O ATHENEU (continued 3)
Reading edition
Poema intencionalmente moral é o mesmo que estatua polychroma, ou pintura em relevo. Apenas uma cousa possivel, nada mais; ha tambem quem faça flôres, com azas de barata e pernas.
A verdadeira arte, a arte natural, não conhece moralidade. Existe para o individuo sem attender á existencia de outro individuo. Póde ser obscena na opinião da moralidade: Leda; póde ser cruel: Roma em chammas, que espectaculo!
Basta que seja artistica.
Cruel, obscena, egoista, immoral, indomita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana—acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da sciencia que se corrige; embriaga como a orgia e como o extase.
E desdenha dos seculos ephemeros.
Á vista da tranquillidade do auditorio, subentende-se que não estavam presentes os dous heróes da primeira sessão solemne: o Dr. Zé Lobo não viera, para não encontrar o Senador; o Senador Rubim não viera, para não encontrar o Dr. Zé Lobo: impulsos equivalentes em sentido contrario annullam-se.
Havia na sala diversos ouvintes que se distrahiam de perseguir com attenção a galopada de hippogrypho, em que se elevava a eloquencia do orador.
Bento Alves, um; outro o Malheiro, moreno, nervoso, carrancudo, o primeiro gymnasta; outro, Barbalho.
A preoccupação de Bento Alves era uma injuria. Entre elle e Malheiro havia rixa velha de emulação. Malheiro não lhe perdoava a culpa de ser bravo. Os proprios prodigios da força e agilidade, applaudidos e proclamados pelo Atheneu, não davam para saciar a vaidade. De que valia ser forte, se era impossivel a applicação do seu esforço para affrouxar uma fibra á musculatura do Bento? Ah! não ser possivel por suggestão desfiar uma a uma aquellas meadas de arame, reduzir a infantilidade debil aquella corpulencia odiosa! Por que não iriam os desejos da inveja, como vampiros, sorver o sangue áquella força, a vida, gotta a gotta, áquelle vigor de ferro?
Bento Alves não dava mostras de perceber a rivalidade. Malheiro evitava-o. Era impossivel conservar-se um momento perto do collega, que lhe não dessem impetos de assaltal-o.
A façanha da prisão effectuada pelo rival definitivamente retirava-lhe a gloria de valoroso unico. Malheiro entrou em melancolia trancada. O rosto moreno amorenou-se mais; a animação de um brilho não lhe chegava á janella do olhar; o sorriso nos labios não abria a porta. Dir-se-ia um frontispicio de lucto.
Ficou a ruminar o projecto de um encontro.
O meu bom amigo, exaggerado em mostrar-se melhor, sempre receioso de importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova surpreza e agrado. Chegara ao excesso das flôres. A principio, petalas de magnolia secca com uma data e uma assignatura, que eu encontrava entre folhas de compendio. As petalas começaram a apparecer mais frescas e mais vezes; vieram as flôres completas. Um dia, abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudencia de um ramalhete. Santa Rosalia da minha parte nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as flôres, muito agradecido, o escondi-as antes que vissem.
Mas o Barbalho espiava, ultimamente constituido fiscal occulto dos meus passos.
As circumstancias o tinham aproximado do Malheiro, e o açafroado caolho pretendia manejar a rivalidade dos dous maiores: um conflicto entre Malheiro e Bento podia ser a vergonha para mim.
O Malheiro, com o vozeirão grave de contrabaixo, começou a infernisar-me por epigrammas. Queria incommodar o Alves mortificando-me, julgando que me queixasse. Eu devorava as affrontas do marmanjo sem descobrir o meio de tirar correcta desforra. Barbalho lembrou-se de tomar as dôres. Depois de incitar o Malheiro contra mim, incitou o Bento contra o Malheiro. Procurou-o mysteriosamente e informou: «o Malheiro não passa pelo Sergio que não pergunte quando é o casamento... é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas. O Sergio está desesperado.»
O furor do Alves não se descreve, furor poderoso dos calados. Uma onda de apoplexia ruborisou-lhe as faces. Por unico movimento de indignação contrahiu os dedos, como estrangulando. Procurou o Malheiro e com a voz talvez alterada, mas sem odio, fez intimação: «amanhã é a sessão de encerramento; em meio da festa saímos ambos; preciso falar-lhe das bodas.»
Malheiro percebeu: era o sonhado encontro!
Apenas desceu da tribuna o presidente effectivo do Gremio, os adversarios deixaram as cadeiras. Barbalho saiu pouco depois. Notei o movimento e adivinhei mais ou menos.
Quando saímos do pavilhão, finda a solemnidade, um criado entregou-me um enveloppe, uma carta do Alves, a lapis. «Estou preso; antes que te digam que por alguma indignidade, previno: por ter dado uma licção ao Malheiro.»
Minutos depois, Franco, muito satisfeito, contava a todos: «tinham luctado no jardim o Malheiro e o Alves; que briga dos dous brutos!» Alves saíra ferido com um golpe no braço, acreditam que de navalha; Malheiro estava no dormitorio. Avisados pelo Alves, os criados tinham ido buscal-o sem sentidos, ao fundo de um bosquete no parque. «Sem sentidos! garantia o Franco; que pandega! que sopapos! ora o Malheiro malhado!»
Soube-se que Barbalho espreitara o combate através dos arbustos. Antes de o vêr acabado, correra activo, e concentrando a vesgueira numa só attenção de intrigante, preparara as cousas de modo que, ao voltar do jardim, Bento Alves foi surprehendido por uma ordem de prisão do director.
Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no collegio. Os contendores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou o braço a exame e a curativo; Malheiro, em pannos de sal, fingindo-se muito prostrado, offerecia o mais impenetravel silencio ás indagações de Aristarcho e protestava esborrachar as ventas a quem caísse na asneira de insinuar o bedelho no que não era da sua conta.
«Ora o malhado!...» resmungavam os collegas; mas tratavam de esquecer o caso.
Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas romanceiras, montando guarda de suspiros á janella gradeada de um carcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim unico de propôr assumpto ás trovas e aos trovadores medievos.
VII
O tédio é a grande enfermidade da escola, o tédio corruptor que tanto se póde gerar da monotonia do trabalho como da ociosidade.

Tinhamos em torno da vida o ajardinamento em floresta do parque e a toalha esmeraldina do campo e o diorama accidentado das montanhas da Tijuca, ostentosas em curvatura toraxica e frentes felpudas de collosso: espectaculos de excepção, por momentos, que não modificavam a seccura branca dos dias, enquadrados em pacote nos limites do pateo central, quente, insupportavel de luz, ao fundo d'aquellas altissimas paredes do Atheneu, claras da caiação, do tédio, claras, cada vez mais claras.
Quando se aproxima o tempo das férias, o aborrecimento é maior.
Os rapazes, em grande parte dotados de tendencias animadoras para a vida pratica, forgicavam mil meios de combater o enfado da monotonia. A folgança fazia época como as modas, metamorphoseando-se depressa como uma serie de ensaios.
A peteca não divertia mais, palmeada com estrepito, subindo como foguete, caindo a rodopiar sobre o cocar de pennas? Inventavam-se as bolas elasticas. Fartavam-se de borracha? Inventavam-se as pequenas espheras de vidro. Acabavam-se as espheras? Vinham os jogos de salto sobre um tecido de linhas a giz no soalho, ou riscadas a prego na areia, a amarella, e todas as suas variantes, primeira casa, segunda casa, terceira casa, descanço, inferno, céu, levando-se á ponta de pé o seixozinho chato em arriscada viagem de pulos. Era depois a vez dos jogos de corrida, entre os quaes figurava notavelmente o saudoso e rijo chicote queimado. Variavam os aspectos da recreação, o pateo central animava-se com a revoada das pennas, o estalar elastico das bolas, passando como obuzes, ferindo o alvo em pontaria amestrada, o formigamento multicôr das espheras de vidro pela terra, com a gritaria de todas as vozes do prazer e do alvoroço.
Depois havia os jogos de parada, em que circulavam como preço as pennas, os sellos postaes, os cigarros, o proprio dinheiro. As especulações moviam-se como o bem conhecido ophidio das corretagens. Havia capitalistas e usurarios, finorios e papalvos, idiotas que se encarregavam de levar ao mercado, com a facilidade de que dispunham fóra do collegio, fornecimentos inteiros, valiosissimos, de Mallats e Guillots que os habeis limpavam com a gentileza de figurões da bolsa, e sellos inestimaveis que os colleccionadores praticos desmereciam para tirar sem custo; fumantes ebrios de fumo alheio, adquirido facilmente no movimento da praça, repimpados á turca sobre os coxins da barata fartura.
As transacções eram prohibidas pelo codigo do Atheneu. Razão de mais para interessar. Da letra da lei, incubados sob a pressão do veto, surgiam outros jogos, mais expressamente caracteristicos, dados que espirravam como pipocas, naipes em leque, que se abriam orgulhosos dos bellos trunfos, entremostrando a pansa do rei, o sorriso galhardo do valete, a symbolica orelha da sota, a paysagem ridente do az; roletas miudas de cavallinhos de chumbo; uma alluvião de fichas em cartão, pullulantes como os dados e córadas como os padrões do carteiro.
A principal moeda era o sello.
Pelo sinete da posta dava-se tudo. Não havia premios de licção que valessem o mais vulgar d'aquelles coupons servidos. Sobre este preço, permutavam-se os direitos do pão, da manteiga ao almoço, da sobremesa, as delicias secretas da nicotina, o proprio decoro pessoal em si.
A raiva dos colleccionadores, caprichando em exhibir cada qual o album mais completo, mais rico, transmittia-se a outros, simples agentes de especulação; d'estes ainda a outros com a seducção do interesse. No collegio todo, só Rebello talvez e o Ribas, primeiro fundeado no porto da misanthropia senil que o distanciava do mundo tempestuoso, o outro a fazer perpetuamente de anjo feio aos pés de Nossa Senhora, escapavam á mania geral do sello, melhor, á geral necessidade de premunir-se com valor corrente para as emergencias.
No commercio do sello é que fervia a agitação de emporio, contractos de cobiça, de agiotagem, de esperteza, de fraude. Accumulavam-se valores, circulavam, fructificavam; conspiravam os syndicatos, arfava o fluxo, o refluxo das altas e das depreciações. Os inexpertos arruinavam-se, e havia banqueiros atilados, espapando banhas de prosperidade.
Falava-se, com a reserva tartamuda dos caudatarios do milhão, de fortunas imponderaveis... Certo felizardo que possuia aquelles immensos exemplares da primeira posta na Inglaterra, os dous rarissimos, ambos! o azul e o branco, de 1840, com a estampa nitida de Mulrady: a Gran-Bretanha braços abertos sobre as colonias, sobre o mundo; á direita, a America, a propaganda civilisadora, a conquista da savanna; á esquerda, o dominio das Indias, coolies sob fardos, dorsos de elephantes subjugados; ao fundo, para o horizonte, navios, o trenó canadiano que foge á disparada das rennas; no alto, como as vozes aladas da fama, os mensageiros da metropole.
Joias d'este preço immobilisavam-se nas collecções, inalienaveis por natureza como certos diamantes. Nem por isso era menos ardente a mercancia na massa febril da pequena circulação; da quantidade infinita dos outros sellos, rectangulares, octogonaes, redondos, ellipsoidaes, alongados verticalmente, transversalmente, quadrados, lisos, denteados, antiquissimos ou recentes, inglezes, suecos, da Noruega, dinamarquezes, de sceptro e espada, sumptuosos Hannover, como retalhos de tapeçaria, cabeças de aguia de Lubeck, torres de Hamburgo, aguia branca da Prussia, aguia em relevo da moderna Allemanha, austriacos, suissos de cruz branca, da França, imperiaes e republicanos, de toda a Europa, de todos os continentes, com a estampa de um pombo, de navios, de um braço armado; gregos com a effigie de Mercurio, o deus unico que ficou de Homero, sobrevivo do Olympo depois de Pan; sellos da China com um dragão esgalhando garras; do Cabo, triangulares; da republica de Orange com uma larangeira e tres trompas; do Egypto com a esphinge e as pyramides; da Persia de Nasser-ed-Din com um pennacho; do Japão, bordados, rendilhados como pannos de biombo e de ventarolas; da Australia, com um cysne; do reino de Hawaii, do rei Kamehameha III; da Terra Nova com uma phoca em campo da neve; dos Estados-Unidos; de todos os presidentes da republica de S. Salvador com uma aureola de estrellas sobre um vulcão; do Brasil, desde os enormes mal feitos de 1843; do Perú com um casal de lamas; todas as côres, todos os sinetes com que os estados tarifam as correspondencias sentimentaes ou mercantis explorando indistinctamente um desconto minimo nas especulações gigantescas e o imposto de sangue sobre as saudades dos emigrados da fome.
A sala geral do estudo, comprida, com as quatro galerias de carteiras e a parede opposta de estantes e a tribuna do inspector, era um microcosmo de actividade subterranea. Estudo era pretexto e apparencia, as encadernações capeavam mais a esperteza do que os proprios volumes.
A certas horas reunia-se alli o collegio inteiro, desde os elementos de primeiras letras até os mais adiantados cursos. Agrupavam-se por ordem de habilitações; o abc diante da porta de entrada, á direita; á extrema esquerda, os philosophos, cogitadores do Barbe, os latinistas abalisados, os admiraveis estudantes do allemão e do grego. Baralhavam-se as tres classes de idades; podia estar um marmanjo empacado á direita na carteira dos analphabetos, e podia estar um bêbê prodigio a desmammar-se na philosophia da esquerda. O acaso da collocação podia sentar-me entre o Barbalho e o Sanches, como podia da affeição do Alves desterrar-me uma legua. Dependia tudo do adiantamento.
Como compensação d'estas desvantagens havia os telegraphos e a correspondencia de mão em mão. Os fios telegraphicos eram da melhor linha de Alexandre 80, subtilissimos e fortes, accommodados sob a taboa das carteiras, mantidas por alças de alfinete. Em férias desarmavam-se. Dous amigos interessados em communicar-se estabeleciam o apparelho; a cada extremidade, um alphabeto em fita de papel e um ponteiro amarrado ao fio; legitimo Capanema. Tantas as linhas, que as carteiras vistas de baixo apresentavam a configuração agradavel de citharas encordoadas tantas, que ás vezes emmaranhava-se o serviço e desafinava a cithara dos recadinhos em harpa de carcamano.
Havia o genio inventivo no Atheneu, esperanças de riqueza, por alguma descoborta milagrosa que o acaso deparasse á maneira do pomo de Newton. Occorre-me um perspicaz que contava fazer fortuna com um privilegio para explorar ouro nos dentes chumbados dos cadaveres, uma mina! Foi assim a invenção malfadada do telegrapho-martellinho. Tantas pancadinhas, tal letra; tantas mais, tantas menos, taes outras. Os inventores achavam no systema dos signaes escriptos a desvantagem de não servir á noite. O elemento base d'esta refórma era uma confiança absoluta na surdez dos inspectores; aventuroso fundamento, como se provou.
As primeiras pancadinhas passaram; apenas os estudantes mais proximos sorriam disfarçando. Mas o martellinho continuou a funccionar e ganhou coragem. No silencio da sala, gottejavam as pancadas, miudas, como o debicar de um pintainho no soalho.
No alto da tribuna, o Sylvino coçou a orelha e ficou attento; começava a implicar com aquillo. Silencio... silencio, e as pancadinhas de vez em quando.
Foi o diabo. Inesperadamente precipitou-se do alto assento como um abutre, e com a finura do officio foi cair justo sobre o melhor de um despacho. Seguiu-se a devastação. Examinando a carteira, descobriu a rêde consideravel dos outros telegraphos. Foi tudo raso. Brutal como a furia, implacavel como a guerra—oh Havas!—o Sylvino não nos deixou um fio, um só fio ao novello das correspondencias! De carteira em carteira, por entre pragas, arrancou, arrebentou, destruiu tudo, o vandalo, como se não fosse o fio telegraphico listrando os céus a pauta larga dos hymnos do progresso e a nossa imitação modesta uma homenagem ao seculo.
A violencia não fez mais que augmentar o trafego dos bilhetinhos e suspender temporariamente a telegraphia.
De mão em mão como as epistolas, corriam os periodicos manuscriptos e os romances prohibidos. Os periodicos levavam pelos bancos a troça mordaz, aos collegas, aos professores, aos bedeis; mesmo a pilheria blasphema contra Aristarcho, uma temeridade. Os romances, enredados de atribulações febricitantes, attrahindo no descriptivo, chocantes no desenlace, alguns temperados de grosseira sensualidade, animavam na imaginação panoramas ideados da vida exterior, quando não ha mais compendios, as luctas pelo dinheiro e pelo amor, o ingresso nos salões, o exito da diplomacia entre duquezas, a festejada bravura dos duellos, o pundonor de espada á cinta; ou então o drama das paixões asperas, tormentos de um peito malsinado e sublime sobre um scenario sujo de bodega, entre vomitos de máu vinho e palavradas de barregã sem preço.
Com a proximidade das férias de anno, tudo desapparecia. O aborrecimento imperava.
A impaciencia da expectativa de livramento fazia intoleravel a reclusão dos ultimos dias.
Organisavam-se os preparativos para a grande exposição de trabalhos da aula de desenho, as aulas primarias estavam a ponto de entrar em exames, dos particulares semestraes, em que o director sondava o aproveitamento. Estes cuidados não podiam combater a inercia expectante dos animos.
No salão do estudo poucos abriam livro. Os rapazes alargavam os cotovellos sobre a carteira, fincavam o queixo nas costas da mão e abstrahiam-se com o olhar immovel, idiotismo de espera, como se tentassem perceber o curso das horas no espaço. Por traz da casa, no quintal do director, ouvia-se cantando Angela, cantilenas hespanholas, sinuosas de molleza; mais longe, muito mais, em zumbido indistincto, como um horizonte sonoro, as cigarras trilavam, agitando o ar quente com uma vibração de fervura.
Nas horas longuissimas do recreio, os rapazes passeavam calados, destruindo a communhão usual dos brincos, como se temessem estragar mais alegria naquelle captiveiro, certos de melhor emprego breve. Pelas paredes a carvão, pelas taboas negras a traços brancos, arranhada na caliça, escripta a lapis ou a tinta, por todos os cantos via-se esta proclamação: Viva ás férias! determinando a ansiedade geral, como um pedido, uma intimativa ao tempo que fosse menos tardo, oppondo, cruel, a resistencia impalpavel, invencivel dos minutos, dos segundos, á chegada festiva da boa data.
Bento Alves, depois de assegurar que unicamente por mim se havia sujeitado á humilhação que soffrera, andava propositalmente arredio.
Eu, solitario, ia e vinha como os outros, percorrendo o pateo, marcando a bocejos os prazos alternados de impaciencia e resignação, vendo pairar por cima do recreio um papagaio que soltavam meninos da rua para as bandas do Atheneu. Invejava-lhe a sorte, ao papagaio cabeceando alegre, ondeando a balouçar, estatelando-se no vento, passaro caprichoso, dominando vermelho o vasto rectangulo azul que as paredes cortavam no firmamento, solitario, solitario como eu, captivo tambem—mas ao alto e lá fóra.
Relaxava-se o horario; professores faltavam; era menos rude a inspecção. Os alumnos iam por toda parte á vontade. Faziam roda de palestra nos dormitorios, pilando enfastiadamente os mais duros assumptos, murmurações esmoidas, escabrosidades pulverisadas, trituradas malicias, algumas vezes malicias ingenuas se é possivel, caracterisando-se no conciliabulo o azedume tagarella do cançaço podre de um anno, conforme a psychologia de cada salão.
Os dormitorios appellidavam-se poeticamente, segundo a decoração das paredes: salão perola, o das crianças, policiado por uma velha, mirrada e má, que erigira o beliscão em preceito unico disciplinar, olhos minimos, chispando, bocca sumida entre o nariz e o queixo, garganta escarlate, Uma população, de verrugas, cabeça pennugenta de gypaeto sobre um corpo de bruxa; salão azul, amarello, verde, salão floresta, dos ramos do papel, aos quaes se recolhia a classe innumeravel dos médios. O salão dos grandes, independente do edificio, sobre o estudo geral, conhecia-se pela denominação amena de chalet. O chalet fazia vida em separado e mysteriosa.
O policiamento dos dormitorios competia aos diversos inspectores, convenientemente distribuidos.
Na época attenuavam-se os zelos da policia. O proprio gypaeto do perola batia as azas para a folia, uma innocente folia de noventa annos.
A palestra corria desassombrada.
Deitavam-se uns a uma cama, outros cercavam agrupados nas camas proximas e atacavam os assumptos.
No salão dos médios:
«D. Emma... D. Emma... não se murmura á tôa... Reparem na maneira de falar do Chrysostomo... Tem motivo, um rapagão... Palavra que os apanhei sósinhos, juntinhos, conversando, á distancia de um beijo...
—O melhor é que o Chrysostomo não vae para a rua... Que diabo, nem tanto vale o grego, que se pague a beijocas descontadas pela mulher.... Tenho para mim que o negocio ainda acaba mal e porcamente, kakós kai ruparós com uma estralada...
—Ora, directores! emprezarios! fabricantes de sciencia barata e prodigios de carregação, com que empulham os papaes basbaques... O que querem é a frequencia do negocio... Falem cá em annuncios... Mulher ao balcão... Que chamariz, uma carinha seductora! Eu por mim, se fosse director, inaugurava um Kindergarten para taludos; uma bonita directora á testa e quatro adjunctas amaveis... Não haveria nhonhô graudo que não morresse pelo ensino intuitivo. Como não haviam de pagar para cortar pauzinhos no meu jardim! E que serviço ao progresso do meu paiz: estimular á Frœhel as intelligencias perrengues e as adolescencias atrazadas...
—Pois eu seria capaz de guerrear o estabelecimento. Se fosse director, teria o cuidado de ser tambem ministro do imperio... Revogava a Instrucção Publica e approvava a minha gente por decreto, tudo de pancada e com distincção.
—Qual! eu, se fosse director, seria safado! Não ha nada neste mundo como ser safado! Uma bonita meninada, que festança! Os meninos gostam da gente, a gente gosta dos meninos e o collegio cresce: crescite!... D'ahi a pouco tanta matricula, que precisariamos mudar de casa...
—Que canalha! Que linguinhas... Safa! Pois eu cá só digo mal d'aquelle typo do Lyceu Marcello, que tem na face a costura cicatrizada do talho que lhe fez um discipulo em certa aventura com o mais pacifico dos utensilios, e que, ainda assim, foi apanhado no Cassino deixando aberto num divan o carnet de baile, cuidadosamente illustrado de symbolos... pedagogicos.
A palestra no perola era muito mais candida, e, principalmente, nada pessoal.
Curso improvisado de obstetrica elementar, pura especulação. Todos queriam saber; apertavam-se vinte pequenos em roda do problema, como aquellas figuras da licção de Rembrandt. Qual a origem das especies? Eram investigadores. Ninguem adiantava um passo. Estava ausente o gypaeto, que talvez podesse explicar. Feliz quem póde conhecer a causa das cousas! Como é a entrada na vida? Ordem dorica? jonica? composita? As imaginações trabalhadas formigavam avidamente sobre a questão; ninguem penetrava. Desenrolavam-se as theorias domesticas, angelico-gynecologicas.
Havia em Paris uma grande empreza de exportação, da qual eram agentes em todo o mundo os parteiros, e commissaria central no Rio M.me Durocher. Vinha o genero nos berços, encaixotados, mijadinhos e chorosos. Esta theoria tinha o merecimento philosophico de prescindir das causas finaes. Os metaphysicos inclinavam-se mais para a intervenção da sobre-natureza: por occasião do Natal havia de noite uma distribuição geral de herdeirozinhos pela terra, chuva de pimpolhos, para compensar a matança dos innocentes, tão prejudicial no tempo de Herodes. Inutil dizer que os referidos innocentes vinham outr'ora ao mundo pela mão dos mesmos portadores das credenciaes da revelação, hoje em desuso.
E a academiazinha de investigadores amimava documentos, sorrindo alguns da credulidade dos outros, exhibindo em refutação credulidade de diverso quilate; alguns, mais positivos, adduzindo observações proprias, porque os meninos espiam, offerecendo á opinião dos collegas uma nota ponderosa, edificando-se lentamente o systema como os systemas se edificam, aproveitando-se apenas o elemento franqueado pelo apoio commum.
Dous ultimos pareceres concorreram opportunamente para desatar os embaraços e a assembléa dispersou-se. Um cearensezinho, de cabello á escova, intelligente e silencioso, amigo de responder por um geito especial de virar os olhos, senhor de um sorriso desconcertante que sabia armar a proposito, falando baixinho e explicito, introduziu no debate a descripção minuciosa, sem perda de fofos nem apanhados, da toilette balnearia das mulheres do sertão na provincia, descendo ao rio, de um bello panno sympathico em que o raio do sol nascente representa de fio mais grosso. Outro parecer foi a grosseira chacota de um caturra barrigudinho, fronte de novilho, miniatura de arrieiro, brutal e maroto, filho de um criador abastado do Paraná e instruido para todas as exigencias praticas da industria paterna. Estava alli a ouvir desde o principio sem dizer palavra, esperando a conclusão. Suppondo que o cearense ia fazer a luz, atirou-se adiante, interrompeu-o e concluiu largando o enxurro, espojando-se farto na garotada, como a cria da estancia no lodo fresco.
A vadiagem dos dormitorios não consistia só em palestra. Depravados pelo aborrecimento e pela ociosidade, inventavam extravagancias de cynismo.
O Cerqueira, ratazana, sujeito comico, cara feita de beiços, rachada em bocca como as romans maduras, de mãos enormes como um disfarce de pés, galopava a quatro pelos salões, zurrando em fraldas de camisa, escoucinhando uma alegria sincera de mú. Maurilio, o dos quinaus, não era exclusivamente o campeão da taboada que conhecemos; tinha outra habilidade notavel e prestava-se com applauso a uma experiencia original de fluidos inflammaveis. Este rapaz escapou de morrer, em um dos ultimos naufragios da nossa costa; um ex-collega escreveu-lhe: Quem os semeia, colhe tempestades.
As provocações no recreio eram frequentes, oriundas do enfado; irritadiços todos como feridas; os inspectores a cada passo precisavam intervir em conflictos; as importunações andavam em busca das susceptibilidades; as susceptibilidades a procurar a sarna das importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabellos. Viam Romulo passar, lançavam-lhe o appellido: mestre cook!
Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Romulo! só porque lembrava a culinaria, com a carnosidade bamba, fofada dos pastellões, ou porque era gordo das enxundias enganadoras dos fregistas, dissolução morbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de mais volumosa saude? Romulo era simplesmente e completamente o confeiteiro das esperanças doces de Aristarcho.
Anafado de apparencia, e ainda mais ancho de fortuna, significava bem o que se diz um bom partido. Aristarcho tinha uma filha; saude, fortuna: um genro ideal; ainda por cima bonachão e pacato.
A Melica, a altiva e requebrada Amalia, lambisgoia, proporções de vareta, fina e longa, morena e airosa, levava o tempo a fazer de princeza. Dous grandes olhos pretos, exaggero dos olhos pretos da mãe, tomavam-lhe a face, dando-lhe de frente a semelhança justa de um bello I com dous pingos. Por estes olhos e por sobre os hombros, que tinha erguidos e mephistophelicos, derramavam-se desdens sobre tudo e sobre todos. Possuia e petiscava a certeza facil de que o Atheneu em peso andava caído por ella, e morava no andor imaginario d'aquella idolatria de trezentos. Trezentos corações, trezentos desdens. A eminencia do pae sobre aquelle mundozinho desprezivel dava-lhe vida á vangloria, e ella gostava de visitar o collegio para ter occasião de exercitar a altivez culminante, misturada, do sexo e da gerarchia. Quanto a Romulo, era o primeiro no seu desprezo. Timbrava em não prestar-lhe attenção. Designava-o esplendidamente:—o parvo. Melica era bem conversada e preciosa.
Romulo philosophava por Epicuro. Desdens não matam. Havia de bom naquella attitude de noivado perenne, uma serie de utilidades: cargo de vigilante, privilegios de benevolencia, um jantar de vez em quando com o director,—isto é, uma folga ao paladar imaginada em sonho por quantas boccas, no regimen obrigatorio e destemperado da casa, menu permanente, inviolavel como a letra das constituições.
Quando vinha Melica ao Atheneu, era Romulo o primeiro a aproximar-se, o ultimo a ser visto. Aristarcho chamava-o ás vezes e levava a passeio com a menina. Melica, toda donaire e orgulho, passava adiante e permittia, quando muito, que Romulo a seguisse cabisbaixo e mudo, como um hippopotamo domesticado. Diga-se, a bem da verdade, que o gorducho esperava rir por ultimo ao pae e á filha.
Em um estabelecimento de rumorosa fama como o Atheneu não se podia deixar de incluir no quadro das artes a musica de pancadaria.
Passava despercebido o harmonium do Sampaio, religioso e bálbuce. Estimava-se como cousa somenos a rabequinha do Cunha, choramigas e expressiva, nas mãos do esguio violinista; manhoso o instrumento como uma casa de maternidade, pallido o musico, espichadinho e chlorotico; dando ares de graça a linguagem das cravelhas por meio de sons que imitavam a quasi aphasia timorata e infantil do Cunha, descambando em syncopes, de vez em quando, estendendo guinchos hystericos de amor vadio, saltitando pizzicatos como as biqueiras de verniz do Cunha, amigo de valsar, agil no baile como as fitas, as plumas e as evaporadas tulles.
Considerava-se razoavelmente o piano do Alberto Souto, bochechas largas de maestro em effigie, pianista portento que viera parar ao Atheneu, depois de percorrer a Europa á cata de triumphos, redondo, curto e musical como um cylindro de realejo; famoso pela gargalhada soez, bagaço espremido da vaidade, da cobiça, que lhe ficara dos successos do palco e das surras da aprendizagem; e pela estupidez secca nos estudos, como se a intelligencia lhe houvesse escapado pelos dedos para os teclados em deserção definitiva.

Mas a predilecção de Aristarcho era pela banda, pela pancadaria, grita vibrante dos cobres, fuzilaria das vaquetas, levando gente á janella quando o Atheneu passava, dando rebate á admiração das esquinas, o estrepito das caixas troando á marcha dobrada como um eco de combates, furor infrene, irresistivel, de zabumbada em feira.
A banda tinha casa propria e um professor bem pago. Os instrumentistas gozavam de particular favor nos relaxamentos de disciplina; nas occasiões de festa eram mimoseados, com um brinde de gulodices; condecoravam-se com distinctivos de prata, que nem os harmoniosos concertantes do Orpheon logravam pilhar.
Ainda na banda graduava-se a predilecção de Aristarcho, segundo a importancia de sonoridade dos timbres. O grave bombardão, o ophiclide, a trompa, o trombone, o proprio sax, destinados ao mister secundario de acompanhamento, recuando, como lacaios, na encenação sonora, homens de armas servilmente bravos nas investidas brilhantes, ou timidos pagens, arrepanhando o abandono de caudas escapadas ao luxo regio das grandes notas do canto,—valiam menos ainda, na estima do director, que na marcação da partitura.
Predilecto era o flautim, florete feito som, tenue, penetrante, perfuração de agulhas; predilecta era a requinta, especie de flautim rachado, aggressiva como a vibração do dardo das serpentes; o fagote, augmentativo de requinta, unico apparelho capaz de produzir artificialmente a fanhosidade colerica das sogras; o claro oboe, larynge metallica de um cantor de epopéas, heroico e bello; o piston frenetico e vivo, estandarte á mostra sobre a celeuma, harmonisando, centralisando a instrumentação como um regimento de cavalleiros. Predilectos porque gritavam mais! Predilecto principalmente o tambor e o bombo tonante, primazia do estrondo, a trovoada das pelles tezas, que a tormenta sobraça nos arroubos de carnaval canalha dos seus dias e que sobraçava, no Atheneu, Romulo, o graxo Romulo, o nedio, o opulento, o carissimo genro das esperanças caras.
Foi exactamente por esta seriação de preferencias acusticas que chegou Aristarcho á descoberta do seu favorito. E por acaso.
Durante uma festa escolar, exhibia-se a banda. Distrahe-se o bombo e solta fóra de tempo um magnifico tiro, que ia bem á composição executada como uma gotta de tinta Monteiro numa aquarella. Metade dos ouvintes acreditaram que aquillo era um capricho wagneriano enxertado de proposito; outra metade não conteve o riso.
Aristarcho admirava o bombo em solo, solidão das salvas em pleno mar, factor grandioso de sonoridade que o Zé Pereira multiplica. Mas o riso dos convidados incommodou-o.
Acabada a festa, mandou vir á presença o artista do estampido. Apresenta-se o musico e não sei como se entenderam que, em vez de castigo, retirou-se Romulo do gabinete com os foraes vantajosos de genro ad honorem.
O escandaloso favor suscitou uma reacção de inveja.
Romulo era antipathisado. Para que o não manifestassem excessivamente, fazia-se temer pela brutalidade. Ao mais insignificante gracejo de um pequeno, atirava contra o infeliz toda a corpulencia das infiltrações de gordura solta, desmoronava-se em sôcos. Dos mais fortes vingava-se, resmungando intrepidamente.
Para desesperal-o, aproveitavam-se os menores do escuro. Romulo, no meio, ficava tonto, esbravejando juras de morte, mostrando o punho. Em geral procurava reconhecer algum dos impertinentes e o marcava para a vindicta. Vindicta inexoravel.
No decorrer enfadonho das ultimas semanas, foi Romulo escolhido, principalmente, para expiatorio do desfastio. Mestre cook! via-se apregoado por vozes phantasticas, saídas da terra; mestre cook! por vozes do espaço, rouquenhas ou esganiçadas. Sentava-se acabrunhado, vendo se se lembrava de haver tratado panellas algum dia na vida; a unanimidade impressionava. Mais frequentemente, entregava-se a accessos de raiva. Arremettia bufando, espumando, olhos fechados, punhos para traz, contra os grupos. Os rapazes corriam a rir, abrindo caminho, deixando rolar adiante aquella ambulancia damnada de elephantiasis.
A uma das vaias estive presente. Romulo marcou-me. Pouco depois encontravamo-nos no longo corredor que levava á bibliotheca do Gremio. Situação embaraçosa. Eu vinha, elle ia. Parar? Recuar? Emquanto hesitava, fui-me adiantando. Romulo, de salto, empolgou-me a golla da blusa. Sacudia a ponto de macerar-me o peito. «Então, seu cachorro (sic), diga-me aqui, se é capaz, quem é mestre.»
A injuria equilibrou-me do espanto. Estava tudo perdido. Deitei bravura. «Mestre, mestrissimo cook!» gritei-lhe á barba. Não sei bem do que houve. Quando dei por mim, estava estendido em baixo do uma escada. Entraram-me na cabeça tres pregos, que havia nos ultimos degráus. Ponderando que tinha no futuro tempo de sobra para vingança, levantei-me e sacudi da roupa a poeira humilhante da derrota.
Afinal, o dia chegou dos exames primarios.
Provas de formalidade para as transições do curso elementar: primeira aula, para a segunda, segunda para a terceira, terceira para o ensino secundario.
Levavam-se assentos e mesas para o salão do oratorio, vestido o altar de um reposteiro, e repotreava-se a commissão solemne, da qual faziam parte personagens da Instrucção Publica, com o director e os professores.
Aristarcho representava, na mesa, o voto pensado do guarda-livros. Contas justas: approvação com louvor, cambiando ás vezes para distincção simples; atrazo de trimestre, approvação plena com risco de simplificação; atrazo de semestre, reprovado.
Havia no Atheneu, fóra d'esta regra, alumnos gratuitos, doceis creaturas, escolhidas a dedo para o papel de complemento objectivo do caridade, timidos como se os abatesse o peso do beneficio; com todos os deveres, nenhum direito, nem mesmo o de não prestar para nada. Em retorno, os professores tinham obrigação de os fazer brilhar, porque caridade que não brilha é caridade em pura perda.
Nas provas do terceiro anno, as distincções foram tão numerosas, que me veio ter as mãos uma, sem escandalo aliás, que desde muito perdera o medo e começava a quadrar-me a aisance das demonstrações, como um mal contaminado do director. Fiz um figurão, apanhei a deliciosa nota, que levei a mostrar em casa, como um bichinho raro, mimando-lhe o pello fino, beijocando-lhe a focinheira. Sanches teve louvor; Manlio, louvor; Cruz, louvor tambem, graças á especialidade da cartilha, em que era provecto, espantando a commissão julgadora com a ladainha toda de Nossa Senhora e ameaçando-nos com o calendario de cór. Santo por Santo, observações adjacentes, mais a designação das festas moveis e das luas, como o proprio doutor Ayer das pilulas catharticas o não faria. Gualterio, palhaço, foi reprovado. Nascimento, o bicanca, fungou de satisfação: plenamente. Negrão, Almeidinha, Alvares, distincção. Contra a distincção d'este ultimo, o professor Manlio protestou surdamente; o bronco do Alvares com distincção! Baptista Carlos, o bugre das settas, bomba! Diante da commissão mostrou-se muito surprehendido das perguntas, como se tivesse alguma cousa com aquillo; Barbalho, bomba. Barbalho pae andava atrazado semestre e meio e Barbalho filho não deixou de salvar as apparencias com uma escrupulosa collaboração de asneiras. O optimo, o veneravel Rebello não compareceu: deixara o collegio, havia mezes, por causa dos olhos.

Emquanto na sala verde, emparedada de porphyro polido, esperava, com os collegas, que apparecesse á porta o inspector que devia ler o resultado do escrutinio, foi-me parar a vista aos quadros de alto relevo, das artes e das industrias, os risonhos meninos nús, fraternaes, em gesso puro e innocencia. Senti-me velho. Que longa viagem de desenganos! Alguns mezes apenas, desde que vira, á primeira vez, as ideaes crianças vivificadas no estuque pelo contagio do enthusiasmo ingenuo, ronda feliz do trabalho... Agora, um por um que os interpretasse, aos pequenos hypocritas mostrando as nadegas brancas com um reverso igual de candura, um por um que os julgasse, e todo aquelle gesso das facezinhas rechunchudas córaria de uma sancção geral e esfoladora de palmadas. Não me enganavam mais os pequeninos patifes. Eram infantis, alegres, francos, bons, immaculados, saudade ineffavel dos primeiros annos, tempos da escola que não voltam mais! E mentiam todos! Cada rosto amavel d'aquella infancia era a mascara de uma falsidade, o prospecto de uma traição. Vestia-se alli de pureza a malicia corruptora, a ambição grosseira, a intriga, a bajulação, a covardia, a inveja, a sensualidade brejeira das caricaturas eroticas, a desconfiança selvagem da incapacidade, a emulação deprimida do despeito, da impotencia, o collegio, barbaria de humanidade incipiente, sob o fetichismo do Mestre, confederação de instinctos em evidencia, paixões, fraquezas, vergonhas, que a sociedade exaggera e complica em proporção de escala, respeitando o typo embryonario, caracterisando a hora premente, tão desagradavel para nós, que só vemos azul o passado, porque é illusão e distancia.
Para a exposição dos desenhos foram retiradas as carteiras da sala de estudo, forradas de setim escuro as paredes e os grandes armarios. Sobre este fundo, alfinetaram-se as folhas de Carson, manchadas a lapis: pelo sombreado das figuras, das paysagens, pregaram-se, nas molduras de friso de ouro, os trabalhos reputados dignos d'esta nobilitação.
Eu fizera o meu successozinho no desenho, e a garatuja evoluira no meu traço, de modo a merecer encomios. A principio, o bosquejo simples, linear, experiencia da mão; depois, os esbatimentos de tons que consegui logo como um matiz de nuvem; depois, as vistas de campo, folhagem rendilhada em bicos, pardieiros em demolição pittoresca da escola franceza, como ruinas de páu podre, armadas para os artistas. Depois de muito moinho velho, muita vivenda de palha, muito casarão deslombado, mostrando as miserias como um mendigo, muita pyramide de torre aldeã esboçada nos ultimos planos, muita figurinha vaga de camponesa, lenço em triangulo pelas costas, rotundas ancas, saias grossas em pregas; sapatões em curva, passei ao desenho das grandes cópias, pedaços de rosto humano, cabeças completas, cabeças de corcel; cheguei á ousadia de copiar com toda a magnificencia das sedas, toda a graça forte do movimento, uma cabra do Thibet!
Depois da distincção do curso primario, foi esta cabra o meu maior orgulho. Retocada pelo professor, que tinha o bom gosto de fazer no desenho tudo quanto não faziam os discipulos, a cabra thibetana, meio metro de altura, era aproximadamente obra prima. Ufanava-me do trabalho. Não quiz a sorte que me alegrasse por muito. Negaram-me á bella cabra a moldura dos bons trabalhos; ainda em cima—considerem o desespero! exactamente no dia da exposição, de manhã, fui encontral-a borrada por uma cruz de tinta, larga, de alto a baixo, que a mão benigna de um desconhecido traçara. Sem pensar mais nada, arranquei á parede o desgraçado papel e desfiz em pedaços o esforço de tantos dias de perseverança e carinho.
Quando os visitantes invadiram a sala, notaram na linha dos trabalhos suspensas duas enigmaticas portas de papel rasgado. Estranhavam, ignorando que alli estava, interessante, em ultimo capitulo, a historia de uma cabra, de uma cruz, drama de desespero e espolio miserando de uma obra prima que fôra.
As exposições artisticas eram de dous era dous annos, alternadamente com as festas dos premios. Conseguia-se assim uma quantidade fabulosa de papel riscado para maior riqueza das galerias. Cobria-se o metim desde o soalho até ao tecto. Havia de tudo, não só desenhos. Alguns quadros a oleo, do Altino, risonhas aquarellas accidentando a monotonia cinzenta do Faber, do Conté, do fusain. Os futuros engenheiros applicavam-se ás aguadas de architectura, aos desenhos coloridos de machinas.
Entre as cabeças a crayon retincto, crinas de ginete, felpas de onagro lanzudo, inclinando o funil das orelhas, cerdosas frontes hirsutas de javalis, que arreganhavam presas, perfis de audacia em collarinhos de renda, abas atrevidas de feltro, plumas revoltas, physionomias de marujo, selvagens, arrepiadas, num sopro de borrasca, barbas incultas, carapuça esmurrada sobre a testa, cachimbo aos dentes; entre todas estas caras, avultava uma collecção notavel de retratos do director.

O melindroso assumpto fôra inventado pela gentileza de um antigo mestre. Preparou-se modelo; um alumno copiou com exito; e, depois, não houve desenhista amavel que não entendesse zeladamente dever ensaiar-se na respeitavel veronica. Santo Deus! que ventas arranjavam ao pobre Aristarcho! Era até um desaforo! Que olhos de blepharite! que boccas de beiços pretos! que calumnia de bigodes! que invenção de expressões aparvalhadas para o digno rosto do nobre educador!
Não obstante, Aristarcho sentia-se lisonjeado pela intenção. Parecia-lhe ter na face a cocegazinha subtil do crayon passando, brincando na ruga molle da palpebra, dos pés de gallinha, contornando a concha da orelha, calcando a commissura dos labios, entrevista na franja dos fios brancos, definindo a severa mandibula barbeada, subindo pelas dobras obliquas da pelle ao nariz, varejando a pituitaria, extorquindo um espirro agradavel e desopilante.
Por isso eram acatados os desenhistas da veronica.
Os retratos todos, bons ou máus, eram alojados indistinctamente nas molduras de recommendação. Passada a festa, Aristarcho tomava ao quadro o desenho e levava para casa. Tinha-os já ás resmas. Ás vezes, em momentos de spleen, profundo spleen de grandes homens, desarrumava a pilha; forrava de retratos, mesas, cadeiras, pavimento. E vinha-lhe um extase de vaidade. Quantas gerações de discipulos lhe haviam passado pela cara! Quantos affagos de bajulação á effigie de um homem eminente! Cada papel d'aquelles era um pedaço de ovação, um naco de apotheose.
E todas aquellas cousas mal feitas animavam-se e olhavam brilhantemente. «Vê, Aristarcho, diziam em côro, vê; nós que aqui estamos, nós somos tu, e nós te applaudimos!» E Aristarcho, como ninguem na terra, gozava a delicia inaudita, elle incomparavel, unico capaz de bem se comprehender e de bem se admirar—de vêr-se applaudido em chusma por alter-egos, glorificado por uma multidão de si-mesmos. Primus inter pares.
Todos, elle proprio, todos acclamando-o.
VIII
No anno seguinte, o Atheneu revelou-se-me noutro aspecto. Conhecera-o interessante, com as seducções do que é novo, com as projecções obscuras de perspectiva, desafiando curiosidade e receio; conhecera-o insipido e banal como os mysterios resolvidos, caiado de tédio; conhecia-o agora intoleravel como um carcere, murado de desejos e privações.
Desenvolvido á força e habilitado no torvelinho moral do internato, aproveitara os dous mezes de feriado para espreitar a animação da vida exterior. A sala, a sociedade, os negocios da praça publica, que na infancia são como contactos de nevoeiros resvalando pela imaginação, que nos despertam com um estardalhaço de pesadelo, que fogem, que somem-se, deixando-nos readormecidos no esquecimento da idade, ao tempo em que preferimos da soirée os bons bocados, das toilettes os laços de côres rutilas, ignorando que ha talvez na vida alguma cousa mais assucar que o assucar, e que o toque macio póde uma vez levar vantagem á coloração fulgurante, quando invejamos das posições sociaes modestamente o garbo de Phaetonte nos carros de praça ou a bravura rubente de umas calças de grande uniforme, sem saber que as ambições vão mais alto e que ha commendadores; o movimento do grande mundo não me apparecia mais como um theatro de sombras. Comecei a penetrar a realidade exterior como palpava a verdade da existencia no collegio. Desesperava-me então vêr-me duplamente algemado á contingencia do ser irremissivelmente pequeno ainda e collegial. Collegial, quasi calceta! marcado com um numero, escravo dos limites da casa e do despotismo da administração.
Havia a escassa compensação dos passeios. Uniformisava-se de branco o collegio como para as festas de gymnastica, com os gorros de cadarço, e saíamos a dous, a quatro de fundo, tambores, clarins á frente.
No anno anterior, os passeios tinham sido insignificantes, marchas alegres pelo arrabalde. Vinham ao peitoril as mocinhas, e nós todos, anchos de militarismo, despendiamos elegancia prodigamente. Eram melhores as excursões á montanha. Subiamos aos Dous Irmãos, caminho do Corcovado, marchavamos até á Caixa d'agua. Ahi debandavamos, na amenissima chapada.
Os passeios eram depois do jantar. A noitinha voltavamos, dando balanço ás notas de sensações, um deslumbramento verde de floresta, um retalho de afogueado crepusculo, um canto de cidade ao longe diluido em fumaça côr de perola, ou o olhar de uma dama e o sorriso de outra, projectis inoffensivos de namoro que na hypothese de andar a gente em fórma têm o defeito da incerteza, se vêm expressamente a nós, se ao vizinho, e a nós apenas por uma casualidade de ricochete—o ciume eterno dos serra-filas que a Praia Vermelha conhece.
Os nossos passeios foram mais consideraveis.
Primeiro ao Corcovado, assalto ao gigante, hoje domado pela vulgaridade da linha ferrea.
Ás 2 horas da noite, troaram os tambores como em quartel assaltado. Os rapazes, que mal haviamos dormido, na excitação das vesperas, precipitaram-se dos dormitorios. Ás 3 e pouco estavamos na serra.
Aristarcho rompia a marcha, valente como um mancebo, animando a desfilada como Napoleão nos Alpes.
Passeio nocturno de alegria sem nome. As arvores beiravam a estrada de muros de sombra num e noutro ponto rendada de frestas para o céu limpido. No caminho, trevas de tunnel e agitação confusa das roupas, malhada a esmo de placas de luar brando—reptil immenso de cinza e leite em vagarosa subida. Que sonho de cócegas experimentaria o colosso, na dormencia de pedra que o prostrava ainda, espezinhado pela invasão! Subiamos. Pelas abertas do arvoredo devassavamos abysmos; ao fundo, a illuminação publica por enfiadas, como rosarios de ouro sobre velludo negro.
Á boa altura, acampamos para o café. Criados que nos precediam com o farnel, improvisaram um balcão, e nos serviam successivamente na ordem da fórma. Felizes alguns, conseguiram uma gotta de fino Porto, mais quente que o café, reforçando com um banho interno de conforto contra a umidade da altitude e da hora, inflamando a coragem como um punch, avivando a alegria como um brinde de fogo.
O espaço apparecia mais claro sobre a renda das ramas; as ultimas estrellas por entre as folhas emmurcheciam como jasmins, e fechavam-se. Aristarcho deu ordens á banda. A subida recomeçou em festa, um dobrado triumphal rasgou o silencio das montanhas espavorindo a noite; o bombo de Romulo trovejou robusto, com imensa admiração da passarada que o espiava metendo o bico á beira dos ninhos, que o cobiçava talvez para genro, aturdindo os echos com um repente brutal de alvorada.
Ao passo que nos elevavamos, elevava-se igualmente o dia nos ares. Apostava-se a vêr quem primeiro cançava. Cada avanço da luz no espaço era como um excitante novo para a jornada, suavisando a doçura do alvorecer todo o esforço da ascensão. Quando a musica parava, ouviamos na alvenaria do grande encanamento, pelos respiradouros, as aguas do Carioca, ciciando queixas poeticas de naiade emparedada.
Avistavamos por hiatos de perspectiva a bahia, o Oceano vastamente desdobrado em chammas, extenso cataclysma de lava.
No planalto do Chapéo de Sol parámos. O director convencionou que, ao signal de debandar, assaltariamos na carreira o espigão de granito empinado á extrema do monte. A rapaziada acclamou a proposta e, com um alarido barbaro de peleja, arrojámo-nos á conquista da altura.
Chegou na frente o Tonico, meninote nervoso, de S. Fidelis, especialista invicto da carreira, corredor de pratica e principios, que de cada exame da Instrucção Publica fugia duas vezes á chamada, entendendo que a fuga é a expressão verdadeira da força, e a bravura uma invenção artificial dos que não podem correr.
Romulo fez a asneira de tentar o espigão; ficou a meio caminho, suffocado, inanimado, roncando por terra.
Almoçámos ás dez horas, cada um para seu lado, depois da distribuição frugal do mantimento. Fartos de paysagem, formámos para a descida.
Descida penosa. Tinhamos imprudentemente esgotado as forças na folgança. A marcha de volta foi uma miseria. Formámos ainda, mas já não havia quem olhasse para o alinhamento. As correias frouxas escapavam á cintura, as blusas ás correias; os pés cambavam, mal equilibrados no calçado, bambeavam os joelhos passadas de bebado.
As crianças adiante voltavam os olhos dolorosamente para o director, segurando-se uns aos outros pelos hombros, seguindo em grupos atropellados como carneiros para a matança. Aristarcho, tão lépido como na subida, estimulava o seu povinho, chasqueando compadecidas ironias.
Quiz recorrer ao estimulante da musica. Os musicos, derreados, haviam deixado os instrumentos na carroça da matalotagem que vinha longe. Nem tambores, nem clarins; apenas Romulo, atraz de todos, trazia o bombo de roldão pela estrada como uma pipa.
Por maior tormento, fundia-se a soalheira em chumbo ardente sobre nós, accendendo reflexos insupportaveis na areia da estrada, emquanto reverberava o dia lá em baixo, sobre as casas, pelos jardins nublados de vaporisações de estio, sobre a vegetação das montanhas, a florescer das tristes flôres da Paixão da alleluia.
Voltavamos de um dia alegre como soldados batidos. A ordem de marcha decompôz-se aos poucos. Quando chegámos ao Rio Comprido, iamos por bandos dispersos, arquejantes, os de maior folego na vanguarda; depois, em cauda interminavel de alquebramento, os mais fracos, até aquelles que ficavam pelo chão como enfermos, e que os inspectores buscavam como gado perdido.
No portão do Atheneu, mãos ás cadeiras, dentinhos brancos á vista, esperava-nos Angela, fresca e forte, e recebia com uma vaia de risadas aquella entrada de vencidos, homens e moços.
Quando, tempos passados, annunciou-se o grande pique-nique ao Jardim Botânico, certo não foi objecção a lembrança d'este descalabro de fadiga. Tinhamos almoçado na montanha; tratava-se agora de ir jantar ao jardim. Promptos!
Ao meio-dia, apeava o Atheneu dos bonds especiaes á porta do grande parque. Atravessámos cantando um dos hymnos do collegio as arcarias elevadas de palmas. Junto ao lago da avenida, debandámos.
No bosque dos bambús, á esquerda, estavam armadas as longas mesas para o banquete das quatro horas. Graças á boa vontade dos paes, prevenidos opportunamente, vergavam as taboas, sobre cavalletes, ao peso de uma quantidade rabelaiseana de acepipes. Á parte, em cestos, no chão, amontoavam-se fructas, caixas e frascos de confeitaria.
Era por um d'esses dias caprichosos, possiveis todo o anno, mais frequentes de verão, em que as bategas de chuva fazem alternativa com as mais sadias expansões de sol, deliciosos e traidores, em que, parece, a alma feminina se faz clima com as incertezas de pranto e riso.
Chovera uma vez ao partirmos, outra vez em viagem; havia no jardim muita humidade na relva e sob as folhas caidas; ás alamedas de mais sombra, via-se a areia crivada recentemente dos pequeninos furos que cava o gottejar do arvoredo. Mas eram tão claros os trechos de bom tempo, no intervallo dos nimbos, que não podiam apprehensões de aguaceiro entibiar a franqueza de alegria a que estavamos preparados.
A rapaziada dispersou-se pelos gramados para a montanha, para os cannaviaes e pomares de ingresso vedado. Alguns, munidos de anzoes, acocoravam-se á beira do açude, como batrachios, emquanto esperavam que picasse a probabilidade difficil de um peixe.
Os de espirito calmo buscavam sitios de soledade, iam passear a scisma silenciosa; os sentimentaes, com o instincto dos photographos paysagistas, ensaiavam, comparavam, applaudiam os melhores pontos de vista, ou, simplesmente, dous a dous, intimos, seguiam para longe, braços pela cintura, balbuciando dialogos lentos. Os menores corriam, armando animadissimos brincos, atiravam-se ás borboletas, iam pelos cursos d'agua canalisada através do parque, perseguindo a fuga de um graveto, trepido, inalcançavel na evasão rapida da lympha. Nos enredamentos obscuros do bosque, exactamente onde o artista grego incluiria um satyro, podia-se surprehender sob uma blusa o confiado abandono bucolico de outros collegas.
De quando em quando, um signal de clarim. Tocava-se a reunir e fazia-se a distribuição das gulodices. Muitos não compareciam.
Ás quatro horas a banda de musica assignalou com o hymno nacional o grande momento da festa campestre.
De todos os pontos do jardim começaram a chegar magotes pressurosos de uniformes brancos. Os vigilantes, energicos, regularisavam a occupação dos logares.
Ao correr da mesa, fechou-se o bloqueio ameaçador de dentaduras.
No centro alinhavam-se as peças, sem conta, frias, sem môlho, appetitosas, entretanto, da côr tostada e do aroma succulento.
Os garfos agitavam-se inimigos, amolavam-se os trinchantes nas mãos dos copeiros...
Obrigados a uma sobranceria stoica de philosophos, depois da provação definitiva do forno, nem os perús, nem os leitões, nem os timidos frangos mostravam aperceber-se da situação arriscada.
Os frangos, de pernas para traz, sobre o dorso, cabeça escondida na aza, pareciam dormir sonhando o calembour das pennas perdidas; os redondos bacoros, encouraçados na bella côr de torresmo, serviam-se dos olhos de azeitona para não mais vêr as seducções mentidas da existencia, empenhados em ensinar aos homens como se leva a cabo o supplicio culinario dos palitos, com a aggravante azeda dos limões em rodella; os perús, soberbos até á ultima e menos philosophicos, prescindiam francamente da cabeça, orgulhosos apenas da vastidão do peito, enfunando a vaidade cheia do papo, hypertrophia de farofa.
Guarnecendo os assados, perfilavam-se as garrafas pretas desarrolhadas, conglobavam-se montes de maçãs, peras, laranjas, apoiadas ás nacionalissimas bananas, como um traço de nativismo. Os pudins, as marmeladas, as compotas enchiam os vãos da toalha, com um zelo apertado de mediador plastico. Mesmo sem metter em conta as postas de roastbeef com que contribuirá Aristarcho, percebe-se que era de truz o jantar.
Quando os rapazes sentaram-se, em bancos vindos do Atheneu de proposito, e um gesto do director ordenou o assalto, as taboas das mesas gemeram. Nada pôde a severidade dos vigilantes contra a selvageria da boa vontade. A licença da alegria exorbitou em canibalismo.
Aves inteiras saltavam das travessas; os leitões, á unha, hesitavam entre dous reclamos igualmente energicos, dos dous lados da mesa. Os criados fugiram. Aristarcho, passando, sorria do espectaculo como um domador poderoso que relaxa. As garrafas, de fundo para cima, entornavam rios de embriaguez para os copos, excedendo-se pela toalha em sangueira. Moderação! moderação! clamavam os inspectores, afundando a bocca em aterros de farofa dignos do Sr. Revy. Alguns rapazes declamavam saudes, erguendo, em vez de taça, uma perna de porco. Á extremidade da ultima das mesas um pequeno apanhara um trombone e applicava-se, muito serio, a encher-lhe o tubo de carne assada. Maurilio descobriu um repolho recheiado e devorava-o ás gargalhadas, affirmando que era munição para os dias de gala. Cerqueira, ratazana, curvado, redobrado, sobre o prato, comia como um restaurante, comia, comia, comia como as sarnas, como um cancro. Sanches, meio embriagado, beijava os vizinhos, caindo, com os beiços em tromba. Ribas, dyspeptico, era o unico retrahido; suspirava de longe, anjo que era, diante dos reprovados excessos da bacchanal.
Em meio do tumulto ebrifestante, ouviram-se palmas. Á cabeceira da mesa principal, apresentavam-se de pé Aristarcho e o empertigadinho e cuprico professor Venancio. Era a poesia! Venancio de Lemos costumava improvisar, mais ou menos préviamente, estrophes analogas nas festas campestres...
Outros professores, que tinham concorrido ao piquenique, davam-se á faina grosseira de jantar. Elle, não.
Havia um quarto de hora que andava mysteriosamente por uma aléa de bambús, esfiapando as barbicas, a gaforina, palpando a testa, arrancando inspiração ao couro cabelludo, passando, nervoso, repassando, espiado furtivamente pela nossa admiração. Ninguem ousava acercar-se, temendo perturbar a elaboração do genio.
Muchôchos adoraveis das brisas, que andaes pela malta, gemedoras fontes, que desfiaes á tôa as lagrimas de vossos penares, amaveis sabiás cantores, que viveis de plantão na palmeira da litteratura indigena, sem que vos galardôe uma verba da secretaria do imperio, vinde commigo repartir o segredo do vosso encanto! Seductoras rolinhas, um pouco da vossa ternura! Vividos colibris, a mim! que sois como os animados tropos no poema frondoso da floresta... E as inspirações vieram. Primeiro, cerimoniosamente, á altura, volteando espiraes de urubú sobre a carniça; depois, de chofre, caindo-lhe ás bicadas sobre o estro. O estro entorpecido acordou. Fez-se hippogrypho um asno morto. O poeta foi registrando as estrophes.
Quadras de rima facil de participios, espancados pelo camartello contundente dos agudos.
Sustou-se em toda a linha o furor gastronomico dos rapazes. Ficámos a ouvir, surpresos.
Murmuraram as brisas; as fontes correram; tomaram a palavra os sabiás; surgiram palmeiras em repuxo; houve revoadas de juritys, de beija-flôres; todas essas cousas, de que se alimentam versos communs e de que morrem á fome os versejadores. Subito, do melhor das quadras, exactamente quando o poeta apostrophava o dia sereno e o sol, comparando a alegria dos discipulos com o brilho dos prados, e a presença do Mestre com o astro supremo, mal dos improvisos prévios! desata-se das nuvens espessadas uma carga d'agua diluvial, unica, sobre o banquete, sobre o poeta, sobre a miseranda apostrophe sem culpa.
Venancio não se perturbou. Abriu um guarda-chuva para não ser inteiramente desmentido pelas gotteiras e continuou, na guarita, a falar enthusiasticamente ao sol, á limpidez do azul.

Não querendo desprestigiar o estimavel subalterno, Aristarcho fingia acreditar no improviso e, indifferente, deixava cair o aguaceiro. As abas do chapéo de palha murchavam-lhe ao redor da cabeça, o rodaque branco desengommava-se em pregas verticaes gottejantes.
Para os rapazes a chuva foi novo signal de desordem. Deixou-se o poeta com a sua inspiração arrebatadora de bom tempo; recomeçou a investida aos pratos.
A abóbada de folhagem que nos cobria, em vez de attenuar a violencia das aguas, concorria para fazer mais grossos os pingos. Pouco importava. A philosophia impermeavel do director servia-nos tambem de capa. Que chovesse! Era o môlho dos manjares que nos faltava. As fructas lavadas luziam com um verniz de frescura que o proprio outomno não possue. O vinho estendia-se pela toalha encharcada numa generalisação solemne de purpura. O banho opportuno do banquete vinha temperar a demasiada aridez das farinhas de recheio. «Acabamos pela sopa, descobriu Nearcho, o penetrante, por onde o vulgo principia!»
Qual acabavamos! Ninguem acabou. Succedeu que, com os fundilhos molhados, ninguem quiz mais sentar-se. Gyrou o atropello ao redor das mesas; os bancos foram repellidos a ponta-pés. Repartia-se o doce sem equidade; quem não avançava a tempo ficava sem elle. Dous inspectores, João Numa e o Conselheiro, a pretexto de decidir uma contenda, arranjaram-se com uma caixa de pecegada e desappareceram.
A chuva desculpava a bebida. Era inacreditavel o consumo de brindes. Brindes a Aristarcho, brindes aos companheiros, ao Sylvino, ao poeta, ao sol, aos temporaes, ao trovão scandinavo; inimigos figadaes, no transporte do prazer, reconciliaram-se; Barbalho saudou-me fogosamente. Romulo, já tonto, affastado das mesas, brindava o copeiro que lhe arranjara uma garrafa; depois brindou a noiva; o criado, bebendo tambem, tocou-lhe o copo.
Como escurecia, o director fez o clarim chamar á fórma.
Debaixo do aguaceiro que não cessava, o collegio alinhou-se como bem pôde. Muitos, queixando-se de saude delicada, obtiveram, dispensa d'esta inopportuna disciplina de equilibrio; seguiram adiante para o portão abrigado do jardim... Após, fomos os outros, em marcha regular, pingando de molhados. A fita vermelha dos gorros desbotava-se-nos pelo rosto em fios sanguineos.
Quando chegámos ao portão, já nos esperavam os bonds especiaes. Do outro lado da rua, á entrada do conhecido restaurante, appareceu a familia do Aristarcho com alguns professores, que lá tinham jantado. D. Emma, pelo braço do Chrysostomo, a Melica altivamente só e distanciada.
No collegio, tivemos ordem de subir a descanço nos dormitorios. Preventivo louvavel de prudencia, depois dos excessos e da tempestade soffrida. O descanço foi simplesmente um prolongamento da pandega do passeio. Para cessar a desordem, tocou-se a estudo... Baixámos ao salão geral. Aristarcho, reassumindo a dureza olympica da seriedade habitual, apresentou-se e perguntou asperamente se pretendiamos que a vida passasse a ser agora um pique-nique perpetuo na desmoralisação. Tacitamente negámos e a tranquillidade normal entrou dos eixos.
Não sabiamos que, a essas horas, preparava o segredo da alta justiça uma trama de intrigas, que devia estragar em terrores a lembrança do grande passeio.
Á hora da ceia, na mesma porta em que se lia a gazetilha das aulas, sombrio como nunca, vagaroso como os compassos de requiem, tetrico como o juizo final, entrou o director.
Pausa preliminar, fremito de sensação pelo refeitorio:
«Tenho a alma triste», começou, cavernosamente. Uma cinta de trovões no horizonte, rostos da tormenta da tarde, faziam fundo ás palavras em côro eschyliano.
«Tenho a alma triste. Senhores! A immoralidade entrou nesta casa! Recusei-me a dar credito, rendi-me á evidencia»... Com todo o vigor tenebroso dos quadros tragicos, historiou-nos uma aventura bregeira. Uma carta comica e um encontro marcado no Jardim. «Ah! mas nada me escapa... tenho cem olhos. Se são capazes, illudam-me! Está em meu poder um papel, monstruoso corpo de delicto! assignado por um nome de mulher! Ha mulheres no Atheneu, meus senhores!»
Era uma carta do Candido, assignada Candida.
«Esta mulher, esta cortezã fala-nos da segurança do logar, do socego do bosque, da solidão a dous... um poema de pouca vergonha! É muito grave o que tenho a fazer. Amanhã é o dia da justiça! Apresento-me agora para dizer sómente: serei inexoravel, formidando! E para prevenir: todo aquelle que directa ou indirectamente se acha envolvido nesta miseria... tenho a lista dos comprometidos... e que negar espontaneo auxilio ao procedimento da justiça, será reputado cumplice e como tal: punido!»
Este convite era um verdadeiro arrastão. Remexendo a gaveta da consciencia e da memoria, ninguem havia, póde-se affirmar, que não estivesse implicado na comedia collegial dos sexos, ao menos pelo enredo remoto do ouvi dizer. Ouvir dizer e não denunciar logo, era um crime, dos grandes na jurisprudencia costumeira. A devassa promettida fazia alarma geral. Como prevêr as complicações do processo? Como adivinhar o segredo tremendo da lista?
Aristarcho ufanava-se de perspicacia de inquisidor. Sob a saraivada das perguntas, ameaças, promessas, o interrogado perturbava-se, compromettia-se, entregava-se e trahia os outros; nos processos do gabinete, os factos floresciam em carymbo, fructificavam em cacho; a pesquiza de uma culpa descobria tres, sem contar as ramificações da cumplicidade de outiva.
Ao retirar-se, o director deixou na sala uma estupefacção de pavor.
Eu, particularmente, tinha valiosos motivos de sobresalto. A guerra latente que já me ligava ao director, como as conjuncções disjunctivas, exacerbara-se com um episodio gravissimo, rompimento decisivo.
A caminho da bibliotheca, no mesmo logar do infeliz encontro com o enorme Romulo, achei-me inesperadamente com o Bento Alves.
As sympathias do excellente companheiro não tinham diminuido. Durante as férias, fôra vêr-me em casa, travando relações com a minha familia. Fui recommendado insistidamente ao amigo, que me valesse, nas difficuldades da vida collegial, contra o constante perigo da camaradagem perniciosa. Durante o mez de Janeiro não nos vimos. Por occasião da abertura das aulas, notei-lhe um calor novo de amizade, sem effusões como d'antes, mas evidentemente testemunhado por tremores da mão ao apertar a minha, embaraços na voz de amoroso errado, bisonho desviar dos olhos, denunciando a reluctancia de movimentos secretos e impetuosos. Ás vezes mesmo, um reflexo assustador de loucura accentuava-se-lhe nos traços.
Interessava-me aquella agonia comprimida. Estranha cousa, a amizade que, em vez da aproximação franca dos amigos, podia assim produzir a incerteza do mal estar, uma situação prolongada de vexame, como se a convivencia fosse um sacrificio e o sacrificio uma necessidade.
Durante os primeiros dias do anno, poucos alumnos chegados, ficavamos horas inteiras em companhia. Trouxera-me um presente de livros, com dedicatoria a côres, de bella calligraphia, inscripta em rosas entrelaçadas de chromo, Recordo-me tambem de um dulcissimo cofre dourado de pastilhas e outras ridicularias de amabilidade que me offerecia, passado de vergonha pela insignificancia do obsequio. Confusamente occorria-me a lembrança do meu papelzinho de namorada faz de conta, e eu levava a seriedade scenica a ponto de galanteal-o, occupando-me com o laço da gravata d'elle, com a mecha de cabello que lhe fazia cócega aos olhos; soprava-lhe ao ouvido segredos indistinctos para vêl-o rir, desesperado de não perceber. Uma das irmãs casara no Rio Grande; elle mostrou-me o retrato do noivo, um par de bigodes negros descaidos, com a noiva, um rosto oval correcto e puro, o turbilhão nevoento dos véus. Deu-me um botão de flôr de laranjeira que tinham remettido.
Andavam assim as cousas, em pé de serenidade, quando occorreu a mais espantosa mudança.
Não sei que diabo de expressão notei-lhe no semblante, de ordinario tão bom. Desvairamento completo. Apenas me reconheceu, atirou-se como fizera Romulo e igualmente brutal. Rolámos ao fundo escuro do vão da escada. Derribado, contundido, espancado, não descurei da defeza. Entrevi na meia obscuridade do recanto um grande sapato embolorado. Luctando na poeira, sob o joelho esmagador do assaltante, ataquei-lhe a cabeça, a cara, a bocca, a formidaveis golpes de tacão, apurando a energia de sola ferrada com a omnipotencia dos extremos. Bento Alves deixou-me bruscamente.
Tinhamos luctado em silencio, sem que nada mais se ouvisse do que os encontrões pelo soalho. No corredor, entretanto, vimos Aristarcho que chegava como em soccorro. Bento Alves passou; immobilisou-o com o olhar sem vista, esgazeado, medonho, de quem acaba de perpetrar um homicidio e desappareceu, tropego, manchado de pó, labios inflammados, desordem nos cabellos.
Aristarcho veio sobre mim. Que explicasse a briga! Eu estava como o adversario, empoeirado e sujo como de rolar sobre escarros.
Respondi-lhe com violencia.
«Insolente!» rugiu o director. Com uma das mãos prendendo-me a blusa, a estalar os botões, com a outra pela nuca, ergueu-me ao ar e sacudiu, «Desgraçado! desgraçado, torço-te o pescoço! Bandalhozinho impudente! Confessa-me tudo ou mato-te.»
Em vez de confessar, segurei-lhe o vigoroso bigode. Fervia-me ainda a excitação do primeiro combate; não podia olhar conveniencias de respeito. Esperneei, contorci-me no espaço como um escorpião pisado. O director arremessou-me ao chão. E, modificando o tom, falou: «Sergio!ousaste tocar-me!»
—Fui primeiro tocado! repliquei fortemente.
—Criança! feriste um velho!
Reparei que havia no chão fios brancos de bigode.
—Fui vilmente injuriado, disse.
—Ah! meu filho, ferir a um mestre é como ferir ao proprio pae, e os parricidas serão malditos.
O tom commovido d'este final inesperado impressionou-me até o intimo d'alma. Estava vencido. Fiquei por um minuto horrorisado de mim mesmo. De volta do atordoamento, achei-me só no corredor. A saída dramatica do director augmentou-me ainda remorsos. Houve uma reacção de esforço moral e desatei nervosamente em pranto, chorei a valer, amparando-me ao peitoril de uma janella.
Contava certo com um castigo excepcional, uma comminação qualquer do celebre codigo do arbitrio, em artigo cujo gráo minimo fosse a expulsão solemne.
Esperei um dia, dous dias, tres: o castigo não veio. Soube que Bento Alves despedira-se do Atheneu na mesma tarde do extraordinario desvario. Acreditei algum tempo que a minha impunidade era um caso especial do afamado systema das punições moraes e que Aristarcho delegara ao abutre da minha consciencia o encargo da sua justiça e desaffronta. Hoje penso diversamente: não valia a pena perder de uma vez dous pagadores promptos, só pela futilidade de uma occorrencia, desagradavel, não se duvida, mas sem testemunhas.
O caso morreu em segredo de discrição, encontrando-nos eu e o director num conchavo bilateral de reserva, como se nada houvesse.
O resentimento, porém, devia ser fundo e a perspectiva tormentosa do processo ameaçava-me como o ensejo imminente da desforra.
Não foi possivel dormir tranquillo.
Á hora do primeiro almoço, como promettera, Aristarcho mostrou-se em toda a grandeza funebre dos justiçadores. De preto. Calculando magnificamente os passos pelos do director, seguiam-no em guarda de honra muitos professores. A porta fronteira, mais professores de pé e os bedéis ainda, e a multidão bisbilhoteira dos criados.
Tão grande a calada, que se distinguia nitido o tic-toc do relogio, na sala de espera, palpitando os ansiados segundos.
Aristarcho soprou duas vezes através do bigode, inundando o espaço com um bafejo de todo-poderoso.
E, sem exordio:
«Levante-se, Sr. Candido Lima!
«Apresento-lhes, meus senhores, a Sr.ª D. Candida, accrescentou com uma ironia desanimada.

«Para o meio da casa! e curve-se diante dos seus collegas!!»
Candido era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e maneiras difficeis de indolencia e enfado. Atravessou de vagar a sala, dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga, castigado pela curiosidade publica.
«Levante-se, Sr. Emilio Tourinho...
Este é o cumplice, meus senhores!»
Tourinho era um pouco, mais velho que o outro, porém mais baixo; atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um só arco pela testa. Nada absolutamente conformado para galã; mas era com effeito o amante.
«Venha ajoelhar-se com o companheiro.»
«Agora, os auxiliares...»
Desde as cinco horas da manhã trabalhava Aristarcho no processo. O interrogatorio, com o appendice das delações da policia secreta e dos timidos, compromettera apenas dez alumnos.
A chamado do director, foram deixando os logares e postando-se de joelhos em seguimento dos principaes culpados.
«Estes são os acolytos da vergonha, os co-réos do silencio!»
Candido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a furto, confortando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo no inferno.
Prostrados os doze rapazes perante Aristarcho, na passagem alongada entre as cabeceiras das mesas, parecia aquillo um ritual desconhecido de noivado: a espera da benção para o casal á frente.
Em vez da bênção chovia a colera.
«... Esquecem paes e irmãos, o futuro que os espera, e a vigilancia ineluctavel de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo santo das mães... caiu-lhes a vergonha como um esmalte postiço... Deformada a physionomia, abatida a dignidade, aggravam ainda a natureza; esquecem as leis sagradas do respeito á individualidade humana... E encontram collegas assás perversos, que os favorecem, calando a reprovação, furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora da justiça!...»
Não posso atear toda a rhetorica de chammas que alli correu sobre Pentapolis. Fica uma amostra do enxofre.
Isto, porém, era um começo. Conduzidos pelos inspectores, saíram os doze como uma leva de convictos para o gabinete do director, onde deviam ser litteralmente seviciados, segundo a praxe da justiça do arbitrio.
Consta que houve mesmo pancada de rijo. Os condemnados negaram, depois. Em todo caso, era de effeito o simples consta, engrandecido pela refracção nebulosa do boato.
Concluida a chamada dos indiciados, a sala inteira respirou desafogo. No recreio, a rapaziada dispersou-se com gritos festivos.
Franco, sobretudo, estava de um contentamento nunca visto. Casualmente em liberdade, por não ter havido leitura das notas, fazia da circumstancia uma pirraça contra o Sylvino: «Eu é que sou o máu; repetia andando á roda, eu é que sou o bandalho, a peste do collegio!... O máu sou eu só!...» Sylvino foi gradualmente perdendo a paciencia. Atirou-se por fim ao Franco, desesperado, lançou-o á terra, metteu-lhe os pés. Alguns rapazes protestaram com gritos, Sylvino ameaçou. Fogosos da exaltação desordeira do passeio da vespera, que por momentos dominara o terror do processo, reuniram-se em massa contra o Sylvino. O inspector salvou a força moral refugiando-se no alto da escada e fazendo de cima tregeitos energicos com a carteira e o lapis.
Á tardinha, em nome do director, foram convocados a castigo os cabeças do motim.
Eu no meio. Fomos alinhados vinte e tantos no corredor que partia do refeitorio. Na qualidade de presos politicos, victimas de generosa sedição, não nos vexava a penitencia. Uns conversavam gracejando, outros sentavam-se no soalho. Junto de mim ficava um armario dos apparelhos escolares, revestindo-se a vidraça de uma tela protectora de metal. Atravez do arame, na ultima luz vespertina, eu espiava lá dentro os queridos planetas de vago brilho, como a noite encarcerada ainda.
Por traz do armario, havia uma porta. Conversavam do outro lado, na saia das visitas, Aristarcho e o guarda-livros. Chegavam-me palavras perdidas, «... De boa familia... dous, um descredito!... Vão pensar... Expulsar não é corrigir... Isto é o menos; não ha gratuitos?... Sim, sim... Quanto a mim... desagradavel sempre riscar... bórra a escripta... Em summa... mocidade...»
Acabavam de accender a illuminação do Atheneu.
Decididamente, era um dia nefasto. Do corredor, ouvimos enorme barulho no pateo. Recomeçavam as vaias. Protegidos pela noite, mostravam-se mais alvoroçados os rapazes. Era um tumulto indescriptivel, vozear de populaça em revolta, silvos, brados, injurias, em que os gritos estridulos dos pequenos destacavam-se como arestas da massa confusa de clamores.
Os inspectores chegaram aterrados a procurar o director, mostrando a cara salpicada de verrugas vermelhas. Adivinhei. Era a revolução da goiabada! Uma velha queixa.
A comida do Atheneu não era pessima.
O razoavel para algumas centenas de tolinhos. Possuia mesmo o condimento indispensado das moscas, um regalo. Mas aborrecia a impertinencia insistida de certos pratos. Uma epidemia, por exemplo, de figados guizados, o anno todo! Ultimamente, havia tres mezes, a goiabada molle de bananas, manufactura economica do despenseiro.
Aristarcho empallideceu de despeito. Visava-o directamente a desaforada insurreição. E isto no mesmo dia em que fizera espectaculo da justiça tremenda. Não quiz, entretanto, arriscar o prestigio. Vimol-o no corredor, incerto, sem sangue, mandando que voltassem os bedéis a acalmar.
Torturava-o ainda em cima o ser ou não ser das expulsões. Expulsar... expulsar... fallir talvez. O codigo, em letra gothica, na moldura preta, lá estava imperioso o formal como a Lei, prescrevendo a desligação tambem contra os chefes da revolta... Moralidade, disciplina, tudo ao mesmo tempo... Era de mais! era de mais!... Entrava-lhe a justiça pelos bolsos como um desastre. O melhor a fazer era chimpar um murro no vidro amaldiçoado, rasgar ao vento a letra de patacoadas, aquella porqueira gothica de justiça!

Quando informaram qual o motivo das assuadas, saiu-lhe um peso do coração! «Ah! Tinham motivo... Mas aquillo era patota do despenseiro... Pedras que lhe atirassem seria pouco... Mas não tinha culpa... Era industria secreta a goiabada de bananas!...»
A sineta, chamando á ceia, pacificou os animos. Espalhou-se que Aristarcho rendia-se á revolta e ia falar.
Á mesma porta em que apparecera formidavel de manhã, surgiu-nos transformado, manso, liso como a propria cordura e a lealdade; altivo, comtudo, quanto comportava a submissão.
«Mas por que, meus amigos, não formularam uma representação? A representação é o motim reduzido á expressão ordeira e papeliforme! Qual a necessidade da representação por assuadas? Têm todos razão... Perdôo a todos... Mas eu sou tão enganado como os senhores... Até hoje estava convencido de que a goiabada era de goiaba... A verba consagrada é para a legitima de Campos... Nesta casa não ha miserias!... Quando alguma cousa faltar, reclamem, que aqui estou eu para as providencias, vosso Mestre, vosso pae!... Legitimo cascão de Campos... Aqui têm as latas... Mais latas!... leiam o rotulo... Como podia eu suspeitar...»
Emquanto o director falava, ia-lhe um copeiro amontoando em torno quanta lata vasia encontrou na copa. Grandes caixas redondas de folha, espelhantes como luas, com o letreiro em barra. Aristarcho mirava-se nos luminosos documentos da sua inteireza. «Legitimo cascão! legitimo cascão, meus senhores!» garantia, tamborilando com os nós dos dedos numa tampa.
Escangalhavam-se as pilhas fragorosamente pelo soalho, mas o montão subia, em desordem, scintillando reflexos amarrotados do gaz. Aristarcho avultava sobre as latas, como o principio salvo da autoridade. A justificação era completa. Mais algumas palavras azeitadas de ternura, e todo resentimento cedia, e nós saudavamos o director, grande alli, como sempre, sobre o chammejamento do Flandres.
IX
A amnistia dos revolucionarios aproveitou por extensão aos execrandos réus da moralidade. Já frouxa a fibra dos rigores, Aristarcho despediu-os do gabinete com a penitencia de algumas dezenas de paginas de escripta e reclusão por tres dias numa sala. Desprestigiava-se a lei, salvavam-se, porém, muitas cousas, entre as quaes o credito do estabelecimento, que nada tinha a lucrar com o escandalo de um grande numero de expulsões. Quanto ao encerramento dos culpados na trevosa cafúa, impossivel, que lá estava o Franco, por exigencia expressa do Sylvino, como causador primeiro das inqualificaveis perturbações da ordem no Atheneu.
Esta resolução agradou-me summamente. Pena seria, em verdade, que perdesse eu, logo depois do Bento Alves, tão desastradamente concluido na historia sentimental das minhas relações, o meu amigo Egbert.
Adquirira-o com a transição para as aulas secundarias, onde o encontrei com outros adiantados. Vizinhos de banco, comprehendemo-nos, mutuamente sympathicos, como se um proposito secreto de cousa necessaria tivesse guiado o acaso da collocação.
Conheci pela primeira vez a amizade. A insignificancia quotidiana da vida escolar em que a gente se aborrece, é favoravel ao desenvolvimento de inclinações mais sérias que as de simples conveniencia menineira. O aborrecimento é um feitio da ociosidade, e da mãe proverbial dos vicios gera-se tambem o vicio de sentir.
A convivencia do Sanches fôra apenas como o affeiçoamento agglutinante de um sinapismo, intoleravel e collado, especie de escravidão preguiçosa da inexperiencia e do temor; a amizade de Bento Alvos fôra verdadeira, mas do meu lado havia apenas gratidão, preito á força, commodidade da sujeição voluntaria, vaidade feminina de dominar pela fraqueza, todos os elementos de uma fórma passiva de affecto, em que o dispendio de energia é nullo, e o sentimento vive de descanço e de somno. Do Egbert, fui amigo. Sem mais razões, que a sympathia não se argumenta. Faziamos os themas de collaboração; permutavamos significados, ninguem ficava a dever. Entretanto, eu experimentava a necessidade deleitosa da dedicação. Achava-me forte para querer bem e mostrar. Queimava-me o ardor inexplicavel do desinteresse. Egbert merecia-me ternuras de irmão mais velho.
Tinha o rosto irregular, parecia-me formoso. De origem inglesa, tinha os cabellos castanhos entremeados de louro, uma alteração exotica na pronuncia, olhos azues de estrias cinzentas, obliquos, palpebras negligentes, quasi a fechar, que se rasgavam, entretanto, a momentos de conversa, em desenho gracioso e largo.

Vizinhos ao dormitorio, eu, deitado, esperava que elle dormisse para vêl-o dormir e acordava mais cedo para vêl-o acordar. Tudo que nos pertencia, era commum. Eu por mim positivamente adorava-o e o julgava perfeito. Era elegante, déstro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o, desde o coração, até á côr da pelle e á correcção das fórmas. Nadava como as toninhas. A agua azul fugia-lhe diante em marulho, ou subia-lhe aos hombros banhando de um lustre de marfim polido a brancura do corpo. Dizia as licções com calma, difficilmente ás vezes, embaraçado por aspirações anciosas de asphyxia. Eu mais o prezava nos accessos doentios da angustia. Sonhava que elle tinha morrido, que deixara bruscamente o Atheneu; o sonho despertava-me em susto, e eu, com allivio, avistava-o tranquillo, na cama proxima, uma das mãos sob a face, compassando a respiração ciciante. No recreio, eramos inseparaveis, complementares como duas condições reciprocas de existencia. Eu lamentava que uma occorrencia terrivel não viesse de qualquer modo ameaçar o amigo, para fazer valer a coragem do sacrificio, trocar-me por elle no perigo, perder-me por uma pessoa de quem nada absolutamente desejava. Vinham-me reminiscencias dos exemplos historicos de amizade; a comparação pagava bem.
No campo dos exercicios, á tarde, passeavamos juntos, voltas sem fim, em palestra sem assumpto, por phrases soltas, estações de borboleta sobre as doçuras de um bem estar mutuo, inexprimivel. Falavamos baixo, bondosamente, como temendo espantar com a intonação mais alta, mais aspera, o favor de um genio benigno que estendia sobre nós a amplidão invisivel das azas. Amor unus erat.

Entravamos pelo gramal. Como ia longe o borborinho de alegria vulgar dos companheiros! Nós dous sós! Sentavamo-nos á relva. Eu descançando a cabeça aos joelhos d'elle, ou elle aos meus. Calados, arrancavamos espiguilhas á grama. O prado era immenso, os extremos escapavam já na primeira solução de crepusculo. Olhavamos para cima, para o céu. Que céus de transparencia e de luz! Ao alto, ao alto, demorava-se ainda, em cauda de ouro, uma lembrança de sol. A cupola funda descortinava-se para as montanhas, diluição vasta, tenuissima de arco-iris. Brandos reflexos de chamma; depois, o bello azul de panno, depois a degeneração dos matizes para a melancolia nocturna, prenunciada pela ultima zona de roxo doloroso. Quem nos dera ser aquellas aves, duas, que avistavamos na altura, amigas, declinando o vôo para o occaso, destino feliz da luz, em pleno dia ainda, quando na terra iam por tudo as sombras!
Outras vezes, subiamos ao duplo trapezio. Embalavamo-nos primeiro brando, affrontando a caricia rapida do ar. Pouco a pouco augmentava o balanço e arriscavamos loucuras de arremesso, assustando o Atheneu, levados em vertigem, distendidos os braços, pés para frente, cabeça para baixo, cabellos desfeitos, ebrios de perigo, ditosos se as cordas rompessem e acabassemos os dois, alli, como uma só vida, no mesmo arranco.
Liamos muito em companhia. Paginas que não terminavam, de leituras delicadas, fecundas em scisma: Robinson Crusoé, a solidão e a industria humana; Paulo e Virginia, a solidão e o sentimento. Construia-mos risonhas hypotheses: que faria um de nós, vendo-se nos apuros de uma ilha deserta?
—Eu, por mim, iniciava logo uma furiosa propaganda a favor da immigração e ia clamar ás praias, até que me ouvisse o mundo.
—Eu faria cousa melhor: decretava preventivamente o casamento obrigatorio e punha-me a esperar pelo tempo.
A pastoral de Bernardin de Saint-Pierre foi principalmente o nosso enlevo. Parecia-nos ter o poema no coração. A bahia do Tumulo, de aguas profundas e sombrias, festejada apenas algumas horas pelo sol a prumo, em suave tristeza sempre; ao longe, por uma bocaina, a fachada, á vista, branca, da igreja rustica de Pamplemousses.
Ideavamos vagamente, mas inteiramente, na meditação sem palavras do sentimento, quadro de manchas sem contorno, ideavamos bem as scenas que liamos da singela narrativa, almas que se encontram, dous coqueiros esbeltos crescendo juntos, erguendo aos poucos o feixe de grandes folhas franjadas, ao calor da felicidade e do tropico. Comprehendiamos os pequeninos amantes de um anno, confundidos no berço, no somno, na innocencia.
Reviviamos o idyllio todo, instinctivo e puro. «Virginie, elle sera heureuse!...» Animavamo-nos da animação d'aquellas correrias de crianças na liberdade agreste, gozavamos o sentido d'aquella topographia de denominações originaes—Descoberta da amizade, Lagrimas enxugadas, ou de allusões á patria distante. Ouviamos palmear a revoada dos passaros, disputando ao redor de Virginia, a ração de migalhas. Percebiamos sem raciocinios a philosophia sensual da mimosa entrevista.
«Est-ce par ton esprit? Mais nos mères en ont plus que nous deux. Est-ce par tes caresses? Mais elles m'embrassent plus souvent que toi... Je crois que c'est par ta bonté... Mais, auparavant, repose-toi sur mon sein et je serai délassé.—Tu me demandes pourquoi tu m'aimes. Mais tout ce qui a été élevé ensemble s'aime. Vois nos oiseaux élevés dans les mêmes nids, ils s'aiment comme nous; ils sont toujours ensemble comme nous. Écoute comme ils s'appellent et se répondent d'un arbre à l'autre...»
Confrangia-nos, emfim, ao voltar das paginas, a difficuldade cruel das objecções de fortuna e de classe, o divorcio das almas irmãs, quando os coqueiros ficavam juntos. E a imminencia constrictora do austro, da catastrophe, a lua cruenta de presagios sobre um céu de ferro...
E guardavamos do livro, cantico luminoso de amor sobre a surdina escura dos desesperos da escravidão colonial, uma lembrança, mixto de pezar, de encanto, de admiração. Que tanto pôde o poeta: sobre o solo maldito, onde o café floria e o niveo algodão e o verde claro dos milhos de uma rega de sangue, altear a imagem phantastica da bondade. Virginia coroada; como o capricho omnipotente do sol, formando em gloria os filetes vaporosos que os muladares fumam, que um raio chama acima e doura.
Com o Egbert experimentei-me ás escondidas no verso. Esboçámos em collaboração um romance, episodios medievaes, excessivamente tragicos, cheios de luar, cercados de ogivas, em que o mais notavel era um combate devidamente organisado, com fuzilaria e canhões, antecipando-se de tal maneira a invenção de Schwartz, que ficavamos para todo o sempre, em litteratura, a salvo da increpação de não descobrir a polvora.
Quando ouvi-lhe o nome, á chamada, dos compromettidos no processo, soffri como a surpreza de um golpe. Desesperou-me não achar o meio de compartir com elle a vergonha.
Qual a especie de cumplicidade que se attribuia? Não quiz saber; fosse o mais torpe dos réus, era o meu amigo: tudo que soffresse, muito culpado embora, era, no meu conceito, uma provação da fatalidade. E fazia-me estremecer a idéa de que iam maltratar creatura tão mansa, tão complacente, tão amavel, feita de sensibilidade e brandura, contra quem o mal seria sempre uma injustiça, que eu prezaria com todos os defeitos, com todas as maculas, na facilidade de perdão das cegueiras sentimentaes, estranhezas da preferencia, que envolve tudo, no ser querido, a phrase limpida do olhar ou o cheiro acre, mesmo impuro, da carne.
Quando nos tornámos a vêr, nenhum teve para o outro a minima palavra; ficámos a um banco, lado a lado, em expansivo silencio. E nunca, depois, nem por allusão distante, nos referimos ao caso. Coincidencia instinctiva de um respeito reciproco, odio talvez commum de uma recordação ominosa.
Desde o mez de julho do anno anterior, cursava os estudos elementares das linguas, alegrando-me a acquisição do vocabulo estrangeiro, commercio com a linguagem dos grandes povos, como se provasse a goles a civilisação, como se bebesse a realidade do movimento humano nos paizes remotos que os cosmoramas pintam, em que vagamente acreditavamos como se acredita em romances.
Seguiu-se a massada dos interminaveis themas.
Nas aulas superiores, a facilidade adquirida amenisava o trabalho. As paginas sorriam de litteratura, com o sorriso conhecido dos objectos familiares.
Os professores eram bons e moderados. O do francez, Mr. Delille, nome de poeta applicado a um urso, honrado urso, inoffensivo e benevolo; saudoso do terceiro imperio, cujo desastre o deportava para a vida de aventuras além mar; barbado como um colchão de crinas, por um vigor de cabello denso, luxuriante, ruivo queimado no logar da bocca, mais longe preto, atravez do qual passavam-nos simultaneamente baforadas expressivas de cachaça e regras de Halbout. O professor de inglez, Dr. Velho Junior, nome de contradicção ainda, o melhor dos homens: zeloso, explicador detalhado, sem exaltar-se nunca, calvo como a occasião, mas que excellente occasião de se estimar e querer bem!
A companhia do Egbert ultimava a situação e o estudo era uma festa.
O professor Venancio leccionava tambem inglez; escapei-lhe ás garras, felizmente: uma fera! chatinho sob o director, terrivel sobre os discipulos; a um d'elles arremessou-o contra um registro do gaz, quebrando-lhe os dentes. Manlio, além das primeiras letras, regia a cadeira especial do portuguez.
Graças ao estudo do outro anno, alcancei soffrivelmente o meu attestado de vernaculismo, garantido pela competencia official; graças tambem ás tinturas do latim, em que me iniciara o padre-mestre frei Ambrosio, respeitavel, de nariz entupido, gesticulando com o Alcobaça, rezando a ar tinha com a intonação ôcca e funda das missas cantadas, consumidor de rapé por um convento, culpado, assim, de cheirar-me ainda hoje a Paulo Cordeiro o magnifico idioma do qui, quæ, quod, produzir-me espirros uma simples reminiscencia de Sallustio.
Era costume no Atheneu licenciar-se um pouco do regimento da casa a estudante de certa ordem, que estivesse em vespera de exame. Saía-se então para o jardim com os livros e a commodidade do trabalho a bel-prazer. Companheiros sempre, aproveitavamos, eu e o Egbert, com toda vontade, a regalia consuetudinaria. Antes da data memoravel do francez, muito passeiámos pelas avenidas de sombra Chateaubriand, Corneille, Racine, Molière. O theatro classico dava para grandes effeitos de declamação. Quanta tragedia perdida sobre as folhas seccas! Quanto gesto nobre desperdiçado! Quantas soberbas falas confiadas á viração leviana e passageira!
Um era Augusto, outro Cinna; um Nearcho, outro Poliuto; um Horacio, outro Curiacio, D. Diogo e o Cid, Joas e Joad, Nero o Burrho, Philinto e Alceste, Tartufo e Cleantho. O arvoredo era um scenario deveras. Dialogavamos, com toda a força das encarnações dramaticas, a bravura cavalheiresca, o civismo romano, as apprehensões de rei ameaçado, o heroismo da fé, os arrufos da misanthropia, as sinuosidades do hypocrita. Uma estatua de deusa anonyma, de louça esfolada, verde de velhice, constituia o auditorio, auditorio attento fixamente, comedido, sem demasias do applauso nem reprovação, mas constante e infatigavel.
Para o desempenho dos papeis femininos havia difficuldades; cada um queria a parte mais energica do recitativo. Tirava-se a sorte, e, segundo o acaso, um de nós ou o outro enfiava som cerimonia as saias de qualquer dama e ia perfeita a toilette do sentimento, noivado de Chimène, desespero de Camilla, lucto de Paulina, ambição de Agrippina, soberania de Esther, astucia de Elmira, dubiedade de Celimène. Outro papel custoso de distribuir era o do Burrho, papel honesto, entretanto, e altamente sympathico. Ninguem o queria fazer, o virtuoso conselheiro de Nero.
Melhor que a prerogativa do estudo livre era uma especie de premio, não catalogado nos estatutos, com que Aristarcho gentilmente obsequiava os distinctos. Levava-os a jantar em sua casa, uma honra! á mesma toalha com a princeza Melica, dos olhos grandes.
Quiz o bom fado que obtivessemos, os dous amigos, a prezada nota, e, registre-se perenne! examinados pelo professor Courroux, o tremendo Catão das bolas pretas, terror universal dos bichos!
O director recebeu-me da Instrucção com um abraço contrafeito de estylo; percebi que ainda escorria a fistula dos resentimentos. Convidado Egbert, força ora que o fosse eu tambem, e o fui, de má vontade, por formula. Cumpria-me forjar pretexto e recusar o convite, mas attrahia-me certo numero de curiosidades, por exemplo: vêr como comia a Melica, uma cousa de subido interesse.
Lembro-me, entretanto, que havia flôres sobre a mesa, que estava, a queimar a sopa; não reparei sequer se esteve presente a filha do director.
Uma attenção absorveu-me exclusiva e unica. D. Emma reconheceu-me era aquelle pequeno das madeixas compridas! Conversou muito commigo. Um fiapo branco pousava-me ao hombro do uniforme; a boa senhora tomou-o finamente entre os dedos, soltou-o e mostrou-me, sorrindo, o fio levissimo a cair lentamente no ar calmo... Estava desenvolvido! Que differença do que era ha dous annos! Tinha idéa do haver estado commigo rapidamente, no dia da exposição artistica...

—Um peraltinha! interrompeu Aristarcho, entre mordaz e condescendente, de uma janella a cujo vão conversava com o professor Chrysostomo.
Eu quiz inventar uma boa réplica sem grosseria, mas a senhora me prendia a mão nas d'ella, maternalmente, suavemente, de tal modo que me prendia a vivacidade tambem, prendia-me todo, como se eu existisse apenas naquella mão retida.
Depois da interrupção de Aristarcho, não sei mais nada precisamente do que se passou na tarde.
Miragem seductora de branco, fartos cabellos negros colhidos para o alto com infinita graça, uma rosa nos cabellos, vermelha como são vermelhos os labios e os corações, vermelha como um grito de triumpho. Nada mais. Ramalhetes á mesa, um caldo ardente, e sempre a obsessão adoravel do branco e a rosa vermelha.
Estava a meu lado, pertinho, deslumbrante, o vestuario de neve. Serviam-me alguns pratos, muitas caricias; eu devorava as caricias. Não ousava erguer a vista. Uma vez ensaiei. Havia sobre mim dous olhos perturbadores, vertendo a noite. Parece que me olhava tambem, não tenho certeza, do outro lado, por entre as flôres, o professor Chrysostomo.
Empossado no seu grande orgulho, que mesmo em casa fazia valer, Aristarcho presidia; tão alto, porém, e tão longe, que dir-se-ia um ausente.
De volta ao Atheneu, senti-me grande. Crescia-me o peito indefinivelmente, como se me estivesse a fazer homem por dilatação. Sentia-me elevado, vinte annos de estatura, um milagre. Examinei então os sapatos, a vêr se haviam crescido os calcanhares. Nenhum dos symptomas estranhos constatei. Mas uma cousa apenas: olhava agora para Egbert como para uma recordação e para o dia de hontem.
D'ahi começou a esfriar o enthusiasmo da nossa fraternidade.
X
Bem differente esta exaltação deliciosa do abatimento espavorido da vespera, da manhã mesmo, na secretaria da Instrucção Publica. A expectativa mortal das chamada; uma insignificancia: o terror academico! que nos sobresalta, que nos deprime como o que ha de mais grave. E por occasião das provas de francez já não era estreante.
A estréa do primeiro exame foi de fazer febre. Tres dias antes pulavam-me as palpitações; o appetite desappareceu; o somno depois do appetite; na manhã do acto, as noções mais elementares da materia com o appetite e com o somno. Memoria in albis.
O professor Manlio animava; a animação, lembrando o perigo, assustava mais. Esmagava-me por antecipação o peso enorme da bastilha da rua dos Ourives, como os tribunaes ferozes, sem appello; a terrivel campainha penetrante da abertura da solemnidade, os reposteiros plumbeos de espesso verde, sopesando as armas imperiaes, as formidaveis paredes de alvenaria secular. Que barbaridade aquella conspiração toda contra mim, contra um, de todos aquelles perfis rebarbativos, continuos, o Mattoso, o Neves Leão, as commissões, qual mais poderosa e carrancuda; o Conselho da Instrucção no fundo, cousa desconhecida, mythologica, entrevista como as pinturas religiosas das abóbadas sombrias, onde as vozes da nave engrossam de resonancia, emprestando a força moral á justiça das commissões, com o prestigio da elevação e do inaccessivel; mais alto que tudo, o Ministro do Imperio, o Executivo, o Estado, a Ordem social, apparato enorme contra uma criança.
Entrava-se pela rua da Assembléa, para o saguão ladrilhado.
Alli estive não sei que tempo, como um condemnado em oratorio. Em redor de mim, morriam de pallidez outros infelizes, esperando a chamada. Um, o mais velho de todos, cadaverico, ar de Christo, tinha a barba rente, pretissima, como um queixo de ébano adaptado a uma cara de marfim velho.
De repente abre-se uma porta. De dentro, do escuro, saía uma voz, uma lista de nomes: um, outro, outro... ainda não era o meu... Afinal! Não houve nem tempo para um desmaio. Empurraram-me; a porta fechou-se; sem consciencia dos passos, achei-me numa sala grande, silente, sombria, de tecto baixo, de vigas pintadas, que fazia dobrar-se a cabeça instinctivamente. Uma parede vidraçada em toda a altura, de vidros opacos de fumaça, côr de pergaminho, coava para o interior um crepusculo fatigado, amarellento, que pregava mascaras de ictericia ás physionomias.

Entre as vidraças e os logares que eram destinados aos examinandos, ficava a mesa examinadora: á direita um velho calvo, baixinho, de alouradas cãs, rodeando a calva em franja de dragonas, barba da côr dos cabellos, reclinava-se ao espaldar da poltrona e lia um pequeno volume com o esforço dos myopes, esfregando as paginas ao rosto. Á esquerda, um homem de trinta annos, barba rareada por toda a face, palpebras inclusive, oculos escuros, cabello secco, caracolando. A claridade, batendo pelas costas, denegria-lhe confusamente as feições. O terceiro, presidente da commissão, não se via bem, encoberto pela urna verde de frisos amarellos.
Distribuiu-se o papel rubricado. Um dos examinadores levantou-se, apanhou com um movimento circular um punhado de pontos e lançou-os á urna. A urna de folha cantava ironica sob o cair dos numeros, sonoramente.
Tirou-se o ponto; momento de angustia ainda...
Depois: estrophe dos Lusiadas! Estavamos livres da expectativa. Não me preoccupou mais a difficuldade do ponto.
Depois do ditado, como em relaxamento de cançaço do espirito, esqueci o inventario natural dos conhecimentos que a prova reclamava. Puz-me a pensar nas primeiras leituras de Camões, no Sanches, nos banhos da natação, na maneira de rir de Angela, no criado assassinado, no processo do assassino, que fôra julgado havia pouco... Tres pancadinhas que senti no calcanhar, chamaram-me das distracções.
Voltei-me: era o meu vizinho da mesa de traz, o queixo de ébano que pedia soccorro. «Valha-me que estou perdido, não atino com a ordem directa!»
O ruido d'esta phrase balbuciada, sibilou bem forte para attrahir a attenção da mesa. Atirei-lhe a oração principal, mas tive medo de acudir inteiramente. Além d'isso, precisava cuidar do proprio interesse. Deixei o pobre Christo de marfim entregue ao desespero de uma lauda deserta. De vez em quando, o infeliz espetava-me as costas com a caneta.
Para a prova oral fui mais animado. A nota da escripta era tranquillisadora.
Os exames oraes eram todos nas salas de cima. Entrava-se pela rua dos Ourives. Os examinandos estavam em geral mais calmos. Além d'estes, enchia-se o saguão da escada com a turba-multa dos assistentes, confusão de fardetas, fraques surrados, sobrecasacas, todas as idades, todos os collegios representados, além dos estudantes avulsos de aulas particulares, em cujo numero confundiam-se caras suspeitas de farroupilhas, exemplares definidos de vagabundagem.
O Atheneu era invejado. Victimas do uniforme, os discipulos de Aristarcho passeiavam entre os grupos dos collegios rivaes, soffrendo dichotes, com uma paciencia recommendada de boa educação.
Fumava-se. No ambiente sem luz pairava fixo o nevoeiro dos halitos e um cheiro de sarro intoleravel; emplastravam-se de cusparadas as paredes; passeiava-se arrastando os pés na areia do ladrilho; resoavam grandes gargalhadas de ship-chandler; chasqueava-se a palavrões. Alguns rapazes de sorrisos frouxos, sem expressão, maneiras reles, arrebitavam para o alto, com as costas da mão, chapéos de palha suja, e passeiavam gingando. Os mais distinctos davam caminho, repuxando um canto desdenhoso de labios, perfilando mais a elegancia.
Um reboliço extraordinario agitou a multidão. Acabava-se de descobrir na cal, coberta de epigrammas e rabiscos, uma nova inscripção de muito espirito: versalhada satyrica contra o professor Courroux, da mesa de francez, rimando em u, sempre em u, de cima a baixo, com uma fertilidade pasmosa de epithetos.
Nem de proposito! na mesma occasião entrava e lançava-se precipitadamente pela escada o terrivel professor. «Não o conhece? Lá vae!» indicou-me um companheiro mais proximo.
—Não o conhecia...
Vi-o, magro, anguloso, feio, olhando com ferocidade continua, não se sabia felizmente para quem, porque era estrabico. Por elle começou o meu improvisado informante, e, conhecendo que eu andava atrazado a respeito, não me deixou mais: «Se tem empenho, fura; se não tem, babáu. Bancas de peixe! O peixe é caro ás vezes, mas é sempre peixe de mercado. Olhe o Meirelles da philosophia, aquelle compridão de barba russa; o empenho é a Ritinha Pernambucana da rua dos Arcos; o Simas da mesa de geographia, um pançudo appellidado esphera terrestre, mimoseiem-no com um par de gallos de briga... o Barros Andrade... comprem-lhe os pontos... aquelle diabo da rhetorica que me bombeou ha dias... falem-lhe nos versos, que não ha suissas mais amaveis. O seu director é que os comprehende. Quando entra aqui é uma onça; o proprio tecto branco empallidece; levantam-se, saúdam o soberano! Agora, ha homens respeitaveis: o velho Moreira, o sympathico Ramiro, de sorriso patriarchal...»