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Mulheres e creanças

MULHERES E CREANÇAS (continued 3)

Reading edition

Ao meio dia, eis porém, que se lembram das visitas que não tardam, das

inimigas intimas

que veem colhêr invejas e semear despeitos, de todas as ferozes exigencias sociaes, de que são submissas escravas!

Desfranzem a testa, ageitam um sorriso malicioso ou sentimental, consoante o genero da physionomia, mergulham o corpo nas tepidas e perfumadas caricias do banho, vestem-se, burnem-se, penteiam-se, pintam-se... e apparecem transformadas.

Durante umas poucas de horas estão no palco.

O auditorio é escrupulosissimo. Ao menor indicio que lhe destôe, manifesta sem piedade o seu desagrado.

Ellas, no entanto, suam

sous le harnais

, mas são intrepidas até á heroicidade.

Teem caricias felinas, sorrisos que adormecem a tristeza nos corações mais desconsolados, sabem ser engenhosas, cheias de invenções felizes, conseguem plenamente o seu fim, e ao deixarem a scena fica no ar uma impressão boa, quasi enternecida.

Chegou a occasião de voltar aos

bastidores

.

N'este caso os bastidores são a companhia do marido.

Oh! Como ellas veem cansadas, aborrecidas, cheias de tedio, e de desalento! Despem, com a voluptuosidade com que se despe um cilicio, todas essas elegancias que as torturavam; o sorriso ficticio apaga-se-lhes dos labios, a luz ficticia esmorece-lhes no olhar.

A pelle precisa de

cold-cream

, de

veloutine

, de todos os ingredientes nauseabundos: o cabello cahe-lhes aos pés, solto dos ganchos que o prendiam, e em quanto a aia, com um sorriso ladino, os recolhe cuidadosamente na caixa de cartão, o marido contempla assarapantado, cheio de ingenuo e comico assombro, aquella cabeça que ainda ha pouco, no orgulho com que se erguia, na magestade altiva com que ostentava o delicado edificio das tranças e dos

riçados

, lembrava uma das cabeças gentis que o seculo XVIII beijou com enlevos e que a guilhotina beijou com volupia selvagem.

O pé estreito e

cambré

, que ainda ha pouco nos circulos vertiginosos da valsa, fazia pensar n'aquellas andorinhas forasteiras, que roçam a terra com o vôo inquieto e leve, sacode as prisões que o ligavam dolorosamente, e dilata-se á vontade, com uma furia de independencia verdadeiramente demagogica e revolucionaria, na primeira chinela que apparece.

Todo o aspecto physico se transfigura e―consequencia fatal d'esta mesma causa―o aspecto moral transfigura-se tambem.

Como a dissimulação eterna é impossivel ainda aos mais hypocritas, os defeitos que tão cuidadosamente se esconderam ao publico, revelam-se ao marido.

Riamos sem vontade ainda agora!

Com a fortuna! Desabafemos o nosso mau humor, visto que estamos em casa!

Tinhamos paciencia para aturar com expressão interessada e benevola as sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado, de luvas côr de canario e bigode retorcido e insolente?...

Sejamos agora desapiedadas para as historias já um pouco velhas, mas em summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar!

Fingir! sempre fingir!... Impossivel!

Sejamos verdadeiras, ao menos n'esta occasião, já que só desagradamos áquelle que tem obrigação restricta de nos aturar, quer queira, quer não!

Isto, que á primeira vista parece insignificante, quasi frivolo, tem

um alcance

enorme no destino de vv. ex.

as

, minhas senhoras!

O marido, ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel é a sua, tem um momento de profunda tristeza, ao qual succedem uns poucos de annos de revolta!

É assim que se destroe a familia, é assim que se torna desflorido e deserto o lar.

Em compensação enchem-se os salões, os

clubs

, os theatros, os botequins. Resta saber se uma das cousas póde n'uma sociedade honesta e bem constituida supprir a outra.

Sejam mais garridas em casa, e sejam-no menos fóra; aspirem á elegancia desprezando os mentirosos artificios; procurem, antes de tudo, agradar á familia e conseguirão a pouco e pouco, sem esforço premeditado, agradar aos estranhos.

Uma familia boa, unida e feliz é como um fóco de calor que attrahe e que irradia luz benefica.

Ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e captivante.

São sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia do coração, essa cousa rara e preciosa, que suppre a formosura, o talento e todos os attractivos do espirito.

Vestir-se com uma graça despretenciosa e simples, rodear-se de cousas bellas, sentir e communicar em torno de si o prazer das distracções delicadas, ser em casa um perfume vivo, uma harmonia suave que não cansa, uma luz serena que allumia e que não deslumbra, eis o que é ser mulher na accepção completa da palavra.

Toda a mulher tem de ser

coquette

para o marido emquanto para o marido a eterna tentação for o pômo vedado.

Em geral só se conhecem os dous extremos.

Ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma couraça, temivel, assanhadiça, formidavel, imaginando merecer todas as homenagens do esposo, porque afugenta com medonho aspecto as homenagens de todos os outros; ou então a mulher dos salões, a flôr exotica das nossas estufas mundanas, Salamandra que vive no fogo, Ninon de

biscuit

que se compraz nas adorações que provoca e que inspira, infativel actriz que só á luz da

ribalta

sabe desenvolver e manifestar todos os seus recursos.

Entre os dous contrastes é que fica a verdade.

Mulheres, desenvolvei no seio da familia as graças que desperdiçaes pelas voragens d'este mundo.

Tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias, todas as graças e todas as energias; sêde o encanto, sem deixardes de ser a virtude; e sobretudo perdei de vista o publico, esse brutal amante que vos absorve, que vos perde e que nunca vos corresponde.

CAPITULO XIII

Victoria Woodhall

Uma oradora americana

Os Estados-Unidos, que são decididamente a patria das excentricidades colossaes, o paiz em que o excesso do positivismo, como que para justificar o axioma de que

os extremos se tocam

, tem conduzido a intelligencia a uma especie de permanente hallucinação, os Estados-Unidos estiveram para dar segundo affirmou a imprensa ingleza, mais uma prova evidente do seu amor pelas originalidades ruidosas.

Dizia-se que a presidencia d'esta republica tão poderosa e florescente ia ser offerecida a uma mulher, e citava-se o nome d'essa mulher, que é uma das mais fervorosas e apaixonadas propagandistas da reforma politica e social, uma das advogadas mais eloquentes da emancipação completa do seu sexo.

Já muitas vezes o temos dito, antipathisamos formalmente com esta doutrina revolucionaria, da qual não esperamos senão funestos resultados, por isso nenhum laço de sympathia póde prender-nos á famosa Victoria Woodhall, de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo alguns dos jornaes importantes da Inglaterra e da America do Norte.

Não deixaremos, porém, de estudar com attenção os poucos dados que conhecemos do seu caracter e da sua intelligencia, porque, embora como mulher―não concordemos com as suas theorias,―como artista―não podemos deixar de reconhecer que ella é um producto perfeito do seu meio.

Victoria Woodhall é moça, tem uma formosa presença,

sabe vestir-se

, o que já é deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos

direitos politicos da mulher

, e se aprecia os triumphos que a sua palavra um pouco emphatica costuma arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam, nem por isso desdenha os cuidados minuciosos da elegancia mundana.

Teem-na visto prégar sobre um texto biblico, que ella modernisa segundo as conveniencias da sua these, trajando elegantemente um vestido de velludo preto, e com uma rosa purpurea aninhada nas lustrosas tranças escuras do seu cabello garridamente penteado.

É casada, visto que lhe chamam Mistres Woodhall, mas nos salões onde tem preleccionado apparece sempre só sobre uma elevada platafórma, de onde préga ás turbas.

O marido, se existe, é um simples comparsa, ninguem o nota e ninguem se occupa em fallar d'elle. Entre parenthesis: não ha posição mais deploravel que a do marido de uma mulher

celebre

, quer dizer de uma mulher que falla em publico, que apparece, que declama, que tem os ruidosos triumphos da actriz, da cantora, da agitadora politica, e agora os mais modernos da preleccionista social.

Nunca pudemos deixar de sentir muito dó do Barão Stael, de

monsieur

Rolland, do marido de Henriqueta Beecher Stowe, e de tantos outros forçados e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que é a mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multidões.

Agora o marido de Mr. Victoria Woodhall, se acaso vive, o que não podemos de modo algum affirmar, não tendo nunca ouvido citar o seu nome, parece-nos uma victima igualmente lamentavel do mesmo negro fado.

Victoria tem dado conferencias, extraordinariamente concorridas, em Nova-York, em Londres, em Liverpool e em outros centros industriaes da Inglaterra e da America.

Tem a voz insinuante e harmoniosa, a gesticulação arrebatada e artistica, a palavra facil, fluente, emphatica, mas tão quente e apaixonada que exerce sempre uma impressão profunda nos que a escutam.

Como já dissemos não tem os terriveis oculos azues, nem o rosto anguloso e severo de Mrs. Beecher Stowe, uma mulher que fez no seu paiz uma revolução humanitaria, e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito sympathico da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias pedantes pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria.

A mulher oradora precisa de ser formosa, sob pena de ser ultra-ridicula. Parece-nos, porém, que do ridiculo simples, sem circumstancias aggravantes, não a salva nem mesmo a formosura.

Victoria Woodhall no seu paiz préga em favor da santidade do matrimonio, da reforma da educação, de todos os graves e momentosos assumptos de que hoje depende a regeneração politica e moral das sociedades.

Fóra do seu paiz, porém, não vão tão longe ainda as suas aspirações.

O que ella por emquanto reclama é a igualdade e nivelamento absoluto de deveres e direitos entre a mulher e o homem.

Adoptamos com todo o coração não os meios, mas o fim d'essa propaganda tão necessaria; mas não podemos concordar de modo algum com o complemento que a feminil oradora proclama indispensavel.

Achamol-o contraproducente, illogico, funesto ás instituições abaladas, que se pretendem salvaguardar.

Queremos o casamento grave, austero e santo, querermos a creança educada com solicitude extremosa, queremos a mulher respeitada e querida, consciencia de bronze e coração de cêra, queremos na arte um ideal severo e levantado, queremos na sociedade a incorruptivel e serena justiça, queremos o homem regenerado e forte, e é porque desejamos tudo isso, que pedimos a Deus afaste para bem longe de nós o terrivel flagello da mulher dominando o seu proprio destino e o destino da sociedade.

N'um discurso de Victoria Woodhall, pronunciado em Nova-York e applaudido enthusiasticamente por um auditorio de 40:000 pessoas leem-se os trechos seguintes:

«Fallando do casamento, é escusado dizer que falamos n'esse casamento ideal que toda a maldade dos homens não póde destruir; n'esse casamento, de cujos membros poderá dizer-se com verdade:

Foram unidos por Deus, e o poder do homem, não logrará desunil-os

; n'esse casamento, de cujas alegrias jámais quererão apartar-se os que um dia as conhecerem; n'esse casamento que é tão sagrado, tão puro, tão santo, que nem a sombra de uma discussão póde existir entre, os dous factores que o determinam; fallamos n'esse casamento em que os dous representantes oppostos da humanidade―o elemento positivo e o negativo das raças―se tornam pela acção e pelo pensamento n'um unico ser, e tão perfeito, que os mesmos motores o movam e o façam pensar e obrar; em resumo, n'esse casamento do qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza, a unidade, a ideal perfeição.

«O casamento é geralmente considerado como um assumpto por demais frivolo ou pueril.

«Aceitam-no ou quebram-lhe os laços com a mesma pressa e a mesma idéa das responsabilidades que elle impõe, como se o considerassem uma instituição especialmente designada para satisfazer as egoisticas paixões da humanidade.»

Sim, concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a formosa preleccionista apresenta e proclama, mas affirmamos que elle nunca poderá realisar-se se triumpharem universalmente as doutrinas que ella tão ardentemente advoga.

A prova evidente d'esta nova asserção é ella quem se encarrega de nol-a fornecer.

A mulher, como nós a sonhamos e a queremos, não é a forasteira acclamada e illustre que anda espalhando por sobre a cabeça das turbas indifferentes ou passageiramente commovidas, as suas convicções e as suas theorias sociaes.

Recolhida no seu modesto e placido interior, mãe de um bando infantil, mimoso e louro, de que ella fosse a providencia, o amparo, a suprema alegria, esposa de um homem forte e honesto, de um trabalhador, de um membro activo e laborioso da moderna sociedade, a acção d'esta mulher seria muito mais restricta, mas incontestavelmente mais util e mais salutar.

Não daria uma hora de commoção dramatica ao auditorio que viesse ouvil-a, curioso de excentricidades novas; não julgariam possivel a sua eleição como presidente de uma republica poderosa; mas as pessoas que vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella receberiam a influencia honesta do seu exemplo, e os filhos que ella educasse seriam outros tantos elementos fecundos da futura regeneração social.

Não é prégando o respeito ao casamento que se convencem os homens, é provando esse respeito nas minimas acções e nas acções mais decisivas de uma existencia.

Mrs. Victoria Woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia oratoria, fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem modernamente cahido, mas como quer ella provar-nos que comprehende essa absoluta identificação de duas almas, essa absorpção de um espirito em outro espirito seu irmão, ella que affirma tão rasgadamente a sua individualidade, ella que apparece em plena luz deixando na sombra aquelle de que não póde ser senão a metade incompleta, a porção imperfeita e mutilada.

Anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irmãs que prevaricam ou descreem, ou ignoram.

Mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir?

Onde fica o lar modesto, o aceio do ninho, o terno amor dos filhos pequeninos, as obscuras virtudes domesticas, toda a graça, toda a poesia, todo o conchego, todo o encanto mysterioso e indestructivel d'essa ineffavel união chamada o casamento?

Não nos surprende, porém, este producto extraordinario de uma sociedade agitadissima e ainda para si propria indefinida e indefinivel.

A America tem-se feito a si mesmo, não procura para as suas leis e para os seus costumes uma solida base tradicional.

N'ella que é tão forte como nação, tão pertinaz nos intentos, tão energica nas acções, n'ella que é uma prova terminante de como em dous seculos se fórma uma raça, unica e cheia de virginal vigor, ha cousas que estão ainda perfeitamente vagas e fluctuantes.

O destino das mulheres é uma d'essas cousas.

Politicamente possuem os mais amplos direitos, podem ser tudo, aspirar a tudo, todas as carreiras estão abertas diante dos seus passos; socialmente é quasi um dogma o respeito que inspiram.

Ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra, nem com uma suspeita, gosam de uma liberdade absoluta, andam sós, viajam desprotegidas ou antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente, nos caminhos de ferro, nos omnibus, nos paquetes; sentam-se sósinhas á meza redonda de um

hotel

, fazem emfim impunemente, apoiadas pela despotica soberania dos costumes, tudo que a nós, européas de facto ou de tradição, se affigura quasi monstruoso de inconveniencia.

E no entanto, apesar d'este reinado apparente, apesar d'este predominio ostensivo, é bem mais profunda a invisivel influencia que as mulheres do velho mundo exercem em torno de si, não sobre as leis, o que seria pouco, mas sobre os costumes, o que é quasi tudo.

É que somos as rainhas do lar; de nosso bom ou mau juizo depende a paz ou a guerra, a ventura ou a desgraça, a prosperidade ou a ruina, a dôce mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa existencia mundana.

Não parecemos nada e somos tudo!

Os que mais nos desdenham não escapam ao nosso poder. Submettem-se-lhe inconscientemente. Os que luctam contra nós teem de confessar-se vencidos.

Não somos medicas, não somos advogadas, não somos professoras, não somos preleccionistas officiosas de qualquer theoria, mais ou menos arriscada; mas somos a influencia continua e permanente, a voz surda que sempre se escuta, a tentação funesta ou a guia providencial, o grande poder obscuro, a que se não furta o filho, o irmão, o marido, o proprio pae!

Que importa que não possamos exercer a nossa acção dentro da esphera restricta e limitada das leis, se os costumes ahi estão, para que nós os criêmos, os modifiquemos, os transformemos, para que nós lhes dêmos o nosso collectivo impulso enorme!

Na America, visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no campo da actividade pratica, é-lhe restringido fatalmente o seu poder na esphera em que ella póde e deve ser rainha.

O casamento na America protestante, dizem os viajantes que teem observado os costumes d'essa raça estranha e vigorosa, é um contracto temporario que se baseia no calculo, e que o mais leve atricto póde destruir.

O divorcio é alli um facto vulgarissimo, ha mulheres divorciadas de tres maridos que contrahem muito serenamente um quarto matrimonio tão sagrado e tão respeitavel como os tres primeiros.

Os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que permanece a familia.

Não teem respeito nem disciplina, e é mais do que provavel que não tenham amor.

Em pequenos teem de sujeitar-se ás regras estabelecidas, logo porém que sahem da infancia representam por si proprios, encetam a grande lucta da vida.

A independencia pessoal, o individualismo britannico, accentua-se alli d'uma fórma muito mais saliente.

Cada um por si

, eis a lei que rege o verdadeiro

Yankee

, lei que herdou de seus avós anglo-saxonios e que exagerou, accommodando-a ás despoticas exigencias do seu meio.

Assim como a sociedade politica, assenta no principio da mais ampla e rasgada descentralisação, assim a sociedade moral é dominada por um principio exagerado de independencia, que afrouxa necessariamente os laços da familia.

Não se faz idéa entre nós do que é um interior nos Estados-Unidos.

Nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna, vive-se por assim dizer em commum n'uma especie de hospedaria, em que se reune uma duzia ou mais de familias.

Ás horas da refeição agglomera-se em torno da meza aquella multidão de indifferentes que mal se conhecem; comem á pressa absortos em preoccupações de ordens diversas que ainda mais os separam e os distanceiam.

A comida feita sem amor, sem solicitude, sem o cuidado que inspiram á boa mãe e á boa esposa as predilecções dos filhos e do marido, a hygiene da familia, a economia do lar, não tem para nenhum dos commensaes nem alegria nem sabor.

Comem como quem cumpre uma obrigação indispensavel e enfadonha, e d'alli partem para a faina, para o trabalho sem treguas, para a lucta acerba e pertinaz.

Nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio.

A vida é o trabalho; o tempo é mais do que dinheiro, é sangue.

A existencia dos americanos é uma existencia de operario, tressuada, esmagadora.

Todos querem conquistar a sua porção legitima de abundancia ou mais ainda, de riqueza.

Para que?

Para terem bem firme a consciencia de que a mereceram.

Ha uma pressa febril, uma impaciencia vertiginosa, uma ancia de todos os instantes n'esta raça de impetuosos luctadores.

As qualidades e os defeitos britannicos attingem além do Atlantico um relevo exagerado.

N'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades, n'esta vida em que a energia do homem, o seu vigor physico e moral, a dura tenacidade do seu querer, se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala, que lugar póde haver para a poesia, para a arte, para as tranquillas doçuras da vida domestica, para os prazeres de uma culta sociabilidade?

Ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas, as cousas novas e excentricas que firam a attenção, que se imponham rapida e subitamente ao pasmo das turbas.

Deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos entendem a vida, o lugar que n'ella dão á mulher. Isolada por um esteril respeito, despojada de todo o predominio que entre nós lhe concedem os costumes, e a tradição religiosa e social, a mulher para tentar adquirir a consciencia da sua força, tem fatalmente de ir procural-a na arena em que luctam os homens.

Isto em vez de os converter, mais os liberta d'aquelle poder occulto e latente, d'aquella doce e invisivel influencia que partindo d'alto lhes suavisaria a indole, os costumes e os gostos.

Victoria Woodhall é o fructo genuino d'esta sociedade incompleta n'uns pontos e n'outros inteiramente transviada do verdadeiro caminho, do caminho que conduz á felicidade e ao equilibrio de todas as faculdades humanas.

Só na America do Norte é que esta valente prégadora das reformas sociaes podia ter nascido, só a America é que podia entendel-a e applaudil-a com tão sincero enthusiasmo!

Se ámanhã uma das nossas mulheres começasse a percorrer as grandes cidades da Europa meridional, prégando a transformação dos costumes, os direitos politicos do sexo feminino, a reforma das instituições, a sua prédica, por mais eloquente que fosse, seria abafada em uma tempestade homerica de risos!

Aqui muito á puridade, eu não sei se somos nós, que temos razão!

Criados e Amos
Criados e Amos

CAPITULO XIV

I

Fallemos dos nossos criados.

É um assumpto este de importancia summa.

Tem relações estreitas com a administração da casa, com o seu aceio, arranjo, conforto e bom governo; com a moralidade que n'ella existe, com a figura que ella representa em relação ás outras casas.

Parece uma questão ridicula e comesinha; tem sido estragada por todas as matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia da sua bilis; é o assumpto obrigado das conversações das mães burguezas, em quanto nas pequenas

soirées

dos quartos andares

as meninas

estafam um desgraçado piano asthmatico, os

litteratos

da familia recitam versos a

Ella

, e tres commendadores gordos e vermelhos disputam acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete.

Ninguem todavia ainda encarou esta questão debaixo do seu verdadeiro aspecto.

Declama-se contra a decadencia e desmoralisação dos criados de hoje, mas ninguem pensou que esta decadencia, que esta desmoralisação, provém forçosamente de alguma causa que é necessario conhecer e destruir.

Á primeira vista, observando na familia, esse elemento que se tem tornado tão indispensavel quanto perigoso, nota-se o seguinte:

―Que os criados de hoje não se podem comparar aos criados antigos, nem na fidelidade, nem na lealdade, nem no desinteresse, nem na moralidade.

Já se vê que esta regra tem excepções numerosas, de que não tractaremos, mas que reconhecemos e admittimos.

―Que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas familias a quem serve, e em cujo seio penetra.

―Que elles são sempre ou quasi sempre os auxiliares da traição, do vicio, da desobediencia, e que portanto é profundamente corruptora a influencia que exercem na familia.

―Que o seu interesse consiste em especularem com as fraquezas ou as maldades d'aquelles de quem dependem, e que vivem e medram na immoralidade dos seus superiores.

―Que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que estão acima d'elles, e que presentindo a vantagem que lhes póde provir do rebaixamento dos entes de quem receiam a severidade ou que são forçados, muito contra sua vontade, a respeitar, o fim que elles teem, e que procuram por todos os modos attingir, é o seguinte: penetrar vagarosa e cautelosamente na confiança dos amos, extorquir-lhes os seus segredos, e divulgal-os por sêde instinctiva de vingança, ou exploral-os, por desejo immoderado de ganho.

Posto isto, provado está que os criados são os nossos

inimigos necessarios

, e que é preciso que para com elles a nossa attitude seja por em quanto inteiramente defensiva.

E dizemos

por em quanto

, por uma razão muito simples.

Porque entendemos que, quando n'uma classe inteira se manifestam symptomas de corrupção e de gangrena, a culpa vem por força de longe, e

de cima

, e que devemos applicar-nos com todas as nossas forças e todos os nossos desejos, a modificar essa culpa, e a redimil-a por fim.

A que póde attribuir-se o contraste notavel que se reconhece entre os criados

antigos

e os criados de hoje?

A muitas causas independentes da nossa vontade, e sobretudo da vontade d'elles; as causas que teem o seu

quê

de politicas, e seu

quê

de economicas, o seu

quê

de sociaes, o seu

quê

de philosophicas.

Vejam em quantas questões nebulosas e importantes entesta esta humilde questão de criados.

Transformação completa do viver social e do viver domestico.

D'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos justiça, mas n'uma base de muita mais solidez.

Havia o

chefe

que acolhia á sua vasta sombra, os irmãos, os parentes pobres, os filhos, os servos que eram tambem uma tradição e tambem uma herança.

Quando o chefe morria succedia o filho ou o irmão mais velho, que herdava os irmãos, os tios, os parentes pobres, os servos, todos os haveres, e tambem todas os encargos da numerosa communidade.

Os criados entravam ao collo de sua mãe que vinha ser aia, ou varredora, ou engommadeira, ou outra cousa qualquer e sahiam de 60 ou 80 annos no caixão para o cemiterio, deixando na familia nova geração de servos que eram seus filhos.

D'este modo havia estabilidade nos seus empregos. Só eram demittidos por

erro de officio

.

Não receiavam o dia de ámanhã, não sentiam a esmagadora indifferença dos superiores a revelar-lhes que na familia eram párias, eram estranhos, eram inimigos.

Não precisavam de se apossar de um segredo, de ameaçar tacitamente com uma denuncia, de lisongear vilmente um vicio ou mesmo uma mania, para darem solidez e garantia de duração á sua posição dependente e precaria!

Em quanto que na vasta sala de jantar, de tectos apainelados, e custosos pannos de Arras, em torno da pesada meza de carvalho, primorosamente entalhada, se reunia alegre a numerosa familia, em que umas poucas de gerações se enlaçavam, na cosinha do palacio, ao lume crepitante das fornalhas enormes, reunia-se tambem a familia ainda mais numerosa dos antigos servos.

Eram paes, mães, filhos, ás vezes netos.

Não estavam privados de todas as condições humanas, tinham as suas festas intimas, as suas alegrias, os seus affectos.

O seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam, florescesse e prosperasse; a sorte d'elles e dos seus, estava por assim dizer, identificada com a sorte dos amos.

Affeiçoavam-se áquellas paredes, ou áquelles moveis, á senhora que era branda e protectora para elles, ás creanças que tinham ajudado a crear, e que um dia viriam a conceder-lhes a mesma protecção que hoje recebiam dos paes.

Eram maus, interesseiros, crueis ás vezes! Embora! É porque eram homens, e não porque eram servos.

Tinham as qualidades boas ou más da humanidade e não as de uma determinada classe.

D'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje.

No regimen moderno, a familia tem outra constituição e outros costumes.

As fortunas extremamente divididas já não consentem esse modo de viver opulento e patriarchal.

Os mesmos ricos, que são no fim de contas os grandes financeiros modernos, esses que juntaram a fortuna de que gosam á custa de privações e de trabalho, são egoistas para todos, e particularmente duros para os inferiores.

Na sua opinião os criados são machinas. Umas machinas que vestem casaca, e usam gravata branca.

Exigem d'elles um serviço irreprehensivel, uma obediencia passiva, uma disciplina exemplar.

De resto odeiam-nos porque lhes teem um certo mêdo.

Comprehendem perfeitamente que são rediculos, elles que andaram tanto tempo de tamancos, a varrer os armazens, a levarem empurrões e maus tractos dos caixeiros grandes da casa, a curvarem-se humildemente diante dos

patrões

, dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de potentados.

Emquanto comem em pratos de Sevres ou do Japão, uns manjares exquisitos que o cosinheiro, o seu cosinheiro de dez ou doze libras por mez, lhes impinge traiçoeiramente, sentem-se acanhados diante do olhar frio, do olhar metallico dos criados de meza, e imaginam que elles no mudo escarneo d'esse olhar, lhes dizem que estão percebendo o seu desastramento, os seus gestos grosseiros, e até a saudade com que recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias da mocidade.

D'esta hostilidade mutua nada bom póde resultar.

Os amos são orgulhosos, cheios de desdem, de indiferença, de duro egoismo; os criados são hypocritamente humildes, são invejosos, e malevolamente escarnecedores.

Só um laço póde ligar estes sêres; a cumplicidade.

De cima não haverá brandura em quanto de baixo não houver subserviencia criminosa.

Ambos o comprehendem de sobejo; comprehendem-no sobretudo os criados que andam á mira d'um segredo, d'uma indiscrição, d'uma descoberta qualquer que os faça levantar a cabeça.

No dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora, no dia em que entrega o primeiro bilhete, no dia em que lhe é escutado o primeiro recado de que a encarregam, invertem-se os papeis, e só continua apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e de despeito.

Era escrava obediente e muda, hoje é cumplice, o que quer dizer tyranna.

Ao marido em caso identico succede o mesmo.

Moralidade d'esta situação: o criado de hoje triumpha quando seus amos se rebaixam.

Entremos nas casas burguezas, que constituem hoje a maioria.

Vive-se com pouco, ha uma ou duas criadas, a pobreza traz comsigo uma certa promiscuidade que abala o respeito.

Já aqui os criados não são automatos que se movem ao impulso d'uma vontade superior.

Não são mudos, não teem a fria apparencia aristocratica que revela a opulencia da casa em que servem.

Pelo contrario; as criadas estão iniciadas nos pequenos segredos da familia, mas como a vida de hoje, toda de expedientes, toda no ar, desiquilibrada, impostora, não tem aquella dignidade da vida antiga, as criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse viver, julgam-no e escarnecem-o.

Podia-se viver decentemente com o pouco que ha. Chega mesmo para uma alimentação sadia, para a satisfação das necessidades indispensaveis; se a dona da casa desenvolver os seus recursos de economia, conseguir-se-hia sem muito trabalho, no fim do anno,

joindre les deux bouts

como expressivamente dizem os francezes.

O pae é um funccionario bem collocado, o rendimento se não é grande pelo menos é sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa.

Diante d'este quadro parece-nos que não ha brecha por onde possa penetrar a malicia interesseira da criadagem.

Pois ha, minhas senhoras!

O dono da casa tem um emprego bom, é verdade, mas aspira a subir de posto, quer de mais a mais a carta de conselho, leva isto

em capricho

por causa das

picuinhas

do seu collega da secretaria, o conselheiro Fulano; logo, para attingir este fim desejado é preciso antes de tudo

figurar

.

Tem de ir aos

chás

do seu amigo deputado, ás

soirées

do barão de tal

que é muito influente

, tem de dar de jantar de vez em quando ao seu amigo

cicrano

que é parente do primo da mulher do secretario particular do ministro, tem de gastar muito em apparato ridiculo, em luxo avariado, em pompa feita de remendinhos.

A mulher, já se entende, não lhe fica atraz!

Podéra!

E ella então que tem de se vingar d'uns chascos que as snr.

as

Silvas fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que ella trazia; e que tem de fazer rebentar de inveja a

D. Leocadia

que é mulher d'um commendador seu conhecido; e de

quebrar os olhos

á prima Ausenda que anda a dizer pelas casas do seu conhecimento «que não sabe onde ella vae buscar para tanto luxo!»

Filhas d'estes paes o que serão as meninas?

Querem vestidos de seda, embora os comprem em

segunda mão

, querem joias embora sejam falsas, querem botinas de tacão alto, porque as teem visto ás pequenas da viscondessa de M. e da baroneza de S. e da marqueza de V.; querem apparecer no theatro, querem ir ao

Club

, querem tomar banhos quando não seja em praia elegante, ao menos na Ericeira; querem

reunir á noute

uma vez por semana, umas visitas que nunca vão, querem fazer emfim o que por ahi faz

toda a gente

.

Resultado d'isto, resultado inevitavel.

Deve-se na tenda, deve-se no carvoeiro, deve-se na modista, deve-se no sapateiro, deve-se na loja de fazendas, deve-se ás criadas.

A falta de seriedade na vida, acarreta comsigo um milhar de pequeninas humilhações insupportaveis.

As criadas vão á porta receber os credores, e trazem dentro os recados com um sorriso maganão que escapa a todas as reprehensões e a todos os castigos.

Se estão de mau humor resmungam, fazem causa commum com o

inimigo

, que é no fim de contas o

confrade

; se estão bem dispostas dão alvitres, inventam e lembram desculpas, lamentam a

senhora

, etc., etc.

De qualquer dos modos amesquinham os amos, estabelece-se entre elles e ellas uma intimidade funesta.

Destroe-se assim o respeito, disciplina, a obediencia, aquella hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia esteja bem organisada.

Um dia, as

meninas

, que teem recebido a educação mais perniciosa e mais falsa, fartam-se d'aquella vida de privações intimas, de balofas apparencias e querem fugir d'ella.

Teem só uma porta: o casamento.

Nas familias pobres da burguezia, o casamento é julgado a porta por onde se sahe da miseria!

Quantas vezes não é elle a porta por onde se entra na desgraça!

Começam então a namorar.

A namorar seja quem fôr. O alferes que passa, o

dandy

pelintra que encontram nos seus passeios, o

litterato

pallido e fatal que olhou para ellas da plateia.

Quem é a confidente natural d'este

namoro

, a auxiliar forçada d'esta intriga ridicula?

A criada!

É ella quem espia a mãe, e quem ajuda a enganal-a; é ella quem entrega e recebe as cartas, é ella quem se

farta de rir

com a menina, ouvindo contar o que ella lhe disse, e o que elle lhe tornou!

Quantos perigos, quantas humilhações, quantas vergonhas n'este facto que é hoje trivial e repetidissimo!

A criada só tem a ganhar na execução d'estes misteres.

Ganha indulgencia para as suas proprias faltas, uma advogada que ou por medo ou por sympathia defende a sua causa, e até se tanto fôr preciso se revolta por amor d'ella contra a authoridade maternal. Ganha quem a ajude no trabalho!

Ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida, de se vingar da sua posição inferior, de desafogar o mau genio, e isto sem perigo de qualidade alguma.

Quando se não dão estes casos que ahi deixamos apontados dão-se outros identicos ou outros similhantes.

Da parte dos superiores indifferença profunda, desejo de explorar de todos os modos e feitios os dependentes, rudeza, orgulho, egoismo, desapego.

Da parte dos inferiores, a mesma indifferença creada a pouco e pouco pela incerteza ácerca do dia de ámanhã; desaffeição pronunciada, despeito, inveja, e desejo de trabalhar o menos possivel, em troca do maior salario que poderem alcançar, separação de vida, de interesses, de alegrias, de affectos.

Se entra em casa a doença com todo o seu cortejo de lugubres tristezas, de vigilias e de lagrimas, nunca a criada saberá ser enfermeira. Fará o serviço, resmungando, furiosa, desattenta, fazendo esperar um caldo para ir á janella

ver quem passa

; deixando apagar o lume de noite porque adormecerá inteiramente esquecida dos que soffrem e velam.

E que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se salvem.

Hoje está aqui, ámanhã estará n'outra parte!

Se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada, sósinha como um cão!

Não dá porque não recebe.

Entre os criados e os amos os interesses são absolutamente oppostos.

A unica circumstancia que póde alterar esta situação reciproca: a cumplicidade.

Que admira, pois, que todos os dias se observe maior e mais profunda immoralidade nos criados das grandes cidades? que admira que as excepções se vão tornando dia a dia mais raras?

A culpa é de uns e d'outros, mas o mal tem ainda remedio.

Procuremos apontal-o.

No que respeita aos amos cumpre:

Que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca seja para elles uma humilhação.

Que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo respeito de nós mesmos e dos outros, para que o nosso exemplo levante ainda os que estão mais baixo.

Que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo, ou a censura de alguem, para que sobre nós nunca possam exercer-se influencias funestas.

Que não exploremos a actividade dos pobres, para que os pobres não tenham interesse em explorar as nossas fraquezas, e já que é indispensavel crear-se e educar-se a classe dos criados, juntemos todos os recursos da nossa experiencia e do nosso bom senso, para dar prompto e efficaz remedio a todos os males que são por assim dizer o privilegio especial d'essa classe.

II

No capitulo anterior, tractando d'esta questão, tentámos apresentar as causas que determinam e aggravam a decadencia e desmoralisação dos criados modernos.

Essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte:

É tão precaria, tão falta de garantias, tão exposta a continuas alterações a sorte dos criados, que para ella só descem os que n'outra esphera não poderiam achar collocação que lhes dê a subsistencia.

Os bons, que por acaso ou por circumstancias fortuitas acceitam este modo de vida, são ainda mais desgraçados do que os maus, porque são mais explorados.

Portanto ou fogem d'elle, ou se corrompem fatalmente.

Estamos, pois, em face d'este dilemma.

Ou havemos de não ter criados, ou havemos de os ter maus.

É verdade que fomos nós que voluntaria ou involuntariamente os corrompemos e estragámos.

Concedo.

Agora, porém, não se tracta d'isso.

Achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de o modificar.

Primeira necessidade imprescindivel: é preciso educarmos os nossos futuros criados.

Mas como?

Creando para isso instituições especiaes, ou modificando a indole das que já existem.

Tractemos antes de tudo das mulheres.

Estão por todo o reino espalhadas, e ainda bem que assim é, as instituições de caridade, tanto de iniciativa dos particulares, como de iniciativa do Estado.

O que é que n'esses asylos se aprende, salvo excepções possiveis, mas que não chegaram ainda ao nosso conhecimento?

Aprende-se em primeiro lugar o que hoje é indispensavel para toda e qualquer situação, por mais humilde que seja; aprende-se a ler, escrever, contar, coser e marcar.

Aprende-se em segundo lugar a bordar de branco, a bordar de missanga, a bordar com cabello, a fazer crochet, a tocar orgão ou

harmonium

; ha alguns onde se aprende grammatica, historia, geographia, etc., etc.

Muito bem.

Em cada cem raparigas, admittimos que haja dez, cuja intelligencia superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos.

Serão mestras regias, serão talvez caixeiras de alguma pequena loja, serão mesmo professoras particulares se houverem progredido no estudo e adquirido uma instituição mais solida e mais proficua.

Que fazemos das outras noventa?

Imaginemos que cincoenta casaram muito moças.

Acham um artista, um carpinteiro, um chapeleiro, um entalhador, um pedreiro, um operario de fabrica, que as rouba á desamparada solidão que estava á espera d'ellas e que as leva para o seu pobre albergue desguarnecido e miseravel.

Dos conhecimentos que adquiriram na educação dada pelo asylo quaes aproveitarão, quaes applicarão á sua felicidade, ao seu bem estar domestico?

Com que trabalho poderão auxiliar o trabalho do marido, insufficiente para acudir a todas as necessidades do

ménage

?

Que officio aprenderam a exercer?

Dão as voltas de casa, varrem, limpam o pó, cosinham, mas fazem tudo isto mal.

Nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima d'estes misteres tão humildes.

Ter a roupa do marido bem desencardida, bem engommada, com os seus remendos bem deitados, ter a casa acciada e fresca, ter uma comida pobre mas saborosa e bem temperada, ter a alegria, a abnegação, a boa vontade, e, em muitas das horas que ficam vagas, exercer qualquer pequena industria que ajude o marido, banir de casa a tagarellice das visinhas, viver só com o seu homem, com os seus filhos, no trabalho continuo, no trabalho fecundo, isso que é de certo o ideal, quem é que lh'o ensinou a praticar?

Deixemos, porém, essas cujo destino agora não precisamos de apreciar e voltemos para as que ficam.

Sahem do asylo, vão umas servir, outras vão ser costureiras, vendedeiras, etc., etc.

Umas são as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi vemos atravessar as ruas, apregoando hortaliças, ou fructa, outras as pallidas e anemicas creanças, de

cuia

postiça, chapeu de aba revirada, polonaise phenomenal, bota de tacão alto e cambada, que encontramos á noutinha ou de manhã cedo, indo para casa das modistas, ou voltando de lá.

As outras quem as não conhece, ao menos por ter ouvido fallar d'ellas?

São as criadas de hoje, ou serão as criadas de ámanhã.

A educação que lhes deram está em contraposição perfeita com a tarefa que teem de cumprir.

Uma que foi apresentada para cosinheira, não tem as minimas noções culinarias, mas em compensação lê correctamente os jornaes que veem de manhã.

Outra, cuja obrigação é engommar, não tem geito senão para bordar de matiz.

Algumas, menos favorecidas da intelligencia, não sabem o que aprenderam, nem aprenderam aquillo que fazem.

São as mais vulgares!

Porque é pois que se não dá ás raparigas do povo, ao menos ás que são educadas nos asylos de beneficencia, uma educação em harmonia com o seu futuro papel?

Não reprovamos de certo a leitura, a ortographia, uns elementos de arithmetica, mas o que reprovamos é que haja uma uniformidade absoluta na educação que se ministra a tantas e tantas creanças de indoles diversas, de intelligencias diversissimas.

Aquellas que tivessem disposições para um genero de trabalhos mais levantados, deviam encontral-o n'uma casa especialmente destinada para as filhas do povo que até aos 12 annos tivessem dado manifestações inequivocas de claro e perspicaz entendimento.

Ali formar-se-hiam futuras professoras, ou futuras artistas.

Haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma conforme a sua vocação ensinassem as linguas, a musica, a pintura em porcellana, a grammatica, a geographia, a contabilidade, etc., etc.

A essa casa, que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela bolsa particular, iriam as mães de familia procurar

professoras portuguezas

para as suas filhas, professoras cuja educação fosse completa, e cuja moralidade podesse ser affiançada.

Mais tarde os chefes de casas de commercio, mais capazes de comprehenderem o grande alcance d'esta innovação, iriam tambem buscar a essa casa raparigas honestas, que elles podessem sentar á mesa ao lado de suas filhas, e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu estabelecimento.

Os fabricantes de louças e outros industriaes achariam na intelligencia e na prompta comprehensão feminina grande auxilio, e auxilio mais economico.

Abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia, haveria, n'outra casa, as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que requerem não só engenho, mas tambem habilidade manual.

Costureiras de vestidos, modistas de chapeus, raparigas que soubessem fazer rendas, fazer franjas, etc., etc., e que o asylo logo que lhes houvesse completado a aprendizagem, podia empregar convenientemente.

Seriam estas, preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer.

A disciplina escolar, a instrucção elementar recebida, a aprendizagem methodica, affirmava-lhes a sua superioridade enorme sobre as outras.

Collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes, ficariam aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma applicação difficil.

Estas seriam educadas expressamente para criadas de servir.

Mas que educação precisa uma criada?

Ora essa!

Uma criada precisa uma educação tão cuidadosa como uma duqueza.

A differença consiste unicamente n'isto:

Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para duqueza.

No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na escolha das mestras.

Antes de tudo uma moralidade austera.

Depois no que toca á parte technica da educação, officinas distinctas onde cada uma das discipulas fosse alternativamente aprender os serviços que mais tarde tivesse a cumprir.

Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene. Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais adiantados. Outras onde se lavasse roupa de lã, e roupa de linho e algodão.

Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de creança, e fatos de senhora.

Não se attenderia aqui como no

atelier

das modistas do asylo superior, aos caprichos da moda, mas unicamente á commodidade, ao bom gosto e á hygiene.

Outras ainda onde se cozesse á machina.

Haveria mulheres especialmente encarregadas de ensinarem as discipulas a varrer, a limpar o pó, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o á moda franceza, a deitar bem

rêdes

, a fazer meias, a cerzir panno, etc., etc.

Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez.

As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado ás suas discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a penetrarem no seio de familias inteiramente estranhas a viverem em contacto com gente de muita qualidade eram forçadas a ter, além da honestidade commum a todas as mulheres honestas, uma honestidade particular da sua classe, uma honestidade composta de elementos muito variados.

Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de resistir ás más tentações, de ser fiel, de ser boa companheira, de ser laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas obrigações.

N'este asylo ainda haveria subdivisões necessarias.

As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam a elle de preferencia, não desprezando porém os outros.

Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria egualmente todos os elementos que houvessem de constituir a sua educação.

Ser criada não é―entenda-se bem―nem uma vergonha nem um

pis aller

; ser criada é um officio, ás vezes mais complicado que os outros, porque comprehende muitos.

A unica differença é que se póde ser uma boa criada não sendo excessivamente intelligente, e que as qualidades aqui indispensaveis são robustez, destreza de mãos, fidelidade, amor de trabalho.

Não se diga que isto é uma utopia impossivel.

No estado de adiantamento a que chegou entre nós o principio de associação applicado á beneficencia, nada mais facil do que organisar por este modo os asylos do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz.

Não augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria necessariamente a educação popular.

Reunidas debaixo de uma direcção geral, todas as casas de Beneficencia de uma cidade, passaria esta não a crear asylos novos, mas a modificar a indole dos que existem.

Estabelecer-se-hia uma especie de gradação natural.

Em baixo a casa que recebesse sem distincçao todas as creanças de 4 a 10 annos que estivessem no caso de serem admittidas.

Alli, sob a direcção de professores intelligentes, e de directoras de espirito cultivado, far-se-hia aos 12 annos de edade a escolha.

Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.ª classe, outras para o asylo profissional de 2.ª classe, a terceira para o asylo das criadas futuras.

Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que grangeassem um salario por mesquinho que fosse.

Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central.

Este plano, como se vê, não é mais que um plano embryonario, o germen d'uma idéa que se nos affigura util e praticavel.

Outros melhor do que nós o estudem e desenvolvam, se entenderem que o merece.

Quanto a nós, acreditamos piamente que só então começariamos a ter criadas.

As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma certa e determinada vigilancia, cujo systema e cujas bases nos não compete agora explicar.

Com estas garantias de moralidade, e de bom serviço, seriam preferidas a todas que as não tivessem, e pelo menos fariam uma util concorrencia ás criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos.

As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as não deslustrasse.

As outras ficariam com as que teem hoje.

Não merecem mais.

Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida.

Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, um pequeno contingente para a classe dos criados.

Seria um bem.

Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa sempre um luxo!

Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros envenadores e infieis?

Estes serviços tão faceis não podem ser feitos por mulheres?

Logo que este uso se propagasse entre os ricos, deixaria de ser indicio de pobreza, ou de habitos plebeus.

No fim de contas tudo isto não passa de convenção!

Já que o Estado julga descer occupando-se d'estas

pequeninas

questões de moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua.

Ninguem mais do que nós tem applaudido o engrandecimento progressivo, o rapido desenvolvimento das instituições de caridade.

Não é o dinheiro que falta, porque entre nós quando se falla na miseria, a caridade nunca faltou; o que falta é uma direcção boa.

A rotina n'isto como em tudo é funestissima.

A nossa caridade official dá pão e vestuario ás creanças, mas que faz em favor das mulheres?

Dando-lhes uma educação que não está em harmonia com os seus meios futuros, condemna-as á miseria, á desgraça, quantas vezes á ociosidade e á ignominia?

A educação deve fazer-se pratica e positiva, deve tornar-se um preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguiça!

Os que pensarem n'isto farão um bem á familia, e á sociedade.

Creanças
Creanças

CAPITULO XV

I

São ellas a alegria da familia, como a familia é a suprema ventura dos felizes, e o supremo consolo dos desgraçados.

Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina.

Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos mais aridos, estendem-se prodigas de bençães as mãos mais avaras.

Ellas são a graça que se ignora, a fraqueza que nenhum poder assusta, a innocencia que interroga, a aurora intellectual que desponta e que diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma luz que se reflecte em jubilos no coração das mães.

Tudo na vida é para ellas mysterio, mysterio que as chama e as attrahe, cujas trevas as não apavoram, em cujos sinistros meandros nem sequer receiam perder-se.

Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que é no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade, força ou impotencia, virtude, abnegação, esquecimento de si ou egoismo, vicio e crime.

Onde ha maior mysterio do que a creança?

Debalde a interrogamos; não sabe responder, senão áquelles que pelo poder da sympathia logram identificar-se com ella.

Recebel-a das mãos de Deus é para a mulher, para a mãe a mais tremenda das responsabilidades, e desgraçadamente aquella de que tem a consciencia menos definida e menos clara!

Ser mãe, quem o não é?

A difficuldade e o segredo é saber sel-o.

Na sociedade, tal como ella está constituida e continuará a estar por largos e dilatados annos, dous entes, um homem e uma mulher, moços ambos, encontram-se, olham-se, sorriem-se e pensam de si para comsigo que estão

apaixonados

.

Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental linguagem chamam

seculos

, repetem um ao outro, n'um tom mais ou menos desafinado os

duettos

de ternura doentia que os romancistas, os prosadores e os

maestros

inventaram para conveniencia sua... dos seus emprezarios e editores, e para envenenamento do resto da humanidade.

N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem

não ver nada

, calculam

in petto

quaes os prós e os contras pecuniarios do matrimonio hypothetico.

Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao outro por um laço que devia ser sagrado, e que muitas vezes consegue sómente ser... dourado!

O marido no outro dia vae para as suas labutações do costume, para a vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica em casa provando os vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem a touca, distinctivo invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros vôos timidos de senhora independente, que póde á sua vontade fechar o piano, atirar fóra o lapis e as tintas, deixar para um canto a costura e o bordado, e subverter-se sem receio das censuras maternas no

dolce far niente

, que tanto a namorava em seus dias de educanda submissa.

D'alli a um anno, se é boa, docil, se tem a intuição das cousas delicadas, se um poderoso instincto de creatura amoravel lhe pede que espalhe em volta de si a felicidade, concedamos-lhe que já tem tido tempo de conhecer e apreciar seu marido, que principia a estimal-o, que se lembra um poucochinho envergonhada dos falsos lyrismos de solteira, das cartas que lhe escrevia

fazendo estylo

e copiando phrases dos grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem, emfim, ainda incompleta, mas já accentuada a noção da verdade e da justiça que ha de guiar-lhe a vida.

Param, porém, aqui os seus conhecimentos, e um dia, surpreza, encantada, extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras, d'estas que se escoam entre risos de gratidão, percebe que tem nos braços um pequenino ser, a quem tem direito de chamar filho, porque o gerou no seio em longos mezes de agonia insondavel.

Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no regaço os seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha faminta e o instincto animal, que Deus concede a todos os seres creados, a primeira gotta do leite materno, que é a sua vida?

Entram as amigas e dizem-lhe em côro:

―Não o cries que perdes a formosura, o viço, a mocidade, tudo o que prende e captiva teu marido.

―Não o cries, que tens de te despedir dos bailes, das noites triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em que as flôres e as finas essencias nos embriagam com o perfume enervante, em que a musica nos côa nos sentidos as suas caricias languidas, em que a luz crúa do gaz nos beija as espaduas opalinas, em que a admiração dos homens nos envolve na audaz provocação dos seus olhares, em que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra.

―Não o cries, que terás de perder as noutes, não entre alegrias e folgares, mas na alcova, onde a medo bruxoleia a luz mortiça da lamparina, junto de um pequeno berço, ouvindo aquelle choro da infancia, tão doloroso para os ouvidos maternaes.

Teu marido fugirá de ti; elle, que anda cansado da faina diaria, quer as noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas; repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creança tem que dar por força á mãe, que fôr mãe, na accepção plena da palavra.

Não creio que a maior parte das mulheres ouça os funestos e corrosivos conselhos das amigas falsas; hoje começa a radicar-se em todos os espiritos a convicção justa e sensata de que só a mãe, quando é robusta, ou quando é simplesmente sã, deve amamentar o filho.

Entregal-o aos braços mercenarios de mulher estranha é aceitar a mais tremenda das responsabilidades.

A ama póde communicar no leite os seus vicios, os seus instinctos maus, as suas doenças ou defeitos de organisação hereditaria, toda a herança fatal de um passado inteiramente desconhecido para as pessoas que tão levianamente lhe confiam o que devia ser o mais precioso thesouro da sua alma.

Abstraiamos, pois, a ama, por não querermos suppôr que se trata aqui de uma mãe frivola até ao crime, despiedosa até á ferocidade, ou fraca a ponto de não poder cumprir os deveres da sua missão maternal.

Fica-nos simplesmente a mãe inexperiente e ignorante em face da recem-nascida creatura, flôr que precisa o mais desvelado cultivo, a mais complexa das educações.

Não a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com tão leviana confiança, com uma tão plena inconsciencia da grande missão que precisa de cumprir.

A culpa não é d'ella; n'este ponto ha um criminoso apenas―é o homem.

Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos, os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os cidadãos do futuro.

Só falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das escolas, a que facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das outras: falta a

escola das mães

!

Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez que a julguem frivola.

―Como é que se ha de ensinar a ser mãe? é só a natureza que instrue a mulher. Ha mães de quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que velhos pensadores de sessenta. Deixae obrar a natureza, é ella a grande mestra, a suprema inspiradora!

De accordo, meus senhores; quem é que nunca se lembrou de negar á mãe o seu divino instincto de protecção e de ternura? Quem ao vel-a segurar com tão delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos braços, adivinhar-lhe as necessidades e os desejos até para elle indistinctos, negará que entre esses dous entes ha uma cadeia mysteriosa, que a natureza nunca poderá mais desatar?

Mas é necessario que o estudo auxilie o maravilhoso instincto, que elle ensine á mãe a comprehender no seu triplice aspecto, physico, moral e intellectual, a educação do ser complexo, que hoje é uma fraqueza que implora auxilio e ajuda, que ámanhã será uma força util ou funesta, conforme a direcção que haja recebido desde os mais tenros annos.

O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve, portanto, constituir o ponto culminante da instrucção, é a theoria e a pratica da educação da infancia.

Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo até que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o grande problema da educação.

É um erro imaginar que a creança nasce boa.

Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos primitivos, que só uma habil cultura modifica, transforma, encaminha ou desarreiga.

Toda a creança é curiosa: mães aproveitae essa grande força, que conduz o homem á conquista de todas as grandes descobertas da sciencia e da arte, e que póde quando entregue a si conduzir a creança ao mais deploravel e mesquinho dos vicios de caracter, á curiosidade esteril do ocioso, da

senhora visinha

. A creança tem o instincto do roubo. Apossa-se do que vê, do que attrahe pelo brilho, do que lhe desafia a cubiça, a gulodice, o amor da posse.

Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um

bibelot

qualquer, que seja para ti de grande estimação, não chores desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras prophecias. Esse prenuncio de ambição desregrada póde, dirigido com previdente vigilancia, transformar-se na legitima energia que leva o homem a desejar a posse das riquezas honestamente adquiridas, a exercer no seu espirito uma influencia fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar para um ficto que de longe antevio.

Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater a inercia, a preguiça physica e intellectual da creança, empregando activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a evolução natural do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as curiosidades sãs, apontar para a natureza inteira como para um livro enorme, mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias dramaticas, de imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e pouco, conduzil-o até ao limiar da adolescencia, puro de coração, immaculado no corpo, prompto e apto para absorver em si os conhecimentos complexos que o esperam, robusto, são, energico, confiante, cheio de crença nos outros, e de crença maior em si, eis a missão das mães. Que de cousas não são indispensaveis para a saber cumprir!

Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora é a hygiene pratica, que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu cargo a distribuição e direcção do alimento da familia.

Do alimento que se ministra á creança depende em grande parte não só a sua futura saude, mas, o que poucas mulheres sabem,―o seu caracter futuro!

Dae a uma creança alimentos irritantes, inflammaveis, apimentados; deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool predomine, e tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os habitos baixos, os gostos perversos, todas as aberrações de um organismo estragado.

Dae-lhe só carne, alimentae-a brutalmente de materias fortemente azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario, selvagem, amigo das luctas bravias, das distracções violentas, dos exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas raças do norte.

Exemplo: os inglezes, que só domam as revoltas brutaes do temperamento com a forte disciplina de uma educação que é o supremo milagre do espirito sobre a materia.

A alimentação fraca produz os organismos inertes, fleugmaticos, sem impulso, sem fibra, sem energia duravel.

Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a alimentação do homem, saber combinal-os de modo que todos concorram para o seu bem-estar physico, e que nenhum produza as graves perturbações organicas de que podem ser origem, é a sciencia das mães, sciencia para cujo estudo devem tender todos os seus esforços.

A actividade quasi incessante da creança é um dos meios que mais efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual.

As mães, julgando fazer n'isto um grande serviço a seus filhos, combatem por todos os modos esta actividade, obrigando as creanças a uma quietação que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos buliçosos, que um impulso involuntario leva a um quasi continuo movimento.

Não é só com as reprehensões, ás vezes asperas e sempre injustas, não é só encerrando os pobres seres pequeninos em espaço muito estreito para os seus desejos, é tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da moda, e ás exigencias da propria vaidade de um modo que está em pleno contraste com a idéa que todo o espirito um pouco sensato deve formar das aspirações e necessidades da infancia!

A creança, que quer e que precisa de correr no espaço amplo, pelas ruas pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia de raizes, traz quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado e estreito! Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos

grandes gestos

, que trepa ás arvores, que se roja pelo chão, que atira ao longe os improvisados projectis que encontra, sente-se cruelmente cingida por um fato rico, elegante, phantasioso, caro por força, e que tem o defeito duplo e contradictorio de a entristecer lentamente, inconscientemente pelas censuras e ralhos de que lhe é motivo incessante―visto que não ha nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais economico do que a ostentação―e de a tornar vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir as vistas dos frivolos, e a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos miseraveis de cinco annos, que ignoram as alegrias bemditas da sua liberdade indomada!

Mães, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fôr vaidade, falso luxo, ostentação ridicula!

A graça das creanças consiste na plena expansão da sua vitalidade; o luxo d'ellas está no doce aroma de infancia que de si exhalam, e que falla de aceio, de pureza, de carinho materno, que revela―aos que sabem ver―as matinaes e frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas como perolas que se desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas, todo esse poema, que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos, feitos de leite e rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns braços amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso meigo e pensativo illumina em clarões de limpidez ideal, uma bocca que só sabe abençoar, uns olhos de mãe, que nunca desamparam nem desfitam o tepido ninho das suas doces aves implumes.

II

Por muito tempo todas as attenções do homem se fixaram n'um ponto que se avistava para além da vida terrestre.

Curava-se sómente da alma considerando a terra morada transitoria, cheia de males e de miserias, e o corpo ephemero involucro, especie de lodoso carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vôo para as altas espheras da eterna bemaventurança.

Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros se subordinavam, é a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da edade média, e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de milhares de gerações, nossas predecessoras na vida.

Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a materia, causa de tantos erros e de tão falsas interpretações; foi elle que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a sua mais cruel inimiga, como a sua tentação mais perigosa e abominavel.

D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira poderia provir.

Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as deducções que d'esse ponto de vista resultavam.

O corpo era um farrapo miseravel que só merecia desprezo e humilhação; todo o prazer, ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar cruelmente; a vida era um periodo curto de passagem e penitencia; a creança nascida já vinha contaminada do peccado original; a alma, só a alma precisava dos nossos cuidados, das nossas meditações, do nosso mais especial e esmerado cultivo!

Quantos erros de educação, de moralidade e de hygiene!

Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual não excitava!

Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade?

Pelo contrario!

Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca se materialisaram mais todos os cultos e todas as idéas!

O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma das suas chagas abertas.

A dôr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um coração dilacerado.

Os fanaticos mostravam á admiração das turbas os estygmas sangrentos das suas carnes palpitantes.

Os ascetas tinham visões nas quaes o Padre Eterno, o Christo, a Virgem, os Santos, lhes appareciam sob a fórma humana, com feições diversas e caracteristicamente accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e mais chã.

A

resurreição da carne

era um dos pontos fundamentaes do dogma catholico. O espiritualismo d'essas éras barbaras era muito mais

material

do que a sciencia de hoje.

―Para que aperfeiçoarmos e amenisarmos a vida,―diziam do alto dos seus pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as terriveis authoridades d'essas éras tão hostis para o homem.―Quanto maiores supplicios houvermos padecido n'este momento rapido, maior quinhão de gloria tem para nós a eternidade. Sofframos todas as humilhações mais abjectas, curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes devorem o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como Job na sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos cá em baixo, serão os primeiros no céu!

E a humanidade, ébria de um sonho de beatitude immortal, perdia a força para combater, e esperava passivamente a resurreição esplendida que os illuminados lhe promettiam!

Oh! quanto devemos á robustez de espirito, á fé fecunda e creadora que moveu alguns homens privilegiados a fazerem-nos sahir d'esse marasmo estagnador!

Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje illumina até os mais ignorantes, dos bens que hoje desfructam até os mais desgraçados.

Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se não fossem esses benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro, é o problema da educação.

Segundo o ponto de vista da edade média, a mãe não devia attender senão á alma de seu filho.

Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes só se fazia um bandido.

E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de que se usava eram inteiramente contraproducentes.

Hoje a mãe já não tem desculpa nem da sua ignorancia propria, nem da ignorancia da sua época.

Se não sabe é porque não quer saber.

O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as gerações que vão seguir-se-lhe melhores do que as gerações que o precederam.

Está pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e o corpo.

Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que é da saude do corpo que depende a saude da alma, e que os maus são quasi sempre os enfermos ou os defeituosos.

O caminho das boas mães está naturalmente traçado.

Não poupar esforços para aperfeiçoar e robustecer o corpinho querido, dentro do qual está crescendo e desabrochando a flôr maravilhosa, a flôr delicadissima, que é a alma infantil.

Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de ser mãe.

Não a póde haver mais seria e mais tremenda.

Desde que a creança nasce até ao segundo periodo da sua vida, em que ella já começa a ser susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos, engenhosos, delicados e constantes!

Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a creança está no banho, um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida mudança de habitos, qualquer pequena cousa que á primeira vista parece insignificante, póde ter um alcance enorme no futuro do querido entezinho.

Sabemos de uma creança que ficou cega, porque estabeleceram uma corrente de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido.

Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente, que nunca pôde trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a tornou rachitica uma quéda que a fizeram dar brincando com ella em pequena.

Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as creanças ao ar, fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro.

Quem póde dizer os resultados fataes para o seu organismo que d'ahi resultam!

A creança é tudo que ha de mais fragil e de mais delicado.

Pensem bem todas as mães que um erro de hygiene póde ás vezes fazer de uma indole pacifica uma indole perversa.

A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo, estão hoje para todos os olhos tão estreitamente unidos, tão profundamente identificados, que não ha abalo ou sensação que um experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo.

Pensam muitas mães que o melhor meio de emendarem os erros de seus filhos, são os ralhos repetidos e os castigos severos.

Engano perfeito!

O unico meio de educação verdadeiramente proficuo é o exemplo.

Que encargo de almas não assume a mulher que quizer ser boa mãe!

A mais doce e a mais tocante relação reciproca que existe entre a mãe e o filho, é aquella em virtude da qual a mãe educando-se educa, e o filho sendo ensinado ensina.

Emquanto ensinamos os nossos filhos, a nós proprias nos estamos illustrando.

Pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as inocularmos no coração, como que se nos vão lentamente revelando todas as bellezas incomparaveis d'este mundo moral, de cuja contemplação andavamos, senão alheiadas, ao menos distrahidas.

Oh! de quantos rasgos bons não é origem para a mãe, o receio de vêr traduzir-se um espanto accusador nos olhos limpidos de seu filho.

E depois é necessario que todas as educadoras pensem muito n'esta verdade tão simples e tão lucida.

O exemplo, é que ensina, guia e robustece a alma e educa o espirito.

Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do caracter, se ella não provar com o seu exemplo de todos os dias a divina graça d'estas qualidades e d'estes usos?

A creança obedecerá talvez, mas sem convencimento e sem alma!

Para que todas as bençãos de Deus chovam sobre a cabeça das que sabem ser boas mães, nem esta benção suprema lhes faltou.

Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia, perdem defeitos e ganham virtudes.

A educação bem comprehendida é tão util á mãe como á creança.

Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e perspicaz entendimento.

Tem habitos inveterados de preguiça, tem horas desoladoras de tedio e de morbida melancolia. O tempo para ella é pesado e longo.

Vive, não

gosando

as horas porém

matando-as

como póde.

Não se occupa, não reage contra o seu natural e funesto prostramento, não tem um fim util e querido para o qual viva.

Um dia esta creatura infeliz é mãe!

Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e como no fim de contas é intelligente e boa, quer cumprir dignamente a sua sagrada missão.

Como é milagrosa e abençoada a influencia que n'este caso a creança innocente exerce no caracter de sua mãe.

Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os inuteis desalentos! É preciso que ella ensine a viver á fragil creaturinha que Deus confiou aos seus braços.

Quantas d'estas redempções se não devem á infancia! Quantas vezes a mão inconsciente de um pequeno ser de dous ou tres annos não tem redimido os erros de seus paes!

Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que lêmos ha muitos annos, e cuja idéa é esta.

Duas desgraçadas creaturas, d'estas que a miseria prende ás vezes mutuamente por ephemeros laços, arrastavam juntas uma vida angustiada e degradante.

Ella

sem coragem, sem aceio, sem actividade, sem aquella força que ao mais negro albergue póde dar a mysteriosa graça dos ninhos;

elle

, ocioso, cruel, covarde diante da desgraça e diante do trabalho, ébrio ás vezes, d'aquella selvagem embriaguez da aguardente e do absintho.

Porque se conservaram unidos?

Nem elles proprios o sabiam.

Poder do habito, abjecto marasmo das supremas degradações.

Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma creança.

Não se admirem.

Tambem ás vezes das podridões de uma sepultura desabrocha uma rosa de maio.

Quando á noite o homem voltou de suas divagações sem rumo, a pobre mulher prostrada nas palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe espantada:

―Porque me não bates? porque me não ralhas? quem é que suspendeu o insulto da tua bocca, e os golpes dos teus braços?

E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um enternecimento desconhecido na voz rouca:

―

Tenho medo de acordar o pequenino.

―

J'ai peur de réveiller l'enfant.

Oh! creanças, creanças, como isto revela bem o poder divino que é tão vosso!

Tenho fallado muito ás mães n'este assumpto.

Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma á educação dos seus filhos!

É que não ha creanças más, como não ha homens perversos.

Ha creanças mal educadas e ha homens pervertidos.

Na educação que as creanças recebem dominam ainda perigosos preconceitos, e dizemos

perigosos

, por que n'este grave assumpto todo o erro é um perigo.

Apontemos alguns.

Toda a mãe ambiciona possuir um filho modelo.

Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos classicos, que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e reprehensivos para a travessura dos outros, que nunca se esquece das lições, que é emfim um

prodigio

que todas as mães invejam, e apontam como ideal a seus filhos menos privilegiados.

Esta classe de creanças póde dizer-se que é a unica verdadeiramente antipathica.

Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam

meninos modelos

.

Para evitar este resultado, é preciso não dar excessiva attenção ás graças naturaes da creança, não a louvar de modo que ella ouça, não a forçar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe plena liberdade de movimentos e de impulsos.

Se a creança tem demasiada propensão para os estudos mais proprios de outra edade, cumpre distrahil-a, pôl-a em contacto com a natureza, ensinal-a a comprehender a alma das cousas.

Nada melhor para

desenvolver

o espirito e o coração das creanças do que a vida no campo.

Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que desperta sans curiosidades no entendimento infantil.

Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe um animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeiçoe.

Ás vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no chão, ou em qualquer movel da casa, vemos com indifferença a criada que o trata bater tambem, fingindo-se muito zangada, no objecto que sem culpa nem consciencia é a causa da magoa que

afflige

o nosso pequeno amor.

Este velho costume das aias e das mães pouco atiladas, é um erro.

Torna a creança absurdamente vingativa.

D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria, não vae nada.

De cada idéa falsa se faz n'estes cerebros delicados e impressionaveis o germen de um vicio ou de um defeito.

Quantas mães eu não tenho ouvido dizer: Meu filho é tão teimoso! Meu filho é tão guloso! Ou tão tagarella, ou tão curioso!―ou tão colerico!

Mães, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso que hoje é planta damninha e venenosa.

Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia forçada, a cólera instinctiva, com os castigos implacaveis, é pessima tactica.

O meio de levar uma creança a esquecer-se de que teimava, é distrahir-lhe a attenção para assumpto muito diverso d'aquelle que a absorvia.

Quando uma creança é exageradamente gulosa, o meio de a emendar é leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a córar d'elle diante de si propria.

Nas cóleras a que todas as creanças são mais ou menos sujeitas, o remedio mais efficaz é uma brandura magoada.

Que a mãe deixe ver que os erros de seu filho a não enfurecem, mas a fazem soffrer muito.

A creança ficará desarmada e moralisada.

Para ella a revelação subita de que foi causa de grande amargura para aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar da consciencia e ao pungir do seu primeiro espinho!

Usemos na educação dos meios puramente moraes, e não das degradantes correcções physicas.

Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da creança, e a impressionabilidade do seu ser moral.

Que ella conheça sempre o mal e o bem, não pelos inconvenientes ou vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas pelo que ellas valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma inclue em si, e pela essencia superior de que a outra é feita.

III

N'este delicioso e querido assumpto da educação infantil tudo está dito, e tudo está ainda por dizer.

As regras geraes teem forçosamente de ser modificadas na sua applicação a casos particulares; nenhuma creança existe no mundo que seja absolutamente egual a outra creança; é ao espirito da mãe que pertence o gravissimo e delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir as regras e os preceitos enunciados pelos educadores e pelos moralistas.

O que é, pois, necessario antes de tudo, é levar as mães a pensarem profundamente n'estas altas questões, e a estudarem com pertinaz paciencia o caracter das creanças cujos destinos teem de dirigir.

Conhecemos uma senhora, aliás muito boa e muito dedicada, que, tendo cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema.

Resultado inevitavel e fatal:

As creanças são todas deploravelmente educadas.

Ernesto Legouvé, distincto escriptor francez, que tem consagrado grande parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e sobre a educação da creança, publicou ha mezes um bello livro que d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras.

Intitula-se―

Nos filles et nos fils

, e contém uma serie de scenas e estudos de familia, muito proprios para ampliar e esclarecer o coração e o entendimento das mães em certos momentos criticos da sua difficil missão.

Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das creanças e dos criados, da intimidade forçada e muitas vezes perigosa que entre elles se estabelece, e dos resultados nocivos que d'essas relações resultam para a educação.

Legouvé leu este trecho na

Academia Franceza

; por aqui se reconhece a sua importancia, a maneira superior por que foi tratado.

Muitas mães desattendem na educação dos seus filhos a questão gravissima dos criados.

Deixam que as creanças vivam n'um contacto muito intimo com gente de tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem eivada de erros, de conversação baixa e degradante.

Quantas mães eu não tenho ouvido dizer ás suas filhinhas de quatro, cinco e oito annos:―

Vae lá para dentro; deixa-me conversar?!

Imaginam ellas que para a creança nenhuma consequencia má póde provir da sua intimidade com as criadas.

Enganam-se.

Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte integrante da familia, nasciam e morriam na casa, não havia perigo em que as creanças estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem e brincassem.

O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas de educação elevada, fazia-lhes comprehender que as creancinhas eram uns seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se não devia macular nem de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente respeitados.

Hoje, infelizmente, como já o dissemos, esse modo de comprehender a vida de familia, modificou-se completamente.

Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade incrivel; não criam raizes em parte alguma, e este viver de párias no meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia e tecto seu, desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade.

Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe.

Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e sem remorso.

De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as anecdotas mais intimas, os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam tudo isto, uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de apreciações e de commentarios.

Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz vicio.

Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que ha sempre na alma do povo, dão um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por força a curiosidade da creança.

Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a beberem essa deploravel sciencia!

E não se diga que a creança não entende!

A creança tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um extraordinario grau!

A creança entende quasi tudo, e d'aquillo que não entende guarda a memoria até á edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado.

Não levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma creança, deve ser um dos maiores cuidados da mãe.

Mas dir-me-hão: as pessoas crescidas conversam por força em mil assumptos melindrosos; se realmente as creanças percebem, como evitar que ouçam?

É n'isso positivamente que está o mal.

Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente dos seus deveres de mãe, deve haver o maximo escrupulo na escolha das diversas conversações.

Assim como ha limpeza nas habitações, porque não haverá limpeza nos espiritos?

Não ha tantos assumptos attrahentes de conversação?

Será absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar indiscretamente mysterios alheios?

Não quer isto dizer que a humanidade se limite a um puritanismo de palavras, que degenerará por força em hypocrisia; mas entre esse excesso ridiculo e a liberdade absoluta que se usa diante das creanças, creio que ha um meio termo que seria facil de adoptar.

E depois, seja dito com toda a coragem: ou se é mãe no sentido completo e absoluto d'esta palavra ou se é mulher do mundo.

Ou nos havemos de consagrar á companhia dos nossos filhos, á sua educação, ao desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, á vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar.

Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve é a vaidade.

A pequenita de tres annos já começa a ter orgulho e presumpção no seu vestidinho bordado, nas suas saias de folhos, no seu chapéu vistoso e garrido.

Todos se riem da

gracinha

.

―Meu anjinho! Como é presumida! Diz a mãe toda enlevada. E gaba-a muito.―Estás linda! a minha filha é muito bonita. Fica-lhe tão bem este vestido!

Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo é um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites luxuosos, de ambições extravagantes, sonhando com um noivo

muito rico

que lhe sacie todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia, quando os homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu intimo a desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem é a culpa, digam-no sinceramente?

A culpa é de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor funesto, tão natural á mulher, e que só á custa de muita reflexão ella consegue vencer.

A culpa é da mãe, que teve orgulho dos defeitos da sua filha, em vez de lidar por transformal-os em virtudes.

A mulher é vaidosa? Pois bem! se não podemos destruir esse vicio organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle leva.

Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta, instruida e forte.

Façamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que é bem mais difficil e glorioso ser docil do que ter um vestido novo; que é muito mais digno de louvor saber ler do que trazer um chapéu de plumas.

Isto não é mais do que indicar o caminho.

Não ha mãe cujo instincto a não advirta de que estamos fallando verdade.

Até a escolha da boneca é uma cousa importante!

Uma boneca esplendidamente vestida, de chapéu com flores, de luvas e cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois uma certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa desdem e antipathia.

Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella não deu a todas nós! Comparavel á alegria da primeira boneca, só a alegria do primeiro filho!

É a mesma hesitação em lhe tocarmos com medo que ella se

quebre

! o mesmo susto! a mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto namorado e feliz!

A mãe intelligente comprehende e sabe aproveitar isto.

A boneca é como a aprendizagem da maternidade!

―Está nua, coitadinha, está nua a tua boneca, Lili. Que frio que ella deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de te vêr tão bem vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao pé de mim, Lili, vamos nós fazer o fatinho da tua boneca!

E como o coração é que sempre domina e guia a mulher, eis o coração fazendo um milagre n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser a traquinas, a turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a conhecer as delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio.

O sacrificio por uma boneca!

Sim, o sacrificio, e porque não?

Só quem não é mãe e quem nunca foi creança é que escarnecerá da expressão que empregamos.

Pois não sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua nos braços, e que se veste, que se calça, que se conchega, que se adormece entre beijos e affagos, é o primeiro sonho de um coração de mãe?

As amigas das nossas filhas!

Grave e momentoso assumpto, não raro descurado e de cujo esquecimento ou de cujo desleixo resultam ás vezes damnos irremediaveis.

No collegio é que se travam quasi sempre as primeiras amizades. Ora, nós para as meninas desadoramos o collegio.

Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo.

Quem é que nos responde pela boa escolha de relações que alli adquirem nossas filhas?

Quem nos diz que essas creanças todas que alli se reunem, e que entre si trocam as mais intimas e minuciosas confidencias, só viram bons exemplos, só conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade?

Pois nenhuma d'ellas trará comsigo aquella funesta curiosidade, que perdeu a nossa primeira mãe?

Todas são innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem de baixo ou de corrosivo?

Quem nos affirma que ellas saberão ser boas e honestas companheiras, que não lançarão com uma palavra imprudente um germen venenoso, que não corromperão com precoce perversidade o espirito da creança innocente, que n'ellas se confiar?

As amigas das nossas filhas são aquellas de quem logo depois de nós depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas!

É de uma grave imprudencia acceitar para uma filha nossa, sem escolha e sem criterio, a companhia de outra creança.

Cumpre conhecer bem a mãe, a educação que ella dá aos seus filhos, o modo porque vivem, o caracter, a moralidade d'essa familia.

E que as mães, n'este ponto, se não prendam com preoccupações de banal delicadeza. Primeiro que tudo está o futuro das suas filhas.

Se a educação de um rapaz é já difficilima, que será a educação de uma menina?

Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas contrariedades em meio do caminho!

Que a mãe procure ser a melhor amiga de sua filha, e que esta não receie confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos infantis, nem as mysteriosas comoções da sua alma adolescente.

N'esta deploravel educação que hoje se dá e se recebe, a primeira cousa de que os filhos tratam é de enganar os paes.

De que provém isto? Da mal entendida severidade d'estes.

A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a creança para se confiar sem medo ao coração que a sabe entender e lhe sabe perdoar.

Mas é muito delicado este ponto da missão maternal.

Se o excesso da severidade cria a desconfiança e a mentira, o excesso da indulgencia cria o cynismo e a desvergonha.

Que difficil não é para um espirito de mãe saber ao mesmo tempo attrahir a confiança e impôr o respeito!

Levar o filho que peccou a confessar a culpa, não por ter a certeza de que será facilmente perdoado, mas por lhe exigir a consciencia que não esconda o seu delicto aos olhos d'aquella que sabe com mão delicada e firme repôr no caminho direito o ente fragil que se transviou.

No dia em que a mãe tiver alcançado do coração de sua filha ou de seu filho esta singular conquista de veneração e de amor, póde sentir-se tranquilla e satisfeita, póde sem medo responder pelo futuro.

Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou ás nossas mãos.

Como verão, pertence esse trecho a uma carta que na vespera do seu casamento foi dirigida á sua filha por uma extremosa mãe.

Explica muito melhor do que nós o podemos fazer o triumpho de um bom coração maternal.

«Não tive animo de te dizer todas estas cousas frente a frente.

Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que detésto acima de tudo os enternecimentos intempestivos.

Depois, teria pejo, eu, tua mãe, eu que julgo ter concorrido pelos cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha obra―quer dizer, da tua educação―teria pejo de te encher de louvores que embora justos, recahiriam um pouco sobre mim.

Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito boa vontade, á companhia dos indifferentes e dos frivolos, que só viriam destruir ou modificar o effeito de todos os meus esforços, tão santamente abençoados por Deus!

Com que saudades eu me lembro dos serões de outro tempo, em que tu já serena, grave e modesta como és hoje, lias ao pé de mim, emquanto os nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas sãs, em cousas simples, das que não podem ferir os ouvidos de uma menina!

Não te aconselho que renuncies ao mundo por amor dos anjinhos que virão de certo abençoar e consagrar o teu casamento; mas peço-te que sejas escrupulosa como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na sagrada intimidade do teu lar.

Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons. Não te quiz beata, nem

espirito forte

; não desejei que fosses uma metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher só de sala, nem mulher exclusivamente do

ménage

.

O ideal, minha filha, é que de tudo se saiba ser um pouco.

Gostarei que recebas com graça senhoril na tua saleta de todos os dias, artistica e confortavel, mas não desejarei menos que saibas ensinar a tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o fato de teus filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza.

Não quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito bem.

Se foi egoismo, Deus não me castigou por elle, porque devi a essa precaução, por ventura excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das tuas primeiras alegrias e dos teus primeiros sonhos.

Ámanhã já não serás minha, querido encanto; nem já serão os meus beijos os unicos que a tua pura testa de vinte annos receberá! Mas n'esta saudade dilacerante que me punge, quantas compensações supremas eu não encontro!

Entrego-te ao teu noivo, tão candida, tão ignorante do mal como deviam ser todas as creanças da tua edade, que tivessem mãe, que só n'ellas pensasse e só por ellas vivesse!

Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um espectaculo ignobil.

Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia!

De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos!

Ignoram as alegrias profundas de ser mãe, como eu fui, como tu serás, minha joia!

Não ha na tua alma um pensamento, uma idéa, uma saudade, que eu não conheça, e se ámanhã quizer folhear diante de teu marido o livro radioso da tua infancia e da tua adolescencia, não haveria n'elle uma só pagina que eu lhe não podesse repetir de cór.

Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para me consolar de todas as minhas saudades!

É bem pezada n'este mundo a cruz das boas mães, mas não te esqueças nunca, minha filha, que mesmo n'esta hora de tantas lagrimas, eu confesso bem alto, não ha rosas mais frescas, mais puras e mais orvalhadas do que as rosas que enfloram e entrelaçam essa cruz!

Só d'aqui a muitos annos comprehenderás a angustia com que te digo―

adeus

!

Então, sei que has de chorar por mim!»

CAPITULO XVI

Cartas de um marido

Meu caro amigo.

Onde é que fui desencantal-a? perguntas tu com justificado espanto.

E tens razão.

O facto é que nunca a vi, valsando n'um baile á luz quente e abafadiça do gaz, decotada, cheia de pó de arroz e de suor, abandonando-se n'uma postura voluptuosa, nos braços de um sujeito esgrouviado, de casaca, collarinhos de papelão, e olhar que tenta ser magnetisador e irresistivel, e que depois de tamanhos esforços não consegue ser senão comico.

Nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em beneficio dos meninos pobres, vendendo n'um bazar sorrisos de dançarina e

bibelots

de fancaria em beneficio dos velhinhos aleijados, representando n'um sarau dramatico, comediazinhas maliciosas em beneficio dos adultos cegos.

Frequentando os theatros de segunda ordem, onde os palhaços e as

cocottes

de Offenbach, e dos modernissimos

maestrinos

da decadencia se desengonsam em scena, fazendo gestos desmanchados e sublinhando com sorrisos torpes as suas cantilenas de

café-concerto

, debalde a procurei pelas frisas, e pelos camarotes, applaudindo as farçadas impuras, e dando gargalhadas que attrahissem a attenção e os maliciosos commentarios da platéa.

Nas noites de verão, no Passeio Publico, quando ha musica, fogo de artificio, muito calor e muito aperto, e as meninas burguezas que ainda não podem gozar da

villeggiatura

elegante, passeiam com

toilettes

claras, na plena expansão da

flirtation

lisbonense, confesso que muitas vezes atravessei a multidão, pisado, empurrado, offegante, sem respeito pelas caudas de seda, de

foulard

, de linho transparente, que para alli vão desfructar o prazer de se encherem de poeira e de rasgões, e que debalde procurava reconhecel-a em cada vulto feminino, esbelto, gracioso, que passava pisando a areia das ruas, com o tacão alto das estreitas botinas de pellica.

Até comecei a frequentar S. Luiz, a igreja da devoção fidalga, do arrependimento perfumado de

poudre

d'iris

, do mais alto, do mais distincto e do mais desdenhoso beaterio...

Vi todas as nossas flores da

alta vida

, trajando com discrição finamente aristocratica, revelando a elegancia que as distingue, no modo de se ajoelharem, de se persignarem devotamente, de erguerem os olhos com extasi piedoso, para a imagem alabastrina da Virgem, que parece erguer-se como um lyrio desabrochado, d'entre as verduras e as brancas florescencias que a cercam de todos os lados.

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