DOUS POETAS INEDITOS DO PORTO
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Na segunda metade do seculo XVII floreceram no Porto dous doutores, acariciados das musas, e por isso mesmo rivaes e inimigos: eram João de Assucarello (ou Sucarello) Claramonte, e Christovão Alão de Moraes, desembargador da Relação e mais tarde corregedor do civel do Porto. Do primeiro temos algumas poesias deshonestas, e diminutas noticias, e essas em referencias dos poetas seus contemporaneos, nomeadamente o padre Jeronymo Bahia. Do segundo encontra o leitor ampla noticia no Panorama de 1854, n.os123 e 127. Distinguiu-se como poeta e genealogico. Não sei onde param oito volumes em folha escriptos de sua mão, intitulados Genealogia das familias de Portugal. Sei que o duque de Lafões, no seculo passado, os não quiz comprar porque lhe não respeitavam a pureza do sangue dos avós; e a bibliotheca publica de Lisboa tambem os não adquiriu, ha poucos annos, «por incuria ou capricho do ex-bibliotecario Canaes», diz o snr. Innocencio Francisco da Silva.
O doutor João de Assucarello satyrisava o Porto, representado nas pessoas de mais importancia, algumas das quaes nos são hoje desconhecidas, e difficilmente lhes rastrearemos as familias que as representam.
Eis-aqui o maledicente soneto do medico, émulo de Christovão Alão:
As valentias de Gaspar de Anhaya,[1] O mero e mixto imperio do Sarinho, A calva de João Nunes frita em vinho, As filhas do Picão de Miragaya; Mercancia de esterco, ambar da Maya, Comprado ou já por lenha ou por toucinho, Geral remedio de Entre-Douro e Minho, Achado antes nas casas que na praia; Beata calva, immensa gravidade Dos infanções mantidos com farelo, Da manta rota a celebre Irmandade: Este é o Porto--acabo de dizel-o. Ó muito nobre e sempre leal cidade, Quem te pozera a couves e bacello!
Não se percebem alguns epigrammas do soneto; mas aquelle verso que rescende ao ambar da Maya não seria ainda hoje um anacronismo.
Respondeu Christovão Alão, pelas mesmas rimas, do seguinte feitio:
Bem caro te custou Gaspar de Anhaya, E te póde custar inda o Sarinho; Poeta bacchanal, farto de vinho, Que és deshonra do Porto e Miragaya. Villão inda mais sujo que da Maya, Creado só com brôa e com toucinho, Quem te mette a fallar em Douro e Minho, Sendo filho das ervas e da praia? Como has tu de entender da gravidade Dos infanções, brichote de farelo, Se não logras dos nobres a Irmandade? Este és, ó bebado!--acabo de dizel-o: Que só para beber toda a cidade, A desejaste poeta de bacello!
Este soneto é bom.
Desculpa-se ao poeta fidalgo a arrogancia com que desdenha o plebeismo do Assucarello, appellido que nenhum linhagista condecora; dado que este medico já então tivesse o habito de cavalleiro da ordem de Christo. Ora os Alões são mais antigos em Portugal que os seus monarchas. D. Mendo Alão era senhor de Bragança, antes da vinda do conde D. Henrique a Hespanha. Alguns genealogicos lhes dão como antepassados os reis álanos. Na igreja de S. Bartholomeu de Lisboa existiu o morgado de Santo Eutropio instituido por D. João Alão, bispo do Algarve. Esta familia está representada no Porto por descendentes que não desdouram tão nobre appellido.