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Nota de editor:
Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Jan. 2010)
NOTAS d'ARTE

PORTO TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (a vapor) Travessa de Cedofeita, 54 1906
Ao INSTITUTO de ESTUDOS e CONFERENCIAS Á SOCIEDADE de BELLAS ARTES pelo que podem fazer em bem da Arte.
(Esboço para um retrato) VASCO FERREIRA

NO LIMIAR
(1904) Caricatura do dr. M. Monterroso

O philosopho Taine, dizia, ha bons vinte annos, no seu Curso Esthetico para
:―
A Arte é o reflexo dos costumes.
E, de facto, assim é. A Arte vae evolucionando sempre na ordem directa do aperfeiçoamento e da illustração dos povos
.
Assim, quanto mais illustrado fôr o publico, tanto mais perspicaz, mais estudioso e mais observador deve ser o artista, para que tenha o applauso geral e sincero a obra que executou e apresenta. E, é mesmo por isso que entre nós, os artistas, pintores e esculptores, dia a dia fazem, na incessante lucta pela vida, os esforços mais lidimos e mais honrados para resolverem esse enorme e sublime
desideratum:―
ser grande!
Infelizmente nem todos o podem conseguir. E, não o conseguem, porque para isso não são precisas só a boa vontade e a persistencia no estudo. Alguma coisa mais lhes é necessaria, e essa, primacial:―ter talento!
Felizes os que teem esse delicioso e bello predicado; porque esses, vão gloriosamente para diante e são verdadeiramente grandes
.
Ha alguns annos, poucos ainda, a pintura entre nós era uma especie de
Arte mystica,
que apenas raros tentavam, n'um arroubamento de eleitos
.
Esses mesmos, faziam a pintura a seu modo, dentro de restrictas e acanhadas normas, sem pensarem sequer que o
fluido ether
que nos cerca e enche triumphantemente toda a natureza, em pulverisações vibrantissimas de luz e de côr, precisa de ser estudado e quiçá pintado
.
Mas, se elles limitavam os ambitos do seu modo de executar, era que o publico tambem não exigia mais, e a critica não se preoccupava absolutamente nada com isso
.
Tanto
elle
como
ella
eram feitos por individuos, que ao visitar os museus e as exposições de pintura não tinham a intuição nitida e verdadeira da Natureza em todo o seu explendor, como manifestação psycologica da vista
.
Habitualmente todos elles amavam a Natureza pelo simples consolo que lhes dava, quando ao domingo, deixada a cidade, iam para o campo, não para fruir o delicado encanto de admirar um bello panorama, mas... para gosar o pantagruelico prazer de devorar um gordo carneiro assado, com o seu alguidar de loiro e assafroado arroz de forno, ou a saborosa pescada frita, com negras azeitonas e fresca e appetitosa salada de alface, acepipes estes que copiosamente regavam com tinto de Basto ou espumoso verde de Amarante
.
E, se um ou outro tinha uma tal ou qual intuição artistica, porque, lá fóra, nos grandes museus do estrangeiro, tinha visto qualquer cousa que lhe fizera notar tal, esse, ficava-se n'uma banal indifferença, sem se manifestar aggressivamente contra os systemas adoptados pelos pintores do seu tempo, que apresentavam nos seus quadros composições de convenção e feitas
no ar morno dos atelieres, sem a inspecção constante e immediata dos motivos a pintar..
.
Uma Era nova e refulgente, desponta por fim, e os artistas que começavam pondo de parte os velhos preceitos archaicamente usados, saltam por sobre as barreiras das convenções e correm pelos Campos da Arte, fóra, em procura de elementos verdadeiramente verdadeiros, com que possam satisfazer as exigencias do publico mais illustrado e da critica mais independente que auctoritariamente se impõe, cheia de razão, para que nos seus trabalhos haja mais naturalidade e menos ficção
.
E, é sob este refulgir de um novo sol, que orientado lá fóra, com as mais modernas noções d'Arte, estudando nas melhores e nas mais celebres escolas de pintura do Mundo, que nos apparece, entre outros, como Columbano, Malhoa, Salgado. Sousa Pinto, Marques de Oliveira, etc., etc., o grande, o sublime Silva Porto! Aquelle que para mim é o maior dos paysagistas portuguezes dos ultimos tempos. E que, com o seu modo de ser e de ver, marca d'uma maneira deslumbrante o inicio d'essa nova Era para a pintura portugueza
.
Assombra-nos esse artista com os seus primorosos quadros feitos n'uma larguissima e franca sentimentalidade d'alma de homem de talento, exuberantes de verdade, geniaes de execução. Era um grande! Era um sublime artista!..
.
Mas, a Morte rapidamente o ceifa, avara de que elle tenha conseguido tão sincera, tão verdadeira e tão lealmente
roubar
á Natureza verdadeiros e flagrantes pedaços do seu grandioso
Ser,
para tão maravilhosamente os transplantar á tela
.
Ao morrer porém Silva Porto tinha hasteado, bem alto e bem firmemente, a bandeira gloriosa sob que se devia agrupar a nova pleiade dos pintores portuguezes
.
E, de facto, é sob a egide d'essa bandeira que a Arte em Portugal brilha hoje mais fulgurante, podendo pôr-se sem vergonha ao lado da Arte dos paizes onde Ella tem um culto mais largo e mais acerrimo
.
Se não em quantidade, pelo menos em qualidade, os artistas
portuguezes de nome, chegam onde podem chegar os artistas notaveis estrangeiros, sem temerem confrontos
.
E isto porque Portugal d'hoje, embora os pessimistas não queiram, vae avançando intellectualmente um pouco na civilisação moderna
.
E em taes circunstancias, como dizia Taine, ha bons vinte annos
:―
A Arte é o reflexo dos costumes
.
Antonio de Lemos (Alvaro).
Cabeça de negra (Bronze) DUQUEZA de PALMELLA

NOTAS d'ARTE
I Impressões d'uma Exposição
Ha muito tempo já, deveria ter vindo dizer da bella impressão que me causou a 1.ª Exposição organisada pelo
José Malhoa

Instituto de Estudos e Conferencias
, mas os meus affazeres obrigaram-me, para gaudio dos meus leitores (pois critica incompetente como a minha quanto mais tarde melhor), a só hoje cumprir este dever.
Fui vêr a exposição sete vezes, e de cada vez que lá ia, novos encantos encontrava nos trabalhos expostos, pois a tentativa do Instituto teve o resultado mais brilhante que podia desejar-se.
Concorreram a este certamen desde os nossos melhores artistas até aos mais modestos amadores, e na generalidade todos se apresentaram dignamente, não obstante um
critico d'arte
ter dito, em um semanario d'esta cidade, que aquelles trabalhos eram meras
chromolythographias
. Uma duvida me assalta o espirito relativamente aos conhecimentos artisticos e criterio de tal critico. Saberá elle o que são chromolythographias? Mas, deixemos a cada um o seu modo particular de vêr... e de apreciar, e vamos ao que importa... Demais, a lua está tão alta?...
Vi, como disse, varias vezes os cento e dezesete quadros expostos, os dous bustos e o medalhão em marmore.
José de Brito

Dos trabalhos de esculptura direi apenas que os dous primeiros são obra de Fernandes de Sá, pensionista do Estado, que em Paris completa
a educação
artistica do seu muito talento. A cabecita de creança, em marmore, é um encanto, aquella boquita admiravel de bébé pedia milhares de beijos...
O medalhão de Joaquim Gonçalves é uma bella copia de um primoroso trabalho do grande mestre Soares dos Reis.
Agora, emquanto a quadros, ponho em primeiro logar, dôa a quem doer, os dous trabalhos de Malhoa, esse admiravel artista da Luz e da Côr. Eram um assombro os seus quadros.
Que grande calamidade―josé malhoa

O
Gozando os rendimentos
, estudado com cuidado e traçado largamente, empolgou-me por completo e fez-me gosar, conjunctamente com o personagem estudado, toda aquella commodidade natural de bom burguez que procura um amplo jardim publico para fazer socegadamente o seu chylo. Esta impressão forte que tive, confesso-o, foi devida talvez ao meu burguesismo.
No
Que grande calamidade
, as figuras trabalhadas com um rigor de verdadeiro mestre, são flagrantes na sua dor, ao verem o seu querido porco, morto na pocilga. Talvez que, se entre as cabeças das figuras e o rebordo do caixilho houvesse um pouco mais de tela, mais imponentes ellas ficariam.
E depois d'isto, de ter dito o meu modo de pensar sobre tão primorosos trabalhos, vou, salteando o catalogo, dar a nota dos quadros que mais me prenderam a attenção.
Chrysantemos―antonio costa

Marques de Oliveira, como sempre, distinctamente. É inegavelmente um grande desenhista. As suas
Impressões de Espinho
, são bellas e tanto, que uma foi adquirida pelo Instituto por indicação do jury competente.
A Azenha
, um encanto,
Cabeça de estudo
, um primor.
Greno, a fulgurantissima artista, bem, admiravelmente. Então os
Pensamentos
? Esse, era uma delicia.
Antonio Costa, para mim o unico pintor portuguez de flores, não desmereceu a sua grande fama e, os
Chrysantemos
e
Na vindima
, deram-me a prova evidente da sua muita aptidão para este genero de pintura.
Candido da Cunha

Candido da Cunha, um novo de muito talento, com o seu
Ultimos raios de sol
, que já conheciamos e que foi adquirido tambem pelo Instituto, com os seus―
Mar calmo
,
Martyr
e
Barcos de pesca
, merecem hoje, como sempre, os nossos elogios.
Julio Ramos, outro novo, paisagista apaixonado e distincto, dando ás suas paisagens um tom de verdade admiravel. O
Macieiras em flor
, em especial e as outras dezeseis telas, lindas a valer.
José de Brito, um mestre, talvez abusando um pouco das cores finas; todos os seus quadros são bons, mas para mim superior a todos é o
Mulher do novello
, estudo admiravelmente feito de uma velha repelenta, flagrantissima de verdade na expressão do rosto. Na
Infancia de Diana
,
João Augusto Ribeiro

bello estudo do nú, alguma coisa me desagradou á vista, especialmente um cão que se via nos ultimos planos...
João Augusto Ribeiro, bem nos seus pequeninos quadros
Retalhos
,
Lar
.
D. Lucilia Aranha, uma verdadeira artista, cheia de talento e de força de vontade, mais uma vez affirmou, com os treze quadros expostos, as suas aptidões artisticas.
Retrato de minha mãe torquato pinheiro

Torquato Pinheiro veio marcar n'esta exposição o seu logar definido e assente ao lado dos bons artistas.
Um caminho encharcado
,
Manhã d'Abril
,
Margens do Leça
, e todos os demais são feitos com alma de verdadeiro artista. Mas, a destacar, como primor de execução, o
Retrato de minha Mãe
, que é um trabalho notavel.
D'entre os amadores, extremarei D. Leopoldina Pinto, com as suas flores, especialmente o
Pelargonios
, que senti não tivesse preço para ser adquirido.
Mais artistas e amadores concorreram a este delicado certamen, mas, não me demorarei na enumeração dos seus trabalhos, porque isso iria ainda muito longe e os meus leitores, decerto, se até aqui chegaram, já bastante se tem aborrecido da semsaboria d'esta minha despretenciosa prosa, que do modo algum aspira ao nome de critica.
II PINTORES PORTUENSES
JULIO COSTA
Convidado a delinear um artigo sobre o pintor portuense Julio Costa, pensei primeiro esquivar-me a tal empreza porque me julgo insignificantemente pequeno para fallar d'este artista.
Julio Costa

Mas, antepondo a esse primeiro impulso a amizade que lhe dedico, resolvi acceitar o encargo, e, tal como posso, desempenhar esta missão.
Será um artigo despretencioso, sem preoccupação do estylo ou requinte de forma, um artigo modesto como eu e como o temperamento do pintor illustre de quem me vou occupar.
Não conheço escolas, não discuto artistas, não cito nomes estrangeiros, nem rebusco particularidades de
metier
.
Quando me occupo da pintura e de pintores nacionaes digo simplesmente, indiscretamente, a impressão que os quadros me deixam. Nada mais. E hoje, ao traçar estas linhas a respeito de Julio Costa, não venho, acreditem, fazer a apreciação, pretenciosa ou sabia, da obra d'esse pintor; venho simplesmente deixar-lhe, sob o seu nome já aureolado pela critica consciente, o laurel amigo da minha admiração.
E posto este preambulo, ahi vae o que me parece dever dizer do Julio Costa.
Portuguez de nascimento e condição, alma que se espande na mais suave de todas as alegrias―a familia―Julio Costa vem, de ha tempos para cá, vivendo quasi exclusivamente para os seus parentes, para os seus discipulos e para os seus trabalhos.
Conselheiro João Franco julio costa

É um d'estes homens com quem, mesmo sem fallar, se sympathisa logo á primeira vista.
É lhano de trato, affavel, de maneiras delicadas, cavaqueador emerito, tendo sempre um dito alegre para retorquir a um remoque que se lhe atire. Nunca deixa de chalacear, a não ser quando tem algum dos seus doente. Então, sim, então abate-se todo na dôr d'aquelle que soffre e deixa-se levar n'essa corrente de magua que o subjuga brutalmente.
É uma luminosa alma dada ao bem e a tudo quanto é bom, e d'ahi a uncção deliciosa e meiga com que elle concebe os seus quadros de genero.
Hoje, posto em foco, pelo brilhantismo dos seus ultimos trabalhos, deve orgulhar-se de ser um dos pintores preferidos nas commemorações aos homens notaveis do nosso paiz.
O retrato é inegavelmente o genero que Julio Costa mais accentuadamente trata e que mais em evidencia o tem collocado.
O retrato de El-Rei pintado para o salão do Tribunal da Relação, os retratos de Oliveira Martins, Dr. Ricardo Jorge, João Ramos, Dr. Eduardo Pimenta, Conselheiro Campos Henriques, Conselheiro João Franco, e muitos outros, são affirmações publicas do que digo.
O primeiro, é largo de ideia, magestatico de pose, tocado de iriadas côres, pois assim o pedia o grande do personagem. Collocado no amplo salão do Tribunal toma um aspecto soberbo, que nos infunde respeito.
Oliveira Martins―julio costa

O segundo, em que a figura de Oliveira Martins, essa imagem de santo e de philosopho, se nos apresenta sentada em larga cadeira de espaldar, em posição natural de quem entretem uma conversa, ao contemplal-o, como que se escuta a sua voz de mestre, que discreteia sabiamente sobre os intrincados problemas economicos do nosso paiz, ou sobre os notaveis factos da nossa historia.
E todos os outros, todos, são verdadeiras obras primas.
Não esquecerei fallar do seu ultimo trabalho, do retrato do Conselheiro João Franco, o homem forte e duro que emprehendeu, n'um arranco de verdadeiro portuguez, remodelar, n'um molde novo e n'uma nova orientação, a marcha dos negocios publicos.
D'esse retrato já eu disse, quando tive occasião de o ver pela primeira vez, o seguinte:
«É grande, na magestade da sua tela ricamente emmoldurada, o retrato do snr. Conselheiro João Franco.
«Absorve por completo a nossa attenção. Está executado n'um correctissimo desenho, tocado d'uma distincta tonalidade de côres, n'um flagrante de pose e de semelhança. Ao retrato do Conselheiro João Franco só lhe falta fallar para ser o proprio.
«Quanto mais o contemplamos, mais correcto e mais perfeito achamos este trabalho. A figura parece que se destaca da tela, tal é a perspectiva que Julio Costa lhe deu; ás vezes como que a vemos mexer-se. Depois, ha um não sei que de vida, que nos faz imaginar que os olhos se movem, que os labios se vão descerrar para fallar.
«E as roupas, que delicada feitura, que
nuances
de verdade! Na facha que ella ostenta, vermelha, ha reflexos de
moiré
.
«O retrato em questão não é simplesmente um retrato; é mais do que isso:―é um quadro».
Todos estes seus trabalhos nos encantam e deslumbram, porque Julio Costa sabe apanhar tudo quanto vê em volta de si. Sabe ver, que é o essencial. D'ahi o colher a expressão da Impressão. Mas a Impressão escolhida, não da natureza selvagem, mas sim da natureza civilizada e culta.
Julio Costa é um civilizado! É um delicado! É um
raffiné
(desculpem o francez).
E é esse effeito de
raffinerie
e essa predilecção pela impressão escolhida que elle transporta aos seus retratos.
Elle conhece bem o indefinivel e delicado interesse que se desprende das linhas d'um rosto.
Elle sabe que nada é tão impressionante, para nós que contemplamos os quadros, como essas figuras immoveis e mortas... mas que estão vivas!...
E os seus retratados vivem nos seus retratos.
Em uma palavra, Julio Costa não pinta
um retrato
do seu modelo... pinta
o retrato
.
Cada uma das nossas sensações, das nossas emoções, dos nossos sentimentos, cada um dos nossos desejos, das nossas esperanças, dos nossos pensamentos secretos altera constantemente a nossa physionomia.
A cada minuto, a cada segundo, qualquer de nós se transforma, e deixamos de ser então semelhantes a nós mesmos. Mas, Julio Costa sabe discernir n'essas fugitivas transformações aquelle
momento
, que é sempre da nossa figura, sabe fixar na mobilidade imperceptivel das linhas d'uma physionomia o seu aspecto caracteristico. Sabe reunir n'um gesto a multiplicidade das nossas attitudes.
E é por isso que Julio Costa, ao pintar o retrato, tem uma grande preponderancia sobre outros artistas.
Demais a mais elle possue o que falta a muitos outros, uma bella correcção no desenho.
Que o desenho não é só como muita gente pensa o esqueleto da pintura.
Não, o desenho é uma parte integral d'ella, o desenho é a propria pintura.
Já um celebre pintor francez, cujo nome não recordo agora, dizia dos seus desenhos―
A côr dos meus desenhos
... como se o desenho não fora unicamente uma apresentação do claro escuro.
Mas é que a pintura sem um bom desenho, onde se definam os tons e meios tons, onde se delineem as distancias e as perspectivas, seria uma coisa chata, sem vida, sem relevo.
O Soler architecto, esse bello rapaz cheio de talento que a Morte avidamente nos levou ha um bom par d'annos, dizia-me uma tarde em que me fazia uma prelecção sobre as vantagens do desenho:―«Olhe, se você quizer um bom quadro desenhe-o primeiro em todas as suas minudencias, com todos os seus effeitos de perspectiva, com todos os seus claro-escuros e, depois, a esmo, cubra isso com as tintas d'uma paleta e terá um bom quadro. Olhe que n'isto de pintura o desenho é tudo».
E de facto assim é: para se poder pintar bem o que é preciso primeiro é saber desenhar. E Julio Costa sabe desenhar. D'ahi o elle dar aos seus trabalhos uma corecção distincta.
Mas, Julio Costa não é só notavel no retrato. Julio Costa é-o tambem em outros generos de pintura. No assumpto religioso deu este artista provas indiscutiveis das suas aptidões.
O
Calvario
, que elle pintou para a egreja do Bomfim, é o melhor attestado do seu
savoir faire
. D'essa obra prima, que veiu abrir uma polemica entre um critico da
Palavra
e o conego Alves Mendes, dizia este ultimo no seu opusculo―
A
O Calvario―julio costa

crucificação de Jesus:―Outros quadros de egual natureza adoecem de monotonia e languidez. Este não. É tal a firmeza do desenho, tal a riqueza das tintas, tal e tanta a genial inspiração artistica, que a gente admira irresistivelmente e applaude enthusiasticamente esta magistral pintura de Julio Costa
.
Que melhor e mais auctorisada opinião que a d'este
pintor
da oração, este artista genial da palavra, que desenha com o seu verbo inexgotavel os mais fulgurantes e mais flagrantes quadros? Como consagração a um artista não as tenho visto melhores nem mais perfeitas.
Quando Julio Costa se entretem a fazer o quadro de genero, tambem, n'esses momentos, não deixa o seu nome em má posição. Ahi, como nos outros trabalhos, elle sabe dar aos seus typos e aos seus assumptos o quer que seja de suggestivo, de impressionante.
Não é cousa simples enumerar a sua obra, porque ella não é uma insignificancia.
No entretanto, como é do meu desejo levar o mais longe possivel a resenha dos seus trabalhos, ahi vae o titulo d'alguns d'elles, que mais se notabilisaram nas exposições onde teem apparecido.
Em primeiro logar colloco eu o
No Vago
, uma pastoral
A Ti Anna―julio costa

de côr, como lhe chamou Oliveira Alvarenga. Era uma larga tela que resumia um delicado poema d'amor. Em plena primavera, sob a luz do lindo sol, uma moçoila trigueira e forte, de seios proeminentes, encostada a um pedaço de terreno alto e florido, sonha n'um vago presentimento triste. Ia para os trabalhos do campo, levava a sua foice, o seu cesto vindimeiro, o seu chapeu de palha; marcára ao namorado uma entrevista, na esperança d'um doce idyllio, mas o tempo passa, o namorado não vem, e ella, na sobrexcitação do seu amor e do seu ciume, vae desfolhando malmequeres que ora lhe dizem
sim
, ora lhe dizem
não
, e, por ultimo, como que adormece n'uma febre d'amor, olhos semi-cerrados, com o pensamento esvoaçando no
vago
... Eis o quadro, que figura lá fora, em Berlim, para onde foi vendido.
Não esquecerei a
Romeira
, uma fresca rapariga que, em descantes alegres, parte para a romaria.
E uma
Cabeça de estudo
, que appareceu na exposição de Arte de 1894, uma linda cabeça de rapariga de olhos vivos, labios de coral e com o seu lenço de xadrez multicor, que é um encanto!
O
retrato do Quinsinho Souto Mayor
, é um estudo de creança finamente trabalhado com o seu vestidinho de velludo, onde assenta uma romeira de renda, tão bellamente pintada, que dava a perfeita illusão de que eram rendas que alli estavam collocadas sobre a tela.
O
Vencido
, que é um bom trabalho tambem, consiste em um rapazito que, após uma refrega com outros, sae com um braço deslocado; que suavidade de côr, que tristeza nos olhos humidos!
O
retrato da Ti Anna
, essa velhita encarquilhada que, no fundo do seu casebre, junto da lareira, vai fiando a loira estriga a pensar no tempo lindo que passou, quando era rapariga e cantava ao desafio nas esfolhadas e nas espadeladas, é soberbo. Hoje, a pobre velha canta as tristes canções com que embala os netos, e fia o linho com que veste os filhos, que outras, que são novas, vão espadelando a rir e a cantar. E tudo isto se traduz n'aquelle quadro, e todo este romance se vê alli representado n'uma sentida impressão e n'uma ideal concepção.
O
Costume dos arredores do Porto
, é tambem um lindo quadro―uma cabecita de rapariga do campo cheia de vida e de frescura.
E a
Mimalha
e a
Varanda dos Mangericos
e mil outros trabalhos d'elle?...
Ah! mas vae muito longo este artigo e o leitor não tem obrigação nenhuma de estar infinitamente a ler-me; por isso, ponto.
Julio Costa é para mim um pintor que sabe muito da sua arte, digam lá o que disserem, e se, dentro da sua modestia, não gostar do que eu agora digo d'elle que me perdoe porque eu só sei dizer o que penso, e isso muito rudemente ainda.
III PINTORES PORTUENSES
ANTONIO CARNEIRO JUNIOR
Conhecendo Carneiro Junior ha muito, por ter tido já occasião de apreciar os seus trabalhos em outras exposições, corri, apressadamente, incumbido por a redacção da
Vida Moderna
, a vêr a nova exposição dos seus ultimos
Antonio Carneiro Junior

trabalhos, com o grande interesse de conhecer o progresso e o desenvolvimento artistico d'este bello cultor da arte da pintura.
E, francamente o confesso, as minhas espectativas confirmaram-se. Carneiro Junior, que era um dos novos que mais promettia, obteve, com o seu estudo no estrangeiro, a verdadeira comprehensão da arte de pintar, affirmando-o desde já com os magnificos trabalhos expostos no atrio da Misericordia.
Pintando em todos os generos, como elle mais se avigora, e mais demonstra o seu talento é, a meu vêr, como pintor de figuras.
A paisagem e a marinha não são o genero que mais o tentam, o que não quer dizer que não tenha paisagens adoraveis e marinhas deliciosas.
É preciso porém notar-se que, quem escreve estas linhas, é um mero amador que vem simples e unicamente dar a resenha dos quadros expostos e a sua impressão pessoal, dizendo simplesmente gosto ou não gosto, sem me prender nunca em considerações sabias sobre o modo de pintar de cada um. Não citarei escolas hollandezas, flamengas, etc., etc. com ares sabios de critico emerito.
E não o farei, porque entendo que para se escreverem artigos substanciosos e chorudos sobre tal assumpto é necessario, antes de mais nada, ter visto alguma coisa d'essas escolas e d'essa pintura, acompanhado isso da leitura de livros da especialidade.
E, vulgarmente, não succede assim. Muitos dos nossos criticos conhecem esses quadros e essas escolas porque algum amigo, vindo lá de fóra, lhes trouxe, como recordação, catalogos dos muzeus que viu por lá, e é por ahi que elles fazem, a maior parte das vezes, critica. Ora eu, como nunca vi muzeus,
Retrato―antonio carneiro

nem tenho lido livros sobre pintura, não faço critica, faço a minha reportagem, deixem-me assim dizer. E posto isto, lá vae a impressão pessoal que me ficou d'alguns dos trabalhos de Carneiro Junior. E elle que me perdôe se não gostar.
Em primeiro logar, se bem que não sejam estes os principaes trabalhos, ponho eu os desenhos a sanguinea―-que figuram no catalogo com os n.
os
27 e 28,
Figuras para a fonte do Bem
; 10,
Estudo para o quadro do Amor
; 6,
Estudo para a figura Esperança
; 25,
Estudo de creança para a fonte do Bem
.
Os retratos do
Marcos Guedes
, n.º 43; do
dr. Alfredo de Magalhães
, 34; do
Antonio Patricio
(filho), 32; de
J. Teixeira Lopes
, 36; do
Claudio
, 40; e os dous retratos de
R. C
., 37 e 38, são magnificos.
Em todos elles ha um tom de vida e muito de alma, especialmente nos dois ultimos, em que o artista põe todo o seu sentimento de amor.
O quadro
Tarde no mar
, n.º 56, é delicioso; como que se sente, ao olhal-o, aquella cadencia ou melopeia que o grande mar sabe cantar quando suavemente beija a areia fina da praia.
Campo de trigo
, n.º 77; em
Auvay
, impressão de frente, 89; impressão, (
Bretanha
), 71; em
Leça
, impressão, 68; o
Tamega
, (Amarante), 67; o
Sena em Auteil
, 62;
Pinheiros ao cahir da tarde
, 57; ...são, para mim, sentidissimas paisagens onde a nossa vista se perde e o nosso espirito se embrenha como em paginas brilhantes da
Viagem da minha terra
, de Garrett.
Ha alli tambem um quadro,
Leitura
, de que muito gostei. N'um interior de casa escura, á luz de um candieiro, tres mulheres, uma das quaes lê. É admiravel não só de execução, como de composição.
O esboço do quadro
Fonte do Bem
é apreciavel e bem desejariamos vêr o quadro definitivo.
E, antes de terminar, deixe-me Carneiro Junior dizer-lhe que o seu triptyco, é, para o meu fraco entender, um d'estes geniaes poemas que só os grandes artistas sabem conceber. Emquanto á sua execução acho-a primorosa.
A Esperança
, deliciosa virgem estudada e delineada com toda a pujança d'um bello espirito;―
O Amor
―assombroso de execução; ha n'aquelle cavalleiro todo em aço vestido, a virilidade d'um cavalleiro andante;
A Chimera
, fundamente abstracta, na sua côr doentia e na sua expressão de verdadeira Fatalidade olha o quer que seja de horrivel, guiando o fogosissimo cavallo em que monta o cavalleiro;―
Saudade
―na base d'uma sphinge sonha uma mulher, toda de negro vestida. Quanta doçura n'aquella expressão de tristeza! Como o pintor soube dar áquella delicada mulher a nota melancolica do que é na realidade a saudade! Este quadro seria bastante, para definir o grande talento do artista e o seu temperamento subtil de poeta.
Que o artista me perdoe se não disse tanto quanto merecia a sua obra e acceite o parabem sincero de quem só diz o que sente.
Março 1901.
IV Thadeu Maria d'Almeida Furtado
palavras ditas á beira da campa do fallecido professor
Não é, o que vou dizer, uma biographia, nem um necrologio; representam simplesmente estas despretenciosas palavras como que um
Thadeu Maria d'Almeida Furtado

punhado de saudades espersas sobre a campa, ainda mal fechada, do illustre morto.
Conhecendo-o desde ha muito, tive sempre por elle uma d'essas venerações respeitosas de consideração e amisade, que se tem por aquelles que vivem sempre de cabeça levantada e aos quaes não podem attingir nunca as settas envenenadas da má vontade e da calumnia. E é por isso que hoje não posso deixar de vir dizer aqui algumas palavras a respeito de quem, sempre se fez querido de todos quantos, uma vez só que fosse, d'elle se aproximaram.
Thadeu Furtado foi um dos mais antigos professores de desenho do Porto e dos de mais nomeada; cumpridor dos seus deveres, como poucos, recto nas suas apreciações, como ninguem, quantas vezes fez elle rebentar essas bolhas de balofa vaidade, com que muitos mediocres se julgavam notabilidades, e a quem o publico inculto tecia os mais rasgados elogios; mas, sincero como era, nunca se pejava de dizer as verdades por mais duras que ellas fossem.
Trabalhador incançavel, até ao ultimo dia, em que um desastroso acontecimento o impossibilitou, foi regularmente occupar o seu logar na Academia, onde hoje era secretario e onde em outros tempos fôra professor sapiente.
E inegavelmente é a este trabalhador indefeso, a este morto illustre, que se devem os melhoramentos ultimamente feitos n'aquella casa de ensino artistico.
Quantas e quantas vezes, reclamados esses melhoramentos ao governo, foram elles lançados no rol dos esquecimentos, rol lendario, onde são archivadas todas as cousas uteis do nosso querido Portugal. Mas, Thadeu Furtado, com a sua vontade de ferro, ao saber no Porto o conselheiro Elvino de Brito, então Ministro das Obras Publicas e antigo discipulo da Academia das Bellas Artes do Porto, a elle foi e depois de lhe mostrar, provando de
visu
a necessidade urgente d'aquelles melhoramentos, conseguiu o que até ali ninguem tinha conseguido. E é portanto a este querido morto que se deve o ser hoje a Academia de Bellas Artes, senão um modelo de escolas para o seu genero, pelo menos um estabelecimento que não nos envergonhará quando mostrado a estrangeiros profissionaes.
E, doa a quem doer esta minha affirmação, mas Thadeu Furtado vae fazer muita falta á nossa Academia.
Como professor foi sempre correctissimo, muito sabido no seu
métier
, e a prova d'isso está, em que, todos os nossos grandes pintores de ha sessenta annos para cá, foram todos seus discipulos e todos teem manifestado esta mesma opinião.
Não fui seu discipulo, mas fui seu amigo e é unicamente como tal que venho aqui depôr tambem a minha eterna saudade, que é tão grande, como foi a minha consideração e a minha amisade.
E, para terminar esta minha sincera e triste despedida, consenti, meus senhores, que vos manifeste tambem aqui um grande desejo:―Como todos bem o deveis comprehender, uma divida tem a Academia a pagar ao seu respeitavel professor e ao seu incançavel secretario; e essa divida só poderá ser paga perpetuando-lhe a memoria com um monumento digno d'elle. Grato me seria, portanto, saber que os alumnos da Academia de Bellas Artes, reunidos aos professores, lançaram mão da ideia de que seja collocado o busto de Thadeu Furtado nos claustros da mesma Academia.
E, para realisar tal ideia, não terão mais do que fazer fundir em bronze um busto, que a familia do fallecido possue, feito, salvo erro, pelo brilhante estatuario Teixeira Lopes. E assim, como preito de homenagem ao professor morto, ficará ligado ao seu nome o nome d'um professor vivo que é inegavelmente a primeira gloria da esculptura portugueza.―Disse.
Março 1901.
Lenço em rendas―d. maria augusta bordallo pinheiro

V PINTORES PORTUENSES
ARTHUR LOUREIRO
Arthur Loureiro, esse grande artista que durante
Arthur Loureiro no seu atelier

tantos annos viveu longe de nós, n'esse bello paiz, a Australia, e que uma vez cá, filho do Porto, amando o seu ninho com um amor especial de artista, apoz a sua primeira exposição onde nos mostrou que era um delicado pintor de figura, com os seus retratos, e os seus typos admiravelmente executados, vae para bem perto do Porto, para Villa do Conde e cheio de vontade e repleto de
savoir faire
, lança á tela lindos quadros que são como filigranas da arte pintural.
Antes porém de atacar o assumpto que nos obriga a tomar da penna e rabiscar estas linhas permittam-se-nos algumas phrases ligeiras de introito.
Ao entrarmos no atelier de Arthur Loureiro, decorado com uma distincta simplicidade, tem-se a suave impressão que o artista que ali trabalha é um bom e um delicado. Confortavel e amigo, aquelle atelier sem pretenção a luxo, todo elle resuma elegancia e bom gosto. Sem estofos custosos, meros cobrejões de farrapos, em tons escuros, biombos simples de couro lizo, moveis de linhas correctas desenhados por o proprio artista e executados sob a sua direcção, é d'um effeito soberbo! O indifferente, que ao acaso ali vá, tem com certeza a impressão de que entrou na casa d'um amigo.
Barra, Foz-Douro―arthur loureiro

D'entre os moveis, que guarnecem o atelier, destaca-se um largo divan-estante com as costas pintadas a sepia, que nos dá a impressão de uma pirogravura.
Mas não vamos occupar-nos do atelier, vamos unica e exclusivamente fazer uma resenha despretenciosa e sincera dos quadros expostos e do effeito que nos deu a visita á exposição aberta agora ao publico.
Arthur Loureiro não é somente um pintor. É mais do que isso, é um esculptor consummado. O caixilho para espelho, o do quadro
Convalescente
, e um outro onde se ostenta o seu retrato aguarellado por Columbano, são bellos.
Mas, o que me encanta, o que me fascina, é o frontal para uma arca, onde se guardará o enxoval d'um filho querido. Este frontal, desenhado e executado por Arthur Loureiro, é como que uma symphonia d'amor, sob o thema sublime do martyrio da maternidade.
Frontal d'uma arca (esculptura)―arthur loureiro

Sem minudencias de descripção, sempre diremos que a bordadura que cerca a figura da mãe tendo no regaço o filhito querido, é feita com flores de martyrios em todas as suas evoluções, desde o pequenino botão até á flor completamente aberta e em todo o seu frescor. Flores, folhagem e figuras soberbamente executadas.
E agora, posto isto, entremos pela pintura dentro.
Não somos do
métier
, nem aspiramos a critico de arte; mero amador, vendo talvez um pouco bem, sentindo a dentro da alma qualquer coisa de meigo, por uma paisagem triste, e qualquer coisa de vibrante em frente d'um retalho da natureza, que o sol banha luxuriantemente.
Amando os quadros pela poesia que infundem, subjugado pela impressão, que nos deixa qualquer cousa que nos agrada.
Eis o modo como vemos as obras d'arte, quer ellas sejam d'um novo, quer ellas sejam d'um mestre. E por isso a despreoccupação do meu modo de escrever. Pondo em evidencia ás vezes quadros d'um valor mediocre e deixando no escuro verdadeiras obras de arte. Que nos perdoem os artistas essas faltas e vamos á exposição de Arthur Loureiro que foi o que aqui nos trouxe.
Fallarei d'esses quadros pintados em Villa do Conde, antes porém deve ter especial menção o largo quadro da nossa barra, pintado n'um pôr de sol irisado, cheio de poesia, com tons d'ouro que se reflectem na agua superiormente. É um quadro este, de si bastante notavel para definir o artista.
E agora, que puz em evidencia o quadro que
O Passado―arthur loureiro

para mim se affigura mais notavel, vou dizer da minha impressão dos outros quadros expostos.
Um grande ramo de lilaz, que parece espalhar no ambiente o seu perfume doce e meigo, está feito com tanta frescura e tal graça, que nos tenta a cortar um pequenino ramo para a nossa botoeira.
As bellas rosas escuras, d'um avelludado meigo e fino, como que tentam na sua confecção a uma offerta gentil para a nossa namorada.
São pedaços vivos de natureza, lançados á tela, com proficiencia e carinho.
Um cãosito
mops
com o seu focinho birrento e negro e o seu pello amarellado dá-nos, a mim pelo menos (que eu sou doido por cães), vontade de o ameigar, de o chamar carinhosamente e roubal-o ao artista. Collocado á entrada, talvez por acaso, é como que um fiel guarda d'aquelle encanto de atelier. Este quadro está feito com cuidado, o que me dá a entender, que o artista segue a theoria d'um escriptor celebre que dizia:
―Quanto mais conheço os homens, mais amigo sou dos cães.
Andam os nossos pintores delineando paisagens, por esse paiz em fóra e nenhum, que me lembre, tinha ido pintar para Villa do Conde. Talvez porque julgassem não haver alli nada que pintar e Arthur Loureiro, que ha vinte annos estava fóra do seu paiz, chegou e para socegar dos seus trabalhos escolares foi para essa linda praia descançar e que descanço o seu, voltou trazendo na sua bagagem deliciosas telas, formosissimas. Querer citar as melhores seria cital-as todas, eu porém notarei como primordial―
A Senhora da Guia
―depois, as
Azenhas
e d'estas não sei se o que resplende de sol, se o outro, feito por uma manhã triste de chuva.
Não voltará mais―Arthur Loureiro

A
Igreja matriz
, tambem o noto pelo bello do effeito. Como uma mancha retumbante, n'aquella suavidade de côr, os reposteiros da igreja fazem resaltar o quadro (ora aqui está onde eu decerto dou raia, em ter recebido uma bella impressão pelo vermelho que destaca do quadro, mas sou assim e não ha nada que me atrapalhe).
A
Paisagem geral de Villa do Conde
, com o seu convento e a sua cazaria branca é formosa.
O Passado
, quadro cheio de poesia e de candura. Como um poema, de amor, de dôr e de miseria aquella velha sentada á porta da igreja, onde talvez ella se baptisara, casára e seria enterrado o seu companheiro de muitos annos, talvez um pescador, que ella hoje chora, pedindo esmola, na sua miseravel e angustiosa viuvez.
Mas vamos fechar este artigo que vae já longo de mais. Antes porém notaremos dous quadros, um que se intitula―
Não voltará mais
, e que é outro poema de dôr. Junto d'uma bella arvore em flor, um redondendro, uma viuva e uma creança olham o mar.
Esse mar gigantesco e barbaro que foi, decerto, quem subjugou para sempre o ente querido d'essas duas figuras insinuantemente bellas nas suas
silhouetes
.
O Convalescente
é um retrato primoroso do nosso amigo dr. Francisco Loureiro, irmão do distincto artista.
É um trabalho feito com muito amor e muito saber. Flagrante de verdade e correctissimo de desenho. É um bello retrato.
Que me perdoe o artista esta prosa desenchabida e vulgar, mas, mais não póde dar a minha pena. No entanto ha-de ver o publico que eu não quiz fazer o réclame do pintor nem a apologia do homem, fiz unica e exclusivamente a resenha rapida e sincera do trabalho correcto d'um poeta lyrico da pintura que entre nós vem, se não, fazer uma revolução na arte, dar no entanto a nota brilhante, do que deve ser o paisagista portuguez; pintar a nossa paisagem, sem tons exoticos de côr trazidos dos paizes estrangeiros. Porque Portugal com o seu ceu e os seus verdes não póde ser pintado com as cores das paisagens bretãs.
E mais nada.
Outubro 1902.
Na Eira―lucilia aranha

VI ESCULPTORES PORTUENSES
FERNANDES DE SÁ
Uma das manifestações mais vivas da arte é a esculptura. Esculpir em marmore ou em bronze a figura de um individuo, é, como que, deixal-o por toda a vastidão dos seculos á admiração, ao respeito ou á saudade dos seus concidadãos ou dos seus amigos.
Fernandes de Sá

É a nota constantemente vibrante de uma individualidade. Mais duradoura do que a pintura, é ella que, arrostando nos logares publicos com a intemperie dos tempos, mostra aos que passam um capitulo da historia dos povos, um acto de alta philantropia, ou a saudosa recordação d'um ente querido que a morte nos roubou.
E não é só isso; empolgando o nosso espirito, dá a concepção perfeita d'uma ideia genial que o artista quiz vivificar, dando á dura e informe pedra ou ao frio bronze a pulsatibilidade da natureza viva.
A esculptura, na sua larga e educativa esphera, desde o poema grandioso da patria, nos heroes que faz reviver, até aos santos, que a religião faz venerar nos altares, com a larga escala de mil variadas manifestações, é uma das mais difficeis, se não a mais difficil de todas as manifestações artisticas.
E d'ahi o insignificante quociente de esculptores, em relação aos pintores.
E, todo este preambulo para vos dizer, que visitei hontem a exposição de esculptura, que o notavel estatuario Fernandes de Sá abriu no seu gracioso
atelier
da rua de Alvares Cabral, d'esta cidade.
Este moço esculptor, cujo nome não é já uma esperança, mas sim uma affirmação segura, dá-nos, com a exposição dos seus trabalhos feitos aqui e em Paris, a demonstração mais definida e assente, de que é um d'aquelles artistas que mais futuro teem, dentro da sua especialidade.
Não o queremos collocar a par do grande, do genial Soares dos Reis, mas pomol-o aproximadamente no mesmo plano de Teixeira Lopes; depois, elle é novo e tem uma vontade de ferro;
Desafio―fernandes de sá

ora estes dois bellos elementos, a mocidade e a energia, juntos ao seu grande talento e ao seu muito saber, dão-nos a garantia de que elle ha de fulgurar, como um astro de primeira grandeza, na sublime arte de Milo.
Fernandes de Sá, a continuar assim, não ha-de ser notavel só entre nós, ha-de sel-o tambem lá fóra, no estrangeiro. E bom será que assim succeda, para que no mundo civilisado se faça a verdadeira justiça aos nossos artistas e se não pense que isto aqui é uma terra de selvagens.
Mas, deixemos estas divagações e entremos no assumpto que me proponho expôr: Notar as obras que Fernandes de Sá expõe, e isto ao de leve, como quem quer e não póde, por falta de elementos, embrenhar-se em philosophicos problemas d'arte.
Dezoito são os trabalhos expostos, qual d'elles o mais empolgante, qual o mais bem executado.
Camões (estatua em marmore de Carrara)―fernandes de sá

Desde o largo trabalho―
Camões
―até á pequenina cabecita da galante―
Bébé
―todos elles são soberbos e dignos de especial menção.
Camões
, estatua em marmore de Carrara, destinada ao Museu de Artilheria de Lisboa. Após o naufragio, o grande epico portuguez salva, n'um heroico esforço, a sua espada e o seu poema―eis o assumpto representado por esta bella estatua. N'uma attitude de desesperada ancia, o corpo fidalgo de Camões, sobre uma rocha, a mão direita crispada agarrando-se a uma saliencia da penedia, na esquerda a espada e o poema sobre o coração, parece escorregar, resvalando na voragem da onda, que n'um desespero revoltoso se quebra de encontro áquella molle de marmore. Sublime de concepção. Na figura elegante e adelgaçada de Camões ha linhas d'uma senhoril fidalguia.
Tratado aquelle marmore com o encanto e o amor d'um verdadeiro portuguez, o esculptor não perdeu uma minudencia, por mais pequena que fosse. Tudo estudado com perfeita segurança, com verdadeira mestria, desde a musculatura reteza e vigorosa d'um desesperado em lucta com o mar, até ao desalinho da roupagem, tudo elle viu, tudo elle estudou conscienciosamente. E, fugindo da vulgaridade das concepções sobre este thema, Fernandes de Sá realisou―segundo o nosso modo de vêr―uma obra genial.
Rapto de Ganimedes
, é um grupo em gesso, que vós já conheceis de quando esteve ahi exposto na Exposição da Sociedade de Bellas-Artes, onde mereceu a segunda medalha, tendo já adquirido a terceira medalha na exposição de Paris de 1900.
Beijo Materno
, (grupo em gesso). Verdadeiro poema de amor maternal. Uma linda mulher, deliciosamente esculpida, sustendo no collo um formoso
bébé
, que ella beija n'uma subtil ancia de ternura. Foi este o seu trabalho final para o concurso de esculptura em Paris, como pensionista do Estado. É um encanto.
Vaga
. Este gesso é d'uma bella idealisação. Uma formosa mulher, completamente nua, de linhas primorosas, pousa sobrenadando nas ondas revoltas d'um profundo mar e reclina-se docemente, como adormecida ao marulhar da agua. Ao contemplal-a deu-nos o coração um baque e confrontando na mente a mnemonica de quadros vistos, lembrámo-nos d'um, que nos pareceu a reproducção em pintura d'aquelle soberbo trabalho, e no nosso espirito ficou como que um espinho a esse respeito. Alguem, mal intencionado, poderia dizer que José de Brito tinha ido alli beber a sua inspiração e o modelo para o seu quadro
A Vaga
. Nós não nos abalançamos a tanto, nem isso queremos pensar sequer, porque José de Brito é um grande pintor...
Beijo materno (grupo em gesso)―fernandes de sá

Dois bustos
, em marmore que são a reproducção exacta das pessoas que representam.
O
retrato do dr. Correia de Barros
, é um trabalho bem feito, cheio de verdade e de vida.
Ha tambem uma
Cabeça de velha
, que é primorosa.
No
Pobre
(bronze dourado) e no
Desafio
(bronze) ha flagrancias de expressão, detalhes minuciosos de execução, que revelam o cinzel subtil, consciencioso e correcto de quem os executou.
Ah! Mas, onde se revela o coração delicado e a alma poetica do moço esculptor, é no grupo
Irmãs
. Que soberba obra! Com que carinho, com que amisade não foi executado aquelle gesso!
Vê-se que o artista poz alli toda a sua alma de moço e de moço apaixonado. Aquellas duas raparigas, d'um olhar meigo e terno, que o estatuario delineava, com certeza emquanto elle trabalhava cobriam-no com os seus doces olhares n'uma caricia amiga de irmãs. Alli poz elle toda a sua alma lyrica, como no
Camões
, poz toda a alma patriotica.
Ha tambem uma
Cabeça de velha
(bronze dourado), muito bem feita.
Notavel tambem um
Estudo em barro
, coberto com
patine
verde que lhe dá um tom de novidade. O assumpto é uma cabeça de mulher do povo, com o seu lenço. Nas linhas de aquelle rosto ha muita verdade, e um tal ar de languidez, que logo se nota que dentro da alma do modelo havia um certo quê de pena ou de saudade.
E tudo isto é lindo e tudo isto é bello, não esquecendo fallar nas cabecitas de creanças que lá vimos. Deixei para o fim isto, porque tendo eu uma predilecção especial por creanças, comprazia-me todo em ser n'ellas que fallasse por ultimo.
São quatro estes trabalhos:
Cabeça de creança
,
Bébé
,
Beija-flor
,
Estudo de creança
.
Que encantadores! Com que amor elle não esculpiu no frio marmore aquellas quatro perolas, aquellas deliciosas creanças, que são mesmo um primor!
Uma vez, n'uma exposição que Teixeira Lopes fez no pateo da Bolsa, havia lá um
bébé
, o retrato d'um sobrinho d'elle, e eu, estando alli só, não me furtei ao desejo de o beijar e beijei-o, tal era o seu encanto.
Pois quando visitei a exposição de Fernandes de Sá, se lá me visse só, posso affirmal-o, beijava todas essas creanças n'uma infinita alegria, porque as julgava vivas. São realmente uns delicados e subtis bustos, que me deslumbraram.
E eis em meia duzia de linhas a noticia da visita que fiz, por uma linda manhã, ao atelier de Fernandes de Sá, onde a luz forte do sol, coada atravez dos brancos transparentes, n'uma doçura meiga, fazia resaltar os marmores esculpidos, como n'uma luminosa penumbra de sonho.
E permitta o moço esculptor, que tão gentilmente nos recebeu, e com tanta modestia nos apresentou os seus gloriosos trabalhos, que lhe digamos que o seu talento lhe dá direito a mais um pouco de orgulho, e não a querer deixar-se
ficar
na modestissima sombra dos que pouco valem. O seu nome e a sua obra, repito, não são uma esperança, não; são uma affirmação segura de que elle é um dos primeiros estatuarios portuguezes.
Outubro 1902.
Busto (Antonio Cano)―fernandes de sá

VII Exposição da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa
carta a um redactor do "correio da noite"
Não me conhece, nem isso é necessario, para o que eu lhe quero confiar. Não é um segredo e, portanto, se achar interessante o que lhe vou dizer, conte-o ao publico, a esse publico despreoccupado, que lê as gazetas, não para se instruir, mas para ver se o seu nome figura no
Carnet Mondain
,
El-rei

ou se alguma cousa má succedeu aos seus conhecidos para ter o pretexto de os consolar nas suas amarguras e nas suas desditas.
Conte-lhe o que lhe vou dizer e estou convencido, que isso lhe será agradavel, porque eu, com o meu genio desinteressado e independente, dou abertamente, picadelas em quem as merece, levantando ao ar em apotheoses de gloria, tambem, aquelles que a ella teem direito, segundo o meu modo de ver.
Sou sincero, apenas; nunca me embrenhei nos escaninhos da politica e, por isso, não conheço a intriga; nunca calquei os tapetes dos palacios dos nobres e da aristocracia e, por isso, não conheço a bajulação; não me tenho accorrentado ao jornalismo militante e, por isso, não conheço as conveniencias de redacção. Sou, ainda, mais independente do que o chefe do partido novo, que não quer para seus soldados senão os que estão isentos do peccado politico. Sou, emfim, como os homens do norte; duro como um sobreiro, ingenuo como uma creança... de bigode, sincero como um convicto e delicado como uma dama.
Paisagem (pastel)―El-rei

E feita a minha apresentação, ahi vae o que eu lhe queria dizer.
Fui, levado por intensa curiosidade, visitar a exposição da sociedade Nacional de Bellas-Artes e dei o meu tempo por muito bem empregado. E dei por bem empregadas as tres horas que lá passei, porque morro por coisas d'arte.
A Arte, a grande Arte, cuja definição perfeita, para mim, é um mytho, atrae-me como uma feiticeira deslumbrante e maravilhosa. Mas a Arte pinctural e esculptural, essa, extasia-me e não é para extranhar o vêr-me parado em frente
Cabeça de estudo―ernesto condeixa

d'um bom quadro ou d'uma bella esculptura, tal qual como em frente d'uma mulher formosa. Mas, deixemos estas divagações e entremos no assumpto da minha carta. Demais, que lhe importa a si que eu goste ou desgoste, se o meu caro nem sequer me conhece de nome. Antes, porém, de continuar, ou por outra, de começar, desculpe esta franqueza: as aguas de Lisboa são más e pozeram-me o figado n'um pessimo estado, o que deu em resultado eu ter tido um ligeiro extravasamento de bilis, que pode ser se manifeste, ainda que ao de leve, no decorrer desta minha despretenciosa carta.
Uf!... que começo a massar, não acha? Mas que quer, eu sou assim, o mal é dar-me corda, hão-de aturar-me depois. E posto isto, lá vae.
Fui vêr a exposição e fui sem a preoccupação de critico d'arte, unica e exclusivamente como amador, como
dilletanti
, e como tal é que escrevo. Que me perdôem os
artistas
, se nada fôr, a minha apreciação aos seus trabalhos, que me tolerem os
criticos de arte
se a minha incompetente opinião brigar com as regras do
metier
, e que se ria o
publico
se não gostar da minha prosa e o meu caro redactor se entender que a pimenta é forte, ou o guizado está mal condimentado, já sabe o que tem a fazer, é, cesto dos papeis inuteis com elle.
Barbeiro d'Aldeia―josé malhoa

Começarei tal qual como indica o catalogo, apreciando, sob a impressão perfeitamente pessoal d'um provinciano, os trabalhos expostos, pela sua ordem numerica.
Primeiro estão os de S. M. Este artista-amador está lá tão alto que nada poderei dizer dos seus trabalhos. Unicamente o que me agradou mais foi o
No Sado―processo Raffaelli
, se bem que já tive occasião de vêr trabalhos de muito maior valo, se bem que já tive occasião de vêr trabalhos de muito maior valor executados pelo mesmo monarcha, que é inegavelmente um artista de temperamento definido.
E agora sem respeito nem consideração pelos artistas e quiçá amadores, que eu não conheço, ahi vae a minha opinião sincera.
QUADROS A OLEO
D. Bertha Alcantara, n.
os
1 a 4―
Natureza morta e flores
―Natureza morta e tão morta que dá vontade de... decorar uma cosinha com ella.―Amores perfeitos, imperfeitos.―Um agrupamento de lyrios e mimosas, os lyrios bastante densos, n'um demasiado ajuntamento, que parece esmagarem-se uns aos outros.
D. Luisa Almedina, n.º 5―Uns cravos sem cheiro, desconsolados...
Almeida e Silva, n.
os
6 a 15. Pinturas varias, assaz recortadas e lambidas, com ar pretencioso de oleographias caras; este artista parece andar para traz, quem pintou
Paisagem―Marques d'Oliveira

O Viatico na aldeia
,
Um critico d'arte
,
Cabeça de cabrito
, (que eu possuo) tinha obrigação de se apresentar melhor.
Tem n'esta exposição um quadro―
O abat-jour japonez
, que é verdadeiramente uma japonesice de caixa de chá.
No entanto recommenda-se o seu quadro―
Tarde calma de junho
, que está, a meu vêr, bem, e é o unico que se salva de todo aquelle montão de arte de recorte...
Condessa d'Alto Mearim, n.
os
17 a 19. Tem merecimento, e muito, esta amadora―
A Nossa Senhora do Refugio
, bem lançada de linhas, largas pinceladas dadas sem feminismo, talvez um pouco coquete, na expressão, para Nossa Senhora, no entanto um bello quadro. O n.º 17 parece-me estar trocado, pois não é crivel que s. ex.
a
pintasse um retrato de F. V. n'um velho em traje de fantasia; mas se o pintou, diremos que o trabalho é bom, a figura está bem estudada, boa carnação, boas roupagens, mãos bem trabalhadas, um bom quadro, emfim.
Mendiga―carlos reis

D. Maria Luiza Alto Mearim, n.
os
19 e 20, o
Five ó clock tea
é um bom quadro traçado amplamente, com boa luz e muita expressão da figura, talvez um pouco de branco a mais na cara da dama, que deve ser da primeira sociedade e que naturalmente usa muito pó de
veloutine
, e d'ahi o tal branco!...
Viscondessa de Ameiro, n.º 11.
Arvoredo
―eu chamar-lhe-ia―
Alvoredo
. Está lá muito no alto, tão alto, que se perde de vista. Lembra uma travessa de hortaliça picada para gallinhas.
D. Virginia Avellar, n.º 22.
Supplica
.―Uma deliciosa irmã da Caridade, estudada com carinho e amor, tal quanto merecia aquelle lindo rosto, que um bello sol banhava n'uma suavissima emoção de castidade e... affecto.
Merecia, a meu ver, uma menção honrosa, mas... foi para outros...
D. Laura Bandeira, n.º 23.
D. Ignez de Castro
, esguia e airosa, um pouco theatral, regularmente pintada. O galgo que a acompanha, parece feito de
grafite
, e se a D. Ignez continua, por muito tempo, com a mão esquerda n'aquella posição, acaba por cegar o pobre cachorro, pois a metter-lhe um dedo pelo olho dentro, aquillo dá pelo menos uma conjunctivite...
Leopoldo Battistini, n.
os
24 a 27―dois estudos de velhos, um d'elles passavel―o 25.
Avarento
, horrido de luz e de expressão, parece um
paranoíco
fugido ao tratamento do dr. Bombarda. O 27―
Barqueiros do Mondego
. Extraordinario. Parece incrivel que se podesse metter uma barcaça d'aquellas dentro d'um quadro de 1,26 por 1,87. Effeitos de luz,
detestaveis
. A mulher ou tem o peito em fogo ou quer dar a comer candeias de cebo ardendo, á pobre creança que parece ter ao collo.
D. Emilia A. S. Braga, n.
os
28 a 31―
A Maria de S. João
(28) é uma velhota com cara de boa pessoa, regularmente pintada; acho-lhe as mãos, o rosto e o cabello bem estudados e com boa côr.
A oração
(29)
Estudo
(30) são dois bons quadros, traçados com superior criterio, pincelados largamente, com soberbas expressões, luz boa, côr magnifica; no n.º 30 notamos ainda o bem executado do collo d'uma linda mulher.
José de Brito, n.º 32―
A Vaga
.―É já meu conhecido este quadro, d'um pintor portuense, que tem o seu nome ligado a obras de muito merecimento.
A Vaga
, na sua idéa symbolica não me agrada, mas na sua execução, como estudo do nú é superior e irreprehensivelmente feito; no bem trabalhado do desenho e no bem dado da côr, sente-se a curva avelludada e macia d'uma mulher nova e de carnes duras. É um bom quadro.
Marinha―joão vaz

Arthur A. Cardoso, n.
os
33 e 34―Dois retratos.―O n.º 33 bem feito; que para mim, desde que são retratos, o que eu quero é que elles se pareçam, quanto ao mais não me importa.
João Luiz Cardoso, n.
os
35 a 42―Especialidades em
Arredores
. Arredores de Aveiro e de Thomar. Notarei como dignos de menção o n.º 39, um bello poente, e os n.
os
40, 41, e 42, onde a luz é bella, distribuida com methodo e muita uniformidade.
Antonio Carneiro Junior, n.
os
43 a 45.―Este artista é um melancolico, um triste, e se nos quadros expostos o não mostra é que se limitou a expôr retratos. O que dizer d'esses retratos, quando o jury já disse tudo, dando ao seu quadro―n.º 43,
Retrato de Teixeira Lopes
―uma medalha. É innegavelmente um trabalho magnifico. O retrato n.º 45, de uma senhora, tambem é muito bom.
Bernardino Trindade Chagas, n.
os
46 e 47.―Uma paisagem e um retrato.―Ataca dois generos differentes com a mesma galhardia e o mesmo
savoir-faire
. O retrato teve uma menção honrosa.―A paisagem é boa: Uma mulher sobre um burrico, vae, n'um chouto doce, atravez um caminho de aldeia, para a capellinha, em Tavira. Boa luz, boa cor, destacando no tom amarello saibroso da estrada as figuritas, que o artista estudou com cuidado.
Jorge Collaço, n.
os
48 a 50.―Este artista é o collaborador artistico do
Seculo Illustrado
, julgo eu, e por isso preciso ter cuidado com elle para não ter o desgosto de succeder á minha despretenciosa critica o que succedeu ao monumento de Sousa Martins, feito pelo Queiroz Ribeiro. Por isso... fico calado... Mas não fico... ahi vae o que eu penso.
Na
Partida interrompida
, que teve a 2.ª medalha, acho-lhe o pé esquerdo, que está no plano anterior, um tanto mais delgado do que o pé direito, que está n'um 2.º plano, um pouco mais atraz e bastante cheio.
O
Nos campos de Arzilla
, é um largo quadro feito com todo o interesse e correcção de quem sabe tratar com pinceis. Uma bella tela cheia de cor e de um largo poder decorativo.
Guarda negra
. Talvez não fosse peor ter adelgaçado um pouco as mãos ao cavallo, que avulta no 1.º plano do quadro. Os cavallos arabes são, por via de regra, d'uma gracilidade especial de mãos, que caracterisa bem o seu genio nervoso e a ligeireza do seu galopar.
Ernesto Condeixa, n.
os
51 a 56.―Este é tambem um artista cuja reputação está feita. Pinta com muita consciencia, muita pratica e bastante saber. Notarei, para mim como melhor, o 52, em que ha um bello effeito de sol sobre a agua do mar. O 53, delicioso
Cantinho da praia de Paço d'Arcos
, e o 56, um soberbo poente nostalgico e poetico na
Ribeira de Algés
.
Candido da Cunha, n.
os
57 a 61.―Poeta sentimental da pintura, lança nos seus quadros as suas impressões com um sentimento desusado; não é o pintor do grande sol e da côr que retine como toques de clarim, não; repassa-os de uma uncção suavemente triste, que encanta. É inegavelmente um quadro de mestre o seu
Hora nostalgica
, 57. Os outros são pequenas manchas, feitas com muita correcção.
Vaga―josé de brito

Mademoiselle Helene Eisembard, n.
os
62 e 63.―
Portrait à huile
,
62
, regular, sem espantar.
Fleurs
, 63. Chrisantemos, uma chinesice a oleo, que se supporta... como chinesice.
Lizzie Escolme, n.
os
64 a 70.―Alguns quadros de flores e paisagens. Sem interesse para mim, a não ser o n.º 65,
Primeroses e violettes
, e o n.º 66,
Lilás
, que são regulares, com alguma frescura. O resto... não vale nada.
Duarte Faria e Maia, n.º 71.―Uma
miniatura
lambidita... como retrato...
C. Gomes Fernandes, n.
os
72 a 78.―Tem-se desenvolvido este amador, desde que se lembrou de querer ser artista; progride innegavelmente, demais para quem viu, como eu, os seus ultimos trabalhos no Porto; pasma do modo como está pintado o seu quadro n.º 72,
Margem do Tejo
. Bem tocado de luz, regularmente pincelado, com uma certa largueza e um doce tom, que nos encanta. É tambem interessante o seu
Caminho
(
Granja
), n.º 78. Os outros são quadros de amador com pretensões...
José S. Moura Girão, n.
os
79 a 87.―Só podemos admittir com a rubrica d'este bom artista os quadros n.
os
84 a 87, onde ha gallos e gallinhas soberbamente pintados, porque, ainda até hoje não encontrámos ninguem, que tenha na sua palleta cores tão brilhantes e tão accentuadamente definidas, para pintar a plumagem retumbante dos gallos. São estes trabalhos de molde a fazer impor á admiração do publico um artista como Girão. Mas... pena foi que elle se não limitasse a isso e tentasse pintar animaes de pello... Os seus gatos (n.
os
81 a 84), são horrorosos; parecem, bem como os coelhos (n.º 79),
biblots
de algodão em rama, para creanças; d'estes que se vendem no Benarde, no Cardoso da rua Nova do Carmo... Fique-se com esta snr. Girão, que eu, infelizmente, não conheço. Nunca pinte senão aves, se não quer perder o grande nome que tem, como primoroso artista que é.
D. Isabel Laver, n.
os
88 a 93.―O quadro n.º 88,
Cabeça de velho
, fez-nos parar algum tempo na sua frente e, ao fixal-a, saltou-nos, instinctivamente, da mente, aquelle pedaço de poesia de Caldeira,
A Mosca
:
..................................................o maldito do velho, Da cor d'um rabanete, ou ainda mais vermelho...
Porque de facto o tal velhote parece esculpido n'um presunto de Lamego... O n.º 90,
Rosas
, duras e compactas como se fossem talhadas em porcelana da Vista Alegre, pousadas n'uma jarra d'um detestavel effeito e cor.
O chá
, (91). Um bule de prata oxidado e sujo, doce de dezoito vintens o
arratel
, para velhotas coscovilheiras, que vieram até nós dos tempos dos francezes.
José Leite, n.º 94.―Um bello retrato de mulher nova, feito com mestria, e dando a conhecer que o auctor tem disposição e sabe do
metier
. Foi-lhe conferida uma menção honrosa, uma das mais bem applicadas do certamen.
Adriano Lopes, n.º 95.―Um retrato do general Castel-Branco―muito bem cuidado,―é o seu auctor um discipulo que dá honra aos seus professores.
José Malhôa. Eis-me chegado emfim ao Artista que mais me deslumbra, e mais me fascina. Chegado aqui, o meu desejo é pousar a penna, curvar-me reverentemente deante da sua obra genial, e limitar-me a gritar enthusiasmadamente: Salvé, pintor da grande luz, do bello sol, da soberba côr que retine nos teus quadros, como pedaços de crystal finissimo que se parte.
Era este o meu desejo, mas, alguem, os mal intencionados, esses, ficariam na sombra a rir-se de mim, e diriam: Porque não falla este
critico
Velloso Salgado

do Malhôa?!...
Eu responderia, porque elle enche com os seus trabalhos tão por completo o meu espirito, que me julgo muito pequeno para fallar d'elles.
Mas, como quero levar de seguida a minha carta, ahi vae a impressão que tive com os quadros de José Malhôa, n.
os
96 a 108.
Destaco como primordial o seu quadro,
Barbeiro da aldeia
, 98, assombroso de execução, sublime de expressão nas figuras, mesmo nas que se perdem nos ultimos planos. Luz soberba, e... desenho rigorosamente estudado. A seguir
A Descamisada
, 97―magnifico―e o 98,
O Antigo phosphoro
, em que se vê perfeitamente, muito definido, a impressão asphyxiante do enxofre que arde morosamente, obrigando a pôr a distancia o phosphoro. Que bello trabalho, que primor de expressão na figura, que distender de braço tão naturalmente lançado! e o 99,
Cabeça de estudo
, optimo de luz, e o 102,
Ao cair da tarde
, quanta melancholia doce não nos imprime, aquelle quadro, e o 108, esse largo quadro decorativo para a sala de musica do snr. Lambertini? Com que gracilidade não estão lançadas todas aquellas figuras, n'umas posições naturaes e flacidas que parecem cheias de mocidade e de vida.
E, deixei para o fim o n.º 106, que, embora eu esteja em erro, é para mim um dos trabalhos mais fulgurantes do grande artista.
Aquelle retrato de mulher, com uma elegancia finissima de palmeira, desenhada com uma distincta correcção de linhas e colorida com um mimo especial de carnação, que palpita, fez-me sentir o grande desejo de me curvar n'uma postura palaciana e beijar respeitosamente as pontas d'aquelles dedos, que tão despreoccupadamente pousam no teclado do piano.
Este quadro é para mim d'um encanto inexcedivel. E que me perdôe o artista se eu não soube dizer d'elle o que elle merecia.
Raul Maria, n.
os
109 a 112.―Quatro retratos, sendo regularmente bem feito o 109, de Carlos Malheiro Dias, o 111, retrato de Eduardo Brazão, foi feito decerto em occasião, em que o grande actor estava soffrendo de
vertueja
, uma especie de erisypela. O retrato n.º 112, só se admitte como caricatura.
D. Branca Marques, n.º 113.―
Uma velha aldeã
, que nos faz lembrar uma
batata
ingleza.
Adolpho Manon, n.º 114.―
A Costa
. Perfeito quadro para as Messageries Maritimes; eu chamar-lhe-ia o vapor
City of Lisbon
.
Thomaz de Mello Junior, n.
os
115 a 121.―É um paisagista interessante e de merecimento. Destacaremos os seus quadros: 115,
Salgueiral d'Azambuja
, paisagem cheia de luz, com uma fita d'agua muito bem estudada;
O Gerez
, estudado com cuidado, na côr e na luz. O Gerez é aquillo, conhece-o bem. O 121,
Torre de S. Julião
, que é muito interessante, e, então, o 118,
Praia de Nazareth
! uma soberba marinha, feita com muito criterio e muito saber. As vagas, que se levantam em cachões espumantes, estão, na verdade, feitas magnificamente, e o barco, que as tende galgar ao esforço dos remos, está estudado com precisão e rigorosidade.
Thomaz de Moura, n.
os
122 a 128.―É um artista que vem lá de fóra, com as suas impressões de Paris e da Bretanha; os seus quadros são tocados de um certo
gris
, que nós não temos, uma côr acizentada que me fere mal a retina, o que não quer dizer, que elle não tenha merecimento, que o tem. Especialmente o seu 122,
Carinhos de mãe
, está muito bem feito.
D. Fanny Munró, n.
os
129 a 133.―Muito gelo, muito gelo e muito gelo, no entanto não me desagradou o 133,
Na Montanha
.
Busto de ingleza―teixeira lopes

Isaias Newton, n.
os
135 a 149.―É um professor e bem me custa dizer mal d'elle, mas que querem, a bilis cá está ás voltas commigo; o seu 134,
O Lago
, parece feito de vidro fiado e os seus, 137,
Entrada para a quinta do Ex.
mo
Snr. Novaes
, 139,
Campo do Bomfim
, lembram oleographias, o unico aproveitavel, é a meu vêr, o 135,
Um trecho de paisagem
.
D. Mariana Palma, n.º 140.―
Depois do jantar
. Um melão phantastico com pevides que parecem dentes, queijo cabeça de preto com manchas de bolor. Um mau vinho, dentro de uns crystaes e d'uns vidros da fabrica da Amora ou da Marinha Grande.
Torquato Pinheiro, n.
os
141 a 145.―
O retrato de seu filho
, 141.―É sem discussão o seu melhor quadro n'esta exposição. Torquato Pinheiro é um paisagista distincto, mas não é menos como retratista. Os seus quadros são tocados sempre de uma certa ingenuidade, que nos encanta, são para notar o 144,
Leça de Bailio
, profundamente melancholico, e o 145,
Fim da Tarde
, bem feito, com muita suavidade de luz.
Columbano Bordallo Pinheiro, n.
os
146 a 154.―Eis outro artista que se impõe firmemente á nossa admiração, este não é um artista do sol, é, deixem-me dizer, um artista psychologo. Faz talvez mais o retrato da alma do que o retrato do corpo, mas, o que elle sabe é, dar umas pinceladas tão originaes, tão suas, que os seus quadros conhecem-se ao longe, sem precisarmos de lhe vêr a assignatura. O quadro 146―
A Peliça
é d'uma execução tão subtil, que apetece passar-lhe ao de leve a mão sobre aquella pelle, para se sentir o aveludado da lontra, o 147―
Scena d'interior
, ha tal expressão na cara de mulher, que se está a sentir e a vêr, o que ella está pensando lá dentro do seu cerebro de velhota matreira.
Mas, superior a todos, a meu vêr, o 152,
Retrato do Conde de Arnoso
. É extraordinariamente superior.
Manuel H. Pinto, n.
os
155 a 156.―Nunca tinha visto nada d'este artista, e fiquei gostando de vêr os seus quadros; são ambos bons, mas o 155,
Dar de comer a quem tem fome!
é muito bem estudado. Ha ali vida, n'aquella mulher que cuida dos seus bacorinhos com boa
menagére
e os bacoritos, esses, na sua
suinissima
figura de resmungões, estão tambem muito bem estudados. E não fui só eu que gostei dos quadros, foi tambem a commissão, que lhe deu uma medalha.
João Porfirio, n.
os
157 a 158.―O quadro 158 é um especimen comprovativo das theorias de Darwin.
Carlos Reis, n.
os
159 a 164.―Este sim. Os seus quadros confirmam bem o seu bom nome de mestre.
Na figura e na paisagem, em ambos é superior. O seu 159―
Retrato de Max Van Ypersele de Strihon
, é magnifico, a carnação é flagrante de côr e a mão? ah! a mão! é um primor de correcção. Os 160―
Velho castanheiro
―161,
Mendiga
―162,
Souto de Castanheiro
―163,
Poente de abril
, são quatro lindas joias da arte pinctural que apetece roubar da exposição para revestir o
boudoir
gentil da mulher que se ama.
Augusto Ribeiro, n.
os
165 a 170.―Verdadeiro pintor impressionista. Unicamente nos dá impressões de paisagens do Norte, onde o azul é mais forte e a vegetação mais luxuriante, verdes d'um matisado mais doce, mais animado. As suas
pochades
são regularmente tocadas. As que mais me agradaram foram as n.º 167,
Poente
(Ancora); 169,
Poente
(Ponte do Lima); 170,
Poente
(Paredes do Coura). Foi contemplado com uma menção honrosa, bem merecida.
João Augusto Ribeiro, n.º 171.―
Um septuagenario
, interessante e bem feito.
João Nunes Ribeiro Junior, n.
os
172 a 181.―Pintor de paisagem, retrato e quadros de genero; muita coisa para um artista só. Os retratos passaveis, alguns mesmo bons. Paisagem com certo ar, especialmente o 177, que está bem tocado de luz e assumpto bem escolhido; o 178,
Campolide
, que é interessante.
Os fructos e flores
, 180, esse achei-o medonho, simplesmente medonho, muito proprio como reclame para a casa Daupias. Pareceu-me um quadro annunciador. Não que, as flores e as fructas têem que se lhe diga, é preciso muita frescura, para as fazer resaltar com vida, dos quadros...
Tomando o chá―columbano

Adolpho de Sousa Rodrigues, n.
os
182 a 195.―O seu maior trabalho é o 182,
No trabalho do campo
. Não desgostei d'elle, apenas me fez má impressão aquelle verde das lombardas ou tronchudas. Parece-me que as figuras se recortam demais n'aquelle fundo verde. O 184,
Sabotier breton
, achei-o com boa luz de officina e as figuras bem estudadas. A côr... aquella côr bretã, que eu não conheço, é que me fez esmorecer um pouco. Eu gosto mais da nossa luz. O retrato 195, esse acho-o muito bom, bem executado, bem desenhado.
Fernando A. M. de Sá, n.º 196.―
Arredores de Setubal
. Mau de execução e de côr.
José Velloso Salgado, n.
os
197 a 199.―O grande pintor de retratos e de tudo o mais, que é este artista, quasi que me dispensava de dizer qualquer cousa d'elle. Os seus trabalhos veem de ha muito, pondo uma verdadeira nota de arte no nosso pequeno meio. A sua fama está feita, o seu nome, ao ser dito, retumba como um echo de gloria na arte da pintura portugueza. Lá para o norte temos coisas tão lindas, e tão primorosamente feitas, d'este artista, no Palacio da Bolsa, que eu acanho-me de fazer opinião sobre os seus trabalhos expostos, que são muito bons. Sobresaindo para mim a todos estes, o 199, retrato de
Adolpho Másson
.
D. Luiza Stephania da Silva, n.
os
200 a 202.―Unicamente me fez sensação o 201, em que ha uma certa frescura, nos lyrios pintados.
Candido da Silva Junior, n.
os
203 a
212
.―Dois quadros, em que ha retratos, paisagem e flores. Deram-me no goto os n.
os
205 a 209―o primeiro uma especie de jardim de velha rabugenta; muita flor, muita flor, e nenhuma disposição. Não só as flores d'este quadro, mas as de todos os outros são duras, sem frescura, sem cambiantes de tom, quasi homogeneos na côr. A
magnolia
, 209, até parece um limão... Acceitavel o 210,
Alfeite
, que é uma manchasita que se suporta bem, para amador.
João Ribeiro Christino da Silva, n.
os
213 a 218.―Ai pai! que coisas aquellas! O 213, a meu ver, simplesmente horrivel, os outros... adeante... a não ser o 218 que é interessantinho na sua fórma miniatural.
Viscondessa de Sistello, n.
os
219 a 224.―É uma amadora de certo, os seus quadros são cheios d'um quer que seja de pretencioso... o n.º 219,
Retrato
―achei-o sem vida, muito chapado.―Fez-me saudades, porque me pareceu uma imitação má, do bello quadro de Velloso Salgado―
Reflexos
. O 220 passavel, a não ser o ar estudioso e pensador de mais, do menino, e o 222 a abarrotar de coisas―um pedaço de queijo stilton, que faz lembrar sabão rajado azul, fructas duras, vinhos maus, agrupamento infeliz. O 221 regularmente tocado, como mancha.
Retrato de El-Rei―carlos reis

João Vaz, n.
os
225 a 237.―Deliciosa toda a obra d'este
cantor
, pelo pincel, da agua. Inexcedivel artista em marinhas; com que veneração eu o admiro, e ao seu
savoir faire
. Ha tanta verdade em todos os seus quadros, tanta e tanta luz nas suas telas, que ao contemplal-as como que se sente o marulhar cadenciado das ondas.
A pesca da sardinha
, 225, é um quadro primoroso.
O barco algarvio
, 229, navegando em pleno mar, parece que se vae afastando pouco a pouco de nós e que ouvimos o bater, compassado dos remos na agua.
O moinho do Barredo
, 230, airoso e lindo, batido do sol―e
O Castello de Montemór
, 234, que parece sair arrogantemente do fundo d'um azul primoroso, são obras que encantam. Alli, ha o que se chama faisca artistica, alli ha a nota caracteristica de quem muito bem conhece a arte de pintar.
Emily Wormsley, n.º 238.―Um largo quadro de flores, louça da India e metaes. Boa composição, bem estudado e bem tocado de côres. Foi-lhe conferida uma menção honrosa, bem merecida.
Francisco Xara, n.
os
239 a 240.―As
Papoulas
do 239, fizeram-me lembrar flores de papel de seda feitas por alguma menina da baixa, em horas d'ocio, entre o crochet e o chá com torradas, para enfeitar um chapeu de campo ou algum oratorio de velhota amiga.
ESCULPTURA
José Simões d'Almeida (Sobrinho), n.º 241.―
Modelo para uma medalha
, bem executado.
Pedro Cartoccio, n.
os
242 e 243.―Fez-me especial attenção o 242,
Juiz de Phyné
. Um ar malicioso de juiz estecta, definidamente traçado, nas suas bem marcadas linhas, é uma bella cabeça lançada com energia e rigorosidade.
Antonio Teixeira Lopes, n.
os
244 a 258.―É sem discussão Teixeira Lopes, ao momento, o maior esculptor portuguez. É talvez o unico que póde affirmar ao paiz e ao estrangeiro, que só elle tem o poder de fazer resaltar do marmore ou do bronze, as suas figuras, tão definidamente perfeitas, que se nos afigura terem vida. Notar aqui os seus trabalhos seria fazer a resenha das suas 15 obras, porque todas ellas se nos impõem á admiração, do mesmo modo. No entanto, magestosamente solemne, na serenidade do seu ar, sublime na grandeza do seu pensamento está a figura, da
Historia
, 252, para o tumulo de Oliveira Martins. E o 244,
Santo Izidoro
, n'uma serenidade de justo, esculpido com um carinho doce; ao olhal-o sente-se como que, uma unção sublime e casta que nos convida á oração. É um trabalho soberbo, as mãos, o pescoço, a face, as roupagens, tudo emfim, é feito com um rigoroso saber. E os
Velhos
, 245 e a
Flora
, 246 e o
Bébé
, 247, e todos os outros trabalhos? Simplesmente soberbos!... Teixeira Lopes é inegavelmente o primeiro esculptor portuguez.
Antonio Augusto Costa Motta (Sobrinho), n.º 259.―Uma
Cabeça de estudo
, bem feita.
Jorge Pereira, n.º 260.―
Um typo de marinheiro
, traçado largamente, sem detalhes de meticulosidade; é na verdade uma bella cabeça, bem estudada e melhor executada.
ARCHITECTURA
N'este genero nada entendo, sou leigo, perfeitamente leigo. No entanto lá vae.
Olaia em flor―carlos reis

Antonio Couto n.º 261.―
Casino
, preferia vel-o construido, pois n'esse caso melhor o gosaria.
Raul Lino, n.
os
262 e 263.―Gostei do 262,
Esboço para a casa em Azeitão
. Talvez, pela idéa do conforto que se deve sentir n'aquella casa portugueza, com bibelots caros e mobiliario de talha e bilros.
Tertuliano Marques, n.
os
264 e 265.―
Projecto do mausoleu
a Almeida Garrett
. Não desgostei, acho-o bem estudado.
José Alexandre Soares, n.
os
266 e 267.―Achei airosa e bem lançada a fachada para o
Club militar
. Deveria depois de feito ficar uma obra digna do ser admirada aquella
Praça Publica
.
AGUARELLAS
É uma das mais interessantes manifestações da arte pinctural, este genero de pintura, difficil na execução, só se admitte quando o desenho é muito correcto e a tinta é dada em pinceladas certas, frescas e vivas... por isso, o terem-me agradado pouco os trabalhos expostos. A ver:
Francisco A. Moreira de Almeida, n.
os
268 a 271.―Francamente, francamente, teem um ar ingenuo de chromo-lithographia.
Bartholomeu Sesinando Ribeiro Arthur, n.
os
272 a 278.―É a especialidade d'este artista a pintura de costumes militares e com franqueza, tem-nos, primorosos de execução, o que não quer dizer que tambem os não tenha fracos. N'este certamen agradaram-me o 273,
Official do regimento do Maranhão
, feito com muito ar e muito boa luz, destacando soberbamente no seu arrogante
aplomb
, e o 274,
Official de estado maior
, tambem bem trabalhado.
Mademoiselle Helena Eisembart, n.º 279.―
Fructas
. Uns cachos de uvas com a sua folhagem, boa aguarella, muito fresca, muito leve, transparente.
José Souza Moura Girão, n.
os
280 a 285.―Cá temos outra vez o grande artista das aves. N'esta secção brilha elle deliciosamente. As suas aguarellas correspondem precisamente ás condições exigidas para a boa aguarella, côres vivas, transparencia, e frescura; e tudo isso tem as suas. Notaveis todas as dos n.
os
280, 281, 282, 284, 285 mas sobretudo o
Fausto
e
Margarida
, 280,
Entrando
, 282, e
Cantando
, 285, que a meu ver são magistralmente feitas.
Jorge Ianz, n.
os
286 a 295.―Outro aguarelista, que nos enche, com a sua côr fulgurante. São bem manchadas as suas aguarellas, fazendo-me lembrar, não sei porquê, as do fallecido Manuel San-Romão, o artista mais mimoso, que eu tenho conhecido, como manchista, Ianz e inegavelmente um artista de merecimento. São muito bons para mim, os seus 286, em
Toscana
, 288,
Impressões de viagem
, 292, 293, 294, tres bellas marinhas, muito bem tratadas, o 295,
Descarga no Tejo
, é admiravel de execução; a arcada que se vê ao fundo do quadro poderia, com honra, ser admittida n'um concurso de architectura.
Alfredo de Moraes, n.
os
296 e 297.―
Costumes da Judea
. Não quero dizer que estejam maus, mas fizeram-me lembrar, Deus me perdôe, (Deus e o artista) os homens das tamaras.
Entre o almoço e o jantar―marques d'oliveira

Roque Gameiro, n.º 298.―
Retrato d'El-rei
. Aguarella de difficil execução, mas superiormente tratada, boa luz, bella côr, roupagem magnifica, tom de rosto bom. As luvas são uma perfeita illusão. É um bom trabalho.
DESENHO
D. Beatriz Alto Mearim, n.º 299.―
Um estudo
, regularmente traçado.
Jorge Porphirio, n.º 300.―
Jardim botanico
. Achei-o palmeirento de mais. Regular.
Candido da Silva Junior, n.º 301.―
Um quadrito com cinco cabeças
. Só me agradaram as duas feitas a crayon azul.
PASTEL
Não imagine o leitor que eu vou discorrer sobre o effeito do pastel de fructa, ou de créme, do Baltresqui, não, vou fallar do systema de pintar a
pastel
―ou por outra, a crayon de côres, e que por signal não é lá das coisas mais faceis, para ser bem feito. Para se trabalhar bem n'este genero uma das coisas mais necessarias é saber desenho. Que afinal para se pintar bem o que é preciso é desenhar muito e bem.
D. Luiza Almedina, n.º 302.―
Retrato de sua irmã Ilda
. N'este trabalho ha varios defeitos, saltando porém á vista a differença da côr entre o rosto, e o pescoço e collo, que muito prejudica o effeito do quadro.
D. Beatriz Alto Mearim, n.º 303.―
Estudo
. Uma velhinha. Regularmente empastado.
Condessa Alto Mearim, n.º 304.―
Estudo
. Este quadro a meu vêr, devia estar no catalogo na secção dos desenhos. É bem feito, vê-se que esta senhora não descura a base principal de pintura.
D. Maria Luiza Alto Mearim, n.º 305.―
Um estudo
. As mesmas considerações expandidas para o n.º 304.
Leopoldo Batistini, n.º 306.―
Cabeça de estudo
. Magnifica de empastamento doce e finura de traço, penna é que encha tão por completo o quadro. Um pouco mais de margem e seria para mim muito mais agradavel á vista.
D. Emilia Adelaide Santos Braga, n.º 307.―
Retrato de Cupertino Ribeiro
. Trabalho bem feito.
José de Brito, n.
os
308 e 309.―Superiormente executado o n.º 309.―
O frade
.
Frederico Cezar Camara Leme, n.
os
310 a 312.―Recortado de mais o 312,
Ovelhas
. Dá-me a impressão d'estas ovelhas de cartão e algodão em rama, tendo ao fundo um vulcão de theatro, irrompendo bravamente e pondo uma luz forte em todo o ambiente.
A chegada da diligencia aos Valles em Ferreira do Zezere―alfredo keil

Bemvindo Ceia, n.º 313.―
Um velho operario
, regularmente tocado,
comme ci, comme ça
.
João G. Mattoso da Fonseca, n.
os
314 a 320.―Destacarei d'este artista o 314.
Retrato de D. M. E. F
., que tem o cabello e a pelliça magnificamente tratado.
Ninete
, 315 regularmente feito―especialmente o cabello, e pluma do chapeu. Não gostei do 316,
A Fé
, porque achei a figura com muito pouca fé, e o 418,
Ao espelho
, em que noto um determinado abuzo de branco, na cara.
Adriano de Sousa n.º 321.―
Ave Maria
. A carnação d'esta figura é muito bem tratada, aveludada e macia.
José Malhôa, n.º 322.―
Retrato de mademoiselle C. R
. É simplesmente delicioso este quadro. Como desenho, como technica de execução, como posição de modelo, como tudo emfim, é sem discutir esse o primeiro trabalho a pastel da exposição.
Tenho visto muitos trabalhos n'este genero, mas, nenhum me deslumbrou como este.
D. Antonio Lobo da Silveira, n.º 328.―
Um estudo
, mau.
Viscondessa de Sistelo, n.
os
324 a 325.―Não tive o gosto de vislumbrar estes trabalhos na exposição ou não estavam lá, ou passaram-me despercebidos, por isso nada direi d'elles.
GRAVURA
José Simões d'Almeida (Sobrinho), n.º 236.―
Medalha
.―Gostei d'ella.
CARICATURA
Aqui é que é tremer e tremer como varas verdes, porque, se estes dois pandegos me descobrem, ainda tenho a sorte dos caricaturados expostos. Eu, se tivesse pretensões á popularidade, bem sei o que fazia: desatava a dizer mal dos dois e elles, para se vingarem de mim, desenhavam-me ahi em qualquer jornal burlesco e eu passava á gloria entre as gargalhadas estridulas do publico e a arrelia das pessoas que me querem bem. Porque eu, aqui para nós, dava uma boa caricatura... Mas não direi mal dos homens, nem bem... direi só o que sinto... que o primeiro é filho de peixe e sabe nadar e o segundo tambem nada menos mal.
Perfilar, que vae passar a patrulha da troça e do chiste.
Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, n.º 387.―Soberbas caricaturas, que pena é, não virem mais para o publico, n'esse
Album de Glorias
, que tão estimado é pelos leitores. Aquelle
Chaby
está fulgurantissimo de graça.
Francisco Valenças, n.º 328.―
Typos
, todos elles bons, mas superior o
Ricardo Jorge
, fazendo-me saltar o riso, naturalmente, expontaneo.
ARTE APPLICADA
Aqui torce a porca o rabo, ou ainda: o rabo é o peor de esfolar, como muito bem diz o nosso bom povo nos seus annexins. E de facto assim é... eis um assumpto em que eu me vejo assaz embaraçado―arte applicada!... eis uma coisa onde vejo um largo campo para entretenimento de damas, a pintura dedicada de bibelots adoraveis para
boudoirs
de luxo. N'esta secção primam com a sua bagagem artistica todas as senhoras que expõem.
Umas mais brilhantemente que outras. Não vos massarei pois com citações de numeros nem de nomes.
O rapto de Ganimedes―fernandes de sá

Fallarei no emtanto, do n.º 336,
Goblin
, do Jorge Ianz, que na verdade é uma das imitações mais perfeitas que temos visto. Bem estudado nas côres, que dão a impressão nitida de estarmos em frente de um verdadeiro tecido; só achamos um poucochinho puxado o preço...
Um conto de réis é dinheiro!
A
Moldura-Luiz XIV
, n.º 337, de José Emygdio Maior, é bem esculpida, correcta no estylo e no desenho.
Tambem gostamos do n.º 338,
Modelo para uma floreira
, é muito elegante de fórma e está feita com certo mimo. Como arte nova é acceitavel.
Ah! mas o que eu achei subtil, e vaporoso, foi o leque exposto por D. Maria Bordallo Pinheiro. Que delicia, que encanto. Aquella senhora vem de ha muito afirmando o seu grande gosto artistico e o seu forte temperamento creador.
Que isso não nos admira, mal fora que assim não succedesse, pois ella é uma grande artista. Todos os seus, são verdadeiros artistas, cada qual no seu genero. Bordallo, o incomparavel e inimitavel caricaturista; Columbano, o soberbo pintor; Manuel Gustavo, correcto seguidor dos passos de seu pae, vae largamente pondo-se a par d'elle, na firmeza e na correcção de caricatura.
Mas não é d'elles que eu fallo, é da rendilheira sublime que consegue que as operarias de Peniche, façam rendas tão finas e tão delicadas, que abertamente se podem pôr ao pé d'essas custosas rendas de Bruxellas e de Allençon.
Por isso, aqui lhe significa, este provinciano, que felizmente já conhecia os seus bellos trabalhos, recordando ainda hoje ao escrever isto, um lenço formosissimo executado por D. Maria Augusta, com peixes e mariscos, a sua muita admiração pelo seu grande talento.
Notaveis tambem as
Fivellas
n.
os
342 e 343, de João da Silva, que achei bem executadas, não devendo envergonhar-se ao pé, das saidas de cinzeladores, como Jerdelet.
Ia-me passando falar d'uma japonesice em trez actos, que é, como quem diz, em
trez folhas
, d'um
paravent
, pintado por Pigasson Ricot, que, na verdade, não está feio. Estão bem copiadas as figuras e os effeitos tirados, não são maus. Acho-lhes o mesmo defeito do Goblin de Ianz: é muito caro... para amadores.
Santo Izidoro―teixeira lopes

Sobre o concurso para a capa do catalogo, nada tenho que dizer, pois isso era unica e exclusivamente da competencia da commissão da exposição, que deu o primeiro premio ao trabalho de Francisco dos Santos e o segundo a Tertuliano Marques.
E até que em fim, acabou a massada para o benevolo leitor.
Desculpe-me, portanto, meu caro redactor, o eu ter estendido tanto a
massa
, como se costuma dizer, mas desagravel me seria, ter promettido falar de todos e deixar passar em claro algum d'elles.
É provavel que o publico e, muito especialmente, os artistas, não tenham gostada minha prosa, por eu ter dito muitas barbaridades, mas eu sou assim; o que tenho cá dentro é para se dizer, bem ou mal, segundo posso e sei. Mas, se esta minha despretenciosa prosa lhe agradou, de vez em quando, cá apparecerei com noticias d'arte, lá do norte, do Porto, d'essa aldeia trabalhadora e honesta, para onde vou partir, pois já tenho saudades d'ella...
Março 1903.
P. S.―As gravuras d'este e d'outros artigos, nem todas são copias dos quadros notados nos mesmos, mas, na impossibilidade de adquirir photographias d'elles, usei de provas de quadros dos mesmos artistas, dando assim a conhecer ao leitor trabalhos de artistas de merecimento e valor.
Guarda arabe―Pastel de s. m. el-rei

VIII PINTORES PORTUENSES
† MANUEL SAN ROMÃO
É com um grande prazer, cheio de saudade, que rapidamente me vou occupar d'um bello e real talento de aguarellista, infelizmente morto.
Manuel San Romão

Quando elle se finou, sob a dolorosa impressão que me deixou a sua morte, não me atrevi a vir a publico, depor na sua campa o meu ramilhete de flores, fazendo a apologia do seu saber e das suas largas aptidões para a pintura. Esperei esse grande acto de justiça dos outros, dos que então eram os criticos d'arte da nossa terra.
Mas, nenhum, nem um só, compriu com esse dever e Manuel San Romão desceu á mudez profunda do tumulo sem que alguem viesse dizer que a Arte tinha perdido um dos seus filhos mais estremecidos e o mais apaixonado dos seus amantes.
Não me admirou que a critica artistica da nossa terra se esquecesse de San Romão, por isso que, o querido morto, não era d'aquelles que se expunham á admiração de ninguem; vivia para os seus trabalhos apenas, dispensando o reclamo pomposo das gazetas e a vida turbulenta dos
clubs
, exempto de
coteries
.
Na Espectativa―Aguarella de m. san romão

Era talvez um misantropo. Talvez. Mas, o que inquestionavelmente elle sempre foi, era um grande sabedor de cousas d'arte.
Conheci-o bem na sua boa intimidade. Era um perfeito cavalheiro, um verdadeiro
gentleman
; cavaqueador brilhante e fluente fallando d'Arte com uma tal elevação e enthusiasmo, com uma tal proficiencia e um tão grande saber que, n'essas occasiões, fazia-nos lembrar um douto professor preleccionando eloquentemente sobre assumptos da sua especial e authorisada competencia.
Ao ouvi-lo discorrer como mestre sobre esses mil problemas intrincados e complexos da Arte na sua mais ampla acepção, convenciamo-nos de que quem fallava não era um
dilettanti
da pintura, mas um critico justo e sabedor, um verdadeiro homem do
metier
.
Com elle tive longas, longuissimas conversas no seu confortavel atelier do largo do Viriato, e foi d'alli, talvez, que me veio este prurido de fallar em artistas e coisas d'arte...
Que saudades tenho d'esse tempo, das magnificas tardes que passei, em aquelle atelier pequenino e confortavel como
gabinete
d'uma delicada dama, replecto d'uma suavidade de luz e n'uma tão artistica disposição e tão cheio de flores, que fazia lembrar uma capellinha em festa...
E capellinha era em verdade, onde a Deusa Aguarella era venerada, com um respeitoso enlevo, pelo seu sacerdote querido, por isso que Manuel San Romão era um aguarelista
hors ligne
.
Paisagem―Aguarella de m. san romão

Para mim, o querido extincto foi um dos primeiros aguarellistas portuguezes; a sua maneira especial de manchar ainda não foi suplantada por mais ninguem. Nem mesmo o grande pintor Casanova, que foi professor de San Romão, e que é inegavelmente um mestre na aguarella, nunca conseguiu dar aos seus trabalhos aquelle tom especial de mancha que era uma das grandes superioridades de Manuel San Romão. E isto fazia-o elle naturalmente, instintivamente... Aquelle modo era o seu, d'ahi talvez a impossibilidade de ser igualado.
Depois, San Romão dava aos seus trabalhos uma tal frescura, uma tal transparencia e uma tal suavidade de cores, que as suas aguarellas eram como uma pintura ideal que sempre nos fascinava.
E como elle desenhava!... Attestavam bem o seu estudo do desenho as pastas carregadas de trabalhos feitos por elle... Muitos d'esses desenhos tenho-os eu em meu poder, deliciosos pedaços dum grande poema d'Arte...
Pelas gravuras que acompanham o nosso artigo, perfeitamente o leitor póde verificar que as affirmações que fazemos são, por todos os motivos muito justas e muito verdadeiras.
O
fidalgo antigo
é uma soberba aguarella d'um vigor de execução e d'uma correcção inexcedivel de desenho, e o quadro
No directorio
, e a
Paisagem de Santa Maria de Boure
, e esses pequenos trabalhos, essas lindas figuras de mulher, essas deliciosas paginas de livros e todos esses desenhos não serão manifestações seguras do seu talento e do seu valor?!... São! ninguem o pode duvidar...
Paisagem―Aguarella de m. san romão

Mas, Manuel San Romão não era tão conhecido do publico como devera ser, por isso que elle não vendia os seus quadros, dava-os. Foi ao menos feliz em não necessitar de negociar com o seu trabalho... Vivendo na abastança não fazia da Arte um negocio, fazia d'ella unicamente um culto intenso e sincero.
D'ahi os seus quadros, esses primores de aguarella estarem apenas espalhados por um meio restrito de amigos.
Manuel San Romão não era exclusivamente um aguarellista, mas tambem um terrivel
bric-à-braquista
. Collecionava tudo quanto fosse arte, gravuras, quadros, mobiliario, faianças e, em especial, livros artisticos.
Era uma delicia visitar a sua moradia... Que encantadoras cousas, formosos contadores, armarios soberbos de talha antiga, arcas abarrotadas de gravuras notaveis e, pelas paredes, quadros assignados pelos mais distintos mestres de pintura. No seu atelier, alli, é que elle reunia o que mais fundamente lhe fallava á sua alma de artista, as faianças mais delicadas, os moveis mais requintadamente artisticos, as revistas illustradas e os livros mais preciosos. E n'uma
pele mele
deliciosa tudo se agrupava para dar ao atelier a forma gentil e suave do gabinete d'uma fina duqueza e o ar sereno d'uma capelinha em festa.
Que a memoria saudosa d'este morto querido, que foi um dos mais deslumbrantes aguarellistas portuguezes, me releve o vir eu hoje, o mais insignificante dos seus admiradores, tiral-a da modesta indifferença publica para a expôr á veneração e respeito de todos aquelles que vêem nos artistas alguma cousa de elevado e de verdadeiramente sublime.
1904.
Uma sevilhana―Aguarella de m. san romão

IX A MULHER ARTISTA
S. M. a Rainha

Ha dias, n'uma roda onde estavam senhoras, n'uma conversa larga e em que se debateram varios assumptos, um houve, que especialmente me prendeu a attenção. Discutia-se Arte em geral, e um dos homens, cavaqueador
enragé
emerito e apologista da
não
emancipação da mulher, desfechou abruptamente esta phrase: «Não posso admittir que a mulher seja uma esculptora ou uma pintora».
Escusado será dizer-vos que esta phrase fez no grupo o effeito de um
duche
frio e forte. Após, porem o choque, houve, como era de esperar, a reacção, e, como poderam, os
paladinos
da sala, debateram e rebateram a estranha declaração, com factos, n'uma larga demonstração de erudição e talento.
Eu fiquei-me callado, esperando melhor occasião para poder dizer serenamente, sem precipitação, as considerações que tinha a fazer sobre tal assumpto.
D. Aurelia de Sousa

E hoje, perfeitamente á vontade, sem pressões de especie alguma nem necessidades de galantear, vou dizer o que penso da mulher artista, e como eu teria desarmado o gracioso se logo me tivesse permittido dizer-lhe alguma coisa em resposta ao seu repto.
A mulher é um dos mais perfeitos trabalhos da natureza, quer vista sob o lado plastico e physico, quer sob o moral e espiritual. É como nenhum outro ente dotada d'um espirito, que, quando bem educado, se inclina sempre para o Bello, para o Ideal. Ella, muito mais do que o homem, deixa-se assenhorar das impressões, e o seu coração, muito mais passionavel que o nosso, mais facilmente se commove e se infiltra d'uma doce alegria ou d'uma saudosa tristeza.