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Para isso, soccorro-me de alguns informes que Loureiro me deu e fallaremos os dous conjunctamente, eu pelo que tenho visto nas minhas visitas ao atelier-escola, e especialmente na ultima exposição de trabalhos de discipulos, elle pelo que tem apurado do estudo que o discipulo tem feito e de como tem recebido salutarmente as suas sabias lições. Comecemos pois.
Um dia, Arthur Loureiro que tinha aberto ao publico a sua escola de pintura para senhoras, confiado no bom gosto que ultimamente se estava desenvolvendo entre as
madames
para esta manifestação de Arte, viu entrar-lhe pela porta dentro este rapaz chic, que perguntava se elle quereria dar-lhe algumas lições de pintura. Loureiro immediatamente se promptificou a isso, mas sob condição que elle deveria começar por onde todos devem começar, pelos rudimentos de desenho. Só n'essas condições o poderia acceitar como discipulo.
Accedeu o nosso amador immediatamente, pois farto estava elle de saber que o pouco que tinha estudado com um
soi disant
de nada lhe valia e logo combinaram dar breve inicio aos seus trabalhos.
Ao principiar estas lições, Manuel Lucio, vinha cheio de uma inegualavel boa vontade, um honroso desejo de vir a ser na pintura, alguma coisa mais, do que as habituaes vulgaridades, e por isso, pondo completamente de parte as noções que recebera de um insignificante professor, que d'isso só tinha o nome, pois emquanto ao resto era d'uma nullidade completa, todo elle se dedicou a estudar e a cumprir as instrucções que Arthur Loureiro lhe ia dando.
E assim, foi desenhar, desde os primeiros rudimentos até á perspectiva, e isto por longas lições, sem nunca dar mostras de cançaço ou aborrecimento, pelo contrario sempre cheio d'um grande prazer em traçar firme e rapidamente o contorno e o claro-escuro dos objectos que copiava.
E ainda hoje continua e affincadamente, desenhando todos os dias, mesmo a fóra dos esboços que fez para os seus quadros.
Depois de ter desenhado muito a lapis e a carvão, copiando gessos e modelos, entrou então no desenho a côres, (pastel) e fez a paisagem e a figura, isto tudo do natural, e fel-o com uma tal garridice e um tal desenvolvimento que os seus trabalhos mereceram os applausos, não só do seu professor, mas da critica conscienciosa e honesta de alguns entendidos.
Após isto passou a pintar a oleo, no atelier, e sob a vista e a conceituosa informação de Loureiro, lançou á tela flores que estudou em todas as suas minudencias, sem comtudo fazer dos seus trabalhos, rendilhados e lambidos quadros.
Não, Manuel Lucio, estudou as flores desenhando-as e colorindo-as depois nos tons e nos valores que ellas deviam ter.
E emquanto no atelier-escola pintava flores sob a vista do professor, lá por fora, sósinho, apenas com as sabias noções recebidas tentava a paisagem a oleo.
Eram estas algumas das que Loureiro me mostrava, e de que eu vos dou umas gravuras.
Vieram em seguida os estudos a oleo de gessos, feitos com muita consciencia e extraordinaria proficiencia, e hoje estuda valentemente, como um verdadeiro amador de talento, o modelo vivo, e ainda ha pouco n'uma exposição de alumnos que Loureiro promoveu no seu atelier, elle lá estava com 19 trabalhos a oleo entre os quaes alguns havia que eram verdadeiramente maravilhosos de côr, de luz e de verdade, e 9 desenhos, provas irrefutaveis de quanto elle trabalha e do bem como trabalha.
Mas Manuel Lucio não é só um amador de pintura consciencioso, é tambem um burilador de litteratura
hors ligne
e um entendedor de coisas d'Arte. Deve-se á sua pessoa o prefacio do Catalogo da 1.ª Exposição de Alumnos no Atelier-Escola. N'esse prologo o nosso perfilado discorre sabiamente sobre as vantagens de desenhar perfeitamente para bem pintar. São uma serie de considerações bem feitas e profundamente estudadas, que dão a verdadeira orientação do seu modo de pensar e proceder n'este genero de
sport
artistico em que se metteu.
Depois, como tem muita leitura d'Arte, elle reune a um bello amador, um cavaqueador agradavel e um conhecedor cheio de saber.
Ahi fica em rapidas linhas o que eu posso dizer do discipulo de Arthur Loureiro, o bello discipulo que faz honra ao professor.
1904.
Barra, Foz do Douro―manuel lucio

XX UMA EXPOSIÇÃO DE QUADROS
do Instituto de Estudos e Conferencias
No louvavel intento de desenvolver a Arte de pintura entre nós, o Instituto de Estudos e Conferencias, realisou no pateo da Misericordia mais uma outra exposição. É pois d'este certamen artistico que me vou occupar n'este rapido artigo.
Sousa Pinto

Fui lá, quando a exposição era vedada ao publico. Unicamente ali tinham entrada os socios do Instituto e os delegados da imprensa, e por isso muito á vontade me demorei por lá umas duas horas a analysar.
Só o quadro de Sousa Pinto me reteve boa parte do tempo. Que aquillo é, para mim, o que se chama o requinte da perfeição.
Não abalançarei opinião sobre tal trabalho, porque me julgo infinitamente pequeno para discutir obra tão magistral.
Sousa Pinto, tem o seu nome feito, nome glorioso que se impõe lá fóra, nos grandes centros artisticos, como o
Salon
, onde os seus quadros são recebidos com toda a consideração e premiados com as melhores recompensas. E a critica sabia e correcta dos grandes analystas da Arte, essa critica que é indomavel como a justiça, tem dito que elle é um grande, um superior pintor. Gloriosa coisa é por isso, para nós, podermos admirar hoje na nossa despretenciosa exposição um trabalho de tão requintada perfeição como o
Ferreiro
de Sousa Pinto. Portanto, antes de entrar na enumeração dos trabalhos expostos, consinta a direcção do Instituto de Estudos e Conferencias que a felicite por ter, como vulgarmente se diz, mettido esta lança em Africa; porque Sousa Pinto não quer sujeitar-se á critica portugueza, e n'estas condições foge de apparecer nas nossas exposições.
Mas não nos demoremos mais, sigamos para diante, que eu vim para lhe fallar do conjuncto da Exposição, e não só de um artista.
josé de brito no seu atelier

Aberto pois o catalogo acha-se inscripto como n.º 1 o snr. Almeida e Silva, que desta vez me convence de que é um artista. Eu estava mal impressionado com elle, os seus trabalhos, talvez por muita meticulosidade de acabamento e pelo recortado das figuras e dos assumptos, tinham o quer que fosse de oleographico. Mas, n'esta exposição, elle vem mais pujante de execução, mais artista. E em qualquer dos generos em que se apresenta mostra aptidões definidas. Entre esses trabalhos destacarei:
O Rio Pavia no Outomno
,
Manhã d'Outubro
,
Veterano de Ormuz
,
Tranquillidade
,
Retrato do snr. D. Diogo d'Almeida
(Reriz). Ha mais alguns quadros, mas esses são inferiores.
Crepusculo Matutino―candido da cunha

Segue-o José de Brito, com dous retratos a oleo de que não gosto nada. No entanto noto o
Retrato de Antonio Ramos Pinto
, a pastel, que é muito bem feito, e as aquarellas, que apresenta são todas bem tocadas, especialmente umas tres que são um primor de execução.
As Margens do Leça
, (2 quadros),
Caminho de Nevogilde
e
Villarinha
, especialmente.
Abel Cardoso, com quatro quadros, dos quaes destacarei o
Tapada
. Ha uma portinha vermelha a destacar na linha do muro da quinta, que dá uma nota interessante. O retrato do militar esse, meu Deus, é phantastico.
Candido da Cunha. Sempre o sentimental artista que desde sempre conheci. Tem tres quadros, qual d'elles o mais bem feito, sempre com um ar nostalgico do pôr do sol, que elle tão distinctamente pinta.
O Crepusculo Matutino
é um delicioso encanto.
Paisagem―Marques d'Oliveira

D. Alice Grillo, tem tres quadros, um de
Flores
, outro de
Rosas e fructos
, e um
Estudo de velha
. Para mim os dous primeiros são superiores. As laranjas são bem pintadas, de bella côr e as rosas e os amores perfeitos, são lindamente tocados, d'uma grande frescura.
Marques d'Oliveira. Eis um nome que se impõe e que sempre que se apresenta nos deixa convencidos de que é um talentosissimo artista. Nos seus quadros, ha um certo quê que demonstra a technica superior d'este mestre de pintura. E embora alguns criticos queiram abocanhar o nome feito d'este artista, elle supplanta toda essa inveja, que outra cousa não era o que eu ouvi dizer d'elle. Dos quadros expostos, pincelados de uma fórma correcta e distincta, destacarei o
Rua de Agueda
,
Effeito da tarde
(Agueda),
Cães da Ribeira
,
Espinho
,
Effeito da tarde
(Espinho), o que quer dizer que são todos.
Guardando vaccas―eduardo moura

D. Julia Molarinho. É pintora da nova ala que vae dando a nota do seu merecimento. Os seus quadros
Cabeça de preto
,
Cabeça de rapaz
,
Poente
e
Pochade
, são bem feitos, especialmente os dous primeiros. Tem mais quadros, que não me prenderam a attenção.
Eduardo Moura. Apresenta-se com um só quadro, se bem que pelas suas aptidões deveria ter exposto mais. É um trabalho bem feito, digno de ser admirado.
Thomaz de Moura. Com uma
Cabecita de rapariga
regularmente executada. Ha tambem muito de monotono no fundo, um azul indefinido.
D. Leopoldina Pinto. Tres quadros de
Flores e fructos
. Tem um quadro de
Geranios
que está bem tocado, d'uma certa frescura. Esta senhora é especialista n'esta qualidade de flores. Já n'outra exposição apresentou um quadro de geranios que era um assombro de perfeição. Os crysanthemos esses não são bons. No quadro
Fructos
, ha umas uvas bem tratadas, com bastante transparencia.
Arthur Prat. É um pintor de côres retumbantes. Os seus quadros são como fanfarras de luz. Gosto d'elles porque me dão muito bem a nota estridula e alegre dos campos do sul. Apresenta dez quadros, alguns d'elles regularmente feitos e regularmente estudados.
Julio Ramos. Esse paisagista que tanto nos tem encantado com os seus quadros, apresenta-se tambem d'esta vez com muita distincção, se bem que me não prenda a attenção, como d'outras vezes que tem exposto.
Carlos Reis. Ora aqui está um pintor que é para mim um genial artista. Seguidor dos moldes de Silva Porto, apresenta-se n'esta exposição com cinco quadros que são uma maravilha.
julio ramos no seu atelier

O Idilio
, é uma pintura deslumbrante.
O retrato de minha mãe
, é tambem um superior trabalho, feito com toda a correcção, d'um verdadeiro mestre.
Augusto Ribeiro, nos seus quadrinhos
mignons
apresenta-se admiravelmente―até nem parece o artista de outros tempos. Agora mais socegado, mais accentuado, fez-nos a pintura do nosso Minho em paginas d'album, mas muito bem feitas.
João Augusto Ribeiro. Com um quadro só, um
Estudo de velho
, primoroso de desenho e de côr, flagrante de verdade.
Torquato Pinheiro

D. Aurelia de Sousa. Dous trabalhos a oleo de que não gosto e um pastel―
N'um jardim antigo
, que está muito bem executado.
D. Sophia de Sousa. Apresenta quatro quadros, dos quaes destacarei como mais digno de menção a
Paisagem
. É uma verdadeira artista.
Julio Teixeira Bastos. Seis telas expostas. Destaco
O Melro
, como sendo a que mais impressão me fez.
Torquato Pinheiro. É com toda a correcção que se nos apresenta, n'este certamen, este conceituado artista. Dos seis quadros expostos notarei como melhores os seguintes:―
Tarde no Corgo
, correctissimo,
Rua da Pedreira
e
Crepusculo
.
João Vaz. O superior pintor de marinhas, vem á exposição com tres quadros que são um encanto, especialisando a
Barra de Lisboa
onde a agua é tratada d'um modo irreprehensivel.―
Barracas
de Pescadores
, tambem muito bem feito. O outro―
Margens do Sado
, tem para mim uma nota que o torna desagradavel: é uma serie de piteiras que dão ao quadro um quê de bordado a missanga.
Eurico Ricardo Jorge. Apparece pela primeira vez em publico e apresenta-se muito bem com o seu estudo a pastel―
Cabeça de velho
.
José David. Tem algumas aguarellas que estão bem manchadas.
E nada mais porque já vae muito longe este artigo.
Retrato de Bernardino Reaes torquato pinheiro

XXI Uma Exposição de Carneiro Junior
No Pateo da Misericordia
A Exposição Carneiro Junior é mais uma confirmação do talento de quem a organisa. Esse bello rapaz, desde a primeira vez que com elle fallei logo conquistou em extremo a minha simpathia.
Alma de poeta epico, idealisando sempre, n'um desejo fremente de ser grande, quadros que prendam e enthusiasmem quem os vê.
D'esta vez, no seu grande quadro, mais humano e mais terreno, deve ter sido melhor comprehendido pelo publico que tem visitado a exposição.
Assumpto de molde a prender bem a alma de todos os que ainda tem um pouco d'amor á sua patria, é o seu quadro uma pagina flagrante de verdade e de movimento, arrancada á Historia de Portugal. Figuras talhadas em moldes verdadeiramente portuguezes, agrupadas flagrantemente em posturas naturaes, o seu quadro é, innegavelmente, uma bella obra.
A figura altiva, mas sem arrogancia, do hespanhol vencido que recebe uma corôa de flores para collocar no punho da espada, como para dizer que não a elle mas sim a ella se deve qualquer gloria obtida, é bem estudada; e o portuguez, que respeitosamente offerece como galharda dadiva de simpathia a mesma corôa, é de soberba concepção. Era primeira intenção do artista dar outra orientação a estas duas figuras, mas fez bem em ter resolvido assim o problema. A fidalguia da guerreira Hespanha não podia tomar posição humilde deante d'um portuguez illustre e valoroso que tinha a gentileza de offerecer-lhe uma capella de flores, que mãos delicadas de mulher tinham composto.
Entrega de Evora―Quadro de antonio carneiro junior

Ha no quadro figuras flagrantes de verdade. Os frades dão-nos a impressão serafica d'homens que, entre o latim e o repasto, não quizeram tambem fugir á manifestação imponente que o povo fazia ao guerreiro vencedor.
Os cavallos estão bem estudados especialmente o que tem a garupa virada ao espectador, cujo tom de côr dá o verdadeiro avelulado sedozo de um alazão fogoso e bem tratado.
A neblina que se percebe por entre a porta em arco da cidade, no seu tom cinzento violaceo tem perfeitamente o tom do amanhecer dos dias lindos do Alemtejo.
Este quadro, destina-se a ornamentar a escadaria do sumptuoso palacio do snr. Barahona, d'Evora, um dos homens que mais tem acompanhado e protegido a Arte nacional.
Destacam-se para mim depois, n'esta exposição, os retratos. Ha-os flagrantissimos de verdade taes como o do
Dr. João Novaes
, e do
Antonio Cruz
, esse velho rapaz que conheci tal qual desde os tempos idos do
Jornal da Manhã
. O retrato do auctor n'uma postura scismadora e triste, verdadeiro estudo psycologico da sua individualidade; é soberbo. A figura distincta e airosa da esposa do seu amigo Alberto d'Oliveira, executada á noute sob a luz viva d'um largo candieiro de petroleo, é adoravel de côr e de execução.
No
Retrato da Ex.
ma
Snr.
a
D. Emilia de Carvalho
, executado com primor e cuidado, ha um ar de ingenuidade deliciosa e amiga que nos prende. A cabecita da pequenina Rachel, com os seus olhitos vivos e o seu ar risonho, dá-nos a tentação de um beijo todo amor, todo candura.
Notei na facção de todos os retratos um quê do genio de Columbano, mas um quê bom, sem aquella psychologia profunda e doentia que o mestre dá ás suas composições. Carneiro Junior é a meu vêr mais humano, mais positivo.
Da paisagem destacarei para aqui, como tendo-me dado mais viva impressão as seguintes:
Rio Tamega
(Amarante),
Crepusculo na montanha
,
Leça
(estudo),
No bosque
(impressão),
O mar
,
Um poente
e
Rua do Bomfim
(tarde de chuva), os quaes são flagrantes de luz e de tom.
O mar
, com o seu fundo em iris avermelhado é bello e a
Rua do Bomfim
, em tarde de chuva, na sua meia nevoa, é deliciosa.
Os desenhos para o estudo do grande quadro são magnificos de correcção e de justeza.
Baixo relevo (Bronze) antonio teixeira lopes

Cabeças estudadas do natural, nas suas linhas definidas, são primores de quem sabe e muito da, para mim difficilima, arte de desenhar.
Ha na exposição uma coisa que me encanta sobre todas as outras: são as cabecitas dos filhos do pintor, desenhadas a sanguinea. Não sei se por ser essa a minha côr predilecta, se pelo bem executado d'ellas. Naturalmente por ambas as circumstancias. São retalhos da alma d'esse poeta pintor que elle copia com um carinho desusado. Já na sua outra exposição um dos quadros que mais me enthusiasmou pelo amor e cuidado com que estava feito foi o retrato da esposa do artista, aquelle que tinha uma grande abada de flores. Isto confirma o que eu penso do homem, um
menager
todo conforto e carinho. Ponto, porém, que eu não estou aqui a fazer o retrato psychologico do artista, mas sómente a resenha dos seus quadros; mais nada.
A Procissão―candido da cunha

Fechando, vou fallar do esquisso final para o seu quadro grande.
Elle chama-lhe um esquisso definitivo, eu chamo-lhe um quadro completo. Gosto d'elle tanto ou mais do que do grande. Se me permitte, chamar-lhe-hei a miniatura do trabalho que é o
clou
da exposição.
Que Carneiro Junior desculpe este deslizar de cousas a respeito do seu talento artistico e da sua exposição.
E, a proposito d'esta e outras exposições, não será mau repetir que o meu fim não é outro senão vêr se se obriga o publico a interessar-se um pouco mais por o nosso meio artistico. Conheci alguns homens cheios de dinheiro e com pretenções a ter bom gosto, que nunca na sua vida gastaram dez tostões, que fosse, em uma pintura, a não ser na pintura obrigatoria das portas e das janellas da sua casa. Têm, quando muito oleographias ricamente encaixilhadas nas suas salas de receber.
Pois é preciso que esses homens que podem, venham ás exposições, puchem pelos cordões á bolsa, comprem quadros aos artistas que levam uma vida de trabalho e de estudo para nos darem com palpitações flagrantes os retratos que executam, e com vibrações de luz e de côr as paisagens que retalham da grande Mãe Natureza para telas, que poderemos ter no nosso quarto de trabalho, recordando-nos pedaços da nossa querida terra, tão bella de paisagens, tão deslumbrante de sol.
XXII Notas ligeiras d'uma Exposição
Maio é o mez das flores, dos poetas e dos artistas. E a comprovar o meu dizer lá se abriu n'este mez das graças e das bençãos, a 5.ª Exposição de Bellas-Artes, que a prestante aggremiação Instituto de Estudos e Conferencias, com o seu grande empenho de vulgarisar entre nós o gosto pela Arte, promoveu.
D. Lucilia Aranha Grave

Como simples informador d'um limitado publico lá fui n'essa romagem artistica no primeiro dia, mas, porque me vi rodeado por todos os pintores portuenses, não me atirei a tomar notas, nem a esmiuçar detalhadamente tudo aquillo.
Dois dedos de conversa a este, mais dous áquelle, ouvindo opiniões que passavam no ar, n'um quasi sussurro de confidencias, não podia o meu espirito socegadamente fazer a apreciação sentidamente minha, que eu queria fazer. Depois, eu tenho a veleidade de ter opinião, de pensar só... e não fazer como muitos que se deixam ir na correnteza do que lhe dizem os
espiritos santos de orelha
.
Eu vou sempre umas tres ou quatro vezes ás exposições d'arte, e fico burguezmente, como um bom mercieiro, estatico deante de todos os quadros... em alguns como n'uma adoração pelo bem executado, n'outros como n'um pasmo, do arrojo da concepção e n'outros então, assombrado, fulminado, ante a imbecilidade com que elles são feitos. E depois, serenamente, sem pretenções, nem vaidades, com a franqueza com que fallaria a um conhecido de ha muito, venho dizer ao publico a impressão que tive.
Paisagem―aurelia de sousa

Não levo a minha franqueza ao ponto de ser descortez com os artistas que conheço, nem a incensar bajuladoramente aquelles de quem sou amigo: não... sou um
critico
moderado... sem
coterie
, e honestamente independente.
O
vernisage
(eu estou muito visto em termos francezes, não acham?) esteve este anno, como em poucos, animado de artistas...
O
salon
tinha um quer que era de superior. Os artistas tinham-se dado ali
rendez-vous
...
Aos grillos―julio ramos

Uma coisa faltava para dar a nota
chic
, e fina... eram os rostosinhos galantes d'algumas das nossas damas. Se ellas tem apparecido, poderia dizer n'este artigo com
aquelle meu gesto á Augusto Rosa
, que o outro me encontrou, que a abertura da Exposição tinha estado muito curiosa, muito
becarre
.
Faltaram porém essas notas estridulas de garridice das senhoras, mas, em compensação appareceram por lá magnificos tipos
caricaturaes
e
grotescos
!... Se até eu estive lá!!!...
Agradou-me á primeira vista o conjuncto do
certamen
, se bem que de visita mais demorada, como a que em outra vez fiz, não trouxe de lá a mesma impressão.
Ahi está, se eu tivesse feito de afogadilho este artigo teria dito que a exposição era geralmente boa, e agora não, não seria tão pessimista. Recortarei pois do catalogo alguns nomes como os de mais destaque.
Em primeiro logar, e affirmando cada vez mais a caracteristica de um primoroso paisagista, Marques de Oliveira, com as suas trese telas de paisagem e marinha, e ainda como affirmativa de que elle toca com o mesmo saber a nota da figura, uma primorosa
Cabeça de velha
, tão finamente tratada, tão cuidadosamente desenhada e collorida que me maravilhou.
A seguir vem Candido da Cunha, esse delicioso poeta nostalgico de pintura, que me suggestiona com os seus quadros, poentes deliciosos, onde parece que, atravez d'uma doce tonalidade de aldeia, se ouve o religioso toque das Avè-Marias. É Candido da Cunha um d'estes pintores que ao serem vistos uma vez nos seus trabalhos, deixam ficar na nossa retentiva o seu modo especial de pintar, para nunca mais se esquecer, tal é o seu sentimento.
Paisagem―candido da cunha

Torquato Pinheiro tambem se nos apresenta bem, com uns nove quadros, que a não ser aquelle seu tom
gris-violete
, tão seu, tão peculiar, me fariam uma mais larga impressão. Destacarei porém as
Lavadeiras na levada
,
Á vista do Marão
,
Sol de tarde
e
Fim de tarde
(Real, Porto).
Julio Ramos, tambem nos dá quadros que demonstram o seu saber, especialmente o
Fim da tarde
, que é, a meu vêr, um explendido trabalho.
José de Brito vem á exposição com dous retratos a oleo, um pastel e algumas aguarellas. Dos retratos a oleo notei como bem executado especialmente o de
D. Margarida G. Oliveira
.
Lavadeiras na levada―torquato pinheiro

O seu pastel―
Retrato do conselheiro Avides
, é um bello trabalho. Este artista é para mim um dos melhores desenhistas a pastel. As suas aguarellas são bem feitas, muito bem feitas.
João Augusto Ribeiro.―Esse bello artista que conheci como um dos bons, vem á exposição com seis quadros. Destacarei
O Estudo
(de troncos),
Depois da chuva
,
A Madrugada
, que me parecem affirmar d'uma maneira categorica que Ribeiro é um bello artista.
D. Margarida Costa Romão

Ha ainda Eduardo de Moura com um quadrinho muito interessante
Um interior de um aido
, onde o assumpto é estudado com cuidado, e pintado com saber, dando a confirmação de que este artista não é uma vulgaridade.
Mais alguns artistas ha na exposição, mas, para não desviar o espirito do leitor, nem lhe massar a paciencia, não me occuparei d'elles, nem dos seus trabalhos. Não é porque alguns não mereçam a minha attenção especial, mas, tenho que dedicar duas palavras a algumas senhoras artistas, e aos amadores, e se fosse a gastar muito tempo e espaço, pouco poderia dizer d'estes ultimos.
Quando entrei pela primeira vez na exposição, logo me saltou á vista um quadro de
Camelias
, que eu julguei ser do velho Costa o grande pintor de flores. Aproximei-me e com surpreza vi que não era d'elle, mas, sim de D. Margarida Costa Romão, uma nova que ao apparecer nos diz logo quanto vale. Mas, não admira, lá diz o dictado:―filho de peixe sabe nadar―e D. Margarida Costa é filha de um bello pintor, o Julio Costa. Pois esta senhora com os seus tres quadros dá-nos a impressão sincera de que se continuar, como principia, ha-de ser uma grande artista.
D. Alice Grillo Lima. Já muito nossa conhecida como uma verdadeira artista, tambem d'esta vez se nos apresenta com muita correcção e saber. São bons os seus dous quadros de camelias.
D. Sophia de Sousa, n'esta exposição vem desfazer uma desagradavel impressão que me tinha ficado d'uma exposição anterior. Agora, com pujança artistica, apresenta-me seis quadros, entre os quaes, com uma garridice soberba digna de nota, o seu
Ao sol
,
Ao Sol―sophia de sousa

que é um trabalho largo, definido, cheio de luz, de côr, de transparencia.
Uma paisagem
e o
Margens do Ave
, são trabalhos dignos de menção.
Apparecem n'esta exposição alguns amadores entre elles, um com muitos quadros, o sr. Hugemin, que já em tempos fez uma exposição só sua, onde deu provas evidentes de que é um amador-artista de valor.
Entre as amadoras está a snr.
a
D. Maria Afflalo, que pela primeira vez expõe os seus trabalhos e que fazendo-o prova que tem muitas aptidões artisticas e é uma discipula que honra sobremaneira o seu professor José de Brito.
D. Leopoldina Pinto, com o seu quadro
Flores e fructos
, apresenta mais uma prova do seu saber pinturar.
D. Maria Afflalo

D. Clotilde Rocha Peixoto, é uma discipula da Academia de Bellas Artes que se apresenta com um largo quadro inspirado na deliciosa poesia de Campoamor:
Quién supiera escribir!
É um amplo trabalho executado visivelmente com muita e muita proficiencia. Ha uma das figuras (o padre) que está traçado com correcção e muita propridade.
Poderei affirmar que esta amadora é uma das novas que mais firmemente demonstra que ha-de ser uma bella artista.
Ainda figuram na exposição mais algumas senhoras, taes como: Viscondessa de Sistello, Condessa de Alto Mearim, D. Maria Alto Mearim, D. Beatriz Alto Mearim.
A condessa de Alto Mearim confirma de um modo justificado o seu talento
hors ligne
na confecção do bello quadro
Poveretta
.
José Romão Junior

D. Beatriz Alto Mearim, apparece com o seu estudo a pastel; tambem lhe não fica a dever nada. É este seu trabalho uma prova incontestavel do seu muito merito artistico.
D. Maria Luiza Alto Mearim apresenta duas cabecinhas interessantes e regularmente bem feitas.
Viscondessa de Sistello, com tres paisagens feitas com conhecimento de Arte, especialmente uma, que é bellamente feita.
Ha na exposição dois trabalhos de esculptura, um de Fernandes de Sá,
Rapto de Ganymedes
, outro de José Romão Junior,
Cabeça de estudo
.
A respeito do primeiro artista já eu disse atraz n'um desenvolvido artigo, o que pensava d'elle. Successor indiscutivel de Teixeira Lopes, é um bellissimo talento.
Do segundo, Romão Junior, é a primeira vez que vejo trabalhos seus, e confesso que a
Cabeça de velho
que apresenta, me dá uma magnifica impressão.
Poveretta―Condessa de alto mearim

A figura lançada com largueza tem magnificos requisitos. É uma demonstração evidente de que Romão Junior maneja o cinzel e o escopro com proficiencia. Um novo de talento que, de futuro, ha-de continuar a affirmar que a raça dos esculptores portuenses é das de primeira ordem.
Na secção aguarella só figuram os nomes de dois concorrentes José de Brito, de quem atraz já fallei e D. Isabel Lauer.
Esta ultima com dois quadrinhos de figuras. Para mim não me desagrada o operario, se bem que nenhum d'elles por completo me prenda muito a attenção. Bastante amaneirados e muito exquisitos.
Com desenho a pastel apparecem tambem só dois concorrentes: José de Brito, artista consumado n'este genero, e D. Beatriz Alto Mearim.
Falta fallar de duas secções, ainda: desenho a claro-escuro e arte applicada. Na primeira das secções ha um trabalho delicioso de Torquato Pinheiro, um fino desenho do
Convento de Santa Clara
de Villa do Conde, trabalho impeccavel de correcção e firmeza.
Luiz Bastos, traz-nos retalhos d'essa linda Coimbra a cidade dos Bachareis, apanhados em estudos varios do Choupal, do Rio Mondego, de Santo Antonio dos Olivaes, etc. Alguns feitos com mestria.
Na arte applicada, Jorge Collaço, o distincto caricaturista do
Supplemento de O Seculo
. Os seus azulejos são interessantes e dignos de nota, especialisando o grande quadro
Reviravolta
, estudado com interesse e executado com cuidado.
E eis, meu amigo publico, a impressão sincera de quem viu a exposição com a independencia caracteristica do seu pensar e com a antecipada disposição de não regatear merecimentos a quem os tivesse, nem adular aquelles que, sendo mediocres, aspiram á enfatuada bazofia de serem notaveis. Sinceridade e nada mais.
É provavel que os
verdadeiros
entendedores não pensem como eu, mas lá diz o dictado:―que seria, do amarello se não houvesse mau gosto.
Deveria fechar já aqui a minha informação mas vejo lá expostos uns azulejos,
panneaux
, etc., que se desculpam por serem o reclame de uma fabrica de Ceramica, porque, se tem sido apresentados como trabalhos artisticos, então deveriam ser exautorados rigorosamente.
E adeus, que não tenho tempo para mais, nem sei mesmo se alguem terá coragem de ler isto até ao fim.
Barcos de pesca―julio ramos

XXIII AMADORES PORTUENSES
ALBERTO AYRES DE GOUVEIA
Discipulo de MARQUES DE OLIVEIRA
Este meu biographado não é precisamente um amador; poderia, sem receio ele ser contraditado, e sem medo de errar, incluil-o francamente no numero dos nossos mais distinctos pintores, e isso porque os seus trabalhos artisticos são de molde a dar-lhe esse fôro.
Alberto Ayres de Gouveia

Alegro-me ao escrever este artigo, e alegro-me porque é sempre com consolo que me refiro áquelles que, possuidores de algum valor, se não deixam adormecer á sombra ele alguns louros colhidos na paz doce da mandria, antes tentam a mais e mais fixar as suas aptidões, n'um trabalho serio e proveitoso.
E, Alberto Ayres tem feito isto. Desde que se emprehendeu a pintar tem trabalhado com afinco e muitissimo proveito.
Conhecia de ha muito este rapaz, que, pela sua avultada fortuna, pelas relações de familia, e por viver na alta roda, onde se dava o prazer de ser um dos eleitos, eu tinha na conta de um excellente cavalheiro, um fino homem de sala, cavaqueador com espirito e mais nada!
Mas, enganei-me redondamente, o que não é para admirar, porque acontece a muito boa gente.
O meu biographado era tudo aquillo e ainda mais alguma coisa:―um amador
enragé
da pintura.
Como soube eu isto e como tive emfim a confirmação do seu merecimento artistico? Vou tentar dizel-o em poucas palavras.
Nas noites frias de inverno temos por costume reunirmo-nos alguns amigos em cavaqueira alegre e discutimos n'essas occasiões muitissimas coisas, problemas d'Arte, mundanismo, casos alegres do dia, philosophando de vez em quando sobre politica, litteratura, celebridades, theatros, etc., etc. Não é um cenaculo, nem uma academia, é um
cercle
algo espiritual, onde a alegria tem especialmente o seu logar.
Pois n'uma d'essas cavaqueiras abordou-se o assumpto pintores e amadores, e entre outros nomes veiu á tela da discussão o nome de Alberto Ayres de Gouveia, que um dos circunstantes conhecia perfeitamente.
Elogiou-o, fez a historia da sua aprendizagem d'Arte e eu fiquei como se costuma dizer com a
pedra no sapato
e, como observador que sou, tratei immediatamente de me informar do merecimento verdadeiro ou falso d'este amador.
De divagação em divagação e de informe a informe, vim a concluir que o meu amigo tinha muita razão e que Alberto Ayres era de facto um rapaz de incontestavel merecimento artistico.
Mas, não só como pintor elle deveria ser apreciado, como auctor e amador dramatico tambem. Eu me explico.
Um anno, estando a banhos como de costume, na formosa e aristocratica praia da Granja, alli deu as suas provas de amador, desempenhando, n'uma festa de caridade, alguns papeis de umas deliciosas comedias, que elle proprio tinha escripto, e que, segundo entendedores do genero, eram verdadeiras joias litterarias finamente buriladas.
E, com esta minha eterna mania de conversar, uma tarde, no atelier do meu muito amigo e infeliz Manuel San Romão, fallando-lhe dos divertimentos da Granja e a respeito do baile Luiz XV que alli se dera, das finas recitas que a gentil colonia alli a banhos, costuma realisar, o nome de Ayres de Gouveia foi citado e eu disse como me tinham inspirado sobre o seu merito litterario e artistico.
Manuel San Romão, com aquelle seu modo correcto e fino e aquelle seu espirito ousado e emprehendedor, n'um gesto todo de enthusiasmo fallou-me d'elle dizendo, que no que elle era notavel era na pintura e citava um formoso retrato do Snr. D. Antonio Ayres de Gouveia, então Bispo de Bethesaida, hoje Arcebispo da Calcedonia e tecendo-lhe os mais rasgados elogios, affirmou-me que elle era um amador que havia de futuro marcar epocha entre os artistas (mestres) portuguezes.
A palavra do Mestre―alberto ayres de gouveia

A opinião de Manuel San Romão, era para mim como uma pagina do Evangelho; elle que lhe via merecimento era porque na verdade o tinha.
O retrato se não era uma maravilha, dizia San Romão, era no entanto uma obra acceitavel e cheia de bellos predicados, um verdadeiro quadro tocado com proficiencia, desenhado com saber, d'um colorido doce e d'uma mais que regular semelhança.
Ao ouvir isto, logo se me arreigou no espirito a ideia de que elle tinha talento e me nasceu o desejo de ter de
vizu
a confirmação d'isso, o que só poderia conseguir visitando o seu atelier e a sua galeria, pois que elle, nem expunha, nem vendia os seus trabalhos.
Como conseguir porém isto? Quasi impossivel, porque o amador fugia á visita que eu tentava fazer-lhe, querendo assim deixar-se ficar no encoberto mysterio d'uma modestia, que não tinha razão de existir.
Passara-se tempo, muito tempo, sem que eu tivesse o prazer de, encontrando-o, lhe manifestar o desejo que tinha de n'uma visita ao seu atelier, vêr o que elle tinha realisado em Arte.
Em 1902, abre uma das exposições que o Instituto de Estudos e Conferencias tão proveitosamente tem organisado e realisado no Pateo da Misericordia. Era um magnifico dia de
vernisage
, e eu ao entrar sou immediatamente attrahido d'um modo particular e suggestivo, por umas poucas de telas que me saltam á vista impressionantemente. Tomo do catalogo e folheando inquiri quem é o seu auctor. O nome de Alberto Ayres de Gouveia era o que se lia por cima dos numeros que eu procurava. Eram, de facto, de molde a impressionar os trabalhos expostos. Á mente me saltou, como uma doce recordação, a conversa que tivera com Manuel San Romão e immediatamente me convenci de que quem pintava aquelles quadros não podia ser apellidado de simples amador.
Era indiscutivelmente muito mais do que isso, era um verdadeiro artista e com trabalhos taes, que alguns pintores, com nome feito, não desdenhariam assignar.
Em artigo que n'outro logar publíco a elles me referi e alli disse alguma coisa do que pensava a tal respeito. Agora porém que dedico ao seu auctor duas paginas do meu livro, em especial, não será demais tornar a fallar d'elles.
Eram para mim esses trabalhos primorosos, mas, se alguns defeitos tinham eram elles por si tão insignificantes que apenas mereciam o reparo ligeiro e unicamente indicativo, sem que viesse aggravado com a investida descortez e brutal de certa critica imperduravel e muitas vezes inconsciente. Porque os trabalhos expostos eram indicados no catalogo simplesmente como d'amador, mas d'amador distincto e correcto em verdade.
E bastava só isto, que elles fossem de amador, mas feitos firmemente com largueza de traço, precisão de côr, correcção de desenho e de perspectiva, definidos emfim como de verdadeiro artista, para espantar a critica de campanario e os entendedores
bon marché
.
E tudo isto porque? Porque habitualmente os amadores quando apparecem em publico com trabalhos seus, são estes tão banaes e tão simples que passam perfeitamente desapercebidos entre os trabalhos dos artistas, sem lhe fazerem mossa, ou sem lhe provocarem confrontos.
Com Alberto Ayres, porém, não se dava isso, apparecia pela primeira vez, mas tão desassombradamente e com trabalhos de tal folego, que até houve quem não quizesse acreditar que eram d'elle. Mas eram e tão bons que poderiam entrar com gloria em qualquer concurso, pois tenho a certeza que ao seu auctor seria dada uma primeira classificação.
Christo morto―alberto ayres de gouveia

Então é que mais e mais se me encasquetou na cabeça a ideia de observar toda a sua obra, conhecel-o no seu intimo, na sua maneira de vêr e de pintar, e depois de um assedio em forma consegui que elle me desse a honra de permittir-me uma visita d'Arte. E visitei então a sua formosissima casa, onde se espalham artisticos
bibelots
e bellos trabalhos de muito valor artistico. Fiz esta visita cheio d'uma suave uncção que se deve aos templos onde se sacrifica a um Deus. N'aquella casa sacrificava-se a Deusa Arte e por isso reverente alli me conservei.
Conversando durante algum tempo contou-me a sua iniciação na arte de pintar, e como, sob a competente e abalisada inspecção do grande Marques d'Oliveira, pôde conseguir o que fazia.
Desenhou muito, e quando lançava os seus vôos para mais alto, sob indicações do professor, foi em viagem artistica pela Europa, aos paizes onde mais afincadamente se rende culto á Arte e alli estudou nos museus e nas escolas de pintura alguma coisa que lhe désse conhecimentos uteis. E assim, analysando e estudando os quadros geniaes dos mestres e acompanhando os adeantamentos e os progressos das novas escolas, percorreu os muzeus de Madrid, Paris, Londres e Italia, não com a despreoccupação de um
touriste
, mas com a observação religiosa d'um crente, sob a indicação e a companhia de Marques de Oliveira, seu professor e que é entre os que pontificam na Pintura, um dos que mais sabiamente sabem vêr, porque é dotado d'um espirito critico especial e finissimo.
Da visita que fiz ao atelier d'este distincto amador, ficou a mais grata e a melhor das impressões.
D'entre as telas que vi, as que mais fundamente me impressionaram foram a
Leitura das prophecias
,
Retrato do Ex.
mo
e Rev.
mo
Snr. Arcebispo de Calcedonia
,
A palavra do Mestre
,
Retrato do proprio auctor
,
Retrato de A. Burnay
,
Estudo
,
Baixo imperio
,
Appolo
e
Cabeça d'estudo
(carvão), que são admiraveis.
S. João lendo as prophecias―alberto ayres de gouveia

D'alguns d'estes trabalhos, apresento as gravuras, que pude conseguir, quebrando quasi á força a modestia do meu biographado.
El-Rei D. Carlos, n'uma visita que fez á Exposição de Bellas-Artes em Lisboa, fez menção especial dos seus quadros, chamando-lhe pintor notavel e de pulso.
E de facto El-Rei não se enganou porque Alberto Ayres de Gouveia está na galeria dos artistas de pintura portuguezes mais distinctos.
Paisagem―candido da cunha

Estudo―joão augusto ribeiro

XXIV Uma Exposição de Estatuetas
FRANCISCO GOUVEIA
Já era tempo de dedicar algumas palavras de justiça, ao distincto artista Francisco Gouveia, ácerca da visita que fiz á sua magnifica exposição de esculptura, aberta aqui no Porto, no Salão da Photographia Guedes, e cumprir o dever gratissimo de corresponder á galanteria e ao modo penhorante como elle me acolheu.
Francisco Gouveia

E faço-o, porque nunca antepuz á manifestação de admiração pelos trabalhos de qualquer artista de valor, outra qualquer manifestação.
A Arte, para mim a mais sublime das cousas, a mais insinuante das manifestações, tem um logar tão alto, tão deslumbrante, tão culminante que em frente d'ella eu julgo-me insignificantemente pequeno, e curvando-me reverente, fico depois extatico, cheio d'uncção na mais santa e na melhor das adorações.
Por isso, ao abalançar-me ao cumprimento d'um dever sagrado, eu commetteria um crime de lesa-religião artistica se não dedicasse algumas paginas á deliciosa exposição, que ha tempos tive o prazer de visitar.
Já o tenho dito varias vezes e hoje o repito: eu sempre que tenho ensejo de admirar uma obra de arte, pintura, esculptura, musica, ou seja o que fôr, nunca falto; sou dos que vou primeiro, e, quasi sempre, dos que sahem no fim.
É facil ficar perfeitamente embasbacado em frente d'um quadro, ou d'uma esculptura, durante horas, alheio a tudo quanto se passa em volta de mim, tal me tem succedido ante as obras de Malhôa, Salgado, Carlos Reis, Marques de Olivieira, etc., e como em nenhumas outras, ante as extraordinarias creações do sublime Teixeira Lopes.
Teixeira Lopes f. gouveia

Por isso, como um fanatico pela Arte eu accorri ao Salão da Photographia Guedes a vêr os trabalhos, já para mim conhecidos de nome, do nosso querido concidadão Francisco Gouveia.
Que este artista, como todos os bons esculptores portuguezes, tambem é filho do Porto.
Francisco Gouveia, era um nome que se impunha já de ha muito á consideração e á admiração de todos nós, porque lá fóra, no estrangeiro, affirmava exhuberantemente, com os seus trabalhos, que nós os portuguezes tambem somos capazes de dar provas evidentes e definidas de intellectualidade e aptidão artisticas.
Entre muitos dos seus bellos trabalhos destacarei, para fazer notar aqui, o seu
Beatriz de Portugal
, que marcou d'uma fórma confirmativa e energica o seu saber e o seu modo de esculpir.
Este trabalho ao apparecer em Paris, de tal nomeada foi cercado, que mereceu a honra de ser reproduzido em diversas illustrações estrangeiras, onde se fizeram referencias honrosamente dignas ao nome do nosso artista.
Mas, como diz Xavier de Carvalho n'um pequeno esboço critico a respeito de Francisco Gouveia: «quiz ser o artista naturalista no minucioso detalhe, começando por nos dar um
Eça de Queiroz
apanhado n'uma
pose
verdadeiramente natural e sincera. Depois temos a serie das suas esplendidas estatuetas, tão cheias de vida plastica, d'um correctissimo desenho, mesmo quando o esculptor passa da maneira emocional do seu mestre querido Injabert á larga
ébauche
de Rodin que mesmo chegou a attingir na silhueta do grande artista rebelde».
E de facto assim é. Francisco Gouveia realisou este
desideratum
e ao abrir ao publico indifferente e á critica honrada e honesta d'uns, venenosa e malsinada d'outros, a sua exposição, fel-o, sem aspirar as louvaminhiches dos primeiros nem temer boas ou más apreciações dos segundos. Fel-o como affirmação publica do seu talento artistico e da sua persistencia do trabalho, fel-o como era justo que o fizesse.
Para isso traz-nos 78 trabalhos qual d'elles o mais fino, qual d'elles o mais correcto, qual o mais bem estudado, e mais bem executado.
Desde a estatueta séria á estatueta caricatural, desde os medalhões graves ás mascarasitas patinados, nada ha alli que não seja correcto e que não seja perfeito.
Estudos regularmente anatomisados, dando o individuo em todo o seu ser, em todo o seu aspecto, com todo o ar natural, parecendo mover-se regular e compassadamente, vivificados, com movimentações naturaes, expressão definida no rosto. E tudo isto em estatuetas que variam entre 40 e 60 centimetros d'alto.
Eça de Queiroz f. gouveia

Mas, ha para mim, entre todos os trabalhos expostos, um, que é dos mais extraordinarios―a caricatura psychologica do grande morto
Eça de Queiroz
!―Fulgurantissima de genio. Vemos n'ella, n'aquelle bronze, atravez da esgrouviada figura do romancista que nos assesta o monoculo n'uma persistente meticulosidade de observador a sua alma analysta, com um quê de sarcastico, como sorrindo-se interiormente de toda esta nossa sociedade, que elle olha atravez da sua impertinente lente. É simplesmente assombroso.
A minha vontade era fazer notar uma a uma as estatuetas, as composições, as caricaturas, as medalhas, mas isso é impossivel e portanto, em mais duas palhetadas vou fechar este artigo.
Entre os trabalhos
estatueta-retratos
, muitos d'elles de pessoas nossas conhecidas, ha alguns com quem appetece conversar um pouco. A do
Marcos Guedes
, a do
Pae Ramos
, (ambos estes collegas do
Janeiro
), a do
Snr. Caetano Pinho da
Silva
, a do nosso querido
Teixeira Lopes
, a de
Guedes d'Oliveira
são magnificas. Ha tambem um retrato do grande poeta
Guerra Junqueiro
(phantasia), que é muito interessante. Guerra Junqueiro é apresentado com uma tunica que lhe cae sumptuosamente como a um propheta, tendo o braço direito levantado em menção de quem préga o Evangelho, e no braço esquerdo as taboas da lei. É delicioso de concepção e de execução.
Marcos Guedes―Guedes d'Oliveira―Guerra Junqueiro―Pae Ramos― francisco gouveia

Na
estatueta-composição
destacarei:
A viajante
,
A primeira esculptura
,
A parisiense
,
A tristeza
,
Meditações
,
Grupo de leitoras
,
Saudades
e
Ama parisiense
(do jardim de Luxemburgo).
Mas que estou eu aqui a destacar, se todas ellas são boas, se todas ellas me encantaram?!...
As outras, terras-cotas, bronzes, etc., são, como estas, deliciosas obras, que merecem ser vistas e apreciadas devida e detalhadamente.
Não é esta exposição de molde a ser visitada como uma exposição de quadros, onde as côres nos venham de longe em varias tonalidades, á vista. Não, aqui precisamos de parar, analysar feições, expressões, linhas, tudo, emfim. É preciso deixar a vista pousar durante um pouco, para examinar toda aquella perfeição, toda aquella correcção, que não se póde vêr á
vol d'oiseau
. É preciso fazer como eu fiz, estar lá horas e voltar lá mais vezes, que de cada vez que se lá volta novas cousas se descobrem nos trabalhos expostos. Quem vê só uma vez, quasi sempre não vê nada.
Vou acabar por aqui, antes, porém, devo dizer que Francisco Gouveia é um d'estes rapazes insinuantes, com quem se sympathisa logo que se falle com elle uma vez.
Modesto em extremo, é um trabalhador de verdadeiro merito, e um espirito lucidissimo. E eu, ao fechar o meu artigo para as
Notas d'Arte
, aqui lhe deixo significadas, ainda que muito pallidamente, a minha admiração ao seu grande talento artistico e a convicção de que o seu nome tem o direito indiscutivel de figurar a par do dos nossos primeiros artistas, pois exuberantemente conquistou um dos primeiros logares, como sacerdote magno, no templo da sublime Arte Portugueza.
Paisagem―lucilia aranha grave

Teixeira Lopes

Caim―teixeira lopes

XXV MANUEL MONTERROSO
Tenho para mim este modo de pensar, talvez exotico, mas convicto, de que a caricatura é um maravilhoso remedio para muitas doenças sociaes.
Bem sei que nem sempre a cura se faz e a caricatura é applicada sem resultados praticos.
Manuel Monterroso

Mas, muitas vezes, a maior parte d'ellas, a applicação adquada, d'uma caricatura, no momento psychologico, produz tal revolução no meio onde é lançada, que a doença social desapparece como por encanto.
Com todos os remedios acontece a mesma coisa. Quantas vezes um illustre clinico applica um caustico, cheio de confiança, convencido que dentro de duas horas a pelle do doente estará levantada e suppurante, e apesar do medicamento estar em pleno effeito, o caustico falha, ou porque o doente já não dá reacção para que o resultado seja satisfatorio, e n'esse caso está morto, ou então por que a pelle é de tal fórma grossa e callejada que não ha nada que a possa atravessar e remover!
As doenças da sociedade são tal qual as doenças dos homens. E ella propria tambem tem anomalias como qualquer doente.
Uma sociedade morta, ou quasi a dar o ultimo suspiro, póde ser causticada com caricaturas, que não resurgirá. E o mesmo succederá se ella pela desfarçatez dos seus caracteres fôr uma sociedade
estanhada
, endurecida e callejada. Mas se entre essa sociedade alguma coisa houver ainda que vitalmente sinta as picadas ardentes da caricatura, então ella resaltará e viverá pondonorosamente espurgada do mal que a amortecia e definhava.
Dr Leopoldo Mourão Caricatura de manuel monterroso Publicada na Voz Publica

A mesma revolução se faz na vida social dos homens isoladamente. Caricaturados por um lapis mordaz, mas fino, que os apresente á irrisão publica, sob qualquer dos seus aspectos ridiculos, elles remorder-se-hão na sua vaidade intima e, procurarão, embora disfarçadamente, curar-se dos seus defeitos, se é que o mal da desfarçatez os não contaminou tão intimamente, que os tenha posto por completo fóra da acção benefica, embora torturante do medicamento.
Muitos, muitissimos factos poderiam ser apontados como provas indiscutiveis e irrefutaveis, se quizessemos d'um modo affirmativo e terminante impôr a nossa opinião. Mas, não, não temos nem esse desejo, nem essa vaidade. Ao delinear estas linhas, simplesmente o fazemos como o
avant-propos
á apresentação que tentamos fazer d'um dos mais distinctos medicos portuenses, e no momento presente o primeiro caricaturista portuguez.
Hoje que infelizmente perdemos o maior de todos os nossos caricaturistas―o grande, o incomparavel mestre―Bordalo Pinheiro, posso dizer abertamente que Manuel Monterroso é entre nós o unico capaz de seguir tão gloriosamente como o Mestre, as suas deslumbrantes pisadas e seu genio fulgurante e radioso.
Uma pagina da Parodia―manuel monterroso

E, não quero que Monterroso me agradeça estas verdades sinceras que me saltam da penna, ditadas pelo pensamento, espontaneamente, lealmente, taes como as sinto. Não, nem o meu fim é esse. Se lhe dedico algumas palavras é porque na minha pequenez de insignificante amador de Arte, tenho por elle, pelo seu lapis fino e caustico e pelo seu muito talento artistico, uma profunda admiração.
Extasiava-me
diante das caricaturas de Bordalo com a veneração adoravel de verdadeiro admirador, do engraçado, do mordaz, do bello e do correcto.
Hoje ante o traço fino, seguro, preciso e mordaz de Monterroso tambem me permitto ficar extasiado. E tudo isto porque o considero um optimo caricaturista, um perfeito desenhista.
Incapaz, como sou, de faltar á verdade, não escrevia que o achava grande, nem o diria tão afoitamente, se não estivesse, como estou, convencido de tal.
Não digo isto, é bom que se saiba, para me dar ares; digo-o porque rebuscando e procurando na pequena galeria dos caricaturistas portuguezes, não encontro nenhum que possa passar-lhe adiante.
João Oliveira Ramos Caricatura de manuel monterroso Publicada na Voz Publica

Nem mesmo o Manuel Gustavo, que ainda assim, para, mim, é um dos melhores.
Pois, nem mesmo esse, que tão intimamente conviveu com o Mestre, que tão de perto recebeu as suas lições, póde dizer ousadamente a Manuel Monterroso:―eu valho mais do que tu... o primeiro logar pertence-me...
Por que de facto não vale. Manuel Monterroso tendo a intuição natural de
fazer bonecos
, (como elle diz), conhecendo anatomicamente o homem (ou elle não tivesse sido um dos bons discipulos do terrivel Lebre
[1]
, possuidor d'uma retentiva verdadeiramente photographica, elle, vendo uma vez um individuo, apanha-lhe immediatamente, não só as linhas geraes, mas os mais pequenos detalhes caricaturaes: e, n'estas condições, com estes predicados e alem de tudo isto uma boa dóse de talento, realisa desenhando verdadeiras obras primas.
Raphael Bordallo Pinheiro Caricatura em barro de manuel monterroso

Fulgurantissimas de graça são as varias paginas, que muitas vezes, de collaboração com os litteratos Campos Monteiro e Guedes d'Oliveira, viram a luz na
Parodia
.
Notavel como trabalho de verve fina e delicadissima a caricatura que foi offerecida ao Dr. João Pereira Dias Lebre, professor de anatomia da Escola Medica do Porto, no anno em que elle se jubilou.
Notaveis os seus trabalhos, que tem distribuidos por amigos, em amistosas dadivas.
Caricaturas avulsas de typos conhecidos feitas em intimas camaradagens e que o grande publico nunca teve o prazer de vêr, mas que eu conheço perfeitamente bem. Não fallando nas caricaturas que a largos traços de carvão elle lança rapidamente sobre o papel branco que friamente apparece ao publico, quando em algum concerto de caridade elle vem tambem coadjuvar o luzimento d'essa festa, com a irradiação do seu genio repentista e correcto.
N'essas occasiões é que elle tem mostrado mais publicamente a facilidade com que retem e executa o desenho caricatural dos typos apresentados.
A todos quantos tenho visto fazer este genero de trabalho, tenho notado uma coisa: elles ao apresentarem-se em publico trazem já no seu cerebro estudados e desenhados os typos a executar, e assim invariavelmente nos atiram com o José Luciano, o Hintze Ribeiro, o Burnay, o Zé Povinho, o Rei de Inglaterra, o Rei de Portugal e outros personagens, cujo perfil está de ha muito conhecido e estudado, perfis que, a maior parte das vezes, eu mesmo, leigo em desenho e em caricatura, ia desenhar depois de uma leve recordação.
Manuel Monterroso, não faz assim. Uma vez no palco ou estrado, lança a vista por sobre a plateia, e com aquelles olhinhos vivos e penetrantes fóca um individuo. Olha-o duas vezes e em seguida, costas voltadas ao publico elle ahi vae, carvão em punho, traçando, rapida e precisamente o typo que escolheu. É assim que elle faz; nunca trouxe de casa, no seu
caderno
de apontamento, as notas typicas dos individuos a desenhar.
Mas, não só como desenhista e caricaturista a lapis ou a aguarella, elle é notavel. Ha alguma coisa mais a notar no meu artista.
Como ceramista tambem é para ser notado e muito.
O Rei da Peça―Caricatura de manuel monterroso Publicada no Primeiro de Janeiro


―Ora? dirá o leitor! Como ceramista? Pois não lhe conhecia essa prenda?!
―Nem eu! Mas ha tempos em conversa, a rirmos sobre mil coisas diversas e muito especialmente sobre
bonecos
, Manuel Monterroso disse-me á queima roupa: Sabe, vou fazer
bonecos
em barro, caricaturas de outra especie.
―Você está a brincar, disse-lhe eu.
―Não estou, não, verá. E a primeira ha-de ser a do Bordalo (ainda elle era vivo). Dito isto, despediu-se de mim, e, bem contra minha vontade, não o tornei a vêr durante uns poucos de dias.
Nem mais me tinha lembrado d'isso, quando uma bella manhã vejo entrar o Monterroso pela porta dentro com um embrulhosito na mão, dizendo:―Cá está a obra.
Os Donos da Casa―Caricatura de manuel monterroso Publicada no Primeiro de Janeiro

Corri apressado ao seu encontro, obrigo-o a mostrar-me o embrulhito e... ante a apparição que se fazia deante dos meus olhos eu ficava estasiado.
Uma delicada, uma fina maquete da figura em corpo inteiro do grande mestre da Caricatura, apparecia diante de mim, admiravelmente lançada, sabiamente estudada e medida, bellamente executada. Não parecia o primeiro trabalho de um amador, não. Era o trabalho de quem sabe e muito, como o barro se espalma e se contorna, como se
modela e como
se vivifica.
José Ribeiro―Caricatura em barro de manuel monterroso

Não penseis que faço o
elogio
balofo d'uma insignificancia. Faço simplesmente a resenha verdadeiramente sincera de uma das mais notaveis manifestações do talento do meu querido caricaturista.
Não resisti, abracei-o, felicitando-o e pedi-lhe que continuasse n'aquelle novo systema de caricaturar os homens notaveis do nosso tempo, e do nosso conhecimento. Prometteu-me continuar mas, a sua medicina e os seus muitos afazeres, não tem consentido que os meus olhos possam vêr mais d'aquellas deliciosas obras.
A reproducção em bronze da
maquete
, em que fallei foi elle, como manifestação da sua muita admiração e amizade pelo grande mestre, levar-lh'a a Lisboa, onde Bordalo, como eu, se extasiou ante a disposição artistica de Monterroso e a execução d'aquelle trabalho.
E, posto isto, posso fechar o artigo porque já provei bem á evidencia que Manuel Monterroso é innegavelmente um rapaz de indiscutivel talento.
Mas, perguntará o leitor: a que veiu aquelle prologo em que se fez jogar a medicina e a caricatura como meios curativos da sociedade e das gentes?!
Eu explico. É que se não tivesse gasto tanto tempo ainda vos havia de dizer como é que o Manuel Monterroso póde ser ao mesmo tempo um grande caricaturista e um bello medico. Isso porém fica para segundas leituras.
XXVI A BAIXELLA BARAHONA
Venho cheio d'um sincero enthusiasmo fallar-vos agora exclusivamente d'um dos maiores acontecimentos para a arte de ourivezaria portugueza, e não só para ella como para a Arte, na verdadeira accepção da palavra; da Baixella Barahona!
Columbano Bordallo Pinheiro

É esta já bem conhecida em todo o Portugal, pelo que d'ella tem dito os jornaes de Lisboa, mas um brado mais, d'um sincero amador, nunca faz mal para engrossar o côro de hossanas, que em volta de tão magnificente obra, se tem levantado por todos quantos a tem visto.
A casa Leitão & Irmão, innegavelmente os primeiros joelheiros e ourives portuguezes, levaram a cabo a execução da obra mais monumental e mais artistica no seu genero, que se tem feito em Portugal ha cem annos para cá. E estou bem certo que será preciso passar um incalculavel numero de annos para que se faça uma outra obra assim.
Dous são os motivos, que me levam a acreditar n'esta profecia: «A falta de homens de gosto e de dinheiro, como o dr. Francisco Barahona; e a falta de comprehensão da maior parte da gente, de que a Arte é a manifestação mais bella e mais brilhante do desenvolvimento espiritual e intellectual d'uma nação».
Serpentina da Baixella Barahona

Mas, como não me julgo com competencia para
divagações
philosophicas sobre
Arte
,
Dinheiro
e
Gosto
, vou entrar no meu assumpto―A Baixella Barahona―da qual estão em exposição o
Centro de meza
, e as
Duas serpentinas
.
São estes tres monumentos, deixem-me assim chamar-lhe, uma coisa phantastica. Delineados sobre motivos esculpturaes do tempo de D. João V, harmonisou-se n'uma contextura brilhante, encantadora, fazendo-nos passar, como que em revista as decorações architectonicas dos monumentos da epocha, os escudos d'armas da casa real de D. João V, as talhas douradas dos conventos, as conchas nacaradas dos mares, que nós portuguezes dominamos nos nossos tempos de navegadores, e as aguas espraindo-se nas nossas formosissimas praias onde o mar bate altisonante, cantando ainda restos das nossas passadas glorias.
É como que a orquestração muda d'uma epopeia de deslumbramento e de luxo. Mereciam um poema, tal é o seu primor e a sua riqueza.
Por ambas as vezes, que fui vêr estas deslumbrantes obras de arte, fiquei estasiado algumas horas, na contemplação d'ellas, e cada vez que as olhava novos encantos lhe achava; aqui eram os festões de flores que pareciam baloiçar ao sopro da aragem, pendentes das mãos torneadamente papudas dos deliciosos amores; mais em baixo, os golphinhos com as suas fauces escancaradas d'onde jorram torrentes d'agua que se espraiam pelo enconchado da base; de todos os lados, as nacaradas conchas encurvadas caprichosamente n'um anichamento sublime de preciosidades do fundo do mar, e contornando tudo isto n'uma justeza de fórma, n'um carocolar de serpente, d'um brunido admiravel, como que uma fita de seda que mãos delicadas de fadas se entretivessem a dispôr alli, como cercando aquella serie de deliciosas coisas.
Alguem que tenha visto a Baixella, dirá: e as figuras que alli existem onde as deixará ficar o chronista?
As figuras essas são deslumbrantes de contextura, e se me deixei ficar para o fim a fallar n'ellas, é, que tão fundo me feriram no espirito que lhe reservo um logar mais ao fim do artigo para que quem me ler nunca se esqueça d'ellas.
Centro de meza da Baixella Barahona

O centro, como muito bem diz o nosso amigo M. Oliveira Ramos, na memoria escripta expressamente para ser distribuida pela casa Leitão aos seus convidados, compõe-se d'uma taça oblonga de amplo bojo, enfunada para a base e recordando talvez na sua fórma, o casco dos nossos galeões do periodo aureo.
De cada lado d'esta taça e como sentados no rebordo, ha duas figuras; um Fauno e uma Bachante.
O Fauno, tendo n'uma das mãos uma frauta de Pan, ri brejeiramente para um amor que parece ter-se deitado na base a analysar aquelle typo tão caracteristico e tão bem delineado. E a Bachante com um exhuberante cacho d'uvas, tenta o outro amor que, deitado tambem, nos dá a impressão suave d'um delicioso
bébé
a quem uma nympha estivesse fazendo negaças com em brinquedo.
Mas, é tal o deslumbrante das fórmas e o rigor da anatomia d'estas figuras, tão primorosamente modeladas e tão assombrosamente executadas que parece que aquella fria prata, de que são feitas, se anima e palpita. Todo o conjuncto é bello, mas as figuras extasiaram-me.
Columbano Bordallo Pinheiro, ao modelar aquelles primores de arte, (talvez isto seja uma heresia), fez, a meu vêr, um dos seus trabalhos mais geniaes, a manifestação mais ampla do seu muito talento.
Magdalena columbano bordallo pinheiro

Porque é preciso ter-se muito talento para se realisarem obras d'aquellas.
Ficarei por aqui, se bem que não era esse o meu desejo, mas a falta d'espaço e de tempo, a isso me obrigam. Antes porém de fechar cumpre-me fazer, por este meio, o que já fiz pessoalmente, dar um aperto de mão, a quem se abalançou a uma empreza como esta e saudar enthusiasticamente com o meu fraco appoiado os grandes collaboradores d'esta manifestação de arte portugueza,―o dr. Francisco Barahona, o verdadeiro patriota que sabe como ninguem comprehender para que serve o dinheiro,―Columbano Bordallo Pinheiro, que para essa obra deu parte do seu
eu
artistico―Augusto Luiz de Sousa e Francisco Ignacio Cardoso os dois artistas ourives sob a direcção dos quaes se executou tal obra.
Aos snr. Leitão & Irmão um bravo! Um bravo enthusiastico d'um humilde admirador.
E para fechar, folgarei immenso ouvindo dizer que esses tres monumentos vão mostrar ao mundo inteiro, na Exposição de Paris, que em Portugal ha verdadeiros artistas e homens de arte.
Lisboa, 31-4-900.
XXVII CONCLUSÃO
Fechando este volumesito despretencioso e vago, que fiz publicar, não com a vaidade de escriptor ou critico d'Arte,
O Desterrado―soares dos reis

mas simplesmente para reunir n'um mólho, pequenos e insignificantes artigos, que escrevi em dias socegados e alegres, e que appareceram em revistas e jornaes diarios após visitas feitas a Ateliers, Escolas e Exposições d'Arte, onde tive o superior prazer de passar algumas horas boas e distrahidas, julgo ter prestado um pequenissimo serviço ao meu paiz e á sua Arte.
São estas paginas simples notas de um amador. Nem ellas desejaram nunca ser mais do que isso. Escrevi-as sincera e desapaixonadamente sem interesses ligados aos artistas, nem o desejo de ser amavel para com elles.
Fil-o como conversador inveterado que sou, e que, no desejo constante de conversa, escolhi o grande publico para lhe expôr as minhas impressões pessoaes e quem sabe, faltas de sciencia e talvez de criterio.
Tenho dito mil vezes, n'essas paginas atraz o digo, e não ficará mal ao ir-me embora, repetil-o mais uma vez:―eu não sou um critico d'Arte, nem tenho pretenções a isso.
E, n'essas condições, sob uma tal ordem de ideias, interessando-me pelas exposições d'Arte, pelo desenvolvimento pintural dos discipulos e pelo engrandecimento dos professores, excitando os que começam para que breve se ponham ao lado dos que já vão na vanguarda, animando o publico e creando-lhe aos poucos o gosto pela Arte, dando noticias resumidas d'algumas exposições, destacando alguns artistas e amadores dos que mais em fóco tenho encontrado, embora sem aquelle
tino especial
de critica
hors ligne
, como convinha para tal emprehendimento, julgo no entanto, que contribuo dentro das minhas forças, para o desenvolvimento do gosto pela pintura e pela esculptura entre os meus compatriotas, com estes artigos.
N'um paiz como o nosso tão cheio de poesia, tão cheio de sol, tão cheio de côr, com costumes tão typicos e figuras tão accentuadamente caracteristicas, com pedaços de natureza (paisagem e marinha) tão cheia d'um extraordinario encanto, d'um collorido tão nosso, tão genuinamente bello, necessario se torna que elle seja sabiamente estudado e proficientemente transplantado á tela e vá mundo em fóra, fazer esta grande affirmação: que no nosso paiz, caracteristicamente pittoresco, que como poucos é dotado de bellezas naturaes dignas de serem admiradas por todo quanto em
tourismo
dá a volta ao mundo, ha uma pleiade de artistas, verdadeiramente grandes, e que valem tanto como os que ha bons lá pelo estrangeiro.
Se eu, debaixo d'este ponto de vista, apontando, notando, frizando, destacando e elevando, entre os que trabalham n'esta bella obra, aquelles que a meu vêr mais dignos são de menção, conseguir excitar os outros para que trabalhando honradamente, gloriosamente se possam collocar ao lado d'elles, darei por bem empregado o meu tempo.
E como não quero que se diga que esqueci os que mais gloriosamente teem batalhado n'esse combate da Arte, aquelles, que emquanto vivos produziram genialissimas obras, e seriam assombrosamente grandes em qualquer parte do mundo, aqui deixo ficar, nas ultimas paginas do meu livro, tres copias de tres trabalhos sublimes dos sublimes mestres, d'esse trio sagrado de sacerdotes magnos do templo da Arte―Soares dos Reis, Silva Porto e Raphael Bordallo Pinheiro.
E nada vos direi de taes genios artisticos porque para isso seria preciso escrever tres volumes, e acho que quem é tão pequeno como eu não se deve abalançar a empreza tão ardua e tão difficil, pois que para fazer o elogio d'estes sublimes mestres, exige-se pelo menos ser tão grande como elles na litteratura e na critica.
Conduzindo o rebanho―silva porto

Por isso simplesmente, como significação de respeito e muita admiração ao seu grande talento, aqui lhe deixo significado o sentimento da minha muito grande veneração.
Havereis de ter notado n'este meu livro faltas extraordinariamente grandes, bem sei. Mas, que quereis, quem dá o que tem não é obrigado a mais.
Desejaria ainda fazer um catalogo, biographico e artistico dos nossos melhores artistas e das suas obras com sabias notas descriptivas, mas isso era trabalho largo de mais para quem tão fracamente maneja a penna e tão leves conhecimentos tem em tal assumpto.
Vinte annos depois raphael bordallo pinheiro

Se um dia, porem, lá para o futuro, me achar com coragem de emprehender empreza de tal bojo e tanta responsabilidade prometto-vos que o farei o mais larga e o mais desenvolvidamente possivel.
E os artistas que me perdoem então tal arrojo e tal atrevimento.
Por hoje apenas estas leves notas reportivas d'um insignificante amador de Arte.
Como estou em maré de desabafos, não será de todo mau que antes de terminar o mandato que a mim proprio impuz não deixe de dizer alguma coisa a respeito d'alguns erros que apparecem nas
Notas d'Arte
. Por isso, com a maior franqueza declaro que, não querendo seguir as pisadas d'uma grande parte dos nossos litteratos, imputando aos pobres typographos erros que só cabem aos auctores como maus revisores d'aquillo que escrevem, dou o seu ao seu dono affirmando que todos os erros que surgem pelo volume fóra só podem ser attribuidos á ligeireza com que tracei todas essas rapidas
Notas d'Arte
que, a meu vêr, apesar dos seus defeitos tem a grande vantagem de mostrar o grande amor que tenho á arte sublime do Bello e o desejo ardente de vêr galardoados os meritos dos artistas e dos amadores portuenses.
A illustração e a benevolencia do leitor, pesando bem a senceridade das minhas palavras, supprirá todos os erros remediando assim o velho costume de finalisar com
emendas
. É certo que ninguem vae ao céo sem
emenda
, mas uma vez que se faz uma
confissão expontanea
o
penitente
fica perdoado dos seus
peccados
.
30 de Novembro de 1906.
INDICE
dos artigos Pag.
No Limiar 1
Impressões d'uma Exposição 5
Pintores Portuenses.―Julio Costa 9
Pintores Portuenses.―Antonio Carneiro Junior 17
Thadeu Maria d'Almeida Furtado 21
Pintores Portuenses.―Arthur Loureiro 25
Esculptores Portuenses.―Fernandes de Sá 31
Exposição da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa 39
Pintores Portuenses.―Manuel San Romão 67
A Mulher Artista 73
Novas Exposições d'Arte 81
Uma Exposição de Aguarellas organisada por Amadores 89
Pintores Portuenses.―Thomaz de Moura 93
Amadores Portuenses.―D. Joanna Andressen Silva 97
Pintores Portuenses.―Antonio José da Costa 105
Em frente d'um Cartaz!... 113
Na Cruz 117
Amadores Portuenses.―D. Margarida Ramalho 119
Novos quadros de Arthur Loureiro:
I ― No Atelier do Palacio de Crystal 127
II ― Arthur Loureiro e os seus discipulos 131
III ― Arthur Loureiro e a Academia de Bellas Artes 135
IV ― Mais uma visita ao Atelier de Arthur Loureiro 141
Amadores Portuenses.―Manuel Maria Lucio Junior 145
Uma Exposição de quadros do Instituto de Estudos e Conferencias 151
Uma Exposição de Carneiro Junior 159
Notas ligeiras d'uma Exposição 163
Amadores Portuenses.―Alberto Ayres de Gouveia 171
Uma Exposição de Estatuetas.―Francisco Gouveia 179
Amadores Portuenses.―Manuel Monterroso 185
A Baixella Barahona 193
Conclusão 197
INDICE
Retratos Pág. Quadros Pág.
S. M. a Rainha 73 ― Estudo de creança (aguarella) 75
El-Rei 39 ― Paisagem (pastel) 40
Guarda arabe (pastel) 66
Alberto Ayres de Gouveia 171 ― A Palavra do Mestre 173
Christo Morto 175
S. João lendo as Profecias 176
Adelina Barros (D.) 144 ―
Alfredo Keill ― A chegada da deligencia aos Valles em Ferreira do Zezere 61
Alice Grillo Lima (D.) 79 ― Orchideas 80
Antonio José da Costa 105 ― Chrysanthemos 7
Guarda Fiel 103
Rosas e Pionias 106
Outros tempos 107
No Pinhal 108
Camelias 109
Junquilhos e Camelias 110
Junto do Cruzeiro 111
Arthur Loureiro 25-127 ― Barra―Foz do Douro 26
Frontal d'uma arca 27
O Passado 28
Não voltará mais 29
Retrato de Sá de Albergaria 129
Retrato do Dr. Francisco Anthero 132
Tigres 134
Só no Mundo 136
De aldeia em aldeia 138
Paisagem 139
Flora 140
Pinheiros 142
Aurelia de Sousa (D.) 74 ― Paisagem 164
Branca Assis (D.) ― Tia Bertha 76
Candido da Cunha 7-88 ― Impressão de Paris 125
Crepusculo Matutino 153
A Procissão 162
Paisagem 165
Paisagem 177
Carlos Reis ― Mendiga 44
Retrato de El-Rei 55
Olaia em flor 57
Carneiro Junior 17 ― Retrato 18
Entrega de Evora 160
Columbano Bordallo Pinheiro 193 ― Tomando chá 53
Candelabro 194
Centro de meza 195
Magdalena 196
Condeixa ― Cabeça d'estudo 41
Condessa d'Alto Mearim 78 ― Poveretta 169
Duqueza de Palmella ― Cabeça de negra 4
Eduardo Moura 88 ― Guardando vaccas 155
Fernandes de Sá 31 ― Desafio 32
Camões 33
Beijo Materno 35
Busto de Antonio Cano 37
Rapto de Ganymedes 63
Francisco Gouveia 179 ― Teixeira Lopes 180
Eça de Queiroz 181
Marcos Guedes, Guedes d'Oliveira, Guerrra Junqueiro, Pae Ramos 182
Joanna Andressen Silva (D.) 97 ― Salão do Palacete de D. Joanna 98
Canto do Atelier 99
Busto de Mademoiselle Elisa Andressen 100
Busto de Mademoiselle Ramos Pinto 101
Busto de Mademoiselle Joanna Andressen 102
João Augusto Ribeiro 8 ― Estudo 178
João Vaz ― Marinha 45
Joaquim Marinho 89 ―
José de Brito 6-152 ― Vaga 47
Cabeça de estudo (pastel) 91
José Malhôa 5 ― Que grande calamidade 6
Barbeiro d'aldeia 42
José Romão Junior 168 ―
José Teixeira Lopes 88 ― Paisagem (aguarella) 90
Julião Machado ― Cartaz 114
Julio Costa 9 ― Retrato do Conselheiro João Franco 10
Retrato de Oliveira Martins 11
O Calvario 14
A Ti Anna 15
Na Cruz 118
Julio Ramos 88-156 ― Aos Grillos 164
Barcos de Pesca 170
Leopoldina Pinto (D.) ― Flores 84
Lucilia Aranha Grave (D.) 163 ― Na Eira 30
Paisagem 183
Manuel Maria Lucio Junior 145 ― Marinha 147
Barra―Foz do Douro 149
Manuel Monterroso 185 ― Caricatura do auctor das Notas d'Arte 1
Cartaz 115
Dr. Leopoldo Mourão 186
Uma pagina da Parodia 187
João Oliveira Ramos 188
Estatueta de Raphael Bordallo Pinheiro 189
O Rei da Peça 190
Os donos da Casa 191
Estatueta de José Ribeiro 192
Manuel San Romão 67 ― Na espectativa 68
Paisagem 69
Paisagem 70
Uma sevilhana 71
Margarida Costa Romão (D.) 166 ―
Margarida Ramalho (D.) 119 ― Castanheira 122
Cabeça de velho 123
Maria Afflalo (D.) 168 ―
Maria Augusta Bordallo Pinheiro (D.) ― Um lenço de rendas 23
Marques d'Oliveira 83 Paisagem 43
Entre o almoço e o jantar 59
Paisagem 154
Raphael Bordallo Pinheiro ― Vinte annos depois 200
Silva Porto ― Conduzindo o rebanho 199
Soares dos Reis ― O Desterrado 197
Sophia de Sousa (D.) 82 ― Ao Sol 197
Sousa Pinto 151 ―
Teixeira Lopes 184 ― Busto de inglesa 51
Santo Isidoro 65
A Caridade 85
Baixo relevo (Saudade) 161
Caim 184
Thadeu Maria de Almeida Furtado 21 ―
Thomaz de Moura 93 ―
Torquato Pinheiro 156 ― Retrato de minha Mãe 8
Retrato de Bernardino Reaes 157
Lavadeiras na levada 166
Velloso Salgado 49 ― Panneaux para o Palacio da Bolsa 87
Panneaux para o Palacio da Bolsa 95
Zéo Wanthelet Batalha Reis ― Quem espera desespera 77
Notas:
[1]
Um dos mais distinctos professores da Escola Medico-Cirurgica do Porto, já fallecido.