O PALCO PORTUGUEZ EM 1815
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Já n'aquelle anno, em meio da bruteza das nossas platêas, se confrangiam de magoa e pejo alguns raros entendimentos que vaticinavam a resurreição do theatro nacional. Almeida Garrett orçava então pelos dezeseis annos. Florecidas mais seis primaveras n'aquelle precoce espirito, a arte nova lhe desbotoaria as primeiras flôres da grinalda.
A tristeza dos bons entendimentos, em presença do abatido e nojoso palco d'aquella época, prenunciava a aurora que alvoreceu, passados quinze annos, com o primeiro dia da liberdade. As musas, trajadas com elegancia e aquecidas ao sol de estranhos, repatriaram-se com os desterrados que lá fóra retemperaram o genio na incude da pobreza, e reviveram nos esplendores da civilisação.
Um dos liberaes, que emigraram em 1828, e cursavam as aulas em 1815, escreveu, n'este anno, uma carta ácerca do theatro nacional. Se este escripto da primeira mocidade não revela vasto estudo nem gentilezas de phrase, com certeza denota razão esclarecida. O author da carta volveu á sua patria, mais atido á espada que á penna. Uma e outra lhe cahiram simultaneamente da mão, no cerco do Porto. Não sei o nome do official que jaz obscurecido na valla dos que morreram em batalha. Apenas em uma nota que precede a seguinte carta se diz que o author d'ella, morto na rareada fileira dos mais audazes soldados do imperador, teria sido um dos melhores cultores das letras que esmeradamente seguira na emigração. Archivemos o documento que merece ser lido como desfastio aos indigestos pastelões de historia theatral com que o snr. Theophilo Fernandes (Joaquim) nos tem intestinado o tedio da leitura:
Carta escripta a um amigo em 3 de fevereiro de 1815 sobre a chegada dos comicos italianos, com algumas reflexões sobre os theatros portugueses.
Chegou finalmente a esta cidade a companhia dos comicos italianos, ha tanto tempo esperada, e hontem fizeram o seu primeiro ensaio. Domingo gordo vão, pela primeira vez, á scena, onde a curiosidade dos dilettanti é igual á impaciencia com que viam o theatro de S. Carlos fechado por falta de actores. Será bem difficil que estes, que chegaram, satisfaçam plenamente a espectação publica, onde se conserva ainda bem gravada a lembrança dos excellentes cantores, que tanto nos deleitaram n'estes ultimos tempos, e que brilharam com a mais bem merecida reputação n'este nosso theatro de S. Carlos, e que illustraram distinctamente a arte da musica tão agradavel, que a nossa mesma imaginação figura os anjos, cantando no paraiso a gloria do Deus Supremo.
Geralmente os portuguezes amam a musica com extremo, e tem um gosto particular por esta arte, principalmente depois que o senhor rei D. José fez vir para o seu theatro magnifico, que infelizmente o grande terremoto do anno de 1755 devorou, os melhores cantores que então havia em toda a Italia. Depois d'esta época sustentou o mesmo monarcha a mesma inclinação por esta arte, em que era muito entendido, e á sua imitação a nação toda se costumou tanto á boa musica, que houve particulares que chegaram a rivalisar com os mesmos professores. Ainda hoje não teem perdido de todo este gosto, principalmente os habitantes de Lisboa, que conservam viva a lembrança do canto melodioso, suave e delicado da Crescentini, de Cafforina, e da celebre Catalana, que por uma maneira nova de cantar, levaram esta sublime arte áquelle grau de perfeição, a que ella póde humanamente chegar.
Não julgo que estes virtuosos, que vieram, sejam iguaes em talentos áquelles de quem venho de fazer menção. Como não é sómente a arte, mas a natureza igualmente que os produz, e nem sempre esta é fertil em semelhantes producções, parece-me que o seu canto não causará nos espectadores o mesmo interesse, com que todos os lisbonenses corriam para o theatro a ouvir a melodia de vozes, e a harmonia de accentos, que realisavam os fabulosos das serêas. Como dizem, porém, que vem duas raparigas que não são mal parecidas, não deixarão de serem bem applaudidas pela platêa de Lisboa, na qual a mocidade olha sempre com mais attenção para os agrados da natureza do que para as perfeições da arte, ás quaes não paga tão grande tributo como á belleza.
É muito provavel que d'aqui em diante os bons cantores sejam mais raros na Italia, onde em outro tempo eram mais communs, não sómente porque os successos politicos tem influido consideravelmente n'esta parte da Europa sobre os progressos das artes liberaes, onde nasceram e tiveram o seu berço; mas porque o infame e detestavel costume da castração, com o fim de fazer as vozes finas, e bons sopranos, está justamente prohibida por uma lei sabia e judiciosa. Pois que barbaridade maior podia haver do que condemnarem os paes seus proprios filhos a uma mutilação que degrada a especie humana, que a inutilisa e que annulla os votos da natureza em prejuizo das suas mais admiraveis producções?
Não poderemos, pois, ouvir d'aqui em diante um novo Echiziel ou um Crescentini, que modulavam as suas vozes finas á custa do bem que tinham perdido, por umas notas successivas e prolongadas, que bem longe de moverem a alma pela força da expressão, a affligiam pelos patheticos esforços de uma modulação uniforme; mas ouviremos talvez com um prazer mais interessante os sons masculinos d'aquellas vozes fortes e animadas, que conciliem com os seus accentos a viva expressão dos sentimentos differentes da nossa alma, em que um gosto sublime e delicado faz consistir a perfeição da musica, para o qual não é o melhor musico aquelle que se occupa só em vencer difficuldades; mas aquelle que, pelas doçuras da harmonia, inspira na nossa alma, e lhe communica os mesmos sentimentos que exprime no seu canto.
Qualquer que seja, porém, o merecimento dos novos comicos, é sempre uma especie de satisfação para os moradores de Lisboa verem o melhor theatro, que teem, aberto, e terem quem trabalhe n'elle, o que é sempre um grande recurso em uma grande cidade, destituida de divertimentos publicos, e onde se consome o homem, e sobre tudo os estrangeiros, á força de uma negra melancolia, não havendo outro passatempo, que não seja o de algumas sociedades particulares, onde só apparecem aquelles que possuem grandes meios, para alli ostentarem toda a sua vaidade, e quasi sempre todo o seu orgulho. É bem verdade que toda a comica representação, que alli fazem, é quasi sempre á custa da sua bolsa, pois que é descredito entre elles não jogar. Os gatunos que nunca faltam n'estas assembléas, nunca perdem a occasião de os depennarem; e os murmuradores e maldizentes de admirarem o como a fortuna faz de um tolo um homem entendido, e como transforma um sevandija em um fidalgo cortezão.
É certo que os invernos são bem custosos de passar em Lisboa sem o recurso dos theatros, não havendo outro algum divertimento publico, mais do que as assembléas acima referidas, onde nem todos podem ir, e que nem a todos é permittido frequentar. Não ha aqui, como em Londres, em Paris, em Vienna, em Petersbourg e em Veneza salas publicas de baile, onde se passem as noites, e menos cafés bem compostos, em que todo o homem bem creado acha a melhor companhia, e onde trava amizade com os homens mais distinctos e que são assás uteis muitas vezes. Os nossos costumes reservados, e os principios da politica, de os dirigir pela desconfiança ou pelo temor, em que a policia ganha porque tem menos que observar e menos motivo para temer que a ordem publica seja alterada, fazem que estas privações se soffram com toda a paciencia, contentando-se cada um que não tem os meios competentes para frequentar as companhias do melhor tom, a ir passar a noite com o seu compadre ou com o seu visinho, a murmurarem uns dos outros. Sem este recurso ficariam sempre em casa, semelhantes ás mumias do Egypto, embrulhados nos seus capotes, unico meio de que se servem para resistirem aos rigores da estação.
Não faltará quem diga que faço um quadro de Lisboa, no tocante aos seus divertimentos publicos, menos vantajoso; pois que uma cidade populosa que tem tres theatros nacionaes, além do italiano, e uma quantidade immensa de grandes sociedades, que tem nas semanas dias fixos em que se ajuntam, não está de menor condição n'esta parte ás mais opulentas da Europa. Esta reflexão, se ficasse sem replica, me attribuiria talvez, na opinião geral, um espirito de maledicencia que eu não tenho; e para me salvar de qualquer imputação que n'este particular se me haja de fazer, vejo-me obrigado a fazer aqui algumas observações sobre os nossos theatros nacionaes, que pela sua construcção material e pelo genio dos actores, que n'elles representam, não constituem um divertimento que chame o gosto, o interesse e a distracção da classe mais escolhida da nação, a quem não fazem grande honra nem excitam aquella curiosidade que faz frequentar estas escólas dos costumes e do bom gosto.
Quanto á construcção destes nossos theatros duvido que se achem, ainda nas mesmas provincias dos reinos mais civilisados, outros semelhantes ao da rua dos Condes ou do Salitre. As incommodidades que cada um é obrigado alli a supportar, não compensam os agrados mais deleitaveis da melhor representação, ainda no caso que a houvesse. No meio da platêa arde em fogo, nas mesmas noites mais frias do inverno, o desgraçado espectador que acha alli lugar; pelos lados da mesma platêa vem um vento encanado pelos corredores, que atormenta todo o miseravel que occupa estes assentos. Nos camarotes, que são tão mesquinhos como tudo o mais, estes incommodos são ainda mais penosos; por entre as frestas das portas entra um frio pelo inverno, que gela, e que é principio certo de catarrhos, pleurizes e constipações, que circulam amplamente n'aquelle triste recinto; e quando o espectaculo acaba, nem lugar reservado, em que se esperem as carruagens, nem modo algum de prevenir os grandes males, a que cada um fica exposto á porta da rua ou no aperto dos corredores, até que chegue a carruagem que o ha de transportar. O theatro do Salitre e o da Boa Hora teem estas incommodidades mais marcadas; de maneira que todo aquelle que se propõe a ir a algum d'elles passar uma noite, deve ir disposto a vir doente: se é de verão, pelo nimio calor, se é de inverno, pelo frio. Assim não conheço um meio mais proprio a quem está em boa saude, de estar doente, do que ir a um d'estes theatros. Ora, que divertimento póde ter n'estes espectaculos aquelle, que cuida mais em se livrar dos males a que se vê exposto, do que gozar das illusões que apresenta á imaginação uma sala de espectaculo? Se todos estes incommodos, que se compram por dinheiro, fossem, comtudo, compensados pelo deleite de uma boa representação, seria ainda assim desculpavel, sacrificar ao prazer certos incommodos, de que uns não fazem caso por genio, e que outros desprezam, porque lhes insta a necessidade que sentem de se distrahirem. Mas a representação é tão insipida e tão enfadonha! Os comicos interessam tão pouco; e os caracteres que representam são, ou por falta de natureza ou por ignorancia propria, tão mal sustentados, que não valem a pena de se ouvirem á custa dos grandes detrimentos que se soffrem, principalmente quando um homem tem o seu gosto formado pelos bons modelos da arte dramatica, a quem um actor mediocre e baixo é tão insupportavel, como uma musica desafinada e sem harmonia na sua composição. Taes são, portanto todos os nossos actores, os quaes entram n'esta carreira mais com o fim de acharem n'ella uma subsistencia segura e commoda, que com o nobre intento de adquirirem uma gloria que immortalisou os famosos nomes de Molière, de Baron, de Garrik e de le Kain.
Pois que uma casualidade impensada me chegou a ponto de fazer algumas observações sobre os nossos theatros, não quero perder esta occasião de expor o meu juizo sobre este assumpto, que aliás é um seguro thermometro, que indica o grau em que se acha a civilisação e os costumes das nações. Como escrevo uma carta e não faço uma dissertação, cuidarei quanto podér de abreviar o meu discurso, que não terá mais que simplesmente o resultado de fazer vêr quanto Thalia e Melpomene favorece pouco os engenhos dos portuguezes nas artes a que presidem estas musas, cujas influencias são tão brilhantes e tão liberaes para outras nações, que cultivam com o melhor successo esta arte, que nos representa vivamente os vicios e as virtudes dos homens, assim como tambem os seus defeitos e os seus ridiculos.
Podemos seguramente dizer com toda a verdade, que nós, os portuguezes, não podemos ter a gloria de dizer que temos um theatro nacional, pois que não temos nem actores dramaticos nem actores capazes de desempenharem estas bellas composições do espirito humano. Não é de admirar que não haja bons representantes, onde faltam os poetas; porque aquella mesma natureza, que inspira o enthusiasmo da imaginação, não deixa de inspirar tambem o gosto particular da imitação, de modo que é observação demonstrada, que onde os engenhos sabem conceber os mais brilhantes pensamentos e estudam todos os movimentos da nossa alma, dirigida pelas suas affeições ou pelos impulsos das paixões humanas, ahi se encontram tambem aquelles talentos superiores e naturaes, que na scena representam com toda a energia e delicadeza aquelles mesmos movimentos; de maneira que parece realidade o que não é mais que imitação. Garrik, a cada sentimento que exprimia nos theatros de Londres, mudava de voz e de semblante, como a expressão requeria; e Molière, em França, ridiculisava com uma graça tal todas as classes de homens de que se compõe o corpo social, quando a vaidade, presumpção ou amor proprio as desviava dos principios que a razão prescreve, que todos sentiam em si o defeito de que elle ria e zombava, para se corrigirem quando se julgavam objecto dos epigrammas e dos gestos comicos do comediante. Como este mesmo era o author das suas comedias, não é de admirar que exprimisse com energia aquillo mesmo que a sua alma sentia com toda a sua força; e é d'este modo que os theatros, que são as escólas dos costumes, onde se pintam ao natural pela fealdade do vicio ou pela ridicula pratica que os degrada, preenchem plenamente o fim para que foram instituidos; pois é evidente que todo aquelle actor que não tiver meios proprios para penetrar a alma dos seus espectadores pelas mais vivas e mais naturaes maneiras, figura e gestos da sua representação, não póde produzir o effeito que esta admiravel arte de imitação é capaz de produzir, e sem o qual effeito, uma sala de espectaculo não é mais do que uma camara optica em que os sentidos podem gozar de algumas momentaneas illusões, mas onde a alma jámais se deixará possuir d'aquelles prestigios do sentimento que faz amar a virtude e detestar o vicio, nas peças tragicas, e nas comicas, temer o amargoso fel da critica que corrige o homem, fazendo mofa dos seus costumes que pinta, quando são ridiculos, ao natural.
É para notar que os engenhos portuguezes, dotados, como todos os mais que gozam das dôces influencias do céo puro e crystallino do meio-dia, de uma viva e ardente inclinação para as artes de pura imaginação, principalmente a da poesia, se contentem só de a cultivarem á margem dos rios e á sombra dos arvoredos, onde suspiram pelas suas amadas, em versos sim, amorosos e sentimentaes, mas que só fallam de amor, de saudades, de ciumes e de ingratidão. Um só d'estes genios favorecidos das musas tem aspirado á gloria de rivalisar com Euripedes ou com Sophocles, de igualar a Plauto ou a Terencio, e aquelle que tem intentado dar alguns passos na carreira dramatica, tem sido com tão infeliz successo, que parou no principio d'ella. Muitas vezes tenho pensado sobre a causa por que os nossos poetas, sendo inspirados de um estro proprio a todo o genero de versificação, só para o theatral não teem os talentos requeridos; e por resultado das minhas observações a este respeito, tenho colhido a idéa de que para compôr uma ecloga, um idyllio, uma epistola ou uma elegia, basta ao poeta exprimir os seus proprios sentimentos em bons versos e harmoniosos para ter um nome distincto no Parnaso: mas para compôr uma tragedia ou uma boa comedia de caracter, é preciso exprimir com elegancia, pureza e enthusiasmo os sentimentos dos outros, que é absolutamente necessario conhecer e aprofundar para os saber desenvolver pela acção. Ora este conhecimento não se adquire senão por um grande uso do mundo, e por um tacto particular do coração do homem e de toda a natureza humana em geral; mas este grande livro não se acha nas livrarias escripto, acha-se espalhado no tumulto da sociedade, onde os homens desenvolvem todas as suas idéas, todos os seus sentimentos, as suas paixões, os seus vicios, os seus crimes e o seu heroismo. É n'este livro que o poeta dramatico aprende a pintar na scena as virtudes de Catão e as ridiculas maneiras de um villão afidalgado; mas se o poeta, concentrado no fogo do seu amor, não conhece senão Damiana a quem dirige seus ais e seus queixumes, como ha de pintar as paixões dos homens e os seus ridiculos caprichos? Esta ignorancia me parece ser a causa por que os poetas portuguezes não consagram as suas musas mais que simplesmente ao amor a que os chama uma natural ternura, e o conhecimento de uma paixão, que elles conhecem melhor que quaesquer outras, e que explicam com mais sensibilidade e doçura. Nunca sahindo dos seus lares, vivendo em um pequeno circulo, uma imaginação, por mais poetica que seja, não póde produzir grandes e brilhantes concepções; e por consequencia, se conceber o plano de uma tragedia, que, segundo a opinião de mr. de la Harpe, é a obra prima do espirito humano, onde ha de ir buscar a materia para os debates? Se quizer compôr uma comedia, apenas saberá ridiculisar os defeitos do seu visinho tendeiro ou sapateiro.
Para provar que o cothurno não é feito para os nossos poetas lusitanos, basta lembrar que o assumpto da morte tragica da rainha D. Ignez de Castro, assumpto dos mais interessantes que tem apparecido em scena, tanto nos tempos antigos como nos modernos, tem apurado o estro dos nossos poetas portuguezes, não só pelo interesse da acção, mas por ser a acção passada entre nós, e que para excitar a compaixão tem de mais a historia que a proclama verdadeira. Tres ou quatro tragedias temos na nossa lingua portugueza d'este infeliz successo, e uma só d'ellas o immortalisa pelas bellezas dramaticas, que pouco ou nada correspondem a um assumpto igualmente sublime que pathetico. Não fallo da primeira e mais antiga de Antonio Ferreira, que passa aliás por poeta classico entre nós, e na qual se não acha a força de sentimentos, a violencia das paixões, postas em jogo para trazerem imminentemente a catastrophe que finalisa a tragedia. As scenas sem ligação, a intriga mal combinada e tão descoberta pelo dialogo, que todo o espectador conhece, desde o primeiro acto, qual será o fim da peça. Não fallo n'estes dialogos, em que as personagens que os declamam não tem bastante força para mostrarem todo o horror da inveja que instiga e anima os cortezãos orgulhosos da côrte de D. Affonso IV para sacrificarem ao furor d'aquella paixão o amor fino, legitimo e innocente de dous corações ternos, ligados pelos dôces e sagrados laços do hymeneu. Os córos que o author Ferreira introduziu por intervallos dos actos d'esta sua tragedia, á maneira dos gregos, é o que ha n'ella de melhor, por serem compostos de uma bella poesia, e tão pathetica, que movem o coração á maior sensibilidade. Outra tragedia, que temos sobre o mesmo assumpto, composta por o arcade Alcino não tem merecimento algum: as regras do theatro não são observadas; a versificação é languida e sem elegancia; os sentimentos friamente exprimidos, e os actores sempre sustentando um caracter forçado e não tirado da natureza da acção, d'aquella acção que deriva de paixões complicadas e violentas, que deviam ser mais energicamente desenvolvidas. Esta peça não tem regularidade nem entrecho de uma tragedia; é um drama feito á imitação dos de Metastasio, que não é poeta tragico, pois que além dos seus dramas interessarem geralmente mais pela musica do que pelo desenvolvimento da peça, este vem muitas vezes no segundo acto, e o terceiro é composto então de incidentes accessorios, quasi sempre insipidos e frios, porque n'elles não ha acção. Lembra-me ha annos vêr representar no theatro do Bairro Alto uma tragedia de D. Ignez de Castro tirada de uma comedia hespanhola de Don Calderon de la Barca, intitulada Reynar despues de morir. Esta peça foi geralmente applaudida e gostada pela energia e força de alma, com que uma actriz, chamada Cecilia, representou o papel de D. Ignez de Castro; mas esta peça deveu ao genio e aos talentos d'esta actriz o bom successo que teve, pois que examinando a contextura da peça, ella tinha os defeitos da hespanhola, em que não havia mais que tiradas de bons versos; mas pouca ou nenhuma verdade na acção; pois que, depois da morte d'esta infeliz princeza, apparecia uma scena em que o seu cadaver, sentado debaixo do solio, era coroado e solemnemente proclamado pelo seu amante, já rei, e por todo o seu povo como sua legitima rainha, e isto muito tempo depois de ter sido a victima das paixões dos cortezãos, invejosos de verem a familia dos Castros sobre o throno de Portugal. Esta scena, que pela sua magestosa decoração fazia todo o interesse d'esta peça, não parece ser uma segunda acção, que se representa? onde está pois a unidade da acção tragica, que é o primeiro preceito da tragedia? A coroação da rainha na mesma peça é tão irregular, quanto é novo de sentar em um solio o cadaver de uma princeza, assassinada no seu proprio palacio, muito tempo depois de enterrada no silencio de um sepulcro. Passemos todas estas incongruencias, que sómente trago á lembrança para mostrar que a poesia dramatica não é largamente distribuida pelas musas aos portuguezes.
N'estes ultimos tempos appareceu entre nós, sobre o mesmo assumpto, uma tragedia com o titulo de Nova tragedia de Ignez de Castro. Esta peça observa melhor os preceitos do theatro; a sua versificação é em algumas scenas elegante e sentimental; mas em outras não conserva esta igualdade. O fim ou o desatado da intriga é a catastrophe, que vem um pouco precipitada e não trazida por um jogo de paixões, susceptiveis de modificações differentes, que levam o coração humano ao excesso da paixão que agita e move os animos; o que faz que os dialogos são curtos e as scenas ainda mais. A da entrevista de Affonso IV com D. Ignez de Castro, que é uma das mais interessantes da peça, não póde satisfazer os espectadores, que vêem que um rei se occupa da sorte da infeliz Castro, de quem se separa, dizendo-lhe que vai para o conselho de estado, onde ella ha de ser julgada, e alli elle advogará a sua causa. Que enormes incongruencias! O rei tem no seu poder o perdoar-lhe; não é uma acção generosa salvar a innocencia das mãos que pretendem banhar-se no seu sangue? O conselho de estado não é um tribunal judiciario, que é só quem póde julgar e condemnar. E um ajuntamento de conselheiros, que o rei convoca para tratar da sorte de D. Ignez de Castro, como um negocio simplesmente politico. E então que triste personagem faz elle em advogar pela infeliz Castro, diante não de ministros que a julgam pelas leis, em que elle mesmo póde dispensar, mas diante de conselheiros invejosos, que verdadeiramente são algozes! Esta scena podia ser conduzida mais nobremente, conciliando a bondade do rei, que se mostra interessado a favor de Castro, com a dignidade da sua corôa, que póde ser enganada pelo artificio dos seus conselheiros, a quem é indigno da sua parte dar-lhes consentimento para serem os executores de um assassinio. Estas delicadezas não escapariam a Racine nem a Voltaire, se tratassem esta materia, porque, exactos observadores de tudo o que é decente e decoroso, não atropellariam tão facilmente o respeito da magestade, fazendo-a instrumento de crimes odiosos em um theatro em que um monarcha, se pelas paixões é um homem como outro qualquer, pela soberania é sempre executor da lei.
Alguns outros poetas n'estes tempos posteriores teem ensaiado o seu estro n'este genero de composição. A condessa de Vimieiro compoz uma tragedia, que foi laureada pela academia das sciencias de Lisboa, mais por favor que por justiça. Um certo Francisco Dias, homem só conhecido pelos seus talentos litterarios que cultivou no lugar humilde de uma tenda, compoz outra, cuja sorte foi, segundo creio, ainda mais infeliz do que a da condessa; e tantos esforços juntos não tem produzido um bom poeta tragico em Portugal que possa pôr-se ao pé do grande Corneille ou do sentimental Racine, mas ainda junto dos mais mediocres poetas tragicos do theatro francez. Esta inopia não vem ella do principio que acima já apontei? Para Raphael pintar uma obra prima no inimitavel quadro da transfiguração de Christo, foi preciso que a sua imaginação sublime lêsse no grande livro do universo todas as bellezas da natureza, para as saber pintar com propriedade, e conforme as suas primitivas creações; para um poeta tragico reproduzir o caracter de Catão, de Cesar, de Marco Antonio, de Brutus e da infeliz Dido, é necessario que entre com a sua imaginação no immenso theatro do mundo e contemple a variedade de successos que os interesses dos homens, as suas paixões, os motivos que as põem em acção, os progressos que fazem sobre as suas almas para virem a dominal-as com despotico poder, os crimes e as acções infames de que são causa, a degradação, em fim, da intelligencia humana, quando de todo se sujeita á perversidade do vicio e se entrega á corrupção dos costumes: sobre este quadro immenso a imaginação quer um campo largo para o contemplar, examinar e estudar; mas este campo falta aos nossos poetas, que levados do gosto dominante da nação, que tem por objecto o amor, não são pintores para retratarem grandes caracteres, nem teem imaginação bastante para darem aos grandes successos uma fórma que mostre todos os horrores dos vicios e todas as bellezas das virtudes, que é o principal objecto das tragedias.
Se este genero de composição não tem dado nome a poeta algum portuguez, menos se teem elles distinguido na comedia, pois que não temos uma, não digo boa, mas ainda muito mediocre. Parece que as musas são ainda n'esta parte mais avaras com os engenhos portuguezes, que, sendo os primeiros que abraçaram logo as artes graciosas, que no seculo XV a fortuna transplantou da Grecia para a Italia, onde acharam um benigno acolhimento, foram aquelles que por meio dellas menos gloria teem adquirido. As comedias que os nossos poetas do nosso seculo de Augusto—que é o d'el-rei D. João III—nos deixaram, não merecem sequer o nome de comedias; o que me não faz espanto, pois que Portugal então não tinha um só theatro, mais que o dos campos de Marte, e onde não ha theatros não ha quem componha comedias. A nossa feliz época da boa litteratura passou, e Camões ficou conhecido pelo primeiro poeta das Hespanhas pelo seu poema lyrico e não pelas suas miseraveis comedias, e a mesma sorte tiveram os seus contemporaneos que molharam o seu pincel na paleta de Melpomene. Os castelhanos que se senhorearam de Portugal, se distinguiram, mais que nenhuma outra nação da Europa, na arte de Aristophanes e de Menandro; porém não nos passaram este gosto, ou os portuguezes o não quizeram seguir, talvez por ser de uma nação que aborreciam. Como quer que seja, a arte dramatica foi inteiramente desprezada em Portugal, e o bom gosto da litteratura tendo-se corrompido n'este paiz pelos successos politicos, por que passou, fez totalmente esquecer aos poetas do tempo este genero de composição. Elle se limitava só a alguns autos sacramentaes, que se representavam popularmente em festas de igrejas e nos adros dos templos. As vidas dos santos davam assumpto para muitos d'estes autos, que correm ainda entre nós; e a piedade christã ia buscar n'estas representações mais estimulos para amarem a religião, do que motivos para cultivarem uma arte que, segundo Horacio, castigat ridendo mores. Não tenho idéa, nem pela historia nem por tradição alguma, que em Portugal houvesse um theatro em que se representassem comedias portuguezas, de que não appareciam authores, ou pelos embaraços da longa guerra, que houve n'este reino para sustentar a corôa na casa de Bragança, que não deram lugar para a applicação das artes, ou porque os portuguezes não quizeram imitar os seus inimigos, exercitando as suas musas na poesia dramatica em que os hespanhoes excediam a todas as outras nações da Europa. Estes não tinham theatros fixos; companhias ambulantes de comediantes, de que lemos na historia de Gil Blaz a descripção tão circumstanciada como critica. Corriam de villa em villa, a recitar as comedias de Calderon, Moreto, Solis, tres «Ingenios» que inundavam toda a Hespanha, em tanto que o espirito dos portuguezes se contentava com os seus autos sacramentaes de Santa Genoveva, de Santo Aleixo e outros semelhantes, que se davam ao publico em espectaculo nos dias das maiores festividades da igreja. Assim não se sabia entre nós o que era uma boa comedia, e n'esta ignorancia vivemos até que no principio do seculo passado appareceu o judeu Antonio José, que compoz um theatro de operas, as quaes nem pela poesia, pois que são em prosa, nem pelos titulos, que são Labyrintho de Creta, Encantos de Medêa e outros iguaes podem chamar-se comedias, ou porque trazem misturada musica de recitados e de arias, á maneira dos italianos, ou porque lhe falta aquelle caracter que distingue a comedia, e que Molière só fixou em França na época feliz da sua mais brilhante litteratura. Aquelle engenho, porém, infeliz pela fórma das suas composições dramaticas e mais ainda pela miseravel sorte que teve de ser condemnado a morrer queimado pelo santo officio, foi comtudo, o primeiro que viu as suas operas representadas no theatro do Bairro Alto, o primeiro que houve em Lisboa e onde os representantes eram bonecos que se moviam por arame e que fallavam pelas vozes dos interlocutores, que se mettiam por entre os bastidores. Tal era o estado em que se achava a arte dramatica em Portugal, quando já Molière brilhava em França como o restaurador dos theatros de Grecia e Roma, pelas suas admiraveis comedias e como um modelo perfeito da mais decente, entendida, natural e agradavel representação que até então não tinha apparecido em algum theatro do mundo antigo e moderno.
Nem este excellente author, que deu tanta gloria á França como Aristophanes tinha em outro tempo dado a Athenas, nem o genio particular que a natureza lhe tinha dado para imitar na scena as differentes personagens, que como author era obrigado a representar, causaram o mais pequeno estimulo aos engenhos portuguezes para o seguirem na carreira dramatica. As suas musas ficaram mudas n'este ponto, até que el-rei D. José, apaixonado pela musica, logo que subiu ao throno, mandou construir um magnifico theatro; e mandando vir da Italia os mais celebres musicos para cantarem n'elle as peças de Metastasio, extinguiu de todo o gosto da nação pelas comedias em lingua vulgar. Quem poderá deixar de reflectir que houvesse theatro nacional em uma nação em que o rei não gostava, e, por conseguinte, o não protegia? Não o havia, pois—nem comedias para se representarem, no caso de o haver; porque, como já disse, a poesia n'este genero emmudeceu em Portugal. O theatro real era tão magestoso que não admittia mais que pessoas de qualidades superiores; e as que ficavam mais abaixo não indo a elle ignoravam o que era uma comedia, uma tragedia e os mesmos dramas em musica, que se punham no theatro real. Succedeu o fatal terremoto de 1755; arruinou-se com a maior parte da cidade este sumptuoso espectaculo, e, até que a confusão d'aquella calamidade se ordenou, nem el-rei teve theatro nem o povo. Mas no anno de 1758 abriu-se o da rua dos Condes, que ainda hoje existe nas ruinas do palacio do marquez do Louriçal, com algum augmento que teve, depois da sua primitiva creação. As peças que ao principio n'elle se representavam eram as operas de Metastasio traduzidas em portuguez, Artaxerxes, Alexandre na India, Demofonte em Thracia, Ezio em Roma, etc. com relações á maneira hespanhola, e mil bufonerias, que d'aquelles bellos dramas faziam as peças mais ridiculas que se podiam pôr em scena; e, para tornar o theatro de todo desprezivel, eram homens vestidos de mulheres que representavam o papel de Erytrêa e das mais damas das peças e suas criadas, que os traductores introduziam para fazerem rir a plebe. Um só poeta appareceu com uma composição dramatica que fosse digna de apparecer em scena; e os directores d'este miseravel theatro pozeram em contribuição poetas hespanhoes e italianos para sustentarem o theatro.
Alguns annos depois um novo empresario estabeleceu um theatro no Bairro Alto, não onde havia o dos bonecos em tempo mais antigo, mas nas ruinas do palacio do conde de Soure, cuja abertura foi com uma companhia de musicos italianos que foi buscar a Londres. Esta empresa não durou muito tempo, e aos italianos succederam os portuguezes com o mesmo successo que tinham os da rua dos Condes, que podiam chamar-se actores de arraial. Este theatro do Bairro Alto de todo acabou e succedeu-lhe o do Salitre, que se conserva sem melhoramento algum que possa acreditar os engenhos portuguezes, que, nem pelas suas composições, nem pelo jogo da representação, tem dado á sua patria a gloria de ter um theatro nacional.
N'esta curta narração historica dos theatros portuguezes tenho feito vêr o pouco progresso que a arte dramatica tem feito em Portugal. Não é de admirar, porque onde os talentos superiores não são apreciados com justiça e recompensados com a grande estimação que lhe é devida, nem podem produzir fecundos fructos na arte theatral, que fazem as delicias do homem de gosto fino e delicado das cidades mais opulentas da Europa, nem terem a esperança de vêr seus nomes inscriptos nos monumentos que os homens gratos lhes consagram. As artes não florecem senão quando são immediatamente protegidas e estimadas pelos soberanos; e quer seja poeta, quer seja actor, se tem talentos distinctos, não merece a attenção e a estimação do seu principe, quem contribue para fazer a sua gloria mais brilhante? Os seculos de Augusto, de Leão X e dos Medicis de Florença, o de Luiz XIV em França não provam esta verdade? Não me detenho em amplificar estas minhas idéas com outras razões, porque não padece duvida que a memoria dos soberanos que se tem pronunciado protectores das bellas-artes vive ainda nos padrões que ellas lhe tem erigido, entretanto que a dos mais famosos conquistadores ficou confundida nos estragos que fizeram. Infelizmente os nossos soberanos portuguezes tem esquecido esta verdade, como muitas outras, e deixaram morrer Camões, que dá tanta gloria a Portugal, em um hospital. Desde esta desgraçada época tem sido os poetas n'este paiz tão pouco venturosos pela sua arte, que o nome de poeta só entre nós é synonymo de pobre e de miseravel. Que comedias, que tragedias boas podia pois haver em um tal paiz?
Se não podemos competir com as nações que cultivam as bellas-artes n'este genero dramatico, menos ainda os actores dos nossos theatros podem rivalisar com os das outras nações que tem formado já um gosto apurado e exquisito n'aquella parte que se chama representação. Ella não é mais do que uma simples imitação da natureza, que é o primeiro principio que deve seguir todo o bom actor. Separar-se d'elle por acanhamento ou por excesso, não acompanhar de gestos correspondentes as expressões, não saber desenvolver pelas attitudes os sentimentos que tem para declamar ou recitar, deixar-se transportar por estes sentimentos sem faltar á dignidade e á decencia que exige a personagem que representa, pronunciar com clareza e energia o que lhe compete dizer, e mostrar pela physionomia que o que diz vem do fundo da sua alma, sem estudo nem affectação, são as circumstancias principaes que formam um bom actor. Ora examinemos quaes dos nossos as sabem pôr em uso. Os grandes artistas desenvolvem os seus talentos estudando a natureza e seguindo os modelos que aprenderam a imital-a. Guido, Carrache, Albano devem a admiravel belleza dos seus quadros a este estudo singular de imitação; mas onde podem achar os nossos actores modelos, a quem possam imitar e talvez exceder? Não fazem estudo algum da natureza; ensaiam os seus papeis como simples obreiros, que tem uma empreitada a fazer e que hão de acabar seja como fôr; e n'esta parte o povo que compõe a platêa dos nossos theatros é o mais tolerante povo do universo, pois que soffre com a maior paciencia todos os actores bons, maus, medianos e incapazes de apparecerem. Por isso nunca aspiram áquella superioridade, em que o bom gosto, dirigido por um discernimento perspicaz e por uma critica sã e judiciosa, faz consistir a gloria do grande talento. Molière, o primeiro restaurador da comedia, como já disse acima, foi tambem o primeiro actor da França. Conta-se d'elle que os papeis que representava recitava-os antes a uma criada que tinha, que decidia, como intelligente, da sua boa ou má representação, e como bom juiz corrigia e emendava os seus defeitos. Um dia Molière, para melhor se convencer da intelligencia d'esta sua criada, recitava-lhe um papel de um author estranho, que fazia uma grande differença d'aquelles que eram composição d'aquelle homem inimitavel; ella conheceu logo o engano, e voltando-se para o amo lhe disse: «Vós representaes as vossas comedias como um exellente actor; mas essa que ensaiaes nem é vossa, nem vos fará applaudir.» Eis aqui como a applicação, o estudo e o modo de estudar secunda os dons da natureza: ora qual dos nossos actores tem imitado a Molière? Qual d'elles tem sido capaz de apurar o seu talento, se o tem, por um modo tão novo e tão extraordinario?
É difficil que um homem, que tem algum conhecimento de theatros, possa aturar a representação dos nossos comicos portuguezes, sempre affectada, sempre fóra do natural e sempre exprimida em vozes altisonantes, e cujos dialogos acabam geralmente em um hiato desagradavel e musical, estylo que não é proprio de quem conversa, que é o que compete á comedia, a qual representa um facto, um caracter, uma intriga, que se explica por uma conversação natural e semelhante ás que se fazem nas sociedades. Se a este estylo declamatorio ajuntarmos o excesso com que os criados ou criadas que vem á scena desempenham os seus papeis em gracejos que divertem o publico e que pela maior parte são insipidos, e sem outro interesse mais que o da risota, acharemos que está entre nós tão atrazado o jogo da representação theatral, que os nossos actores em seguindo bem o ponto, que lhes indica o que hão de dizer, são proprios para todas as personagens, e por conseguinte bons para nenhuma.
Lembra-me ha annos ir ao theatro da rua dos Condes assistir á representação da tragedia intitulada A Vestal, que traduzira em portuguez com elegancia o celebre Bocage. Esta peça tragica, susceptivel da mais brilhante representação pelo seu assumpto e pelos grandes interesses que n'ella se tratam, foi desgraçadamente tão mal representada, que pela parte que me toca não me fez a menor sensação. Quantas vezes disse commigo mesmo: «Ah! famoso Talma[1] que estiveste em Londres muitos annos com o fim de reunires os talentos da arte theatral dos dous paizes, que os sabem tão bem apreciar! se tu aqui estivesses, como verias esta excellente peça despedaçada por semelhantes actores?» Em uma das scenas apparece o grande pontifice que deve fazer executar a lei imposta ás vestaes sacrilegas e criminosas; reconhece que sua filha é a delinquente accusada; que conflicto de grandes e violentos sentimentos da religião e da natureza não devem combater a alma de um pai, que sendo igualmente pontifice ou ha de faltar á observancia da lei, primeira obrigação do homem, ou ha de calcar os estimulos quasi invenciveis da natureza, sacrificando o seu proprio sangue á vindicta da lei? Que genio, que talentos, que energia de caracter não são precisos para desenvolver toda esta opposição de sentimentos que combatem o coração humano de uma e de outra parte? O pobre miseravel actor era um automato no meio do theatro, e sem duvida eu tive tanta afflicção de vêr a sua insufficiencia pessoal, como aborrecimento de vêr a indifferença com que o povo portuguez soffre semelhantes actores, a quem convém mais propriamente uma enxada, do que a profissão de uma arte para a qual lhes faltam todos os requisitos. Esta peça me desenganou inteiramente da mediocridade dos nossos actores portuguezes e do estado miseravel em que estão os nossos theatros nacionaes, que tem a desgraça de verem estropeados nos seus proscenios as mais admiraveis producções do espirito humano.
Tenho dado uma curta idéa do pouco que a poesia dramatica concorre n'esta parte para a gloria nacional, assim como do pouco que os nossos actores contribuem para fazer brilhar uma arte que os povos mais polidos amam com tanto excesso, porque n'ella acham uma dôce e agradavel distracção aos seus negocios civis, quando ella é cultivada principalmente por aquelles talentos sublimes que ennobrecem tanto as nações que os viu nascer e creou, como a mesma arte que souberam aperfeiçoar.
Os limites de uma simples carta não me permittiram que eu tratasse este assumpto com aquella extensão que elle requeria para desilludir os muitos ignorantes que se persuadem da boa direcção dos nossos theatros e dos grandes talentos dos nossos actores. Contentei-me unicamente com tocar este ponto pela superficie conforme convinha a uma simples carta, em que a casualidade quiz que o fizesse entrar, a fim de dar a conhecer o nosso grande atrazamento n'esta parte; e creio que algumas das minhas observações não serão frivolas na opinião d'aquelles que tem frequentado os theatros estrangeiros, em que as peças que se representam n'elles concorrem tão poderosamente para a educação publica se ir aperfeiçoando cada vez mais, o que, a meu vêr, é o principal objecto da instituição dos theatros.
O povo de Lisboa não gosta com preferencia senão de farças e entremezes, por que só quer rir e divertir-se com as baboseiras que se dizem n'elles; mas é porque não conhece ainda a grande utilidade que poderia tirar de uma escóla de costumes e de maneiras que lhe quadrariam melhor que as muitas chalaças que ouvem, que lhes pervertem toda a inclinação que poderiam ter para aprenderem a ser polidos, decentes, modestos e virtuosos cidadãos—o que as peças theatraes que estão vendo representar, todos os dias, lhes não ensinam.
Adeus, meu bom amigo; perdôe esta matraca que lhe dou em favor do espirito com que a escrevi, que é o do bem publico, que se estende tambem a este ramo, que produz os fructos delicados do bom gosto, o qual se adquire nos theatros, e d'aquella urbanidade que não é filha da imitação; mas de uma intelligencia dirigida pela razão—tão util ao homem na sua condição particular, como gloriosa para a nação a que elle pertence.
Sou sinceramente
amigo fiel e affectivo
M.