O DOUTOR BOTIJA
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Francisco Dias Gomes,—considerado pelo snr. A. Herculano o homem talvez de mais apurado engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de escriptores—foi malquisto de uns poetas contemporaneos que lhe chamavam o doutor Botija, allusão tirada das vasilhas de seu commercio de mercearia.
Um dos seus medianos admiradores era o abalisado mathematico e estimavel poeta José Anastacio da Cunha. Dos seus raros amigos—pois que os não grangeava em razão de sua indole desconversavel e um tanto hypochondriaca—o mais esclarecido e provado foi Garção Stochler, então lente de mathematica, e depois barão e general.
Francisco Dias Gomes, posto que modesto e conformado com a sorte de especieiro, não se deixava insensivelmente morder pelos epigrammas de quem quer que fosse. A honesta musa que lhe inspirou os graves e soporiferos poemas constantes do seu livro impresso por ordem da academia real, algumas vezes se lhe apresentou despeitorada e de saia curta, n'aquelle desatavio que desnorteia a circumspecção de um philologo da polpa de Francisco Dias.
O leitor, provavelmente, ainda não viu como este sisudo academico jogava o venabulo da satyra. A academia, se alguma topou entre os manuscriptos do seu confrade, com certeza a pospoz como damnosa aos serios escriptos com que a esposa e filhos do finado critico haviam de quebrar alguns espinhos da herdada pobreza.
Não me recordo se Stochler, na noticia critico-biographica anteposta aos versos posthumos do seu amigo, faz referencia ao espirito satyrico de Francisco Dias; o que certissimamente sei é que nunca vi impressa a satyra seguinte contra José Anastacio da Cunha, nem tão pouco a replica d'este poeta, que no proximo numero sahirá como prova do retrincado odio com que, em todos os tempos, os escriptores se expozeram á irrisão dos ignorantes, mutuando-se affrontosas injustiças.
Francisco Dias é iniquissimo no conceito que finge formar de José Anastacio, e tanto mais censuravel quanto aquelle douto e infeliz philosopho nunca desfizera na valia do mercieiro poeta, segundo se deprehende da resposta.
N'esta satyra o que muito vale é a pureza da linguagem condimentada com especies do seculo XVII, bastante avelhentadas e rancidas; mas, assim mesmo, saborosas a paladares não de todos depravados pela malagueta da poesia vermelha que ultimamente vige e viça.
Quanto a graça, é tão difficil achal-a em Francisco Dias como nas comedias de Jorge Ferreira. Os nossos bons classicos, quer fossem moços e mundanos, quer ascetas e encanecidos, não sei como pensavam; mas no escrever, eram todos como uns frades velhos que digeriam as suas idéas, tal qual um estomago dyspeptico de hoje em dia esmoe um paio do Alemtejo.
Ahi vai, tal e quejanda, a satyra do doutor Botija:
SATYRA Vem cá, louco varrido, que diabo Te metteu na cabeça ser poeta? Quem te chegou a tão extremo cabo? Não vês que toda a gente anda inquieta, Cançada de soffrer teus argumentos, Que te julga demente, que és pateta? Eu nunca imaginei que teus intentos Fossem fazer-te vão: agora julgo Que em nada se tornaram teus talentos. Se eu crêra em quantas pêtas conta o vulgo, Das feiticeiras sordidas e aváras, E outras, que aqui não digo, nem divulgo; Dissera que perjuro te mostráras, Que infido amante da cruel Canidia, Seus magicos encantos divulgarás. Que ella, por castigar tua perfidia, Sobre as azas d'um Lémure correra O Tauro, o Atlante, o Nilo, e a sêcca Lidia, Onde hervas potentissimas colhêra, Com que mixtos veneficos, horrenda, De funestos effeitos compozera. E porque ao fim viesse da contenda, Pela alta noite, barbara, ullulára, Com voz funesta, horrisona e tremenda, Que as infernaes Deidades convocára Do tremebundo Tartaro, formando Mil circulos no chão com fatal vara. Pallida, e consumida, suspirando, As horridas madeixas eriçadas, Com ellas murmurára um canto infando. Alli foram de todo desatadas As prisões, que a teu corpo o siso unia; Alli tuas idéas perturbadas; Sómente em ti ficou triste mania De maus versos fazer, de argumentar Com quantos ha, nas praças, noite, e dia. Não deixa a gente já de murmurar D'essa tremenda furia que te agita, D'esse teu furioso e vão fallar. Cuidas que, ainda que nescio, assim se excita A celebrar-te o povo por sciente, Elle que em tudo mofa, e fel vomita?! E julgas que de rustico não sente A differença que ha do branco ao preto? Por certo que te enganas claramente. Tu crês que só quem faz um bom soneto, Ou decifra um enigma mathematico, Esse só tem juizo, e é só discreto? Se para ser qualquer da vida pratico, Bem aviado está, se lhe é preciso, Ser um grande geometra, ou grammatico. Tal ha por esse mundo, e tal diviso, Que sem saber a regra do abc, É sagaz como trinta, e tem juizo. Como queres tu pois que não te dê Surriadas o povo maldizente, Posto que nunca estuda, e nunca lê? Se elle anda já cançado longamente De ouvir as tuas vãs declamações Com que pretendes emendar a gente! Se defender intentas conclusões, Mestre em artes, de borla, ou capacete, Porque te ouçam as tuas decisões; Rapa a cabeça tu, frade temete: Combaterás então mais forte e ufano, Que um guerreiro montado em bom ginete. Não andes pelas ruas como insano Syllogismos em barbara formando; Se assim queres ter fama, é grande engano. Que quer dizer, continuo, andar fallando Em curvas, corollarios e problemas, Demonstrações fazendo, e explicando? Quando te ouvem fallar em theoremas, Escalenos triangulos, e rectas, Espheroides, polygonos, e lemmas, Julgam ser isso termos de patetas Ou d'esses que tem pacto c'o diabo, E lhe fallam em partes mui secretas. Pois eu d'aconselhar-te não acabo, Se por tal te tiverem, fugirás Como cão com funil atado ao rabo. Em vão com grande esforço ladrarás, Distinguindo a menor, que concedendo Quanto o povo quizer á força irás. Que achaste, inda que tu lhe vás dizendo, Do circulo a sonhada quadratura, Nada te valerá, segundo entendo. C'os rapazes e moços, gente escura, Gente indomita em fim, tua pessoa Não poderá jámais andar segura. Tanto já de ti fallam por Lisboa, Que quando vaes por uma praça, ou rua, Grande susurro em toda a parte sôa. Ora pois tem razão, que a audacia tua, E teus discursos vãos, e palavrosos Dão causa a que qualquer teu sestro argua. Eis aqui porque chamam ociosos Aos que ás letras se applicam, temerarios, Phantasticos, herejes, mentirosos. Os fidalgos os tem por ordinarios, Baixos de nascimento, sem avós, De humildes pensamentos, vãos e varios. Se alguem com acto humilde e baixa voz Lhe offerece o elogio em prosa ou rima, Louco, dizem, te vai longe de nós. De nós a poesia não se estima; Vê se tens outra cousa por que valhas, Falla-nos de cavallos ou de esgrima. De cavallos, de esgrima, de batalhas, Não d'essas verdadeiras batalhadas Com lança e espada, aereas antigualhas. Entra por esta brecha ás cutiladas, Amigo, tu que n'isto és o primeiro, Segundo já te ouvi grandes roncadas. Não te ficou venida no tinteiro, Nem tantas soube o Molho destemido, De malsins espantalho verdadeiro. Se te ouvira o Palermo esmorecido Da côrte se ausentára, por não vêr Com teu valor seu credito abatido. Bem pódes pelo mundo discorrer, Novo Roldão, armado d'armas brancas, Mil encantos e aggravos desfazer. Leva do teu cavallo sobre as ancas Tua dama sentada; esgrime e clama, Que assim tudo afugentas, tudo espancas. Ganharás maior nome, e maior fama, Do que andar versos maus vociferando, Dignos dos becos sordidos d'Alfama. Se a fazer versos lá do lago infando O diabo sahisse em tons diversos, Taes como os teus faria, impio, e nefando. Por isso não os tenhas por perversos, Aos que pulhas te dizem, porque em fim, Não ha cousa peor do que maus versos. Antes mais vale ser villão ruim, Frade apostata em casa das mancebas, Do que ser mau poeta, antes malsim. Agora quero eu que me percebas, Se alguem te applaude e rijo as palmas bate, É porque mais em teu vicio te embebas. Que aqui te manifesto sem debate, Todos esses amigos que te cercam, Todos te tem por um famoso orate. Quaes ha que rindo o folego não percam, Vendo, quando andas só, teu ar profundo? Se o gosto não lh'o invejo, caro o mercam. Como o que anda d'um bosque lá no fundo As féras conversando e as amadríadas Desgostoso das gentes, e do mundo, Quem te vê tão suspenso, outras iliadas Julga que andas compondo, alto portento! Outros novos altissimos Lusiadas. Mas cada vez que recordar intento Teu soberano e largo magisterio, Fico qual nau sem leme ao som do vento. Alli tudo decides com imperio: Não foram tão despoticos em Roma O tyranno Caligula, ou Tiberio. Qualquer, de ti pendente, lições toma, Não ousa, inda que queira, dizer nada, Que tudo á tua voz se rende, e doma. Alli qualquer materia é bem tratada, Com larga voz e cópia de palavras, Alli com teu discurso illuminada. Antes fallasses tu em gado ou lavras, Do que em sciencias, de que nada entendes: Ou fosses para o monte guardar cabras. Novos systemas se fundar emprendes, Porque a fama no numero te conte Dos grandes homens, que offuscar pretendes, Pede ao bom Ariosto que te monte Sobre o seu grifo rapido, e serás Outro Astolfo, outro audaz Bellerophonte. Ao concavo da lua subirás Para vêr se descobres novos mundos, Mas nunca o teu juizo encontrarás; Perdeu-se como pedra em poços fundos, Que nunca acima vem, nem nada, ou boia: Juizos são de Deus, altos, profundos! Não te esqueça maranha, nem tramoia, Porque ao fim desejado te Conduzas, Mais famoso serás que Helena e Troia. Avante, ó novo Gama, já confusas Com as tuas acções vejo as antigas, E para te cantar promptas as musas. Tem-nas da tua parte por amigas, Materia dando a satyras facetas Como as de Horacio, destro n'estas brigas. Se minhas forem, não serão discretas, Porque da rima a musica sonante Adorna as minhas pobres cançonetas. Inda esta nos faltava, a cada instante Andares tu contra ella declamando! Que mal te fez o pobre consoante? Quando o chamas não vem logo a teu mando? É porque com verdade não se preza Do teu engenho o som suave e brando. Elles fogem de ti com ligeireza Os consoantes, porque em ti não sentem Para bem usar d'elles natureza. Se as minhas conjecturas me não mentem, Os que poetas querem ser á força, Pouco de um secco rábula desmentem. Em vão um pobre espirito se esforça Porque os seus versos sóem docemente, Por mais e mais que o pensamento torça. Nunca ouviste dizer que Apollo ardente Agita a phantasia dos poetas, Para que mais seu cerebro se esquente? Inda que ouçam razões muito discretas Das mulheres e filhos que pão pedem, Deixam ficar-se, assim como patetas. Nem fomes, nem trabalhos os impedem, Que exercitem o dom divino e raro: Tanto em seu desatino se desmedem; Por isso ás vezes julga o vulgo ignaro, Que elles são intrataveis, desabridos, Posto que os bons lhe dêm louvor preclaro. Mas tu que nunca ergueste os teus sentidos, Que em idéas vulgares e confusas Sempre andaste com elles envolvidos; Se nunca conheceste Apollo, ou musas, Nem pintado sequer viste o Parnaso, Para que de seus dons sem saber usas? Se temes que o teu nome em negro vaso Para sempre se veja sepultado; Usa do para que tiveres azo. Não digas mal do consoante amado Tanto dos bons engenhos peregrinos Dos do tempo d'agora e do passado. Se tu fundas em Miltons e Trissinos Teus aereos phantasticos systemas, Assás de bons não foram seus destinos. Poucos ou raros lêm os seus poemas; Um triste e melancolico caminha Farto de extravagancias mil extremas. A musa d'outro misera e mesquinha, Languida e fria, sem adorno e graça Da solta prosa jaz quasi visinha. Ninguem jámais a noite e o dia passa Seus aridos escriptos estudando, Por muito que o seu gosto contrafaça. Não o nego porém, de quando em quando D'elles se eleva um resplendor sublime, Digno do Pindo e Phebo claro e brando. Mas tu a quem a rima tanto opprime, Se não sabes, aprende: o canto hebraico Dizem que ás vezes n'ella bem se exprime. E que por evitar o tom prosaico, Algumas vezes d'ella se servira O poeta syriaco e o chaldaico. Tambem a musa grega ao som da lyra, Lá nos tempos antigos, d'ella usou; E o romano que a face ao mundo vira. Novamente o seu uso renovou Dando-lhe fórma e ser o provençal, De nova graça a poesia ornou. Mas isto para ti de nada val, Que porque te foi d'ella Apollo escasso, D'ella e dos que a usaram dizes mal. Que mal te fez Camões e o culto Tasso? Camões a quem as musas educaram Na sua gruta, e virginal regaço? Qu'o cantico divino lhe inspiraram Em que aos astros ergueu os lusos feitos, Que tanto pelo mundo se afamaram. Para exprimir altissimos conceitos Nunca jámais a rima lhe fallece Estylo e puro culto sem defeitos. Qualquer rustico espirito conhece, Que quanto o Camões quiz dizer, o disse Facil e natural, como apparece. Quem quer que d'elle mal fallar te ouvisse, Diria afoutamente e com verdade, Q'isso em ti era inveja, era doudice. Ora pois, porque tens difficuldade Em dizer teu conceito em dôce rima, Vituperal-a é grande iniquidade. Julgavas facil e de pouca estima Dôces versos fazer? amigo, não, É preciso trabalho, estudo e lima. E isto sem natural inclinação, Ou pouco ou nada val: se disso és pobre Martellarás no pobre siso em vão. A vêa natural não se descobre, Mil glosas n'um outeiro recitando, Mais vis que escoria vil de ferro ou cobre. Oh quanto te escarnece a gente quando N'elle estás como insano loucamente «Tyrse, Tyrse!» com larga voz gritando. Inda do consoante tão vãmente, Te atreves, pobre infusa, a blasphemar, Sendo tu tão vã cousa, e tão demente! Elle nunca se deixa demonstrar Na tão formosa lingua portuguesa A quem com diligencia o procurar: Qualquer, inda que pouca natureza Tenha, dirá rimando o que quizer Em estylo corrente e com clareza. Tanto que aqui mui bem se póde vêr Que sendo o meu engenho rude e baxo, Exprimo quanto tenho que dizer. Ou bem ou mal os consoantes acho, Tão facilmente ás vezes me apparecem Que para os apanhar me não abaxo. Mas julgo que os ouvintes adormecem Co'a minha longa pratica: eu me calo, Pois que os gostos d'ouvir-me lhes fallecem. Em fim já sem refolho aqui te fallo; Se os meus versos conseguem felizmente Fazer dentro em teu peito algum abalo, Que o teu fado se quebre em continente, Tornando-te, de louco, homem cordato, E acabes de ser fabula da gente. Tuas acções medindo com recato, Deixando versos maus, vãos argumentos Que te fazem de todo mentecato, Darei por bem gastados os momentos Que empreguei n'esta misera escriptura, Censurando os teus fatuos pensamentos, E ter-me-hei por mimoso da ventura.