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Notas d'arte

Front matter (continued 2)

Reading edition

Como nenhum outro individuo ella descobre e comprehende pequeninos nadas psychologicos, que passam despercebidos aos nossos olhos.

Por isso, quando educada e industriada no grande problema da Arte, deve facilmente adquirir elementos magnificos para execuções de vulto, e de obras que venham tocadas d'uma suave poesia.

Depois, se a mulher tem o direito de dançar e de cantar, e se lhe admiram as qualidades raras de eximia bordadora, porque negar-lhe o direito de, tomando os pinceis e o escopro, pintar, esculpir e indo mais longe mesmo, escrever livros, cujo encanto será deliciosamente bom? Ora ella canta e dança desde a origem do mundo e borda desde as eras mais remotas da antiguidade; portanto, que direito nos assiste a nós, que caminhamos para o maximo da perfeição, de evitar que ella nos dê as manifestações mais brilhantes do seu ser artistico, do seu temperamento singular? Impossivel.

Estudo de creança―Aguarella de s. m. a rainha

Estudo de creança―Aguarella de S. M. a Rainha
Estudo de creança―Aguarella de S. M. a Rainha

Isto seria verdadeiramente barbaro!...

Para que ella cante ou dance, só se lhe exige que tenha talento vocal ou choreographico, tal qual o que se exige ao homem para os mesmos fins. E, se tal succede e a logica existe, qual a razão porque durante tanto tempo se puzeram entraves ao franco estudo da pintura, da esculptura e da litteratura, ás mulheres?

Bem sei que o canto, a dança e a musica, eram considerados por todos, como dotes necessarios e sem os quaes uma senhora não podia briosamente frequentar a sociedade.

Menina que não dançasse, em noite de baile, era como flôr sem aroma, que se ficava estiolando em canteiro, d'onde tinham sido colhidas todas as olorosas rozas e violetas. Havia pois a necessidade de se aprender a dançar, e todas tentavam ser eximias no

minuete

, na

gavota

, na

pavana

, na

valsa

, na

polka

, e no

pas-de-quatre

.

Tia Bertha―d. branca assis

Tia Bertha―D. Branca Assis
Tia Bertha―D. Branca Assis

Depois começou a desenvolver-se o gosto pela musica; as audições de operas nos theatros de S. Carlos e S. João, a organisação de escolas particulares de canto, os concertos onde era chic apparecer, foram creando os amadores distinctos que no Porto e Lisboa teem affirmado exuberantemente que n'este nosso torrão, não ha só bom sol, ha tambem boas gargantas e bastante talento, (porque para se cantar bem não basta só ter uma boa voz é preciso tambem talento e arte). E assim appareceram em Lisboa e Porto as Ex.

mas

Snr.

as

D. Maria Albergaria, D. Laura Gasparinho, D. Maria Viterbo Ferreira, D. Carminda Guerra Andrade, D. Laura Leite, D. Alice Freire Silva Braga, M.

elle

Lidia Oliveira, M.

me

Sarah Mattos, M.

me

Ilda Blanc, D. Stela Pinheiro, M.

elle

Castello Branco, Condessa d'Almeida Araujo, Condessa de Proença-a-Velha, D. Maria Thereza Valdez Pinto da Cunha, D. Carolina Palhares, D. Leopoldina Kopke de Carvalho, D. Beatriz Arroyo, D. Izabel Vallado, D. Elisa Lear, D. Albertina Arnaud, D. Julia Villares, D. Thereza Wandscheneider, D. Edwiges de Castro, D. Judith Marques, D. Bertha Leaham Camello, D. Camilla Katzeintein, D. Margarida Motta, D. Maria Luiza Mourão, D. Idalina Castro, D. Laura Leite, D. Anna Fins, D. Conceição Castello Branco Albuquerque, D. Margarida Fernandes Braga, D. Bertha Arroyo, D. Julia Pinto Moreira, D. Olinda Rocha Leão.

Quem espera desespera―zeó wauthelet batalha reis

Quem espera desespera―Zeó Wauthelet Batalha Reis
Quem espera desespera―Zeó Wauthelet Batalha Reis

Mas, tambem lá estava a necessidade de apparecer, de ser notado. Era preciso cantar para não ficar atraz das outras que apareciam, e assim se desenvolveu por completo o gosto pelo canto, essa arte sublime que, como dizia um philosopho, faz um ente transportar-se ao

sol

sem se lembrar de

si

.

Com a musica de pianno e rebeca, etc., o mesmo se dava, era como o canto, um genero de sport artistico. Toda a gente tocava, mas, era preciso ir mais longe, era preciso tocar bem para ser notado. Em qualquer parte onde se estivesse, n'uma sala, havia sempre muitos que podessem exhibir os seus dotes musicaes, mas, no meio deste mar de tocadores-amadores só se foram distinguindo os que tinham verdadeiro talento, e assim se notabilisaram ao pianno: D. Maria Josephina Pacifico, D. Elisa Baptista Souza Pacheco, D. Ernestina Freixo, D. Maria de Magalhães, D. Leonor Atalaya, D. Maria Ferraz Bravo, D. Esther Coelho de Campos, D. Carolina Suggia, D. Leonilda Moreira de Sá, D. Julieta Vieira Barbosa, D. Elvira Mattos, D. Maria Julia Brandão, D. Maria Helena Carvalho, D. Elisa Allegro, D. Bertha Marques Pinto, D. Aurelia Paiva, D. Maria Augusta Mattos, D. Luiza Margaride, D. Constança Pinto Moreira, D. Anna Oliveira Ramos, D. Virginia Suggia.

Em rebeca: D. Judith de Mello, D. Amelia Marques Pinto, D. Laura Barbosa, D. Irene Fontoura Madureira, D. Rosalia Maia, D. Ophelia d'Oliveira, D. Luiza Coelho de Campos.

Em violoncello: D. Guilhermina Suggia.

Em harpa: D. Virginia Viterbo e D. Anna Jane Menezes de Mattos.

E isto como o canto foi impulsionado, porque era preciso apparecer com vantagens sobre outros.

Condessa d'Alto Mearim

Condessa d'Alto Mearim
Condessa d'Alto Mearim

Com a pintura e esculptura porem não se dava isso. Os amadores de pintura só tinham occasião de mostrar os seus trabalhos, quando algum d'estes

cabrions

que teem o nome de

possuidores de albuns

, vinha pedir a esmola d'uma collaboraçãosinha, para esses repositorios exoticos de coisas varias e quiçá exdruxulas, onde se afundaram muitos poetas e se lapidaram muitos desenhadores.

E os amadores de esculptura? Esses, nem os havia. E se algum se dedicava a esse genero da divina Arte, era tão escondidamente que ninguem dava por elle.

Mas, sob o impulso grandioso do desventurado Silva Porto iniciava-se uma nova era d'Arte. Começaram de fazer-se exposições na cidade de Lisboa e na do Porto, exposições criteriosas que foram o inicio do renascimento da vida artistica portugueza e o marco milliario do bom gosto e do aproveitamento de muitos talentos ignorados e de muitas notabilidades nacionaes.

Promovidas na capital pelo grupo de Leão, esse brilhante gremio de que fizeram parte Columbano, Ramalho, Malhôa, Gyrão, etc.; e aqui, por um grupo de artistas e amadores de Bellas-Artes, sem designação especial de nome, mas entre os quaes figuravam Marques de Oliveira, Julio Costa, Marques Guimarães, Antonio Costa, o saudoso Xavier Pinheiro, Adriano Ramos Pinto,―as exposições d'arte teem sido actualmente realisadas pelo Instituto de Estudos e Conferencias.

D. Alice Grilo Lima

D. Alice Grilo Lima
D. Alice Grilo Lima

D'ahi, do agrupamento desses artistas, e tentados pela gloria de se ver aplaudidos pela opinião publica e instigados pela critica amiga dos jornaes, fez-se uma como que revolta no meio da sociedade, que vive um pouco do espiritualismo Artistico do Bello, e como que resaltou uma nova pleiade de amadores, que tenta a pintura e a esculptura. No meio d'essa pleiade resaltam como caracteres artisticos definidos e assentes, individualidades cujos nomes temos que notar e descrever.

Apparece no alto, como verdadeira fulguração na arte de esculpir, a Duqueza de Palmella, a maior alma de artista que pode ter uma amadora. Os seus trabalhos perfeitamente executados são confirmações indiscutiveis do logar proeminente que ella deve occupar entre os que são sacerdotes na sublime arte de Milo.

No Porto, como sacerdotisa emerita d'essa arte, temos a Ex.

ma

Sr.

a

D. Joanna Andressen Silva, de que mais adeante fallaremos em artigo especial.

Na pintura, confirma-se o que a principio digo, só se exige que as amadoras tenham talento, para se lhe poder garantir o logar ao lado dos homens na transplantação para a tela da natureza, em todas as suas variadas manifestações. E assim, tanto no Porto como em Lisboa, todos os dias se fazem novas revelações de senhoras que são verdadeiros sportwomen artisticas. E assim notaremos, D. Francisca Furtado, D. Sophia de Souza, D. Amelia de Souza, D. Julia Molarinho, D. Lucilia Aranha Grave, D. Olympia Faria de Abreu, D. Maria Afflalo, D. Alice Grillo Lima, Condessa d'Alto Mearim, D. Maria Luiza Alto Mearim, D. Branca de Araujo Assis, D. Constancia Avides, D. Maria Idalina Carneiro, D. Margarida Costa Romão, D. Josepha Garcia Greno, (fallecida), D. Herminia Victoria Lagoa, D. Amelia Lamas, D. Izabel Areias de Lima Lawer, D. Leopoldina Maia Pinto, D. Maria Teixeira de Moura, D. Laura Nobre, D. Clotilde Rocha Peixoto, Viscondessa de Cristello, Zeó Wauthelet Batalha Reis, D. Margarida Ramalho, D. Albertina Falker.

E, tudo isto, pela simples razão de haver exposições, onde se pode mostrar que se tem aptidões para a pintura ou para a esculptura, que se tem talento artistico emfim.

Portanto, desde que se tenha esse bello dom natural, que faz de nós um poucochinho mais do que a vulgaridade, não acho razão nenhuma para que se queira tirar á mulher o direito de publicamente mostrar que é um pouco superiora ás outras. Eu, sou d'aquelles que digo: que o saber não occupa logar, e, que, antes quero ver uma mulher pintar bem um quadro, do que pintar os olhos e os labios. No primeiro caso só pode mostrar que a preoccupa o espirito com alguma coisa donde lhe pode vir honra o louvor, no segundo caso... que não o preoccupa com nada...

Setembro 1904.

Orchideas―d. alice grilo

Orchideas―D. Alice Grilo
Orchideas―D. Alice Grilo

X NOVAS EXPOSIÇÕES D'ARTE

Ao mesmo tempo duas exposições de pintura, uma organisada pelo Instituto de Estudos e Conferencias, outra organisada pelo snr. Lagôa. Estamos em maré d'Arte, não ha que vêr. Ora eu, que sou um bisbilhoteiro de mil diabos, lá fui, n'um d'estes ultimos dias de bom sol, visitar as duas exposições.

Boas e más impressões trouxe d'estes certamens e é o que muito despretensiosamente direi para diante, conforme o meu modo de vêr.

Tem, já se sabe o primeiro logar, a exposição do Instituto, e tem-no por muitos e variados motivos; entre esses porque é formada por trabalhos de artistas, se bem que por lá andem anichados puros amadores... Mas, isso fica para depois, para mais larga conversa quando não houver já que dizer a respeito dos artistas.

Ao Instituto de Estudos e Conferencias, se deve, em parte, a ameudação de exposições d'esta natureza; pena é que nem todos os nossos artistas comprehendam o quanto isto é util para elles.

Sente-se por isso alli a falta dos nossos melhores pintores, e é pena. Não sei, nem tentarei desvendar a razão porque os bons artistas não querem concorrer, mas sinto profundamente que Salgado, Malhôa, Columbano, Carlos Reis, Girão, e outros, se fiquem, lá de longe, sem nos dar o gosto de lhes applaudir e admirar o talento nas suas varias telas, que são quasi sempre admiraveis. Talvez porque não encontrem no nosso meio quem os saiba comprehender ou quem os saiba pagar, talvez!...

A exposição, no seu geral, é fraca, sem interesse (que barbaro eu sou). A não ser uma meia duzia de telas, o resto é insignificante, sem destaque, morrendo pelo... nem sei mesmo porque... mas

fazendo-nos

sentir a saudade das

D. Sophia de Sousa

D. Sophia de Sousa
D. Sophia de Sousa

exposições realisadas no Atheneu Commercial, ha tantos annos já, e organisadas por um nucleo de pintores conhecidos. Isso sim, isso é que foram exposições onde todos concorriam cheios d'aquella boa vontade e d'aquelle enthusiasmo que é peculiar ás almas novas; que isto não é dizer que as almas d'hoje sejam almas velhas, não, são almas novas, mas formadas pelo systema arte-nova, tão cheia de curvas e sinuosidades, que treslouca.

Como de costume, lá fui encontrar no catalogo nomes dos que nunca faltam á chamada, honra lhes seja, Marques d'Oliveira, Torquato Pinheiro, Candido da Cunha, José de Brito e Antonio Costa, e a par d'estes, muitos outros e alguns que começam agora a apparecer.

D'entre os artistas, que expõem, a meu vêr, destacam-se Marques de Oliveira e Candido da Cunha, que são inegavelmente os que dão a nota pelo seu modo e pelos seus assumptos. José de Brito, soberbo no seu pastel

Um frade

, no resto sempre um tom ingente de nevoa que faz os seus quadros baços.

Torquato Pinheiro, muito bem no

Retrato de meu filho

, assim como, gostamos d'elle, nos seus―

Fins da tarde de outomno

e

Rua de Villa Real

.

Eduardo Moura, esse pintor, cheio de poesia intensa dos encantos cazeiros, veio á exposição com dois quadros que já lhe conheciamos, mas que por isso não deixarei de os mencionar, especialisando para meu gosto o―

Serviço feito

, que acho primoroso.

Prat, com os seus estudos não foi completamente feliz; destacam no entanto a

Cabecita de burro

, que me não desagradou.

Victorino Ribeiro, com o seu―

Esperando um amigo

, está bem apresentado.

D. Sophia de Souza, regularmente, se bem que se nos tenha mostrado em outras exposições muito melhor.

D. Aurelia de Souza, com o seu estudo―

Um africano

, muito bem. Emquanto ao resto dos seus trabalhos achei-os inferiores ao seu muito talento artistico.

Antonio José Costa, como sempre, o primoroso pintor de flores, dá-nos umas

Camelias

bem tocadas e muito frescas.

De Julio Ramos, pouco ou nada mais temos a dizer do que o já temos dito: tem talento e sabe do

metier

. A sua

Marinha

é para mim o seu melhor trabalho n'esta exposição.

Marques de Oliveira

Marques de Oliveira
Marques de Oliveira

Almeida e Silva, esse, parece que desandou; as suas telas são demasiadamente recortadas e esmiuçadas. Lembrei-me com saudade de outros quadros seus, expostos em tempos idos, como por exemplo, um

Viatico na aldeia

e um

Cabeça de cabrito

.

Augusto Ribeiro, é um trabalhador incansavel, produz de mais. Desenha bem e pinta com certo gosto, mas pinta muito. Tem na exposição alguns quadros de valor e a

Marinha da Foz

,

O atalho ao sol

, são bons. Como notas typicas do nosso meio são interessantes as manchasitas do

Bolhão

,

Anjo

e dos

Ferros Velhos

.

Francisco Gil, é um pintor da Figueira da Foz que tivemos o prazer de vêr pela primeira vez; os seus trabalhos são (perdoem-me o francez)

comme ci comme ça

.

Lago Pinto, é um novo que promette muito e que se apresenta com vontade de fazer alguma cousa. São muito recommendaveis os seus quadros

Fim da tarde

e

Lavadeiras

, em que a agua está bem estudada.

Flores―d. leopoldina maia pinto

Flores―D. Leopoldina Maia Pinto
Flores―D. Leopoldina Maia Pinto

Teixeira Bastos, é um pintor de Lisboa que veio ao Porto mostrar-nos que tem talento artistico, dando-nos a impressão de que vê muito bem. O que especialmente o torna notado é o magnifico tom de luz que dá aos quadros.

Os castanheiros

, foi para mim o que mais me agradou; são dignos de menção a

Cabeça da rapariga

e

Canto do Rato

.

D. Leopoldina Pinto é uma amadora distincta.

Carlos Gomes Fernandes, é tambem um amador que começa. É provavel, que de futuro nos dê quadros, que se tornem notaveis, por emquanto é, a nosso vêr, um amador que tem vontade de fazer alguma coisa.

Fallei de todos mas deixei para o fim Marques de Oliveira e Candido da Cunha, porque a meu vêr são os dous pintores que attestam profundamente o seu temperamento artistico.

Marques de Oliveira é inegavelmente um mestre e não era preciso que eu o dissesse, eu que sou um

zero

no nosso meio critico. Os seus quadros

Cercanias d'Agueda

,

O Combro

e as

Lavadeiras

são obras primas de desenho, de côr e de luz.

Candido da Cunha, poeta triste da pintura, amando a luz iriada dos poentes, dá-nos quadros maravilhosos, destacando como florão da sua corôa de artista a

Hora nostalgica

. Não devemos porém esquecer a sua

Casa rustica

e os seus

Moinhos em Leça

. Ha tambem na exposição um trabalho d'este artista que me extasiou. É o retrato da esposa do pintor, feito a carvão (claro escuro). Trabalho que por si só bastaria para n'outro meio, que não o nosso, dar o nome a um artista. Correcto de desenho, é superiormente primoroso.

Falta fallar d'um amador, tão distincto que não pude fugir ao desejo de lhe reservar um logar mais para o fundo, para que fizesse alguma impressão d'elle, ao leitor amigo, que tivesse a pachorra de me lêr até ao fim. Refiro-me a Alberto Ayres de Gouveia, discipulo de Marques d'Oliveira e que honra o mestre. Sabiamos de ha muito que este cavalheiro se dedicava á pintura, mas francamente, julgavamos que elle fosse um

dellitanti

como

A Caridade―teixeira lopes

A Caridade―Teixeira Lopes
A Caridade―Teixeira Lopes

muitos outros, que tendo tempo livre, se entretinha a fazer pequenas cousas sem valor, mas, ao comtemplarmos a sua obra, ficamos confuzo. Era uma revelação... Trabalho agigantado o seu, topando um assumpto sublime, tal como a

Vida de Jesus

. Pintor mystico com tal pujança nunca o imaginaramos. Vemos que elle se sae brilhantemente da empreza em que se metteu. Os seus quadros a

Palavra do Mestre

e o

Christo morto

são verdadeiras obras d'arte. Figuras estudadas com cuidado, pousadas naturalmente sem poses academicas, tendo vida e verdade, luz e côr escolhidas com sciencia; pinceladas largas e justas eis o que se encontra n'aquelles dois quadros.

No seu

Lettre de Colombine

, ha um effeito de luz admiravelmente estudado. Mas, Ayres de Gouveia não é só correcto nos seus quadros biblicos e de phantasia, é-o tambem quando faz o retrato, assim podemos dizer que é bom o seu oleo e retrato de mademoisselle M. F. A.

E desenhando a pastel ou a claro-escuro, tambem se nos revela um verdadeiro artista; são para notar o seu

Apollo

e

Retrato de mademoiselle Allen

, (ambos a pastel)

e cabeça de estudo

, (a crayon).

Mas, não digamos mais nada d'esse amador, que podem julgar para ahi que eu sou amigo d'elle e vim aqui só para o elogiar, e eu não quero isso.

Passemos agora rapidamente á esculptura, deixando em branco as aguarellas, porque francamente não gostamos de nenhuma.

Em esculptura destaca-se em primeiro logar Fernandes de Sá com a sua

Cabeça de Velho

e o

retrato do medico Correia de Barros

, este ultimo um trabalho flagrante de verdade.

D. Joanna Andressen revela-se-nos uma amadora distincta, pois em pouco tempo fez progressos grandiosos.

D. Albertina Falker: não gostei do seu

Bébé

. Não sei que lhe achei de mau, talvez a posição d'aquella cabecita... Não sei...

Com respeito a arte applicada, só direi, que tenho visto muito melhor do que aquillo.

E acabou-se a resenha das minhas impressões.

Antes, porém, de fechar este despretencioso artigo uma, como que nota final.

Eil-a:

Uma coisa urge fazer de futuro em exposições congéneres. Destacar em grupos definidos os artistas e os amadores; a cada um o seu logar.

Poderão mais facilmente ser apreciados os seus trabalhos, e não teremos ao primeiro relance uma impressão tão má. Aproveitam todos mais, os artistas, porque juntos, ver-se-hão obrigados a applicar todas as suas aptidões para se destacarem uns dos outros: os amadores, no seu modo de fazer um pouco

gauche

, não terão o confronto dos quadros dos mestres que, quasi sempre, os esmagam. Assim, ao entrar n'um

Salon

tanto o critico d'arte, como o amador ou o indifferente, saberá, logo o desconto que tem a dar aos trabalhos, dos que começam, ou fazem arte para entreter e não fará injustas apreciações. Este, é o meu modo de vêr e penso bem que os proprios artistas me acompanharão n'elle.

Quando porém um amador se impozer pelos seus trabalhos, como os de Alberto Ayres de Gouveia, então que entre desassombradamente no gremio dos artistas e que se sujeite á critica rigorosa dos que sabem do assumpto.

Emquanto assim não acontecer, estas exposições não terão um caracter definido, não terão o ar correcto d'um verdadeiro

Salon

. Dar-nos-hão simplesmente a impressão da sala d'um burguez endinheirado, que finge ter gosto pela Arte.

Ahi fica a impressão que me deixou a visita feita á Exposição de Pintura do Pateo da Misericordia.

Dezembro de 1902.

Panneaux decorativo na Sala da Bolsa do Porto velloso salgado

Panneaux decorativo na Sala da Bolsa do Porto―Velloso Salgado
Panneaux decorativo na Sala da Bolsa do Porto―Velloso Salgado

PINTORES PORTUENSES

Eduardo Moura

Eduardo Moura
Eduardo Moura

José Teixeira Lopes

José Teixeira Lopes
José Teixeira Lopes

Candido da Cunha

Candido da Cunha
Candido da Cunha

Julio Ramos

Julio Ramos
Julio Ramos

XI Uma Exposição de Aguarellas

ORGANISADA por AMADORES

N'um dos salões do Palacio de Crystal, acaba de ser aberta uma Exposição de Pintura, onde o professor portuense de desenho Joaquim Marinho e suas discipulas, sujeitam á apreciação do publico os seus trabalhos.

Joaquim Marinho

Joaquim Marinho
Joaquim Marinho

Fui, como é meu costume, vêr a Exposição, sem a preoccupação de critico d'Arte, como um bom

vivant

, um mero collecionador, affeito um pouco a vêr com os olhos do espirito, além dos olhos da cara.

Não terei portanto aqui, n'este modesto

compte-rendu

, phrases empulgantes, nem sentenças judiciosas sobre os trabalhos expostos. Modesto será o meu artigo como modestos são os expositores. Deixo aos outros, aos que sabem de tudo, aos que chamam a quadros a oleo

cromolytographias

, essa extraordinaria tarefa de dizer muito e retumbante, sem dizer nada.

Fui, como disse acima, vêr a Exposição e gostei; entre os quadros expostos ha alguns que destacam, como manifestações de estudo e talento.

Não farei a resenha detalhada d'elles, nada d'isso, sómente indicarei os que mais fundamente me impressionaram.

Estão n'este caso, como decorativos, os apreciaveis trabalhos a pastel de Joaquim Marinho,

A Camponeza

, e os de D. Zulmira Almeida e D. Izolina B. Sá,

Imitações de azulejos

. São de completa novidade, dando uma nota

Paisagem―Aguarella de j. teixeira lopes

Paisagem―Aguarella de J. Teixeira Lopes
Paisagem―Aguarella de J. Teixeira Lopes

fulgurante de boa concepção e execução. Estas duas senhoras, entre varios outros trabalhos, teem mais, a primeira, duas paisagens em pastel, magnificas; a segunda, uma marinha muito acceitavel.

Ha mais uma

Cabeça de creança

(pastel) de D. Maria Leonor, que me impressionou deliciosamente. Esta senhora expoz tambem dous outros quadros, (paisagens), tambem a pastel, muito interessantes.

D. Guilhermina Marinho, com os seus estudos a aguarella, revela-se-nos uma amadora distincta e conscienciosa; destacarei d'entre elles os

Recuerdo del Paiz Vicino

, (interessante scena de bailado em Andaluzia) e

Rapaz de Aveiro

. Primorosos.

D. Maria Joaquina, dá-nos duas pequeninas impressões de Vizella, muito interessantes.

Deixei para o fim propositadamente o fallar do professor. Este, expõe, entre outros, um quadro que eu admiro pelo modo como está feito. É um trabalho a carvão de grandes dimensões e chama-se a

Batalha de Malmaison

. Todo aquelle céu está bem trabalhado e cuidadosamente desenhado. É magnifico.

Tem tambem tres trabalhos a carvão, em madeira, que são interessantes e apresentam muita novidade. Um d'elles especialmente

Um boi

, está magnificamente bem feito.

Não me alargo mais n'este meu

modesto

artigo, mas ao terminar não posso deixar de manifestar aqui o meu applauso ao iniciador d'este certamen d'Arte, animando-o a que continue a mimosear-nos com exposições como esta, que distrahem a vista e consolam a nossa alma, farta das ignominiosas scenas, que vão por esta terra. Aquillo é como um banho santo ao nosso espirito enervado e doentio.

Parabens, pois, pela sua exposição.

Novembro de 1900

Cabeça de estudo―Pastel de josé de brito

Cabeça de estudo―Pastel de José de Brito
Cabeça de estudo―Pastel de José de Brito

XII PINTORES PORTUENSES

THOMAZ DE MOURA

Eu sou d'estes sujeitos que gosto muito de vêr e de apreciar tudo quanto de Arte apparece no nosso restricto meio, e por isso fui ha dous dias até á Photographia Guedes, visitar a exposição de quadros de Thomaz de Moura.

Thomaz de Moura

Thomaz de Moura
Thomaz de Moura

Conhecia já este artista d'uma exposição, que em Lisboa se realisara, nas salas da Sociedade Nacional de Bellas Artes e onde elle concorrera com sete quadros. N'essa occasião e em um jornal da capital tive occasião de manifestar a impressão que então recebera dos seus trabalhos. Hoje, porém, que elle no Porto se nos apresenta, não é muito, que, mais uma vez, me occupe dos seus trabalhos, n'uma rapida noticia, sem philosophia d'arte nem detalhes de apreciação, mas unicamente n'uma resenha breve e simples do que vi.

Na sala do nosso amigo Guedes de Oliveira, esse bello rapaz, amigo dedicado dos artistas e tão artista como elles, reune Thomaz de Moura 39 trabalhos, que dão a nota verdadeiramente accentuada do seu temperamento artistico.

Talvez, porque a sua alma seja d'um contemplativo, ou d'um triste, ha nos seus quadros um quer que seja de nostalgico e de sugestivo. Não é d'aquelles pintores que distribuem, ás pinceladas, nos seus quadros, as tintas fortes e vibrantes; os vermelhos carmins e ocres amarellos. Não, enche as suas telas d'umas tintas doces e melancholicas. Depois ha ali muita paisagem dos paizes brumosos, trabalhos que elle executou lá por fóra nas suas viagens de estudo. E a paisagem da França e da Bretanha, essa paisagem, é muito differente da nossa. Lá, não se encontra um céu como o nosso, claro e limpido, onde as aves passam n'um vôo chilreante de alegria, o sol de lá, como que apparece envolvido em gaze, não é retumbante e claro como o nosso e as tonalidades da vegetação tem aqui um forte destaque de frescura que falta n'esses paizes.

E, é talvez d'isso que se sente o nosso artista. Mas, quando elle retratar a nossa paisagem, esse Minho encantador, então, vel-o-hemos accentuar perfeitamente as nossas côres e nosso tom.

Algumas das telas apresentadas já são da nossa paisagem, mas, vistas um pouco ainda com a vista habituada ao cinzento das paisagens bretãs, d'ahi o não terem a nitidez accentuada da paisagem portugueza.

D'entre todas essas telas destacarei para mim como a mais subtilmente inspirativa―

Christo lamentando Jerusalem

, de linhas definidas embora, em esquicio, de uma concepção bella, d'um effeito sentimental e de uma suave expressão.

Os cuidados de mãe

, que eu já conhecia, são um estudo de interior que revela muito saber e muita observação.

O fim da tarde

, delicioso poente, onde o céu tingindo-se de vermelho, dá ao quadro uma inspiração suave do quer que seja de poesia lyrica.

No limiar da porta

, bella cabeça de rapariga, d'um olhar aveludado e triste, de quem espera por alguem; talvez pelo seu namorado.

No

Cabeça de rapariga bretã

, ha a mesma serenidade que no

Limiar

.

Um caminho

, é um bello retalho de aldeia, um caminhosito tortuoso coberto por uma frondosa ramaria. Appetece descançar um pouco, ali, após um largo passeio.

Os casebres de Alfena

,

O lavadouro

(Guisec),

Açudes

(Vizella),

Ribeira de Pont d'Abbé

, e mais outros ainda, são manchas tocadas com primor e com muita proficiencia.

Os pequenos marinheiros

, é um quadro onde se revela d'uma maneira accentuadamente definida a disposição que Thomaz de Moura tem para a figura. Os dous rapazes estão perfeitamente desenhados e sahem da tela accentuadamente.

Ha um quadrosito tambem notavel, é o

Nos campos

, um pequeno sentado sobre a relva parece desfolhar malmequeres emquanto ao fundo, sob um traço de luz, pastam dous mansos bois, é inegavelmente um dos mais apreciaveis trabalhos expostos.

Mais largo poderia e deveria ser este

compte-rendu

da exposição, mas eu prometti apenas uma ligeira noticia, e as minhas aptidões criticas não dão para mais.

E ao acabar permitta-me Thomaz de Moura, que lhe signifique n'estas rapidas linhas a magnifica impressão que me deixou a visita que fiz á sua exposição.

1904.

Panneaux decorativo na Sala da Bolsa no Porto velloso salgado

Panneaux decorativo na Sala da Bolsa no Porto―Velloso Salgado
Panneaux decorativo na Sala da Bolsa no Porto―Velloso Salgado

XIII AMADORES PORTUENSES

D. JOANNA ANDRESSEN SILVA

D. Joanna Andressen Silva

D. Joanna Andressen Silva
D. Joanna Andressen Silva

Sinceramente e no mais grato dos respeitos vou deixar em breves linhas as minhas impressões sobre o merito artistico d'esta illustre senhora, amadora distincta d'esculptura, illustre pelo talento e pela fidalguia do caracter, um caracter d'oiro, propenso ao bem, cheio de fé e de bondade.

Eu sei que biographar um amador é trabalho de certo folego, muito especialmente quando o amador é distincto, como esta illustre senhora; mas eu não venho com mais largas ideias que fazer uma simples resenha dos seus trabalhos, resenha esta que servirá ao mesmo tempo de ligeira nota de carteira da visita que fiz ha dias ao seu atelier. A isso, só a isso, me abalanço, convencido de que cumprindo um dever de cortezia presto ao publico, ao que aprecia as manifestações d'Arte, um interessante e util favor.

Não me alargarei em detalhes minuciosos do grande problema―a

Arte

. Rapidamente, aqui e alli, tocarei aquellas notas, que veja de mais necessidade ferir, para completo comprehendimento do assumpto.

Salão do palacete de D. Joanna Andressen Silva

Salão do palacete de D. Joanna Andressen Silva
Salão do palacete de D. Joanna Andressen Silva

N'esta altura, cabia perfeitamente, como preambulo a estes

pseudo-perfis

, uma larga tirada sobre

Escolas d'Arte

,

Evoluções da Arte

,

Variedade de gostos artisticos

,

Papel moral da Arte

, etc. Não enveredarei por esse caminho, deixo esse estudo aos outros, aos que com mais direito e mais conhecimentos possam fallar do assumpto.

Sou apenas uma especie de

reporter artistico

, que vem sempre que d'isso tem occasião, trazer a noticia d'um amador que se torna notado, d'um artista que está em fóco, d'um atelier que se recommenda pela sua disposição e pelo

recheio

, e d'um

salon

que se abre em exposição de trabalhos

isolados

ou

collectivos

.

Feitas as precisas explicações, vou dar principio á minha singela narração, sem balofas adjectivações e sem assumir o ar solemne e grave de

Pater Magister

. Serei simples e breve como convem aos que escrevem para todos: para os que se embrenham nos profundos e intrincados problemas sociaes e artisticos e para aquelles que só sabem ler. Farei portanto todo o possivel para que facilmente me faça compreender e alguma coisa de util, traga, ao fim, em bem da Arte.

Foi n'uma manhã formosissima, de sol forte e claro que fiz a minha primeira visita ao atelier da Ex.

ma

Snr.

a

D. Joanna Leheman Andressen Silva.

Ao fundo da Rua Antonio Cardoso, rua que partindo da formosa Avenida da Boa-Vista, vae findar no Campo Alegre, fica o sumptuoso palacete onde reside esta talentosa amadora. A vivenda só em si é um encanto. A bella casa, circumdada de formosos parques e jardins, tem um aspecto grandioso e rico que se impõe. Os jardins e o parque que a rodeiam são deliciosos trechos onde as musas predilectas bafejam e inspiram os menos lyricos a compor deliciosas bucolicas e onde os menos artistas encontram retalhos de paisagem encantadora e suggestiva para transplantar á tela.

Canto do Atelier

Canto do Atelier
Canto do Atelier

Eu não posso fallar d'essa paisagem adoravel que me não sinta enlevado pelos seus encantos naturaes. Como é bello tudo quanto d'alli se avista! Como é soberbo todo esse quadro immenso, cheio de vida e de luz, deixando-nos apreciar por momentos o bulicio da cidade, a serenidade das aguas do Douro, que serpeia lá em baixo, a agitação continua do mar, cujas ondas se vem ao longe n'um revolutear continuo, e a tranquilidade da vida aldeã, que se adivinha com as primeiras casinhas que se descobrem do outro lado, no Monte das Chãs!...

Transpostos o jardim e o parque entra-se n'uma ampla galeria, onde,

bibelots

caros e artisticos se juntam n'uma delicada confusão que contrasta com o fino do mobiliario e a riqueza das tapeçarias. Apenas alli introduzido, logo me appareceu a distincta amadora, cheia de attenções e cuidados que encantam, convidando-me a visitar o seu atelier. Acedi da melhor vontade e caminhei vagarosamente encantado pela conversa fluente e interessante da illustre senhora que tem a alma d'uma fina artista e a virtude d'uma delicada e cuidadosa dona de casa.

Busto de mademoiselle Eliza Andressen

Busto de mademoiselle Eliza Andressen
Busto de mademoiselle Eliza Andressen

N'essa passagem atravez de todo o interior formoso e confortavel da habitação, passagem que fiz com a religiosa uncção de quem visita um museu intimo, tive a grata ventura de pousar a vista em admiraveis trabalhos de Antonio Teixeira Lopes, Marques d'Oliveira, Julio Costa, Julio Ramos, Candido da Cunha e muitos outros, e entre estes alguns dos mais consagrados artistas estrangeiros.

E tudo isto, todo este batalhão de Arte se espalha pela casa, gentilmente, nos seus logares proprios, n'uma bem estudada escolha de luz.

Entramos na sala de jantar depois de termos atravessado o salão de baile. Maravilhou-me a magnificencia das pratas, das louças e dos crystaes, mas acima de tudo a confecção e o estylo do mobiliario. Avancei uma pergunta:―-«Quem fôra o auctor d'aquella maravilha? Quem a desenhara?»

E a distincta amadora, sorrindo, contou-me a historia d'aquella mobilia, dizendo n'uma adoravel simplicidade que para a sua execução fizera dous desenhos; um era aquelle, o outro, mais decorativo, mais cheio de flores, fôra posto de parte porque seu primeiro marido não gostara d'elle.―«E eu tambem», concluiu a illustre amadora.

Assim devia ser, porque, por mais formoso que o outro fôsse, aquelle desenho que alli estava, com certeza o havia de supplantar, porque é uma verdadeira maravilha de Arte, quer em concepção, quer em execução.

Em seguida atravessamos o jardim, onde brincavam os filhinhos de D. Joanna, e passamos ao atelier. É este construido sob a sombra protectora e amiga d'algumas bellas arvores; banha-o de luz intensissima uma larga janella que lá do alto se abre para a estrada.

Uma vez alli dentro, analisei detidamente tudo o que lá se achava, desde o mais insignificante desenho até á mais bem lançada esculptura, desde a mais pequena revista até ao mais precioso livro de Arte. E apoz isto, entrei n'um largo inquerito. Sentados n'uns artisticos escabelos, conversamos um pouco sobre arte, discutimos escolas e processos, analisamos rapidamente trabalhos que conheciamos de memoria e por ultimo fallamos da educação artistica da nossa gente. N'esta altura averiguei que D. Joanna desde creança revelara uma grande disposição para a esculptura.

Busto de mademoiselle Ramos Pinto

Busto de mademoiselle Ramos Pinto
Busto de mademoiselle Ramos Pinto

Seu pae, um bom e honrado negociante allemão, que viera para o Porto estabelecer-se, pratico como era, costumava brindar seus filhos com livros de desenho, que mandava vir d'Allemanha. D. Joanna toda se enthusiasmava com esses brindes, que collecionava cuidadosamente e d'onde fazia copias para estudos, revelando desde essa epocha uma vocação especial para o desenho.

Quando menina teve como professora Madame Bizarro, que bem conhecida foi no Porto pelos seus trabalhos em miniatura e bordados.

Foi, portanto, sob a direcção d'esta desenhista correcta e sabedora que ella começou a seguir verdadeiramente o caminho da Arte. Depois, foi por algum tempo para a Allemanha, e ahi, vivendo na intimidade da familia Katzenstein, teve occasião de acompanhar muito de perto e receber mesmo indicações utilissimas do conhecido pintor Katzenstein, irmão do Consul d'Allemanha n'esta cidade. Durante essa epocha D. Joanna amavelmente

pousou

para modelo de algumas das figuras dos quadros d'esse excellente artista, já por vezes devidamente apreciado no Porto, por quadros de certo merecimento artistico, que tem exposto em varios certamens a que tem concorrido.

Com estes dois impulsionadores, Madame Bizarro e Katzenstein, D. Joanna volta a Portugal, cheia d'uma grande boa vontade de ser alguma coisa mais do que a vulgaridade no nosso meio artistico. E para isso chama para lhe completar a educação d'arte dous dos mais notaveis artistas e mais insignes professores: Marques d'Oliveira, o paisagista sabedor e poetico e Teixeira Lopes o genial estatuario, cujo nome é uma verdadeira gloria da Arte Nacional.

Busto de Mademoiselle Maria Joanna Andressen

Busto de Mademoiselle Maria Joanna Andressen
Busto de Mademoiselle Maria Joanna Andressen

E, recebendo lições d'um e d'outro com um aproveitamento pouco vulgar, D. Joanna revela-se não uma amadora distincta, mas uma distinctissima artista. Affirmam-no exuberantemente os seus trabalhos, internecedores pelo encanto com que são concebidos e executados.

D'alguns d'esses magnificos trabalhos vão aqui photogravuras, pelas quaes facilmente se vê que aquillo que affirmo não é senão a sentida expressão da verdade. Na photogravura

Recanto de atelier

, ha uma figurita sobre a meza,

maquette

de um trabalho em tamanho natural, e que se intitula

Rapaz jogando a malha

, que é um assombro de bem executado.

Entre os gessos que ornam o atelier ha um que merece especial mensão. É um

Christo na Cruz

original do grande e saudoso Soares dos Reis.

Nos trabalhos de D. Joanna salientam-se duas

Cabeças de rapazes

, bustos de dois filhos seus, mas dos quaes por motivos especiaes não pude obter photographia.

Parecerá ao leitor que quem executa tão bellos trabalhos não necessita mais de professor; não o entende assim D. Joanna e, n'essas condições, como quer ser tambem alem de esculptura uma pintora distincta, ouve e recebe orientações e lições do velho Costa, o meu querido amigo Antonio José da Costa, o artista que mais linda e sabiamente pinta flores em Portugal.

É desnecessario proseguir. Já fica dito o bastante sobre as impressões recebidas na primeira visita que fiz ao atelier de D. Joanna Leheman Andressen Silva, n'essa manhã deliciosa, de que conservo as mais gratas recordações, não só pelo prazer de avaliar de perto os superiores trabalhos d'essa illustre amadora, mas muito especialmente pelas preclaras virtudes do seu caracter delicado e requintadamente attencioso.

Ficarei por aqui, convencido de que a critica sincera e desapaixonada, dos Mestres d'esta boa terra portugueza, hade dizer mais e melhor, sobre os meritos artisticos da illustre senhora a quem acabo de referir-me, quando um dia tiver de apreciar devidamente os seus trabalhos.

Guarda fiel―antonio josé da costa

Guarda fiel―Antonio José da Costa
Guarda fiel―Antonio José da Costa

XIV PINTORES PORTUENSES

ANTONIO JOSÉ DA COSTA

Ha nomes que, em qualquer parte que se pronunciem, se impõem á consideração de todos nós.

Antonio José da Costa

Antonio José da Costa
Antonio José da Costa

O que encima este artigo é um d'elles.

Como homem e como pintor Antonio José da Costa deve ser respeitado e admirado. Como homem porque é um cavalheiro em toda a acepção da palavra; como pintor porque é um mestre.

É muito grande a minha ousadia, em tentar desenhar, n'um pequeno artigo, uma figura culminante da pintura em Portugal; e não vos admireis, leitores amigos, que eu diga isto, nem julgueis que, ao afirmal-o, queira empanar a gloria de muitos dos nossos pintores. Não. Se considero Antonio José da Costa um grande artista, não quer isto dizer que o julgue maior que alguns outros, mas simplesmente accentuar que elle é um dos grandes artistas da pintura em Portugal.

Para mais ao deante reservaremos o fallar d'esses artistas, grandes como este ou talvez ainda mais, mas, cada um no seu genero.

Rosas e Peonias antonio josé da costa

Rosas e Peonias―Antonio José da Costa
Rosas e Peonias―Antonio José da Costa

Não quero, nem procuro saber quando e como é que Antonio Costa se fez pintor: o que tento é provar que elle hoje é, em Portugal, um soberbo paisagista e o primeiro pintor de flores. E se conseguir isto parece-me que terei dado o meu tempo por bem empregado. Que o mais facil e o mais demonstrativo seria dizer: vêde esses quadros de que vos dou a gravura; vizitae as muitas casas de amadores onde elles estão espalhados: vizitae as exposições onde elles apparecem; ide ao atelier do artista e ficareis convencidos d'esta verdade indiscutivel.

Mas isso é infelizmente impossivel; os amadores que possuem quadros, com raras excepções, fazem monopolio dos trabalhos que compram, parecendo ter medo que os outros, só de lh'os verem, lh'os damnifiquem. E o artista mora lá para Bellos Ares, tão longe do centro da cidade, que, chegados ao seu atelier, o cançaço seria tanto que não vos deixaria vêr com a

devida

attenção, as lindas coisas que elle vos mostraria. Descançai pois que eu,―dando-vos, a traços largos, um relato da obra do artista―vou privar-vos da fadiga d'essa romagem.

Para a pintura como para todas as demais manifestações da Arte é necessario, em logar primordial, a disposição natural do individuo. Não basta só a boa vontade. Mas quando esta se alia áquella então tem-se realisado o supremo ideal, e, embora diga o ditado que «querer é poder» n'este caso esse ditado falha porque muitos artistas conheço eu de muito boa vontade e que querem chegar a onde vão os mestres e nunca lá chegam. E porque? Porque lhe falta a

bossa

artistica, a disposição natural.

Outros tempos. (Esboço)―antonio josé da costa

Outros tempos. (Esboço)―Antonio José da Costa
Outros tempos. (Esboço)―Antonio José da Costa

Ora com Antonio Costa dá-se o caso de elle ter, alem da sua grande boa vontade, a intuição, a disposição natural para a pintura.

É um paisagista, com uma vista perspicaz de observador, que, ao tracejar um estudo, faz resaltar logo a nota caracteristica e determinante do assumpto. E ao olhar esse estudo, no conjuncto de cores e de tons, nós temos a impressão completa e perfeita do que elle queria dizer nos seus quadros. Dous esboços acompanham este trabalho, e ambos demonstram sobejamente o movimentado assumpto, que nos seria revelado pelos quadros, se elles tivessem tido completa execução.

No primeiro, que chamarei

Outros tempos

e que tem o duplo interesse de ser um repositorio de figuras conhecidas e muito populares no Porto, taes como o Dr. Pimentel, pae do escriptor Alberto Pimentel, o Amorim Vianna, o professor João Correia, o pintor Rezende, o Brown,

No Pinhal. (Esboço) antonio josé da costa

No Pinhal. (Esboço)―Antonio José da Costa
No Pinhal. (Esboço)―Antonio José da Costa

etc., que, na janella e na rua, assistem ao desfilar do regimento onde estamos a vêr perfeitamente o ar aguerrido e os jogos malabares d'esse grupo de porta-machados e seu tambor-mór que, descendo pela rua da Sovéla abaixo viram para o seu lado direito, para a travessa de Cedofeita, n'uma cadencia de marche-marche. E na massa quasi informe que os segue ha a intuição caracteristica do grosso do regimento.

No outro, n'um pinheiral esguio, onde bate o sol, veem-se duas figuras por determinar, estando uma com seu guarda-sol aberto; o terreno é empastado e ha no horisonte um quer que seja que nos diz que ali é o mar. Mas nada d'isto está definido, nada disto está executado e, no entanto, nós vemos perfeitamente n'aquellas manchas que o quadro seria assim.

Ora esta particularidade, este modo de fazer os estudos é que só é peculiar a quem nasceu para ser artista, e Antonio Costa é-o e em alto grau.

Depois, como desenha admiravelmente e possue essa grande propriedade de saber vêr os motivos a pintar, d'um pequeno retalho de paisagem, d'uma cancella, d'um casebre tosco, d'um portão de Quinta, d'um

nada

, faz um quadro que é sempre um encanto. Muitos e muitos são os seus trabalhos n'este genero. E mesmo n'aquelles, que a critica não acha completamente bons, ha sempre alguma cousa, muito até, que é excelente.

Por acaso tenho aqui na minha frente um jornal de 1893 onde um dos nossos criticos d'arte de mais cotação no Porto, diz o seguinte a respeito d'um quadro de Antonio Costa,

Portaes do Marão

:

Camelias―antonio josé da costa

Camelias―Antonio José da Costa
Camelias―Antonio José da Costa

«É um pedaço de pintura feito com uma sinceridade emovidissima de sensação e uma franca acção de pincel; em toda a obra do pintor portuense eu separo esta como a que melhor denuncía o seu talento por vezes desigual, com caprichos de intermitencia, mas talento legitimo testemunhado nos intervalos de superioridade com um explendido entono glorioso...»

Ora este attestado passado ha onze annos ao meu perfilado é a confirmação do que venho dizendo, e como na arte não é vulgar andar-se para traz, mas sim cada vez mais aperfeiçoar-se, cada vez mais estou na minha, que, se elle n'esse tempo era um bom artista, hoje é um grande artista.

Mas, Antonio José da Costa que, alem de pintor, tem o quer que seja de floricultor, um dia, ao cuidar das suas camelias, dos seus chrisanthemos e das suas rosas, resolveu, tal como as via, transplantal-as á tela, em pintura; e, com o seu muito saber e o seu arreigado gosto artistico, começou de nos dar quadros tão admiravelmente lindos e frescos como as flores que cultivava, e assim se fez o deslumbrante pintor de flores que agora é.

Junquilhos e Camelias antonio josé da costa

Junquilhos e Camelias―Antonio José da Costa
Junquilhos e Camelias―Antonio José da Costa

Ha no espirito de muita gente que pinta, a crença de que as flores são de facil execução e d'ahi esse enxame de amadores, que nos surge de todos os lados desatando a copiar flores dos modelos que a França e a Allemanha nos exporta continuamente. E pintam flores... mas que flores, Santo Deus!!!!

Para pintar flores é necessario ter na paleta alem das tintas fortes e vivas... um certo quê de orvalho, um pouco de sol e uma porção de ether, esse fino fluido que nos cerca. Ora isto é que só elle tem, só elle possue.

As suas camellias são tão frescas e tão carnosas que temos a impressão de que, se as tocassemos, ellas amareleciam tal qual as naturaes. Os seus chrisanthemos, na variadissima e arrevesada forma das suas petalas, parecem sair da tela em contorneações exoticas, envolvidos no tal ether em que fallei mais acima.

E as suas rosas, d'uma frescura e d'uma suavidade unica, ora aveludadas como seios de mulheres lindas, ora transparentes como gottas de orvalho, são admiraveis; parece até exalarem, em delicias, o aroma que lhes é tão caracteristico.

Em todas as suas flores emfim, existe o supra-summo da verdade e da perfeição...

Ao olhal-as não nos julgamos em frente d'um quadro, julgamo-nos n'um jardim...

Mas não são só flores que elle pinta deliciosamente. As fructas, tambem são

tratadas

por este artista com o mais desvelado e carinhoso amor.

Conheço alguns quadros n'este genero que são um verdadeiro assombro.

Melhor do que eu porém fallam as gravuras publicadas no

Portugal Artistico

, reproducção de alguns quadros de Antonio José da Costa.

E julgo ter assim cumprido o meu dever de homenagem a um artista respeitado e querido.

1904.

Junto ao Cruzeiro antonio josé da costa

Junto ao Cruzeiro―Antonio José da Costa
Junto ao Cruzeiro―Antonio José da Costa

XV EM FRENTE D'UM CARTAZ!...

chronica do "monitor"

Antes de entrar no assumpto da minha Chronica, duas palavras de desculpa.

Não appareci na ultima semana porque estive com as

maleitas

, um diabo d'umas febres que apanhei quando era rapaz e ia brincar para os campos do Cyrne, alli para os lados do Reymão.

Pois essas

maleitas

, vieram atacar-me traiçoeiramente, como costumam, e quando eu me dispunha a escrever a Chronica tive de me enfiar em

vale de lençoes

a tremel-as... Um martyrio, que nem o leitor imagina.

Unica razão porque Vossas Excellencias se viram livres da minha proza a semana passada. Hoje, porém, não escapam. Estou agora fino como um pêro e muito

bravo

.

Portanto, se virem que arranco da espada com valentia, não vos afflijaes, porque ella é de

cortiça

, como era a da

Justiça

, para matar a

Carriça

... Ora pois, como a espada é de cortiça, não corta, o mais que pode fazer é arrolhar. Adiante.

No alto d'este arrazoado escrevi eu:―

Em frente d'um cartaz

!...―E sabeis a que cartaz me refiro? Não sabeis? Pois ides sabel-o. Ao cartaz executado por Julião Machado para reclame aos festejos carnavalescos no Porto.

―Porque vai elle dedicar uma Chronica a este cartaz, perguntarão lá de si para comsigo os leitores?

―Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo está muito longe de ser o que se desejava. Julião Machado é, inegavelmente, um bom artista, mas, d'esta vez, no traba ―Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo está muito longe de ser o que se desejava. Julião Machado é, inegavelmente, um bom artista, mas, d'esta vez, no trabalho apresentado deixou muito a desejar.

Cartaz―julião machado

Cartaz―Julião Machado
Cartaz―Julião Machado

Não quer isto dizer que elle esteja mal feito, mal desenhado, mal colorido; não, o que quer dizer é que não era aquillo que se queria.

Que se queria, não digo bem; que eu queria e a maior parte do publico.

Aquillo, é um lindo desenho, para figurar em ponto pequeno, em uma pagina de revista, na capa d'um livro, ou ainda dum reclame-programma, para distribuir nos theatros, ou na rua.

Finura de traço, cuidado de desenho, doçura de cores... tudo alli ha; mas, faltam-lhe os requisitos essenciaes para o verdadeiro cartaz: largueza de traço, côres fortes e retumbantes, côres, que collocadas pelas paredes, tilintassem como crystaes que se partem, retumbassem como trovões, vibrassem como clarins, ou refulgissem como o sol.

Acima de tudo isso, era preciso que tivesse o caracter genuinamente portuguez, que infelizmente não tem. As figuras passam n'elle como se fossem a reprodução d'uma festa em pleno Paris―-o

Boi gordo

, por exemplo.

Unicamente, como nota portugueza, no primeiro plano um busto de

lavradeira

, e lá entre essa multidão apenas um

capote e lenço

, como que querendo fugir para fóra do traço delimitador do caixilho, talvez embaçado de se vêr seguido por tanta gente, que elle nem sabe quem é.

Os nossos mascaras caracteristicos, os

chechés

, os

lavradores

, os

bebés

, os

gallegos

, etc., etc., que davam a nota definida do nosso carnaval, esses, fugiram n'um desespero de se verem amarfanhados n'aquella

pele-mele

de mulheres em

maillot

, e mascaras que nós não conhecemos.

Mas a culpa não foi do artista. Elle viu assim o carnaval; viu n'aquella

cocote

fina e delicada, que o

pierrot

leva sobre o grande bombo, a

Folia portugueza

, e enganou-se!... A

Folia portugueza

não é assim tão fina e quasi ingenua, é muito mais expressiva, mais valente, de gesto largo e de fundas gargalhadas, atirando um grande punhado de

bombons

ou um

bouquet

de violetas, com ar de quem não está a estudar posições ao espelho, despreoccupadamente...

No meu entender, Julião Machado não realisou o verdadeiro programma.

Depois, ha alli qualquer coisa a mais, e que infelizmente me entristece: é vêr suspensas da mão da Folia, como se fossem duas grandes bexigas, as mascaras da Russia e do Japão. Não acho de grande intuição artistica aquellas duas figuras n'aquelle logar. Quando duas grandes nações se degladiam n'uma sangrentissima guerra, exquisito é que se aproveite esse caso para que, como n'um ridiculo de troça, a

Folia

atira sobre a multidão que se diverte com essas duas grandes figuras.

Mas... adeante; isso nem se discute.

Cartaz manuel monterroso

Cartaz―Manuel Monterroso
Cartaz―Manuel Monterroso

O cartaz ahi está! É o que o publico póde vêr! Agora, o que o publico não pode vêr, é o cartaz que apresentou Manoel Monterroso, e é pena, porque se o visse havia de convencer-se de que este, como ninguem, comprehendeu qual o verdadeiro caracter que devia ter o cartaz.

No cartaz d'este distincto amador, havia de tudo, bello desenho, côres retumbantes, e verdadeiro caracter portuguez.

Depois, a concepção era genial, d'um bello artista.

No seu trabalho, uma verdadeira caricatura carnavalesca, revelava-se mais uma vez o seu espirito fino e observador e o seu traço caracteristico e definido.

As figuras que elle apresentava, eram recrutadas no nosso meio, de genuina originalidade portugueza. Oh! mas esse não apparece.

É que a commissão entendeu que devia premiar os dois e mandar executar só um. E porque seria isto? Que entendedores fôram os que determinaram resolução tão exotica? Porque não se fará a exposição do outro cartaz?

Cumpre ao Club, antes de apparecer em publico com o seu cortejo, fazer afixar o cartaz de Manoel Monterroso; sem isso terá dado uma prova de favoritismo, de preferencia a um artista, com o fim, talvez de amesquinhar outro. E isso não é de pessoas que dirigem um Club cuja divisa é―

Pelo Porto

!

Que appareça o cartaz de Monterroso, para que o publico o aprecie tal como elle merece, e para que se não fique julgando que o Carnaval será palido e desenchabido como o cartaz de Julião Machado.

E que o artista me desculpe, que eu não lhe quero mal. Venho unicamente, como um dos mais sinceros amigos do Club Fenianos Portuenses, pugnar pelo bom nome do mesmo e pelo interesse do meu querido Porto, que se prepara briosamente para receber os milhares de forasteiros que ahi virão assistir ao carnaval, que deve ser maravilhoso.

Janeiro de 1905.

Nota

―E o Club, depois do meu repto, deixou-se ficar muito calladinho com o cartaz de Monterroso e não o afixou.

O Janeiro

, porém, na Terça feira de Entrudo, em illustrações do dia, deu-o em traço ligeiro. Apesar d'isso, eu, mais meticuloso e mais pratico, aproveito esta occasião para fazer inserir n'este logar os dous cartazes. Assim, o leitor verá a justiça de meus dizeres e a sinceridade com que eu tracei estas ligeirissimas linhas. Elles ahi ficam expostos e o publico que os julgue como entender.

XVI NA CRUZ

Quadro de JULIO COSTA

Eis ahi duas singelas palavras que envolvem um grandioso poema de dôr, porque exprimem o final d'esse drama de soffrimento que passou Christo.

E o pintor portuense Julio Costa, com o seu muito talento artistico, conseguiu transportar á tela todo esse sentimento, realisando um quadro que por si só bastaria para fazer um nome, se elle de ha muito não estivesse feito.

Esse quadro, estudado com um carinho adoravel de pintor de raça, com seus laivos de poeta lyrico, é admiravel de execução e representa Christo no momento em que, erguendo ao ceu o olhar, dizia:―«Perdoai-lhes, Senhor, que elles não sabem o que fazem».

N'uma bem lançada cruz, que se destaca, em todo aquelle fundo tenebroso da noute tragica do Calvario, pende, deliciosamente desenhado, e admiravelmente tratado, um Christo que nos chama o olhar, n'uma contemplação muda de admiração e respeito.

Que de cousas sentenciosas se poderiam dizer da sua execução? Mas para que fazel-o, se o publico conhece bem o merito artistico do nosso amigo?

E a Camara Municipal do Porto, que parece querer agora fazer qualquer cousa de bom a bem da arte portugueza, acaba de adquirir este bello trabalho, para o museu municipal.

Quando os nossos leitores poderem admirar mais este soberbo quadro de Julio Costa, hão de reconhecer que a apreciação que d'elle faço nada tem de exagerada.

Na Cruz―Quadro de julio costa

Na Cruz―Quadro de Julio Costa
Na Cruz―Quadro de Julio Costa

1902.

XVII AMADORES PORTUENSES

D. MARGARIDA RAMALHO

Discipula de JULIO COSTA

Tendo que traçar algumas ligeiras palavras, para as

Notas d'Arte

, a respeito d'uma senhora, que, como amadora, se torna notavel na pintura, devo pedir venia, e formando um bello arco com lyrios e rozas enfeitar esta pagina.

D. Margarida Ramalho

D. Margarida Ramalho
D. Margarida Ramalho

Depois, respeitosamente, com um certo ar á Antiga, pondo um pé atraz, fazer uma reverencia o mais gentilmente que possa, e estendendo a minha forte e grossa mão de trabalhador honesto, pegar levemente nos dedos finos da delicada mão d'essa senhora, e levando-a fidalgamente aos labios, beijar-lh'a, pedindo-lhe licença para lhe dedicar duas phrases desataviadas, n'um pequenino artigo sobre o seu valor como amadora de pintura.

Ella, sorrindo, naturalmente dirá que sim, e então eu começarei a escrever, cheio d'aquelle doce encanto que nos vem d'esses olhos vivos e d'um rosto lindo.

E que isto vá sem ar de madrigal, porque estou velho de mais já para isso, e muito especialmente porque eu já não sou só... Adeante!...

Comecemos pois, nada de perder tempo em rebuscamentos de estylo.

Dentre a multidão enorme de amadores de pintura, multidão cujo calculo é impossivel fazer, ha alguns, não muitos que merecem especial menção, e que devem passar n'estas simples

Notas d'Arte

ao lado dos verdadeiros artistas, como affirmação de que o talento, acaba por não distinguir uns dos outros.

Não pense o leitor que eu vou transplantar para aqui, todos os amadores de talento que ha na cidade da Virgem. Isso seria impossivel.

Vou apenas apresentar-vos uns dous ou tres, com incitamentos para os outros.

E a aprezentação d'estes amadores, visa a dous fins:―animar os alumnos, na esperança de se verem glorificados um dia publicamente, em lettra redonda e excitar os professores para que desde que encontrem nos seus discipulos aptidões para o desenho e para a pintura, ou esculptura, os obriguem a destacar-se no nosso meio artistico.

Não devem portanto, os que não apparecem n'este livro, vêr da minha parte, n'esta falta, o desejo de os não notar. Não, não é assim; é que nos limites d'este volume não cabem todos, e por isso só aqui aparecem aquelles com quem mais em contacto estou e de quem mais de perto conheço as obras.

Se algum dia porém eu voltar a publicar outro volume como este, então dedicar-lhes-hei uma grande parte d'elle e alli apparecerão todos os amadores, que o mereçam, está bem de ver.

E, não me deixava eu alargar por ahi abaixo em salamalekes para os amadores da pintura, sem me lembrar, quasi, que tinha que dedicar estas paginas a uma senhora?

Queira V. Ex.

a

desculpar, minha senhora, e entremos no nosso assumpto.

―Como foi que eu conheci pessoalmente esta senhora, que de ha muito conhecia de nome?

Vou explical-o.

Ás noutes reuno-me muitas vezes com o velho amigo Julio Costa e discutimos muitos e variados casos. Entre essas conversas muitas vezes nos entretemos a fallar de Arte. N'uma d'essas occasiões, discutindo aptidões de alumnos, Julio Costa fallou-me largamente d'esta sua discipula, que mostrava uma disposição especial definida para a pintura.

Era, não uma d'estas senhoras, que se prendeu em simples bibelotagem d'Arte, mas, que, uma vez dada a estudar, queria ir para deante.

Julio Costa afeiçoou-se a esta discipula e dedica-lhe uma especial estima.

Uma noute, depois d'uma d'essas conversas muito vulgares entre nós, disse-me Julio Costa:―Você sabe, Lemos, fallei em si e na conversa d'hontem á minha discipula de Mattosinhos e manifestei-lhe o desejo que você tinha de visitar o seu pequenino atelier.

―E ella que disse?

―Que poderia ir quando quizesse, que bastava eu ter-lhe dito que tinha vontade que você visse os seus trabalhos, para immediatamente consentir; que eu, como professor, não lhe teria fallado n'ella, se não visse que ella tinha qualquer pequena coisa que merece apenas só vêr-se. E, confessava-me o Julio Costa: dizia isto tão cheia de modestia tão encantadoramente, que você deve lá ir e muito breve.

―Pois vou lá no domingo. E fui. Era meio dia, quando me apeei do electrico, na alameda de Mattosinhos, mesmo á porta da caza onde mora D. Margarida Ramalho.

A caza, com um doce aspecto de frescura, fica alcandorada um pouco acima do nivel da estrada, circundada por um jardimsito bem tractado e onde se ostentam bellas flores.

Das janellas desfructa-se o rio Leça, que indolentemente se espreguiça, n'um

dulce far niente

, até desaguar lá ao longe no mar, em Leixões. E, quasi em frente das janellas, na alameda, entre a frondosa ramaria das arvores, a figura de Passos Manuel impassivel e serena, n'uma atitude de resignado ante a aluvião de zangãos, que por este tempo de verão se encarregam de zumbir de volta d'elle, como os

Passos

d'hoje zumbem em volta da sua

Memoria

.

Perdoe-me a gentil senhora, mas ao apear-me do electrico e ao olhar para aquella figura, fiz estas mesmas considerações.

Pois bem, logo que cheguei subi ao jardim e bati docemente á porta. Veio abrir-m'a uma creadita loura, d'um louro acastanhado.

Perguntei se D. Margarida estava e entreguei o meu cartão de visita.

Voltou dentro em pouco dizendo que sim, que podia passar á sala. Entrei. D. Margarida não se fez esperar. É uma senhora nova, baixinha, magrinha e muito loira, interessante como um lindo

biscuit

. Recebeu-me o mais amavelmente possivel. Peço-lhe desculpa do meu atrevimento mas o Julio Costa tinha me fallado d'ella com tanto interesse, que tinha immediatamente feito nascer no meu espirito de admirador do bello, procurar ensejo de ir ver os seus deliciosos quadros.

Castanheira―d. margarida ramalho

Castanheira―D. Margarida Ramalho
Castanheira―D. Margarida Ramalho

Eram favores, do seu professor, dizia ella. Mas já que tinha vindo então sempre ia mostrar-me os seus trabalhos.

Entrei no atelier, um recantosinho alegre onde ella estuda os seus assumptos e onde os põe em execução, depois de ter em pleno ar livre, feito os esquissos e os precizos estudos.

É no atelier que ella tem os seus melhores trabalhos, pousados artisticamente pelas paredes, todos elles com magnificas qualidades de côr.

Aqui, é um quadro representando uma rapariga á porta d'uma taverna, com uma assadeira de castanhas, n'um taboleiro, castanhas já assadas, e n'um cesto ao lado maçãs. No fogareiro da assadeira ainda restos de lume. A rapariga, d'uns doze annos, olhos azues, cabello louro, poderiamos dizer dourado. Uma expressão dolente, um ar pensativo e triste, talvez, quem sabe? com receio de que não appareçam freguezes e ella tenha que levar tudo aquillo para casa, sem ter apurado vintem. Por detraz d'ella, vê-se uma grande pipa já vazia, no fundo escuro. É um quadro bem tratado, cheio de um intimo sentimento. Alli, uma

Cabeça de velho

, de barba branca amarellada e chapeu largo, é verdadeiramente interessante, feito com proficiencia, destaca deliciosamente da tela, e sente-se, que se a aragem passasse um pouco forte, aquella barba ondularia fluente e suave. Mais alem, n'uma boa e sã frescura, de moça sadia, uma

Rapariga de Villar d'Andorinho

, com o seu typico chapeu de maçanetas pretas, irradia vida e côr.

Cabeça de velho d. margarida ramalho

Cabeça de velho―D. Margarida Ramalho
Cabeça de velho―D. Margarida Ramalho

Outros mais ainda, mas como nota final d'este recinto, um delicioso quadro que intitularei

Volta da fonte

. Uma rapariga muito esguia e muito fina desce uma rampa trazendo ao hombro um cantaro cheio de agua e isto por um sentimental fim de tarde.

Em todos estes trabalhos se denota uma perfeita orientação, um serio estudo. Vê-se que D. Margarida Ramalho não é uma amadora vulgar, que se atira inconscientemente a executar a pintura, sem primeiro a ter estudado conscienciosamente. Alli ha valores, tonalidades, tons e meios tons, perspectiva, desenho, arte emfim.

Saí do lindo atelier depois de demorada vizita, e de agradavel conversa por onde pude concluir que havia já 7 annos que estudava. Subindo a escada, no patamar encontram-se os seus primeiros estudos em dezenho, dos quaes destacarei como mais notaveis um

Perfil de Mulher

e uma

Cabeça de expressão

, de guerreiro. A todos esses trabalhos liga esta amadora uma especial predileção. A convite da illustre amadora entrei depois no seu

boudoir

, cheio do mais profundo respeito. Este quarto, mobilado com simplicidade, mas fino gosto, mereceu a minha attenção porque as suas paredes são decoradas delicadamente pela sua habitante.

N'um enlevado sentimento de amor pela Arte, D. Margarida Ramalho, entendeu e muito bem, que no seu quarto de dormir ella devia reunir e patentear aos seus olhos alguma coiza que saindo do seu esforço artistico constantemente lhe desse um doce effluvio emotivo e agradavel, e então traçou em largos

panneaux

, com os seus finos pinceis, deliciosas artemizias e frescas e orvalhadas rozas. Um verdadeiro encanto. Ao tecto deu o collorido azul duma suave atmosphera, como um vago sonhar do ceu. E sobre a cabeceira do seu leito pintou uma linda composição d'aquellas bellas flores―bons dias e boas noites, dentre as quaes pende um formozo Christo de marfim.

Quando o quarto estava completamente pintado, D. Margarida pediu ao seu professor que lhe pintasse alli qual couza que podesse, dizia ella, dar um ar de grandeza áquellas pobres flores. E Julio Costa, querendo ser agradavel á sua discipula porque vê n'ella uma verdadeira fanatica da Arte, e muito e muito a estima, pintou então n'um vão escuro da janella, um

Fim de tarde

. Numa larga planicie arida e muito extensa, lá ao fundo, o sol cae, e ao esconder-se deixa um tom alaranjado, donde saem fortes e espalhados raios dum vermelho intenso.

E D. Margarida conta-nos tudo isto timidamente. Porque ella é uma timida. Tem um grande respeito pela Arte e esse respeito cria-lhe uma indiscriptivel duvida sobre o seu poder executante d'obras de largo folego.

Fallei-lhe de trabalhos que conhecia de varios pintores e ella, como que se alterava, quando eu lhe dizia, que a achava com forças de tentar obras assim, e só me respondia: Está enganado, eu sei lá fazer tanto!... E apesar disso os seus trabalhos demonstram bem o contrario.

É vulgar, segundo me diz o Julio Costa, ao apresentar-lhe um assumpto para tractar, ella dizer-lhe: Eu não faço isso, porque é muito difficil, muito difficil. Depois, principia a desenhar cheia dum grande escrupulo, sempre com medo de errar, chegando ao fim e tendo executado o desenho e depois a pintura em equilibrio muito estimavel e mesmo muito notavel.

E ella faz isto tudo, porque admira intimamente a Arte e é uma doce adoradora do Bello.

Não se atreve ao mais difficil, sem consideração, sem respeito, treme ante o mais modesto e o mais singelo trabalho, e por isso consegue ser notavel entre os amadores de pintura.

Tinha feito a minha agradavel vizita e ia despedir-me, quando ao passar pela sala de visitas notei um bello piano. Atrevi mais uma pergunta:―Era ella tambem a amadora?... Era, e executando com talento. Rogada então para se fazer ouvir, descerrou o piano, passou suavemente os dedos pelo teclado e soltou lá de dentro um primoroso

Nocturno de Chopin

, que me deixou no espirito a nota viva do seu grande amor á Musica. D. Margarida é uma

virtuose doublé

de pianista e pintora.

Disse-lhe adeus, e ao saír para tomar o electrico que me trouxesse ao Porto, abençoava o Julio Costa, que tinha conseguido que eu passasse duas horas deliciosamente.

Impressão de Paris―candido da cunha

Impressão de Paris―Candido da Cunha
Impressão de Paris―Candido da Cunha

XVIII Novos quadros de ARTUR LOUREIRO

I no seu atelier do palacio de crystal

Os quadros que n'este momento se acham expostos no

atelier

do delicado artista Arthur Loureiro, devem ser vistos com attenção, porque esses trabalhos fazem resaltar rapidamente todo o segredo emotivo. Não são como certos quadros que precisam para serem comprehendidos uma intuição especial e definida.

Arthur Loureiro

Arthur Loureiro
Arthur Loureiro

Não, nas telas de Loureiro logo nos resalta clara e ridente a verdade, tendo o grandioso merito de se incutirem no nosso espirito pelo espectaculo de linhas e de côres harmoniosas, de leves sensações, lembranças e sonhos que se misturam pouco a pouco com o prazer da impressão visual.

Arthur Loureiro, inegavelmente, é um grande artista, e embora alguem não goste d'isso, é d'aquelles que aferrado ao seu trabalho lucta lealmente, sinceramente, na ideia firme e correcta de mostrar que sabe e que tem fundos recursos para grandes e luminosos emprehendimentos.

Loureiro, embora o julguem um triste, um melancholico, não é d'aquelles que preferem o aroma resinoso dos bosques e o perfume das flores, na doçura d'um crepusculo, na hora em que a nossa alma sobe tristemente ás regiões do ideal, e que os objectos se descoram e a paisagem toma uma attitude recolhida e quieta!... Não, elle verdadeiro filho do norte, onde as raparigas, vermelhas como romãs e os rapazes, valentes como heroes, cantam poemas sublimes de amor e de luz, n'uma musica altisonante e harmoniosamente alegre, elle, ama mais o grande sol de luz intensa e forte e o sussuro que nos dá a nitida impressão da vida e do trabalho.

E tudo isso se vê nos seus quadros, n'esses cincoenta trabalhos expostos, que são, como já o disse um meu collega da imprensa, como que provas definidas para um concurso de Arte. Com aquelles documentos, Loureiro affirma que em todos os generos de pintura é um mestre. No retrato, na paisagem, na marinha, no estudo d'animaes, no genero decorativo, em todos elles o nosso artista se nos apresenta verdadeiramente grande. E senão, á

vol d'oiseau

, rapidamente, vejamos:

Os tigres

que anatomia e que correcção; como se desenha tão nitida e tão visivelmente o traço de todo aquelle animal n'uma postura molle de traição e de força. Como vemos através d'aquelle olhar felino e do aveludado da sua garra, a indole perversa que d'elle se acolhe. E com que verdade estão tractados aquelles olhos brilhantes e magoadores, d'um outro, que por traz do que está no primeiro plano, parecem fitar o espectador, na esperança de filal-o, n'um salto rapido e traiçoeiro. É inegavelmente um d'estes trabalhos que só por si fazem o nome laureado a um artista.

Estudo decorativo

. Simplesmente soberbo e encantador. Entre flores, envolvendo-se n'um veu de gaze transparente e lucido, sae como uma deslumbrante rosa, toda viço e frescura, uma linda creança, encantadora e meiga como um anjo, tendo na mão uma haste de flores-

saudades

. N'um fundo rutilante de luz, como na aureola ridente d'uma fresca manhã de Agosto, destaca essa linda figura. E como foi desenhada e como foi executada. Alma de poeta, d'esses poetas que cantam as manhãs claras do sol e os rostos lindos das raparigas, foi a que concebeu aquelle quadro e que o executou. Nada mais...

O retrato do Chico Anthero

.―Perdão, doutor, tratal-o assim, mas, francamente, quando olhei para o seu retrato não pude respeital-o e pedi-lhe que contasse uma d'aquellas suas historietas. Não contou, mas é tal a semelhança, tal a expressão, tão seu aquelle modo e tão psychologicamente estudado aquelle quadro que me pareceu mesmo ouvil-o a larachear e a rir.

Retrato de Sá d'Albergaria―Pintado por arthur loureiro

Retrato de Sá d'Albergaria―Pintado por Arthur Loureiro
Retrato de Sá d'Albergaria―Pintado por Arthur Loureiro

É um primor de execução, é um assombro de correcção.

Retrato do dr. Julio de Mattos

.―Bello trabalho feito na largueza subtil d'um quadro d'arte, não com a preoccupação d'um retrato para galeria de definidores da ordem terceira, mas um retrato intimo, que temos no nosso gabinete de trabalho, ou no nosso quarto, retrato para nós, para consolo da nossa alma e dos nossos. Tal é o retrato do dr. Julio de Mattos, que incompleto como está, já mostra que ha-de ser um quadro tão bello, tão bem feito como o do

Chico Anthero

.

O retrato do dr. Magalhães de Lemos

tambem é um bello trabalho.

Ha mais dois retratos de senhora, dois estudos, como Loureiro lhe chamou, mas que são dous primores. Loureiro adoptou para os seus retratos uma fórma e um tamanho especial o que lhe dá uma gracilidade gentil e meiga, deixem-me assim dizer.

Em quanto á

Paisagem

muito teria que dizer se podesse alargar este artigo, mas como me não é possivel n'este momento, limito-me a fallar dos seguintes quadros:

Rua do Meio

.―Da vulgaridade d'uma rua, com casas de um lado e d'outro, e uma egreja no primeiro plano, teve Loureiro a habilidade de fazer um dos seus para mim mais interessantes quadros.―E porque? perguntará o leitor. Outro qualquer o faria...―Mas não fazia. Para isso é preciso saber-se vêr e vêr muito bem, conhecer mil pequenas cousas e transplantal-as para a tela com uma especial pericia e arte... d'onde se conclue que aquella rua não é como não é uma coisa chata, sem relevo. Aquella rua é um quadro e dos mais interessantes.

Montanhas da Galliza, Corgo, Monte de Santa Tecla, Alto de Santo Antonio, Barra de Caminha

. Tudo isto são retalhos sublimes da natureza, que Loureiro transplantou á tela com uma verdade flagrante e uma technica segura.

Fecho por aqui este meu despretencioso artigo fazendo apenas uma leve consideração. Ha no nosso Muzeu quadros de quasi todos os pintores portuenses, mas não vimos ainda lá nenhum de Arthur Loureiro. Agora, como nunca ha occasião para que a Camara do Porto, que parece se interessa um pouco pelas cousas d'Arte da nossa terra, compre um quadro a Loureiro para o Muzeu Municipal.

E porque não ha-de fazel-o!?... Tem este artista dois quadros que estão a pedir transplantação para logar, onde todos os possam apreciar condignamente e são: os

Tigres

ou

Por montes e vales

.

Cumpre á camara do Porto este dever de gratidão para com o artista distincto, que após 20 annos de ausencia, volta a Portugal cheio de Arte a glorificar-nos com os seus trabalhos.

II ARTHUR LOUREIRO e os seus discipulos

Nada ha que mais me enthusiasme e me anime, do que saber que ainda ha, quem, dentro da esphera da Arte, tenha iniciativas e emprehendimentos de coisas uteis e aproveitaveis, sem mira a vanglorias ou a fabulosos lucros, unica e exclusivamente pela Arte.

Ha annos, todo eu me enthusiasmei, quando meia duzia de artistas, homens de lettras e amadores, tentaram crear no Porto uma sociedade de Arte, que infelizmente, como todas as coisas uteis, cahiu ao tentar elevar-se; digo mais, morreu de morte affrontosa ao nascer.

Depois, perante a iniciativa do Instituto de Estudos e Conferencias, que parecia vir dar a nota correcta de que as exposições d'Arte seriam verdadeiros concursos de trabalhos definidos de artistas, tambem me enthusiasmei, porque imaginei que, com os elementos de que elle dispunha poderia fazer muito melhor do que o que tem feito, se bem que tenha feito alguma coisa.

Apparece depois um sr. Magalhães, que não conheço, em communicados nas gazetas, a dizer verdades amargas a respeito do Palacio de Crystal e a reclamar para aquellas duas alas lateraes, que foram em tempo bazares, escólas de pintura, de lavores femininos, etc., emfim, reclamando o aproveitamento d'aqnelles dois esplendidos

atelieres

em alguma coisa de util para a Arte... Mas, infelizmente as verdades que o sr. Magalhães dizia, ficaram perdidas como perolas em chiqueiro de porcos, porque a gerencia do Palacio de Crystal achou mais util tel-os assim vasios, do que aproveitados em

qualquer coisa

... Assim, podia em noites de

spleen

, passear n'ellas, como a sombra do Hamlet, sem tropeçar em qualquer coisa que tornasse o Palacio interessante ao publico, mais do que os macacos e o sr. Vieira da Cruz!... E essa idéa, como era boa, morreu, n'um significativo desprezo por parte dos interessados no rejuvenescimento do Palacio de Crystal.

Veio por fim Arthur Loureiro, esse laureado artista que todos nós conhecemos, pelo seu talento, e lança a idéa de uma escóla d'Arte, tal como ellas são no estrangeiro. Lucta com mil difficuldades ao principio para poder realisar o seu plano, e eu ao saber do seu emprehendimento todo me enthusiasmo um momento, para pensar logo em seguida que a sua idéia ha-de morrer, como morreram todas as outras. Mas, tal não succede; Arthur Loureiro se no fundo é um bom portuguez e um genuino portuense, vem saturado d'essa convivencia de vinte annos com os inglezes, gente que tem tanto de aventureiros como de previdentes. Debaixo d'essa esplendida orientação Loureiro cria a sua escola de pintura para senhoras e não desanima, confiado em que querer é poder.

Retrato do dr. Francisco Anthero arthur loureiro

Retrato do dr. Francisco Anthero―Arthur Loureiro
Retrato do dr. Francisco Anthero―Arthur Loureiro

E hoje é elle o unico artista que, no nosso meio, realisa este grande melhoramento, em prol da Arte: ter uma escola onde vão os seus discipulos, n'uma confraternisação artistica, tomar as sábias lições que elle lhes dá com a sua proficiencia e saber.

E, com que arte, e com que cuidado, elle soube transformar uma sala fria e desconfortavel n'um

atelier

, que se não é um

especimen,

é no entanto um delicado recinto onde o gosto decorativo do artista se casa perfeitamente com a severidade das paredes, onde pousam como scintilantes fulgurações de genio, trabalhos, estudos e composições do professor, de mistura com gessos de estudo.

Fui ha dias ao

atelier-escola

, precisamente no momento em que terminavam as lições e as alumnas, fulgurantes de mocidade e alegria, saiam n'um chilrear que encantava. Os cavalletes, espalhados pelo

atelier

, eram como sentinellas que ficavam guardando os logares das discipulas. Passei-os em revista, cheio de curiosidade e de interesse em notar n'aquelles esboços as disposições de quem os tinha executado. Aqui, desenho dos principiantes, de diversos objectos, taes como garrafas, jarros, pucaros, etc., e onde elles, emquanto desenham, vão tendo noções do que é a perspectiva pratica.

Mais além, estudos de fructas e flores, e entre esses os d'uma discipula que compõe e applica aos tecidos as flores e os fructos que desenha e que pinta do natural.

Outros, desenhos de gessos das differentes escolas, grega, romana e renascença... Mais além, cópias flagrantes a oleo, dos modelos vivos e dos costumes populares portuguezes.

Uma verdadeira escola, methodica e definida, onde os alumnos não copiam os seus trabalhos de modelos que veem de França ou da Allemanha ás grosas, mas sim do natural; estudando desde as mais rudimentares noções de traços e linhas, até aos intrincados problemas da perspectiva, sós por si, apenas com as indicações do professor.

São tambem para notar as pastas carregadas de estudos que os discipulos executam em casa, após as lições, e que são documentos irrefutaveis do bom aproveitamento d'este systema de ensinar o desenho e a pintura.

Entre os discipulos de Loureiro, ha um que se torna notavel, porque com 48 lições apenas, uma cada semana, tem feito maravilhosos progressos. D'este discipulo, já eu tive occasião de fallar, quando em tempo dediquei duas linhas a uma exposição que Loureiro fez e em que appareceram alguns estudos d'elle.

Ha tempos, porém, quando visitei o

atelier-escola

, tive uma boa occasião de vêr de novo trabalhos seus feitos alli: uma bella copia a oleo do gesso, correcta de execução e de desenho e mais uns trabalhos que elle fizera fóra da escola, em passeio d'Arte pelo campo e pela praia. Havia uma marinha bem tocada, e uma paisagem

delicadamente

pintada e superiormente estudada e desenhada, não fallando n'um interessante quadro de camelias, que me encantou. Talvez porque eu gosto muito de flores, e aquellas estavam tão frescas, que me fizeram uma magnifica impressão.

É elle o sr. Manuel Lucio um dos amadores que, se continuar assim, mais brilhantemente poderá affirmar o que se tem dito de Loureiro: que se é grande como artista, não o é menos como

professor

.

Mas, voltemos á escola. Tem ella sobre todos os outros

atelieres

a grande vantagem de estar installada nos jardins do Palacio. Quando a primavera, ridente, enche aquelle recinto de flores e de sol, cá para fóra, para o ar livre, vem os discipulos, e, ou recolhem nas suas telas as flores lindas e frescas e os pontos de vista deliciosos que d'alli se disfrutam, ou estudam e pintam pequeninos recantos do jardim variados e bellos. E tudo isto realisa Arthur Loureiro, não sem largas e complicadas difficuldades, que felizmente elle vê cobertas de bom resultado, se bem que com pouco interesse.

Ao vir-me embora depois de ter dado os meus parabens sinceros ao professor pela sua iniciativa, pensava em como aquelle bello recinto do Palacio de Crystal poderia ser aproveitado para tanta, tanta coisa util, em vez de jazer ignominiosamente alli, mudo e sinistro como um crime.

E que tudo isso se poderia fazer se quem o dirige, visse mais alguma coisa do que umas

reles exposições de flores e aves

e do que umas

festarolas de arraial

com

musica do Zé da Gaita

e

fogo d'artificio do Devezas

!...

Tigres―arthur loureiro

Tigres―Arthur Loureiro1
Tigres―Arthur Loureiro1

III ARTHUR LOUREIRO e a Academia de Bellas-Artes

Ha tempos n'uns bem elaborados artigos da

Voz Publica

, alguem, que eu não sei quem é, veio apresentar a ideia de que Arthur Loureiro deveria ser professor da nossa Academia de Bellas-Artes.

Achei tão acceitavel e tão util para a Academia essa ideia, que n'este momento em que me tenho de occupar da sua exposição de quadros, entendi dever acompanhar na sua propaganda quem tão desinteressadamente a apresentou. Não é que eu venha a campo combater afincadamente em favor d'este artista, não, venho só como mero espectador do grande palco da vida applaudir quem soube apresentar a ideia.

Arthur Loureiro foi um dos mais distinctos discipulos das nossas academias de Bellas Artes e tem a sua folha de bom profissional, resplandecendo de brilho e cheio de gloria immoredoira.

Não foi no seu paiz natal que elle se completou em arte, foi no estrangeiro, nas grandes terras onde ser-se pintor não é uma mera galanteria de gente fina; foi nas terras onde se faz da Pintura alguma coisa mais pratica e mais definida do que entre nós.

Voltou tarde á patria, vinte annos passados sobre o seu curso. Quer isto dizer, que elle vem mais senhor do

metier

do que aquelles que meramente se demoram lá por fóra uns tres ou quatro annos. É certo que muitos que estudaram no estrangeiro nem sempre ao voltar veem mais vigorosos e mais trabalhadores do que quando partiram. Mas elle não.

Arthur Loureiro, foi unicamente para trabalhar e affirmam-no exuberantemente os cargos que por lá occupou distinctamente, taes como:―examinador das classes de Arte da National Gallery of Victoria, e director e professor de 1.ª classe dos cursos de Dezenho e Pintura do Presbiteriam Ladier College em Melbourne, na Australia.

Só no mundo―Quadro de arthur loureiro

Só no mundo―Quadro de Arthur Loureiro
Só no mundo―Quadro de Arthur Loureiro

Ora estes cargos dados a um estrangeiro, a um portuguez, o que affirmam é o que o seu nome era ali conhecido e que estava á altura de occupar esses logares com toda a hombridade e todo o saber.

Mas ha mais, quando terminou o seu curso em Portugal foi classificado para pensonista em Paris, onde fez uma larga e profunda aprendizagem d'arte.

Concorreu a muitas e variadas exposições, onde os seus quadros foram sempre apreciados como mereciam. Entre esses deveremos notar como primordiaes a Exposição Religiosa da Belgica onde o seu quadro,

A Visão de Santo Stanislau de Kastka

, foi acolhido com enthusiasmo por toda a critica, e muito especial referencia mereceu ao celebre critico religioso, l'Albé Moeller. E ainda em Londres, onde concorreu, a convite, á Greater Britian Exibition, em 1899 e foi recompensado com diploma d'honra e medalha de ouro. Ha pouco foi elle eleito Academico de Merito da Academia da Victoria, em Melbourne.

Vê-se bem claro, por tudo isto, que Arthur Loureiro era considerado e muito, lá fóra, como um verdadeiro artista que é.

Estou d'aqui a vêr a balburdia que vae no nosso meio artistico por estas minhas despretenciosas notas, mas não são ellas mais do que o desejo de provar que o homem está á altura de occupar um logar de professor na nossa Academia.

Porque estou bem certo de que elle, chamado a dar provas publicas do seu saber artistico, ellas serão convincentes.

Se elle é um grande artista, não é menos um grande trabalhador, incansavel; trabalhando, quer em quadros para expôr e vender, quer dando lições áquelles que desejam bem conhecer a arte de pintar, no seu

atelier

, no Palacio de Crystal Portuense. N'esse mesmo

atelier

já por varias vezes tive o prazer de visitar exposições organisadas por elle.

Ali me mostrou elle que embora longe de nós por tanto tempo, não se deshabituara das côres e da luz da nossa boa terra. Não veiu inebriado com o nebulozo da Escocia, com o cinzento da França, nem com o vermelho violaceo da Italia.

Veiu isento de escolas, preoccupando-se só com o que via na natureza tal qual ella se apresentava, vibrante de luz se o sol espadanava rutilantemente no espaço, nebuloso e triste, se a nevoa cobria a atmosphera e a paisagem que pintava.

Era como que o executor da verdade tal como ella deve ser. Era, emfim, um paisagista perfeito e definidamente portuguez.

Pois bem, todos ahi viram as suas recentes exposições, e que eu saiba, ainda ninguem amesquinhou o seu muito merecimento; pelo contrario todos foram á uma a dizer que elle tinha valor. A critica, que deve ser sincera e justa, não teve por onde o atacar, nem veiu dizer d'elle senão que era bom, por isso a sua entrada como professor de paisagem na Academia de Bellas Artes, do Porto, deveria ser acolhida por todos os professores e alumnos com enthusiasmo, se bem que a nossa Academia não seja para largas manifestações.

Mas deixemos agora o artista para fallarmos da sua ultima exposição.

No

atelier

de Arthur Loureiro, ha um não sei que de conforto que nos prende. Sob a sua direcção tem-se transformado aquella fria sala n'um bellissimo gabinete, onde se podem passar horas e horas admiravelmente bem. Decorado com simplicidade, mas com um especial

cachet

de galanteria os seus quadros destacam alli maravilhosamente.

Vou fallar delles, como sei, ou como entendo.

Como nota primordial destacarei o grande quadro, cujo titulo é

De aldeia em aldeia

e que inspirou ao bello poeta M. Ricca, esta quadra:

Sob a cruz pesada e feia Da miseria que a consomme Corre d'aldeia em aldeia, Na Via-sacra da fome.

De aldeia em aldeia―arthur loureiro

De aldeia em aldeia―Arthur Loureiro
De aldeia em aldeia―Arthur Loureiro

É um soberbo trabalho, desenhado com cuidado e pintado com amor. Uma velhita andrajosa atravessa um trecho de paisagem, por um caminho encharcado. Que correcção e que luz, verdadeira obra prima que um grande mestre não se envergonhará de assignar.

No pinhal

. É um delicioso estudo de pinheiros, graceis e altos com a sua coma dum verde

foncé

, que parece sussurrar com a aragem que passa.

Mar agitado

. Agua deliciosamente tratada e transparecendo atravez d'ella a penedia que ella cobre. Luz deliciosa de grande ar.

Vaga quebrada

. É um pequeno quadro em que uma vaga se espadana como champanhe de encontro a um rochedo. Com que vigor está pintada essa molle de agua, que n'um desdobrar vertiginoso e bravo encontra um obstaculo e se desfaz para o ar, como n'um grito de desespero!

Retrato de G. Nogueira

. Este retrato é um primor de parecença e de trabalho. Loureiro poz n'elle um cuidado especial e amigo; é uma obra prima.

Nevogilde

. Um trecho de paisagem portuense, muito sentida, muito nossa.

Padeira de Avintes

. É um delicioso estudo dos nossos costumes populares. Modelo gracil e airoso como são todas as nossas lavradeiras, correctamente desenhado, primorosamente pintado.

Barcos

. Um quadrito interessante, onde ha dois barcos que parece boiarem docemente nas aguas mansas do rio, sob um ceu suave d'um azul transparente e bom.

Mais outros quadros ainda, todos elles confeccionados com mestria; alguns estudos de desenho, cabeças rigorosamente estudadas nos seus claros-escuros.

E esta exposição não está a abarrotar de exemplares, mas toda ella comporta coisas lindas e boas.

Ao sahir d'ali, vem-se sob a impressão sincera de que tudo aquillo é nosso, e muito nosso.

Vem-se tão bem disposto, que se fica com o desejo de lá voltar muitas mais vezes.

Paisagem―arthur loureiro

Paisagem―Arthur Loureiro
Paisagem―Arthur Loureiro

Flora―Quadro de arthur loureiro

Flora―Quadro de Arthur Loureiro
Flora―Quadro de Arthur Loureiro

IV Mais uma visita ao Atelier de ARTHUR LOUREIRO

Eu já disse algures que Arthur Loureiro era um poeta na pintura e hoje o repito aqui, no desprendimento sincero de quem o admira pelo seu talento. Os seus quadros são

bucolicas

de côr e de luz. Ha-os que são como deliciosos sonetos camoneanos. Ha-os que são verdadeiros poemas. As pequenas telas veridicamente portuguezas, com a sua côr e a sua luz d'aldeia, são como cantigas de namorados entre os rumorejos do trabalho campestre.

Arthur Loureiro, talvez, porque viveu muito tempo longe da sua patria, ao voltar, como que tentou, n'um largo sentimento de amor patrio, desforrar-se d'aqui não ter vivido sempre. E n'uma subtileza ideal desenhou e pintou a grande alma portugueza, desde a Torre dos Clerigos, até ao mais escondido recanto do Minho. A sua obra é como que o grito sentido do filho prodigo que volta ao fim de muito tempo á casa paterna. E que foi elle senão um filho prodigo da Arte, que andou por terras estranhas a expandir o seu talento em grandes manifestações, e que ao voltar, um pouco abatido da

grande lucta

, nos mostrou que, se alguem o julgava já um estrangeiro, a sua alma pulsava no mais sublime enthusiasmo por tudo o que é nosso, por tudo o que era portuguez, desde as suas paisagens até aos seus homens.

E agora mais uma vez fallemos dos seus quadros, e dos do seu discipulo.

Antes porém de entrar na enumeração dos seus trabalhos ahi vae uma opinião.

Na occasião em que eu visitava a exposição entravam ali um grande pintor portuguez (Souza Pinto), um grande actor portuguez (Augusto Rosa), e um grande actor francez (Coquelin Ainé). Pois estes três cavalheiros insuspeitos para todos, depois de larga apreciação aos trabalhos expostos, quedaram-se em frente d'um quadro que ha muito está no atelier

A Primavera

, e Souza Pinto, esse artista cujo nome resôa no estrangeiro como um clarim de gloria nacional na arte de pintura, disse que se admirava que aquelle quadro ainda não tivesse sido adquirido para o muzeu nacional como um especimen de boa pintura e de soberbo desenho.

Tambem eu teria soltado o meu brado de admiração, se não soubesse que o Estado e as Camaras não teem dinheiro para essas cousas, e só o teem para

festejos balofos

, para

comesainas opiparas

Pinheiros arthur loureiro

Pinheiros―Arthur Loureiro
Pinheiros―Arthur Loureiro

e para

bolos

rendosos aos afilhados; para mais nada. A galeria nacional de pintura no Porto é talvez mais parca do que a do mais pequeno amador. É uma vergonha!!...

Adeante, que vamos gastando muito tempo com considerações philosophicas.

Pois os quadros expostos de Loureiro, são 17 novos e uns 8 já vistos.

Dos antigos nada direi senão que são soberbos, dos modernos, d'esses alguma coisa mais escreverei. Entre todos ha um que me encanta profundamente. É

O Pinhal

!... Um dia ouvi dizer a alguem que o pinheiral era um motivo que não dava nada na pintura, pela sua fórma, pela sua côr e pela sua uniformidade. N'essa occasião, não me quiz manifestar, eu não sou pintor e não queria cahir em erro deante de quem tinha obrigação de conhecer o assumpto melhor do que eu, mas, cá para mim mantinha a minha opinião formada; o pinheiro presta-se á pintura, a questão é sabel-o desenhar e pintar. E Loureiro com o seu quadro

Pinhal

veiu completamente preencher a minha modesta opinião. Alli, n'aquella tela esguia, sob a correcção impeccavel de desenho, erguem-se uns pinheiros, que parecem balançar sob a pressão do vento que passa assobiando na sua ramaria.

A

Feira Nova

―É uma delicada

pochade

verdadeiramente caracteristica do que são as nossas feiras no Minho, sob barracas de lona branca, que se prendem aos troncos das arvores, com o borborinho de centos de lavradores e lavradeiras, acotovelando-se na furia de serem os primeiros a vêr o que ha alli para vender.

A

Carvalheira

―Uma larga arvore de folhas amarellecidas que começam a cahir sob o ventinho frio do inverno; é deliciosamente estudada.

E a

Desfolhada

, e a

Estrada do Gerez

(sob a chuva), as

Alminhas

e o

Caminho de Besteiros

―e todos elles, emfim, como são tão verdadeiramente nossos, tão sentidamente portuguezes, verdadeiramente minhotos, nos seus verdes inconfundiveis, na sua luz inimitavel.

Entre as tres

cabeças de estudo

, ha duas de uma velha, que são um encanto. Traçadas na meticulosidade de pormenores, são feitas largamente com pulso de quem é um verdadeiro artista.

Além dos trabalhos do mestre, que são como sempre magnificos, tomando uma das paredes do atelier, estão os trabalhos do discipulo, do snr. Manoel Maria Lucio Junior, que ha unicamente um anno, estuda com Loureiro, desenho e pintura.

Aos meus collegas da imprensa, como que tem passado despercebido o trabalho d'este amador, que entra agora no nosso meio artistico. Ora eu, que inegavelmente sou o mais incompetente dos apreciadores dos quadros, sempre lhe quero dispensar duas linhas.

Manuel Lucio é um rapaz da nossa fina sociedade, que todos nós conhecemos como sendo um dos elegantes da nossa terra.

Durante muito tempo julguei-o um

bon vivant

, dedicando unicamente o seu espirito ao talho d'um

veston

ou ao feitio de uma gravata. Um dia, porém, entrando a visitar Loureiro no seu atelier-escóla encontrei lá este cavalheiro dando lição de desenho. Acabada a aula, Loureiro mostrou-me trabalhos de varios discipulos e abrindo uma arca artistica que elle ali tem, tirou de dentro varios desenhos e disse-me:―são feitos pelo Lucio, é um rapaz de habilidade.―E de facto os desenhos que elle apresentou, revelavam uma certa disposição para a Arte.

D. Adelia Ramos Discipula de Arthur Loureiro

D. Adelia Ramos : Discipula de Arthur Loureiro
D. Adelia Ramos : Discipula de Arthur Loureiro

Passaram-se tempos, o mestre foi para fóra e ao voltar encontrou-se em frente d'um discipulo que lhe dá honra, porque Manuel Lucio, dotado d'uma vontade de ferro em conhecer o methodo de desenho e de pintura tem trabalhado denodadamente e tem conseguido com isso e com as bellas indicações do professor o que muitos com idas ao estrangeiro não tem conseguido.

Quatorze são os trabalhos expostos por este intelligente discipulo de Loureiro. Cinco trabalhos a oleo, cinco pasteis e quatro desenhos a lapis.

Entre os desenhos notarei

O Contador

, que é uma prova irrefutavel do modo como elle interpretou as noções de perspectiva indicadas; na pintura a oleo notarei os

Cravos

e um retalho de paisagem, onde as côres e os tons estão bem achados, resaltando os planos da chateza vulgar, propria dos estudos de amadores.

Aonde porém eu admiro a disposição artistica de Manuel Lucio é nos pasteis, especialisando uns

Effeitos d'agua

, um

Poente

e um

Ceus nublados

.

Innegavelmente o discipulo dá honra ao mestre e o mestre deve estar orgulhoso por ter achado, quem tão bem tenha sabido comprehendel-o e tão sabiamente aproveite as suas indicações. E recebam os dous, mestre e discipulo a sincera expressão do meu applauso.

1903 a 1904.

XIX AMADORES PORTUENSES

MANUEL MARIA LUCIO JUNIOR

Discipulo de ARTHUR LOUREIRO

O Arthur Loureiro é um velho rapaz, pintor d'alma e

manuel lucio no Atelier de arthur loureiro

Manuel Lucio no Atelier de Arthur Loureiro
Manuel Lucio no Atelier de Arthur Loureiro

coração, trabalhador infatigavel, cavaqueador ameno e interessante, amigo dedicado, e, acima de tudo isto, professor consciencioso e sabedor.

Ora eu, que gosto de passar bem o meu tempo, vou muitas vezes, e especialmente aos domingos, ao Palacio de Crystal, dar dous dedos de cavaco ao Arthur Loureiro, no seu delicado e interessante atelier. Appareço alli por volta da hora e meia. É quando elle acaba de dar lição ao Manuel Lucio, que, quasi sempre, quando eu entro ainda lá está dentro, com a sua

blouse

vestida, paleta em punho, dando as ultimas pinceladas no modelo que copia.

Outro dia, copiava elle uma velha; quando entrei, estava já limpando os seus pinceis e a paleta para se ir embora.

Nas faces de Arthur Loureiro pairava um alegre sorriso de satisfação.

Que se teria passado de extraordinario para que elle estivesse tão sorridente?!... Alguma boa nova da familia ausente, ou grande bem estar na sua delicada saude?!... Talvez as duas coisas juntas!? Quem sabe?...

―Esperemos os acontecimentos, disse eu commigo, avido, no entretanto de conhecer o motivo d'aquella intima alegria. O que fôr soará, pensei, porque o Loureiro com a sua peculiar franqueza, não occulta por muito tempo o motivo que o faz estar assim satisfeito e alegre. E assim foi...

Mal o Lucio saiu, virou-se para mim e sem mais, disse-me, indicando a porta por onde saira:―É um discipulo que me ha-de dar honra, podes crer... Tem bastante disposição e é muito applicado... Ha-de dar muito se continuar assim, e se se convencer que isto de pintura não se aprende em dous dias.

Queres vêr? E sem esperar resposta levantou o tampo do seu divan-arca, saccou de lá de dentro uma pasta com desenhos e algumas pinturas a oleo, dizendo: são d'elle.

Eram de facto estudos que o Manuel Lucio tinha executado em casa, longe das vistas do professor, mas sob a orientação e as lições que o Loureiro lhe dava, proficua e sabiamente aproveitadas.

Era especialmente por isso, porque tinha encontrado, n'aquelles estudos que n'esse dia o discipulo trouxera á sua apreciação, a boa vontade, a applicação e a disposição natural de que elle era dotado, que Loureiro alegremente se sorria.

E elle tinha razão. Manuel Lucio, que eu tinha por um exterior, um balofo, quando o via passar ostentosamente, as suas sobrecasacas talhadas pelos ultimos figurinos, as suas gravatas espaventosas e ricas, onde pousavam joias caras e os seus chapeus altos sempre muito polidos e muito lustrados, não era o que eu pensava.

Olhava-nos, parecia ter um ar sobranceiro de

enfant-gaté

, ou, como eu costumo dizer portuguesissimamente,

menino bonito

, e sentia-se por elle um quer que fosse, que obrigava a pôl-o, com uma certa reserva, na devida distancia a que se põem sempre os infatuados, que não valem nada e que julgam ser verdadeiras notabilidades. Era um juizo errado aquelle que eu fazia; reconheço agora que não o conhecia, e nunca lhe tinha encontrado nem podia encontrar predicados por que o admirasse. Estava de sobre-aviso a seu respeito.

Marinha―manuel lucio

Marinha―Manuel Lucio
Marinha―Manuel Lucio

Hoje, porém, ponho de parte essa opinião errada que d'elle fazia e isso porque tendo acompanhado com grande interesse os estudos d'esse discipulo, e o seu aproveitamento n'aquella risonha escola d'Arte, que o bom Loureiro tem no seu

interessante

atelier dos jardins do Palacio de Crystal, e como o reconheço digno de ser notado entre os amadores que n'este momento ha pelo Porto, vou dedicar-lhe algumas palavras de incitamento, para que não esmoreça na empreza da Arte em que o seu bom gosto e as suas disposições artisticas o metteram. Não pense, porém, Manuel Lucio que eu vou incensal-o louvaminheiramente; não, vou rapidamente em duas leves pennadas dedicar-lhe algumas palavras de elogio merecido e sincero.

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