ADOLPHO CAMINHA
Reading edition
NO PAIZ DOS YANKEES

RIO DE JANEIRO Domingos de Magalhães―editor 54 rua do ouvidor 54 LIVRARIA MODERNA
1894
Do mesmo autor:
A NORMALISTA I vol. broc. 3$. cnc. 5000
Em preparação:
BOM―CRIOULO
Typ. da Empreza Democratica Editora―Rua do Hospicio n. 11
Taine, o glorioso Taine, o querido philosopho, cuja obra admiravel tem sido uma especie de bussola para os que se iniciam na complicada arte da palavra; Taine, o mestre, aconselhava sabiamente, com aquella profundeza de vista e com aquelle raro e superior criterio de artista e pensador:―«Que chacun dise ce qu'il a vu, et seulement ce qu'il a vu; les observations, pourvu qu'elles soient personnelles et faites de bonne foi, sont toujours utiles.»
Devo a estas palavras a lembrança de escrever as multiplas impressões, os successivos transportes de admiração, de jubilo e tristeza por que passou meu espirito durante alguns mezes de viagem nos Estados-Unídos.
A principio afigurou-se-me obra de alevantado alcance e de extrema coragem traçar, ainda que ligeiramente, o plano de um livro sobre a grande nação americana, tão singular em seus costumes, em sua vida agitada e tumultuosa, em seus variadissimos aspectos...
E de facto, esse trabalho, essa difficil tarefa demandaria, incontestavelmente, muito mais que uma somma de notas mais ou menos verdadeiras e algum estylo. Era preciso, antes de tudo, um elevado criterio historico e scientifico, grande cópia de conhecimentos e profundo espirito analytico.
Não se escreve a historia de um paiz,―a vida inteira de um povo―sem demorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens, seus habitantes primitivos, sua evolução politica e social, suas luctas intestinas e sobre os elementos que mais directamente influíram para sua independencia.
A elles, os historiadores e analystas da sciencia, tão arriscada empreza.
Os poucos mezes que passei nos Estados-Unidos apenas me proporcionaram ensejo de admirar, atravéz de um prisma todo pessoal, o progresso assombroso d'esse extraordinario paíz.
Comprehendem-se, pois, os meus intuitos: nada mais que reproduzir, com a possível exactidão,
o que vi
, somente
o que vi
nessa interessante viagem ao paiz dos
yankees
.
Procurei ser espontaneo e simples, natural e logico, evitando exageros de observação e o estylo rebuscado e palavroso dos que, á fina força, pretendem transformar a litteratura n'uma simples arte mecanica de construir phrases ôcas e coloridas.
Escriptas em 1890, as paginas que se vão ler podem não ter a importancia de um estudo completo, mas de algum modo têm seu valor intrinseco.
Rio, 1º de Agosto de 1893.
Ad. Caminha
NO PAIZ DOS YANKEES
I
...Tinha cessado a faina geral de suspender ancora. Os marinheiros estavam todos em seus postos, alerta á primeira voz, silenciosos, enfileirados a bombordo e á boréste, alguns convenientemente distribuidos na pôpa, na prôa e nas cobertas do cruzador.
Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem estrellas, cortada de clarões longinquos. Tão escura que se não distinguia um palmo diante do nariz, tão feia que os bicos de gaz da cidade, soturna e quieta, bruxoleavam pallidamente com a sua luz tremula e vacillante...
E comtudo estavamos a 19 de Fevereiro, em plena estação calmosa, no rigor do verão.
Chuvera todo o dia. O céo conservava-se coberto de nuvens bojudas e côr de chumbo, velando uns restos de lua.
Um grande silencio de alto mar alastrava-se por toda a bahia do Rio de Janeiro. Sómente ao longe, para os lados da cidade, badalava o sino d'uma egreja, compassado e lugubre.
De vez em quando passava rente com a pôpa do
Barrozo
o vulto sombrio e largo de uma barca Ferry, com o seu pharól de côr, dezerta, indistincta, e que desapparecia logo na escuridão.
Seria meia noite quando o navio começou a mover-se lentamente, caminho da barra, cheio da silenciosa melancolia dos que partiam, e uma hora depois a cidade, as praias, e as montanhas sumiam-se na distancia, como si o mar as fosse engolindo com a voracidade de um monstro.
Restava apenas um ponto luminoso, uma visão microscopica da terra fluminense; era o pharol da ilha Rasa tremeluzindo, como palpebra somnolenta, atravéz da noite.
E todos a bordo, todos silenciosamente, egoistas na sua dôr concentrada e incommunicavel, mandaram ainda um―adeus―profundamente saudoso á vida alegre e ruidosa do Rio.
Dizem que o homem do mar é insensivel aquelles que nunca viram esta realidade: a lagryma da saudade brilhar na face de um marinheiro.
Lá fomos mar afóra...
Pernambuco foi o primeiro porto da nossa escala.
Viagem monotona, sem accidentes notaveis, essa do Rio ao Recife. As horas succediam-se n'uma uniformidade tediosa e imperturbavel. Sempre o mar, sempre o céo, ora sombrios, ora azues...
Durante o dia 21 avistámos, e isso nos consolou,
uma
vela que bordejava, muito branca, triste garça erradia no horisonte luminoso.
Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de innocente alegria O marinheiro com especialidade gosta de seguil-a com o olhar nostalgico até perdel-a completamente. É como ao avistar-se terra depois de longa travessia: sente-se a mesma impressão bôa e indefinivel.
Na manhã de 26―léste-oeste com o pharol de S. Agostinho, e ás onze horas recebiamos o pratico.
Impossivel entrar nesse dia, por falta de maré: passámos a noite fóra, no Lamarão, aos solavancos, vendo, por um oculo, a cidade do Recife, illuminada e bella, hombro a hombro com a legendaria Olinda dos hollandezes e dos banhos de mar.
Na falta de outro assumpto falou se de historia patria.
Pela manhã de 27 o
Barrozo
sulcava as aguas do Lamarão, lento e magestoso, crivado de olhares. O povo saudava-o do cáes da Lingueta. Espalhou-se logo que o principe D. Augusto, neto do imperador, vinha a bordo, e toda a gente correu a recebel-o com essa avidez instinctiva das massas populares. O povo pernambucano, tradicionalmente inimigo dos imperadores, lembrava-se do tempo em que o Sr. D. Pedro de Alcantara dava-se ao luxo de visitar o norte.
Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia parte o principe, subiu de ponto a curiosidade publica.
―Oh! o principe!―Que é d'elle?―É um ruivo?―É aquelle barbado?
O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de côres, e fazia-se escarlate, e vociferava contra a plebe, occultando-se entre os collegas, desapontado. Um preto velho teve a lembrança de ajoelhar-se aos pés de S. A. e supplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, porém, que errou o alvo e foi direito a um outro rapaz, louro e rubro, como o principe, que se apressou em desfazer o engano.
O imperial senhor achava-se ridiculo no meio de toda aquella multidão servil e anonyma que o acompanhava, «como si visse n'elle um animal selvagem...»
É assim o povo―ingenuo, pueril.
Visitámos, em romaria, os principaes edificios publicos: a Penitenciaria, a Assembléa Provincial, o Gymnasio, o Theatro.
A nova Penitenciaria do Recife é um bello edificio no genero.
Impressiona tristemente esse casarão sombrio com escadarias de ferro, onde mal penetra a claridade meridiana.
Ha criminosos de toda a especie, em cujos semblantes retratam-se delictos tenebrosos. Nada, porém, nos commoveu tanto como a historia do preso Gustavo Adolpho, que, ha quasi vinte annos, cumpria a terrivel sentença a que fôra condemnado. Era um d'esses sentenciados sympathicos que inspiram compaixão a quem os observa de perto.
Um dos nossos companheiros desejou saber a historia do seu crime e pediu ao infeliz que lh'a contasse elle proprio.
―Não queira, disse o condemnado, não queira obrigar-me a fazer minha propria autopsia moral... Narral-a, essa historia, seria um supplicio muito maior do que estar eu aqui, n'este carcere, ha vinte annos...
Gustavo Adolpho parecia-nos um regenedo, tal o aspecto humilde de sua physionomia e o tom commovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe a alma. A dôr tem isto de bom―purifica o espirito, é como um crysol. Esse infame, esse assassino, Gustavo Adolpho, era um martyr. Aquelle semblante abatido pelas insomnias, aquelle rosto descarnado, aquelles olhos cansados de chorar, aquelles labios lividos de defunto, cansados de repetir a palavra―perdão, lembravam a figura resignada de um moribundo que nada mais espera senão a eterna liberdade―a morte...
Vimol-o na casa dos condemnados, entre as quatro paredes de um miseravel cubiculo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido e só.
Poucos iam incommodal-o ali, n'aquella pavorosa solidão, e no emtanto elle não odiava ninguem e desejava falar a todos.
Tinha dezenove annos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de Noronha. A justiça humana o havia condemnado a esta pena infamante―galés perpetuas.
Perdoar a um arrependido nas condições de Gustavo Adolpho, me parece a mais nobre acção de um rei. Todavia elle continuava, mendigo de liberdade, a pedir, a pedir...
Por diversas vezes a academia de direito, pelo orgão de seus representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca estendeu o seu
magnanimo
olhar até aos carceres senão em certos dias de gala natalicia para indultar os escolhidos da politica dominante.
―Console-se, disse eu ao desventurado moço. E citei Lamartine:―
Vivre c'est attendre...
Retirámo-nos commentando aquella catastrophe desastrada.
A historia tragica d'esse preso foi-nos contada por um empregado do estabelecimento. Eu podia resumil-a em duas palavras:―
cherchez la femme
, si não fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um caso curioso de processo crime. Cada um tire as illações que lhe aprouverem.
Gustavo Adolpho nasceu no Pará onde iniciou seus estudos como seminarista.
Muito cedo seu espirito mostrou-se refractario á educação ecclesiastica, e desviou-se dos livros sagrados para outro genero de leituras e estudos mais concentaneos com as suas aspirações.
Os paes do nubil seminarista desgostaram-se com o procedimento do filho revolucionario e ardente apologista de Martinho Luthero, que não occultava-lhes suas tendencias anti-catholicas. Elle, porém, o apostata, o hereje, sentia-se instinctivamente arrebatado pelas idéas do seculo e tratou de trocar a sotaina de noviço pelo frak á ultima moda. Ninguem põe peias á fatalidade. Não contente com ir de encontro á vontade de seus paes e preceptores, o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e, subito, vio-se na capital do Brazil, sem um amigo que o guiasse n'esse labyrintho de ruas suspeitas onde o vicio assentou praça. A rua do Ouvidor e os theatros sempre eram mais agradaveis que o claustro e as impertinencias do reitor,―muito mais...
Pobre Gustavo Adolpho! Salvara-se de um abysmo para precipitar-se imprudentemente, como creança inexperta, n'outro abysmo talvez mais perigoso.
Sem amigos, sem protecção, longe de sua terra e de seus paes,―que podia esperar o joven desconhecido n'aquelle turbilhão de vis interesses?
Imbert-Galloix, um italiano, tambem adolescente e cheio de esperanças, intelligente e trabalhador, morreu de miseria n'uma rua de Pariz, por ter trocado sua patria natal por um paiz que só conhecia de nome. Fôra em busca de glorias e encontrou a miseria, o frio, a fome, e a morte por fim.
Esses sonhadores como Imbert-Galloix são sempre victimas da propria imaginação.
A sorte de Gustavo Adolpho foi mais cruel.
Custa a crêr que um insignificante par de brincos leve um homem á cadeia e depois ao exilio perpetuo!
Uma vez sem meios de subsistencia, luctando com a má vontade de uns e a indifferença de outros, Gustavo Adolpho, que tinha certa dóse de espirito, d'esse espirito fino que caracterisa o homem de talento, fez-se
bohemio
, isto é, indifferente á vida, nomade a quem tanto faz dormir sobre flacido colxão, como ao relento e sobre a lage das calçadas. Ora, os bohemios são umas creaturas sympathicas. Quando um bohemio tem espirito acha sempre quem lhe estenda a mão. Gustavo Adolpho preferiu a mão leve, alva e setinosa, de uma cortezã pela qual apaixonou-se devéras.
A mulher, sempre essa creatura profundamente seductora e mysteriosa!
E, parece incrivel! quando na primeira noite, após as ineffaveis caricias do amor, a misera Manon, adormecida ao lado do amante, sonhava, talvez, n'algum banquete sumptuoso, á sombra d'alamos frondosos, talvez n'alguma de suas passadas orgias, á luz de candelabros deslumbrantes, elle, o malaventurado moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova o rosto sereno de sua amante, antepensava um crime e um crime excepcional, monstruoso, inqualificavel.
―Estes brincos, estes brincos... pensava elle fitando as joias, duas grandes lagrimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu espirito oscillava como um pendulo na duvida terrivel, aguçado por um desejo louco.
Eil-o que se levanta de um impeto, pisando devagar, surrateiramente, tão de leve que dir-se-ia uma sombra; eil-o que se encaminha para a porta da rua, tacteando, encostando-se as paredes, pé ante pé, sem respirar, olhando sempre para traz, para o leito da amante (lembra-me a scena da «Cymbelina» de Shakspeare).
Meia noite... Eil-o ainda que volta e se approxima do leito onde ha pouco boiara em mar de volupia. Traz na mão um objecto reluzente, uma cousa disforme... uma machadinha.
Que irá elle fazer?!...
Approxima-se mais, rastejando quasi, mansamente, subtilmente.
De repente sôa uma pancada surda, e um grito estrangulado:―Soc...corro! Sôa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, e sobre os brancos lençóes d'aquelle malfadado leito palpitam as carnes sangrentas, moribundas, de um corpo de mulher que ainda ha pouco sentia e pensava...
Obseccado pela idéa do roubo, o assassino arranca brutalmente as joias do cadaver, e, á luz do combustor de crystal, reconhece que são falsas!
Foge rua fóra, como um possesso, enfia num becco, sae por outra rua, e desapparece na escuridão da noite.
No dia seguinte seu nome lá estava estampado em letras garrafaes no livro dos réos: «Gustavo Adolpho... preso pelo duplo crime de assassinato e roubo.»
Mais tarde, annos depois, o joven criminoso tentou fugir de Fernando de Noronha onde fôra recolhido. Prenderam-no em flagrante. E ha poucos mezes, no anno passado, a princeza Isabel, então regente do Brazil, abriu-lhe as portas da prisão.
Gustavo Adolpho publicou, no degredo, um livro de versos intitulado
Risos e Lagrimas
, uma collecção de poesias sentimentaes e amorosos que pouco valem pela fórma e onde se acham crystalisadas as dôres do infeliz poeta, cuja imaginação cantava entre lagrimas.
Penalisou-nos a sorte d'esse rapaz sympathico e intelligente.
Havia, alem de Gustavo Adolpho, outro preso não menos interessante e que nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de não sei que roubo, fôra condemnado igualmente a galés perpetuas.
Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) annos de idade e possuir familia numerosa:―mulher e 30 filhos!
―Qual foi o seu crime? perguntámos.
O velhinho todo tremulo, a cabeça muito branca; uma nevoa humida no olhar, sem forças quasi para dar um passo, murmurou tristemente:
―Nenhum, meus caros senhores... Supponho que houve engano da justiça...
―E si lhe dessem liberdade agora?...
―De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de meus filhos, Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na prisão.
O edificio da Penitenciaria tem, logo á entrada, a seguinte inscripção em marmore:
No dia 23 de abril de 1885 sendo presidente da provincia o Illm. Sr. Conselheiro Dr. José Bento da C. Figueiredo foram removidos os presos para este edificio organisado sob a direcção do engenheiro José Mamede Alves Pereira.
Contava, portanto, trinta e cinco annos.
Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.
II
No dia 27 deixámos o Recife em direcção ás Antilhas.
Como até ahi, a viagem continuou a vapor,―uma verdadeira viagem de recreio si não fosse a exiguidade dos commodos a bordo do cruzador.
O commandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de assistirmos a abertura da exposição internacional americana, onde o
Almirante Barroso
devia figurar como legitimo e admiravel producto da industria naval brazileira tão pouco conhecida no extrangeiro.
Adoptavamos, sempre que o vento permittia, a navegação mixta, e deste modo, á vela e a vapor, arrastados pelas correntes maritimas que puxam para o norte, alcançámos, a 2 de Março, a linha equatorial, onde apanhámos alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera ardentissima.
Reinava «calmaria pôdre». Ferraram-se as velas á mingua da mais leve aragem, armaram-se os toldos para que podessemos supportar o calor na tólda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialissimo agrado. Suava-se a valer. Imagine-se: embaixo, no porão, as fornalhas accesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, cahindo como um caustico sobre o navio.
Á tardinha incendiavam-se os horisontes de um colorido rubro, ensanguentado, de magica, reflectindo-se no espelho do mar tranquillo como num grande lago de crystal...
Demos graças a Deus quando nos vimos fóra de tão desagradaveis regiões.
No dia 11 avistámos terra de Barbados, uma das mais prosperas colonias inglezas das Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro do intinerario.
O Capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um inglez de aspecto duro como em geral o de todo inglez, olhando atravéz de uns grandes oculos azues e ostentando fleugmaticamente um par de soiças ruivas. Trajava
dolman
branco, muito justo ao corpo, calças de panno preto e chapéo de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a nuca.
Fez a visita sacramental e poz-se ao fresco em menos de dois minutos, depois de um fortissimo
shake-hand
.
A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quasi completa: nenhuma vegetação cobre as vastas planicies que primeiro ferem a retina do observador. Ao approximar-se-lhe, porém, novas paisagens de effeitos cambiantes vão-se desenrolando á maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do vento que ordinariamente é fresco ahi, casas de campo confortaveis, arvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai apparecendo á medida que nos approximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade de Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para abrangel-a.
Á distancia Bridgetown semelha uma pobre cidade deshabitada, sem indicio de civilisação. A surpreza que experimenta o viajante é completa depois. Alguem que ahi esteve annos antes admirou-se da enorme quantidade de embarcações inglezas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra affirmando o grande poder maritimo desse paiz, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no mundo.
Um dia e meio―eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo sufficiente para conhecermos a ilha a
vol d'oiseau
.
A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e geralmente intratavel.
Abundam os
ciceroni
, especie curiosissima de especuladores, que perseguem os viajantes de uma maneira barbara. Querem, á fina força, ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e não os largam emquanto não satisfazem a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo numero de
shillings
.
Falam um
patois
detestavel; ninguem os entende com facilidade. Imagine-se um pobre diabo acompanhado d'uma multidão que grita e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos:―
Came hear! came hear!
discutindo, altercando-se de cacete em punho. O misero julga-se por um momento transportado, como por encanto, ás costas d'Africa, fecha ouvidos á grita dos importunos
ciceroni
, brada mil vezes
no, no, no
..., e não tem remedio senão deitar a correr como um possesso, perseguido sempre pela turba multa de vadios, até que, depois de uma lucta incrivel, esguedelhado, offegante, pallido, embarafusta pela porta d'um hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!
E ainda por cima vociféra a legião faminta dos negros!
Nao exagéro. Parece realmente um paiz semi-barbaro aquelle, e ai! de nós si não fossem os
policemen
, a, activos e energicos guardas da vigilancia publica, que a um simples franzir de sobr'olhos fazem desapparecer a medonha horda de capadocios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos demonios.
É espantosa a ambição do povo por dinheiro.
Ao tilintar do
money
surgem de repente vinte, trinta cabeças negras, cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.
Basta dizer que ainda não tinhamos fundeado e já grande numero de pequenas embarcações á vela e a remos,―
fly boats
,―approximavam-se do navio, cortando-lhe a prôa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então, de todos os lados vozes que gritavam:―
I am pilot! I am pilot!
Embalde procuravamos persuadir áquelles esfaimados de dinheiro que não precisavamos de pratico, pois a bahia de Bridgetown é bastante espaçosa e offerece entrada franca.
Davamos com o lenço, mandando-os embóra―que não! mas os gritos repetiam-se:―
I am pilot! I am pilot!
Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio extrangeiro ao ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.
Formidaveis importunos os taes negros de Barbados!
A edificação de Bridgetown, puramente ingleza, é curiosa, pittoresca mesmo, si bem que uniforme.
As casas, baixas quasi todas, geometricamente dispostas, alpendradas na frente, simples e elegantes na sua architectura, são confortaveis e convidam ao
far-niente
.
As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer, intransitaveis, em consequencia do poeiral que sobe, como fumaça, ao rosto dos transeuntes.
No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a―
St. Leonard's School
e uma igreja-cemiterio.
A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar, ergue-se, em bronze massiço, n'uma das melhores praças do logar―
Nelson's square
, si me não engano.
Os poucos hoteis que existem na ilha são vastos e offerecem o necessario conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico vinho, deliciosos sorvetes―
ice-cream
―e, finalmente, boas camas e muito aceio.
O brazileiro que viaja, com raras excepções, tem necessidade imprescindivel de duas cousas que elle julga essenciaes ao seu bem estar: café e cigarros.
Spleen
e charutos―são cousas inseparaveis de um inglez da Inglaterra; café e cigarros―eis o que um brazileiro não dispensa.
Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um licor detestavel composto de muito pó e pouca agua, que os naturaes mixturam á guisa de chocolate, mas de um sabor desagradavel, repugnante.
Duas linhas de bonds percorrem a capital d'um extremo a outro.
A ilha é circumdada por uma via-ferrea.
De resto, é admiravel senão assombroso o progresso d'essa colonia, relativamente pequena e tão longe da metropole.
E, note-se, de vez em quando atravessam aquellas regiões terriveis cyclones produzindo estragos incalculaveis em toda a extensão da ilha. Innumeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas á costa por esses formidaveis meteóros. O ultimo cahiu em 1851 e figura nos annaes da navegação como um dos grandes desastres maritimos do Atlantico.
III
Na manhã do dia 13 suspendemos ancora em direcção á ilha da Jamaica, fundeando no mesmo dia na bahia de Port-Royal.
Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alvissima, as altas montanhas que orlam magestosamente a antiga colonia hespanhola.
Ao approximarmo-nos da pequena e elegante cidade de Port-Royal, pedimos pratico o qual nos levou á Kingston.
O brazileiro que, depois de longa ausencia do Brazil, chega á Jamaica sente logo um prazer especial, um fremito de patriotismo, ao contemplar as soberbas montanhas da ilha, tanto ellas lembram a natureza do nosso paiz. A bahia, salpicada de interessantes ilhotas de verduras, verdadeiras ilhas fluctuantes, em cujas aguas immoveis bandos de aves ribeirinhas ostentam sua plumagem garrída e multicolor, voando d'uma margem á outra n'uma contradansa animada, offerece aspectos lindissimos. Jamaica parece um pedaço do Brazil transplantado para as Antilhas, tal a opulencia da sua natureza.
É a maior e a mais florescente das colonias inglezas da America depois de Barbados. Mede approximadamente quarenta leguas de comprimento.
Kingston não é uma cidade como Bridgetown, onde a cada passo depara-se com uma prova de adiantamento material. É, por assim dizer, uma capital morta, quasi sem commercio, mas, em compensação, muito mais pittoresca que a capital de Barbados. Os habitantes são morigerados, e uma paz religiosa parece reinar no seio de cada familia.
Ha mais pobresa, é certo, mas incomparavelmente o povo é mais educado, mais pronunciado o instincto de civilisação.
Muitas estatuas. Vimos as de Lewis Quier Bower Bonk, nascido em 1815, Edward Jordon, um dos principaes fundadores da―
Jamaica Mutual Life Assurance Society
, Sir Charles Theophilus Metcaf, governador em 1845―todas ao redor de um parque. Isso prova quanto respeito infunde ao inglez o nome de um compatriota celebre.
Um brazileiro estabelecido em Kingston disse-nos ser o
Almirante Barroso
o primeiro navio brazileiro que ahi aportava desde 1871.
Nossa demora em Jamaica foi rapida como em Barbados. Telegrammas officiaes do Rio apressavam-nos cada vez mais. Já se havia inaugurado a Exposição de Nova Orleans; era-nos forçoso assistir ao menos o encerramento. Estavamos convictos de que o cruzador brazileiro ia figurar com brilho no importante certamen americano. Tanto em Bridgetown como em Kingston não lhe faltaram elogios de pessoas competentes.
Todos anceavamos pela chegada ao paiz maravilhoso dos
yankees
, ao berço da electricidade, todos queriamos conhecer
de visu
o celebrado paiz das descobertas engenhosas. Desde logo entrámos, de combinação, em «serios» estudos do idioma inglez praticando uns com os outros, compulsando manuaes de conversação, decorando significados, preparando-nos, emfim, da melhor forma, para retribuir gentilezas, captar amizades, responder a todas as perguntas que nos fossem feitas á queima roupa. Sim, porque tudo quanto haviamos aprendido theorica e praticamente na Escola, não era bastante. Faltava-nos a facilidade, o traquejo da palavra extrangeira, que haviamos de adquirir á força de vontade e applicação assidua.
Alguns officiaes, entre os quaes o commandante, riam-se do nosso apuro, e, de vez em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta em inglez. Quanto disparate, quanta tolice a principio! O certo é que depois, com o tempo, já nos entendiamos soffrivelmente.
Noblesse oblige
...
IV
A hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos conquistado a sympathia. Todos sentimos deixar tão cedo aquella encantadora ilha, cujos habitantes nos tinham prodigalisado tão generoso acolhimento. Lenços ascenavam para bordo ao deixarmos o ancoradouro ás 5 horas da tarde de 21, despedindo-nos talvez para sempre d'essa boa gente.
Durante os dias 22 e 23, mar e vento rebellaram-se contra o navio.
Navegavamos á bolina, sempre á vela e a vapor, amurados por bombordo.
Grandes rajadas frias sopravam do norte, cantando nos cabos da mastreação, sacudindo-os com violencia.
O thermometro baixara sensivelmente, e a columna barometrica punha-nos calefrios...
O mar quebrava-se de encontro ás bochechas do cruzador desafiando-lhe a resistencia colossal.
Sabiamos que a latitude em que navegavamos, nas Antilhas, era muito frequentada pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos navegantes, que arrastam em sua cauda milhares de vidas. Receiavamos esses phenomenos tanto mais porque os seus effeitos fazem-se sentir a grandes distancias.
Os symptomas visiveis, si não eram evidentes, approximavam-se das descripções de navegantes experimentados. O céo estendia-se limpo, como um largo pallio azul esbranquiçado; apenas no horisonte fluctuavam pequenos
stratus
em fórma de rabo de gallo e algumas estrias avermelhadas, escarlates, despertavam-nos a attenção.
Ao meio-dia o sol tinha uma côr baça, com um disco azulado ao redor.
E crescia o mar em vagalhões medonhos e esfusiava o vento no cordame.
O navio caturrava e arfava morosamente; ouvia-se o barulho do helice trabalhando fóra d'agua.
Pela madrugada de 24 lobrigámos por boréste o pharol da ilha de Cuba, de luz muito branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo do Mexico.
Poucos dias restavam para alcançarmos Nova-Orleans.
E nada do supposto cyclone!
Por via de duvidas, como o tempo continuasse borrascoso, ferrámos a maior parte do panno, conservando apenas as gaveas risadas nos
terceiros
e a mezena de capa.
Capeámos tres dias consecutivos, sem que apparecesse o medonho visitante.
No quinto dia o vento amainou rondando para nordeste e o mar, por força das circumstancias, tambem acalmou-se. Ferrámos o resto do panno, navegando só a vapor.
A idéa da chegada preoccupava todos os espiritos. Os Estados-Unidos eram o assumpto de todas as conversações.
Cedo tratou-se da limpeza do navio.
Cada qual tratou de si, de sua roupa, de seus objectos que o mar sacudira de um lado a outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam o curioso aspecto de um campo de batalha; malas confundiam-se umas sobre outras formando empilhamentos, a roupa branca usada andava de mixtura com os fatos novos de panno; livros, papeis―tudo quanto era de uso quotidiano estava espalhado no convéz, como si andasse por ali alguma creança traquinas.
Guerra ao môfo! Roupas ao sol! Ninguem se fez esperar. Começaram as arrumações, uma faina açodada, durante a qual soaram boas gargalhadas filhas de inalteravel bom humor.
Os guardas-marinha alojavam-se á pôpa n'um acanhadissimo compartimento que mal os comportava. Ahi tinham suas camas, suas malas, seus livros.
Quantos prejuizos! Quantas decepções!
E todos acocorados, arrumando e desarrumando, n'uma confusão burlesca, maldiziam o mar e apostrophavam o vento. Neptuno e Eolo nunca receberam tantas manifestações desairosas. Pois não! Ninguem tem suas cousas para vel-as de um dia para outro arruinadas, inutilisadas pelos caprichos incoerciveis do mar e do vento.
Finalmente, como nada ha melhor que um dia depois de outro, veio o dia 29 de Março em que dos váos do joanete de prôa o gageiro annunciou―terra!
Continuava, entretanto, incessantemente, a asáfama. A guarnição da bateria occupava-se da limpeza das peças, collocando-as em posição, abrindo e fechando culatras, lixando-as, lubrificando-as emquanto o fiel ia distribuindo o cartuxame.
Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um vago odor de tintas, como ao entrar-se n'uma casa nova, pintada de fresco.
Já era tempo de repousarmos das fadigas da viagem.
V
Ninguem póde imaginar o que é a chegada de um navio de guerra a porto extrangeiro depois de uma tempestade ou mesmo depois d'uma ameaça de temporal. A faina tor-na-se geral e o ruido inevitavel. É de ver-se a promptidão, a rapidez com que se executam as ordens. Como que ha mais vontade para o trabalho, desenvolve-se logo um contagioso bem estar, ninguem foge ao serviço.
Tezar cabos de laborar, baldear o convez a ficar alvo e polido, como uma sala de visitas, limpar, areiar os metaes amarellos até ficarem relusentes como ouro de lei, ferrar o panno a capricho, cuidadosamente, de modo a confundil-o com as vergas e os mastros, preparar os escaleres―tudo isso é cousa d'um abrir e fechar d'olhos.
A guarnição do
Almirante Barroso
, disciplinada e obediente como todas as que serviam sob as ordens do commandante Saldanha, primava pelo aceio, pela ordem, pela destreza e pela actividade. Não se lhe póde fazer maior elogio. Cada marinheiro era como uma machina prompta sempre ao menor impulso.
A chibata era n'esse tempo, como ainda hoje o terror das guarnições da armada.
Sempre manifestei-me contra esse barbaro castigo que avilta e corrompe em vez de corrigir. Um castigo de chibata é a cousa mais revoltante que já tenho visto, mormente quando é mandado applicar por authoridade deshumana, sem noções do legitimo direito que a cada homem assiste, quem quer que elle seja soldado ou pariá.
O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de guarda-marinha foi publicar um protesto contra essa pena infamante, e fil-o desassombradamente, convicto mesmo de que sobre mim ia cahir a odiosidade de meus superiores em geral apologistas da chibata.
A primeira vez que minha posição official obrigou-me a assistir um desses castigos, tive impetos de bradar com toda a força dos pulmões contra semelhante attentado á natureza humana.
Quem já assistiu uma d'essas pavorosas scenas do eito, magistralmente descriptas por Julio Ribeiro na sua obra
A Carne
, póde fazer idéa do que seja o castigo da chibata.
Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da patria, pés e mãos algemados, muita vez depois de trez dias de
solitaria
a pão e agua, e descarregar-se-lhe sobre a espinha, sobre as espaduas, sobre o peito, sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o corpo cincoenta, cem, duzentas chibatadas, em presença de todos os seus companheiros, me parece indigno d'uma geração que se préza, de uma sociedade de homens civilisados, de cidadãos, de cavalheiros que ostentam triumphalmente galões dourados na farda―na farda, que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo e a honra d'uma nação.
Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como quem tem consciencia de que está praticando uma acção justa e honrosa. Doía-me por um lado pertencer a uma classe nobre por tantos titulos, é certo, mas em cujo seio era permittido a chibata e, o que é mais, o seu abuso.
A esse tempo a
Gazeta de Noticias
do Rio de Janeiro publicava semanalmente um boletim litterario no louvavel intuito de estimular os incipientes das letras. Offerecia-se-me opportunidade para um conto maritimo, cujo assumpto fosse a chibata.
Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados indirectamente feridos no seu amor proprio. Embora! Fiquei satisfeito, como si tivesse sacudido para longe um fardo pesadissimo; e, é preciso dizer, não hesitei em declarar-me autor do conto que vinha firmado por meu nome, então desconhecido na armada.
Alguns de meus companheiros taxaram-me de imprudente e «indiscreto». Outros levaram seus conselhos até á minha
inexperiencia de adolescente indisciplinado
.
Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu procedimento: «que roupa suja deixa-se ficar em casa; que a chibata era um castigo imprescindivel», e outros arrasoados soffrivelmente banaes.
Meu consolo é que d'entre aquelles que preconisavam os effeitos prodigiosos da chibata n'outros tempos, muitos concorreram em demasia para a sua extincção.
Dei parabens á patria e á humanidade.
VI
Como militar e disciplinador o commandante Saldanha da Gama distinguia-se por sua inflexibilidade porventura exagerada, especialmente para com as guarnições sob seu zeloso commando. Temperamento atrabiliario, sanguineo-nervoso, sujeito a transições bruscas, inesperadas, impetuosas e violentas, o illustre marinheiro, espirito eminentemente illustrado, não sabia, entretanto, guardar a necessaria calma quando devia applicar as penas do codigo. Essas penas, como se sabe, acham-se perfeitamente explicitas, precisamente formuladas de modo a não deixar duvida nos espiritos rectos e amigos da lei. Entre os artigos que constituem o codigo penal militar existe um que limita o numero de chibatadas, o qual não deve, em caso algum, exceder de vinte e cinco por dia.
Pois bem, o commandante Saldanha pouquissimas vezes castigava conforme a lei. Collocava acima d'ella seus caprichos inexplicaveis, sua natureza rancorosa, sua vontade suprema. Nao trepidava, e isto é sabido, em mandar açoitar com duzentas chibatadas uma praça qualquer, tal fosse o delicto commettido. A um simples olhar seu as guarnições tremiam como caniços. A qualidade caracteristica d'esse illustre official era ser arbitrario e prepotente. Por isso a guarnição do
Almirante Barroso
corria a seus postos, em occasião de manobra, com a velocidade d'uma setta.
Estavamos quasi á entrada do Mississipe, a grande arteria fluvial da America do Norte, que nós imaginavamos um colosso talvez superior em volume d'agua ao Amazonas,―o Mississipe, decantado pelo autor dos
Natchez
, e em cujas margens fica a cidade de Nova Orleans nosso ponto de chegada.
Ninguem pensava mais no Rio de Janeiro para só se lembrar de Nova Orleans, a
Cidade Crescente
, como a denominam os americanos.
Trez horas da tarde, mais ou menos. Embarcações á vela e vapores bordejavam fóra da barra á espera de pratico, sem o qual era impossivel a entrada. Mar calmo, com uma côr esbranquiçada, lembrando na sua quietação dormente um vasto lago estagnado. Em frente, muito longe ainda, mal distinguiamos com o binoculo o pharol, microscopica torre branca, invisivel quasi.
Envolvidos em grossas capas de lã, abotoados até o pescoço ao abrigo do frio que se tornava insupportavel para nós da zona torrida, de pé no tombadilho, machina a um quarto de força, bandeira nacional desfraldada na carangueja do mastro de ré, esperavamos tambem o
pilot
que nos devia conduzir á Nova Orleans, 110 milhas da foz do Mississipe.
O Mississipe! Dentro em pouco sulcavamos a grande corrente.
Não tardou muito o pratico, por cujo intermedio tivemos noticia da estrondosa manifestação com que os habitantes da cidade americana aguardavam a chegada do cruzador brazileiro.
Bella surpreza essa! Cresceu o enthusiasmo entre os noveis officiaes.
Entrámos. Durante o nosso trajecto pelo Mississipe a anciedade a bordo tocou o seu auge. Queriamos, todos a um tempo, avistar as embarcações que, dizia-se, vinham nos receber.
O autor d'estas simples notas de viagem, que admira os Estados-Unidos como uma segunda patria, porque ali moram juntas todas as liberdades e florescem prodigiosamente todas as nobres idéas civilisadas, de braços cruzados estendia o olhar cheio de admiração, cheio de deslumbramento por cima das extensas planicies das margens do grande rio.
O pôr do sol entre a neblina que cobria os horisontes fazia lembrar as paginas de Chateaubriand na sua
Voyage en Amérique
, paginas esculpturaes e cheias da commovida nostalgia dos que se vão da patria...
Quanta verdade nas sumptuosas descripções do poeta! Quanta poesia n'aquellas paragens desertas da foz do Mississipe,―Sahara de neve estendendo-se a perder de vista nos horisontes sem fim! Que de maravilhas occultavam-se por traz d'aquellas planicies, lá onde o olhar não attingia!
Eram Ave-Marias. Lembrei-me do Brazil, dos sertões de minha terra natal, da torresinha branca do Senhor do Bomfim badalando o
terço
das almas, justamente aquella hora, quando as boiadas recolhiam mugindo, pesadas e melancolicas...
Ave-Marias!... Mesmo quando não se é crente, áquella hora da tarde o coração fica cheio de não sei que terna e piedosa uncção mystica...
Fundeámos no ponto em que o rio se divide em dois braços ou pequenos confluentes, e ahi passámos a noite inteira, essa longa e tristissima noite de inverno.
Frio de rachar. As aguas do rio, pardas e barrentas, estavam quasi geladas.
As margens do Mississipe, em varios pontos, são, no inverno, verdadeiras planicies, onde apenas medra a herva rasteira. Á distancia, pobre alma perdida no descampado, ergue-se ás vezes uma arvore muito esguia, como um phantasma de braços abertos para o céo. De quando em quando atravessa a solidão uma ave desconhecida batendo as azas, como um agouro.
N'outros logares, porém, vêm-se rebanhos pastando silenciosamente, plantações verdejantes, casas de campo, postes de correio, em cujas portas destacam-se em caracteres maiusculos as palavras―
Post office
.
O povo parece viver satisfeito no meio de suas plantações e de seu gado, entregue á cultura e á creação.
Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda a noite. «―Caramba! exclamava o barbeiro de bordo, um estimavel hespanhol que traziamos do Rio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gustam mas los del Brasil!» E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos do Mississipe são muito capazes de dar cabo d'um pobre homem. E que medonha orchestração nos ouvidos da gente?
Felizmente na manhã do dia seguinte levantámos ferro.
O navio estava completamente prompto a fazer sua entrada em Nova Orleans. Durante quasi toda a noite a guarnição occupara-se em colher cabos, esfregar a amurada e baldear o costado.
Como passatempo liamos os jornaes que o pratico trouxera, os quaes noticiavam a recepção popular e official que se nos preparava.
Dois hiates a vapor―o
Cora
e o
Pansy
―propriedade de Mr. Morris, largariam de Nova Orleans a nosso encontro, embandeirados, com bandas de musica, commissões de senhoras, representantes do commercio e d'outras classes sociaes.
Ou fosse a natural affinidade que existe entre as duas nações americanas, ou fosse o facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um representante da familia imperial do Brazil, o certo é que durante nossa travessia da foz do Mississipe á cidade fomos con Ou fosse a natural affinidade que existe entre as duas nações americanas, ou fosse o facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um representante da familia imperial do Brazil, o certo é que durante nossa travessia da foz do Mississipe á cidade fomos constantemente saudados de ambas as margens do rio a tiros de espingarda e a lenços que nos acenavam de longe.
E o
Almirante
seguia devagar, alvo de mil olhares curiosos.
Ao meio-dia ouvimos as notas de uma musica alegre que se approximava, e em breve surgiram n'uma curva do rio os dois magnificos hiates―o
Cora
e o
Pancy
―apinhados de gente, enfeitados de galhardetes de côres variadas, em cujos mastros tremulavam as duas bandeiras amigas.
De ambos os lados, no cruzador e nos hiates, hurrahs confundiam-se no ar.
Em viva effusão de inexprimivel jubilo patriotico estreitavam-se as duas grandes potencias da America; a mesma brisa balouçava simultaneamente os dois gloriosos pavilhões.
A gente do
Barroso
subiu ás vergas accelerada, e, acenando com os lenços e os bonés, saudava com vivas estrepitosos e delirantes acclamações aos Estados-Unidos, ao mesmo tempo que das duas embarcações partiam ruidosas manifestações ao Brazil.
Fardada em segundo uniforme, espada e dragonas, a officialidade do cruzador brazileiro, em pé no tombadilho, vivamente commovida, descobria-se a todo instante risonha e feliz.
Sentiamos a falta de uma banda de musica bem organisada, que n'aquelle momento, verdadeiramente solemne, entoasse o hymno da republica a bordo.
Passado o primeiro momento de delirio, approximaram-se os dois hiates que nos acompanhavam e o cruzador diminuiu a marcha. Ficámos borda á borda. N'um instante toda aquella gente que vinha nos vaporesinhos, passou para o
Barroso
.
Houve um silencio respeitoso de parte a parte e começaram os abraços.
O consul geral brazileiro, Sr. Dr. Salvador de Mendonça, tão conhecido entre nós por seu talento e por sua illustração, como homem de letras e diplomata, juntamente com Mr. Eustis, consul em Nova-Orleans, foram recebidos no portaló pelo commandante e officiaes com todas as honras que lhes eram devidas. Seguiram-se os representantes da imprensa, do commercio, etc.
Conduzidos á camara, desde logo estabeleceu-se entre brazileiros e americanos uma camaradagem franca, uma corrente communicativa de affabilidades, como si já fossemos conhecidos velhos. As taças de
champagne
chocavam-se, vivas succediam-se, levantavam-se
toasts
ás duas nações, trocavam-se os mais espontaneos comprimentos.
A viagem continuou ao som da musica do
Cora
e do
Pansy
.
Ás 4 horas da tarde largámos ferro defronte da antiga capital da Luiziania.
VII
Nova-Orleans é, talvez, a cidade mais importante do sul dos Estados-Unidos.
Nosso primeiro cuidado, como era natural foi desembarcar, «ir á terra», ceiar bem e dormir tranquillamente um somno bom e reparador. Nao nos faltariam esplendidos hoteis e magnificos
rooms
onde podessemos, á vontade, descansar dos trabalhos da viagem.
Nossa demora devia prolongar-se ahi mais do que em qualquer outro porto, por causa da Exposição e a instancias dos habitantes da cidade, que nos preparavam deliciosas surprezas.
Tinhamos tempo bastante para ver Nova-Orleans, para observar os costumes americanos e fazer um juizo mais ou menos approximado d'aquelle bello povo.
O porto estava atulhado de barcas de commercio―vastas embarcações de dois e trez pavimentos, duas e trez chaminés negras a deitar fumaça n'uma actividade constante, rodas na pôpa, muito mais amplas que as nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas de saccas de algodão e outros generos do paiz, esperavam o momento preciso e regulamentar de se fazerem ao largo.
Emquanto esperavamos, vivamente anciosos, o escaler que nos devia conduzir ao caes, assestavamos o oculo para a cidade quasi silenciosa áquella hora, e cujas ruas não tardariamos a conhecer. Accendiam-se os primeiros bicos de gaz. Ao longe, n'alguma egreja remota, badalava um sino triste. Já não se ouvia quasi o brouhaha quotidiano. Numerosas embarcações cruzavam-se no rio. Ouviamos guinchos de locomotivas e o surdo ruido de carros que ainda labutavam.
Alguns officiaes deixaram-se ficar aguardando o dia immediato para mais commodamente satisfazerem sua curiosidade de viajantes em terra extrangeira.
entrada de nova-orléans

Era fim de inverno. Ameaçava chover. O frio continuava bastante forte ainda e os camarotes do
Barroso
offereciam, nessas condições, agasalho confortavel aos mais friorentos.
Na manhã seguinte, grupos de officiaes brazileiros, uns fardados, outros á paisana, percorriam Nova-Orleans.
O
St. Charles Hotel
, um dos melhores estabelecimentos da cidade, e o
Royal Hotel
―primeiro em luxo e ornamentação―eram procurados avidamente.
Os jornaes davam noticias circumstanciadas de nossa chegada e annunciavam festas em homenagem ao Brazil.
Uma vez installados nos hoteis, cada um de nós em seu vasto aposento, onde nada faltava, tão differente dos estreitos camarotes de bordo, dividimo-nos em grupos.
Quanto a mim, o meu primeiro cuidado foi munir-me de um guia da cidade, especie de
pocket-book
muito commodo, registrando indicações uteis de estabelecimentos e logares principaes.
Meu quarto ficava no segundo andar do
St. Charles Hotel
com frente para a rua do mesmo nome―uma saleta mobiliada com a maxima sobriedade, sem luxuosas decorações, contendo apenas os moveis indispensaveis a um rapaz solteiro, e o fogão a um canto.
Depois de magnifico banho morno em bacia de marmore (perdôem-se-me estas innocentes confidencias, aliás de bom gosto) seguido de um valente almoço de ostras crúas, as melhores que eu tenho provado, regadas á Sauterne, mastigando (é o termo, porque não sou lá muito admirador de charutos) mastigando um charuto, que não sei bem si era de Havana, sahi a fazer meu primeiro passeio, minha
promenade
matinal, começando pela Canal Street, a rua mais importante de Nova Orleans, que a divide em dois grandes bairros―o francez e o hespanhol.
No cruzamento das ruas de St. No cruzamento das ruas de St. Charles e Canal erguia-se a estatua de Clay. É esse o ponto principal da cidade e o de maior movimento nos dias uteis.
Parei defronte do monumento e consultei meu alcorão, quero dizer meu guia manual.
«
Estatua de Clay
―Inaugurada solemnemente no dia 12 de Abril de 1860. Joêl T. Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e proporções á estatua, assistiu ao acto. O orador official foi Wen H. Hemt.».
Maldito laconismo! Pouco adiantei com as explicações do livrinho.
A estatua é de bronze, sobre pedestal de marmore, e mede, approximadamente, quinze pés inglezes de altura.
―Continuam as estatuas! exclamei recordando as que vira em Barbados e Jamaica. Felizmente até agora não vira a de nenhum monarcha. Veio-me então á memoria aquella colossal massa de bronze que se ergue no largo do Rocio, no Rio de Janeiro, em fórma de um monarcha escanchado n'um bello cavallo.
Tive pena de não ser aquelle bronze aproveitado para outra cousa mais digna e util.
―Que diabo! Aquillo é uma pagina de historia patria, reflecti.―E continuei o meu
tour
.
A Canal Street é o centro commercial de Nova-Orleans, é a rua do Ouvidor d'aquella cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso querido becco.
Larga, bastante espaçosa e comprida, offerece transitos especiaes para a população, para trens, bondes e carruagens.
As ruas, na maior parte são mal calçadas, principalmente para o interior da cidade.
É, sem duvida, admiravel semelhante incuria em se tratando de americanos do norte, entretanto, é uma verdade que não deve ser esquecida, para consolo de nossas municipalidades.
Na Canal se acham os melhores e mais solidos edificios, as mais fortes casas commerciaes, os mais importantes armazens da cidade, cafés, restaurantes, clubs, etc.
Convenci-me desde logo que os principaes productos industriaes de exportação eram―assucar e algodão, como bem presumira ao desembarcar, no caes, onde era enorme a accumulação de fardos desses dois generos.
De vitrine em vitrine, observando sempre, escrupulosamente, curiosamente, á cata de novidades extrangeiras, posso affirmar que nada vi, surprehendente... Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras accudirem pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço proprio de sua raça, aos compradores, cousa aliás muito simples, muitissimo natural, mas não no Brazil, onde as senhoras estão eternamente prohibidas de competir com o outro sexo na vida publica.
Parece-me que só n'este paiz ainda não se observa nem se permitte esse costume tão natural, tão proprio, tão efficaz mesmo, das senhoras pobres empregarem-se no commercio a retalho. Na Inglaterra, em Franca, na Allemanha, na Italia e nos Estados-Unidos é habito velho, ao que me consta, as senhoras servirem nos balcões, e é de notar que cumprem seus deveres com assombrosa pericia. Ás nove horas da manhã, que digo eu! ás seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de lã no inverno, a bolsa de um lado, sem siquer fazerem-se acompanhar. Vão direitinhas de casa para a loja ou escriptorio, sem que ninguem lhes dirija uma pilheria, sem que ninguem as desrespeite, e, á noite, recolhem-se da mesma fórma, sempre alegres, transpirando saúde, a face rubra.
Muitas vezes sahem das lojas, mudam a
toilette
, fazem seu penteado, perfeitamente dispostas, e d'ahi a pouco estão nos bailes, nos concertos, nos theatros.
Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria onde se não encontra uma senhora exercendo as funcções de simples caxeira, ou como guarda-livros, silenciosa na sua carteira, escripturando cuidadosamente o Caixa.
Em alguns estabelecimentos publicos, no Correio, por exemplo, grande parte do serviço é feito por senhoras. Esse edificio, digamol-o de passagem, na rua Canal, é de apparencia extraordinariamente simples e desgraciosa. O serviço, porém, como em toda estação americana é correcto e sem demora.
Individuos de muitas nacionalidades acotovellam-se na grande rua.
Em Nova Orleans, como em quasi toda a a Luiziania, fala-se mais o francez que outro idioma qualquer, não sendo raro ouvirem-se negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarchia falar, embora mediocremente, o hespanhol.
Havia chegado o momento fatal, inevitavel, de nos exhibirmos tambem em lingua alheia.
Pouco a pouco, nos iamos familiarisando com a população e com o ídioma d'esse adoravel canto da terra que o Mississipe banha.
O dia seguinte ao de nossa chegada á Nova Orleans (31 de Março) estava designado para o encerramento da Exposição das Trez Americas. Avisados d'esta solemnidade, deviamos comparecer a ella em grande uniforme, encorporados.
Foi um dia essencialmente brazileiro esse. Nos convites para a festividade lia-se esta impagavel gentilesa:
Brasilian day
.
Todas as attenções convergiam para o
Almirante Barroso (brazilian man of war)
. br />
O palacio da Exposição estava situado a alguns kilometros fóra da cidade, n'um de seus pontos mais pittorescos, o Upper City Park, á margem do Mississipe―largo edificio vistosamente adornado e do alto do qual se avistava toda a cidade e immediações.
Na manhã d'esse dia, por signal chuvoso e coberto de nevoeiro, embarcámos em trem especial, que nos fôra destinado pelo presidente da Exposição, Mr. Ed. Richardson, um
yankee
muito amavel, todo cortesia, sempre com um bello e espontaneo sorriso a captivar a gente, correcto sempre, irreprehensivelmente correcto.
Embarcámos na Canal street, defronte do
Pickwick Club
, em companhia de muitos officiaes da Guarda Nacional, de Mr. Richardson e de officiaes da corveta franceza
l'Étoile
, que se achava no porto de Nova Orleans, dos consules e outras summidades do paiz.
O trem abalou como um raio, todo enfeitado de bandeirolas americanas, brazileiras e d'outras nações, ao som de musicas e acclamações delirantes, rasgando, na sua marcha vertiginosa, o nevoeiro que cahia sem cessar penetrando os wagons escancarados ao ar frio da manhã, soltando guinchos medonhos...
Durante o trajecto não me cansei de observar os sitios que o trem atravessava.
De um lado e d'outro da linha estendiam-se vastas plantações de algodoeiros desfolhados pelo rigor do inverno, amontoados de neve, immoveis phantasmas brancos no silencio infinito dos descampados; casas de campo deliciosas para se passar o verão, trancadas á neve, muito brancas e desoladas, riam, como saudando a nossa passagem, e desappareciam rapidamente no horisonte esfumado.
É de vêr a simplicidade reunida á graça que apresentam essas habitações: vêr uma é vêr cem, tal a uniformidade de sua architectura. Em geral são de madeira, pintadas de branco e cinzento, com seu terraço para as calidas noites de verão, jardim e horta arranjados com admiravel cuidado e bom gosto.
Absorvido completamente pelo aspecto variado da paisagem, sem prestar attenção ao circulo ruidoso dos collegas, eu (lembro-me bem) formava planos de vida socegada, n'algum eremiterio entre a eterna frescura das plantas e o amor eterno d'uma creatura querida.
Invejava os simples, os sertanejos, os homens dos campo―esses para quem a vida corre sempre calma, porque seu coração não conhece outro amor senão o da esposa e o dos filhos, esses de quem Boileau dizia
Heureux est le mortel qui du mond ignoré Vit content de soi même en un coin retiré...
E eu me transportava outra vez ao Brazil, outra vez eu tinha a nostalgia da patria, a saudade vaga e inexplicavel de minha terra natal.
Parecerá uma phantasia de poeta adolescente isto que acabo de dizer, mas é a verdade, a expressão sincera do que eu sentia ao atravessar a região que ia ter lá, ao palacio da Exposição.
A tristeza da neve communicava-se ao meu espirito imprimindo n'elle não sei que despretenciosas ambições de silencio e recolhimento. Alguem já procurou explicar a influencia que exerce o estado hygrometrico da atmosphera no estado psychologico do individuo.
Eu de mim só sei que o patriotismo, longe da patria, dupplica.
E fechemos esta especie de parenthesis.
Uma commissão de cavalheiros, competentemente encasacados, veio receber-nos ao desembarque.
Entrámos. Nossa entrada foi verdadeiramente triumphal.
Dentro e fóra do edificio era grande a agitação. Ondas de povo entravam e sahiam percorrendo o pittoresco
Upper City Park
.
Felizmente «levantou o tempo», como se costuma dizer.
Ao assomar á porta do grande salão de honra o primeiro official brazileiro, o commandante do
Barroso
, ao lado do consul e do presidente da Exposição, a orchestra de professores, brilhantemente organisada, rompeu lá dentro o hymno nacional americano (não conheciam o nosso hymno aliás tão vulgarisado), os espectadores que enchiam o vasto recinto ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas acolheu o resto da officialidade.
Houve um momento de verdadeiro delirio, em que todos batiam palmas sem interrupção levantando vivas ao Brazil.
Serenado o enthusiasmo, um enthusiasmo indescriptivel, apopletico, tomou a palavra Mr. Richardson, que proferio o discurso de encerramento, saudando a armada brazileira.
Seguiu-se na tribuna o orador official, que, n'um improviso eloquentissimo, patenteou a necessidade de uma união entre todas as nações americanas, desenvolvendo largamente as vantagens que d'ahi proveriam a todas elas.
Falou tambem o governador da Luiziania, e, finalmente, os Srs. Salvador de Mendonça e Saldanha da Gama, cujas palavras foram cobertas dos mais significativos applausos.
Terminada a ceremonia oratoria, foi-nos franqueado o edificio da Exposição, que percorremos examinando com interesse os differentes pavilhões industriaes.
O Brazil―é triste dizel-o―fizera-se representar de modo bem insignificante.
Brilhariamos pela ausencia, si o Governo não tivesse a lembrança de mandar o
Almirante Barroso
.
Amostras de madeiras, café em grão, fumo, artigos de borracha, constituiam os principaes productos brazileiros expostos á curiosidade dos visitantes de quasi todas as partes do mundo civilisado. O pavilhão do Brazil deixava-se ficar em plano inferior aos das outras nações, como si fossemos um pobre paiz, cujos productos não valessem a pena de ser expostos n'um certamen internacional!
D'ahi, talvez, o assombro dos americanos ao verem o
Almirante Barroso
, esse esplendido vaso de guerra de envergadura possante, capaz de resistir aos mais fortes temporaes e que elles, os extrangeiros, duvidavam fosse obra nossa.
―Como? Pois no Brazil tambem se fabricam navios de guerra? Está muito adiantado o Brazil!
E repetiam com um ar de duvida e de ironia medindo d'alto a baixo e de pôpa á prôa o magestoso cruzador, que balouçava de leve sobre o Mississipe:
―Está muito adiantado o Brazil!
Entretanto o Mexico, a America Central e as republicas sul-americanas, sem os recursos invejaveis da grande nação, sobresahiam admiravelmente. O pavilhão do Mexico, sobretudo, desafiava a maior parte dos outros não só em abundancia de artigos, mas, principalmente, em belleza e bom gosto, em elegancia e riqueza.
Escusado, parece, falar do importante logar que coube aos Estados-Unidos. Que profusão de machinas e instrumentos industriaes de invenção puramente americana! Ali mesmo, á vista do observador, fabricavam-se os mais curiosos objectos de fantasia e de uso domestico; o linho, o algodão, a sêda―eram tecidos rapidamente aos olhos de todos.
Imagine-se agora o ruido, a algazarra, a movimentação que devia reinar ali dentro d'aquelle immenso edificio, certamente muito longe de ser comparado aos palacios de exposições universaes, mas ainda assim um dos maiores que se tem levantado n'esse genero.
Para dar uma idéa de suas dimensões―não o chamaremos vaticano da industria para não exagerar―basta dizer que o salão de musica―
music hall
―accommodava 11.000 pessoas, inclusive uma vasta área para 600 figuras.
Impossivel descrever as amabilidades, as gentilezas que nos foram prodigalisadas largamente pelas adoraveis americanas de Nova Orleans nessa festa democratica de confraternisação internacional; recordar as phrases deliciosas, os galanteios irresistiveis...
O que posso affirmar é que o
brazilian day
ha de perdurar por muito tempo no coração d'aquelles que tiveram a felicidade de assistir essa bellissima festa.
Dias depois voltei ao palacio da
Exposição
, sosinho, como simples curioso que não tivera tempo bastante para examinar tudo no pequeno espaço de doze horas.
Nada mais restava senão o esqueleto nú do edificio em via de demolição. Todos os objectos tinham sido retirados com assombrosa rapidez. Operarios em mangas de camisa martellavam grandes caixões, assobiando monotonamente, emquanto outros carregavam pesados volumes contendo os ultimos especimens da industria americana.
Voltei immediatamente com um ar compungido de quem acaba de acompanhar um enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando de mim para mim:
―Ah! americanos d'uma figa, sois um povo excepcional!
Agora uma pergunta ingenua: Porque é que o Brazil, com os numerosos recursos que tem á mão, timbra em occupar logar segundario em quasi todas as Exposições a que concorre?
Indifferença, talvez, simples indifferença de nossos governos.
Na celebre Exposição de Philadelphia não sabiamos á ultima hora como e onde accomodar os productos deste paiz, em consequencia de não ter o governo mandado construir um pavilhão especial.
Contentamo-nos em enviar objectos bastante conhecidos, não fazemos selecção na escolha d'elles, não nos importa o modo como devam ser acondicionados.
Na Exposição de Vienna ainda o Brazil teve de occupar logar pouco lisongeiro, e si alguns de seus productos principaes tiveram a felicidade de ser premiados foi isso devido, não ao governo, mas tão somente a esforços de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do Pará.
Annuncia-se para o anno vindouro uma
Universal Great Exhibition
, nos Estados-Unidos, cujo successo irá rivalisar, talvez, com o da Exposição Universal realisada ha mezes em Pariz e notavel pela colossal e tão celebre torre Eiffel. Nenhuma razão assiste para que a grande nação da America do Sul, o Brazil, não se faça representar com todo o brilho de sua incontestavel riqueza.
Agora que somos republica, torna-se dupplamente preciso que patenteemos ao mundo inteiro a infinita variedade de nossas produções agricolas, a opulencia invejavel da flora brazileira e da industria já bastante adiantada d'este bellissimo paiz, cuja natureza extasiou Humboldt, Agassiz e tantos outros sabios da Europa.
Si cada Estado souber cumprir seu dever não poupando esforços para esse nobilissimo fim, certo d'esta vez não teremos que corar perante as outras nações como nos tempos do anachronico imperio do Sr. D. Pedro II.
VIII
A grande Exposição Industrial de Nova Orleans prolongou-se até ao
Almirante Barroso
. O bello cruzador brazileiro começou desde logo a ser o alvo dos curiosos de todas as nações ali representadas.
Comprehende-se o vivo interesse do povo em assumptos d'esta ordem.
Não havia na cidade quem não soubesse que estava no porto um navio de guerra do Brazil, e este facto por si só era bastante para que toda a gente ardesse em desejo de vel-o de perto, de o percorrer d'um extremo a outro.
―Quantos canhões traz? perguntava-se. A machina quantas milhas vence por hora? Quantas rotações por minuto?
E quando affirmavamos que a machina do
Barroso
era de ferro Ipanema e d'outros metaes brazileiros, que todo o navio, da pôpa á prôa, era construcção inteiramente nacional, subia de ponto a surpreza dos nossos visinhos.
O quê! No Brazil já se constroem navios de guerra?―
It is impossible!...
E toda a população, tomada de um quasi espanto, duvidando, talvez, da nossa habilidade, affluía ao caes.
Todo o cruzador, desde a camara do commandante até ao alojamento dos marinheiros, desde o tombadilho até ao porão, foi exposto á curiosidade publica.
O sexo gentil, com especialidade, repetia suas visitas.
Desde ás oito horas da manhã, ao içar-se a bandeira, começavam a atracar lanchas a vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos os sexos.
Grandes lanchas iam e vinham do caes para o cruzador e do cruzador
para o caes
, continuamente, incessantemente, apinhadas de passageiros, que pagavam 5 centimos de ida e volta. Cada uma trazia á prôa, em letras esparramadas e vivas, a senha:―
Brazilian man of war
.
Á tarde, depois d'uma faina acabrunhadora de receber familias e percorrer duas, tres e mais vezes o navio, dando explicações, descrevendo apparelhos e machinismos com uma paciencia de pedagogos, iamos á terra, distrahir nos cafés, nos theatros, nos bailes, tanto mais quanto multiplicavam-se os convites para todas as diversões publicas e familiares.
As familias com que iamos entretendo relações de amizade exigiam que fossemos quotidianamente a suas casas, como si nos sobrasse tempo para isso; e, força é confessar, dispensavam-nos um tratamento quasi paternal.
A melhor de todas as recepções que tivemos, não obstante o caracter official que a revestia, foi a do Governador da Luiziania, esplendido baile no
Royal Hotel
, no dia 8 de, no dia 8 de Abril, ao qual compareceram todas as autoridades civis e militares da cidade em uniforme de gala.
A casaca, o clak, a gravata de sêda branca, o vestido decotado até aonde permitte a decencia, confundiam-se nos salões do hotel ricamente adornados, cheios de luz, escancarados de par em par como um palacio em festa.
A joven officialidade brazileira, eximia em
cotillons
, expandiu-se a valer n'essa magnifica
soirée
de inverno, fria e clara, constellada de botões d'ouro e brilhante, longe da patria, longe de suas familias, mas no seio d'um povo que nos amava devéras.
Saráo principesco esse de que ainda sinto o saibo exquisito ao traçar as reminiscencias da minha primeira ausencia do Brazil.
Mesa abundantissima e franca, desde a deliciosa sôpa d'ostras com molho inglez á mais fina champagne Clicot, com escala pela
mayonnaise
de lagosta, fresca e picante, pelo succulento
poisson à l'itallienne
, rubro e apettitoso... e tantos, meu Deus, e tantissimos outros pratos maravilhosos
inventados
pela gula epicurista de todas as gerações desde Luculo até á nossa.
Volvemos para bordo seria madrugadinha, tropegos, cansados e somnolentos, palpebras cahidas, supplicando a frescura d'um travesseiro, dentro de nossas inviolaveis capas da Bretanha.
Uma noite brazileira com todos os excessos da nossa educação e do nosso caracter; saudosa noite, a primeira de minha vida em que me enfronhei n'uma casaca irreprehensivelmente bem feita...
O
Barroso
, diluído na escuridão da noite, aproado á correnteza que descia rio abaixo cantando uma melopéa de lenda, o
Barroso
―pedaço da patria longinqua―acenava-nos com a sua luzinha amarella palpitando ás rajadas do vento frio.
... E os bailes repetiam-se e nós
viviamos cercados
da alegria communicativa d'esse povo americano eternamente jovial!
Falemos ainda das mulheres de Nova Orleans.
Bellas quasi todas, amaveis e insinuantes, cheias d'uma inexcedivel graça que arrebata e seduz voluptuosamente.
As
créoles
, ah! as
créoles
... ninguem as vê que não as fique desejando.
Caracteres principaes: tez morena, com uns tons de rosa na face, olhos muito negros, criminosos até ao homicidio flagrante, pequenas, delicadas, flexiveis, aereas quasi, conjuncto meigo e melancolico, muito sensiveis... A vaga expressão de seu olhar avelludado derrama não sei que mysterioso fluido, cujos effeitos traduzem-se em voluptuosas sensações, secretos desejos de posse absoluta...
Como differem as chamadas
créoles
das verdadeiras americanas!
Estas―muito rubras, cabello côr de ouro, olhos azues―são frias, quasi indifferentes ao amor, egoistas de sua belleza de estatua, vivendo para o trabalho e para a familia; aquellas―adoraveis com as suas linhas ideaes, com a vaga e communicativa melancolia de seu olhar voluptuoso―fazem lembrar um povo mystico e cheio de bondade d'algum paiz nebuloso e desconhecido...
É curiosa a origem da população
créole
de Nova Orleans. Ella descende na maior parte de aventureiros canadaenses e
courreurs des bois
―gente ousada e valente, que emigrou do norte para o sul da America septentrional, por terra, atravéz de inhospitos desertos povoados de selvagens perigosissimos. Esses aventureiros chegaram a Luiziania sem familias, depois de uma viagem cheia de trabalhos e fadigas, descansando, por fim, ás margens do Mississipe. A Luiziania era então colonia franceza, e o rei, apiedando-se da sorte dos infelizes immigrantes, que viviam solteiros, longe de sua patria natal, sujeitos a uma castidade quasi absoluta, quiz aproveital-os para a colonisação. N'esse intuito mandou vir de Paris um
carregamento
de mulheres, prisioneiras da Salpetrière, que chegaram a Nova-Orleans em ferros, e onde foram postas em liberdade e entregues á concupiscencia da população masculina.
Isso, porem, não trazia vantagens á colonia, que precisava de gente. Os canadaenses satisfaziam seus apetites carnaes sem que augmentasse o numero de habitantes―facto este que não passou despercebido ao directorio da Companhia da Luiziania, cujo principal interesse era a multiplicação das almas.
N'estas condições foram dadas outras providencias, e, em 1728, chegou a Nova-Orleans um grupo de raparigas, conhecidas na Luiziania historica pelas
filles de la cassette
ou
casket girls
, mandadas pelo rei para o convento das Ursulinas afim de se casarem licitamente. A experiencia foi coroada de successos. Em breve tempo começou a crescer a colonia e os descendentes da
cassette
tinham orgulho em o serem.
Tal foi a origem humilde dos primeiros filhos nativos da Luiziania.
Seu sangue é uma mixtura de sangue canadaense e sangue francez.
A mulher americana do norte é geralmente bem educada. Muitas vimos em Nova-Orleans, que conheciam e falavam dois, tres idiomas, alem do vernaculo.
Preoccupam-se pouco com bailes e modas, trajam com simplicidade e elegancia, sem affectação, sem a natural
coquetterie
da mulher parisiense. Seu divertimento predilecto é a musica.
O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. Promptas sempre a repellir com dignidade um ataque á sua honestidade, ellas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com a mesma simplicidade com que o fazem ás amigas. O respeito entre os dois sexos, nas classes superiores, é um dos principaes caracteres do povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns e outros em commun desde creança, as americanas não se confundem nunca diante dos homens.
Nos Estados-Unidos o bello sexo é respeitado como em parte alguma.
Os paes depositam confiança illimitada nas filhas. Deixam, sem escrupulo, que ellas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em companhia de um amigo da casa, na certeza de que ellas saberão zelar a sua castidade.
Os raptos e os defloramentos são raros, não sei si devido ao temperamento da raça ou si á inflexibilidade da Lei. O que sei é que, si um rapaz gosta de uma rapariga de familia reconhecidamente honesta, não tem mais do que namoral-a escandalosamente ás barbas de quem quer que seja, á vista do mundo inteiro, beijal-a sem ceremonia, como si fossem irmãos, e, d'ahi a pouco, eil-os casadinhos de fresco,
bras dessus, bras dessous
.
E ai! d'aquelle que violar os preceitos decretados pelo governo! Immediatamente vê-se dentro d'este triangulo medonho: o casamento, o dote, ou a cadeia. A Lei é inexoravel e a policia exerce uma vigilancia sem igual.
Informados de taes particularidades do caracter americano, nós, brazileiros, pusemos um dique ao nosso temperamento de meridionaes, evitando o mais possivel os compromissos amorosos, as manifestações de sympathia por essas adoraveis
ladies
, que, a falar verdade, inflingiam-nos os maiores supplicios com o maravilhoso poder de suas qualidades physicas.
Tantalos do coração, eramos obrigados a conter os impetos ferozes da carne que nos aguilhoava implacavelmente no delicioso convivio das louras
miss
e das ternas
créoles
.
Estão verdes, não prestam
―era a nossa divisa e d'est'arte escapavamos sempre aos ataques de tão perigoso inimigo...
IX
O dia 14 de Abril (deixem passar a precisão chronologica) estava destinado pelo commandante do
Barroso
para uma excursão fluvial, scientifica, á foz do Mississipe, onde iriamos observar
de visu
os importantes trabalhos hydraulicos, que ahi se procediam sob a intelligente direcção do notavel engenheiro americano Mr. Jas. B. Eads, um velho respeitavel, encanecido no serviço da engenharia, e cujo
nome está
ligado a muitas obras notaveis de seu paiz.
Ás onze horas da noite a barca de passeio
Keokuk
largou de Nova Orleans, rio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns officiaes e o commandante, com destino ás
Jetties
.
Uma excellente embarcação a
Keokuk
, especie de pequena cidade fluctuante, muito larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões aos vapores da Companhia Brazileira. Tres pavimentos: o superior, coberto por um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar á vontade; o do meio formando um salão-refeitorio, ao lado do qual ficavam os camarotes e o porão, para mercadorias; rodas á pôpa, systema de locomoção que não conheciamos; duas chaminés, e machina possante. Em semelhantes condições eramos capazes de fazer a
volta do mundo em oitenta dias
...
Passámos a noite sobre o rio, navegando á meia força, ao sabor da correnteza.
Lá iamos outra vez para a região dos mosquitos! Preparámo-nos para dar quixotesca batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso querido companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo, o impagavel hespanhol que tanto nos divertira na caça aos mosquitos.
Pela manhã, cedinho, estavamos em Port-Eads, defronte do escriptorio central do respeitavel engenheiro.
Café, biscoitos..., e desembarcámos.
O bom velho já nos esperava com o seu bello ar de urso domestico, barba muito branca, de barrete e oculos, entre os seus mappas coloridos e os seus prospectos representando
steamers
e as
jetties
.
―Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empreza ha tantos annos iniciada sob minha direcção, disse elle com um amavel sorriso de bonhomia patriarchal.
E começou a desenrolar diante de nossos olhos uma serie infindavel de cartas hydrographicas, mappas, desenhos...
Vale a pena se admirar essa obra monumental.
Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos braços de sua foz, por modo a effectuar-se a navegação livremente, na linha da correnteza, e terem entrada embarcações de grande calado, desenvolvendo-se assim o já notavel commercio de Nova-Orleans. Com esses trabalhos o porto irá melhorando consideravelmente, sendo para notar o grande movimento de navios que entram e sahem durante o dia.
O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis que os americanos dia a dia tratam de aproveitar dando sahida a innumeros productos do fertilissimo valle do Mississipe, o qual abrange cerca de 768.000.000 geiras
das mais ricas terras do mundo
, como elles lá dizem. Sua emboccadura é, portanto, a passagem natural de todos aquelles productos.
Desde 1726 têm sido empregados esforços inauditos a fim de se aprofundar essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados Unidos contratou definitivamente esse serviço com Mr. Eads, e é bem provavel que em futuro não muito remoto esteja o porto franqueado a todos os navios do mundo, graças á perseverança e aos esforços de habeis engenheiros.
A visita foi curta, mas proveitosa.
Tomámos novamente a barca, e ás cinco horas da tarde atracavamos no forte Jackson, velha fortaleza abandonada, á margem direita do rio. Lá estava ainda, immovel e muda, a descommunal artilharia que Farragut, o velho almirante, commandara na guerra sanguinolenta dos separatistas, que terminou com a tomada de Nova-Orleans.
Os velhos canhões dormiam seu somno de bronze, lá dentro, nos corredores escuros como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes de historia naval, inspiravam não sei que respeito sagrado. Perante elles falavamos baixo, como para não os acordar...
A fortaleza é grande, mas só tem a importancia archeologica que a historia lhe empresta; não resistiria, talvez, ás modernas baterias. Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em derredor. O seu aspecto é sombrio como o de um cemiterio: as grossas paredes denegridas e o silencio que a cerca dão-lhe um cunho mysterioso de crypta subterranea e produzem no visitante uma incommoda sensação de abandono e tristeza. Em cada canto parece surgir a sombra de um confederado clamando vingança.
Retirámo-nos em marcha funebre, calados e supersticiosos...
Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova-Orleans. Já estavamos com saudade do
Barroso
.
Continuaram as manifestações de amisade ao Brazil.
O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir ás insistencias da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter nascido simples burguezinho, como qualquer de seus collegas.
E digamos aqui, muito a discreção, Sua Alteza podia ser um bello moço, um digno cavalheiro, um excellente amigo e camarada, mas... Sua Alteza era um pessimo principe. A sua grande aspiração era a vida livre, sem peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota depressa nos
cafés-concertos
e nos
restaurants
.
Não gostava de continencias e despresava o juizo imbecil dos que lhe apodavam de estroina. O certo é que esse juizo em nada o compromettia perante o
high-life
americano que o estimava sufficientemente. Elle era o representante immediato da familia imperial, era o alvo predilecto de todas as manifestações ao Brazil na grande festa internacional.
Seria ocioso, senão monotono e fatigante, descrever, uma por uma, em todos os seus detalhes, com todas as suas côres mirabolantes, essas manifestações, profundamente fraternaes e democraticas, com que nos recebeu a distincta sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas, passeios improvisados, concertos, brindes,―e não raro a tolda do nosso bello cruzador converteu-se em esplendido salão de baile, acordando a sons de orchestra e gritos de alegria o silencio agreste das margens do Mississipe.
É este o unico consolo d'aquelles que andam no mar em serviço da patria―o repousar em terra amiga. Vão-se as saudades para dar logar á franca expansão dos corações: a alma do marinheiro transforma-se, como por encanto, n'um hostiario de alegrias de uma ingenuidade incomparavel, e elle ri com os outros, canta e sente-se tão bem como si estivesse em seu proprio paiz, no meio de seus amigos e de seus parentes. Encantadora illusão, que só dura emquanto elle não abre as velas mar em fóra nessa interminavel derrota de argonautas que vão atraz do bezerro de ouro da felicidade...
Não direi, não, o que nos divertimos, as multiplas sensações por que passou o nosso espirito n'essa Luiziania que o Mississipe embala com o rithmo nostalgico de suas aguas côr de barro. Seria desdobrar a natureza humana tão complexa e mysteriosa.
Vamos adiante, consultemos o caderno de notas.
25 de Abril
...―Estavamos na Paschoa, a festa risonha e popular da ressurreição do Christo. Até então nenhum desgosto, nenhuma tristeza, nenhuma magoa toldara o céo purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno o espirito, aberto o coração a todos os influxos bons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem grandes preoccupações, no bojo de um navio patricio.
Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos á realidade pungente da vida humana: morrera um nosso companheiro de bordo, o Leocadio..., que digo eu? um d'esses heróes anonymos que usam gola ao pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua terra natal para morrer tysico em paiz estranho.
Ninguem imagina a dolorosa impressão que produz a morte de um companheiro de viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido.
Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho marinheiro, nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola das tempestades. Tinha sessenta annos. Era o «cosinheiro da prôa». Sobre o seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira como symbolo da patria reconhecida.
N'esse dia, conforme já estava assentado, toda a guarnição do
Barroso
desembarcou a fim de assistir á missa solemne da Paschoa na cathedral de S. Luiz, o mais importante dos templos catholicos da cidade, situado na rua Chartres.
Bem que antiga, essa egreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o primeiro edificio catholico erigido em Nova-Orleans pelos capuchinhos, em 1718, ao tempo da fundação da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em homenagem ao rei da França.
Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja população elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que arrasou todos os edificios, causando uma mortandade incalculavel. Narram os chronistas que foram arrojados á costa trez navios que se achavam fundeados no porto. Em breve, porem, a cidade foi reedificada, sendo em 1724 reconstruida a egreja, essa mesma que ainda hoje ergue seus torreões vetustos na rua Chartres.
Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans foi dividido em tres grandes districtos sob a administração dos capuchinhos, dos carmelítas e dos jesuitas. De então em diante multiplicaram-se os edificios religiosos, egrejas palacios episcopaes, conventos, etc.
O convento das Ursulinas data egualmente da fundação da cidade e é um estabelecimento catholico á maneira do de Ruão conhecido por esse mesmo nome.
É um dos ultimos conventos que ainda existem nos Estados-Unidos. Consta de trez andares e ergue-se á margem do rio, para onde abre suas janellinhas atravéz das quaes se vê passar a sombra phantastica das religiosas.
X
Um bello povo, o de Nova-Orleans―jovial, communicativo, hospitaleiro e sincero. A elle devemos os melhores dias dessa longa viagem ao paiz suggestivo e excepcional dos
yankees
, universalmente querido e respeitado por sua grandeza industrial e por suas bellas tradições de energia e patriotismo.
E emtanto approximava-se o dia da partida: iamos embora rumo de norte, levando comnosco a immorredoura lembrança do Meschasebé, «le roi des fleuves», e das legendarias terras que Chateaubriand poetisara nas suas inimitaveis
viagens
. Restava-nos, porem, o consolo de que ainda iriamos á sonhada Nova-York dos trens aere. Restava-nos, porem, o consolo de que ainda iriamos á sonhada Nova-York dos trens aereos e das emprezas colossaes.
Corações á larga, rapazes! Um homem é um homem!...
A saudade, porem, não é uma simples figura de rethorica, pelo amor de Deus! É um estado d'alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza, como a dôr...
A saudade existe, é um phenomeno perfeitamente real e determinado na ordem dos factos psychologicos. Não nos venham dizer outra cousa os senhores neologistas
fin de siècle
. Por ter sido cantada em prosa e verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que é na verdade―uma commoção nervosa interessando o mais delicado e sensivel do coração humano, uma dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel como um sonho nebuloso, tocada de doçura e ungida de tristeza...
Por que uma pessoa tem barba no rosto e já passou dos vinte annos, segue-se que não deve ter mais saudade, que deve ser um insensivel, uma massa inabalavel?
Absolutamente não. A lagrima, expliquem-na como quizerem os doutores da sciencia, hade existir emquanto palpitar em nós esse musculo que se chama coração, emquanto a humanidade soffrer e houver um motivo sentimental para commover os seres dotados de intelligencia. É talvez uma questão de mais ou menos intensidade nervosa. Por que tudo é egoismo neste seculo essencialmente palavroso e mercantil, deve-se concluir que, em futuro não muito longe, a raça humana se transforme n'uma como esphynge, sem affectividade possivel, ou que o systema nervoso passe a exercer funcções negativas na physiologia do porvir? Não o acreditamos...
A lagrima hade existir
per omnia secula
, e a saudade terá sempre a sua lagrima, como sentimento superior ás nossas forças.
Chorar sobre o tumulo de um amigo é tão natural, tão humano como chorar porque nos separamos de um ente querido. Não desejo agora, por um velleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psychologia da lagrima. O que eu quero é confessar, embora d'isso me advenha o qualificativo de
piégas
, que não podiamos―eu e a maior parte dos meus collegas―pensar em deixar Nova-Orleans sem um demorado fremito de palpebras e uma nevoa humida no olhar triste...
E, dizendo isto, está dito o que nos merecia a hospitaleira população d'aquella cidade.
Entretanto, ainda não estavam satisfeitos os luizianenses. Como ultima prova de verdadeira estima o
Luiziania Jockey-Club
deu-nos um magnifico baile na vespera da partida.
Tenho ainda na memoria essa derradeira impressão que me ficou de Nova-Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de legenda, tão limpido e tão claro que se não viam as estrellas... O
Jockey-Club
, em baixo, fazia um effeito surprehendente com a sua illuminação de mil côres rodeando a grande raia das corridas, com o seu aspecto phantastico de kermesse nocturna, salpicado de pontos luminosos e galhardetes em miniatura, immoveis na calmaria da noite.
Em derredor a mudez solemne da floresta acordada de instante a instante pelo echo da musica cortando o ar calmo.
Perto do
Club
tinha-se armado um grande estrado para a dansa ao ar livre, sem tecto, sem toldo, sob o luar.
Cruzavam-se os pares, n'um turbilhão impetuoso, ao som das walsas americanas e dos galopes á brazileira.
N'essa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com uma
créole
, Mlle... já me não lembra o nome, um typo ideal de Walkyria de olhos negros com um extraordinario brilho nas pupillas,―microscopica, delgada, flexivel, cintura extremamente fina, certo geito adoravel de pender a cabeça para os lados, n'um abandono irresistivel... Toda de preto.
Dansámos uma quadrilha e ella convidou-me a passeiar no Prado.
Lá fomos, braço dado, eu muito circumspecto, teso dentro da minha farda de guarda-marinha, levado quasi que machinalmente por essa formosa dama d'olhos negos e seductores, arranjando a custo umas phrases de effeito, que eu não teria coragem de reproduzir; ella, desenvolta e pequenina, muito leve na sua
toilette
escura, conduzindo-me n'aquella esplendida
promenade au clair de la lune
, para onde... não sei eu...
Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas e ricas, si no Brazil dansava-se muito, e que tal nós tinhamos achado as americanas. Explicou-me então a differença entre
créoles
e americanas propriamente ditas.
Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patricias, «bellas e ricas, como não ha eguaes no mundo...»
Parámos. Tinhamos andado seguramente dois kilometros e não viamos agora senão a parte superior do
Club
, por traz do arvoredo, toda illuminada ao longe, como uma cousa phantastica.
Á proporção que nos afastavamos dos nossos companheiros a conversa tornava-se menos animada, e, por fim, já seguiamos calados, como dois somnanbulos, no silencio da noite enluarada...
Depois é que vimos a distancia que nos separava do centro da festa.
Na volta encontrámos outros pares em doce confabulação, como nós, longe do ruido.
Despedi-me para tomar o trem, e ella, a dama dos olhos negros, disse-me um
Good bye
tão sentido e tão suggestivo que eu não tive geito senão perder o trem.
Good bye!
Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em bocca de americana. Uma ingleza talvez que as não pronuncie com tanta suavidade, com tão sonora flexão, com tanto sentimento.
Good bye
... Ha qualquer cousa de avelludado no timbre cantante com que ellas, as
miss
da Nova-Inglaterra dizem a sua phrase sacramental de despedida. O nosso
adeus
, aliás tão laconico e singelo não exprime tanto, não caracterisa tão bem esse estado d'alma que se denomina―saudade.
E, a proposito de―
Good bye
, vem-me a memoria um episodio de uma simplicidade primitiva e commovente que a minha indiscrição de observador tagarella não deixa calar.
Esqueçamos a rapariga d'olhos negros e narremol-o em toda a sua verdade.
Entre os
nossos companheiros
de viagem havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manoel..., o apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada mais natural. Ella vira-o uma vez diante de um
bock
, seus olhos se encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis, elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca houvesse entre elles a menor desavença.
―Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella só o tratava por Manoel).
―Sim, filha, depois havemos de ver isso...
―I love you very much...
―Oh! yess... I think so...
Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n'um quarto d'hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa.
Um bello dia:
Elle
―Olha, sabes? O
Barroso
suspende ferro amanhã.?.
Ella
(surprehendida)―What do you say?!
Elle
(trincando um rabanete)―É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.
Ella
(cruzando o talher)―Impossivel! Por que já não me disseste?
―Para te poupar o desgosto...
―Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã...
―Assim é preciso. São cousas da vida...
―Não, não, meu amor (
my love
) tu não vás, porque eu não quero, do contrario faço escandalo, estás ouvindo?
E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima...
Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava fazendo de um guardanapo um lenço.
Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito.
Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do crepusculo.
O
Almirante Barroso
, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena... Ultimos preparos.
No cáes agita-se uma multidão compacta.
De repente surge á tona d'agua o cepo da ancora enlameada, pingando um lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.
A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d'outro, e acena para terra ao som de―vivas!
Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um fremito percorre os que estão no cruzador...
É o momento decisivo.
Um grande rebocador,
The Warriaro
, vistoso e arquejante, acompanha as manobras do
Barroso
, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio, envolto n'uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de uma mulher.
O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a marcha.
As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam tambem com os seus lenços brancos.
E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas palavras tocadas de saudade:
―
Good bye!
―
Good bye!
repete a mesma voz avelludada como um carinho...
Olhámos uns para os outros commovidos.
Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos brazileiros?
A voz era de mulher, não restava duvida...
Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do rebocador Eva Smith, a amante de Manoel..., a apaixonada rapariga muito conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo nosso companheiro tinha chegado a seu auge.
E quando o
Barroso
desappareceu na primeira curva do rio, ainda ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente:
―
Good bye
, Manoel!
Good bye!
...
E dizer que a
Dama das Camelias
é uma excepção na vida sentimental das filhas de Eva!...
O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se cahir n'uma saudade profunda, n'um longo adormecimento d'alma, de que só accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa americana.
XI
Abençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus costumes, de tua gente, de tua civilisação, mesmo porque a nossa demora em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria que apenas tivemos tempo de mastigar um
havana
, d'esses que fabrícas aos milheiros e que fazem a delicia dos consumidores do bom tabaco.
Bellas cubanas d'olhos rasgados e sensuaes, acreditamos piamente nas coloridas descripções em que viajantes de todas as nacionalidades gabam as vossas preciosas qualidades physicas, os vossos olhos ardentes, os vossos cabellos negros, a vossa graça incomparavel e seductora... Nos oito curtos dias que passámos em vossa patria não tivemos a felicidade, a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso verdadeiramente providencial.
Dizem outros que sois bellas e irresistiveis, que dansais divinamente o
salero
, que possuís todos os encantos possiveis, e isto é quanto basta para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de confabular comvosco.
E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas
calles
irregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem
capitaes
, sobriissima de diversões populares, quasi monotona, mas relativamente adiantada.
Não se lhe póde negar certo progresso material e mesmo uma ponta de civilisação européa.
Encontram-se nella importantes estabelecimentos commerciaes, grandes tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quasi todos os mercados do globo; excellentes botequins, poucos hoteis.
O celebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excursões á America, disse que toda a architectura brazileira é
pesada e sombria
; eu accrescentarei que no mesmo genero são as edificações de Havana, o que não é para surprehender n'uma cidade antiga, onde se observa ainda o cunho tradicional da velha metropole hespanhola.
Entre os monumentos archeologicos notámos a secular cathedral onde (refere a chronica) estão sepultados os ossos de Christovão Colombo.
Vimos uma estatua―a de Izabel a Catholica, n'um grande largo que tem o nome da santa rainha.
Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em consequencia do calor excessivo e constante a que vive sujeita.
Visitámos tambem (ia-me esquecendo) os aqueductos que fornecem agua á população da cidade. Todos elles vão despejar n'um immenso reservatorio de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no sólo, formando uma especie de tanque de grande capacidade para comportar muitos e muitos metros cubicos d'agua crystalina. O sitio onde se acha essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as suas cascatas despejadas do alto de rochedos inaccessiveis, com a extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céo límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até ahi se faz em diligencias puxadas á mulas, arriscando-se o
touriste
a chegar sem bofes ao fim da jornada longa e sem o attractivo das bellas paisagens claras do Brazil.
O sol é ardentissimo em Cuba, e, entretanto, as diligencias partem da cidade pela manhã e chegam ás onze horas ao reservatorio, onde não se encontram hoteis nem botequins. Sua-se por todos os póros e, no fim de contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo moido.
O Passeio Publico... Oh! não falemos de cousas tristes. Quem já viu o Passeio Publico da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmissimo cemiterio dezerto e sombrio, o mesmissimo abandono criminoso; arvores colossaes, meia duzia de castanheiros decrepitos, e um silencio, um silencio absoluto de arripiar cabellos. Aos domingos costuma ir chorar p'r'ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe um Passeio Publico em Havana.
La Havana
, de resto, é o que se póde chamar uma cidade pacifica, socegada e sem attractivos. A impressão que ella deixa no espirito de quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia de sol e poeira.
Mas, para que não fosse de todo ociosa e inutil a nossa visita á Cuba, aproveitámos o ensejo de ver uma de suas mais pittorescas e curiosas cidades―Matanzas, onde chegámos depois de algumas horas de viagem costeira. Ahi nos esperava o vice-consul do Brazil, excellente cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr á nossa disposição vinte e tantos carros de praça a fim de que não perdessemos opportunidade de contemplar o magestoso panorama do valle de Yumiri, um dos mais bellos do mundo, cerca de uma legua distante da cidade.
―Os senhores vão vêr um bellissimo trecho da natureza americana, como talvez não haja igual no Brazil, preveniu-nos o consul. É uma maravilha!
E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios á topographia do paiz, cheia d'altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate, n'uma disparada unica por montes e valles, aos solavancos.
Era quasi noite quando parou o ultimo carro, e corremos logo á tal «maravilha» que o diplomata recommendara.
Aqui têm os aguarellistas
motivo sensacional
para uma téla rembrannesca:
Crepusculo... Céo pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui, ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão concava do valle afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desapparecido, verde escuro, indistincto quasi a essa hora do dia.
Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira,―larga faixa de velludo cinzento―limita o scenario, confundindo-se com as tintas indecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa, um vago silencio de abysmo...
Vê-se muito ao longe, de um lado da paísagem, rasgando o fundo nebuloso do quadro, uma nodoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito escandalosa
mesmo em
meio de toda essa harmonia de côres esmaecidas...
Ha muito que o sol tombou na sua eterna circumvolução diurna. A sombra que se alastra, a pleiada phosphorecente dos pyrilampos, o silencio absoluto que nos cerca―tudo inspira respeito: e a gente esquece preconceitos e doutrinas para, instinctamente, levantar uma prece á mysteriosa Força que rege o Universo...
Existe no alto da montanha a modesta capella de N. S. de Monserrate, sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretenção de nicho d'aldeia, com a sua torresinha triangular onde vão fazer ninho, no inverno, as andorinhas do valle.
Cahio de todo a noite, e, no silencio da estrada que descia em broncas sinuosidades, regressámos para o hotel, cujo salão príncipal tinha agora o aspecto sumptuoso (dados os devidos descontos...) d'um refeitorio de convento em dia de festa paschoal: meza lauta, vinte variedades de vinho excellentes e tudo mais que se faz mister n'um banquete finamente organisado á moderna.
O resto é facil de imaginar: brindes, hurrahs, charutos finissimos... e um somno reparador obrigado a pezadelos...
Na manhã seguinte acordámos para outro passeio não menos agradavel. Era preciso aproveitar o tempo do melhor modo possivel. Cometteriamos indisculpavel falta si não fossemos ver as
Cuevas de Bella-mar
, essas caprichosas grutas subterraneas, verdadeiros palacios de crystal puríssimo, que se abrem terra dentro em toda a opulencia de suas maravilhosas stalagmites e stalactites. Era mais uma deliciosa surpreza que nos estava reservada. Ir á Matanzas e não ver as
Cuevas
equivale a ir a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes, que não se contentam com a vaidade infantil de pisar solo extrangeiro.
Cuevas de Bella-mar
... Entre os numerosos phenomenos que a geologia registra muitos ha que ainda estão por ser lucidamente explicados, por sua propria natureza complexa e profundamente scientifica.
No terreno da geologia subterranea, com especialidade, innumeros são os problemas a destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes é, sem duvida, a formação das cavernas, as excavações produzidas por agentes externos, pela infiltração natural da agua no solo calcareo, formando essas caprichosas pyramides de crystal, que a sciencia denomina
stalagmites
e
statactites
.
As
Cuevas de Bella-mar
formam um dos mais bellos panoramas que se podem imaginar.
Figure-se um grande tunel aberto no subsolo e de cuja abobada pendem crystaes multiformes, cada qual o mais surprehendente, alguns de tamanho admiravel, emquanto do chão constantemente humido sobem outros de egual estructura, ponteagudos quasi sempre, formando, ás vezes, columnatas brilhantes,
esplendidos capiteis
, tão caprichosamente dispostos que dir-se-iam architectados por mãos humanas. A caverna prolonga-se a perder de vista, deslumbrante como um palacio encantado, á luz dos archotes, porque é impossivel percorrel-a sem luz, e a cada passo uma nova exclamação de surpreza irrompe da bocca do observador, espontanea e enthusiastica.
É, com effeito, encantador o aspecto das
Cuevas
.
A athmosphera é quasi insupportavel, apezar da humidade que se reflecte das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acceza!
É expressamente prohibido tocar nos crystaes. Um guarda, empunhando um archote, acompanha o visitante, recommendando-lhe de espaço a espaço, todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada...
Desta vez tinhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as horas perdidas em Havana.
N'esse mesmo dia o
Barroso
fez-se de marcha para o
paiz dos yankees
, para Nova-York, a bella e maravilhosa cidade que o consenso universal alcunhou de Londres americana.
E... foi um dia a ilha de Cuba...
XII
...Manhã de inverno, fria e nebulosa, sem uma restea de luz confortavel. Estava interdicta a nossa curiosidade, pois que amanhecemos defronte da bahia de Hampton Road, a essa hora coberta de cerração, cheia de nevoeiro, impenetravel. Não podiamos, que pena! ver Nova-York de fóra, do mar, abrangel-a toda com um golpe de vista, stereotypal-a na imaginação para todo o resto da nossa vida. A grande cidade cosmopolita dos trens elevados e das pontes colossaes dormia o somno beatifico da madrugada, envolvida n'um largo capuz de neve atravéz do qual apenas se podia ouvir a sineta de invisiveis embarcações que bordejavam demandando o porto. Adivinhavamos que muitos vapores transatlanticos aguardavam, como nós, o momento azado para fazerem sua entrada.
Felizmente não durou muito esse estado quasi afflictivo. Por traz do nevoeiro compacto e lugubre os primeiros clarões da manhã surgiram como uma apparição bemdita, rompendo a monotonia branca da atmosphera, e pouco a pouco, á proporção que a neve ia se rarefazendo, o
Barroso
tomava chegada muito lento, e Nova-York destoucava-se n'um fundo luminoso, batida pelas primeiras irradiações do sol, ruidosa e alviçareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.