um grito de horror escapou a todos. O homem precipitou-se em dous pulos para o recreio. Trazia um ferro na mão gottejando vermelho, uma faca de lamina estreita ou um punhal.

«Matou! matou! gritavam da copa; pega o assassino!»

Sobre os passos do fugitivo vinham diversas pessoas. João Numa, gordinho, livido e tremulo, ao descer a escada, rolou, partindo os oculos na pedra.

Aristarcho, a uma janella, bem certo da inviolabilidade pessoal, ao peitoril, desenvolvia uma energia sem limites, mandando pegar o homem da faca. Os inspectores do recreio tinham azulado. Os rapazes berravam como loucos.

Inesperadamente reapparece o Sylvino, muito branco, com as suissas mais pretas, pelo contraste do medo:

«Esperem! esperem! dizia convulso, como quem traz na algibeira um expediente salvador. Esperem!»

Exactamente no meio do pateo abriu as immensas pernas de Rhodes magro, e levou á bocca um apito.

Infelizmente, com a força do sopro engasgou-se o assobio, depois de dous chilros falhos.

Cercado pelos criados que o perseguiam com trancas e cacetes, o homem da faca, cuja intenção era escapulir para o jardim, encostou-se a uma parede, «Deixem-me passar, que mato mais um,» rosnava, com a physionomia faiscante, «Caminho para mim!» repetia, agitando o ferro num fremito de cascaveis.

Alguns moços destemidos tinham-se avizinhado e completavam o imprudente cerco.

«Abre!» rugiu praguejando o criminoso acuado. E, de um salto de fera, arremessou-se contra os sitiantes, brandindo a faca.

Com a milagrosa destreza do instincto de conservação, cada um safou-se como pôde: o perseguido passou como um tiro. «Fugiu!» clamavam de todos os lados.

Quando o vimos cair de bruços.

Alguem se precipitara inesperadamente ao seu encontro e, escorando-o com o joelho e empolgando-o pelo gasnete, com o punho o fizera rodar por terra.

Era o Bento Alves!... Com uma das mãos, o bravo collega opprimia a cara ao sujeito contra o solo, ralando-a na areia, com a outra, por um prodigio de vigor, immobilisava-lhe o braço armado. Com o esquerdo livre, o criminoso firmava, tentando erguer-se. Esmagava-o a pressão de um monolitho.

Quando foram em auxilio, já o Bento Alves desarmara o adversario, coagindo por meio da tenaz dos dedos com que lhe ferrava o congote.

De toda parte, acclamavam-no heróe. Á janella, de longe, Aristarcho, enthusiasmado, esquecia o divino aprumo e bracejava como um moinho de vento, sem conseguir dar voz á emoção.

Bento Alves retirou-se com a faca em trophéu, deixando o criminoso sob uma pilha de valentes da ultima hora e criados que o suffocavam.

Quando o pobre diabo pôde tomar pé, manietado, amarrado de mil maneiras por cintas de couro, como as mumias no envoltorio de tiras, acercou-se d'elle o Sylyino e o aggrediu covardemente com um sermão de moral.

Era criminoso dizia-se. De que crime? Dentro de alguns momentos o collegio inteiro o sabia.

O homem da faca era um dos jardineiros do Atheneu. Durante o jantar enfrentara-se de razões com um criado da casa de Aristarcho e o matara. Havia algum tempo que disputavam os dous a primazia no coração de Angela; uma terrivel pendencia. O criado de Aristarcho julgava-se na legitima posse d'esse escrinio de affectos, pela convivencia ao lado da bella, consorciados maritalmente na intimidade dos alguidares, onde as mãos se confundiam como as louças ou na sociedade affectuosa do serviço dos aposentos do director e da senhora, permutando entre si dichotes assucarados, á flagellação dos tapetes.

O jardineiro, patricio da camareira, dava por si a razão de nacionalidade, o facto de haverem chegado á America na mesma turma de immigrantes e uma autoação completa de juramentos idoneos da seductora.

Levados a tal aperto os nós da paixão não se desatara; cortam-se. O jardineiro cortou. Por mór azedume da situação, dizem que Angela de parte a parte estimulava os adversarios declarando a cada um por sua vez preferil-o exclusivamente.

Confiado o assassino aos urbanos, tornou-se a victima o objecto das attenções.

Era este um rapagão de trinta annos, pardo e sympathico. O assassino era mais escuro, especie de andaluz de touradas, baixo, solido, grosso como um cepo de açougue.

Apenas desappareceu o criminoso, o collegio inteiro assaltou a escada, desejosos de vêr o assassinado. Á porta do refeitorio, porém, Aristarcho despachou: «não têm que ver!» Ao mesmo tempo a sineta importuna badalava chamando á forma. O professor Bataillard, de branco, no cinturão vermelho, appareceu ao lado do director. Os rapazes morderam-se de raiva. E não houve nunca no mundo dous superiores mais odiados.

Mas a teia da disciplina tinha malhas de maior largura. Alguns rapazes acharam meio de se esgueirar até á copa, e eu tambem com elles.

Desde muito, andava querendo ver um cadaver, espectaculo real, de mãos contrahidas, revirados beiços. As carias iconographicas de parede deixavam-me impassivel, com as estampas theoricas de cerebros a descoberto, globos oculares exorbitados, ventres golpeados em abas, mostrando visceras, figuras humanas de pé, descançando a um quadril, movendo a supinação num geito de complacencia passiva, esfolados para que lhes vissemos as veias, modelos vivos da sciencia em pose de supplicio, constancias de brahmane, como á espera que houvéssemos aprendido de cór a circumvolução do sangue, para vestir de novo a pelle e os musculos deslocados. Não me bastava.

Nos grandes armarios havia melhor: peças anatomicas de massa, sangrando verniz vermelho, legitima hemorrhagia; corações enormes, latejantes, humidos á vista, mas que se destampavam como terrinas; olhos de cyclope, arrancados, que pareciam viver ainda estranhamente a vida solitaria e inutil da visão; mas olhos que se abriam como fôrmas de projectis de entrudo. Mas eu queria a realidade, a morte ao vivo.

Lembrava-me de ter visto um anjinho, entre velas no caixão agaloado, simples carinha amarellenta, sombreada de azul em nodoas dispersas, em mãos crispadas numa fita, cobrindo-se de flôres a immobilidade do ultimo somno. Vira ainda uma velha, na eça elevada, uma opulenta velha que morrera sem herdeiros. Ao redor, choravam muito as tochas pranto de cêra côr de mel, inconsolaveis, espichando compridas chammas, que pareciam subir ao tecto com um filete de fumo. Distinguiam-se bem os dous pés para dentro, em botinas de panno; e o nariz pronunciando-se sob o lenço de rendas.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Isto não era ter visto cadaver. Eu queria o cadaver flagrante, despido dos artificios de armação e religiosidade, que fazem do defunto simples pretexto para um cerimonial de apparato. O que me convinha era o galho por terra, ao capricho da quéda, decepado da arvore da existencia, tal qual.

O cadaver do criado estava em condições; com a vantagem do adereço dramatico do sangue e do crime, como nos theatros.

Encaminhava-me, pois, para a cozinha e sentia palpitações fortes, abalando-me certo modo de agradavel pavor. A cozinha do Atheneu, além dos alojamentos da copa, era espaçosa como um salão. Ás paredes scintillava o trem completo de cobre areiado, em linha as peças redondas como uma galeria de broqueis. No centro uma comprida mesa servia de refeitorio á criadagem.

Naquella occasião havia muita gente perto da mesa. Vi pelas costas pessoas alheias ao estabelecimento. Disseram-me que estava presente a autoridade e tratava de remover o morto. Aquella gente toda devia ser, de costas, a autoridade policial, feição do poder publico que eu não discriminava ainda bem, mas já considerava. Caído ao soalho, vi o cadaver sobre uma esteira de sangue.

Guardava ainda a contorsão esquerda da agonia; á bocca fervia-lhe um crivo de espuma rosada; trajava collete fechado, calças de casimira grossa. Os ferimentos não se viam. Os olhos estavam-lhe inteiramente abertos e de tal maneira virados que me fizeram estremecer.

Alguns minutos depois de minha entrada, chegaram dous sujeitos com uma rêde. Os copeiros ajudaram a apanhar o corpo; os homens da rêde o levaram.

Impressionou-me para sempre o desfallecimento flacido dos membros, quando levantaram o cadaver, a molleza da cabeça, rodando nos hombros, com um movimento proprio dos que padecem intoleravel angustia, e um choque subito para traz que me gelou o sangue, empinando-se o queixo e o nó da garganta, rasgando-se a bocca, brusco, como se o ferido vomitasse um resto tenaz da vida.

Após a rêde, pela escada da cozinha, saíram todos; eu fiquei. Examinava ainda o chão alagado de sangue quando alguem, passando, afagou-me os cabellos: era Angela!

—Morió, disse, indicando o sangue, arregalando as sobrancelhas, e desappareceu com o andar de bamboleio.

Primeira vez que reparei que era bonita a canarina. Sim, senhor! E para o demonio culpado de tão horrivel incidente fui de uma benevolencia tal de opinião que me nasceram remorsos.

Angela tinha cerca de vinte annos; parecia mais velha pelo desenvolvimento das proporções. Grande, carnudo, sanguinea e fogosa, era um d'esses exemplares excessivos do sexo que parecem conformados expressamente para esposas da multidão—protestos revolucionarios contra o monopolio do thalamo.

Atirada de modos, como o dithyrambo do amor ephemero; vasia como as estatuas ôccas; sem sentimentos, material e estupida, possuia, entretanto, um segredo satanico de graduar os largos olhos de sepia e ouro, animar expressões no rosto que dir-se-ia viver-lhe na face uma alma de superficie, possante, capaz dos altos martyrios da ternura e de interpretar os poemas tragicos da dedicação.

Gostava de arregaçar as mangas para mostrar os braços, luxo de alvura, braços perfeitos de princeza, que davam que pensar ao espanador humilde no serviço da manhã. Exposta ás soalheiras, revestira-se a côr branca do rosto de um moreno calido, tom fugitivo de magnolias fanadas, invulneravel aos rigores de ar livre, como deve ter sido outr'ora a epiderme do Ceres. Ferissem-lhe a tez os dardos corrosivos da insolação, vinha-lhe apenas ao rosto um rubor mais bello, e não lhe tirava mais o sol á mocidade da carne do que á propria terra, sob a calcinação dos ardores; uma primavera de rosas.

Consciente da formosura, Angela abusava.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

E era do mal livrar-se. Começava por um jogo de virtude. Enxugava em ar de seriedade os labios humidos; as palpebras, de longas pestanas, baixavam sobre os olhos, sobre o rosto, viseira impenetravel do pudor. Convidava á adoração colhendo aos hombros o manto da candura, refugiando-se na indifferença hieratica das vestaes. Depois, uma pontinha de ingenuo sorrir, olhos fechados ainda; gradação de infantilidade que substituia á vestal uma criança esquiva e timida, rindo, voltando a cara. Os olhos, por fim, aventuravam-se de relance, uma temeridade de noiva possivel, nada mais, volvendo ao retrahimento scismador. Depois, a contemplação confiada; romance inteiro, linha por linha, de uma virgindade. Até que subito, meu castissimo Barreto! aquella virtude, aquella meiguice, aquella esquiva candura, aquella nubilidade melancolica, aquella physionomia honesta, pesarosa talvez de ser amavel, fendia-se em dous batentes de porta magica e rodava em explosão o sabbath das lascivias.

Os olhos riam, distillando uma lagrima de desejo; as narinas offegavam, adejavam tremulas por intervallos, com a vivacidade espasmodica do amor das aves; os labios, animados de convulsões tetanicas, balbuciavam desafios, promettendo submissão de cadella e a doçura dos sonhos orientaes. Dominava então pela offerta abusiva, de repente; abatia-se á derradeira humiliação, para attrahir de baixo, como as vertigens. Alli estava, por terra, a prostituição da vestal, o hymeneu da donzella, a deturpação da innocente, tres servilismos reclamando um dono; appetite, appetite para esta orgia rara sem convivas!

Não escolhia amores. Era de todos como os elementos; como os elementos, sem remorso das desordens e depredações. Franqueava-se á concorrencia. Havia lugar para todos á sombra dos cabellos castanhos que lhe podiam vestir as copiosas fórmas, fartos, perpetuamente seccos, que ella sacudia a correr como uma poeira de feno.

Aquelle modo do olhar, passando, de Angela, clarificou-me a imaginação das sombras de terror em que me enleiara o alvoroço do acontecimento da tarde e a vista horrivel do cadaver.

Depois da façanha, Bento Alves, o heróe, sumiu-se; commentavam-lhe de mais a bravura. Nem aos exercicios do campo compareceu.

Bento Alves era um mysterioso. Mysteriosos são no collegio os que não andam a atravancar o espaço com as gatimanhas das suas expansões. Frequentava as aulas superiores; sem que fosse um estudante de rumuroso merito, fazia-se respeitar dos mestres e condiscipulos. Sisudo como certos rapazes de intelligencia menor que se arreceiam do ridiculo, não sómente pela sisudez impunha-se ao respeito. Consideravam-no principalmente pela nomeada de herculeo. Os fortes constituem realmente uma fidalguia de privilegios no internato. No tumulto da existencia em commum, fundem-se as distincções de classe na democracia do colleguismo; as cambiantes de fortuna apagam-se no figurino geral das blusas pardas. Os titulos de superioridade prevalecem primitivamente no criterio semi-barbaro dos verdes annos; o punho valido chega a fazer vantagem sobre a propria vantagem do favoritismo.

Alves não alardeava de forte; evitava disputas, não jogava o pulso, proferia exercitar-se á gymnastica sem espectadores. Ás vezes, por brinquedo, cingia o braço, a um collega entre o pollegar e o médio e fechava-lhe sob a manga um bracelete roxo dolorido. Aquelles que se sujeitavam ao formidavel ensaio de tatuagem por compressão, acercavam-se, d'ahi por diante, de Bento Alves com os escrupulos da mais reservada prudencia.

Entretanto era molle, da preguiça monumental dos animaes pujantes. Veloz, detestava a carreira; alegre, fugia aos folguedos. Gostava do seu socego; desviava os incommodos da convivencia distribuida, transbordante dos estimados. Não se falava d'elle no Atheneu. Limitavam-se a temel-o em silencio.

Depois da valorosa façanha a que o tinha levado a casualidade, teve de vêr-se heróe á força. Um desespero. Se algum companheiro caía na tolice de dizer-lhe alguma cousa relativamente ao crime do jardineiro, Bento Alves rasgava a conversa com um monosyllabo de impaciencia, encrespando-se como um javali. Apezar de tudo foi o pobre modesto percutido, laminado sobre a bigorna da notoriedade.

Felizmente o barulho da entrada para o Atheneu de um moço celebre veio modificar a odiosa voga.

Acabava de matricular-se Nearcho da Fonseca, pernambucano de illustre estirpe.

Apresentou-se com o pae, vulto politico em galarim no tempo. Era um mancebo de dezesete annos, rosto cavado, cabellos abundantes, de talento não commum, olhar vivo, moroso de importancia, nariz adunco, avançado, secco, quasi translucido como um nariz de vidro. Franzino como a infancia desvalida, magro como uma prelecção de osteologia, surprehendeu-nos, entre outras, uma recommendação a seu respeito, pelo proprio director ás barbas do pae:—Nearcho da Fonseca era um grande gymnasta!

Talentoso que fosse, concebiamos, se por nada mais, ao menos pela cabelleira... Mas um gymnasta aquelle espectro da necessidade!

A juventude, entretanto, é a eterna esperança: nós esperamos por uma exhibição comprobante.

Abalou-se a tribu dos acrobatas, dos athletas; toda a rapaziada de brio, o Luiz á frente, que localisava na protuberancia nodosa do biceps o pundonor supremo da creatura, preparou na mais vasta admiração um aposento consideravel para acolher o confrade.

Formados trezentos, á tarde, diante dos apparelhos, foi em movimento de avidez que ouvimos Bataillard com o cavalheirismo que o distinguia, convidar a exhibir-se o grande Nearcho.

Estava presente o director; estava presente o respeitavel progenitor de Blondin. O Atheneu olhava.

Nearcho deixou a fórma, rompendo a marcha com o pé esquerdo, segundo a regra, mãos á ilharga, sério como um bispo, e encaminhou-se para o trapezio com o passo medido das emas, imperturbavel como quem sabe profundamente a technica do marchar. Perto do apparelho, sempre de mãos á cinta, volta a volver! virou-se para o collegio, teso, e quebrou para nós um duro salamalek, conservando por segundos a effracção angular das figurinhas delineadas, representando a lavoura, na cantaria historica do Egypto.

Assumptavamos anciosos.

Depois do comprimento, Nearcho empunhou a barra do trapezio, pollegar para baixo, segundo a pragmatica das posições. E fez uma flexão. Ah! não sabeis, profanos que sois, quanto vale a flexão dos membros superiores! A formula no mundo ideal da mecanica é a alavanca de Archimedes; da applicação pratica e contundente é o murro britannico. Constate nisto: encolher as munhecas.

Nearcho fez uma, fez duas, fez cinco! Seguiu-se uma vira-volta, e Nearcho ao trapezio, de cócoras, pôde perambular sobre o pasmo circumstante o pausado beque... Não era tudo, porém! Nearcho arranjou mais umas phantasias de cambalhotas, capazes de transformar radicalmente os principios firmados da arte dos trambolhões, e beneficiou-nos, suando, com um sorriso triumphal.

Faltava a sorte do fim. Nearcho espichou quanto pôde a lamentavel ausencia de musculos e deu-nos... uma sereia! A sereia é tudo que ha de mais elementar, de mais pulha, de mais tolamente ostentoso em materia do apparelhos. O sujeito segura-se ás cordas, levanta os pés da barra, mette os pés pelas mãos e de cabeça para a terra empurra o ventre. O pobre Nearcho, desbarrigado, não tinha ventre para empurrar.

Não empurrou cousa nenhuma; quando muito uns ossinhos que lhe saíam á altura do umbigo como cabos de faca. Pulou ao chão.

Estava exhibido o acrobata! Nós olhavamos uns para os outros, bestificados, em compostura abatida de caras-d'asnos. Aristarcho percebeu e reprehendou-nos com o sobrecenho. Nós comprehendemos delicadamente: estava alli o respeitavel pae de um collega...

Uma roda de palmas, claras, estrepitantes, inacabaveis, percorreu as fileiras com a electricidade communicativa das acclamações.

Nearcho, altivo, agradeceu com o nariz.

VI

O futuro tinha reservado para Nearcho um feixe de melhores palmas, uma galhada de louros mais legitimos como tempero de victoria.

O Gremio Litterario Amor ao Saber, instituição recente, seria o verdadeiro theatro dos seus soberbos alcances.

Duas vezes ao mez congregavam-se os amigos das letras, numa das salas de cima; a mesma das licções astronomicas de Aristarcho. Havia ainda para illuminar as sessões pedaços de materia cosmica pelos cantos, esfrangalhada pela analyse do mestre. Não quer dizer que merecesse as eternas luminarias da ironia a benemerita associação.

As suas reuniões comparecia eu timidamente, para nada mais que simplesmente abusar, por excessivo consumo, de um direito dos estatutos: podiam os alumnos, todos do Atheneu, em silencio humilde, mariscar o que fossem deixando os segadores do trigal das litteraturas.

Assistente infallivel, saía cheio com a rhetorica espigada, que ia espalmar, prensando no diccionario, conservas de espirito, reliquia inapreciavel do Bello.

A difficuldade que encontrava um estudante para forrar-se ao privilegio de gremista, fazia-me mais a fundo veneral-o.

Nearcho não teve o menor embaraço. Entrara para o estabelecimento muito adiantado. Foi immediatamente proposto, acceito e empossado. Á primeira sessão, depois do triumpho ao trapezio, tive occasião de aprecial-o á gymnastica do verbo.

Debatia-se este problema, dos inesgotaveis das aggremiações congeneres: Quem foi maior, Alexandre ou Cesar? indagação historica difficil evidentemente de levar a cabo sem o auxilio da trena.

Nearcho arranjou a cousa a olho e distinguiu-se com a esperada galhardia. Falou durante hora e meia com uma fluencia que lhe angariava para sempre o epitheto de facundo. Juxtapôz com o primor de um varegista de fazendas—Cesar sobre Alexandre Cesar protestou contra a maneira, de barriga para o ar, que nada tinha de artistica; além d'isso espetava-o a armadura de Alexandre. Aquillo faria rir a Pompeu no armario das legendas e a maledicencia do senado, compromettendo-se a seriedade secular do homem que foi, viu e venceu... Nearcho manteve-o inexoravelmente durante o percurso do parallelo critico. Cesar não podia contar com os legionarios do bom tempo; alli esteve a fazer caretas na sujeição inerme, anima vilis dos documentos. Alexandre, que afóra o capacete, via-se ainda maiorzinho que o outro, teve mais paciencia, deixando-se medir até á peroração, com a boa vontade de um defunto. Venceu com effeito. Nearcho proclamou-o magno dos magnos, diversas pollegadas maior que o temerario do Rubicon.

O Gremio esclarecido rejubilou. A discussão encerrou-se, não havendo mais quem falasse. Tambem havia cinco sessões que eram os pobres guerreiros tratados a metro.

Por este memoravel dia arvorou-se Nearcho em notabilidade firmada. Esqueceram todos que elle fôra matriculado sob o quasi compromisso de não dar um passo que não fosse um salto mortal, não descançar senão de pernas para cima em cadeiras equilibradas sobre garrafas, não ter outro recreio que não fosse a corda bamba, por não destoar da percorrida fama. Ficou em olvido a estréa acrobatica. O Gremio Amor ao Saber tomou-o a si, em posse exclusiva, como um orgulho.

Não faltavam, entretanto, poetas, jornalistas, polemistas, romancistas, criticos, folhetinistas. A sociedade tinha o seu orgão, O Gremio, impresso no Lombaerts, de que podiam ser canudos á vontade os socios quites e ainda, por maior riqueza de harmonias, os honorarios.

Entre os honorarios figurava Aristarcho, presidente, collaborando sempre no periodico com a transcripção em avulso das maximas de parede, e mandando sempre para a quarta pagina um annuncio garrafal do Atheneu, que pagava para auxiliar á empreza. Na interessante publicação appareciam quadrinhas mysticas do Ribas e sonetos lubricos do Sanches. Barreto publicava meditações, especie de harpa do crente em prosa arrebentada.

O rodapé-romance era uma imitação d'O Guarany, emplumada de vocabulos indigenas e assignada—Aimbiré.

Nearcho atirou-se á especialidade dos parallelos. Começou logo por dous de pancada: Scylla e Mario, Tito e Nero. No expediente promettia-se um terceiro curiosissimo: Plutarcho e os beocios.

Esta quéda para as linhas equidistantes, talento aliás de carril urbano e annexos muares, foi mais uma razão de prestigio para o extraordinario rapaz.

A eloquencia representava-se no Gremio por uma porção de categorias. Cicero tragedia—voz cavernosa, gestos de punhal, que parece clamar de dentro do tumulo, que arrepia os cabellos ao auditorio, franzindo com fereza o sobr'olho, que, se a rhetorica fosse susceptivel de assignatura, accrescentaria ao fim de cada discurso pesadamente: a mão do finado; Cicero modestia—formulando excellentes cousas, atrapalhadamente, no embaraço de um perpetuo début, desculpando-se muito em todos os exordios e ainda mais em todas as confirmações, lagrimas na voz, difficuldade no modo, selecto e engasgado; Cicero circumspecção—enunciando-se por phrases cortadas como quem encarreira tijolos, homem da regra e da legalidade, calcando os que e os cujo, longo, demorado, caprichoso em mostrar-se mais raso do que o muito que realmente é, amigo dos periodos quadrados e vasios como caixões, attenuando mais em cada conceito a attenuante do conceito anterior, conservador e ultramontano, porque as cousas estabelecidas dispensam de pensar, apologista ferrenho de Quintiliano, retardando com intervallos o discurso impossivel para provar que divide bem a sua elocução, com todos os requisitos da oratoria, pureza, clareza, correcção, precisão, menos uma cousa—a idéa; Cicero tempestade—verborrhagico, por páus e por pedras, precipitando-se pela fluencia como escadas abaixo, accumulando avalanches como uma liquidação boreal do inverno, annullando o effeito de assombroso destampatorio pelo assombro do destampatorio seguinte, eloquencia suada, offegante, desgrenhada, ensurdecedora, pontuada a murros como uma scena de pugilato; Cicero franqueza—positivo, indispensavel para o encerramento das discussões, dizendo a cousa em duas palavras, em geral grosseiro e mal falante, prompto para offerecer ao adversario o encontro em qualquer terreno, especie perigosa nas assembléas; Cicero sacerdocio—sacerdotal, solemne, orando em tremolo, alçando a testa como uma mitra, pedindo uma cathedral para cada proposição, calçando aos pés dous pulpitos em vez de sapatos, especie venerada e acatada.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Nearcho introduziu o typo ausente do Cicero penetração—incisivo, fanhoso e implicante, gesticulando com a mãozinha á altura da cara e o indicador em croque, marcando precisamente no ar, no soalho, na palma da outra mão o logar de cada cousa que diz, mesmo que se não perceba, pasmando de não ser entendido, impacientando-se até ao desejo de vasar os olhos ao publico com as pontas da sua clareza, ou derreando-se em frouxos de compaixão pela desgraça de nos não comprehendermos, porcos e perolas.

O gesto incisivo, mais a facundia desimpedida, mais o talento historico dos parallelos, consagrou a primazia do gremista.

O presidente effectivo da sociedade era o Dr. Claudio, professor da casa, homem de capacidade, benevolo para os desgarros de tolice da juventude, que teria desgosto para uma semana, se imaginassem que faltara a uma sessão por menosprezo. Esta constancia do chefe era o grande elemento de prosperidade do Amor ao Saber. O Dr. Claudio conduzia os trabalhos com verdadeira pericia de automedonte, esclarecia os embroglios, forjava adjectivos de encomio que ia dando a cada um por sua vez e a todos os estimáveis consocios, propunha algumas theses e achava graça em outras. Nas sessões solemnes pronunciava o discurso official.

A maior utilidade do Gremio para mim era a bibliotheca. Uma collecção de quinhentos a seiscentos volumes de variado texto, zelados pela vigilancia cerberesca do Bento Alves, bibliothecario, eleito de voto unanime.

Alves era da associação, como quasi todos os alumnos do curso superior. Filiava-se ao grupo sympathico dos silenciosos, usufruindo os lucros da circumstancia de não ser do regimento a taramela obrigatoria. Fóra da bibliotheca, os seus serviços aos intuitos do Gremio resumiam-se no apoiado! consciencioso e firme, á disposição sempre da melhor idéa, em questões elevadas, e do mais sabio alvitre em questões de ordem.

Alguns rapazes, não do Gremio e que não houvessem, nas letras, manifestado grammaticalmente notavel geito para a conjugação subrepticia do verbo adquirir, podiam obter do presidente o direito de ingresso na sala dos livros. Eu, como amigo que era das bonitas paginas impressas, apresentei candidatura. E como não divertia bastante o jogo da barra ao sol, nem o rapa-tira-deixa-pôe das pennas de aço e das carrapetas, nem o correr á panellinha das bolas de vidro espiraladas de côres, fez-se-me a bibliotheca a recreação habitual.

Esta frequencia angariou-me dous amigos, dous saudosos amigos—Bento Alves e Julio Verne.

Ao famoso contador do Tour du monde devo uma multidão numerosa dos amaveis phantasmas da primeira imaginação, excentricos como Fogg, Paganel, Thomas Black, alegres como Joe, Passepartout, o negro Nab, nobres como Glenarvan, Letourneur, Paulina Barnett, attrahentes como Aouda, Mary Grant. Sobre todos, grande como um semideus, barba nitente, luminosa como a neblina dos sonhos, o lendario Nemo da ilha Mysteriosa, taciturno da lembrança das justiças de vingador, esperando que um cataclysma lhe cavasse um jazigo no seio do Oceano, seu vassallo, seu cumplice, seu dominio, patria sombria do expatriado.

Possuia minha litteratura completa de thesouros de meninos, contos de Schmidt; visitara uma por uma no meu burrinho as feiras da sabedoria de Simão de Nantua; estudara profundamente pelas aventuras de Gulliver as vacillações da vida, onde, mal acabamos de zombar da pequenez extrema, vem sobre nós o ludibrio da extrema grandeza, especie de Pascal de mammadeira entre Liliput e Brobdignak; chegara á perfeição de duvidar das emprezas de Munchausen. Isto tudo sem falar nos Lusiadas do Sanches, no reverendo Bernardes, na refinada pilheria do Bertholdo e no Testamento do Gallo, symbolo aliás muito philosophico da odiosidade das successões, que por ventura do herdeiro autorisa o destripamento do gallinaceo como a tortura shakspereana de Lear.

Julio Verne foi festejado como uma migração do novidade. Onde quer que me levasse o Forward ou o Duncan, o Nautilus ou o balão Victoria, a columbiada da Florida ou cryptogramma de Saknussen, lá ia eu, esfaimado de desenlaces, prazenteiro, ávido como os tres dias de Colombo antes da America, respirando no cheiro das encadernações as variantes climatericas da leitura, desde as areias africanas até aos campos de crystal do Arctico, desde os grandes frios sideraes até a aventura do Stromboli.

A amizade do Bento Alves por mim e a que nutri por elle, me faz pensar que, mesmo sem o caracter de abatimento que tanto indignava ao Rebello, certa effeminação pode existir como um periodo de constituição moral. Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quasi timido, como se não tivesse animo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse d'elle os meus olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro de educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquella timidez, em vez de alertar, enternecia-me, a mim que aliás devia estar prevenido contra escaldos de agua fria. Interessante é que vago elemento de materialidade havia nesta affeição de criança, tal qual se nota era amor, prazer do contacto fortuito, de um aperto de mãos, da emanação da roupa, como se absorvessemos um pouco do objecto sympathico.

Na bibliotheca, Bento Alves escolhia-me as obras: imaginava as que me podiam interessar; e propunha a compra, ou as comprava e offerecia ao Gremio, para dispensar-se de m'as dar directamente. No recreio não andavamos juntos; mas eu via de longe o amigo, attento, seguindo-me o seu colhar como um cão de guarda. Soube depois que ameaçava torcer o pescoço a quem pensasse apenas em me offender; seu irmão adoptivo! confirmava.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Eu, que desde muito assumira entre os collegas um bello ar de impavida altania, modificava-me com o amigo, e me sentia bem na submissão voluntaria, como se fosse artificial a bravura, á maneira da conhecida petulancia feminina.

A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da represalia de Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicencia, digna d'elles.

Ás vezes na bibliotheca, emquanto eu lia, Alves olhava-me do outro lado da mesa central de panno verde, com a mão á fronte e os dedos mergulhados nos cabellos. Olhava-me e eu o sentia sem levantar a vista, comprehendendo no mais fino refolho de ninada vaidade que aquella contemplação traduzia o horror do ridiculo, proverbial em Bento Alves, manietando-lhe rijamente uma demonstração effusiva. Não fosse a critica uma creatura do tempo, eu poderia achar comica a situação dos personagens d'esta scena de platonismo. Não havendo a critica para falsear a psychologia por desdobramento, limitava-me a ser sincero, como o pobre amigo. Ás vezes vinha-lhe á palpebra uma lagrima sem origem.

No movimento geral da existencia do internato, desvelava-se caprichosamente; sabia ser de modo inexprimivel, fraternal, paternal, quasi digo amante, tanta era a minudencia dos seus cuidados. Não havia regalo, d'essas mesquinhas cousas de preço enorme na carestia perpetua da prisão escolar, de que se não privasse o Alves, em meu proveito, desesperando-se, a fazer pena, se eu tentava recusar. Á conversa, falava da familia no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs; falava d'ellas, do tempo passado que não as via, muito claras, de bellos olhos, uma de quinze annos, outra de doze; elle tinha dezoito. Falava de cuidados hygienicos meus, mudar de cama no salão azul, que estava muito perto das janellas, e isto havia de ser nocivo... Outras ninharias, em tom de sentida brandura, como se desejasse decrescer das proporções solidas de sua conformação para reduzir-se á exiguidade balbuciante de uma carcassazinha de avó, minguada de velhice, animada, ainda e apenas, pela febre do ultimo alento, pela necessidade de carregar ainda alguns dias um coração, um affecto.

Os estatutos do Gremio marcavam duas occasiões de solemnidade: as festas annuaes de abertura e do encerramento dos trabalhos. Além d'estas, as sessões commemorativas que a casa resolvesse.

Para as festas litterarias, levava-se ao pavilhão do recreio um grande estrado, tres mesas que se alinhavam para a directoria, sob um rico panno côr de vinho, de ramagens negras, que lembravam tinteiros entornados de mau agouro, e uma tribuna familiarmente appellidada caranguejola.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Esta caranguejola, enorme e pesada, que parecia protestar, a cada solavanco, contra o caracter de movel que lhe queriam á força impingir, fazia figura em todas as salas do Atheneu, conforme as exigencias da rhetorica. Localisada a conferencia, a prelecção, a pratica solemne, abalava-se a misera e punha-se em caminho, aos encontrões, seguindo o fadario de mostrador ambulante de eloquencia. Nestas circumstancias não era uma simples tribuna, era um verdadeiro prognostico. Em se movendo a caranguejola, discurseira imminente. Teve um dia de razoavel orgulho: d'ella serviu-se no Atheneu o professor Hartt, para uma conferencia de anthropologia.

Quando a vimos andar um dia e soubemos que aquillo significava a installação do Amor ao Saber, congregou-se o Atheneu, unificado no mesmo impulso de enthusiasmo, e pela primeira vez a tribuna marchou sem o cerimonial das topadas. Despedimos os criados, tomámol-a nós aos hombros; levámol-a em ovação.

A festa inaugural esteve animada. Mais do que se esperava, infelizmente.

Encheu-se de bancos e cadeiras austriacas o vastissimo salão. Ao centro, em frente, a mesa da directoria; á esquerda, os convidados; á direita, os outros alumnos, o resto, como sé diz das maiorias sem voz activa.

Sobre o panno avinhado de ramagens, abria-se a pasta do secretario; sobre a tribuna scintillava crystallino o copo das urgencias instantes.

Poucos oradores. Aristarcho, presidente honorario, abriu a sessão com a chave do peregrino verbo, recommendando a nova associação como um tentamen honroso e de muito fructo para os moços applicados, que teriam ensejo de se dar ao cultivo da oratoria e das bellas letras.

Subiu em seguida á tribuna o presidente effectivo.

Com a facilidade da sua elocução, fez o Dr. Claudio a critica geral da litteratura brasileira: a galhofa de Gregorio de Mattos e Antonio José, a epopéa de Durão, o idyllio da escola mineira, a uncção de Sousa Caldas e S. Carlos, a influencia de Magalhães, os ensaios do romance nacional, a gloria de Gonçalves Dias e José de Alencar.

E passou a estudar a actualidade.

O auditorio que escutava, interessado, mas tranquillo, começou a agitar-se.

O orador representava a nação como um charco de vinte provincias estagnadas na modorra paludosa da mais desgraçada indifferença. Os germens da vida perdem-se na vasa profunda; á superficie de coagulos de putrefacção, borbulha, espaçadamente, o halito mephitico do miasma, fermentado ao sol, subindo a denegrir o céu, com a vaporisação da morte. Os passaros calados fogem; as poucas arvores proximas no ar parado, debruçam-se uniformes sobre si mesmas num desanimo vegetativo, que parece crescer, descendo,—prosperidade melancolica de salgueiros. O horizonte limpo, remoto, desfere golpes de luz obliqua, reptil, que resvalam, espelhando fachas parallelas, immoveis, sobre o dormir da lama.

Por entre os raros canniços, emergem olhos de sapo, meditando a vantagem d'aquella paz sombria, indolencia negra, em que chega a ser vigor de vontade estrebuchar quatro arrancos através da onda grossa em busca da femea. A arte significa a alegria do movimento, ou um grito de suprema dôr nas sociedades que soffrem. Entre nós, a alegria é um cadaver. Ao menos se soffressemos... A condição da alma é a prostração comatosa de uma inercia morbida. Quem nos dera a tonicidade lethal de uma vasca. Trituramos a vida por igual como um osso; roemos o dia, pacientes, de rojo, sobre o ventre, como cães ao pasto. Fosse manjar o craneo de Rogerio, ao menos teriamos a tragedia... Nada! A condição é o descanço ininterrupto do anniquilamento no plano infinito da monotonia. E não é o tecto de braza dos estios tropicaes que nos opprime. Ah! como é profundo o céu do nosso clima material! Que irradiação de escapadas para o pensamento a direcção dos nossos astros! O pantano das almas é a fabrica immensa de um grande emprezario, organisação de artificio, tão longamente elaborada, que dir-se-ia o empenho madreporico de muitos seculos, dissorrando em vez de construir. É a obra moralisadora de um reinado longo, é o transvasamento de um caracter, alagando a perder de vista a superficie moral de um imperio—o desmancho nauseabundo, esplanado, da tyrannia molle de um tyranno de sebo!...

Calculem agora que estava entre os convidados o Dr. Zé Lobo, pae de um alumno, devoto jurado e confirmado das instituições, irmão de não sei quantas ordens terceiras, primo de todos os conventos, advogado de causas religiosas, conservador em summa, enraivado e militante. O sebo da tyrannia caiu-lhe nos melindres como um pingo de vela benta.

«Protesto!» rugiu, rubro e rouquenho, dilacerando as barbas e erguendo o punho. Não podia admittir que viessem á sua vista ensebar as instituições! Por maior desgraça estava tambem presente o Senador Rubim, avô de outro alumno, senador de máus bofes, um pae da patria padrasto, sem considerações nem papas na lingua.

«Quem protesta contra o sebo da tyrannia é burro!» redarguiu ao apartista com a pachorra temivel dos velhos insolentes.

—Burro, não! clamou o outro, empallidecendo sob a vergasta da injuria, nervoso, perturbado pela attenção da sala inteira que o encarava. Burro, não! taes expressões são indignas de V. Exª., um senador e um velho!...

—Burro, sim!... repetia o outro vagarosamente, com um arreganho enfastiado de insulto. Burro, sim!...

Aristarcho conservava-se á presidencia, na pasmaceira de páu dos idolos affrontados. O salão enorme, alumnos e convidados, tumultuava em vagalhões, fragmentado em partidos oppostos, uns pelo senador e pela anarchia, outros pelo advogado e pela ordem publica. Muitos gesticulavam de pé; havia estudantes, gritando em cima dos bancos. Os insultos voavam como pelouros; os protestos rangiam como escudos feridos; havia mãos pelo ar que pediam espadas.

Aproveitando-se do escarcéu, o advogado ousara arremessar uns desaforos ao senador. O outro, sem ouvir bem, ia replicando com a impertinencia do seu estribilho: «Burro, sim», ate que, impaciente, pôz remate á polemica com as cinco letras da energia popular que Waterloo fez heroicas, Victor Hugo fez épicas e Zola fez classicas.

Sob o peso da conclusão, Zé Lobo cedeu.

Aristarcho achou que era tempo de funccionar a presidencia e sacudiu sobre o tumulto o badalo da ordem.

O orador na tribuna, erecto e calmo, promontorio sobre a tormenta, esperava que o alvoroço chegasse a termo. Apenas viu arrefecer o furor dos improperios:

«Corramos um véu sobre o scenario desolador,» continuou; «venha em soccorro a esperança de um renascimento.» E por ahi habilidosamente conduzindo a oração, acabou por um quadro de futuro, armado em aurora sobre a tribuna, portico de luz, jorrando um deslumbramento que extasiou os ouvintes com o encanto dos vaticinios felizes, levando o sopro da viração matutina as nuvens do desanimo esfumadas antes sobre o panorama.

Tiveram a palavra, ainda, dous estudantes, que moeram uma quantidade profusa de phrases communs a proposito de letras e litteratos. O filho do director, o republicanozinho que conhecem, tinha no bolso dez tiras, dez brulotes de eloquencia incendiaria, que resolveu suffocar depois do escandalo collossal do sebo.

A segunda sessão solemne do gremio, comquanto mais pacifica, não foi menos importante.

Realisou-se em principios de Outubro, pelas immediações das férias. A concorrencia foi maior, compareceram senhoras em grande numero, o que não succedera na de installação; houve mais capricho de ornatos na sala; forrou-se a tribuna de verde e amarello; inscreveram-se os mais aproveitados campeões da oratoria do Amor ao Saber. O collegio compareceu fardado; a directoria, de casaca.

A conferencia do Dr. Claudio foi subversiva, mas em sentido diverso da primeira. Versou não mais sobre a litteratura no Brasil, porém sobre a arte em geral:

Arte, esthetica, esthesia é a educação do instincto sexual.

A manutenção da existencia individua tem a razão de ser no instincto de vitalidade da especie. O momento presente das gerações nada mais é que a ligação prolifica do passado com a posteridade. E a razão de ser das especies? A indagação não perscruta.

Para que o individuo perdure, momento genesico da existencia especifica no tempo, é indispensavel adaptar-se ás imposições do meio universal. O rio a correr não despreza o detalhe do mais insignificante remanso, nem póde sophismar o obstaculo do menor rochedo no alvéu. O criterio inconsciente do instincto é o guia da adaptação.

O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até o movimento do enfermo, no leito de agonia, buscando uma posição mais commoda para morrer, é a selecção do agradavel. Os sentidos são como as antennas salvadoras do insecto titubeante; vão ao encontro das impressões, avisadores opportunos e cautelosos.

A cada mundo de sensações notaveis corresponde um sentido. Os sentidos, theoricamente delimitados, são cinco, multipla transformação de processo de um unico—o tacto, exactamente o sentido rudimentar das antennas.

Faz-se, tacteando instinctivamente a procura dos agradaveis: agradavel visual, agradavel gustativo, agradavel tangivel, em summa. O agradavel é essencialmente vital; se é ás vezes funesto, é porque o instincto póde ser atraiçoado pelas illusões.

A perfectibilidade evolutiva dos organismos em funcção, manifestando-se prodigiosamente complexa, no typo humano, corresponde á revelação, na ordem animal, do mysterioso phenomeno personalidade, capaz de fazer a critica do instincto, como o instincto faz a critica da sensação.

A informação de reportagem de cada sentido não desperta, portanto, no homem a actividade cerebral dos impulsos de preferencia, de repugnancia, simplesmente, como nos outros animaes; mas amplia, pela psychologia inteira dos phenomenos espirituaes, a variedade infinita das comparações, permutadas de mil modos na unidade do espirito como as peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo panno.

Duas são as representações elementares do agradavel realisado: nutrição e amor.

Os animaes inferiores, não favorecidos por um razoavel coefficiente de progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade: olham, tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrupulo e devoram grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.

O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução historica da humanidade.

A nutrição reclamou a caçada facil—inventaram-se as armas; o amor pediu um abrigo, ergueram-se as cabanas. A digestão tranquilla e a perfilhação sem sobresaltos precisaram de protecção contra os elementos, contra os monstros, contra os malfeitores,—os homens tacitamente se contractaram para o seguro mutuo, pela força maior da união: nasceu a sociedade, nasceu a linguagem, nasceu a primeira paz e a primeira contemplação. E os pastores viram pela vez primeira que havia no céu a estrella Vesper, expandida e pallida como o suspiro.

Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos leões, e que houvesse marfim, metaes luzentes, pedraria, sobre a alvura lactea da carne amada, que não bastavam beijos para vestir; era preciso deliciar a gustação, com o requinte das estranhezas. E os homens levaram a conquista aos reis da floresta, ao ventre do solo; foram colher aos ares os incolas mais raros, emplumados de luz como creações canoras do sol; e foram buscar ás ondas os mais esquivos viajores do abysmo, singrando celeres, phantasticos, na sombra azul, cm cauda um reflexo vago de escamas,—para morder-lhes á vida.

Urgiu ainda a fome, urgiu mais o amor e veio a guerra, a violencia, a invasão. Curvaram-se os captivos ao latego vencedor e foram abatidas as escravas sob a garrada lascivia sanguinaria, faminta de membros avulsos, olhos sem alma, labios sem palavra, formas sem vontade, pretexto miseravel de espasmos. Formaram-se os odios de raça, as oppressões de classe, as corrupções vingadoras e demolidoras.

Mas a scisma evoluiu tambem, aquella scisma poetica da pastoral primeva que buscara os astros no céu para adereço dos idyllios. O fundo tranquillo e obscuro das almas, aonde não chega o tumultuar de vagas da superficie, inflammou-se de phosphorescencias; geraram-se as aureolas dos deuses, coalharam-se os discos das glorias olympicas; as religiões nasceram.

Mas era preciso que fosse palpavel o espectro da divindade: as rochas descascaram-se em estatuas, os metaes se fizeram carne e houve templos, houve cultos, houve leis, vieram prophetas e pontifices ambiciosos. E esta evolução da scisma que fôra amante, feita instrumento da tyrannia, deu logar ás praticas do terror, aos apostolados do morticinio.

Illustration from O Atheneu (chronica de saudades)

Mas uma lyra ficara da geração primeira de scismadores, e as cordas cantavam ainda e os sons falaram no ar as epopéas do Oriente e da Grecia. Roubou-se aos sacerdotes tyrannos o monopolio dos deuses para jungil-os á atrelagem do metro; que levassem, através dos seculos, o carro triumphal da estrophe, onda sonora de vibrações immortaes.

E os esculpidores dos idolos legaram o segredo da fabrica, revelando que vinham de um molde de barro aquellas arrogancias de bronze, e que se fazem deuses como as amphoras. E os artistas modernos recomeçaram, chamando a religião ao atelier, como um modelo de hora paga; e gravaram em tinta, pelos muros, as visões mysticas da crença.

A nitidez artistica das formas fizera crer aos homens que morava realmente um espirito sagrado na porosidade do marmore, e que realmente havia em proporções infinitas uma tela de olympos e paraisos, onde as côres do anthropomorphismo artistico viviam soberanas, olhando o mundo lá em baixo, vasando a urna providencial das penas e das alegrias.

Decaídas as phantasias sentimentaes, reformou-se o aspecto do mundo. Os deuses foram banidos como effeitos importunos do sonho. Depois da ordem em nome do Alto, proclamou-se a ordem positivamente em nome do Ventre. A fatalidade nutrição foi erigida em principio: chamou-se industria, chamou-se economia politica, chamou-se militarismo. Morte aos fracos! Alçando a bandeira negra do darwinismo spartano, a civilisação marcha para o futuro, impavida, temeraria, calcando aos pés o preconceito artistico da religião e da moralidade.

Sobrevive, porém, o poema consolador e supremo, a eterna lyra...

Reinou primeiro o marmore e a forma; reinaram as côres e o contorno; reinam agora os sons,—a musica e a palavra. Humanisou-se o ideal. O hymno dos poetas do marmore, do colorido, que remontava ao firmamento, fala agora aos homens, advogado energico do sentimento.

Sonho, sentimento artistico ou contemplação, é o prazer attento da harmonia, da symetria, do rhythmo, do accôrdo das impressões, com a vibração da sensibilidade nervosa. É a sensação transformada.

A historia do desenvolvimento humano nada mais é do que uma disciplina longa de sensações. A obra de arte é a manifestação do sentimento.

Dividindo-se as sensações em cinco especies de sentidos, devem os sentimentos corresponder a cinco especies e igualmente as obras de arte.

Da sensação acustica vem a esthesia acustica: sentimento nos sons, nas palavras—eloquencia e musica; da sensação da vista, a esthesia visual, o sentimento na fórma, no traço e no colorido,—esculptura, architectura, pintura; da sensação palatal e olfactiva nasce o sentimento do gosto e do perfume,—artes menos consideradas pela relativa inferioridade dos seus effeitos. A sensação do tacto, secundada por todas as outras, dá logar ao sentimento complexo do amor, arte das artes, arte matriz, razão de ser de todas as especies de esthesia.

O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da esthetica, no gozo visual das linhas da formosura, na delicia auditiva de uma expressão inarticulada, que fosse emittida com expressão, na commoção de um contacto, na aspiração inebriante do aroma indefinido da carne. A obra d'arte do amor é a prole; o instrumento é o desejo.

Depois da arte primitiva e fundamental do tacto, a arte do ouvido. A obra de arte é a phrase sentida, habil para produzir emoção; o instrumento é a linguagem.

Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloquencia propriamente e poesia popular, graças á aproximação hybrida de terceira arte, do ouvido, a musica.

Com o progresso humano, o sentimento artistico da symetria e da harmonia destacou-se analyticamente da arte de amar. E, depois da arte primordial, descendente immediata do instincto erotico, da qual se desprendera, sob a fórma selvagem das interjeições primitivas, a arte da eloquencia; e em seguida, sob a forma de expressões homometricas, a poesia popular e a primeira musica; nasceram as artes intencionaes, de imitação, da esculptura, da architectura, do desenho. Depois da poesia popular, amorosa ou heroica, veio a rhapsodia.

Ainda mais, segundo um traçado naturalissimo de filiação, o sentimento da symetria, trasladado para a esphera das relações sociaes, serviu de plano á organisação das religiões, filhas do pavor, e das moralidades, invenção das maiorias de fracos. Com o predominio insensato das religiões, o amor deixou de ser um phenomeno, passou a ser um ridiculo ou uma cousa obscena.

Por um raciocinio de retrocesso, se ponderarmos que a moralidade é a organisação symetrica da fraqueza commum, que a religião é a organisação symetrica do terror, que a symetria, isto é, harmonia e proporção, é a norma artistica das imitações plasticas da ingenua admiração da creatura primitiva, e que esta admiração prazenteira, testemunhada por uma tentativa de desenho ou de estatua, por um canto popular ou por uma interjeição vehemente, nada mais é do que um modo accentuado de um esforço de attenção, e que a primeira attenção dos homens do principio,—a lenda de Adão que o diga,—devia ser do individuo de um sexo para o individuo de outro sexo, teremos averiguado o aphorismo paradoxal de que a arte subjectivamente, o sentimento artistico, nas suas mais elevadas, mais ethereas manifestações, é simplesmente—a evolução secular do instincto da especie.

Esta é a sua grandeza, e por isso vae zombando, através das idades, das vicissitudes tempestuosas do combate pela nutrição, dos proprios exasperos homicidas do amor.

A arte é primeiro espontanea, depois intencional.

Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento, e faz o amor concreto, a interjeição, a eloquencia rudimentar, a poesia primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde, progressivamente, por effeitos de calculo e meditação e dá o epos, a eloquencia culta, a musica desenvolvida, o desenho, a esculptura, a architectura, a pintura, os systemas religiosos, os systemas moraes, as ambições de synthese, as metaphysicas, até as formas litterarias modernas, o romance, feição actual do poema no mundo.

As manifestações espontaneas são coevas de todas as sociedades; a poesia popular, por exemplo, não desapparece, nem a eloquencia, ainda menos o amor. As manifestações intencionaes, ampliações, aperfeiçoamentos do modo primitivo de expressão sentimental, sujeitam-se aos movimentos e vacillações de tudo que progride.

O coração é o pendulo universal dos rhythmos. O movimento isochrono do musculo é como o aferidor natural das vibrações harmonicas, nervosas, luminosas, sonoras. Graduam-se pela mesma escala os sentimentos e as impressões do mundo. Ha estados d'alma que correspondem á côr azul, ou ás notas graves da musica; ha sons brilhantes como a luz vermelha, que se harmonisam no sentimento com a mais vivida animação.

A representação dos sentimentos effectua-se de accôrdo com estas repercussões.

O estudo da linguagem demonstra.

A vogal, symbolo graphico da interjeição primitiva, nascida espontaneamente e instinctivamente do sentimento, sujeita-se á variedade chromatica do timbre como os sons dos instrumentos de musica. Gradua-se em escala ascendente u, o, a, e, i, possuindo uma variedade infinita de sons intermediarios, que o sentimento da eloquencia suggere aos labios, que se não registram, mas que vivem vida real nas palavras e fazem viver á expressão, sensivelmente energica, emancipada do preceito pedagogico, de improviso, quasi inventada pelo momento.

Ha ainda na linguagem o rhythmo de cada expressão. Quando o sentimento fala, a linguagem não se fragmenta por vocabulos, como nos diccionarios. É a emissão de um som prolongado, a crepitar de consoantes, alteiando-se ou baixando, conforme o timbre vogal.

O que move o ouvinte é uma impressão de conjuncto. O sentimento de uma phrase penetra-nos, mesmo enunciado em desconhecido idioma.

O timbre da vogal, o rhythmo da phrase dão alma á elocução. O timbre é o colorido, o rhythmo é a linha e o contorno. A lei da eloquencia domina na musica, colorido e linha, seriação de notas e andamentos; domina na esculptural, na architectura, na pintura: ainda a linha e o colorido.

Na sua qualidade de representação primaria do sentimento, depois do facto do amor, a eloquencia é a mais elevada das artes. Dahi a supremacia das artes litterarias,—eloquencia escripta.

A eloquencia foi a principio livre, fiel ao rhythmo do sentimento; influenciada pela musica monotona dos mais antigos tempos, cadenciou-se em metro regular e monotono como a musica. Aproveitada como recurso mnemonico, libertou-se da musica, guardando, porém, a fórma do metro igual e da quantidade equivalente, que havia de ser um dia a metrificação da syllaba, que havia de dar em resultado a monstruosidade da rima, o calembour feito milagre de perfeição.

A musica seguiu á parte a sua evolução.

Na arte da eloquencia da actualidade accentuasse uma reacção poderosa contra o metro classico; a critica espera que dentro de alguns annos o metro convencional e postiço terá desapparecido das officinas da litteratura. O sentimento encarna-se na eloquencia, livre como a nudez dos gladiadores e poderoso. O estylo derribou o verso. As estrophes medem-se pelos folegos do espirito, não com o pollegar da grammatica.

Hoje, que não ha deuses nem estatuas, que não ha templos nem architectura, que não há dies iræ nem Miguel-Angelo; hoje que a mnemonica é inutil, o estylo triumpha, e triumpha pela fórma primitiva, pela sinceridade vehemente, como nos bons tempos em que o coração para bem amar e o dizer não precisava crucificar a ternura ás quatro difficuldades de um soneto.

Qual a missão da arte? Originaria da propensão erotica fóra do amor, a arte é inutil,—inutil como o esplendor corado das petalas sobre a fecundidade do ovario. Qual a missão das petalas córadas? De que nos serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar das aves? A arte é uma consequencia e não um preparativo. Nasce do enthusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o attesta. Agrada sempre, porque o enthusiasmo é contagioso como o incendio. A alma do poeta invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não tem por fim agradar.

E, depois, reclamar titulos de utilidade ás divagações graciosas de uma energia da alma, que significa em primeira manifestação a propria perpetuidade da especie?!

Além de inutil, a arte é immoral. A moral é o systema artistico da harmonia transplantado para as relações da collectividade. Arte sui generis. Se é possivel efficazmente o regimen social das symetrias da justiça e da fraternidade, o futuro ha de provar. Em todo caso, é arte differente e as artes não se combinam senão em productos falsos, de convenção.

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