ADOLPHO CAMINHA (continued 2)
Reading edition
Onze horas. Céo limpo e mar chão―como se diz nos diarios nauticos. Nem mais um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos ver cheios da mais intima satisfação, com uma surpreza ingenua no olhar, o aspecto risonho da bahia cortada de embarcações á vela e á vapor, com os seus longes de verdura matizando perfis de montanhas indistinctas, muito descoberta, sem o sombrio magestoso das paisagens americanas do sul, bella na sua simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara áquella hora.
Á direita destacava, á bocca do Hudson, a grande, a enorme, a colossal ponte que liga Brooklin á Nova-York lembrando-nos que realmente tinhamos chegado outra vez á terra feliz dos
yankees
, e d'outro lado erguia-se,
illuminando o mundo
, a estatua da liberdade, bello symbolo de bronze, cujo pedestal occupa toda a ilha de Bedloe.
Era um dia de domingo, um desses dias de expansão popular, em que, no mar como em terra, ha quasi sempre uma alegria nova entre os que passaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a consciencia tranquilla de quem vive honestamente á custa do proprio esforço. A bahia de Nova-York tinha o festivo aspecto de um dia de regatas. Esquadrilhas de hiates, com suas velas quadrangulares, muito elegantes e asseiados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar. Passavam barcas de recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de musica, que tocavam alegremente o
Yankee doodle
. Á cerração matinal succedera um sol frio d'inverno, que dava vontade a gente improvisar pic-nics á beira-mar, fóra da cidade, longe dos botequins e das
brasseries
, nalgum verde recanto onde houvesse bastante quietação e muita agua, n'um logarejo calmo de suburbio d'onde se podesse ver ao longe, mas muito ao longe, a miniatura da cidade soturna e cansada...
O
Barroso
tinha fundeado em frente á Battery Square e com pouco recebia a visita official do Consul brazileiro e d'outras autoridades do paiz, sendo para notar que uma das primeiras pessoas que pizaram a bordo foi o reporter do
New-York Herald
, a importante folha americana tradicionalmente conhecida no mundo jornalistico. Um cavalheiro
irreprochable
, de cartola e sobrecasaca de panno, bem apessoado, bigode louro e olhos azues, verdadeiro typo de
yankee
, amavel e expansivo. É escusado dizer, n'um parenthesis, que no dia seguinte a kilometrica folha descrevia, com uma precisão photographica, o cruzador brazileiro, sem esquecer mesmo um carneiro de estima que traziamos e que o espirituoso noticiarista incluia na lotação do navio, emprestando-lhe qualidades invejaveis. Creio até que o pobre lanigero figurou na folha
yankee
entre os heróes de Humaytá!
Satisfeitas as
formalidades officiaes da chegada, trocadas as salvas do estylo, nada mais nos restava senão ver de perto a bella cidade.
Nova-York estava quieta, muitissimo quieta, com as suas praças dezertas, com os seus parques silenciosos, fechado o commercio a ponto de não se encontrar aberta uma só tabacaria, siquer um botequim. Isso, porém, não nos causou estranheza. Sabiamos que o domingo nos Estados-Unidos é um dia completamente inutil, um dia triste para os centros populosos. Toda a gente dezerta para os arrabaldes em seus trajes domingueiros. As ruas, muito largas e compridas, permanecem ermas e cheias de silencio, entregues á vigilancia dos
policimen
. Todas as casas commerciaes, todos os armazens, todas as fabricas, todos os estabelecimentos publicos conservam-se fechados e taciturnos, como n'uma cidade abandonada.
Nova-York, a opulenta e alegre cidade cosmopolíta, tinha esguichado para New-Jersey, para Brooklin e para Conney-Island. Toda aquella multidão laboriosa e ourisedenta, que nos dias de trabalho se atropella na Broadway, bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos hoteis ambulantes e nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com desespero, sem pensar na segunda-feira, sem se inquietar com o futuro.
Por isso é que não se deparava ninguem nas ruas, por isso não se ouvia o barulho infernal das carroças e das carruagens.
O domingo no paiz dos
yankees
é para se divertir, para se descansar, para se jogar o
criket
, para se passeiar a cavallo, para se apostar regatas, de modo que o protestantismo americano nada tem de commum com o protestantismo britannico.
Emquanto nos domingos (a dar credito na chronica) o inglez reza a Biblia no interior de seu
home
, em companhia de sua mulher e de seus filhos, o americano, ou melhor o
yankee
exercita os musculos e bebe cerveja fóra da cidade.
Não admira semelhante discordancia, quando é sabido que a religião protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito leiam-se os bellos capitulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lefèvre), estuda, com uma graça especial e encantadora, cheia de humorismo e de senso critico, as instituições religiosas na America do Norte.
Paris en Amérique
é um dos livros mais curiosos e originaes que eu tenho lido sobre os Estados-Unidos.
Em taes condições, extrangeiros no meio de uma cidade dezerta, imagine-se o nosso embaraço, a triste situação em que nos collocava a curiosidade.
Os rarissimos transeuntes que porventura encontravamos, marinheiros ou vagabundos que desciam para o caes da Battery, olhavam-nos com um ar de surpreza, embasbacados, medindo-nos d'alto a baixo, com si fossemos uns verdadeiros botocudos de tanga e cocar.
Entretanto, não perdemos a precisa calma, e, sem mais tirte nem guarte, saltámos dentro do primeiro vehiculo que passava, uma velha carruagem de aluguel, cujo boleeiro custou devéras a comprehender que desejavamos fazer um passeio ao redor da cidade.
―Oh! yess! Yess!...
E disparou a trote largo por aquellas ruas fóra.
De modo que n'esse dia vimos Nova-York
à vol d'oiseau
e por um prisma de tristeza e monotonia.
Em compensação a nossa demora n'aquella cidade ia ser mais longa que em qualquer dos outros portos do intinerario.
No dia immediato, uma segunda-feira, recomeçámos, sem perda de tempo, a nossa tarefa de extrangeiros em paiz desconhecido.
Eu, por mim, confesso que Nova-York produzia-me vertigens. O desejo immoderado de tudo vêr, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me n'uma inquietação continua, tirava-me o somno, arrebatava-me á todas as commodidades, torturava-me o espirito de analyse. Uma cousa, porem, devo dizer: raro é o official de marinha, mormente da marinha brazileira, que sabe aproveitar o tempo n'essas viagens ao extrangeiro. Aproveitar o tempo, entendamo-nos, as horas de folga. Preferiamos a convivencia dos cafés-cantantes aos passeios uteis e ao mesmo tempo agradaveis. Um extrangeiro já teve a coragem de dizer que os officiaes de marinha brazíleiros levavam o tempo, na Europa, a frequentar os
conventilhos
e os cafés-cantantes. Até certo ponto isso é verdade.
Em geral elles pouco conhecem dos paizes que têm visitado, a não ser em assumptos de sua profissão, e as suas narrativas entre amigos limitam-se quasi sempre a recordações de aventuras amorosas.
Tambem são tão curtas e tão raras essas viagens...
Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o commando de um official illustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos conhecimentos não se restringem á navegação e á artilharia, o aproveitamento é certo. Elle não é sómente um superior hierarchico―faz-se mestre e sabe proporcionar aos seus subalternos a maior somma possivel de excursões uteis e proveitosas.
Uma das nossas primeiras visitas foi á estatua da Liberdade, na ilha de Bedloe.
O importante monumento ainda não estava completamente prompto, mas já se podia fazer uma idéa do que seria elle depois de concluido. O pedestal, de granito, occupa quasi toda a ilhota e mede, approximadamente, 15 a 20 metros de altura, 154 pés, desde o
nivel
do mar, formando uma especie de casamata cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre o pedestal ergue-se a estatua, em bronze, armada por meio de vigamentos de ferro, pois que não é inteiriça.
Conta-se que dentro d'ella realisara-se, em Pariz, um magnifico banquete de 12 talheres, presidido por V. Hugo.
Como se sabe, a estatua foi offerecida aos Estados-Unidos pela França em agradecimento dos serviços prestados por esta nação á sua amiga na guerra franco-prussiana.
O pedestal foi mandado construir á custa de subscripções populares, que em pouco tempo attingiram a uma somma elevadissima.
Não ha por ahi quem não tenha ouvido falar na famosa ponte de Brooklin (
Brooklin Bridge
), uma das maravilhas da engenharia moderna, que liga a ilha de Brooklin á Nova York.
Esta cidade, incontestavelmente o primeiro emporio commercial da America e uma das mais populosas do mundo, fica situada n'uma grande ilha formada por dois braços do rio Hudson. De um lado, á direita de quem olha para o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de New-Jersey, e á esquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer desses pontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam de Nova-York, e por preço assaz diminuto.
A principio, quando se projectou levantar a grande ponte, surgiram mil difficuldades.
Parecia impossivel que se podesse levar a effeito obra tão arriscada e dispendiosa. Como assentar as bases do colosso n'uma profundidade de mil e seiscentos pés, que é esta a altura do rio na sua parte mais estreita?
Demais era preciso não prejudicar a navegação, construindo a ponte muito acima do nivel do mar de modo a dar passagem livre ás embarcações de commercio.
Com tudo isso os americanos metteram mãos á obra e dentro de alguns annos de trabalho assiduo os Estados-Unidos contavam mais uma gloria.
O comprimento total d'essa magnifica ponte é de uma milha pouco mais ou menos. As torres onde ella está suspensa erguem-se a 268 pés acima da prêa-mar, de forma que as maiores embarcações de commercio têm passagem facil por baixo.
O
Barroso
, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em navio de guerra, apenas foi obrigado a «acachapar» os mastaréos de joanetes.
Atravessa-se a ponte em vagons movidos á electricidade, em carros de praça ou mesmo a pé. Paga-se um centimo para atravessal-a a pé!
O movimento é espantoso. Cruzam-se diariamente as duas populações de Nova-York e de Brooklin, em carros em wagons e a pé, sem risco de se atropellar, por que a cada especie de vehiculos corresponde uma passagem independente e adequada. Os que transitam á pé têm tambem o seu caminho livre e, por consequencia, não correm o perigo de ser pisados pelos carros.
Á noite o aspecto da ponte é feerico. Logo ás seis horas da tarde começa a illuminação em toda ella, de um lado e d'outro, destacando-se em alguns pontos fócos de luz electrica, enormes botões de brilhante que encandeiam a vista.
Vista do mar, então, o effeito é deslumbrante! Lembra as lendarias pontes de Veneza cortando canaes, projectando n'agua seus reflexos luminosos.
Um dos meus divertimentos predilectos era contemplar Nova-York do alto. Muitas vezes punha-me lá de cima da ponte de Brooklin, braços cruzados, n'um extase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhando com a vista a vela das embarcações que singravam no rio, pequeninos, microscopicas.
E punha-me, nessa embriaguez do grandioso a pensar no progresso dos Estados-Unidos, d'esse paiz modelo, onde tudo move-se por meio de electricidade e vapor, onde tudo é feito ás carreiras, n'um abrir e fechar d'olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me a imaginação escandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as maravilhosas experiencias sobre o telegrapho, sobre o telephone e sobre o phonographo, e eu repetia com os meus botões, mergulhando o olhar na distancia, abarcando a cidade inteira:―Grande paiz! Grande povo, gente feliz, que sabe comprehender a vida e amar a patria!
Como era pequeno o meu paiz, com toda a grandeza de suas montanhas e de seus rios, diante do colosso americano do norte!
Cahia-me n'alma uma tristeza de desterrado, uma profunda e incomprehensivel melancolia, feita ao mesmo tempo de saudade e descrença...
Incansaveis os americanos! Nenhum povo os excede em temeridade e perseverança. Sequiosos de glorias para o seu paiz, ávidos de emprehendimentos que causem assombro ao mundo, elles tem uma grande qualidade―o amor á sua terra, o nativismo instinctivo, o
chauvinismo
(deixem passar o termo) incondicional, absoluto, e é força confessar que, sem essa qualidade, sem esse egoismo patriotico, as nações vivem, mas não progridem.
Ainda ultimamente a camara do Estado de Nova-York approvou, por unanimidade, o
bill
que propoz a construcção de uma nova ponte de ferro sobre o East River, passando sobre a ilha de Blackorel, que ligue Nova-York á Long-Island, e que terá seis mil metros de comprimento e 46 de altura, com uma resistencia de 65 kilometros de velocidade para os trens que a devem atravessar.
É o caso de dizer, parodiando o outro: si eu não fosse brazileiro, desejaria ser americano do norte...
XIII
Nunca fui a Londres, apezar do grande e impaciente desejo que tenho de visitar a sombria capital britannica, mas estou bem certo de que Nova-York em muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana.
Toda nova, toda alegre e pittoresca, sem os bairros immundos que o Tamisa lambe com as suas aguas putridas, onde boiam cadaveres em decomposição, illuminada por um sol que dá vida e confórta, a nova Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo n'ella é grandioso e opulento, desde a edificação igual, solida e elegante, até ás festividades publicas e ás instituições nacionaes.
As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se pela numeração (
Fourteen street
,
Fifteen street
etc).
A Broadway é o centro commercial, a rua de maior movimento quotidiano,―equivale á City de Londres.
Ahi é que os carros se atropellam, que os transeuntes se abalroam n'uma confusão burlesca e indescriptivel de que a nossa rua do Ouvidor não dá siquer a menor idéa. Negociantes, capitalistas, banqueiros, correctores, operarios e vagabundos, acotovelam-se, empurram-se, pisam-se os callos e vão seguindo adiante, sem olhar p'ra traz, carregados de embrulhos, suando no verão, que costuma ser muito forte em Nova-York. A gente vê-se abarbada para romper aquella multidão cerrada, compacta e egoista.
Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma.
Americanos, inglezes, hespanhoes, francezes, italianos, allemães, gente de todas as nacionalidades, até turcos com os seus costumes exquisitos, confundem-se nas ruas de Nova York, enchendo-as em ondas successivas e tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, á primeira vista, que o elemento extrangeiro absorve o nacional, tão numeroso é aquelle. Custa, porém, a encontrar-se um portuguez ou um brazileiro. Em compensação a raça latina é abundantemente representada por hespanhoes da Europa e da America. Os mexicanos, apezar da natural e occulta ogerisa que têm aos americanos dos Estados-Unidos, encontram-se a cada passo e distinguem-se logo pelo seu typo original: estatura média, rosto anguloso e abolachado, moreno, cabello duro, olhos pequenos; amaveis. Não perdem occasião de dizer mal dos americanos, que, entretanto, dedicam-lhes uma affeição especial.
Uma das cousas mais curiosas de Nova-York são os trens elevados (
elevated rail road
), a complicada rêde de linhas ferreas que rodeia a cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas inteiras sobre grandes columnas resistentes de ferro. Partem todas da Battrey Square, ponto mais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a cidade) e vão terminar na sua extremidade septentrional, em Barlem River. Segundo o relatorio apresentado pela
New-York Elevated
, o numero de viajantes transportados em 1878 por essa linha foi de 107.079.625. (Sempre a estatistica como base fundamental do progresso entre os americanos!). A linha inteira, que tem seguramente trinta milhas, estava concluida até Harlem. Os moradores das margens d'essas estradas de ferro aereas queixavam-se continuamente da visinhança.
Podéra! Ruido, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabeça, não são cousas que agradem a ninguem. A pobre gente fica em risco de perder o juizo, pois não!
Felizmente, o que aliás é muito admiravel, os desastres reproduzem-se rarissimas vezes. É que o serviço faz-se com inexcedivel perfeição e as posturas municipaes verificam-se enexoravelmente.
As estações são numeradas, como as ruas:
Primeira Estação
,
Segunda Estação
, etc.
Os passageiros desembarcam em plataformas de ferro gradeadas, que communicam com as estações.
O espirito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes cidades dos Estados-Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os ramos da actividade publica se encontra uma applicação nova de mecanica industrial, um artificio de utilidade pratica, economico e curioso, uma invenção engenhosa...
Aproveitar o tempo e economisar os
dollars
―tal é o principio fundamental da sabedoria
yankee
.
Um domingo em Coney-Island: nada mais pittoresco e hilariante, nada mais suggestivo...
Coney-Island aos domingos é para os americanos o que o Bois é para os francezes e Hyde Park é para os inglezes―um interessantissimo microcosmo de incrivel bizarraria, cheio do vago rumor de uma multidão que passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, n'um
pêle-mêle
vertiginoso, com as suas
toilettes
claras, com o seu bello ar despretencioso, com os seus gestos largos de quem respira uma atmosphera leve e pura.
Essa pequena ilha constitue a principal diversão domingueira dos habitantes de Nova York.
Familias inteiras, burguezes de todas as castas,
cocottes
, affluem para ali n'esses dias. Pela manhã, cedo, largam da Fulton Station grandes barcas embandeiradas conduzindo musicas, cheias de passageiros. Muita gente prefere ir por terra, em trens que partem de
Brooklin
.
Não ha logar para todos nos hoteis. Improvisam-se
pic-nics
defronte do mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas ha que não se lembram de comer―preferem a cerveja, o
bock
a qualquer especie de alimento solido.
Vimos dois grandes hoteis―o
Great Hotel
e o
Gigantic Elephant
.
Aquelle é um magnifico estabelecimento, todo construido de madeira de lei sobre enorme plataforma que se move em trilhos proprios. Novo genero de hoteis até então desconhecido para nós. N'um dado momento podem ser conduzidos, como qualquer
tramway
d'um logar para outro.
O
Gigantic Elephant (the monarch of the architectural world
, como lá dizem...) mede 175 pés inglezes de altura, é dividido em 31 compartimentos, ventilados por 63 janellas, e illuminado, á noite, por 25 fócos de luz electrica. Figura um elephante colossal, de madeira, em pé, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um terraço d'onde se descortina uma esplendida paisagem rasa e calma.
Quer n'um, quer n'outro, o
promeneur
encontra abundante variedade de petiscos e bebidas.
As creanças, com especialidade, fazem de Coney-Island um céo aberto. Ellas, sim, não perdem os cavallinhos que andam á roda ao som de um classico realejo seboso, os passeios aereos, na ponte russa, nas barquinhas, nos trens elevados...
Por toda a parte musica, realejos, pregoeiros de
cousas maravilhosas
, gritos, gargalhadas...
Tiram-se retratos instantaneos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores de duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavallos de passeio... Emfim, Coney-Island é uma miniatura da vida tumultuosa das grandes cidades.
O pobre diabo que não fôr esperto e economico arisca-se a voltar com as algibeiras cheias de vento...
Á noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros a algazarra torna-se insupportavel. Canta-se a
Marselheza
em vozes detestaveis, grita-se, bate-se com a ponteira da bengala no chão, assovia-se, imitam-se animaes de toda a especie... Uma loucura!
Entretanto, abençoado paiz! em todas essas pagoderias não se distingue siquer um bonné policial. Não ha conflictos, nem desastres.
Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção da guarda civica. Os
policemen
podem cochilar á vontade: a população americana é naturalmente pacata e respeitadora da ordem.
Coney-Island é o complemento necessario e indispensavel de Nova-York.
Pelo verão reunem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o calculo approximado do consul brasileiro.
Dias depois da nossa chegada, o
Barroso
entrou para o dique de Brooklin, a fim de soffrer alguns reparos no casco.
Emquanto isto se dava, emquanto a guarnição occupava-se da limpeza externa do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo de amigos dedicados, iamos visitando outras cidades americanas, ligeiramente, de relance.
Não nos foi dado, porem, diga-se em parenthesis, ver o mais grandioso espectaculo dos Estados-Unidos―a celebre cascata do Niagara, que Chateaubriand pinta com as maravilhosas côres de sua palheta de artista inimitavel.
Não tivemos mesmo a felicidade de ver Washington, a bonita capital americana, e tão pouco o presidente Cleveland.
Esse previlegio coube quasi que exclusivamente ao ex-principe D. Augusto, que aliás não revelou grande admiração pela Niagara, nem pelo presidente Cleveland.
Sua Alteza não era para que digamos muito amigo da natureza, e menos aínda de personagens illustres.
Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um oculo, nos livros do poeta, e o Sr. Cleveland, vi-o casualmente no
Daily News
, no acto do seu casamento realisado a esse tempo. Pareceu-me um bello typo de
yankee
: cheio de corpo, cabello penteado p'ra traz, olhar firme, bigode grosso...
Assim, contentámo-nos com visitar algumas cidades de importancia e tão depressa que era impossivel apanhar com precisão todos os caracteres por meio dos quaes se pode apreciar a vida de uma população.
Vejamos:
Baltimore
―Cídade aristocratica, pequena, mas extremamente bella na simplicidade, no gosto sobrio de sua edificação, muito asseiada, muito clara, semelhando toda ella, no seu conjuncto gracioso, uma confortavel habitação de outomno, fresca e risonha, boa para se gozar o socego de uma villegiatura sem preoccupaçães mercantis e utilitarias.
A gente de Baltimore parece viver uma vida tranquilla e descuidada no calmo interior de seu
home
, longe da mentira social, longe de todo o ruido, beatificamente, n'uma paz invejavel, respirando uma atmosphera livre do microbio daminho das civilisações tumultuosas.
Baltimore é uma cidade por excellencia aristocratica e hygienica, onde os temperamentos requintadamente pacificos encontrariam o desejado repouso trespassado da incomparavel doçura de um clima raro.
Na melhor de suas praças e no mais elevado de seus pontos ergue-se a estatua em marmore do grande Washington, geralmente considerada «um dos mais interessantes monumentos da America» e inaugurada em 1809. Mede 60 pés quadrados na base e 15 de altura. Sobre o
pedestal
foi levantada uma elegante columna dorica de 20 pés de diametro na base e 15 no cimo, onde branqueja a estatua do primeiro presidente dos Estados-Unidos, representando-o no momento de renunciar a sua commissão de general em chefe dos exercitos de seu paiz.
Para subir até essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degráos (contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima vê-se, a olho nú, todo o panorama, realmente bello, da cidade, que lembra uma d'essas paisagens hollandezas, muito claras e suggestivas, taes como descreve Ramalho Ortigão, e onde destacam, n'um fundo de aguarella, linhas de arvoredo e reverberos d'agua parada...
Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonítas dos Estados-Unidos são as de Baltimore. Durante as poucas horas que ahi nos demorámos vimos alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possivel que vissemos com olhos protectores de hospedes em Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonítas dos Estados-Unidos são as de Baltimore. Durante as poucas horas que ahi nos demorámos vimos alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possivel que vissemos com olhos protectores de hospedes em terra estranha...
Era nosso consul n'aquella cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor das
Opalas
, bom poeta e pessimo republicano, que se apressou em nos proporcionar todas as commodidades possiveis, franqueando-nos os quartos e os salões do melhor hotel do logar. Fez mais: offereceu gentilmente á officialidade brazileira um delicadissimo almoço ao qual compareceram diversos estudantes nossos patricios.
Guardamos bellas recordações de Baltimore.
Philadelphia
―Grande centro de industria e commercio. Altas chaminés caracteristicas. Céo encoberto de fumaça, pesado e lugubre a certas horas do dia. Aqueductos, casas colossaes, ruas largas e atulhadas de barricas e caixotes. Continuo movimento de carros e tramways. Immensa e grandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembrança que fica é a de um grande edificio em construcção, cheio de rumor de machinas e de operarios em actividade permanente.―Jardim Zoologico.―Universidade importantissima, onde vão estudar moços de todas as nacionalidades.―City Hall, edificio monumental, vasto e muito alto, onde funccionam as repartições publicas: dizem ser o maior dos Estados-Unidos.
Não ha tempo a perder. Temos apenas trez horas a nossa disposição, pois que o trem deve partir para Annapolis ás cinco da tarde e já são duas...
Leio na taboleta de um bond:
Zoological Garden
... Oh! sim, vamos ao Jardim Zoologico, a mais completa collecção de animaes, que já se conseguiu formar. O meu companheiro, que conhece o Jardim Zoologico de Londres e o de Philadelphia, opta por este. Vejo, de passagem ruas bellissimas, esplendidas filas de casas luxuosas, magnificos jardins particulares, templos em estylo gothico; descampados...
Mas, a viagem é longa, o tempo escorre sem a gente perceber, e é preciso contar com a volta, a fim de apanhar o trem.
Trabalho perdido! Voltámos no mesmo bonde, sem ter visto o appetecido Jardim... Zoologico.
Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar por entre os passageiros que se accumulavam na
gare
, e saltar para dentro do vagon.
E eu fiz o resto da viagem pensando no assombroso progresso d'aquella cidade enorme, que ainda em 1791 não era mais que uma simples colonia a respeito da qual Chateaubriand exprimia-se d'este modo:―
L'aspect de Philadelphie est froid et monotone
...
Não foi preciso mais de um seculo para que os americanos fizessem d'ella uma das principaes cidades industriaes do mundo.
Em Philadelphia tive occasião de ver, pela primeira vez, bondes electricos funccionando com a maxima regularidade.
O que será a grande cidade americana d'aqui a cem annos?
XIV
Abramos capitulo especial para Annapolis, não que esta cidade, a mais antiga dos Estados-Unidos, mereça-nos mais que qualquer das outras, absolutamente não, mas por uma deferencia bem entendida, por um recolhido sentimento de gratidão para com a joven officialidade da marinha norte-americana, que ali recebeu as primeiras lições de disciplina militar e dever civico, e que soube nos acolher em seu seio como verdadeiros irmãos de armas que eramos.
A nossa visita coincidía com a festa de formatura dos guardas-marinha, uma das bellas solemnidades annuaes dos Estados-Unidos á qual concorrem centenas de pessoas da mais elevada sociedade―a fina flor da aristocracia d'aquelle paiz―movidas pelo nobre enthusiasmo de apertar a mão á mocidade que se despede da escola para entregar-se ás duras lidas do mar.
Antes, porem, de dizer o que foi essa festa descrevamos, rapidamente, a cidade.
Annapolis é como uma nota dissonante na civilisação americana. Imagine-se um quilombo africano, uma grande aldeia cortada de ruas desiguaes, estreitas e desalinhadas, com um aspecto sombrio e detestavel de velho burgo colonial, onde se move uma população na maior parte negra e atrazadissima―e ter-se-ha essa antithese da cidade moderna. Bridgetown, a capital de Barbados, avantaja-se-lhe mil vezes com toda sua poeira, com toda a imprudencia e mizeria de sua baixa população.
Vê-se que os americanos têm-lhe certo respeito e conservam-na esquecida e retrograda por uma especie de devoção archeologica, sacrificando por esse modo o seu bom gosto caracteristico e o seu tradicional amor ao progresso.
Insipida, monotona e triste como um cemiterio de pagãos―Annapolis é um protesto, um anathema contra a evolução natural das cousas, uma nodoa antipathica em pleno mappa da Confederação americana. Nada ha ali que interesse e desperte a curiosidade senão a Escola Naval (
Naval Academy
) situada n'uma das extremidades da cidade, á beira-mar.
De anno em anno enche-se de povo; seu unico hotel, um pardieiro, extravasa, e então sente-se um fremito de vida nova percorrer aquellas ruas habitualmente socegadas e tristes. Passeiam bandas de musica, fluctuam bandeiras na frontaria das casas, por toda a parte ouve-se uma vozeria estranha de gente que bebe e canta nos cafés (arremedo de cafés) e todas as janellas abrem-se como para receber o desinfectante da alegria, importado das grandes cidades circumvisinhas.
Annapolis accorda, então, de seu pesado somno tumbal para saudar os estudantes que saem da academia para a vida publica.
O grande acto, a que assistimos, da distribuição de titulos, realisou-se n'um dos vastos salões da Escola, presente numerosissimo auditorio: familias em grandes trajos de luxo, altos funccionarios, estudantes...
Ao receberem seus diplomas os noveis officiaes de marinha foram vivamente applaudidos pelos seus companheiros, cahindo sobre elles uma chuva imprevista de flores, no meio de palmas e gritos de enthusiasmo. E, começaram os abraços, as felicitações, os conselhos e as lagrimas de commoção...
Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento e a multidão de espectadores precipita-se por todos os lados, feliz, alegre, desafogada como si acabasse de assistir a uma festa de amor e justiça.
Ainda não estava concluido o programma.
Em seguida á solemnidade official,―a festa intima, a festa de despedida que os
naval cadets
(aspirantes) offereciam aos seus companheiros.
Noite clara e constellada. O largo edificio da Escola de Marinha regorgita de convidados que se cruzam em todos os sentidos no salão do baile, nos corredores, nos
bouffets
, nas ante-salas...
Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade, certo bem estar flagrante, um quer que é communicativo e bom.
Uma ou outra casaca solitaria, destoando da linha geral das
toilettes
largas e frescas. Observo curiosamente o apuro de um official japonez que franze as sobrancelhas n'um gesto de enfado.―Por que será?... Julgo de mim para mim que o pobre camarada não se sente á vontade dentro de suas calças de panno com largos galões dourados. A casaca o incommóda visivelmente. O chapéo armado, elle já não sabe como o tenha―si na mão, si debaixo do braço ou mesmo si na cabeça...
Desabotoam-se risos gentis em boccas purpurinas. Derramam-se essencias preciosas no ambiente luminoso. Conversa-se alto. Bellas
miss
de face escarlate abanam-se com os leques de ricas plumas de edredon. Os leques e as joias são as unicas riquezas que conduzem n'um contraste frizante com os vestidos leves e claros.
Em um dos lados do enorme quadrilatero, onde reluziam panoplias arranjadas á capricho, estava levantado um pavilhão de aspecto risonho, em cujo frontespicio destacavam em letras de luz
1887 to 1886 farwell
Era o logar do director da escola.
Começou a dança...
...E á meia noite a musica fazia signal para a ultima valsa.
Ficamos sabendo que todas as festas nocturnas terminam invariavelmente á meia noite, nos Estados-Unidos. É uma velha praxe que os americanos poucas vezes transgridem.
Annapolis,
blak city
―como te chamam teus proprios patricios, tu não poderás saber nunca a saudade que levámos de tí n'essa esplendida noite clara e constellada!...
XV
O
Barroso
continuava no dique, em Brooklin.
Logo ao regressarmos de nossa viagem á Annapolis tivemos aviso para uma outra excursão não menos interessante e agradavel.
West Point era agora o principal objecto de nossa curiosidade,―West Point, a bella povoação á margem do Hudson, onde funcciona a Escola Militar. Estavamos convidados para assistir a outra festividade academica―um combate simulado entre os alumnos do estabelecimento,―manejos d'armas, exercicios de esgrima, assaltos.
Comprehende-se a grande utilidade que necessariamente nos adveria d'essas visitas aos estabelecimentos militares no extrangeiro. Sem nos aperceber, iamos conhecendo,
de visu
, os diversos processos de ensino pratico, os methodos mais modernos de educação physica, e, quando mais não fosse, lucravamos com a vista de objectos novos e de novas paisagens.
O viajar é uma necessidade quasi imprescindivel para o espirito e para o organismo. A alma como que se dilata em presença de estranhas combinações de côr e de luz. A monotonia da vida urbana cansa o espirito, fatiga-o, consome-o lentamente: é preciso o grande ar, o ar livre e temperado dos campos, a natureza em toda sua belleza original, para que não se morra de tédio e desanimo. O tempo é limitadissimo e inapreciavel para quem viaja com desejo de ver e saber.
Muitos ha que preferem morar eternamente em Paris ou em Londres, no centro da cidade, asphyxíado pela poeira dos
boulevards
, a gastar economicamente o seu rico dinheirinho vendo a natureza de perto, gosando as inaffaveis delicias do ca, a gastar economicamente o seu rico dinheirinho vendo a natureza de perto, gosando as inaffaveis delicias do campo e das praias, saboreando o clima das montanhas, deliciando a vista com o espectaculo das fontes mumurejantes, dos frescos arvoredos trespassados de luz...
Eu preferirei sempre a paz absoluta e invejavel dos suburbios.
E é por isso que, a cada nova excursão fóra da cidade, eu sentia-me bem commigo e bem com o resto da humanidade. Voltava sempre mais consolado e mais leve, como si sahisse de um quarto muito escuro e abafado para a claridade larga e bella do dia...
Foi assim que recebi a noticia do passeio a West-Point.
Como devia ser magnifico o Hudson lá para as bandas de sua nascente, a qualquer hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante, ou coberto de nevoa, pela manhãsinha, ou no silencio da noite, vago e sombrio como um pantano dormente!...
Era o que iamos vêr.
Seis horas da manhã...
Cahia uma neve friissima, transparente, e aggressiva como alfinetadas.
O
Express
, pequeno e elegante cruzador americano, especie de transporte de guerra, esperava-nos de «fogos accezas», deitando fumo pela chaminé.
Remos n'agua e toca p'r'adiante! Pontualidade no caso.
Estamos á bordo.
O
Express
offerece o bello aspecto de uma galeota imperial que vai suspender ferro...
Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam o convéz e a camara.
Tinha-se acabado de fazer a baldeação matinal. Marinheiros, perfeitamente uniformisados, occupavam-se em limpar as chapas de metal; outros colhiam cabos á prôa; outros lá cima, nas vergas, atavam ou desatavam andarivelos, muíto rubros, com
os seus
bonnés de panno azul marinho onde se lia o nome do navio, em letras cor de ouro:―
Express
.
A camara―uma sala espaçosa e clara, elegantemente adornada―occupava um terço do pontal, a ré, na primeira coberta. Em baixo, na segunda coberta, ficavam os camarotes e a praça de armas.
Servido o
fine cognac
, que os americanos de bom tratamento não dispensam nos dias invernosos, o
captain
subio ao passadiço e deu a voz de suspender. A machina tocou adiante e o
Express
começou a singrar o Hudson.
Variadissimo o aspecto da paisagem. Ora o rio se estreita em curvas caprichosas, ora vai-se alargando, sempre manso, banhando cidades e aldeias, limpido ás vezes, outras vezes toldado e sombrio.
West Point fica á duzentas milhas de Brooklin.
Passámos o dia inteiro e a noite em viagem para amanhecermos em nosso destino.
Novas manifestações de sympathia. Officiaes e alumnos da Escola Militar esperavam-nos com aquelle sorriso affavel de gente hospitaleira, que logo se traduz em franca e sincera camaradagem.
A Escola estava acampada perto do estabelecimento, em exercicios praticos.
Innumeras barraquinhas de lona, alinhadas em symetria, alvejavam, como um acampamento de beduinos, guardadas por sentinellas que rondavam de arma ao hombro, perfilando-se de vez em quando em continencia a um official que passava.
Cada barraca abrigava cinco a seis alumnos que se rendiam pontualmente na sentinella.
Emquanto um rondava, grave e silencioso, de mochila ás costas e espingarda ao hombro, os outros divertiam-se a trocar sôcos, a jogar o dominó, a apostar corridas, até que o tambor ou a corneta os chamasse á fórma. Então, com uma rapidez extraordinaria, lestos, vivos e fortes, corriam todos a seus postos, e, em menos de um minuto, estava formada a companhia.
Cada alumno era um verdadeiro soldado.
Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto, cheios de saúde, tesos, empinados, quadris largos, espaduas amplas, todos se pareciam em robustez physica.
Uns rapagões sadios!
Notei mesmo certa propensão dos americanos para o militarismo. Parece que a educação militar, a adapção de principios rigorosos na disciplina do corpo, é o unico meio de obterem-se homens robustos e cumpridores do dever. A Escola de West Point é, sem exagero, um exemplo raro de estabelecimentos d'esse genero. E não era sem uma ponta de tristeza que nós, brazileiros,―raça degenerada e lymphatica―viamos crear-se assim uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e independencia.
Tive occasião de assistir a uma lucta corporal entre dois alumnos, competentemente armados de luvas de camurça, rosto a descoberto. Pegaram-se a sôcos, um defronte do outro, calmos e convictos, como si estivessem commettendo uma nobre acção.
No fim de alguns minutos, o aggressor estava com o rosto inchado, escorrendo sangue, os olhos vermelhos, injectados, e a lucta acabava com um abraço entre os dois contendores. O mais forte foi acclamado pelos companheiros, teve o prémio de sua robustez.
É talvez um duro systhema de educação esse, mas incontestavelmente o mais acertado e efficaz.
Simples questão de raça...
XVI
Estava terminada a nossa estação de quasi dois mezes em Nova-York.
No dia 30 de Julho o
Barroso
deixou aquelle porto em direcção a New-Port, outra cidade dos Estados-Unidos, refugio da população aristocratica nos quentes días de verão. Uma perfeita cidade balnearia, muito fresca e saudavel, á beira-mar, olhando para o largo oceano e recebendo-lhe as emanações salinas, com um Cassino e um Passeio Publico.
Os banqueiros e a gente rica de Nova-York costumam fazer ahi o seu ninho de verão, e, de vez em vez, para amenisar a vida monotona que se leva n'esse pequeno mundo de simplicidade e conforto, promovem regatas na esplendida enseada que orla a cidade e que n'esses dias de festa maritima toma uma feição ridente e caracteristica de aguarella ingleza, com os seus
cutters
á vela, com os seus hiates de recreio bordejando ao largo como um bando de gaivotas pousadas n'agua...
Apostam-se milhões de libras. De França e de Inglaterra principes e lords vêm assistir e tomar parte no jogo.
A regata é um dos divertimentos predilectos dos americanos. Todas as cidades maritimas e fluviaes dos Estados-Unidos têm pelo menos um club de regatas.
Nota curiosa: em New-Port não se bebe alcool. É prohibida a importação de bebidas que contenham espirito, ou qualquer outra substancia nociva. Não se encontra um só botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante, uma simples limonada, fomos bater a uma pharmacia! Garantiram-nos que esse preceito contra o alcool é escrupulosamente observado n'aquella cidade. Custavamos a acreditar, mas, emfim, não havia geito senão ser delicados...
De resto, uma cidadesinha elegante e socegada, New-Port. O commercio ahi é quasi nullo.
No fim de oito dias o
Barroso
deixava de uma vez o paiz dos
yankees
, fazendo-se de vela para os Açores.
Já agora não nos doía muito a saudade desse bello e prodigioso paiz. O regresso á patria, depois de uma ausencia de quasi um anno, enchia-nos o coração de alegria.
Não fôra a perda de um companheiro em Nova-Orleans e voltariamos todos, sem faltar ninguem, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios de esperança.
Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado atraz, em terra extrangeira, n'um cemiterio de Nova-Orleans, um dos nossos camaradas.
Traziamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe comprehender tão bem o problema da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos. A idéa da morte não os preoccupa: um
yankee
triste é cousa rara e toma proporções de phenomeno.
Elles, os americanos, são geralmente alegres, bem dispostos, amigos do trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua patria mais do que qualquer outro povo.
A patria e a familia são os seus principaes objectivos. Menos egoistas que os inglezes, energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para se divertirem.
Esse povo verdadeiramente democratico não pede licções a paiz nenhum: engrandeceu a custa de seus proprios esforços e dia a dia prospéra, assombrando o mundo com as suas emprezas colossaes.
Si a Allemanha representa no seculo XIX a patria das sciencias moraes, aos Estados-Unidos compete o primeiro logar na ordem dos paizes que tem concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem estar humanos.
Emquanto as nações da Europa degladiam-se n'uma lucta continua, perdendo na guerra o que difficilmente accumularam em poucos annos de paz, a grande nação americana deixa-se estar quieta e desarmada, sem exercito e sem marinha, confiada no seu proprio valor, no patriotismo de seus filhos, certa de que, n'um dado momento, cada cidadão, cada americano saberá cumprir com heroismo o seu dever e honrar as suas tradições de povo independente e forte.
Go ahead! never mind; help yourself!
―eis a maxima de todo
yankee
. Elles não a esquecem nunca e marcham desassombradamente na vida, como quem tem absoluta confiança no proprio valor.
ceará―1890.