MULHERES E CREANÇAS
Reading edition
(NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO)

PORTO Editores―JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO Rua do Almada 209―1.º andar 1880
TYP. DE ALEXANDRE DA FONSECA VASCONCELLOS 29, Rua do Moinho de Vento, 29
Á Minha querida mãe
Companheira constante e fiel de toda a minha vida, offereço-lhe este livro humilde, que escrevi inspirada pelos seus conselhos e pelo seu santo e nunca desmentido exemplo.
CAPITULO I
Falla-se hoje muito a respeito da dissolução domestica, manifestada e provada constantemente por casos de divorcio, suicidios, questões miseraveis entre parentes proximos, rebelliões filiaes, etc., etc.
Surprehende a todos aquelles, que sem aprofundarem radicalmente as questões sociaes, se preoccupam todavia com ellas um pouco mais do que o vulgo, que este mal que todos sentem e que poucos definem, que este estado inquieto e doloroso que depois de agitar a familia assusta e perturba a sociedade, se haja aggravado justamente na época em que o homem auxiliado por grandes e immortaes pensadores, tem adquirido a mais elevada e justa noção do Bem que ainda lhe foi dado alcançar no seu caminho de seculos.
A manifesta e clara contradicção que hoje mais do que nunca existe entre as idéas e os factos desnorteia e desanima ainda os espiritos mais penetrantes.
Como é que o homem que tem domado a materia a ponto de fazer d'ella a escrava submissa da intelligencia; que forçou a grande e muda Natureza a tornal-o seu confidente e seu senhor; que arrancou ao astro e á planta o segredo immortal da vida que os anima; que penetrou―investigador implacavel―nas catacumbas das mortas religiões, e que ouviu de cada uma a palavra suprema que as explica e desvenda; porque é que o homem que tem hoje a percepção lucida e completa do seu destino, não soube ainda prostrar, vencer, amordaçar o animal indomito que vive dentro d'elle, que o martyrisa, que o rebaixa, que o leva muitas vezes ao abysmo, quando o não leva ao lodaçal? Se o bom e o bello lhe revelaram a sua larga claridade benefica, porque se não revigora elle, e se não robustece n'esse grande banho de luz? porque não estabelece uma harmonia perfeita e intima entre a idéa que fórma dos deveres e a sua manifestação pratica e vizivel?
Depois de havermos concedido ás paixõe Depois de havermos concedido ás paixões humanas o imperio relativo que ellas não podem perder, somos ainda forçados a confessar que na culpa d'esta desgraça que todos lamentam, compete ás mulheres um grandissimo quinhão.
Concorrem ellas em grande parte para dar força ao impulso que contraria a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel, que leva a civilisação no caminho da verdadeira luz. E concorrem por varias e complexas razões que devem analysar-se e depois combater-se.
Ignorantes impoem resistencia inconsciente ás transformações continuas do progresso.
Retrogradas por educação e por natureza, cada innovação se lhes affigura ou uma cousa inutil, ou uma cousa perigosa.
Amesquinhadas pela profunda escuridão intellectual em que jazem immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade, cançam-no com as exigencias loucas, gastam-lhe a força, o alento, as aspirações arrojadas e grandes na satisfação de desejos pueris, ou lhe destroem a dignidade e lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos d'uma imaginação doentia.
Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem da justiça que aos homens se deve o atrazo intellectual em que todas nós estamos.
Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este equilibrio necessario á manutenção da ordem na familia e na sociedade, cumpre que a mulher se não revolte contra a inferioridade a que fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a condemnam os costumes.
Para alcançarem porém esta submissão voluntaria entenderam desde muito, que o melhor meio consistia em condensar as trevas da ignorancia e da superstição em torno d'aquella de quem são forçados a fazer a sua companheira na vida, o seu consolo nas horas da provação, a mãe de seus filhos, a carne da sua carne.
Terrivel contradicção, systema absurdo que tem como resultado a lenta desorganisação da familia e que corrompendo a mulher atravez do homem, não póde deixar d'ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez da mulher.
D'um lado querem conservar-nos n'uma plana muito inferior á sua, como illustração, conhecimentos, intelligencia, isto para que nunca nos venha á idéa aspirar á perfeita igualdade dos direitos e dos privilegios; d'outro lado exigem de nós prodigios de virtude, de abnegação, de paciencia, de que só são capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da eterna Perfeição.
A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e a sociedade lhe impoem.
No dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel, o mundo terá dado um dos seus passos mais gigantescos no caminho da felicidade.
Educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver.
Educar a mulher é arrancal-a na infancia ao seu berço fôfo e tepido de beijos, e leval-a por caminhos d'uma magestade austera que ella nunca trilhou.
É preparal-a para a grande lucta moral que é a Vida, com os cuidados com que Sparta, a guerreira cidade antiga, preparava os seus filhos para as luctas do corpo, para as victorias da destreza physica.
É associal-a pela comprehensão e pela sympathia a todos os trabalhos e investigações do homem moderno; é dar-lhe ao lado d'este um lugar honroso e definido, não egual pois que são diversas as attribuições de ambos, mas equivalente em direitos e em deveres.
É fazer-lhe comprehender bem claro que as seducções do corpo―seu orgulho supremo e seu constante desvanecimento―quando não são reflexo da formosura e da robustez da alma, não passam d'um laço ignobil armado ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em si.
Educar a mulher é leval-a a compenetrar-se do seu papel providencial na familia, e achal-o grande, util, elevado, digno de saciar as mais levantadas ambições, e tambem―o que é d'uma importancia capital―de pezar como uma responsabilidade tremenda no animo mais altivo.
É dar-lhe uma idéa perfeita do dever e da justiça, um Ideal a que tendam incessantemente as aspirações do seu espirito, uma religião que a hypocrisia e os calculos interesseiros não maculem nem amesquinhem, que se resuma para ella no sacrificio e no amor, mas sacrificio sem voluptuosidades dissolventes e amor sem extasis hystericos e sem raptos de paixão sensual.
Não basta porém exprimir tudo que se ousa esperar da mulher de ámanhã, é preciso tambem lançar um olhar demorado e justo ao que é a mulher d'hoje.
Só assim poderão comprehender-se os erros que é preciso desarreigar, os preconceitos que é indispensavel destruir, a distancia enorme que temos de transpôr para chegar ao momento da sua completa e salutar transformação.
II
As divisões sociaes que hoje em face dos homens educados nos mesmos collegios, nas mesmas academias, nas mesmas escolas superiores, quasi que se não distinguem, ou se distinguem apenas por ligeiros cambiantes imperceptiveis ás vistas superficiaes, imperam ainda na mulher com extraordinaria força. Vamos pois procurar ás diversas classes as suas femeninas representantes, e pincipiemos pela mulher da classe media, classe que considerada no seu elemento masculino representa a intelligencia, a riqueza, o commercio, a industria, o progresso d'um paiz.
A mulher d'essa classe especial divide-se em dous generos accentuadamente distinctos: aquella que as vaidades sociaes ainda não corromperam, e aquella que pretende offuscar com os deslumbramentos da sua opulencia, as finas graças, as exterioridades elegantes, os requintes herdados e tradicionaes que pompeiam nas regiões mais elevadas da sociedade.
A primeira é evidentemente mais sympathica; é laboriosa e tem a rude sensatez plebeia da sua raça. Tem o amor dos filhos, um amor animal, um amor physico, mais instincto do que religião. Não raciocina mas sente com uma energia poderosa e creadora.
É d'uma ignorancia absoluta, ingenua, profunda, quasi sublime na sua cegueira. Imagina-se porém investida d'um dever supremo a que todos se subordinam:―o de proporcionar por todos os meios ao seu alcance o bem estar material do marido, e da familia.
Não tem conversação, não tem espirito, não tem aquella doçura benevola e intelligente que é para o coração dos homens o que o algodão em rama é para o ninho das aves.
Quando aconselha irrita; quando quer guiar contraria, quanto tenta convencer, despersuade.
É porém activa, aceada, robusta, fiel, e nas horas de adversidade, de doença, de desfallecimento ou de miseria, tem os carinhos rudes, tem a dedicação humilde, tem a vigilancia perseverante, tem o exemplo energico e fecundo por isso mesmo.
O homem anda lá fóra, na lucta, no trabalho, na investigação, na sciencia; vae vivendo e vendo como n'uma ascensão rude, desvendarem-se todos os dias horisontes novos, vae estudando e sentindo como n'uma iniciação progressiva dilatar-se-lhe o espirito, clarear-se-lhe o entendimento.
Ella a esposa, a sua companheira, a sua melhor amiga, ignora os seus combates, as suas glorias, as acres delicias do seu sacrificio, os desanimos, as horas de impotencia, as aspirações, os arrebatamentos triumphantes da victoria.
Percebe simplesmente se o marido está doente, se anda magro, se tem fastio, se tem roupa branca. Inventa-lhe pequenos pratos, manipula-lhe remedios caseiros, vigia para que lhe não faltem aquelles commodos que elle aprecia, tem prodigios de invenção espontanea para o envolver no bem estar tão necessario aos que se consomem n'uma actividade sem treguas.
De que ha de elle queixar-se? De nada.
É amado, é estremecido, obedecem-lhe cegamente, tem a certeza de encontrar ao seu lado sempre que o precise um sincero e leal affecto.
Mas quando um sentimento superior o transporta, quando uma grande idéa o levanta e ennobrece, quando um nobre desejo do bello e do bom lhe faz palpitar de enthusiasmo o coração, é debalde que elle busca junto de si o espirito que comprehenda o seu espirito, que partilhe as suas impressões, que lhe revele emfim intima, absoluta, indestructivel, essa união ideal sem a qual o casamento é espiritualmente infecundo e incompleto.
Isto tem de esmorecer fatalmente o impulso que levava esse trabalhador, esse homem de pensamento ou de sciencia á conquista e á posse da sua felicidade.
Sem que elle talvez mesmo dê por isso, uma tristeza indefinivel, vaga, sem traducção, lança como que um sopro esterilisador sobre as suas mais queridas concepções. Falta-lhe alguma cousa que elle precisava e que no entretanto não conhece nem sabe definir.
Falta-lhe o complemento do seu sêr!
Subamos agora na escala social mais um degrau.
O trabalhador incansavel venceu.
O dono da fabrica fez-se capitalista; o chimico enriqueceu com a sua descoberta; o medico alcançou uma popularidade subita; o industrial ganhou um milhão.
Elle é simples e modesto, lembra-se dos dias em que trabalhava e combatia, como dos seus dias melhores; não quer offuscar ninguem, basta-lhe hoje como hontem lhe bastava a consciencia do seu valor individual.
Ella porém a mulher―e eis a segunda variedade que acima citamos―ella que deixou penetrar na sua alma ignorante o veneno da vaidade, ella a quem o trabalho forçado já não absorve, e a quem as distracções elevadas e nobres d'um espirito culto são vedadas, ella que não pensa, que não medita, que não entendeu bem na sua acepção levantada e digna a missão exercida pelo marido pois que se envergonhava da pobreza honesta em que vivera largo tempo, eil-a que deseja esmagar as que a esmagaram n'outra época com o pezo da sua superioridade social, eil-a que opera a pouco e pouco, quasi imperceptivelmente, uma influencia funesta no homem, que o corrompe, e que o arrasta.
Emquanto elle tivera as serenas e robustas consolações do trabalho que a intelligencia illumina, e a que a intelligencia preside, tinha ella apenas na sua profunda escuridão mental, as pequenas humilhações, as raivas mal dissimuladas, os despeitos mal contidos.
Não podendo ter a consciencia do seu dever o que a faria sublime, só tivera a consciencia da sua inferioridade, que a tornara mesquinha e redicula. Chegando o momento da desforra exigi-a completa.
Leitora, quando tu vires passar triumphante, grosseiramente desdenhosa, mal sentada nos flaccidos coxins d'um
coupé
de oito molas, coberta de velludos e de rendas a altiva burgueza dos nossos dias, lembra-te que é o fructo pernicioso da ignorancia combinada com a mais feroz vaidade.
Ninguem a excede no absurdo desprezo por tudo que está abaixo d'ella, que é mais pobre, mais humilde, menos cheio de lantejoilas e de falsos brilhantes.
Tem as refinadas atrocidades do paria que se vinga.
Como para ella ser pobre foi o maximo dos martyrios e a maxima das humilhações envolve todos os pobres no mesmo olhar de cruel desdem.
As filhas d'esta mãe são as desgraçadas creanças que por ahi vendem a sua mocidade e os seus carinhos por um titulo avariado ou pelos milhões d'um negreiro enriquecido.
Não as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta educação que receberam, germens que teem no Não as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta educação que receberam, germens que teem no passado as suas raizes damninhas e que vão estender sobre o futuro a sua sombra deleteria e esterelisadora.
Combater estes erros, lançar por terra estes preconceitos deve ser a mira de todo o ser que pensa e crê!
III
Deixemos agora os
menages
modestos onde reina o trabalho ou os salões vulgarmente luxuosos onde a riqueza ostenta os seus vãos orgulhos, e penetremos no
boudoir
elegante, onde a mulher do alto mundo proclama o que se lhe afigura a sua incontestavel superioridade.
Ha um preconceito falsamente democrata, e digo
falsamente
porque a democracia tem obrigação de ser justa, imparcial e intelligente, que attribue aos restos desmantelados da nossa aristocracia, todas as culpas e todas as inferioridades.
Engano!
É verdade que a aristocracia portugueza avaliada no seu conjuncto, se annullou pela ignorancia, como a aristocracia franceza se annullou pelo desdem, e a prova temol-a nós em Inglaterra onde esta classe que não foi nunca ignorante nem desdenhosa, predomina com todo o pezo d'uma robusta instituição de seculos nos destinos politicos, economicos e sociaes da nação.
Hoje porém, o que em Portugal resta de uma raça que teve todos os privilegios e todas as prepotencias, tenta instruir-se de boa vontade, aspira a levantar-se pelo valor individual, e se raras vezes o consegue, é que o passado exerce ainda a sua influencia nefasta, é que a decadencia e o abastardamento das raças são uma verdade scientifica contra a qual nada póde a vontade humana.
A fidalga tradicional e lendaria, soberba, sem conseguir ser magestosa, ignorante, cheia de preconceitos, de rediculos e de toda a especie de idéas estapafurdias, olhando de muito alto com um pasmo idiota que aspira a ser desdenhoso, para as maravilhas d'uma civilisação que não comprehende, vae desapparecendo completamente até dos velhos solares da provincia acastellados e altivos.
Morre sem deixar saudades e sem ter quem a substitua.
Hoje as representantes femeninas das altas classes se não seguem um caminho mais verdadeiro, mais util, mais fecundo em resultados praticos, revestem ao menos a sua falsa percepção da idéa moderna, d'um prestigio que á primeira vista agrada e seduz.
A educação d'ellas, uma educação toda exterioridades brilhantes, se não é aquella de que carecem as mães, as perceptoras de futuro, estabelece comtudo e accentua incontestavelmente a sua superioridade social sobre as gerações que as precederam.
A influencia estrangeira e sobretudo a franceza, penetrou nas salas desbotadas dos nossos palacios e nas luxuosas residencias da nossa aristocracia moderna.
Se não temos a mulher de familia, a creadora de uma geração robusta, conscienciosa, crente e leal, temos a
mulher de sala
, que é uma nova face da transformação lenta por que vão passando as idéas e os acontecimentos.
A mulher de sala é um producto exotico entre nós.
A França recebeu-a da Italia, cultivou-a, transformou-a, deu-lhe todos os requintes falsos, todos os donaires artificiaes, ergueu-lhe um throno no seio das suas côrtes galantes, e deixou que nós, vendo-a de longe a cubiçassemos e tentassemos transplantal-a para os nossos costumes chãos, para a nossa pobreza envergonhada e modesta.
Sahiu-nos uma cousa hybrida e estranha, que não está em relação com o seu meio, deslocada, inutil, mas em todo o caso attrahente para os olhos superficiaes.
A mulher de sala falla umas poucas de linguas, com facilidade e fluencia; escreve bem, com uma certa graça adquirida que não occulta a frivolidade, mas que a envolve em véu rendilhado; conversa com vivesa e com chiste, sabe dar aos pequenos
nadas
da sua vida uma elegancia que illude os incautos. Quem a vê de longe, no scenario pomposo da sua opulencia, sente-se deslumbrado; quem a observar de perto conhece que ella tem de facto caminhado para se afastar das suas predecessoras, mas que o caminho que vae trilhando é como o que ellas trilharam, um caminho falso, um caminho sem sahida.
O primeiro obstaculo que a separa da verdadeira luz, é uma devoção inteiramente errada, em que a idéa luminosa e fecunda prégada pelo Christo se subverte e se afoga n'uma onda de preconceitos e de mentiras anti-christãs.
Se a mulher das classes inferiores estabelece entre si e o marido uma barreira enorme―a sua ignorancia―a mulher mais culta e mais educada das classes elevadas separa-se do marido, como se separa mais tarde dos filhos isolando-se na esphera inaccessivel do seu intransigente fanatismo.
Quando digo fanatismo, não quero referir-me a uma crença exaggerada e absoluta, que impere em todos os actos da vida, e que os subordine ás suas austeras exigencias.
É um fanatismo elegante, um fanatismo de
alta
vida
, bastante indulgente para se permittir todos os gozos sociaes, bastante severo para não admittir que haja virtudes, merito, nobreza, sublimidade possivel fóra do seu estreito gremio.
Aqui como alli é sempre o divorcio na familia debaixo de qualquer dos aspectos.
Aqui porém mais completo ainda, visto que a vida da sociedade exige mais da mulher, visto que n'esta existencia de representação exterior e pueril, nem ao menos subsiste entre a mulher e o marido aquella intimidade material, aquella protecção mutua que faz com que o homem seja o braço, o amparo, o sustentaculo, e a mulher o desvelo, a economia, a vigilancia continua, a dispensadora e reguladora de todos os confortos materiaes da familia.
A mulher de sala vive para todos, menos para os seus.
Veste-se, despe-se, reza, confessa-se, recebe visitas, tagarella, agrada, encanta, mas no meio d'este labyrintho de pequenas occupações, de pequenos deveres, de pequenas caridades officiaes, de pequenas praticas devotas, ignora completamente e absolutamente tudo que póde constituir a verdadeira missão da mulher no mundo e na familia.
Se alguem tivesse a ousadia de dizer-lhe:
―Julgas-te superior e moralmente fallando a mulher do povo que ganha com o suor do rosto ao lado do homem, o pão que os filhos hão de comer á noite, tem sobre ti superioridade moral incontestavel.
Julgas-te instruida e não tens no teu pequeno cerebro recheiado de insignificancias bonitinhas, a noção mais elementar dos milhões de cousas que precisas de saber para estares em harmonia com o teu tempo, para educares dignamente aquelles em cujas mãos estão os destinos de ámanhã.
Julgas-te virtuosa e não pratícas nem concebes sequer nenhuma d'aquellas virtudes sãs que são a dignidade, o imperio e a força da mulher.
Julgas-te religiosa e cada uma das tuas praticas acanhadas, cada um dos teus preconceitos mesquinhos te aparta da verdadeira religião que allumia e esclarece os fortes.
Julgas-te boa esposa e boa mãe e vives sósinha n'um mundo teu, povoado de phantasias morbidas, onde teu marido e teus filhos não penetram; não tentas acompanhal-os, consolal-os, comprehendel-os; nunca te veio á idéa que a mãe de familia precisa de viver no coração dos seus, identificada completamente com elles, para ser digna d'este sagrado nome!
Se alguem lhe dissesse isto ella julgaria ouvir fallar uma lingua estranha, ou rir-se-ia com desdenhosa incredulidade.
Pois é necessario que ella entenda esta lição, que ella ouça estas palavras, e que pelo seu esforço permanente e consciencioso, ella tente sahir das trevas intellectuaes e moraes em que a sua funesta e falsa educação a teem submergido.
IV
No meio do desalento profundo, da inconsolavel tristeza, que n'esta época parece obumbrar de espessas nuvens a alma do homem, e como que vencer-lhe as aspirações e as energias, erguemos a voz desauctorisada e humilde para apontar algumas das causas que produzem effeitos tão deploraveis.
Temos visto a desharmonia que existe no lar domestico, e encontramos como unico motor de tamanho desastre a desigualdade intellectual que a educação estabelece e nutre entre os dous sexos.
Mas não se trata sómente de observar as causas e os effeitos, trata-se de pensar n'um remedio que seja efficaz para este estado de cousas, que a prolongar-se indefinidamente produz a dissolução social nos seus aspectos mais dolorosos e mais repellentes.
Se a sociedade e a civilisação requintada e corrupta dos nossos tempos ainda não ensinaram á mulher o caminho verdadeiro e util que tem a seguir, antes d'elle a teem afastado mais e mais, ella póde ainda erguer-se do marasmo intellectual em que se compraz, e mostrar ao homem que é digna de coadjuval-o na sua obra de reedificação, digna de acompanhal-o na realisação pratica do que para elle, desajudado e só, não tem passado d'uma bella concepção theorica onde ás vezes transluzem não sei que visos de chimera.
Todos os seculos teem mais ou menos acceitado a herança dos seculos precedentes.
Ao nosso cabe porém a gloria de ter renegado muitos erros do passado, de ter proclamado a sua independencia, de ter produzido um reviramento absoluto n'esse conjuncto de idéas, de conhecimentos, de aspirações e de theorias que constituem o
ideal
humano.
O que hoje se exige da mulher é positivamente o contrario do que a sociedade antiga affeiçoada por moldes diversissimos exigia até agora.
Este ponto d'uma importancia capital precisa de ser esclarecido a fundo.
Á escravidão absoluta a que o nosso sexo se curvou sob o imperio de religiões extinctas, á bruteza dilacerante em que elle viveu submerso entre as sombras das idades barbaras, succedeu―e succedeu providencialmente―a apotheose da mulher divinisada pelo christianismo, aureolada por aquella poesia artificial, exageradamente requintada e platonica dos trovadores da Edade media, e aquella abnegação amorosa e idealista dos paladinos da cruz!
Essa transformação radical no destino da mulher fez sentir a sua influencia até hoje, em phases e gradações successivas e diversas.
Á castellã de repente acordada do seu lethargo mental, pela tiorba namorada do pagem, ou pela supplica ardente do cavalleiro, succedeu a rainha das
côrtes de amor
, a que erigia em dogma ideal o adulterio, a que proclamava em sentenças
preciosas
a quebra de todos os laços da familia, a que via no amor requintado, falsamente seraphico, um direito superior a todos os direitos e deveres domesticos. Veio depois a gentil pagã da Renascença, a inspiradora dos artistas, a amante dos papas, a musa dos loucos poetas, a princeza dos festins, erudita, apaixonada, intelligente, cheia de phantasias superiores, que se era virtuosa se chamava Victoria Colonna, e se era dissoluta se chamava Lucrecia Borgia.
A esta que correspondia ao seu meio social, que cumpria uma missão civilisadora, que tinha o seu destino marcado, e a sua orbita descripta succedeu a mulher de sala do seculo XVII e do seculo XVIII, de que hoje só temos a descendencia amesquinhada, decadente, anachronica, e, o que é peor de tudo, inutil quando não é funesta, ridicula quando não é tambem perniciosa, o que lhe succede quasi sempre.
O homem que muitos seculos considerou a mulher um animal inferior e mal domesticado, fez d'ella movido por influencias que não podemos historiar aqui, o seu luxo, a sua poezia, o enlêvo das suas horas de ocio, depois novamente a escrava dos seus vicios ou o instrumento dos seus prazeres, e por fim um mero ornamento social, um brinquedo sem importancia, uma creança indocil, ante a qual se curvava, não porque a respeitasse mas porque n'esta falsa e mentida submissão encontrava novos requintes de prazer.
Não comprehendeu porém que era victima da sua propria injustiça, que a corrupção da mulher se convertia para elle em gangrena, que o seu amesquinhamento se lhe communicava em villeza, que a sua ignorancia o fazia tambem retrogradar, que ha relações reciprocas que não podem quebrar-se, e influencias mutuas a que os dous sexos ao mesmo tempo divorciados e unidos, não podem por mais que queiram furtar-se.
Hoje uma corrente de ar puro, a corrente das idéas democraticas, purificou a atmosphera viciada onde uns poucos de seculos haviam deixado os vestigios das suas paixões insalubres.
Tudo se transfigurou sob esta influencia benefica. Fez-se uma grande claridade na alma dos povos e na dos individuos, o pensamento reconquistou a sua independencia perdida, e uma voz firme e poderosa bradou bem alto:
―Não se tracta de continuar no caminho que iamos trilhando, tracta-se de procurar uma nova direcção que nos conduza á verdade.
Ouvir esta voz é renunciar aos erros do passado, e cumpre que nós mulheres renunciemos a elles, para não caminharmos por uma estrada opposta áquella por onde vão subindo fortes, illuminados, convencidos, os nossos paes, os nossos esposos, os nossos irmãos.
Não é a uma penna tão obscura como é a minha que pertence dar leis absolutas sobre um systema de educação diverso do que hoje está geralmente adoptado.
Limitar-me-hei rapidamente e apenas animada com a força da consciencia, consultando o bom senso que é apanagio dos mais humildes, e a observação que póde ser partilha dos mais pobres, a indicar alguns dos obstaculos que nos separam moralmente d'aquelles de quem sômos companheiras e de quem devemos ser auxilio e complemento.
A vida da sociedade é uma vida toda de egoismo e de vaidade, a vida de familia uma vida de renunciamento e de abnegação.
Para viver na sociedade a mulher só precisa de ser exteriormente agradavel, para viver na familia a mulher precisa de ser forte.
O mundo exige as graças, as garridices, as subtilezas do espirito, as louçanias do tracto; a familia sem prescrever inteiramente aquellas, exige acima de tudo a consciencia firme, a idéa clara e definida dos deveres, o espirito do sacrificio, e aquella energia branda que resiste ás tentações dissolventes do peccado.
Entendemos pois que os esforços de todos os educadores, de todos os que se preoccupam com o futuro da sociedade devem convergir para annullar a mulher dos salões, e para crear e fortalecer a mulher da familia.
Não nos revoltamos contra as graciosas futilidades que hoje constituem a educação feminina, não as condemnamos a um completo ostracismo, desejamos simplesmente vel-as collocadas no lugar que por sua natureza lhes compete. São simples ornatos decorativos, como taes os applaudimos e os queremos, não como fundo solido e base de todo o cultivo intellectual da mulher.
Tambem não pedimos para o nosso sexo a emancipação, essa utopia de que hoje se falla tanto e com tantas banalidades impensadas.
O que nós desejariamos era vêr na mulher uma personalidade robusta e consciente, inaccessivel ás chimeras da sentimentalidade, solidamente e despretenciosamente instruida, tendo todas as noções praticas necessarias para subordinarem o seu destino ás leis do bom senso, ao alcance de todos os descobrimentos e de todas as conquistas do seu tempo, comprehendendo o bello debaixo de todos os seus aspectos; prompta para perdoar o mal mas não para transigir com elle; sabendo resistir-lhe mas sabendo explicar as circumstancias que o attenuam ás vezes.
Tendo acima de todas as religiões a religião do Bem, sacrificando-se aos seus affectos, mas sacrificando-se principalmente aos seus deveres.
Laboriosa como condição indispensavel da propria dignidade.
O trabalho é a redempção.
Não ha mulher que não tenha conhecido mais ou menos fugitivas, mais ou menos traiçoeiras, mais ou menos perigosas, essas horas más chamadas tentações. O trabalho é a salvaguarda para essas horas.
Os espiritos ociosos são os espiritos accessiveis.
No dia em que este novo ideal tiver tomado uma fórma tangivel até para os mais humildes e para os mais ignorantes a familia estará salva, porque terá por esteio a moralidade.
Até então ha de haver as incertezas, as duvidas, as vacillações, os desalentos que tornam esta hora da vida das nações, uma hora contradictoria, estranha, profundamente dolorosa, que já não tem raizes no passado sem ter ainda um ficto no futuro.
Trabalhem todas as mães n'esta obra sublime, e como a mythica Minerva sahiu armada do cerebro olympico de seu pae, assim a mulher sahirá do ninho em que se educou, já prompta para receber a pé firme o embate tempestuoso das paixões, que se a vencem a inutilisam e a degradam.
CAPITULO II
O falso luxo
I
Na nossa pequena sociedade de Lisboa, em que os meios estão em completo desequilibrio com os desejos, chega todos os annos um periodo, o periodo que antecede o carnaval, em que nos julgamos mais ou menos obrigados a sacrificar ao amor da sociabilidade.
Entendemos que uma sociedade civilisada não póde viver sem festas e sem saraus, portanto é necessario que sem hesitação façamos tudo que nos seja possivel, e mesmo impossivel, para darmos e recebermos saraus e festas.
Ouço eu por ahi dizer e affirmar que os talentos e os genios enxameiam como papoulas nas seáras de abril.
Não duvido, não senhor; temos talento, temos genio, temos superioridade, temos phantasia, temos tudo quando quizerem.
O que nós não temos é uma cousa pequena, humilde, despertenciosa, desdenhada.
Não temos
bom-senso
.
Não quero aqui entrar na questão muito complexa e muito complicada de saber se as festas, se os bailes, se os jantares de gala, se todas as ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no desenvolvimento da industria, no progresso da civilisação moderna alguma influencia benefica.
Em outros paizes mais ricos, em outras nações mais industriaes, em outro regimen mais favoravel ao luxo creio que sim.
Entendo eu, porém, que as leis geraes não se podem applicar a casos especiaes, e que nós não podemos conservar a vida falsamente luxuosa que é e continuará a ser por muito tempo o nosso ideal supremo!
Em Lisboa haverá cem familias que estejam no caso de gastar em superfluidades um rendimento avantajado.
Mas, como o amor da representação é o nosso cunho nacional, como o desprezo pelos pobres é o timbre e o brazão da nossa sociedade, como o luxo é o sonho e a aspiração constante de todos os cerebros juvenis, provém d'aqui que dia a dia, se sente na familia uma perturbação e uma desharmonia mais graves que o contentamento intimo e desinvejoso vae-se tornando uma flôr rara, que só aqui ou alli enfeita suavemente a fronte ignorante de uma collegial de quinze annos!
Depois, como se não póde vencer o impossivel, mesmo as que empregam os maximos sacrificios para apparecerem e brilharem, depois de alcançado o fim a que aspiravam, ficam mais tristes e mais despeitadas do que antes de o ter realisado.
No baile, á luz opalina dos lustres, no aroma capitoso das violetas, entre as magnificencias avelludadas das camelias, percebem―e com que amargo desespero!―que o seu vestido não está fresco, que estão machucadas as suas flores, que a ninguem illude o amarellado artificial das suas rendas falsas, e que o
strass
não póde substituir com muita vantagem os diamantes verdadeiros.
Oh! quantas privações, quantos sacrificios, quantas luctas conjugaes, que scenas intimas, para alcançarem aquella
toillete
mesquinha, desbotada, humilhante, que parece ter malicias diabolicas em cada uma das suas pregas, a rir-se ferozmente no seu
fru-fru
escarnecedor.
E a dona d'esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia concentrada, que põe manchas biliosas nas suas faces, e chispas sombrias nos seus olhos pisados.
―«Não consigo humilhar nenhuma das minhas inimigas, não venço nenhuma das minhas rivaes! As pobres adivinharão todas as penas que esta hora de ostentação me tem custado! as ricas terão dó, um dó profundo da minha miseria mal disfarçada e mal occulta! Que ganhei eu com isto?»
Ganhou, minha senhora, ganhou alguma cousa, póde crer. Ganhou a certeza de que seu marido ou não a estima já, se é honesto e digno e tem a alta comprehensão dos deveres da familia, ou continua a sentir o mesmo que até alli tinha sentido, uma paixão insalubre ou uma indifferença bestial, e n'esse caso não passa de um homem tolo, ou de um homem máu!
Ganhou o haver definido, de si para comsigo a sua propria situação; ganhou o reconhecer bem a que especie de marido entregou o destino de seus filhos e o seu.
E não se diga que ha n'estas minhas palavras demasiada acrimonia, ou injustiça flagrante.
O nosso defeito consiste positivamente n'isso: em dar pouca attenção a todas as cousas; em ver os resultados sem observar e sem julgar as causas; em perdermos completamente de vista, que não ha effeito por mais mesquinho que não seja o corollario de uma lei importante.
Não quero, já se vê, condemnar sem appello as senhoras que frequentam a sociedade e se habituam á atmosphera artificial dos salões.
Quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem, só dez é que o podiam fazer, e que o nosso modo de ser social se não coaduna com esses costumes pomposos, restos e herança de um extincto regimen.
Para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia apontar para a França de Luiz XV e para a França do segundo imperio.
A historia e as chronicas d'esses dias de ominosa memoria revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto é escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz á immoralidade, ao impudor da mulher e ás deshonestas transigencias do homem.
Não queremos, porém, n'este estudo despretencioso evocar a historia, nem revolver o lodo das passadas corrupções.
Queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras, e queremos fallar chãmente, simplesmente, sem declamações, nem idéas preconcebidas.
Todos sabem que o nivelamento das classes, a livre divisão dos bens, a democratisação das fortunas, se teem conseguido debellar muitas e crueis injustiças sociaes do passado, teem sido tambem a destruição das colossaes fortunas de outro tempo.
Hoje, quando essas fortunas por acaso existem, são creadas pelo trabalho em grande escala, pelas importantes emprezas commerciaes, pela actividade devoradora de homens privilegiados.
Já se não fundam como antigamente em direitos estaveis e indestructiveis. São ephemeras, contingentes, dependem de muitas causas com que se não póde absolutamente contar.
Uma crise financeira, uma guerra européa, uma quebra importante, um abalo qualquer de credito, e eis por terra um edificio assombroso e complicado que parecia dever resistir ao embate de todas as tempestades, e que um sôpro logra alluir!
Ora, se isto tem relação com as grandes fortunas, se nem ellas podem contar com o dia de ámanhã, que farão os que não possuem mais que o necessario, os que ás vezes nem isso possuem?
Antigamente, no modo por que estava constituida a hierarchia social, uns tinham todos os bens, e outros soffriam todos os males; hoje como todos teem eguaes direitos, todos querem ter eguaes regalias.
Seria isso muito bom, se a egualdade que existe entre as prerogativas podesse existir tambem entre as riquezas, se em vez de haver pobres e ricos, houvesse sómente ricos, cousa a que nem os mais exaltados socialistas se lembraram ainda de aspirar.
Ora, se está sobejamente provado que, principalmente no nosso pequeno paiz, ha uma minoria pequenissima que é rica, ha uma maioria enorme que é miseravel, e ha, entre os dous extremos, uma classe, a mais importante―no fim de contas, visto que tem a superioridade da educação e da intelligencia, que é simplesmente remediada, porque é que não havemos de sujeitar o nosso regimen social ás exigencias e necessidades d'essa classe, que é a predominante, senão pelo numero, ao menos pela influencia que exerce?
Essa classe póde conhecer as distracções de uma agradavel intimidade, mas não as pompas decorativas, as ceremoniosas galas de uma vida de salão apparatosa e futil.
Se os filhos d'essa classe olhassem para baixo e vissem as privações, as luctas, as miserias dos que só conseguem com o suor do rosto ganhar um pedaço de pão duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido, de certo que se sentiriam felizes, triumphantes, dignos de inveja, na sua mediocridade aurea, na modesta fartura da sua vida domestica, nas distracções intimas de um circulo affectuoso e limitado.
Mas não! Olham para cima, vêem os ricos, os potentados, os dominadores do seculo, ouvem nas tentações febris das suas noites o tilintar magnetico do ouro, vêem passar no fundo dos seus ligeiros coupés, pallidas e desdenhosas mulheres, que medram como flôres exoticas de fulva folhagem metallica na estufa das suas salas opulentas, sentem em si o desejo insaciado de todos os prazeres que não teem, e sem prudencia, sem pudor, sem dignidade, atiram-se ás especulações vergonhosas, transigem com a sua propria probidade, vendem, desde os bens que herdaram de seus paes, até á consciencia que lhes veio de Deus, e quando conhecem que n'esta lucta ingloria, n'esta lucta impossivel só podem ser vencidos, já não é tempo para retrocederem no funesto caminho encetado!
E que não ha parar n'esta ingreme descida.
Teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz para com o sexo a que pertenço; que accuso com muita injustiça as mulheres de todos os males que teem succedido, que succedem ou que estão para succeder no nosso mesquinho planeta.
Ora eu, pelo contrario, estou convencida de que o meu orgulho, de que a minha vaidade feminil me levam a dar ás mulheres uma importancia que mais ninguem lhes quer reconhecer.
Eu digo que d'ellas provéem todos os males, porque estou convencida―talvez sem razão―que d'ellas podiam provir todos os bens.
Ainda no ponto de que se tracta é d'ellas toda a culpa, no meu humilde entender.
Sim, porque no fim de contas, não são os pobres maridos que mais desejam figurar nos bailes e nos saraus, e que de boa vontade sacrificam a commoda poltrona em que podiam dormir a sesta, o bom e saboroso jantarinho que podiam comer, o livro util e proveitoso que comprariam, para gastarem esse dinheiro n'uma
toilette
falsamente luxuosa, n'uma
soirée
ridiculamente burgueza, n'um jantar de ceremonia cujos acepipes, na opinião do conviva mais guloso, seriam só dignos de figurarem n'um banquete de theatro com pratos de... papelão.
São as mulheres que teem sempre a louca ambição de figurarem ao par de outras mais ricas, embora n'essa lucta desigual só consigam tornar bem visivel e bem grotesca a sua derrota!
São as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o indispensavel elemento para a sua completa felicidade.
São ellas que arrancam ás primeiras necessidades do
ménage
, á carne que os filhos devem comer, ás roupas brancas da familia, aos abafos do inverno, á lenha do fogão das noutes frias, á mobilia commoda e confortavel das casas, ao peculio das doenças, ao asseio e ao conforto domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo ridiculo, esse luxo de
pacotille
que não illude, nem excita a commiseração de ninguem.
E quando ellas percebem no olhar e na bôcca dos que assistem a essa lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem, são ellas que irritadas, desvairadas, fóra de si, arrastam o marido á extravagancia, á dissipação, á prodigalidade, ao crime, e arrastam os filhos á miseria e á desolação!
Nada mais funebre, mais triste, mais sombrio do que o interior de uma d'essas casas, em que o necessario é sacrificado ao superfluo, em que o real é sacrificado ás apparencias, em que o conforto intimo é sacrificado ao apparato exterior.
As criadas sujas, despenteadas, petulantes; as creanças pallidas, anemicas, sem educação e sem solas; com os dentes podres e nodoas no vestido; os moveis indiscretos na mal disfarçada miseria, uma unica casa elegante―a sala―falsa taboleta de uma vida de imposturas; a roupa branca do marido encardida e grosseira, a
toilette
da mulher vistosa e
mirabolante
. As côres
tapageuses
, substituindo a qualidade fina e solida; a multiplicidade dos arrebiques, substituindo a simplicidade opulenta do trajo.
Quem depois de conhecer dous annos estas galés conjugaes, se resigna a viver n'ellas?
Os pequenos preferem o collegio sordido e brutal; o homem foge para o botequim ou para outros sitios peiores; a mulher vive na rua, na modista, no theatro, nas salas do seu conhecimento, no passeio, na ociosidade e depois Deus sabe em que!
Eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo.
Afastemos porém os olhos d'estes quadros sombrios e que no entanto, leitora querida, tu bem sabes que não são carregados.
Imagine-se que transformada a sua educação, a mulher se formava unicamente para o interior da sua casa.
D'essa casa não fugiriam de certo os amigos fieis e dedicados, não se excluiam as pequenas reuniões intimas, a musica, as conversações artisticas, as leituras agradaveis, os alegres e joviaes serões.
O que se excluia sem appellação eram os inuteis apparatos.
Como a mulher tinha em mira ser só agradavel aos seus, deixava logo de armazenar todas as suas armas―o espirito, a graça, o sorriso, a amabilidade―para distrahir os estranhos, para agradar aos indifferentes.
Como desejava fugir ao tedio, á melancolia, ás enervantes tristezas da solidão, aprendia a dispensar as companhias banaes, fazendo seus companheiros, os melhores, os que nunca atraiçoam, os livros, a musica boa, as flôres, o trabalho.
Logo que, em vez de se enfastiar em casa, ella se, divertisse e se achasse bem junto dos seus, elles começariam mesmo involuntariamente a sentir-se aquecidos por essa boa e salutar influencia.
Ninguem póde estar aborrecido ao pé de uma pessoa que se diverte francamente.
O marido por mais que os negocios de fóra o preoccupem e enfadem, por mais que as luctas da arte, do commercio, da politica, da industria, o cansem e mortifiquem, ha de sentir forçosamente um raio de bom e salutar contentamento ao pé da esposa que volitar em torno d'elle viva e chalreadora como um pardal, fresca como uma flôr, animada, activa, cheia de invenções felizes, e de sincera e desaffectada alegria!
E depois, eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia, eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes, as preoccupações mais absorventes, as luctas mais dolorosas, os despeitos mais corruptores.
Temos visto varias vezes o seguinte: O homem trabalha para dar o bem-estar á mulher, e rouba para lhe dar o luxo!
É que―note-se isso bem―o luxo quando não é a atmosphera natural em que se nasceu e se tem sempre vivido, uma cousa que á força de estar identificada comnosco, nós já nem se quer percebemos―o luxo quando é o fim a que aspira a nossa desenfreada ambição, torna-se um elemento profundamente desmoralisador.
Enerva o corpo, excita fatalmente a imaginação, aggrava a insaciabilidade natural aos desejos da mulher, dá-lhe a idéa de requintes romanescos, de aventuras, de amores vedados, attrahe um cortejo de voluptuosas tentações.
A vida das salas é a consequencia inevitavel do amor do luxo que devora a mulher de hoje.
Não a mulher de uma certa e determinada classe, a mulher de todas as classes sociaes.
A esposa do alto financeiro, do colosso da industria, deseja vestir-se de um modo que logo de uma vez córte pela raiz na alma ainda mais ambiciosa o desejo de a vencer.
Ora, como este desejo se nutre de difficuldades, todas as que estão no mesmo caso d'ella travam a lucta e empregam os mais loucos esforços para lograrem a palma.
As raras flôres da nossa velha aristocracia, não querendo ser desthronadas pelos potentados modernos, entram, já se vê, no combate com grave transtorno das bolsas de seus respectivos maridos.
A nenhuma d'ellas cabe completa victoria; se as rendas de Bruxellas que guarnecem o vestido d'esta são mais preciosas, os diamantes que enfeitam o collo e os braços d'aquella são mais raros; se a
traine
de velludo d'est'outra é mais distincta, a tunica de setim e ouro da outra é mais singular.
E o combate recomeça mais feroz, mais acceso, mais desapiedado.
Cá em baixo a lucta toma as mesmas fórmas. É a lucta da falsa riqueza, a lucta das pedras que fingem brilhantes, das
imitações
que fingem rendas, dos vestidos concertados que fingem vestidos novos.
São mais profundos ainda os despeitos, é mais desesperada ainda a energia que se gasta!
Quem vive esta vida ardente, inflammada de ambições insalubres, exaltada de mesquinhas invejas, corroida de miseraveis tricas, não póde, não sabe, não tem forças para ser boa esposa, boa mãe, boa dona de casa!
Pintámos em traços rapidos a vida das nossas mundanas; procuraremos desenhar, se tanto nos fôr possivel, a vida que ambicionamos e desejamos para a mulher de familia.
No dia em que ella a quizer adoptar, reconquistar-se-ha a serena dignidade, a tranquilla doçura do lar domestico, que pouco a pouco se vae tornando desflorido, melancolico e deserto.
II
Nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato, a vida da sociedade, a
vida de sala
, pela influencia corruptora que ella exerce nos costumes e nos sentimentos, e pela absoluta desharmonia em que ella está com a moderna concepção da familia e da sociedade.
No entanto não basta só lavrar a condemnação de um modo de ser social, é necessario apontar o remedio, ou pelo menos apresentar um alvitre que á nossa consciencia pareça proficuo e salutar.
As mulheres gostam da vida frivola e inutil dos salões, pelos seguintes motivos:
―Porque as salas são o theatro dos seus triumphos e conquistas.
―Porque é ahi que ellas são lisongeadas, louvadas, incensadas e queridas.
―Porque os homens só prestam homenagem ás mais bonitas, ás mais vaidosas, e ás mais ricas, na realidade ou na apparencia.
Além d'estas causas que as levam a gostar da representação e da pompa mundana, ha outras dependentes d'estas ou relacionadas com ellas, que as levam a aborrecer-se no interior das suas casas.
Primeiramente, e acima de tudo, a falta de uma educação solida e positiva, que as faça encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto. Um aspecto de seriedade e de justiça, assentando na comprehensão de todos os deveres.
Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de uma fórma sympathica e attrahente as suas obrigações de donzellas, de esposas, de mães, de donas de casa.
Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos recebidos, e a falsa educação mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um perigo, o maior de todos os perigos que ameaçam a familia.
Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim enfastiar as minhas leitoras.
É necessário antes de tudo transformar radicalmente a educação das mulheres.
Muitas das cousas que hoje se ensinam é mister que deixem de se ensinar.
Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente.
Outras ha ainda a que ninguem attende e que se não ensinam, e é positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada attenção.
Tratemos de apresentar exemplos das tres asserções que acabamos de apresentar.
Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de uma educação perfeita.
Ha a
dança
: um talento absolutamente dispensavel, que nas meninas só serve para desenvolver a
coquetterie
, o desejo de brilhar e de agradar.
A
tapeçaria
: um pretexto futil para estragar o tempo. Em quanto a mão vae preguiçosamente bordando a talagarça, a phantasia irrequieta da mulher, da creança, corre e vôa por montes e valles, á procura de um vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a este genero especial de trabalho feminino, a
hypocrisia da preguiça
.
Como estas duas cousas, ha muitas mais que não temos tempo de enumerar, mas que se não são nocivas como a primeira, são pelo menos inuteis como a segunda.
Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar a ensinar-se, mas ás quaes a educação tal como está rotineiramente estabelecida, não sabe dar a importancia e o valor devido.
São a musica, a historia, as linguas, a geographia, a arithmetica, etc., etc.
O primeiro cuidado de toda a mãe vaidosa ou illustrada, intelligente ou mediocre, é que as suas filhas aprendam a tocar piano.
Muito bem.
É preciso, porém, advertir-se que a
monomania do piano
, tal como ahi anda inoculada e propagada, é um flagello, um temivel flagello e nada mais.
A musica é de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e á alma do homem.
Modera, dulcifica, adormenta, consola, estimula, apaixona, enternece e muitas vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos, enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as resistencias viris do caracter.
É uma amiga, póde ser uma cumplice.
Em todos os casos é um grande, um milagroso, um divino, um terrivel poder.
Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia profunda que exerce, não é dado a todos interpretal-a e comprehendel-a.
Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber sequer adivinhal-o ou presentil-o.
Quantas vezes não temos visto uma pobre mulher boçal, uma modesta e ignorante creatura, chorar de commoção ouvindo as notas tristes de uma flauta ou de uma guitarra!
Não tem a consciencia da commoção que a perturba, mas vibram-lhe os nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella palpita e estremece como que agitada por uma potencia ignota.
Como todas as artes, a musica só póde ser interpretada por quem a comprehenda com o seu espirito, e por quem a sinta com o seu coração.
De outro modo é uma profanação e é um escarneo.
Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo de educação, mas exigimos que haja intelligencia e vocação nas pessoas que a aprendem.
Não é fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo.
Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua influencia moralisadora, a sua missão artistica, as mães escolherão de entre as suas filhas, aquella ou aquellas que mostrarem predisposição para este genero de estudo e auxiliarão por todos os modos o desenvolvimento d'essa vocação.
O piano deixará de ser o flagello e a peste das
soirées
sem ceremonia, o tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio das proprias executantes. Não reinará exclusivamente como até aqui esse despotico e terrivel instrumento.
Não se dirá das meninas
bem educadas
:
toca admiravelmente
, subentendendo já o malfadado
piano
.
Dir-se-ha mais acertadamente:
sabe musica
,
toca muito bem violoncello
, ou
harpa
, ou
rebeca
, ou
piano
mesmo, porque nós não queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario queremos livrar os outros do ostracismo a que estão injustamente condemnados.
Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem cultivar a sua vocação musical, muitos bens proviriam á educação da mulher.
A musica executada só por quem a entendesse, ouvida só por quem a apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, uma elevada distracção artistica.
Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a consolação no meio d'elle.
Os velhos mestres allemães com as suas largas e simples harmonias, ouvidas á noute no serão modesto da familia, ao pé de um ou dous amigos intelligentes e sinceros, penetrariam o coração da mulher de uma serenidade affectuosa e dôce, de um casto enternecimento salutar!
O que dizemos da musica instrumental tem applicação a todas as outras artes.
O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo.
Todas merecem o nosso respeito, não como adornos pueris, mas como elementos de util e fecunda moralisação.
Sempre que a mãe ou que a educadora descubra em sua filha, ou na sua discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade intellectual, deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa vocação espontanea.
Mas que a educação de todas não seja pautada por um molde uniforme!
Mas, por Deus! que não se faça d'esta grande e sublime missão de cultivar um espirito infantil, uma questão de moda, uma questão de vaidade, uma questão de mutua inveja mesquinha.
As linguas são hoje ensinadas com muito esmero.
Mas que applicação se dá a essa sciencia adquirida em muitos annos de estudo e de pratica?
Uma applicação deveras ridicula!
Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, allemão ou italiano, não ha quatro que tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou Montaigne, Shakspeare ou Milton, Goethe ou o Dante, não ha quatro sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do pensamento e da palavra.
E no entanto para que servem as linguas estrangeiras?
Não passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noções, factos, idéas, conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas.
Na lingua de um povo está consubstanciado muito do que elle é moral, physica e intellectualmente. Penetra-se no caracter de uma nação conhecendo a fundo as locuções de que ella se serve.
E quem é que hoje encara as linguas d'este modo a não ser algum philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo embebecido nos seus estudos?
É preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague, para que as linguas estrangeiras tomem na educação o lugar que lhes compete.
A historia, que é um apontoado de datas e de nomes proprios, de dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na educação das mulheres o que ella é já no espirito dos criticos, seria um estudo attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade mais poderosa e dominadora.
A geographia, que não é mais do que uma arida e enfadonha nomenclatura, animada pelo espirito da mãe intelligente, levaria a imaginação infantil, não já pelos paizes chimericos, do sonho e do impossivel, mas por essas regiões pittorescas, onde tanto ha que vêr e que aprender.
Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a biologia, abririam ao espirito já preparado, horisontes larguissimos, onde pudesse espraiar-se livremente.
Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas cousas que hoje não sabe, mas ás quaes a conduziria naturalmente, o novo methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada, fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje tem.
Teria grandes vantagens esta modificação profunda no seu modo de ver, de pensar e de sentir.
Vulgarisada para todos a educação cujas bases apontamos, desapparecia da sociedade essa entidade singular chamada
mulher pedante
.
É extraordinario mas é verdade, a ignorancia das outras é que constitue o pedantismo d'esta.
Sendo uma excepção no seu meio, tem as qualidades e os defeitos das
excepções
.
Comprehende que é alvo da curiosidade, do pasmo, da observação dos que a rodeiam, e a pouco e pouco vae cahindo n'uma
pose
artificial que a torna ridicula.
Poucas são as que téem a coragem de―tendo um lado superior―se conservarem simples, desartificiosas, naturaes.
Lêram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral, produzem um vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas!
Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma excepção admiravel, como ellas, as pobres
mulheres pedantes
se sentiriam humilhadas e deslocadas!
A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das tôlas, e acabaria por desapparecer completamente.
A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si recursos sufficientes não só para entreter os seus, como tambem―e é isto o principal―para se
entreter a si
.
É essa a grande questão!
É preciso que as mães preparem o espirito de suas filhas de modo que ellas não precisem dos outros para viver contentes.
E como se ha de conseguir este fim?
Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores que ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas acquisições intellectuaes, para que d'essa harmonia interior resulte para ellas uma exacta e elevada comprehensão da vida!
E não é muito o que nós exigimos.
Somos a primeira a confessar que hoje ha muito mais esmero e apuro do que havia antigamente na instrucção que as classes abastadas dão ás suas filhas.
Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta é a ligação logica entre as varias cousas que aprendem, é uma concepção mais larga das mesmas sciencias que adquirem, é o conhecimento das proprias armas que possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado Tedio.
Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o sacerdocio de esposa, de mãe, e de dona de casa.
As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir noções praticas, idéas justas, factos positivos; como meios de comparar, de julgar, de aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que o desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as differentes manifestações do bello e de as poder relacionar entre si.
A Historia, com o fim de conhecer através d'ella a humanidade de todos os tempos, de seguir a sua lenta e continua evolução, e de penetrar lucidamente no sentido da palavra―progresso.
O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica, e revigora as crenças. Dá ao espirito, além de notavel perspicacia, grande justeza de pontos de vista.
Viriam depois, como já dissemos, a geographia natural, a arithmetica, a geometria, as sciencias da natureza, e isto harmonicamente, progressivamente, de deducção em deducção, sem esforço, ligando um conhecimento a outro conhecimento, n'uma cadeia logica e inquebrantavel.
Juntamente com estas
acquisições
uteis, e como que amenisando os esforços que ellas por ventura custassem, a mãe intelligente levaria sua filha a cultivar especialmente a arte para a qual sentisse mais accentuada vocação.
Preparada por esta iniciação em que o espirito fosse exigindo dia a dia alimento mais substancioso e mais forte, á proporção que mais rico de vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado é dizer, que nenhuma mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas delicias o encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua vida.
Seria uma ascensão gloriosa e lenta, ás alturas onde se respira um ar mais puro e mais subtil.
D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A idéa do dever, esta idéa que é o remate e a corôa da educação perfeita, apresentar-se-lhe-hia como um resultado natural de todo o trabalho interior que no seu espirito se houvesse feito.
Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir.
A educação deixaria de ser um fim e tornar-se-hia o meio elevado e transformado de alcançar a perfeição moral.
Resta, porém, fazer uma pergunta que está no animo de todos.
Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre á banalidade da esphera limitada em que tem vivido até agora, a cumprir as mesmas humildes obrigações, que teem sido e continuarão a ser a sua tarefa quotidiana, e o seu quinhão na vida?
De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu cultivo intellectual não nos será difficil provar que esses mesmos deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez de humilharem, são um triumpho para aquella que os sabe exercer.
CAPITULO III
A velhice das mulheres
Nas nossas continuadas predicas ácerca da transformação que é necessario operar-se em tudo que respeita á educação feminina, levamos em mira principal, duas cousas muito dignas de attender-se.
Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que ella não seja forçada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no seu espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole.
Segundo: que ella se vá lentamente preparando na infancia e na sua tão curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa, mais difficil e podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a velhice.
Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio.
No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por toda a parte encontraremos argumentos victoriosos.
No estado presente da educação a mulher está sujeita a uma funesta dependencia, a qual mesmo sem tendencia para exagerações declamatorias, se póde chamar escravidão.
Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a força, a elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram dar á sua alma a energia, que a torne superior aos preconceitos, e ao seu espirito a forte e larga educação, que a habilite para ganhar honestamente a sua modesta subsistencia.
Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas, diante da desgraça.
Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de não resistir ás tentações que a covardia dos homens arma á insensatez da mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe castigariam a viril energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel e tenaz que ha de dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse do seu destino.
Além do medo a impossibilidade absoluta.
Se nada sabe, o que ha de ella fazer?
Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante.
As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os homens, são proprias para este genero de trabalho.
Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um estabelecimento de modas, de uma loja de papel, de um mercador de fazendas, etc., etc. Tudo isto está em harmonia com a delicadeza dos seus orgãos.
Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a geographia.
Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes, estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma acção propria, independente e não subordinada aos caprichos alheios, ou ás circumstancias eventuaes.
Mas como não sabe fazer nada d'isto, como a sua educação a pôz e a conserva n'um estado de absoluta e desoladora humildade, não tem senão tres caminhos a seguir.
Ou casar mesmo que não tenha pelo seu noivo nenhum sentimento de respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou máu; mesmo que elle lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do seu futuro; mesmo que nenhum laço de sympathia a elle a prenda, e d'esta funesta causa escusado será dizer quantos males terriveis não resultam para a sociedade e para a familia!
Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por commiseração a acolham, a alimentem, a vistam, a protejam, e n'este caso soffre e decahe a sua dignidade propria, a alma curva-se-lhe n'uma postura humilhante, deixa de ter responsabilidade, de ter opinião, de ter individualidade emfim; constitue-se um ser mutilado cujo aspecto enfermiço faz tristeza e dó, quando se não torna um temperamento azedo, atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as desgraças alheias.
A terceira hypothese já todos a adivinharam infelizmente.
A mulher repellida da familia, porque a não quizeram inutil e pobre, não achando em si nem a coragem, nem a sciencia do trabalho, lucta contra o mal que lhe revela as suas traidoras miragens, mas se mão estranha a não soccorre e a não prende, succumbe, precipita-se e perde-se.
D'estas tres hypotheses exceptuamos, já se entende, todas as mulheres que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem entregaram absolutamente o seu destino, além do noivo escolhido e preferido entre todos, o protector mais util e mais dedicado.
Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que não tinham em si proprias a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua fortuna.
Mas a divisão infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o numero das ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos
ménages
tornando as meninas de pouca edade impacientes de sahirem da casa paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae diminuindo em não menor proporção o numero das primeiras.
Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de excepções e achamo-nos em frente de uma numerosissima maioria.
Os resultados que encontramos são, portanto, os seguintes:
A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade cujas causas já apontámos, produz estes tres generos de victimas.
A mulher que casou, porque não podia deixar de o fazer, que casou para ter pão, para ter casa, para ter luxo, para ter protector, um editor responsavel da sua vida, e que tendo sómente este objectivo, se não occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a quem ia para sempre entregar-se.
A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do luxo que a rodeia.
A desgraçada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida perdeu e abysmou.
Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo, á dolorosa inquietação da consciencia, em resultado de uma causa identica, póde estar satisfeita comsigo mesma.
O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como podem, os outros.
As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa deslumbrante, o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que aturde, tudo que faz esquecer.
Ainda aqui os nossos calculos nos não illudiram.
A mulher procura o mundo, porque as alegrias que póde encontrar em si mesma, não só lhe não bastam para illuminar com ellas o lar onde vive com os seus, como lhe não chegam para si propria se distrahir e se contentar.
Entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocámos.
A mocidade da mulher é forçosamente curta. Aquella que se compenetrar sensatamente d'esta idéa, o que deve fazer para attenuar a amargura?
Preparar-se com dignidade, com resignação, diremos mesmo com alegria para esse longo supplicio da mundana, que se chama velhice.
O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito mais variado a sua actividade complexa, póde gosar até á mais avançada edade dos prazeres que por assim dizer mais apreciou.
A ambição, as luctas da politica, as lucubrações da sciencia, as argucias da diplomacia, as investigações da historia e da critica, e mesmo os gosos ardentes da arte.
Vejam-se Gœthe, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven, Talleyrand, Thiers e tantos e tantos mais.
A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a domina, funda o seu fragil poder nas graças fugitivas da sua formosura, no encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no seu riso frivolo e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua convivencia inutil e perfumada como a das flôres!
Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou negra dos seus cabellos, um fio de prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o espelho revelou aos seus.
Esse fio traz preso a si a desventura!
Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus pés todas as forças e todas as vontades!
A casa, mesmo sendo a casa um ninho fôfo e perfumado, parecia-lhe bem pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos.
Era das salas que ella gostava!
Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de admiração, que ella excitava ao entrar nos salões pelo braço do seu pobre marido, muito enfastiado e soberanamente ridiculo!
Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma indiscrição que accendia invejas e desejos em torno d'ella―invejas e desejos que a enroscavam como serpentes de fogo―a brancura do seu collo e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de camelia, que o orvalho da madrugada humedeceu.
Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as flôres e as perolas se ennastravam bem nas suas tranças opulentas! como os braceletes de brilhantes mordiam de raios iriados a carnação explendida dos seus braços!
Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e aquellas mulheres!
Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de aço!
Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias insolentes, e aquelles odios violentos e felinos!
E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma pilha.
Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha epigrammas implacaveis,
coquettismos
crueis; era espirituosa, era bella, era triumphante!
A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que são tão bons companheiros da honestidade e da modestia, onde ficara tudo isso? Nas brumas indecisas de um passado que ella não queria ver.
Oh! que intensidade de vida n'estas horas!
Era só pensando n'ellas que vivera. Para que havia de lêr, para que havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar á natureza muda, o segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e desdenhadas?
Era feliz porque era admirada.
Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de loucura.
Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara.
Se continúa a luctar com a velhice que nunca se deixa vencer, achará só escarneos onde antigamente achára cultos, só baldões onde a tinham acclamado em triumpho.
Se vae procurar as alegrias e as distracções proprias d'essa nova phase da sua vida, o que é que encontra em torno de si?
Não ficára ninguem no lar, que primeiro do que os outros, ella havia desertado.
O marido andava lá fóra no trabalho absorvente, ou na dissipação criminosa. Como ella nada lhe dera nos dias florentes da mocidade, elle tambem nada lhe queria dar agora nas tardes glaciaes da velhice. Creára outros interesses ou outras affeições, seguira outro rumo, outra ordem de idéas. Já agora não era possivel tornarem-se a encontrar na terra.
Os filhos esquecidos, indifferentes, quasi estranhos, estavam no collegio ou nas escolas, se o pae tinha tido piedade; estavam na vergonhosa ociosidade, na vadiagem ignobil, se o pae tinha tido indifferença.
Em todos os casos, nada de commum podia haver entre essa mãe frivola e vaidosa, e esses filhos desprezados.
Os livros? Sim, os livros... Os que ella conhecera.
Eram romances.
Fallavam de paixões indomitas, de amores
mais fortes do que a morte
, de aventuras romanescas ao luar, com escadas de seda e capas
couleur de muraille
; de juramentos feitos em voz soluçante na sombra voluptuosa das alamedas; de duettos de ternura cantados pelas Rosinas e pelos Almavivas de torna-viagem.
Que lhe importava a ella tudo isso, que era agora o enlevo d'outras, embebecidas na mesma mentira que a transviára, mas que aos seus cabellos brancos parecia uma ironia cruel!
Mas a natureza é sempre mãe, a natureza acolhe até os mesmos parias.
Ella tem a sombra das suas arvores, a musica dos seus passaros, o aroma das suas charnecas em flôr, as serenas linhas das suas montanhas azues! Ella tem a claridade pallida das suas estrellas, a doce melopéa das suas fontes, o soturno e angustioso bramido dos seus mares, a influencia calmante das suas noites tepidas!
Acolherá a natureza aquella que tantos e tantos annos a desconheceu? Não.
E não é que ella seja implacavel ou severa, não é que ella saiba sequer das mesquinhas miserias que se agitam no seu seio. É porque não é na velhice que a alma póde iniciar-se n'um culto novo.
É que para tudo é indispensavel uma aprendizagem gradual, é que a vasta creação só tem consolos tranquillisadores, caricias adormecedoras, para os velhos, quando teve para os moços sonhos, sorrisos, radiosas esperanças.
É que a alma, que ao desabrochar não soube ser sensivel á enternecedora poesia das cousas, nunca saberá entender na hora triste do declinar, a sua ineffavel e divina linguagem! é que os longos horisontes de purpura e de ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos, quando os velhos se recordam, e vêem docemente descer a noute cheia de estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por companheiros o trabalho, o amor puro, o sacrificio, a abnegação!
Resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca da felicidade por toda a parte, menos no lugar tão proximo e tão accessivel, onde ella estava, resta-lhe apenas a falsa devoção.
É lá que ellas vão buscar refugio.
Vivem nas egrejas, procuram um confessor que tenha a jesuitica paciencia de revolver com ellas o montão de flôres murchas do passado, a ver se ainda de lá vem o vestigio da extincta fragrancia, praticam fervorosamente toda a casta de superstições rediculas; entram em associações pseudo-caridosas, gastam o resto da vida de outra fórma não menos redicula e não menos balofa do que gastaram os dias da juventude.
E de vez em quando, para maior espanto nosso, morre uma em cheiro de santidade entre a piedosa confraria.
O que é pois necessario e indispensavel para todas nós?
É que possamos viver sem o auxilio dos outros, e tirando unicamente dos intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma, elementos para construir com elles a nossa propria felicidade.
Quando a mulher depois de ter recebido uma educação robusta, depois de ter desenvolvido as suas faculdades no sentido mais amplo e mais favoravel, depois de estar apta a viver de pouco, a dispensar tudo que seja luxo ou vaidade, de ter dado uma applicação util ás suas aptidões especiaes, depois de ter adquirido uma larga somma de idéas geraes, de noções e de pensamentos justos, quando a mulher emfim, tendo a consciencia de que mesmo sósinha na vida, saberá grangear dignamente o seu pão, olhar em torno de si,―forte, intelligente e instruida―e entre os homens que a rodearem, e que a preferirem, fixar a sua escolha n'um homem, esse póde sentir-se justamente ufano.
Não haverá n'este consorcio nenhuma especulação e nenhum calculo.
Ella está apta a julgal-o, a estudal-o, a entendel-o, por isso foi raciocinada a sua escolha. Elle achou uma companheira fiel do seu destino, um guia incorruptivel, um precioso auxiliar.
Trabalharão ambos.
Commerciante ou sabio, poeta ou diplomata, artista ou especulador, negociante ou politico, sempre a coadjuvação de uma intelligencia cultivada e flexivel, penetrante e fina, será de incalculavel utilidade ao homem.
Não viverão de certo nos arrobamentos e transportes dos romanescos e rapidos amores; terão um fim commum, o bem proprio e o bem de seus filhos. Terão meios identicos, o trabalho, a mais escrupulosa dignidade de vida, o estudo perseverante, a economia e a paz.
Como o casamento foi um acto em que não entrou a paixão irreflectida, a precipitação estupida, ou o calculo inevitavel, ha muito mais garantia de que essa união seja duradoura e feliz. Como a phantasia da mulher é irrequieta e audaz, logo que ella faça o seu fito de alguma cousa de maior e de mais elevado, deixarão de ser perigosos os seus caprichos.
O homem, preparando-se para casar, tambem não dirá comsigo: Vou buscar um encargo.
Dirá com muito mais propriedade: Vou buscar um auxilio.
Eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista.
Provirá d'esta nova interpretação do casamento o haver muito menos mulheres solteiras.
As que houver, porém, terão o seu lugar, o seu destino, a sua tarefa.
Trabalharão.
Não ha ninguem que querendo e sabendo, se não possa tornar util, e produzir em bem, tudo que consome em sustento.
Descrescerão de certo as industrias que vivem do luxo e da dissipação, mas crear-se-hão outras novas, mais necessarias, e para as quaes a mulher poderá levar as suas faculdades felizes, ás quaes só falta educação condigna. E quando para todas chegar a velhice será como a corôa e o remate de um monumento sublime.
Ha muito quem alcunhe de pretensão esta minha teima de attribuir todos os males da familia á falsa educação das mulheres.
Como se ellas fossem tudo!
Como se d'ellas dependesse tudo!
É que realmente, directa ou indirectamente, pela sua influencia immediata ou pela sua longinqua influencia, o caso é que muitos males, que muitas desgraças, que muitas immoralidades se lhes devem!
Cherchez la femme
, direi eu sempre, por mais que achem vaidosa pretensão feminina esta minha idéa.
CAPITULO IV
A dissolução dos costumes e o casamento
Os philosophos, os moralistas, os observadores clamam continuamente contra a dissolução dos costumes modernos, ou descrevem-na com o pungente
realismo
da sua solta e desbragada ironia.
Uns accusam, outros fulminam, outros contentam-se com chascos e satyras de Juvenaes
au petit pied
.
Poucos são os que ao passo que apontam o mal, indiquem o remedio, ou pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a alcançal-o.
As theorias são optimas, a pratica é deploravel.
Ninguem é já tão ignorante e tão desallumiado da scentelha sagrada, que confunda o bem com o mal, mas o criminoso desleixo de todos, é mais funesto á sociedade e á familia, do que a idéa confusa que em épocas menos adiantadas se formava dos deveres de cada um.
Sim, a familia parece corroida por um occulto verme, que pouco a pouco vae dando a essa arvore frondosa, cheia de fructos e de flores, um aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos que de perto lhe observam o progressivo definhar.
Mas não basta mostrar ao mundo este indicio da sua decadencia moral, cumpre investigar as causas para oppôr um dique aos effeitos desastrosos que todos os dias se vão mais claramente revelando.
Este dever é de todos; dos grandes e dos humildes. Não ha ninguem que não esteja interessado igualmente na destruição de tão terrivel flagello.
Tragam uns os esplendores do talento que vê de cima, e que das alturas onde paira, derrama luz clara sobre os que labutam na sombra; tragam outros o bom senso, a experiencia, a fé e a boa vontade.
Parece que metade do caminho está vencido, porque se muitos,―se a maioria―anda transviada, todos pelo menos sabem definir o ideal a que aspiram, o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se afastam.
O grande mal da nossa época é―quem tal o diria?―é a preguiça intellectual. Todos trabalham mais ou menos, porém ha poucos que meditem e que pensem.
O seculo desoito foi o seculo do pensamento; o seculo desenove é o seculo da industria.
Predomina a materia, aspira-se ao bem-estar do corpo, aos gozos da riqueza, ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende á voz prophetica d'essa Cassandra, chamada philosophia, que debalde clama aos homens que elles vão por um caminho errado, que trilham uma estrada que não é a verdadeira, visto que a não illumina e lhe não mostra os precipicios, a verdadeira e eterna luz.
Os males que affligem a sociedade, que affrouxam os laços da familia, que contaminam e dissolvem lentamente os costumes, provém de uma causa, composta de muitas causas complexas, e para combater a qual devem juntar-se os esforços de todos os que amam o bem.
Ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado, não já sob um ponto de vista mystico e sentimental, porém no seu verdadeiro aspecto, nas suas relações inilludiveis com a sociedade e com a verdadeira moral.
Como sempre, é á mulher que aqui me dirijo, é com a mulher que eu fallo. O homem tem-se em muita conta para dar attenção á minha debil e desautorisada voz.
A mulher attender-me-ha porque é em vista da sua felicidade, da felicidade de seus filhos, da solidez e do aconchego de seu ninho, que eu lhe estou aqui fallando.
O casamento não é um contracto puramente social, não é uma união só filha da religião e do sentimento, não é uma sancção legal de affectos egoistas e de paixões indomadas, de tudo isso tem alguma cousa, mas é muito mais sério, mais sagrado e mais santo do que isso tudo.
Se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a geração de que fazemos parte, é triste como nenhuma outra, essa tristeza provém principalmente das imperfeições que maculam o casamento, das duvidas que assaltam todos os espiritos ao vêr tão longe da sua resolução definitiva o problema importante da familia.
Por toda a parte o desconsolo, o desalento, a duvida, a melancolia insanavel dos que, depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado sonho, despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram que corresponda ás radiosas esperanças com que se haviam embalado.
É que realmente depois da escuridão caliginosa, da noute lugubre e sinistra que durante seculos envolveu a humanidade, fizeram-lhe esperar tanto, evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas apparições luminosas, apontaram-lhe para um ideal tão levantado, fizeram-lhe crêr em tão divinas utopias, que todos os desalentos se desculpam ao vêr quão pouco a realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora infecundos.
Mas não percamos a fé; sem ella o mundo caminhará sem ter outro norte que não seja o perigoso conselho das suas paixões desordenadas.
Se ainda pouco está feito, appellemos para o futuro e vamos preparando essa evolução pacifica e luminosa de que já talvez nenhum de nós aproveite os resultados beneficos.
Esqueçamos este egoismo feroz e improductivo que nos faz desanimar em todas as emprezas de que não possamos com mão soffrega e impaciente colher os fructos embora prematuros e mal sasonados.
Não ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso, quasi sacrilego, com que os moços de hoje, os moços de ambos os sexos, fallam do casamento e da familia.
Elles duvidam, rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo amavam devotamente. Foram-se os bardos sentimentaes e um tanto rediculos, diga-se a verdade! que amavam sem esperança, mas com ternura apaixonada, as queridas perfidas, que desprezavam o seu desinteressado affecto.
A litteratura, que é o espelho das sociedades, tem por feição a ironia mordente, a analyse fria, a dissecação anatomica mais positiva e mais crua.
O desdem pela mulher manifesta-se sob todas as fórmas, e debaixo de todos os aspectos.
Se acabaram as declamaçães de
Benedicto
e de
Antony
contra a tyrannia esmagadora da instituição conjugal, apparecem em logar d'estas os quadros mais abjectos da dissolução e da decadencia a que chegou o casamento e com elle a mulher.
No limiar da adolescencia os que não alardeiam um cynismo falso e tão ridiculo como os transportes romanticos do passado, calculam arithmeticamente o que póde provir-lhes em beneficios liquidos d'aquillo a que chamam um
bom casamento
.
Não attendem ás qualidades moraes, que não podem apreciar nem conhecer; quando muito, lançam no orçamento como uma verba de certa importancia as vantagens physicas da noiva escolhida.
Nenhum grande pensamento os exalta, nenhuma idéa definida e clara da missão que aceitam os eleva a seus proprios olhos.
Pelo seu lado a
noiva
, a creança radiosa que enfeitam todas as galas e todas as flôres dos vinte annos, gaba-se em confidencia ás amigas intimas, de que
já não tem illusões
e que
conhece a vida
, a vida de que ella não leu ainda sequer a primeira pagina!
Casa porque a familia quer, casa porque encontrou aquelle rapaz em dous bailes, porque o achou
interessante
,
sympathico
,
muito amavel
, porque emfim é um
bom partido
, segundo diz o papá!
Outras vezes casa porque gosta d'elle, mas gosta d'elle instinctivamente, animalmente, sem o conhecer, sem saber se essa mão que aperta nas suas mãos virginaes, será sempre em todas as crises, em todas as occasiões da vida, a mão de um homem honrado.
No dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro sentimento é um sentimento de surpreza, quasi de susto.
Dizem então os frivolos e os superficiaes: o
melhor tempo é o da lua de mel
.
Engano! Esses dias são os dias da vertigem, mas não são os dias da felicidade.
Cada defeito que os dous mutuamente se descobrem, é como uma semente envenenada que ha de germinar mais tarde.
Não se lembram do futuro, saboreiam com a volupia da paixão sensual os prazeres ephemeros d'essa hora que passa. No fundo, bem no fundo do pensamento, n'um escaninho escuro em que ambos fogem de entrar, porque sabem que lá os espera a desillusão, teem guardadas muitas das tristes descobertas que fizeram n'aquellas horas de abandono, de loucura, de extasi, em que as suas almas se embeberam voluptuosamente.
Elle
sabe já que a mulher é frivola, é ignorante, é vaidosa, que vê no casamento as alegrias da vaidade, antes de ver os deveres e os sacrificios;
ella
tem a certeza de que todas aquellas promessas radiosas não passam de uma chimera que o tempo desfará, que o marido não tem as delicadezas que satisfariam a alma da mulher ainda a menos exigente, e a menos ambiciosa.
Na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os defeitos, que parecem até graciosos, lindos e feiticeiros.
O que os entristecerá mais tarde, o que avincará de rugas de mau prenuncio o rosto do marido, e fará encher de insondavel tristeza o coração da mulher, não é mais que a resultante das pequenas e todavia fataes concessões e desculpas que reciprocamente fizeram os noivos aos defeitos que viram apparecer nas primeiras horas da convivencia, nos risonhos dias do noivado.
Ella
sahiu do aconchego tepido da familia, das doçuras do lar paterno, dos braços amoraveis da mãe; vem acostumada a quererem-lhe muito, a ser muito estimada e amada. Em casa conheciam-lhe os gostos, as inclinações, os habitos e os defeitos, porque a par das boas qualidades ha sempre no coração humano um recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e de genio.
Aquillo que os paes, as mães e as pessoas que de mais perto conviviam com
ella
lhe perdoavam, é desculpado tacitamente por
elle
no extasi e na delicia ineffavel do noivado; porém, mais tarde tudo isso servirá de base a accusações asperas, e a censuras amargas.
Ella
, pelo seu lado, retrahir-se-ha, offendida e triste ante as imperfeições que outr'ora desculpava, e para as quaes hoje é intolerante e severa.
Por isso, a mãe, quando dá o ultimo abraço á filha que parte para os braços do noivo expede dilacerantes soluços de afflicção, e lamenta-se desesperadamente.
―É um estranho, pensa a mãe, pouco viveu com ella; mal a conhece, viu-a apenas nos saráus, á luz viva do gaz, cercada de adorações, risonha, feliz, espirituosa e delicada. Eu tambem fui assim... Mas como me custou a aprendizagem da vida! E como esta é devéras tão outra e differente do que suppunha!
Pobre creança!
Isto pensam as mães, com aquelle sagrado affecto que nunca se desmente, e que não trepida ante nenhum sacrificio, por mais arduo e assombroso que seja.
Mas, de quem é a culpa, bom Deus?
Sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no futuro da vida dos noivos, a culpa das horas longas e plumbeas que os esperam, das recriminações azedas, que farão explosão mais tarde, e que levarão áquelle dôce lar tranquillo o desassocego, a duvida, a desillusão, e a algida tristeza desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se desfazem lugubremente, e que nunca mais resurgirão?
A culpa deve caber tanto a um como a outro, tanto á mulher como ao marido.
O noivado é uma iniciação augusta, uma escóla onde devemos aprender a ser justos e tolerantes.
O que hoje transparece vagamente, o defeito que aponta subtil e timido em meio das alegrias do noivado, será pouco tempo depois injustamente considerado uma cousa horrivel e monstruosa.
E mister que o marido e a mulher se não julguem a suprema e alta perfeição, e que sejam complacentes para as maculas e defeitos a que ninguem escapa.
O homem, com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar, de negociante, de artista e de proprietario terá impaciencias, phrenesis e agastamentos. Quando a sua natureza se expandir livremente e sem peias, não será o mesmo que estava mezes ou annos atraz aos pés da noiva, submisso, trémulo e feliz, não medindo o mundo senão pelo ambito aquecido pelo bafo da sua gentil amada; perderá todo esse ar de humildade e de escravidão, e, sem o querer, ha de ferir a pobre creatura, machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e nativa delicadeza.
A mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da administração de uma casa, ante o enorme peso das responsabilidades que prevê, terá hesitações, duvidas e receios, que lhe farão rebentar muitas e repetidas vezes as lagrimas, no principio da sua difficil e tão ambicionada posição de senhora e dona de casa.
Quando o marido recolher da rua, da praça, das officinas, das academias, desgostoso, com o coração mordido pelo infortunio, magoado pela ingratidão de um amigo, pela falsidade de um outro em que cégamente confiara, pelas mil contrariedades emfim da vida, e precisar de uma boa e querida palavra de affecto, de um conselho leal e sincero, de uma consolação benigna, a mulher deve esquecer-se de si, velar resolutamente as feridas que sangram, para só pensar no marido de que é solidaria companheira, e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora.
Nas mãos da mulher está a tranquillidade, o socego, a ventura e a honestidade do lar, porque ella deve ser a perseverança inalteravel, a bondade suprema e inexgotavel, a intelligencia allumiada pela doce luz que dimana do coração.
Que a mulher saiba perdoar, que a mulher desculpe o egoismo, a dureza, as coleras bruscas do marido, e verá como este saberá fingir que ignora que tambem n'ella existem maculas, que tambem n'ella avultam defeitos.
Se deseja ser perdoada, que perdôe ella primeiro, que dê o exemplo, e os resultados d'essa condescendencia serão de maravilhoso alcance.
Ah! é preciso repetil-o mil vezes, dêmos um caracter de austera seriedade ao casamento, respeitemol-o, cerquemol-o de garantias duradouras, se não quizermos que a familia se desmanche, e que a immoralidade triumphe.
Que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a grinalda de flôr de laranjeira causarão ás suas mais intimas amigas, entrem no seu novo lar, resolvidas a crearem a felicidade do ente, que apesar de viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de abatimento e tristeza, que só os beijos de uma esposa honesta espancam.
Que se compenetrem as noivas, que dos primeiros dias do noivado depende a paz dos dias futuros, a saude, a educação e o porvir dos filhos.
Passados os primeiros dias, volvidos os primeiros mezes, sendo o marido intelligente e a mulher bondosa, tendo ambos uma completa noção do justo e da verdade, poderão facilmente escolher o caminho que os leve mais direitos á felicidade, de que tantos casados andam distantes porque se não souberam corrigir a tempo, e porque deixaram que se expandissem em espraiada e opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com olhos benevolamente complacentes, e só então complacentes! de noivos.
No campo não é raro ouvir-se ás aldeãs a quem se pergunta se se dão bem com a vida de casadas, o seguinte dizer quasi invariavel na bocca d'essas mulheres:
―Ao principio tivemos as nossas
turras
, mas a gente, como o outro que diz, foi-se habituando um ao outro, e agora não ha que se lhe diga; o que elle quer, quero eu tambem.
Ao principio tinhamos as nossas turras
... ouviram? É que no campo ao primeiro beijo segue-se bem cedo a primeira recriminação; é que no campo o noivado dura menos, mas em compensação descobrem-se brutalmente as differenças de genio e as desigualdades que a pouco e pouco vão desapparecendo.
A mulher, porém, que é sempre mulher, quer ande vestida de sedas, quer ande envolvida em saragoça, póde com a sua benefica e pacificadora influencia, tanto no campo como na cidade, desculpando o marido, conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as imperfeições e defeitos que estão fatalmente inherentes, ai de nós! á mesquinha natureza humana.
CAPITULO V
As mães e as filhas
Venho ainda hoje fallar ás mães a respeito das suas filhas. Creio que é um meio de ser ouvida com attenção.
Se as mães são pela maior parte das vezes a causa inconsciente dos males que affligem a educação de seus filhos, não é d'ellas a culpa, que só levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas entranhas.
Mas o amor das mães é cego como um instincto, e como tal precisa de ser guiado e dirigido.
Entregues a si, transviadas pelas noções incompletas que já lhes eivaram de erros funestos a educação que receberam na infancia, ouvindo mais a voz da propria vaidade, que a voz austera da razão, as mães continuam a suppôr que na educação de uma menina se deve attender antes de tudo ás
exterioridades brilhantes
, que farão d'ella a favorita dos salões mundanos, a elegante e afamada cultora de todas as delicadas frivolidades sociaes.
Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da miseria, já cuida tão sómente em hombrear com as duquezas que inveja de longe, até á mais aristocratica descendente das antigas paladinas, todas teem as mesmas noções falsissimas ácerca da educação que suas filhas devem receber.
Não estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar com as mesmas galas sediças; para ellas uma
educação de senhora
não varia.
Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica.
Os filhos são reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo instituto, e teem de sujeitar-se ás regras acanhadas e incompletas da educação official; as filhas, debaixo da direcção mediata ou immediata das mães, começam no lar domestico a sua aprendizagem, que é como que a opposição systematica a todos os instinctos poderosos de que a natureza as dotou.
Turbulentas, como é natural que sejam as creanças, aprendem a suffocar a espontanea e salutar actividade dos seus pequenos membros. A primeira obrigação que reconhecem é a
de não fazerem bulha
.
Tornam-se taciturnas e sonsas.
O habito de contrariarem incessantemente os impulsos tão naturaes da sua idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia, o peior e o mais vulgar dos vicios femininos.
Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabeça uma pressão despotica, de que não podem reconhecer a justiça, aspiram instinctivamente ao livramento, teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os segredos.
Não se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos seus corpos miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena.
A vaidade maternal cuida então de as enfeitar; o vestuario das suas pequenas joias torna-se para as mães―para as mulheres―um negocio de alta e gravissima importancia.
Não ha nada que as satisfaça; os bordados finos, as rendas, as sedas, as plumas, os velludos, tudo se combina para adornar o gracioso e querido anjo.
Dous resultados inevitaveis:
A immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas, e a feroz vaidade de que elle lhes lança n'alma a primeira semente, que mais tarde ha de desatar-se em venenosos fructos.
A pequena assim vestida julga-se forçosamente de uma essencia superior ás que não podem competir com ella em opulencia; de um lado levanta-se o orgulho, de outro lado rasteja a inveja.
O gosto de ser contemplada, admirada, de excitar emulações raivosas, de ser apontada como um modelo de elegancia infantil, accende no espirito da creança a funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da mulher.
Quando sôa emfim a hora em que o espirito exige a sua indispensavel cultura, o mesmo systema que até alli dominou na educação da pequenina continúa a fazer sentir a sua corruptora influencia.
«―Quero que a minha filha se não possa envergonhar de apparecer ao pé das mais ricas!―diz a mãe enfatuada na sua funesta vaidade.
Chamam-se os professores de dança, de musica, de linguas, de desenho, ou conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas d'este genero.
Algumas mães exigem tambem que as filhas aprendam a
bordar
a lã, a
bordar
a ouro, a
bordar
sobre escomilha, a fazer
crochet
, flôres, pequenos trabalhos de agulha, proprios para ornamentação de um quarto de pensionista ingenua.
Outras, mais dadas á sciencia, querem uns elementos de geographia, alguma historia sagrada e profana, uma leve tintura de arithmetica.
Por cima de tudo isto um pó dourado de devoção elegante, ministrada pelo director das consciencias do
high-life
.
Não se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro e despretencioso, cujos sermões não tenham fama, cujas predicas não sejam ouvidas, entre suspiros e lagrimas, pelas devotas da aristocracia, inicie a pequena neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica.