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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 01 (de 12)

RANCHO DO CARQUEJA

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Ha 153 annos que um bando de estudantes, em Coimbra, acaudilhado pelo mais intrepido e de peores entranhas, começando por espancar os archeiros e rondas nocturnas, acabou por matar quem lhe offerecesse reacção. Chamavam-se do e não da Carqueja, como escrevem todos os que relembram a funesta existencia d'aquelles rapazes perdidos. Carqueja e Estopa haviam sido, por aquelle tempo, dous facinorosos de Vizeu, chefes dos salteadores. Em honra do primeiro, escolheram os estudantes o sinistro baptismo do seu bando. E é de notar e deplorar que alguns da quadrilha eram padres que cursavam theologia. Depois de repetidas atrocidades, o governo, a rogos dos habitantes de Coimbra e lentes da universidade, enviou a marchas forçadas tropa de infanteria com alguns esquadrões que chegaram de madrugada e colheram de sobresalto os criminosos.

Alguns, bem que não reagissem, entraram acutilados no carcere, e foram depois morrer no Limoeiro, em Lisboa. Aqui damos a relação dos seus nomes:

O capitão do bando era da Terra da Feira; chamava-se Francisco Jorge Ayres. João Pedro Ludovice, natural de Lisboa; o padre Vicente Gomes Alvares Lobo, do Algarve; Manoel Antonio Ramos, José Rodrigues Esteves, José Antonio de Azevedo, Antonio da Costa e Silva, o Pescada; o padre José da Silva Couto, Miguel Pereira Coelho, Roque Monteiro Paim, José de Horta, D. Manoel Alexandre da Costa, todos de Lisboa; Jacintho de Figueiredo, natural de Almeida; José Pereira Manojo, brazileiro; o padre Francisco Pereira Goes, natural de Pereira; José da Cunha Borges, do Alemtejo; Pedro Gomes Barbosa, de Salvaterra; Lourenço Pimenta, Antonio Maceiro, Thomaz da Silva, João dos Santos, todos de Coimbra. Estes foram os presos conduzidos a Lisboa, afóra um estudante de Aveiro, cujo nome não sabemos, e um filho do confeiteiro de Loures, muito conhecido n'aquelle tempo. Um dos mais façanhosos, Francisco de Sá, natural de Evora, pôde evadir-se de Coimbra para aquella cidade, e d'alli para Hespanha. O juiz dos orphãos de Evora, a quem fôra recommendada a captura de Francisco de Sá, procedeu negligentemente, d'onde lhe resultou ir por ordem de el-rei carregado de ferros para o Limoeiro.

O estudante Francisco Jorge Ayres, capitão da malta, foi degolado no Pelourinho de Lisboa em junho de 1722.

Antonio da Costa e Silva, de alcunha o Pescada, e José de Horta morreram na cadêa.

A maior parte dos outros cumpriu sentença de degredo.

Entre os presos havia um poeta, D. Manoel Alexandre da Costa, neto do primeiro conde de Soure, filho de D. Rodrigo da Costa, viso-rei da India. Este fidalgo, ao saber que seu filho fôra preso na cáfila dos scelerados, adoeceu de vergonha, e morreu n'esse mesmo anno de 1722, aos 16 de novembro, quando o filho ainda estava no Limoeiro, esperando a sentença.

O protector deste moço era o marquez de Marialva, a quem o estudante, desde que o prenderam relatou em toantes, á moda do tempo, as suas desventuras. É longo o poema, e fastidioso, sem impedimento do interesse inspirado pela tragedia do assumpto. Não me dispenso, porém, de trasladar as quadras que dizem mais ao intento. Refere o incidente imprevisto da prisão:

...................... Era, em fim, de madrugada, a hora menos escura em que o dia irresoluto nem se esconde, nem se occulta, Quando com bellicas vozes pela destra mão avulsas, pois a eloquencia de Marte não tem lingua, e não é muda, Se ouvem de uma, e outra parte gemer as portas, e ruas, em o concavo dos montes o ar ferido retumba. Todos ás janellas chegam com desordenada chusma, quem nas janellas não cabe talvez aos telhados suba. Quando vem de infanteria uma bem formada turba forte como portugueza; mas tyranna como turca. Vem tambem destros ginetes cujos pennachos, e trunfas se tocavam das janellas ao movimento das upas. Por outra parte a justiça entre os soldados vem junta, que o ser a justiça armada não é só para a pintura. Das casas as portas tomam, não de todas; mas de algumas, pois só se emprega a vingança onde se suspeita a culpa. Logo de vista tam nova com diversas conjecturas todo o prudente se admira, todo o culpado se assusta. Que será, que não será, todo o innocente pergunta; não o pergunta o culpado que a mesma consciencia accusa, Quando para o desengano de tudo o que se murmura, a esquadra passa da porta a guarnição que as occupa Levando a baioneta mettida, calçada a buxa, muito valor, pouco termo, pouca attenção, muita furia. Assim entram os soldados pelas casas mais occultas, dem-se á prisão repetindo ainda quando nada escuta. Pois como vinham temendo os do rancho, cada um cuida, que cada taboa pregada mil criminosos occupa. Não ha cozinha, ou armario, nem ha chaminé, nem tulha que logo se não despegue, logo não se desentupa. Porém era muito cedo sem que nenhum tal presuma, pois a culpa obra-se sempre, Que a pena espera-se nunca. Nas camas os acham todos: mau é que o culpado durma, porém quem se deita tarde, claro está que não madruga. Alli sem trabalho os prendem; porque alli ninguem repugna, pois não tinham como os corpos alli as espadas nuas. Querem fugir; mas não podem, pois por militar industria, como estão guardas ás portas não ha por onde se fuja. ......................

Até aqui, não ha razão para grandes piedades; mas, ao diante, as trovas exhoram a compaixão; e o caso foi que o marquez de Marialva salvou do degredo o supplicante poeta; mas não pôde arrancar o viso-rei das presas do opprobrio que o mataram.

Quem visse dezesete annos depois D. Manoel Alexandre da Costa, obeso doutor em canones, prior da igreja de Santa Cruz no Minho, e principal da santa igreja de Lisboa, devia lembrar-se do socio bastantemente prendado do rancho do Carqueja, e recommendar á justiça de Deus os juizes que degolaram Francisco Jorge Ayres, e absolveram o afilhado do marquez, e sobrinho do segundo conde de Soure!...

FIM DO 1.o NUMERO

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