AO LEITOR
Reading edition
La pensée est pouvoir. Tout pouvoir est devoir. VICTOR HUGO.
Este livro tem uma missão, e tem um fim.
Escripto para o povo, a sua missão é levar a luz ás ultimas camadas sociaes. Diffundil-a no tugurio do operario, e na choupana humilde do aldeão.
Inspirado nas mais sinceras crenças da democracia, aceita, como fim, arrancar ás garras d'esse immenso desalento e d'essa torpe corrupção—que por ahi vai gangrenando as sociedades—os generosos espiritos populares, para que as almas se não gelem, e os corações—que vivem de nobres aspirações—se não atrophiem, n'este completo desmoronamento de todas as instituições existentes.
O author d'este livro não tem pretenções, nem vaidades, nem receios. Não se julga apostolo, nem propheta, nem vidente. O mais obscuro dos obreiros d'este seculo—como é, e quer ser—escuta, attento, o ruido que vai lá fóra, nos paizes onde a idéa tem um culto, onde as crenças consubstanciam religiões, onde as sociedades se debatem na agonia de organisações politicas, sociaes e religiosas, que tendem a desapparecer; e pelo facto de existir, e de se considerar obrigado ás luctas da existencia, giza o terreno em que combate, sem orgulho, sem odios, e sem rancores pessoaes.
Volta-se para os seus irmãos no trabalho, operarios tambem—qualquer que seja a fórma por que exercem a sua actividade, e diz-lhes:
«Eu penso assim. Aqui tendes o producto das minhas meditações, e dos meus estudos. Dou-vos os lavores do meu espirito. Combatei-me, ou enfileirai-vos commigo.»
Eis a razão do livro.
Vêde, agora, a sua desenvolução.
O author crê nas inspirações grandiosas do povo, crê na mocidade estudiosa das escolas, e crê nas leis immutaveis, fataes, e inexoraveis do progresso, que acompanham a vida das gerações, e que nos conduzem a uma determinada somma de civilisação, a um especimen de perfectibilidade relativa, quaesquer que sejam os cyclos de descrença, de abjecto abatimento, de egoismo individual, e de corrupção momentanea em que se debatem as sociedades.
O author d'este livro é espiritualista.
Devotado ás leis sagradas e eternas por que se rege a humanidade, curvando-se, submisso e reverente, á vontade absoluta, que governa, e dirige o universo, pronuncia a medo, e na humildade da sua existencia, o nome do Ente Supremo, e crê firmemente, que todos os homens são iguaes. Ajoelha, e adora a omnipotencia, a infinita bondade, e sublime misericordia de Brahma, Zeus, Jezeu, Elohim, Jehovah, Allah, Osiris, Jupiter, Deus, Christna, Christo, finalmente do Eterno—qualquer que seja o nome sagrado, e mysterioso, por que as gerações modernas o pretendam appellidar.
O seculo dezoito teve por missão destruir.
O seculo dezenove é a transição, que liga, e une civilisações heterogeneas, é o parenthesis aberto n'estas luctas do espirito, n'esta convulsão moral, em que as sociedades actuaes trabalham para se regenerarem radicalmente, sob um differente aspecto, e aceitando novos dogmas, e diversas doutrinas.
O author d'este livro não despreza o passado. Não o injuria, não o diffama, nem o calumnia. Explica-o até, e, por vezes, justifica-o.
Mas aceita jubilosamente a corrente das idéas do seu seculo, e louva o Eterno na effusão das suas crenças.
Todavia não volta o rosto, como a mulher de Loth, para contemplar Sodoma.
Só a magestosa omnisciencia do Ser Supremo póde avaliar os entes que creou.
Ao sentar-se nos bancos das escolas superiores, no prefacio de um livro—dado a lume por um irmão d'armas, ferido, e cahido moribundo, já, na arena da discussão, pelas luctas da palavra—escreveu as seguintes linhas:
«Pergunta-se—se os gozos, se os prazezes pertencem unicamente a um pequeno numero de homens?—se a maioria, se as classes proletarias, se os Spartacus da civilisação moderna teem de escolher entre o passamento ignominioso nas gemonias do seculo dezenove, ou nas barricadas, nascidas do desespero, que a miseria e o ardor do martyrio obrigam a levantar? Pergunta-se—se o monopolio, se a concorrencia, são os dogmas injustos e tyrannicos, que hão de destruir as massas, como o carro do idolo Jagrenat, entre os indios, esmaga o craneo dos brahmanes, ou se a associação, esse credo dos assalariados das industrias, que os economistas victoriam—póde acabar com o pauperismo, e obstar á ignorancia dos povos, palladio deshumano a que os ambiciosos se seguram?»
Ainda hoje o author d'estas linhas formúla as mesmas perguntas, com a mesma severidade, e aceita a responsabilidade d'ellas na tranquillidade constante, e inalteravel do seu espirito.
A quem o accusar de leviano, de voluvel, e de imaginoso, no seio d'este hediondo tropel de ambições, que renegam, e apostasiam a cada hora—redemoinhando, revoltas, em torno do poder, seja qual fôr a sua origem ou procedencia—responde o author d'este livro com o sorriso do desprezo, e com a consciencia segura de que não sabe, não póde, nem quer deslizar nunca da lei augusta e sacrosanta do dever.
Os espiritos, para quem a libré é mais do que um distinctivo, e uma triste e crapulosa missão, porque chega a ser um sacramento imprimindo caracter,—esses, que se curvem, que se dobrem, e que degradem a face humana, varrendo, com a fronte, o pó das alcatifas e alfombras das regias aulas e alcaceres dos principes, magnates e satrapas do poder.
Pouco importa.
O vocabulo lacaio tem, na sua etymologia, a justa e bem merecida ignominia.
É a pena que a dignidade humana confere á abjecção.
Um dos primeiros—senão o primeiro escriptor d'este seculo—narra o seguinte:
«Octavio Augusto, na madrugada da batalha de Accio, encontrou um jumento a quem o burriqueiro alcunhára ou appellidára Triumphus. Este Triumpho, dotado com a faculdade de zurrar, pareceu-lhe de bom agouro. Octavio Augusto ganhou a batalha, lembrou-se do Triumpho, mandou-o fundir, e esculpir em bronze, e collocou-o no capitolio. Burro capitolino foi elle—mas ficou sempre burro.»
Eis a historia das vaidades humanas.
«O habito não faz o monge», diz a sabedoria dos povos.
As grandezas da terra são, as mais das vezes, o pelourinho de todas as ignominias—assim como do sambenito, e da cana verde da irrisão pharisaica surgem, em ondas de luz, a magestosa auréola do martyrio, e a apotheose deslumbrante, que a posteridade engrandece e divinisa.
O author d'este livro não crê nos partidos militantes, nos diversos grupos parlamentares, nas ambições e cubiças, que fervilham em torno das insignias consulares—quer se chamem opposições ou governo.
Escalar o poder pelo poder, aceital-o em todas as condições, á sombra de todas as bandeiras, na defeza de todos os codigos, e na metamorphose de todos os principios, parece ser a maxima inspiração de todas estas phalanges, ávidas e sedentas de governo, que reputam, como suprema beatitude, o ineffavel gozo de dirigirem uma situação politica qualquer.
D'aqui vem o scepticismo partidario, a indifferença profunda, e a descrença completa do povo.
N'isto, como em tudo, o author d'este livro está ao lado do povo.
Basta.
Fecha-se este prologo com uma simples remissão ao prefacio ou introducção do livro, que fica referido.
Assim termina esta advertencia ao leitor:
«A educação, nas classes pobres da nossa terra, tem sido desprezada: o povo ignora tudo, porque tudo lhe é vedado. Convinha, pois, que á frente de um livro, que narra com singeleza as tristes vicissitudes por que a governação entre nós tem passado; que aponta, sem exagerações, como a liberdade vai sendo sophismada, fossem estampadas algumas linhas, que levassem a esperança a corações para quem a educação é um miseravel scepticismo, e a vida um sudario de pungentes dôres.»
Estas linhas, escriptas ha vinte annos, firma-as o author d'este livro, com a convicção plena de que ainda não deslizou d'estas crenças, nem renegou, n'um só momento, a religião da sua mocidade.
Em mil oitocentos cincoenta e seis, quando a pena de morte era lei entre nós, quando o homicidio legal erguia a sua sinistra, e hedionda influencia n'esta terra—terminava o author d'este livro, em presença de um tribunal e em defeza de um réo, pelo seguinte modo, a sua oração:
«Quanto a mim, resta-me a honra de ter pelejado com a forca, esta peleja solemne e derradeira. Se eu ficar vencido, se triumphar o carrasco, tanto peor para o seculo em que combati, e para a philosophia que invoquei.»
Foi já rasgada a lei do homicidio. Falleceu o ultimo carrasco.
Bemdito seja Deus!
Venceu aqui a civilisação.
É para crêr, que venceu, tambem, a justiça absoluta, a consciencia, e a sociedade.
A inviolabilidade da vida humana é mais do que um principio, mais do que uma doutrina, mais do que uma lei: é um culto prestado ao Ente Supremo.
Deixai, agora, que o author d'este livro peleje pela democracia.
É esta, e só esta a verdadeira religião do futuro: é a obra sublime do Creador.
Lisboa, 24 de julho de 1874.
VISCONDE DE OUGUELLA.