MULHERES E CREANÇAS (continued 2)
Reading edition
É indispensavel um padre galante, perfumado, estrangeiro, que torne o ensino da religião alguma cousa de artistico e de adocicado como elle.
Saber bem doutrina
constitue um dos deveres de uma educação primorosa, e no entanto a filha que aprendeu, a mãe que a mandou ensinar, ignoram todos os deveres a que esta sciencia, a ser bem comprehendida, as obrigaria.
Sabem doutrina como sabem grammatica; quer dizer repetem de cór umas certas e determinadas regras de que não percebem a applicação pratica.
Aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua educação completa.
Quer seja filha de um duque, quer seja filha de um fabricante, quer o seu destino a reserve para receber n'uma sala faustuosa os altos personagens da politica e da diplomacia, para fazer parte da côrte, para conviver n'um pé de intimidade com todos os grandes, e com todos os opulentos; quer ella tenha de partilhar as luctas obscuras de um modesto empregado, de um industrial de poucos haveres, de um artista desprotegido, é a mesma a sua educação moral, physica e intellectual.
Está do mesmo modo preparada para as luctas e para os combates da vida; tem a mesma força nos musculos, tem as mesmas faculdades no espirito, tem as mesmas noções na consciencia.
A burgueza ou a fidalga, com tanto que tenham dinheiro, teem os mesmos direitos, as mesmas aspirações, ambicionam para suas filhas o mesmo lugar na sociedade.
Mas o que deve confessar-se uma vez por todas é que esta educação, toda vaidade, toda orgulho frivolo, toda inutil ostentação, convem tão pouco á filha da aristocracia e da opulencia, como á filha da burguezia e da mediocridade.
Uma, collocada nos altos pincaros sociaes, precisa de ter o juizo recto e seguro para conhecer os homens, a graça ondeante e fina para os attrahir, o conhecimento profundo dos seus interesses e paixões, para os conciliar entre si; precisa de fallar a cada um a linguagem mais propria para o convencer e dominar; precisa de ser, junto de seu marido um auxiliar proficuo com que elle conte, uma intima e fiel alliada, que o ajude a conservar dignamente a posição que herdou dos seus avós ou que conquistou com o braço e com o pensamento.
A outra, n'uma esphera que é inferior á da primeira, segundo o ponto de vista social, mas que de feito lhe é superior, porque inclue mais altos e mais complexos deveres―a outra precisa de descer com seu marido á arena onde combatem os modernos trabalhadores, precisa de lhe ser em tudo e por tudo ajuda, guia e conselho, precisa de acceitar para si terriveis responsabilidades, para as quaes nenhuma lição a preparou!
Dir-me-hão que
o nivelamento democratico das modernas sociedades dá a todos os mesmos direitos, porque dá a todos os mesmos deveres; que a mãe opulenta e nobre que cria suas filhas nos fôfos ocios da riqueza não sabe se em breve terá de vel-as curvadas ao peso da maxima miseria, assim como a mulher de um humilde empregado não sabe se verá sua filha ascender a uma prospera e brilhante posição, elevada por um d'esses casamentos que são vulgares, como d'antes eram raros.
D'accordo, meus senhores; mas essa hypothese em cousa alguma destróe a minha asserção, pois o que eu disse e repito é que a educação feminina, tal como hoje a entendem, para nenhuma classe da sociedade, para nenhuma posição brilhante ou precaria é util ou conveniente.
Que desenvolvimento moral, physico ou intellectual, póde adquirir-se partindo de tão errados principios?
A que fim se aspira, que fim se attinge, alcançando uma educação que tem por unica base a vaidade?
Pois a mulher, que levou annos e annos da sua vida a adquirir conhecimentos inuteis, está porventura armada para resistir ás tentações, ás adversidades, ás miserias, aos combates da vida?
Imagine-se, em contraposição a esta falsa cultura, que constitue o que os burguezes embebecidos em comico enthusiasmo chamam uma
educação muito fina
, imagine-se que as mães, juntando-se n'uma piedosa cruzada, conseguiam crear uma instituição moderna, onde suas filhas recebessem a educação que hoje lhes poderia servir, para se tornarem uteis na sociedade e na familia.
Quantas vezes não tenho eu acariciado em sonhos a idéa d'essa escola-modelo, onde a creança aprendesse a ser mulher, onde a mulher aprendesse a ser mãe! onde uma direcção harmonica e intelligente presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao desenvolvimento não menos sagrado do corpo; onde a moral caminhasse a par da sciencia, onde a primeira noção que o entendimento feminino recebesse fosse esta: «Todo o trabalho nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir um dever!»
Eu não quizera por certo proscrever da educação da mulher as graças, que são para ella o que o perfume é para a flôr.
Não queria vêr o mundo convertido n'um viveiro de
pedantes
, enfronhadas em sciencia e tornando antipathica a virtude, á força de lhe darem ares dogmaticos.
Se a leitora suppõe de mim tal abominação, é que eu bem pouco tenho conseguido revelar-me aos seus olhos.
O meu intento é outro; permitta-me que lhe torne aqui bem palpavel.
V. exc.
a
, minha senhora, tem uma filha, um pequenino anjo, louro e risonho, que é n'este mundo o seu enlevo, como que um bocadinho do céu azul, que lhe cahiu no seio n'um dia abençoado.
Tome o meu conselho: não siga na educação do seu pequeno amor o systema que sua mãe seguiu comsigo, que as suas amigas seguem com as filhas que teem.
Córte de uma vez este fatal nó gordio da tradicção, do costume, da rotina, que faz morrer em flôr tantas innovações beneficas.
Tenha a coragem das suas opiniões; inutilise esse formoso e rico enxoval que umas modistas banaes inventaram por ordem sua; deite fóra essas sedas, essas rendas, esses instrumentos de perdição para a alma pequenina que Deus lhe confiou.
Vista sua filha simplesmente, com um aceio gracioso e poetico, que revele os seus desvelos de mãe, mas que não denuncie as suas vaidades de rica.
Bem vê que, livre de todo aquelle fausto que a incommodava, como um laço de fita incommoda uma ave, a sua doce pequenina se sente mais livre e mais contente.
Eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua, passando por ella, a mediu dos pés á cabeça, muito espantada e um pouco desdenhosa, perguntando a si mesma se v. exc.
a
já não era tão rica como ella julgou; mas em compensação d'esta pequena ferida de seu amor proprio, houve uma creança pobre, que ao parar junto da sua filhinha, ousou estender a bocca de rosas, e beijal-a com um dôce e fraterno beijo, como os anjos se dão entre si, e para os quaes Deus do alto da sua gloria teve sempre um sorriso bom!
Que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que não teem as invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabeça como uma eterna maldição!
Quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco, muito simples e muito aceiado, as mães pobres sorriem-se com amor por dous motivos, ambos santos: porque ella não humilha ninguem, e deixa uma esmola de pão e um rasto de luz no seu caminho de anjo inconsciente.
Oh! como são doces ao coração das mães as bençãos que se desfiam como um rosario de perolas sobre a cabeça loura de seus filhos.
Quando a intelligencia já viva e luminosa da sua filha lhe pedir cultivo, como as flores pedem agua, não a force a um trabalho pesado e tenaz, nem tão pouco lhe dê da vida uma idéa tão frivola, que ella só aprenda o que é superfluo para não dizer inutil.
Abra-lhe com a sua mão maternal tão delicada e tão subtil o vasto livro da natureza, e deixe que ella, enlevada e curiosa, o folheie cheia de amor e de fé. Toda a sciencia se encerra n'isto, minha senhora.
Faça-a penetrar na alma de todas as cousas para que a vida se não conserve aos seus olhos inanimada e esteril.
Em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros, leve-a brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei, que é feita de tanto amor!
Conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo, ensine-a, ou antes, deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do pão e pela esmola do carinho, e, quando ella voltar do albergue da desgraça, ao seu lado, calada, pensativa, com os olhos cravados nas nuvens alaranjadas do poente, pergunte-lhe então baixinho, com a sua voz de mãe, a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de uma virgem:―Comprehendes agora as palavras do Christo:
Ama a Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo
?
Só este commentario das lições do Justo póde fazer com que ellas dêem abençoados fructos!
Em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana tenta avassallar e corromper a innocencia, innocule-lhe lentamente com a sua palavra serena e firme a força necessaria para vencer e dominar as astucias criminosas e traiçoeiras.
Faça-lhe sentir com a lição e com o exemplo que a mulher tem quasi sempre em si o seu peior inimigo, e que este inimigo, que toma todas as fórmas imaginaveis, é sempre no fundo o mesmo! o orgulho.
Que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua bondade nobilita aquelle que se lhe submette, emquanto que o despotismo, que tem como origem a belleza e a graça artificial das seducções, rebaixa o homem que o acceita, e a mulher que o põe em acção.
Nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as eventualidades.
Que se não ache deslocada n'um throno, nem atraz d'um balcão.
Eis o ideal.
Ha uma dignidade que está comnosco, que participa da nossa propria assencia, que provém da noção elevada que nós temos dos nossos direitos e dos nossos deveres, e que é portanto independente de qualquer circumstancia exterior.
É d'esta dignidade que uma educação justa e forte deve dar á mulher, e que em todas as peripecias da vida, por mais desusadas e estranhas, a deve acompanhar.
Ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos delicados, e bastante superioridade para comprehender a idéa do dever que os exalta e sobredoira; ver na vida, primeiramente as obrigações, depois as distracções, eis aquillo que todas as mães devem ensinar ás suas filhas.
No dia em que todas o souberem, teremos então, em vez das creanças fracas e inuteis, que o homem ora protege, ora escravisa, segundo o impulso das suas ephemeras paixões, uns seres pensantes, conscios da sua força, sem ambições desregradas de um poder que lhes não deve pertencer, sem a hypocrita humildade, que faz de cada mulher uma victima pouco sympathica.
As salas terão menos estatuetas de
biscuit
amaneiradas e ridiculas, mas a familia terá mais elementos na vida e duração; os pianos deixarão de suspirar em noutes de luar as suas sentimentaes confidencias; mas a verdadeira comprehensão da arte, da religião, e da poesia penetrará como por encanto nos entendimentos feminis.
Teremos emfim ao lado do batalhador das modernas lides uma companheira, não só digna d'elle, porém capaz de o levantar a um nivel que elle ainda, desacompanhado e desprotegido, não pôde desgraçadamente attingir.
CAPITULO VI
Leitura para nossas filhas
«Minha querida amiga:
Disse-me hontem que sua filha tinha esgotado a pequena bibliotheca infantil, que a muito custo colligio para ella, e que esse candido e luminoso espirito, de quinze annos exige energicamente mais alimento que a nutra e que a deleite.
Pergunta-me a respeito da leitura que ha de permittir a sua filha, a minha opinião, o meu conselho.
É um caso difficil este que me propõe.
Lili é uma graciosa e excepcional creatura; tem a logica inflexivel das creanças intelligentes, tira rapidamente a conclusão das premissas que submettam ao seu criterio. A leitura póde fazer-lhe muito mal ou muito bem; não póde de modo algum ser-lhe indifferente.
A minha amiga seguindo as tradicções que já encontrou assentes, pergunta-me se póde deixar ler a sua filha
Paulo e Virginia
, esse idyllio que tem cem annos e que ameaça ser eterno, ou
Jocelyn
, o poema mais perigosamente mystico que eu conheço. Falla-me no
Genio do Christianismo
, de Chateaubriand, e nas tragedias sacras de Racine.
Não se lembra para sua filha de nenhum outro escripto e lembrou-se justamente d'aquelles que só lhe podiam fazer mal.
Antes de mais nada, responda-me francamente: quer fazer de sua filha uma mulher solidamente instruida ou então uma mulher ignorante?
Quer que ella saiba resistir ás tentações que forçosamente ha de encontrar na vida, ou quer que ella se conserve na mais completa e absoluta inexperiencia até á edade em que ha de entregal-a ao homem que tem de ser seu marido?
Da resposta a estas duas perguntas é que tudo depende, porque segundo a idéa que a minha amiga fórma da educação de uma mulher, segundo o systema que tenciona pôr em pratica com relação á educação de sua filha, o futuro d'esta ha de levar um outro caminho.
Eu não posso dizer-lhe positivamente: faça isto, faça aquillo.
Posso apenas contar-lhe o que fiz.
Minha filha tem hoje vinte seis annos, é casada, é mãe, e tem sabido cumprir a dupla e difficil missão que a sorte lhe confiou.
Não sei se deva attribuir os meritos que todos lhe reconhecem á educação que procurei dar-lhe; parece-me, porém, que sem falsa modestia poderei confessar, que os meus cuidados não foram de todo inefficazes, e que o muito que pensei e meditei sobre o caracter da minha querida filha, me ajudou a guial-o no caminho do seu aperfeiçoamento.
Ha gente que diz que as mulheres não devem ler.
Não sei se alguma vez tem ouvido essas opiniões estupidas ou perfidas; não lhes dê credito minha boa amiga.
Eu não acho merito algum á mulher ignorante, que se resigna ao cumprimento dos seus obscuros deveres de todos os dias.
Segue rotineiramente um caminho de que não conhece as difficuldades, e se não se afasta d'elle é porque não sabe de nenhum outro.
A mulher deve ler, mas se mais tarde no pleno uso das suas faculdades mentaes, e da sua força moral, ella póde ler tudo sem perigo, é indispensavel que uma educação anterior a tenha preparado e fortalecido, é indispensavel que haja o maior cuidado na cultura intellectual que ella deve receber na infancia e na adolescencia.
Diz-me a minha amiga, que a maior parte dos romances são immoraes, que os que não são immoraes nos intuitos são perigosamente exaltados ou revellam ao espirito da mocidade quadros que ella não deve conhecer: diz-me que a historia de todos os povos não é mais que um amontoado confuso de crimes e de vicios, que a sciencia está em contradicção absoluta com as verdades de religião, e no meio das duvidas que se desnorteiam e assaltam quasi que prefere condemnar sua filha a uma ignorancia que ao menos a conserve simples de coração e tranquilla de espirito.
Tenho duas objecções a fazer-lhe minha amiga, e parece-me que ambas hão de impressionar o seu esclarecido entendimento.
Em primeiro logar, se consultar bem a sua consciencia, verá que transige por fraqueza e por preguiça com a ignorancia de sua filha.
Prefere que ella não tenha quasi nada, a ter de se entregar a trabalho difficilimo de escolher com o mais delicado dos escrupulos o que ella deve saber.
Em segundo logar, essa ignorancia, que para a mulher lhe parece o porto socegado e tranquillo onde ella repousará affoutamente, parece-me a mim um banco de perfidas areias onde facilmente ella póde naufragar.
Já estou d'aqui prevendo a sua objecção.
Mas eu não quero tal que minha filha seja ignorante. Pelo contrario, dei-lhe uma excellente educação. Aqui não se tracta senão das leituras que depois de educada eu lhe devo permittir ou recusar.
Minha amiga, creia isto que lhe vou dizer. Se sua filha não souber senão o que tem aprendido até agora, de poucos recursos fica munida para combater na grande batalha em que vae entrar.
Ensinou-lhe o cathecismo, bem sei; Lili fez já a sua primeira communhão, e respondeu ao exame de doutrina com admiravel facilidade, e com uma memoria impecavel.
E depois?
Em que é que essas noções a auxiliam para que ella chegue a conceber o bem absoluto, a eterna justiça, o Espirito Supremo que anima a grande natureza?
É preciso que ella forme de Deus uma larga e fecunda idéa, e as manifestações da sua grandeza não estão no cathecismo, estão espalhadas n'essa creação universal que ella não sabe ver e que ella não conhece.
Conhece a historia pelos pequenos opusculos cheios de todas as maculas e impurezas, que deixaram chegar ás suas mãos infantís.
Não será uma irrisão dizer que ella conhece a historia?
Sabe os nomes dos reis, as datas dos seus nascimentos e mortes, coroações e consorcios, e os filhos que tiveram e as cidades e villas que conquistaram; mas que idéa tem ella d'essa historia sublime, que participa do drama e da epopêa, que tem paginas doloridas e paginas brilhantes, que tem cantos triumphaes, e gemidos de lutuosa angustia, d'essa historia em que estão registradas tantas luctas heroicas, tantas conquistas immortaes, e que se chama a historia da humanidade?
Não lhe parece que deve ser um estudo elevado, fortificante, robustecedor, que faz conhecer melhor, os esforços titanicos que o homem tem empregado para alcançar a quasi omnipotencia que hoje possue?
Do homem rude, primitivo, inhabil, rodeiado de perigos para o corpo e de chimeras para o espirito, esmagado pela força brutal da natureza, sem comprehensão do destino que o esperava e da missão a que vinha, até ao homem dos nossos dias, ao rei, ao victorioso, ao vencedor, ao que tem dominado todas as tyrannias que o dominavam, que differença enorme vae, minha querida amiga!
Entre o pária errante das selvas pre-historicas e esse triumphador que se chama Newton ou Goethe, Claude Bernard ou Victor Hugo, ha a distancia de uns poucos de milhares de seculos, que é preciso conhecer ao menos pelos marcos milliarios que teem assignalado a passagem dos mais illustres caminhantes n'essa estrada luminosa que se chama civilisação.
É isso que eu chamo conhecer a historia.
D'essa sciencia o espirito de sua filha, curioso, ávido, aberto para todas as grandes cousas, só póde colher proveito, um enorme proveito cujo alcance mal lhe posso explicar!
Dir-me-ha que n'essa historia ha crimes ignobeis, ha quadros revoltantes, ha homens condemnados cujo contacto póde ferir o delicado e original espirito de uma creança.
Oh! mas tambem ha martyrios, sacrificios, abnegações, arrojos sublimes!
Se ha criminosos, tambem ha heroes; se ha algozes, tambem ha martyres; se ha monstros, tambem ha santos.
Deixe que no cerebro da creança se faça a mysteriosa elaboração de que ha de sahir o culto pelo que fôr bello e bom, o odio raciocinado e violento a tudo que fôr abjecto e vil, a compaixão virtuosa e divina para tudo que fôr fragil e ignorante!
Ponha nas mãos de sua filha todos os cantos d'essa epopêa enorme. Faça-lhe lêr com attenção essa historia, e quando ella tiver chegado á ultima pagina, será mulher. Uma mulher instruida, uma mulher forte, capaz de ser esposa digna, e mãe desvellada, tendo aprendido a conhecer, comparar, julgar e a pensar.
Não sei se comprehendeu bem a idéa que procurei expôr-lhe. Apontei a traços largos a direcção
una
que deve dar ás leituras de sua filha. Isto a que chamei conhecer a historia, não é, como viu, ler simplesmente os historiadores.
É lêr, dominada por uma idéa de elevada critica, que as conversações d'uma mãe intelligente podem dar, todas as que tenham trazido a este thesouro formado pelos seculos, algum conhecimento precioso e util.
Os bons historiadores como Macaulay e como Herculano, os poetas que vivificam e animam o passado, que entram no espirito de todos os seculos, como Michelet: os viajantes intrepidos, os exploradores, os navegantes, os homens de sciencia, conquistadores tambem e dos mais gloriosos; os moralistas, os criticos, todos aquelles que buscam lealmente a verdade e que aspiram ao aperfeiçoamento do homem.
Fallei-lhe de Michelet e deixe-me dizer-lhe o que penso d'elle.
É o coração mais apaixonado de justiça que eu conheço, o que o não priva de ser injusto muitas vezes; mas tem uma alma tão grande, tem uma comprehensão tão viva do bello, tem faculdades artisticas tão poderosas, que para mim não ha companheiro melhor para um espirito moço.
Deixe que sua filha leia muito Michelet.
É um grande mestre. Atravez d'elle ella saberá sentir melhor, amar com um amor mais intelligente a natureza.
Michelet tem a doçura misericordiosa que redime e levanta os humildes e anima os fracos, tem a paciencia que penetra no intimo dos sêres mais inferiores, e que o illumina de uma luz sympathica.
Sabe fazer ver tudo, sabe explicar todos os mysterios.
É um genio que tem alguma cousa de propheta.
Como é bom, divinamente bom, o contacto d'aquelle espirito, dá bondade e força.
«Para elle não ha na natureza, nada que tenha vida, e não tenha alma!
Da planta ao mollusco, e do mollusco ao homem tudo que vive ama, e tudo que ama tem direito ao nosso amor.
Doce philosophia que nos ensina o segredo de todas as misericordias!
Minha querida, ainda que para mim Michelet seja o melhor dos poetas, não entendo que das leituras de uma menina se deva proscrever implacavelmente a outra poesia.
Quando digo isto refiro-me á poesia rimada, á que canta no ouvido, com uma musica que é muitas vezes traiçoeira.
Procure no entanto que seja o mais tarde possivel, que essas vozes de sereia penetrem no ouvido de sua filha.
Oh! é que é preciso muita força para resistir á influencia dissolvente que ellas teem em nós.
Nunca perca de vista que a vida é um combate, um rude e terrivel combate, e elles os que cantam e os que choram em vez de inocularem no espirito a força de que este precisa, tornam-n'o debil, amollecem-n'o, em voluptuosidades enervantes.
Ninguem tem medo de Lamartine.
As mães dão-n'o a ler ás suas filhas, os noivos dão-n'o de presente ás suas noivas.
Para todos elles é o mais puro dos poetas, um cysne que nunca maculou as suas pennas brancas no lodaçal das paixões insalubres!
Não se illuda com este juizo que universalmente se formou a respeito de Lamartine e dos melancolicos da sua escola.
Que maior perigo para uma alma juvenil do que a aspiração a um ideal impossivel? do que a sede de venturas irrealisaveis e do que o sonho de amores que não existem?
E depois os poetas inconsolados e inconsolaveis não ensinam a luctar contra as magoas da vida. Ensinam a curvar a cabeça aos golpes da fatalidade, ensinam a chorar covardemente, a deliciar-se nas agonias, a saborear a doçura debilisadora das lagrimas!
Saudemos os que combatem virilmente, os que vencem a desgraça, os que furtam a sua alma ás languidas tristezas da desesperança, saudemos os que são fortes, alegres e bons.
É d'essas intelligencias eleitas, que sua filha deve sómente alimentar-se.
Ella ha de querer ler romances.
É natural.
Os romances são a fantasia, e na vida das mulheres a fantasia tem um grande logar.
É na escolha d'esses que precisa ter o maior cuidado.
Proscreva sem dó, da bibliotheca de sua filha, as obras primas dos romancistas francezes.
Balzac é um anatomista implacavel.
Os seus romances matam a flôr da fé na alma dos innocentes.
Georg Sand é um bello anjo revoltado.
Tem o orgulho de Satanaz na imaginação de uma mulher apaixonada.
Octave Feuillet tão fino, tão delicado, só deve ser lido depois dos trinta annos.
Daudet um delicioso romancista, começou a escrever n'uma época doentia; ha n'elle um não sei que de morbido que entristece e que faz mal.
Escusa de procurar minha amiga.
Nós as mulheres para quem a vida já não tem segredos, adoramos esses escriptores, porque elles contam-nos o que já tinhamos adivinhado, relembrando-nos o que tinhamos sentido; descrevem-nos o que tinhamos a curiosidade de conhecer, mas as creanças que os lerem devem experimentar bem dolorosas surprezas.
É a litteratura ingleza a mais rica, a mais fecunda no genero que procura.
Walter Scott um verdadeiro poeta, reviverá para sua filha as scenas mais pittorescas de um passado aventuroso.
Puros amores, enthusiasticos guerreiros, heroismos nacionaes, sentimentos caracteristicos de uma raça energica e arrojada, incidentes romanescos, mas de um romanesco são, tudo que tem o poder de enlevar e attrahir a imaginação colorida e ardente de uma mulher de poucos annos.
Não ha creações femininas mais diliciosamente virginaes do que as do romancista escossez.
As suas mulheres, como as mulheres de Sakspeare, como as mulheres de Dickens, são feitas de um raio de luar, de uma petala de rosa, de um canto de rouxinol.
O crime nem de leve se approximou d'ellas; o vicio, de envergonhado, córa na sua presença; não conhecem as más tentações, as vigilias ardentes, os sonhos que perturbam e agitam a alma das outras mulheres.
Que doces e queridos exemplos! que bellas e radiosas companheiras.
As escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua nação.
Os livros de algumas d'ellas teem a graça d'um narrar discreto e
nuancé
.
Não se queixe de que não póde dar á sua filha romances que a distraiam, sem a inquietarem.
Dickens o mais energico e convencido dos moralistas, Mrs. Graswell, Broute, Georges Elliot e muitos mais que não tenho tempo de enumerar, ahi estão para desmentirem.
Que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com esta outra leitura amena e agradavel, e verá como ella aprende a gozar da companhia dos bons livros, e a dispensar as futeis distracções mundanas que esterelisam o espirito, e o tornam mesquinho e baixo.
Assim, absorvida pelo estudo bem dirigido, pelas elevadas distracções intellectuaes, assim educada, fortalecida, illucidada, verá como ella chega á edade propria de escolher o seu destino, possuindo um são criterio, uma penetração delicada, uma firmeza de principios que a ponha ao abrigo de qualquer tentação menos digna.
Conhecendo o bem e o mal, e comprehendendo o que um e outro significam e valem, saberá o que não sabem os ignorantes, saberá escolher o caminho que tém de seguir se lhe confiarem a escolha.
Parece-me que para chegar a este fim a leitura, o cuidadoso cultivo da intelligencia devem ser auxiliares preciosos, não acha?»
Encontramos esta carta nos papeis velhos de uma excellente amiga nossa, e sem a corrigir vimos offerecel-a ás nossas leitoras.
CAPITULO VII
As dactas d'uma vida
A ida para o collegio
―Então achaste o que procuravas?
―Achei. Eu tinha consultado a este respeito a baroneza de S., que tem, como sabes, immenso juizo. Indicou-me o collegio de M.
me
Maubry.
Uma franceza elegantissima.
Parece-me que fiquei muito bem servida.
―Tu é que foste ao collegio fallar com a directora?
―Pois a quem havia eu de confiar similhante encargo? Fui, vi, julguei por meus proprios olhos, e fiquei satisfeita.
―O collegio está bem situado?
―Sim. Está n'um sitio muito central, muito concorrido, tudo muito á mão. Um constante vai-vem de carruagens, que nas horas de recreação ha de distrahir immenso as creanças.
―E a respeito de jardim para ellas correrem?
―Tem um jardim pequeno, mas muito bonito, muito bem tratado, á ingleza. Conhece-se á primeira vista a obediencia e a docilidade das discipulas, olhando para o jardim. Nem um vestigio de travessuras infantís. Uma limpeza ideal nas pequenas ruas arêadas.
Fui lá na hora do recreio da tarde; andavam as meninas passeiando e conversando com uma gravidade! uma compostura!.. pareciam senhoras em miniatura!.. Achei engraçadissima aquella parodia de uma das nossas salas.
―Ainda bem que me contas isso tudo, Mathilde. Ando com vontade de metter as minhas pequenas em um collegio, porque estão de uma maldade!.. Não pára nada com ellas! Importunam-me extraordinariamente. Tu sabes. Nem eu nem o pae gostamos de barulho, e dous diabretes em uma casa pequena, é de se morrer. Decido-me pelo teu collegio. Perguntaste o que lá ensinam.
―Oh! a esse respeito podes estar descansadissima.
Uma perfeita educação de senhora. M.
me
Maubry é o typo da parisiense delicada e graciosa.
Tem um cuidado inexcedivel com as maneiras das discipulas, com o seu modo de se apresentarem, com a sua
toilette
.
Disse-me ella que tinha por systema, dar-lhes desde muito cedo o gosto de agradarem na sociedade, de excitarem em torno de si uma sensação agradavel... impregnal-as d'aquella graça especial que constitue a mulher do mundo!.. Approvo immenso aquella maneira superior de entender a vida social.
―Mas não me fallaste ainda da instrucção que recebem as discipulas...
―Oh! já se vê, correspondente ao resto. Linguas... nas linguas M.
me
Maury tem um apuro especial. Piano, canto, um pouco de historia, de geographia, dança, desenho, varios bordados, etc., etc. Creio que é o sufficiente para brilhar entre as primeiras.
M.
me
Maubry segue o systema moderno no que elle tem de muito aproveitavel. Ministra a instrucção brincando por assim dizer. Ha concertos semanaes em que figuram as melhores discipulas; ha cursos de conversação; ha noutes em que se lê alto, se recita ou se representa. N'uma palavra, o fim d'ella é tornar deleitoso o estudo, e desenvolver a emulação entre as discipulas. Como verdadeira franceza, percebeu que a vaidade é o motor principal da mulher e...
―Minha querida, interrompeu n'este momento o marido da oradora; faze o que quizeres, visto que tive a imprudencia de te jurar que educarias tua filha conforme te aprouvesse e sem que eu nunca entrasse n'isso; mas o que desde já te affirmo é que a tua M.
me
Maubry é uma corruptora inconsciente da mocidade, e que a tua filha nunca passará de uma boneca!
Durante as ferias
―Mamã, eu antes quero o laço côr de rosa...
―Pois faz a Lili muito mal. O azul fica-lhe muito melhor. Olha que no
baile infantil
hão de estar muitas companheiras tuas do collegio. Que alegria para ellas se te virem feia!
―Alegria, mamã? Alegria porque? As meninas do meu collegio são todas minhas amigas, hão de gostar muito de me ver bonita e bem vestida.
―Assim será, minha filha, mas as
mamãs
d'ellas é que com certeza hão de ter inveja de mim se tu fores a mais linda, a mais bem vestida, a que dançar melhor!
Chega-te aqui Lili! Deixa-me annellar os teus cabellos. Assim é que ficas bonita, ouviste? Levanta os teus olhos para mim, são tão bonitos os teus olhos!..
―A mamã quer que eu levante os olhos? M.
me
Maubry ralha commigo por eu os levantar de mais. Diz ella que uma menina deve andar sempre de olhos baixos, deve córar de vez em quando... nunca se deve rir com vontade.
―M.
me
Maubry diz-te isso?..
―Diz, mamã, e que assim é que as senhoras agradam e se tornam amaveis.
―Então, minha Lili, tu e a mamã divertiram-se muito no tal
baile infantil
?
―Ah! papá, não imagina! Dancei muito, e todos me disseram que eu era a menina mais bonita que lá estava.
―É verdade! a Lili estava encantadora. Não imaginas como a elogiaram! Todas me perguntaram onde ella aprendeu a dançar.
―E a mim tambem, mamã.
As outras meninas perguntaram-me onde era o meu collegio.
―Vês! dizias tu, meu maridinho ralhador, que M.
me
Maubry era uma professora má. Vê o triumpho que teve a nossa filha no primeiro dia em que appareceu em publico!
Lili, corada de alegria, foi dar uma pirueta defronte do espelho.
A primeira communhão
Acabou agora mesmo de vestir-se. Branca, branca que parece uma pomba.
O véu de gaze cahe em prégas soltas e ondeantes por sobre aquelle corpo esbelto e franzino, de 14 annos; a corôa de rozas emmoldura-lhe deliciosamente a fronte eburnea e levemente sombreada por uns toques de infantil melancolia.
Acha-se linda, e sente que todos que a virem hão de achal-a assim!
Dentro da sua alma resôa como que um cantico de orgulho!
Vae ser noiva do Senhor, vae receber pela primeira vez no puro tabernaculo do seu coração a visita mysteriosa do Esposo!
O seu director espiritual, um moço sacerdote francez, fino, louro, delicado, com uma voz branda e persuasiva, com umas mãos brancas, de cardeal, com uns gestos lentos e graves de irreprehensivel bom gosto, acabou hontem de a conduzir até aos umbraes d'essa nova vida, em que ella vae penetrar já consciente do que é e do que vale.
Que doçura mystica tinham as palavras d'aquelle padre!
Eram ternas, unctuosas, de uma graça desconhecida!
Até alli para ella a religião fôra um não sei quê de vago, triste e indefinivel, mais para assombro e terror do que para delicioso extasi...
O Christo macilento e ensanguentado, com a fronte coroada de espinhos, e o corpo cravejado de prégos, dera-lhe a idéa de uma angustia desoladora e desesperada, que ás vezes enchera de lagrimas a sua pequenina alma de dez annos.
Porque seria que, á voz do moço confessor, o Martyr do Calvario como que se tinha transfigurado aos olhos d'ella?
O padre pintara-o bello, radiante de mocidade, prodigo de ineffaveis esperanças, chamando a si as almas virginaes, e promettendo-lhe a eternidade no amor, a radiosa alegria das nupcias celestiaes.
Era uma nova musica, a que elle fizera vibrar aos ouvidos da gentil neophyta, que sentia, sem saber como, inundal-a uma alegria anciosa, um pungitivo arrebatamento, inteiramente desconhecido ao seu passado!
E olhava para o espelho, e sentia-se bella, moça, radiosa de vida e de esperanças, com um profano desejo de alegrias novas, de triumphos ignorados a alvoroçar-lhe o seio juvenil.
E agitando em torno de si as prégas fluctuantes do véo de noiva do Christo, baixou os olhos languidos sobre o livro das orações e leu em voz baixa e palpitante as palavras sagradas, na lingua melodiosa em que se habituara, por um requinte de aristocracia, a fallar com Deus:
«
Oh! venez le bien-aimé de mon coeur! venez, Agneau de Dieu, chair adorable, venez servir de nourriture á mon âme! Que je te voie, ô le Dieu de mon coeur, ma joie, mes délices, mon amour, mon tout!
«
Qui me donnera des ailes pour voler vers toi! Mon âme éloigneé de toi, impatiente d'être remplie de toi, languit, te souhaite avec ardeur et soupire après toi, ô mon Dieu, ô mon unique bien, ma consolation! Embrase moi, mon Dieu, brule, consume mon coeur de ton amour... Mon bien-aimé est à moi
»
O que, traduzido na nossa lingua, decididamente reputada impropria para fallar com a Divindade, significa pouco mais ou menos a seguinte edificante declaração de amor:
«Vem, amado da minh'alma! cordeiro de Deus! carne que eu adoro! vem servir-me de alimento ao coração! Quero ver-te, oh Deus amado, minha alegria, minha delicia, meu amor, meu tudo!
«Quem me dera azas com que voasse para ti!
«Minh'alma afastada da tua presença almeja por se impregnar de ti, enlanguece, deseja-te com ardor, e suspira por ti, oh meu Deus, oh meu unico bem, minha consolação!
«Abraza-me oh Deus! queima, consome o meu coração com as chammas do teu amor!..
«És meu, oh bem amado, pertences-me!»
Na volta do baile
Lili vem extraordinariamente pallida e pensativa! As brancuras opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem, e como que cingem de uma graça ideal os contornos delicados do seu rosto, que o capuz de baile emmoldura em alvas rendas.
Dançou até ás seis da manhã; vem cansada, abatida, toda ennovellada nos fôfos coxins do seu
coupé
, mas vem pensando muito.
É que o viu no baile, e lhe disseram que
elle
seria o seu marido.
O pae antes d'ella partir de casa―vestida de tulle e rendas, coroada de myosotis, e com um collar de perolas lacteas e iriadas, a affagar voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo―o pae, antes d'ella partir, dissera-lhe gravemente, mas com uma gravidade em que havia muito affecto:
―
Elle
é moço, é nobre, é herdeiro de uma casa riquissima.
A familia deseja este enlace. Não te quero forçar, Lili; mas, se gostares d'elle, approvarei com enthusiasmo essa affeição!
―É moço e nobre, pensára Lili comsigo. Hei de amal-o por força. Terá maneiras distinctas, um porte correcto, um sorriso levemente desdenhoso. E dirá
amo-te
, com uma graça fina e superior!
Depois, á proporção que o baile se ia approximando, com o esplendor prestigioso dos seus lustres, com o capitoso aroma das suas montanhas de flores, com as prismaticas scintillações dos seus diamantes, com o ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas, Lili pensava que era positivamente uma cousa agradabilissima ser rica!
―Irei muitas vezes ao baile, ouvirei em torno de mim o murmurio discreto de admiração que enlouquece as mulheres, terei vestidos de velludo negro, com diademas de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos meus cabellos! Invejar-me-hão, e quando eu sahir acclamada e triumphante das salas em que fôr rainha, deixarei no meu caminho um rasto de admirações apaixonadas!
Vira-o no baile, fallara com elle, tinham dançado juntos.
Percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz, ignorante e enfatuado, muito feliz de ser nobre, de ser rico, e de haver mulheres que em torno d'elle cubiçassem o seu titulo futuro e a sua riqueza presente.
Apesar d'isso, Lili estava contente.
Era ella que
elle
preferira, e visto que
elle
era rico, teria carruagens, daria bailes e festas, teria um modo original, severo e elegante de vestir-se, as suas amigas imitariam a mobilia das suas salas, e o feitio dos seus chapéus, seria uma das raras mulheres que sabem gozar, em toda a sua plenitude, a vida social no que ella tem de fastoso e brilhante.
Que importa que
elle
não saiba dizer
amo-te
com a voz que Lili tinha sonhado!
A troco do seu ouro, ouviria dos labios d'ella sem hesitação e sem lagrimas as palavras mysteriosas que a mulher pura só deve dizer ao eleito do seu coração, as palavras magicas:
Sou para sempre tua!
Dez annos depois
Já lhe não chamam Lili. É condessa.
Tem um palacio magestoso e severo, povoado com obras primas de todas as artes e de todas as civilisações.
As festas que ella dá são citadas pela sua pompa severa e artistica, pela sua graça principesca, pelos requintes de bom gosto que as singularisam entre todas.
Tem um povo de criados correctamente respeitosos, que obedecem a cada um dos seus accenos.
As suas carruagens quando passam ao trote largo dos finos cavallos inglezes excitam a admiração dos entendidos e a inveja dos profanos.
A condessa nunca está só.
Hoje uma recepção a que não póde faltar, ámanhã um baile, no outro dia um jantar diplomatico, e as mil praticas da sua devoção aristocratica, e as pequenas
soirées
intimas que dá, e as festas a que preside em sua casa, e que o seu gosto escrupuloso e cultivado dirige desde os minimos accessorios.
Tudo isto lhe prende o tempo, a absorve e a distrae.
Tem duas filhas... que uma governante ingleza educa e acompanha.
Tem um filho... que está no collegio.
Tem marido... que anda sempre por fóra!
Será feliz? Quem ha que o possa dizer? Na sua pallida fronte marmorea não se reflecte senão uma sombra.
É a mulher do mundo na sua accepção mais genuina.
Viveu e vive da monstruosa vaidade que desde a infancia lhe deram por exclusivo alimento.
Sabe que é bella, invejada, cubiçada, admirada, odiada até!
Isto basta-lhe, isso a sacia e satisfaz!
Na velhice
Está sentada ao fogão na vasta sala opulenta povoada como outr'ora por tudo que ha mais bello e mais luxuoso.
Um grande candieiro espalha, atravez do seu globo fosco, uma luz discreta e tranquilla sobre a mesa oval cheia de bagatellas preciosas.
A condessa está só, e os seus olhos baços e amortecidos seguem as chammazinhas iriadas do fogão com uma insistencia pensativa.
Com a formosura perdeu a força dominadora que a tornava poderosa e querida.
Os amigos da hora dos triumphos povoam agora as salas illuminadas e festivas onde suas filhas já casadas segundo as conveniencias da alta posição que occupavam, continuam a vida de que sua mãe lhes déra o exemplo tentador.
O seu confessor começa a sentir-se cansado do escrupulo esmiuçador com que a condessa aproveita os longos ocios da solidão para esgravatar piedosamente nos mais escuros escaninhos da consciencia.
―Minha senhora, diz-lhe o bom do abbade, que já não era o moço almiscarado dos dias da mocidade, e que ganhára em abdomen o que perdera em mystica elegancia; minha senhora, não nos percamos em funestos exageros. Deus não quer a morte do peccador, snr.
a
condessa.
Nem essa distracção ultima lhe ficára.
As praticas adocicadas do confessionario, aquelles extasis a um tempo deliciosos e pungitivos, as confidencias segredadas a meia voz, a analyse fina e delicada dos peccados mais subtis, tudo isso lhe falta para suprema distracção.
No fim de contas a sua vida não fôra mais do que um sonho frustrado, a carreira impetuosa e desvairada atrás de uma sombra que fugia sempre!
Não tivera as livres e salutares expansões da alegria infantil, não tivera os sonhos cariciosos e ideaes da adolescencia, não fôra filha, nem amante, nem esposa, nem mãe!
Agora já não saberia ao menos ser avó!
E pelos recantos sombrios do aposento enorme, a condessa julgou ver deslisar uma pequenina figura de cabeça annellada e loura, uma figurinha que dava pelo nome de Lili!
Era o phantasma saudoso de sua infancia que passara!
―Minhas filhas―murmurou baixinho a altiva senhora,―perdoae-me pelo amor de Deus, assim como n'este momento eu perdôo á minha mãe!
CAPITULO VIII
Casamentos pobres e casamentos ricos
Uma das accusações mais frequentes que hoje se dirigem aos homens é que elles são egoistas, interesseiros, que introduzem o calculo e as finanças no que devia ser um impulso espontaneo do coração, que confundem um pouco nos seus sonhos do futuro o mercantilismo e o amor.
Eu, que não gosto de julgar sem ter conhecido ao menos as causas que produzem um certo e determinado effeito, lembrei-me de observar de perto, nos costumes e praticas de todos os dias, se eram realmente bem cabidas as censuras frisantes que por ahi ouço continuamente á porção mais
feia
da humanidade.
Uma cabana e o teu coração!
eis o que antigamente soluçavam aos pés das suas deusas de
biscuit
os trovadores de algodão em rama.
Um
rez de chaussée muito commodo e quatro contos de réis de rendimento!
eis o minimo a que hoje aspiram nas suas suspirosas alegrias os pretendentes mais positivistas da nossa quadra utilitaria e mercantil.
Mudou a tal ponto o coração humano, que já os sinceros e impetuosos sentimentos não possam acclimatar-se n'elle?
Isto caminha n'uma tal e tão rapida decadencia, que tudo que era bom, honesto, sincero no amor, tenha fugido assustado para outras regiões ainda inexploradas?
Sinceramente não o acreditamos.
Em primeiro logar, em todas as épocas e em todos os paizes, o desinteresse absoluto, o completo desprendimento dos bens da terra, foi cousa muito rara, e muito para notar-se com espanto.
Que o digam os claustros sem conto, povoados de pallidas monjas juvenis, que o mundo expulsava do seu seio, por não têr que lhes dar nenhuma das alegrias naturaes que são o apanagio mais caro da mulher!
Se alguma differença temos que apontar são as conquistas alcançadas pela familia, nos terrenos que até aqui usurpara o egoismo e a ambição do homem.
Mas, admittindo mesmo que se accentue na nossa época, com uma certa força o interesse pessoal, que é um dos elementos mais esterilisadores que póde existir na sociedade, não demos só ao homem a culpa de essa tendencia nefasta.
É incontestavel que á proporção que as civilisações se desenvolvem, crescem as necessidades, cresce o amor do luxo, sem que para todos cresçam proporcionalmente os meios de satisfazer essas aspirações fataes.
Não é portanto espantoso, que o homem, ainda o mais dedicado e crente, antes de tomar aos hombros o pesadissimo encargo da familia, meça as suas forças, calcule com precisão mathematica os meios de que dispõe para cumprir as obrigações que acceita, e muitas vezes diante da grande desproporção que encontra entre aquelles e estas, suffoque a voz do sentimento e siga os austeros e aridos conselhos da razão!
É que a familia, tal como está constituida na sua generalidade, estabelece um grandissimo desequilibrio entre os deveres do homem e os deveres da mulher.
Se a esta, em face da consciencia e da razão, cabe a tarefa mais espinhosa, a missão mais elevada e mais complexa, nem por isso, logo que ella fecha os ouvidos a esta voz superior que tão poucas escutam e que tão poucas entendem, se acha realmente forçada a outra cousa que não seja consumir sem produzir, receber sem dar, acceitar protecção, amparo, ajuda, sem pagar estes beneficios com beneficios equivalentes.
Queixam-se do homem porque elle conta com o dote da noiva, e este entra com bastante peso na balança dos seus affectos.
Que dizem então da mulher que casa para ser livre, para ser independente, para ter diamantes e rendas preciosas, para frequentar os bailes, os theatros, os passeios, para ser uma taboleta ambulante do luxo real ou do luxo hypothetico do
ménage
?
Imagine-se, por instantes um rapaz moço, intelligente, cheio de aspirações sãs, de boa vontade e de energia, dotado de ricas faculdades intellectuaes, capaz de conquistar á força de perseverança, de trabalho e de privações, um lugar distincto na sciencia ou na industria, na politica ou no magisterio.
Não tem dinheiro, ou tem apenas uma pequena fortuna que o pae lhe legou, juntamente com um nome honrado.
Sente a natural aspiração de completar a sua existencia, unindo-se á mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de adolescente.
Não tem tempo para escolher; absorve-o o trabalho a que forçosamente tem de consagrar quasi todas as suas horas.
Não tem um conhecimento profundo da natureza feminina.
Os nossos costumes com as suas reservas hypocritas, com as suas precauções restrictas, que dão idéa pouco lisongeira do pudor e da castidade das mulheres portuguezas, oppoem-se a que o homem tenha d'ellas um conhecimento que não seja frivolo, ridiculo, superficial―o conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas sensaboronas, ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio.
Não póde pôr-se pelo mundo á busca de uma excepção: o molde das nossas meninas da sociedade varia muito pouco.
Todas sabem bordar a matiz, tocar a
Somnambula
e o
Trovador
ao piano, fazer
housses
de crochet, papaguear em duas ou tres linguas puerilidades comicas, dançar os
Lanceiros
e criticar as
amigas intimas
.
N'estas circumstancias o que póde fazer o pobre moço?
Ou resistir ás solicitações impetuosas da mocidade, á necessidade instinctiva que sente do conchêgo de familia, d'aquelle
sweet home
que tanto imperio tem no coração de todo o homem de pensamento e de trabalho; ou tem de contentar-se com a escolha feita á pressa de uma d'essas rachiticas flôres de salão.
É desinteressado no sentido mais amplo da palavra, tem aquellas santas utopias que são a suprema riqueza dos vinte annos; na sua escolha impera tudo menos o calculo e a arithmetica.
Prefere, pois, uma noiva pobre.
Applaudem-lhe a generosa imprevidencia; gabam-lhe os sentimentos honestos e cavalleirosos; envolve-o um certo prestigio durante uns poucos de mezes.
Os mezes da
lua de mel
.
―Portou-se admiravelmente!―exclamam as
mamãs
, contemplando com ar piedoso as filhas sem dote, e envolvendo na sua furia rancorosa os
dandys
que andam á pesca de noivas ricas, pelas aguas turvas da nossa sociedade.
Resultado pratico de tudo isto: seis mezes depois de casado, o nosso pobre heroe vê-se a braços com todos os encargos de um
ménage
a que falta o conchêgo e a alegria. Como não teve tempo de fazer-se amado, como o amor é no fim de contas um genero carissimo que o coração das meninas de hoje prodigalisa muito pouco, encontra em casa ao voltar das luctas quotidianas, a que se arrojou com novos alentos e nova fé, um acolhimento frio, um rosto desconsolado, uma mulher que finge resignação e que só tem despeito, porque o casamento lhe não deu nenhumas das frivolas vantagens que lhe promettera.
Tinha sonhado com
toilettes
elegantes, uma
robe
de chambre
bordada, uma touca de manhã como as que desenha a phantasia pittoresca dos caixeiros da
Mode Illustrée
, queria uma casa de jantar elegante com mobilia
en vieux chêne
, aparadores carregados de finas porcellanas, um criado de casaca preta e modos de embaixador, passando discretamente, sem fazer barulho, por cima do
parquet
suisso, cuidadosamente encerrado.
Gostava de ter um
boudoir
todo de seda côr de perola onde ella podesse ler, preguiçosamente deitada no no seu pequeno
fauteuil
muito flascido, diante de um
guéridon
cheio de violetas e de
gardenias
, os ultimos romances, as revistas estrangeiras, as criticas musicaes dos mestres mais famosos.
Sempre tivera a esperança de fugir pelo casamento á pressão sordida da miseria paterna.
Detestava a vida que tinha levado em solteira, fazendo ella propria os vestidos para ir ao baile, cerzindo redes nas botinas de setim branco, com os dedos picados, um roupão de chita amarrotado, e o coração cheio de rancor e inveja ás que tinham o luxo e o conforto que ella não tinha.
Aquelle homem apparecera-lhe.
Era pobre, é verdade, mas disseram-lhe que
tinha talento
, que tinha
ou que ia ter uma posição
; acceitara-o por cansaço, por desalento, porque se impacientava já de esperar mais tempo.
Levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido, imaginava casas imprevistas, edificava hypotheses extravagantes; á força de ambicionar a riqueza, acabava por se convencer que havia de ser rica.
E agora!
Tudo que a cercava era tão mediocre!
Se tivesse pachorra, se tivesse boa vontade, podia enfeitar com plantas o seu pequenino quarto de trabalho, pôr ao menos umas cortinas de cassa branca na janella.
Não tendo a riqueza, podia ter o aceio; não tendo o luxo, podia ter a graça.
Os livros bem dispostos sobre a mesa, cujo tapete ella propria houvesse feito ao serão, uma jarra de louça com um ramo de madresilva ou de rosas de maio, as cadeiras agrupadas com um certo ar de intimidade e de alegria, um aspecto de pobreza satisfeita que faz tão bem á alma!
Vestiria um simples roupão de fazenda clara, sem enfeites, mas de um feitio elegante e gracioso, os cabellos bem penteados, uma flôr presa nas tranças.
Iria ella mesma á cosinha arranjar uns pratinhos de que elle gostasse, o pobre trabalhador que á noute voltaria cansado, mas cheio de fé robusta e de profundas crenças, porque o amor o amparava e lhe sorria!
Dentro de uma gaiola, na janella da casa de jantar, haveria um canario muito alegre, não tanto ainda assim como ella, a pequenina
ménagere
muito atarefada, muito contente, espalhando na sua casa modesta e pobre um perfume de virtude, de castidade, de ternura animadora e sã!
Mas quem é que a tinha educado para cumprir este programma tão simples e tão difficil?
Quem lhe tinha communicado com o leite a noção d'estes graves e honestos deveres?
A mãe que a passeara de baile em baile, á cata de um marido?
Os livros que ella lêra e que fallavam de duetos apaixonados entre um bardo
pelintra
e uma menina romantica com olheiras e muito pó de arroz?
O marido ao principio quer luctar; procura educal-a elle, já que a familia a não educou; vem de fóra muitas vezes preoccupado com os seus estudos, com um problema scientifico que deseja resolver, com uma especulação industrial que talvez lhe dê a paz e a aurea mediocridade a que tanto aspira, por amor da sua querida mulhersinha... não importa!
Sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam, senta-se ao pé d'ella, porque a vê triste, enfastiada, com um certo desleixo no aspecto que lhe aperta o coração, procura não reparar, para a casa sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o captivou nas suas scismas de rapaz; conversa, afaga-a, desenrola diante do olhar d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias.
Um dia, porém, descobre com magoa que ninguem jámais poderá sondar nem comprehender, que tudo que elle esperou um dia assenta n'uma base chimerica; que essa mulher, a quem associou a sua vida, em vez de ser-lhe amparo, guia, consolação, conselho, em vez de luctar ao lado d'elle para conquistarem ambos a ventura dos filhos, o dôce e tranquillo socego da velhice, vive toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas; que empallidece de raiva de vêr as outras ricas emquanto ella é pobre; que amaldiçôa todos os dias o alimento que elle lhe ganha laboriosamente, porque lhe não é servido em pratos do Japão; que olha com desdem para os modestos presentes que elle á custa de longas economias consegue comprar-lhe; que detesta emfim tudo que elle ama; que tem o tedio invencivel de tudo que elle julgou, por muito tempo, o resumo de todas as suas alegrias!
N'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi todos estes obscuros luctadores, alguns, os mais fracos, amaldiçoam tambem a sua austera e honrada pobreza, e tractam de fugir-lhe atirando-se a todos os turvos mares da especulação e do mercantilismo!
Outros―os fortes―afastam-se com desdem de aquella que, sem talvez saber o que fazia, tentava arrastal-os por um declive funesto, e isolam-se n'um mundo onde não querem a companhia de ninguem.
Ha tambem os que, despertando do sonho em que andaram embebidos, descrêem de tudo em que um dia acreditaram e cedem á convicção fatal de que no mundo não ha cousa alguma que seja digna, desinteressada e sem liga de calculos vis.
A verdade é que mais ou menos todos se arrependem e todos o deixam ver!
Este exemplo é que vae a pouco e pouco destruindo no coração dos moços a idéa de que a familia, em vez de roubar o alento e a força ao homem, os robustece e lhes dá mais solidos alicerces.
No dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria e com intrepidez a pobreza que tanto as assusta, verão como a base do casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula.
Se o homem, que é por natureza egoista, comprehender que unindo a sua vida á vida d'uma mulher dedicada, adquire novas forças para a lucta em que anda empenhado, é incontestavel que deixará de considerar como unico elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver escolhido.
Não basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as privações da pobreza; é preciso antes de tudo compenetrar-se bem da idéa de que a pobreza tem grandes alegrias defezas aos ricos; que a modestia dos meios não obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos, com aquelle dôce e poetico conchego, que é para a alma um ninho mais tepido e mais macio, do que as pompas magestosas que envolvem theatralmente a vida dos millionarios.
CAPITULO IX
A uma noiva
Minha querida Maria:
A tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva.
Estás radiante!
Subiste ao
setimo céo
da ventura humana e crês que não é possivel cahir de lá.
Fallas-me do teu véo branco, da tua corôa, das palavras enternecidas que
elle
te disse, das opulencias do teu enxoval, do teu quarto de cama á Pompadour, do amor que tens ao teu
maridinho
, do futuro que sonhas radioso, eu sei; fallas-me de tudo, filha, e eu li esse poema gentil da tua mocidade com um verdadeiro enternecimento bem sincero.
Fallas-me de tudo, digo eu; engano-me.
Não me fallaste de uma cousa importantissima, filha.
Não me fallaste da panella.
Sou eu, pois, que vou fallar-te, com a mais profana das irreverencias, d'este assumpto que é um dos mais graves n'um
ménage
que principia.
Credo! exclamas tu com aquella
moue
engraçadissima, que eu te conheço do collegio, e que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso.
―«Pois eu sei lá sequer se ha em minha casa uma panella! Pois eu hei de misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e ideal felicidade com a relação das minhas cassarolas! Que tem este amor que me enleva e me arrebata, com a comida que se manipula na cosinha! Deixa que eu te descreva as rendas e os setins com que me enfeito para lhe agradar a
elle
; mas, por Deus, pelo amor da arte, da poesia, da delicadeza feminil, não queiras que eu ajunte a essas descripções uma nova receita de refugado.»
Ouve-me, filha; ninguem attende por ahi estas verdades, que são elementares, tudo quanto ha de mais elementar.
Sabes onde se fabríca e se consolída a felicidade de um
ménage
?
Na cosinha.
Sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa?
Da cosinha.
Sabes qual é a origem de tantas doenças que por ahi nos desconsolam com os seus aspectos repulsivos?
A cosinha.
E tu entrando na vida conjugal, acceitando o
encargo
d'almas, porque a dona da casa acceita-o, recebendo nas tuas pequenas mãos delicadas a responsabilidade complexa de mãe de familia, tu pobre querida ignorante, ousas dizer desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha cosinha.
Pois sabe.
Estás habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus longos dedos brancos as notas immortaes em que Beethoven, Rossini, Mayerbeer nos legaram as mysteriosas riquezas da sua alma?
Gostas dos delicados lavores inventados, pela paciencia feminal, dos bordados custosos, das matizadas sedas, de todo esse conjunto de graciosas futilidades em que nós dispendemos horas e horas da nossa vida?
Pois, minha querida, logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de esposa tem de antepôr tudo que é util a tudo que é agradavel, tem de adoptar como suprema divisa da sua vida a palavra―sacrificio!
E não creias que isto seja uma dolorosa e inutil mutilação do teu ser.
Quanto mais te sacrificares, crê que maior e que melhor te has de sentir.
Será como um progressivo ascender a uma esphera superior.
Cá em baixo ficam as pequenas vaidades, as frioleiras inuteis, as puerilidades infantis, os despeitos raivosos, toda a expressão mesquinha e imperfeita do teu organismo; lá em cima está a larga tranquillidade que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido, a consciencia plena de haveres attingido o fim para que foste creada, a certeza divina da felicidade que communicas em torno de ti, a satisfação do dever preenchido, tudo emfim que nos eleva, que nos depura, que nos faz comprehender o motivo para que viemos a este mundo―aqui para nós―eminentemente estupido!
Não te deslumbrem, pois, as primeiras alegrias da tua
lua de mel
.
Entre parenthesis, é esta uma phrase que eu abomino, pela simples razão de a achar falsa, e causadora de falsas e funestas interpretações da vida conjugal.
A
lua de mel
é uma mentira; não existe, ou, se existe, não deve de modo nenhum existir, o que vem a dar na mesma.
Esse periodo officialmente consagrado, que se funda em toda a especie de impostura, deve ser abolido sem appellação por todos os pares honestos que se estimem e prezem.
Imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a liberdade de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento, o que diziam um para o outro:
«Já conheço todos os teus defeitos, já sei que hei de vir a dar-me muito mal comtigo: achei-te ainda agora profundamente ridiculo n'aquella phrase que me disseste; mas como estamos na
lua de mel
, deixa-me que te beije com transporte, que te recite ao piano o idyllio apaixonado da minha ventura, que olhe para ti com a sentimentalidade piégas com que os caixeiros romanticos olham para as namoradas, que minta emfim conscienciosamente, como compete a quem se acha de posse de uma posição official e a quem não póde renunciar sem desdouro!»
Não seria profundamente ridiculo este dialogo?
Pois sabe, minha querida, que em cada cem casaes, oitenta podiam em boa consciencia traval-o entre si.
Muitas vezes a
lua de mel
não passa de uma dolorosa iniciação.
Mais tarde as circumstancias modificam-se, o que nos parecia prenuncio de desgraças transforma-se em tranquilla felicidade; os caracteres, que no fundo se repelliam, embora na apparencia se afagassem, adaptam-se e identificam-se em resultado da ultima convivencia; a paz domestica conquista-se, com esforços meritorios de parte a parte; o que ha pouco era mentira, torna-se uma verdade luminosa e pura.
E o que prova tudo isto, minha amiga?
É que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas é aquelle que os tolos e os impostores chamam, seguindo a estupida rotina de seculos, o mais delicioso!
Sou adoravelmente feliz, porque ainda não conheço bem meu marido, nem meu marido me conhece a mim...
Palavra, que acho isto uma esplendida interpretação da vida domestica!..
Commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores que se tecem á celebre
lua de mel
, e ahi téem os divorcios, os adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas atr, e ahi téem os divorcios, os adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas atrozes em que dous entes se dilaceram até que n'elles morra a alma e o corpo!
Mas, minha Maria, que longe me arrastou esta digressão apaixonada.
Perdoa-me.
Se bem me lembro, estavamos ambas muito mais
terra a terra
.
Eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de Erard, as tuas aquarellas e os teus bordados, e tinha-te arrastado até á cosinha de tua casa, cuja existencia tu teimavas em ignorar.
Talvez tu penses, minha pobre amiga, que esse
senhor
, discreto, ameno, gracioso, condescente, que acha graça a tudo que tu dizes, que concorda com todas as tuas opiniões, que ás vezes se ajoelha submissamente aos teus pés, e te diz baixinho―adoro-te!―com uma expressão de
tenor
em disponibilidade, que se delicia com as tuas
toilettes
, que dá muita attenção á variedade artistica do teu penteado, que é, emfim,
todo teu
no sentido falso d'esta palavra, pensa tudo quanto diz, e se conservará por muito tempo n'esse adoravel e massador diapasão?..
Enganas-te.
Elle enfastia-se soberanamente do seu papel, estuda-te com ar sorrateiro, e pede a Deus que acabe o periodo em que tem de renunciar á sua individualidade, para se conformar com os usos e costumes da sociedade elegante, de que faz ou quer fazer parte.
Acabado que seja esse periodo que tem limites determinados, dize-me tu qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti, para que elle comece então a ser sincera e dignamente
o teu marido
, isto é, o teu melhor e mais fiel amigo, para que a vossa vida commum assente em bases solidas e perduraveis.
Julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido, penteares o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original, dizeres com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes, mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada educação povoou o teu espirito?
Innocente creatura! não conheces o que é o
homem
, o animal mais prosaico e positivo da creação!
O que elle quer depois das suas luctas com os outros homens, das farças que é obrigado a representar para o publico, dos combates em que é alternativamente vencido e vencedor, o que elle quer é descanso, conchego, esquecimento de todos os artificios que vão lá por fóra, e sobretudo (não te horrorises, minha sonhadora!) e sobretudo commodidades physicas.
Dá-lhe a melhor das poltronas, o mais confortavel dos gabinetes, o mais suave e caricioso dos sorrisos, e, principalmente, dá-lhe
um bom jantar
.
Cheguei emfim, ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta.
Confesso que me custou! Isto de mulheres!..
Tu provavelmente imaginas que um bom jantar é cousa que pertence exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro.
Como te enganas!
Em primeiro logar, não ha nada peior que um
bom
cosinheiro.
Um
bom
cosinheiro é a ruina de uma casa, é um envenenador de barrete branco, é um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita.
Um
bom
cosinheiro começa por nos dar cabo da bolsa, o que é terrivel; acaba por nos dar cabo do estomago, o que é simplesmente irremediavel.
Todos os
restaurants
luxuosos possuem a prenda de um
bom
cosinheiro.
Põe um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um d'esses
restaurants
elegantes, e depois conta-me por miudos em que estado miseravel vaes dar com elle.
Destruida esta primeira idéa, deixa-me ainda dizer-te uma cousa que tu não sabes.
A mesa não tem tal a importancia insignificante que tu embirras em querer dar-lhe.
Sendo o estomago um dos orgãos principaes da humanidade, é absurdo desdenhar d'esse modo o que tem com tão elle estreitas relações.
Se eu fosse pedante era capaz até de te provar que o livro que descrevesse o que o homem tem comido nas épocas primitivas e nas quadras de civilisação refinada e perfeita, nos periodos de barbaria e nos tempos de desenvolvimento e de progresso, seria o livro mais completo da historia universal da humanidade.
O alimento faz o homem.
Os antigos scandinavos,
os reis do mar
, os impetuosos e bravios caçadores de
uroch
, brancos, athleticos, sanguinarios, de olhos azues metallicos e faiscantes; alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da carne quasi crua dos animaes que matavam.
Nero gostava de saborear as contorsões de agonia das
murêas
que creava nos seus viveiros, e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante dos escravos, e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua
Casa de ouro
, emquanto dançavam as bailarinas gaditanas e egypcias, os convivas, coroados de rosas, esperavam que o peixe tivesse soltado o ultimo arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe.
Não vês atravez d'estes dous exemplos uma raça de instinctos barbaros, e uma civilisação pavorosa e apodrecida?
O homem moderno enfraquecido pela degeneração progressiva de umas poucas de gerações, tendo de dispender uma enorme porção de energia e de força nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes exigencias da nossa época, precisa, por assim dizer, de ser reconstituido dia a dia.
É n'isto que as mulheres não pensam bastante.
Depois em um
ménage
, sobretudo de medianos haveres, a mesa relaciona-se com tres questões de uma alta importancia.
Primeiro, a questão da saude, que sobreleva a todas.
Segundo, a questão da economia de que depende a paz, a alegria, o socego, a elegancia modesta da vida intima; o bom humor do marido, a
toilette
fresca e garrida da esposa, a alvura da toalha pezada de linho adamascado, tudo que emfim constitue o conforto e a alegria domestica.
Terceiro, a fidelidade do marido ás modestas mas saborosas iguarias da sua mesa de familia.
O jantar tem de ser bem feito, economico e salubre. Eis o grande problema.
Para o resolveres não te fies n'uma cosinheira muito estupida, muito suja e muito rotineira, nem n'um altivo sujeito cheio de theorias estapafurdias e de nomes francezes estropiados.
Fia-te em ti.
É o mais seguro, o mais razoavel, aquillo que teu marido te ha de agradecer mais.
Não estragues as tuas finas mãos de duqueza, não desças á humilhante posição de
cordon bleu
da tua propria casa, mas dirige tu esse ramo tão importante de administração domestica.
Estuda essa sciencia tão util e tão descurada que se chama
chimica culinaria
, e verás como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha de progredir com isso.
Não te injuries, nem te afflijas então quando conheceres que o sorriso que teu marido negou ás sabias architecturas do teu penteado, lhe desabrocha nos labios franco e alegre em frente de um caldo feito sob a tua direcção, de um
roastbeef
temperado pelas tuas mãosinhas de fada, de um novo acepipe que inventastes e que lhe despertou o esmorecido appetite.
A arte de ser esposa e de ser mãe funda-se n'um segredo muito simples.
Não se trata de sermos felizes á custa dos que são nossos; trata-se de fazermos felizes os nossos, á nossa propria custa.
Começamos pelo sacrificio, e acabamos pela apotheose!
Mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma lição de
azeites e vinagres
.
Ai! filha, é que tenho aprendido á minha custa que na terra não ha nada pequeno, e que todas as cousas que de perto se nos afiguram mesquinhas, estão de tal maneira ligadas e relacionadas entre si, que formam unidas este grande conjuncto que se chama a vida.
CAPITULO X
O dever de ser bonita
Dizia uma das mais espirituosas escriptoras da França, aquella para quem Theophile Gauthier inventou o gracioso epitheto de
bas lilas
, livrando-a d'este modo da terrivel, grotesca e immerecida alcunha de
bas bleu
, que
o primeiro e mais sagrado dever da mulher é ser bonita
.
Abaixo o paradoxo! bradou logo em torno a turba-multa das feias, furiosas contra a sentença que as punha por assim dizer fóra da lei.
Foi necessario entrar em explicações, e todas nós vemos então a comprehender o que Madame de
Girardin
entendia pela belleza feminina.
Ser bonita no fim de contas não é ter fórmas esculpturaes―isso já passou de moda, não é ter feições perfeitas―não ha nada mais profundamente monotono e massador; não é ter collo de
alabastro
, cabellos de
ebano
, labios de
rubis
, dentes de
perolas
, olhos de
diamante preto
, testa de
marfim
, etc., etc., etc.
―Deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos, que trabalham com as sobreditas materias, e aos
trovadores
mais ou menos choramigas, que manejam as sobreditas rimas; não é saber olhar com expressão ardente ou languida consoante o genero da phisionomia; saber sorrir com malicia ou com ternura, saber inclinar-se meiga e scismadora ao influxo do um sentimento occulto, ou erguer a cabeça altiva e triumphante com a plena consciencia da propria formosura!
Ser bonita, ser bella, na accepção elevada e completa d'esta palavra, é possuir a graça mysteriosa que prende os que param junto de nós, que attrahe os que vão passando ao nosso lado.
Resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino encanto da mulher!
A graça de que eu fallo é feita principalmente de intelligencia e de bondade.
O primeiro dom concede-o Deus, e aperfeiçoa-o e depura-o a vontade humana; o segundo adquire-se á custa de sacrificios cccultos, de abnegações intimas, de aspirações continuas e incessantes para a suprema perfeição!
Todos podem ser bons!
É preciso que os espiritos se compenetrem profundamente d'esta verdade, que é o primeiro passo para a conquista do bem, que todos ambicionam e que tantos julgam vedado.
Não ha terreno, por mais duro, inhospito e ingrato, a que um cultivo cuidadoso e vigilante não possa arrancar flôres.
No homem―e quando digo
homem
, refiro-me geralmente á humanidade―, no homem ha preso, algemado, vencido, um robusto animal de tendencias bravias, que lucta continuamente para reconquistar a perdida liberdade.
Foi a acção civilisadora de seculos sem conta que domou essa féra de funestos instinctos; é a pressão continuada e constante de uma vontade energica, de uma razão esclarecida, de uma percepção profunda de todos os deveres, que conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel selvagem.
Uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua, mais tenacidade e mais força, outros de indole nativamente branda e pacifica, podem deixar adormecer de vez em quando a accesa vigilancia.
São no fim de contas os primeiros que teem maior merecimento.
Ser bom é quasi sempre um esforço, mas para ser meritorio cumpre que este esforço seja tão invisivel para todos os olhos, que a analyse ainda a mais perspicaz não chegue a dar por elle. A bondade é o supremo attractivo da mulher, aquelle que mais acção exerce em torno de si.
A bondade é pois a verdadeira belleza feminina.
Imaginae que a ella se reune a intelligencia, e tendes o ideal da perfeita formosura, da unica que só se apaga e extingue com a vida, da que excita os grandes, os eternos, os sãos e robustos amores.
O culto pagão da belleza plastica é um dos erros que mais ha de custar a destruir, e que no entanto se acha tão deslocado no ideal moderno, como se achava no seu verdadeiro lugar, no velho mundo que a revolução deitou por terra alluido e decomposto!
A mulher transviada por esta falsa comprehensão do seu destino, só aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da palavra, só inveja as que possuem os ephemeros encantos de que foi desherdada, e não percebe que a belleza interior é aquella cuja gloriosa conquista, accessivel para todos, lhe podia dar a realeza e o predominio.
A quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras não temos nós ouvido lamentar a pouca duração dos affectos terrestres, a
inconstancia
do homem, a ingratidão cruel que faz definhar as suas victimas em desolador abandono!
Apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas creaturas se revestem, que ninguem se ria d'elles!
Victimas se chamam, e victimas são de certo, mas não de imaginarias perfidias ou de tragicas aventuras.
São victimas da sua educação falsa, da sua sentimentalidade piégas, da idéa inteiramente errada que formam da vida pratica.
Imaginaram que haviam de ser eternamente amadas, amadas com extasis poeticos, com grandes discursos inflammados, com acompanhamento de viola franceza e de epistolas em verso, que tivessem de mais em amor, o que tivessem de menos em grammatica; sonharam ser as pallidas Julietas apaixonadas, recebendo á luz branca da lua, as confidencias convulsas dos seus Romeos de obra grossa; e para attingirem este ideal dos seus desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez, o brilho do olhar, a frescura dos labios, a abundancia dos cabellos, e por cima de tudo isto a garridice, a pretensão, a ignorancia e a
toilette
!
Em muito menos tempo do que é preciso para murchar uma rosa, os proprios homens se enfastiaram.
E eil-as inconsolaveis e inconsoladas, maldizendo a traição masculina, que lhes não deu mais que o castigo merecido!
Houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento.
Felizmente, porém, esse tempo vae longe.
O homem já não exige da companheira do seu destino, como condição unica de felicidade, encantos que murcham com os annos.
Assenta em mais solidas bases a ventura conjugal.
Mulheres, sêde boas, cultivae o espirito, e allumiae a consciencia; na vida do homem ha horas escuras; que a luz que sabeis diffundir as illumine.
A sociedade tem desfiladeiros sombrios, tem
selvas ignotas
, como o
inferno
do Florentino, aprendei a guiar com a vossa pequena mão branca e macia os robustos luctadores, que ás vezes param no limiar d'esses caminhos, com a vista incerta e o passo hesitante.
E isso que hoje se exige de vós.
Eu vou mais longe que
madame
de Girardin, na sua arrojada proposição que tão poucos comprehenderam.
Quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a mulher que elle tem por esposa; quando entro n'uma casa basta-me vêr a disposição dos moveis, a escolha dos livros, o aspecto das creanças, a expressão das
cousas mudas
, para poder afiançar se a dona d'essa casa, a divindade modesta e tutelar d'esse pequeno templo, é digna do seu titulo sagrado de esposa e mãe.
É que tudo falla, para quem sabe ouvir, e a mulher sobretudo―natureza expansiva e vibratil―põe uma indiscrição involuntaria em cada objecto de que se rodeia.
Mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da emancipação politica e social do seu sexo.
Pobres sêres hybridos e incompletos são de certo os que teem tão acanhada idéa do destino da mulher.
No dia em que esta fôr emancipada, cahirá para sempre do throno que tem seculos por degraus.
É que a emancipação politica seria a abdicação domestica, quer dizer, a mais dolorosa catastrophe que tem affligido as sociedades.
Imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria!
A familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar, é o refugio onde se vae buscar paz e esquecimento; é o templo onde encontram
direito de asylo os parias
que andam cá fóra aos baldões da ira popular; é o lugar querido, inaccessivel onde os athletas do pensamento acham momentos de alegria descuidada, onde os mineiros cansados da sciencia, os que andam pelos antros obscuros arrancando segredos aos seios da natureza, procuram a clara e festiva luz dos affectos simples, onde os politicos esquecem a maldade e a mesquinhez humana, onde os diplomatas fallam verdade, onde os argentarios fecham os ouvidos ao tinir metallico do ouro, onde os que caminham levando no coração as terriveis hydras do odio e da inveja se assentam por instantes embevecidos na musica matinal de umas vozes infantis que chilrêam, de uma voz crystallina que adverte, aconselha e consola.
Os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de febre e de combate, roubam-lhe a força, a energia, a consciencia, a dignidade, o amor, roubam-lhe tudo emfim!
Emancipar a mulher é atacar na sua base a familia, é trazer para dentro do lar as paixões tumultuosas da praça publica, é destruir o mais doce dos poderes a que o homem se curva, o temivel poder da fraqueza feminina!
E não se diga que eu combato a mulher quando combato a sua libertação absoluta perante a sociedade e perante a lei.
Os que pretendem furtal-a á tutella salutar, que a contém na esphera que lhe é propria, é que são os seus peiores inimigos.
Dentro, porém, d'essa esphera quantos serviços ella deve fazer e não faz!
Exemplifiquemos: A mulher é na generalidade ambiciosa. Qualidade que não está de todo em todo desligada de peccado, mas qualidade util na maior parte dos seus resultados.
Esta ambição pela influencia latente que exerce no animo masculino leva-o, não poucas vezes a arrojados commettimentos e a grandes e nobres cousas.
Até um certo e determinado limite, é portanto benefica a ambição da mulher.
Transviada, porém, do seu verdadeiro fito, quantas vezes esta ambição mal dirigida por uma educação eivada de mesquinhos preconceitos não arrasta o homem até á infamia, á deshonra, á quebra de todos os pudores, ao suicidio!
A garridice, o amor da
toilette
, das pequenas futilidades elegantes, o gosto do luxo, das graciosas invenções da moda, ahi está uma das graças, um dos elementos do dominio da mulher.
Mas ainda n'este ponto cumpre que uma razão clara, que uma percepção definida do dever, a guie, a dirija, a constranja nas suas tendencias muitas vezes exageradas.
Não ha nada mais agradavel n'um
ménage
do que uma mulher moça, fresca, elegante, da graciosa e simples elegancia que provém do gosto apurado e distincto; os requintes de luxo exterior são, por assim dizer, na vida do homem, uma superfluidade necessaria, são um conchego para o corpo, uma caricia para a alma, mas que nunca o luxo conduza a familia á mais leve transigencia indelicada, que nunca a mulher lhe sacrifique um só dos seus deveres!
Todos são igualmente respeitaveis; todos estão unidos entre si por uma cadeia de élos inquebrantaveis.
Na mulher ainda mais do que no homem, o abuso das qualidades uteis leva ás mais funestas consequencias.
Para a mulher ainda é mais delgada a linha do dever.
O caminho é estreito, difficil, sinuoso: para áquem d'elle ou para além d'elle está o erro.
Por isso quantas senhoras ás vezes dizem:
«Queixam-se de nós porque somos garridas, e se nos vêem modestas, sem prendermos a minima attenção ás futilidades perigosas do luxo, condemnam-nos ou fogem do nosso lado.
«Queixam-se de nós porque somos ignorantes, mas se o nosso espirito se accende em curiosidades scientificas, se lêmos, se estudamos, se tentamos ir um pouco além dos limites impostos ao nosso sexo, somos alcunhadas de pedantes, e de
preciosas
ridiculas!
«Queixam-se de nós porque somos devotas, supersticiosas, porque levamos ao exagero as praticas do catholicismo, porque nos deixamos guiar mysteriosamente pela mão occulta do padre, mas se procuramos livrar-nos d'este jugo, se queremos a independencia absoluta do espirito e da consciencia, chamam-nos
livres pensadoras
, e os homens sentem medo instinctivo de entregar a sua honra nas nossas mãos.»
E por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor.
Eu, porém, mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel verdade no que dizeis, respondo-vos, minhas senhoras, que é positivamente porque a vossa missão é difficil que ella tem tamanha importancia e póde adquirir de dia para dia uma importancia ainda maior.
No dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino, sabereis então o que é ter a graça, a elegancia, o encanto exterior, sem que vos contaminem as criminosas vaidades; o que é ser intelligente, instruida, reflexiva sem conhecer o pedantismo, e a ridicula pretensão; o que é ter o ideal religioso, sem o manchar com superstições, preconceitos, intolerancias funestas; o que é aproveitar cada uma das vossas riquissimas faculdades equivalentes, mas não iguaes, das do homem, sem que a vossa inercia as esterilise, sem que a vivacidade nervosa do vosso temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas á familia e á sociedade da qual é aquella o mais perfeito reflexo.
CAPITULO XI
O trabalho das mulheres
O preconceito mais funesto, que ainda nasceu e medrou n'este mundo, é o que considera o trabalho uma escravidão deshonrosa.
Começa hoje a irradiar os seus primeiros clarões rubros a aurora do dia que ha de vêr o trabalho santificado, que ha de assistir á divina apotheose d'esse bemfeitor supremo da humanidade, d'esse amigo de todas as horas, que conforta os animos desconsolados, que levanta os animos abatidos, que distráe de todos os tédios, que lucta contra todas as inercias.
Por emquanto, sobretudo entre nós, é rara a mulher bastante superior para confessar que trabalha, e o que é peior de tudo, é rara a mulher que trabalha sem absoluta e incontestavel precisão.
Mais d'uma vez temos visto senhoras, que pela sua educação mais apurada e mais completa deviam estar a cima de tão profunda ignorancia dos seus deveres, confessarem que não gostam de fazer nada, que são preguiçosas, que não téem com que se distrahir, que os dias lhes parecem seculos, etc., etc.
E no entanto qual será a creatura bastante desfavorecida de Deus, para não poder aproveitar proficuamente as horas do dia, sempre curtas para quem as sabe empregar bem?
Fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade; para essas, logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera, pouco será sempre o tempo para se instruirem, para adquirirem os varios e complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a sua missão complexa.
Não são sómente os futeis ornamentos superficiaes em que ellas devem pôr a mira; a par d'esses, que tambem são indispensaveis, ha todo um mundo, que a mulher ignora, e cuja exploração lhe enriqueceria o espirito de thesouros incomparaveis.
E depois, mesmo os frivolos adornos, que constituem uma alta educação mundana, podem ter uma significação elevada, um sentido occulto, uma
alma
emfim, logo que se não considerem um
todo
, mas uma parte insignificante do mais alto e perfeito conjuncto; logo que occupem o lugar que lhes compete, na classificação harmoniosa e bem graduada das varias riquezas que formam um espirito.
Saber cantar, saber tocar piano, saber fallar as linguas, saber desenho e pintura, que vale tudo isso quando se não tenha uma idéa elevada e synthetica, que ligue entre si estas diversas acquisições intellectuaes, e que por assim dizer as vivifique?
O que é preciso antes de tudo, é comprehender a musica e a sua influencia poderosa nas almas e nos organismos; é saber usar com aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas, as quaes por si, só, tomadas abstractamente, nada significam e para nada servem; é estudar a natureza sob os seus multiplos aspectos e transplantal-a para a tela ou para o papel; é ter emfim um ideal, que sobredoire todas estas prendas, que superficialmente entendidas e superficialmente executadas, não teem valor nem tem utilidade alguma na vida pratica.
Basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho, que imperfeitamente acabamos de apontar, e, sem que elle mesmo tenha a consciencia d'isso, as suas idéas hão de dilatar-se e encadeiar-se por uma successão logica, e dar á vida um novo e imprevisto aspecto.
As meninas bem educadas das nossas altas classes sociaes, teem todas uma grande facilidade em fallar varias linguas; aproveitam porém essa facilidade... conversando com os diplomatas.
Não lêem Schiller, nem Goethe, nem Shakespeare, nem Macaulay, nem Pascal, nem Montaigne; não entram no genio das differentes nacionalidades e das differentes litteraturas; não comparam entre si as civilisações, chegando por esta comparação a conhecerem de um modo mais ou menos perfeito a humanidade, não senhor! Conversam com os
gommeux
da diplomacia estrangeira e contentam-se com isso!
Na musica que, mais do que nenhuma arte, lhes revelaria o coração do homem no coração de tantos homens de genio, o que ellas vêem sómente é o modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem de inveja mais rivaes!..
Na pintura, copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio carinhoso e fecundo da grande mãe, são tão frivolas, tão superficiaes, como em todas as outras cousas.
As mais das vezes não teem animo de colherem uma flôr do jardim e de a copiarem com o pincel ou com o lapis! Copiam copias, amesquinhando a natureza, e atrophiando a propria imaginação!
São estes defeitos, que todas nós as que pensamos um pouco, devemos combater com todas as nossas forças!
Longe de mim o aconselhar á mulher que se emancipe dos seus graves e obscuros deveres, que tente luctar com o homem, e arrancar-lhe a palma das grandes descobertas e das grandes conquistas!
O que eu pretendo é provar-lhe que é divina entre todas, a missão a que o futuro a convida.
A mulher de sala tem por força de morrer; surja pois a mulher da familia, ser complexo, grande e nobre sêr, que as geraçães vindouras hão de admirar fervorosamente.
A mulher da familia não é de certo a matrona desgeitosa, deselegante, só occupada em dar a vida, o leite e o alimento aos filhos de um affecto, despido de todas as flores e de todas as poesias.
Não, ella deve ser instruida, profundamente instruida, tendo ao mesmo tempo a consciencia de que essa instrucção a não aparta do cumprimento religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da maternidade.
O homem deve achar n'ella não só a enfermeira desvelada das suas doenças; não só a distribuidora sensata e economica do seu alimento; não só a dona de casa aceiada, vigilante, infatigavel; não só a mãe carinhosa, dedicada, capaz dos maximos e dos mais perseverantes sacrificios, senão tambem a companheira do seu espirito; a socia das suas aspirações; a intelligencia que comprehenda e partilhe as suas legitimas ambições e as suas chimericas phantasias; o animo viril que saiba amparal-o nas horas de desalento; a mão firme e branda, que saiba guial-o nos momentos escuros de lucta e de tentação: o seio terno que lhe acolha a cabeça cansada na hora sinistra das derrotas; o bello e enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das suas victorias; n'uma palavra, a mulher digna de ser mãe e de educar uma geração de fortes.
É preciso, que se compenetrem bem d'esta idéa fundamental: o trabalho, seja de que especie fôr não desdoira uma mulher nem deixa de ser compativel com as mais delicadas distracções de um espirito culto.
Trabalhar não é fazer
crochet
, não é cozer durante seis mezes na mesma camisa, que ha de ser offerecida a um pobre romantico, a um pobre de
opera-comica
; não é bordar umas eternas
babouches
, que se começam no dia seguinte ao do casamento, e que se acabam dez annos depois.
Trabalhar é ser util, é occupar o espirito, é adquirir conhecimentos ou espalhal-os em torno de si, é concorrer para o bem-estar dos outros e para o seu aperfeiçoamento proprio.
A mulher que trabalha levanta-se cedo, não conhece as scismas voluptuosas, os languores morbidos, as
flâneries
sem motivo e sem fim.
É activa, por isso não tem aquellas horas de tédio profundo, que descobrem diante de um olhar os horisontes sinistros e esbraseados do suicidio; tem saude porque o tempo bem applicado e bem dividido não lhe deixa intervallos para se
escutar
, se sondar, para analysar as suas pequenas dôres, os seus pequenos incommodos, e os aggravar tomando remedios nocivos, e entregando-se á molleza que a pouco e pouco destroe a robustez do corpo; gosa de tudo com alegria, com vitalidade, com expansão, não desdenha nenhum dever, nenhuma occupação, nenhum trabalho porque o amor e a intelligencia prendem-se a tudo que ella faz.
Porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste, nem por isso deixa de saber estar na cosinha, observar um por um todos os utensilios, vêr se estão limpos, inventar um
menu
que reuna as condições da economia e da variedade, ensinar a sua cosinheira, fazer mesmo por suas mãos um prato predilecto, que á mesa o marido e os filhos hão de saudar com alegria e saborear com appetite.
Desejo que ella saiba bordar, mas exijo que saiba serzir panno, dar rêdes com perfeição, cozer a roupa da casa e a roupa dos filhos, cortar e fazer os seus vestidos, dando assim mais que um exemplo de economia, um exemplo de moralidade! protestando até onde chegam os seus limites, contra a torrente impetuosa e funesta, que arrasta as familias desde o luxo até á infamia, desde a impostura até á quebra de todas as dignidades e de todos os pudores.
Quero mais, que ella se não envergonhe de confessar que trabalha, e que não diga que o seu fato é feito por uma qualquer modista estrangeira, quando é ao seu laborioso serão que ella deve a elegancia que d'este modo é duplamente preciosa e sympathica.
Não imagine a mulher, que entre os deveres que acceitou ha uns que a deslustram, e outros que lhe ficam bem.
Debaixo do ponto de vista da razão todos os deveres são eguaes e estão prezos entre si por uma cadeia invisivel.
Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os instantes, depende o bom humor das festas de familia; da elegancia e primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido; do modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico, depende a educação dos filhos, a moralidade do interior, a harmonia intima da vida, e até a graça, o espirito, a liberdade com que ella conversa e ri na sala.
Todas as mulheres se queixam dos maridos, e nenhuma ainda percebeu o seguinte: são ellas que preparam e determinam o seu destino; é a ellas que a familia em geral deve a sua desordem, a sua dissolução, ou a sua felicidade.
Não basta ter todas as graças, é preciso ser util, e no fardo que se acceita em commum tomar a parte que mais custa a supportar.
Não basta ser util, prestadia, arranjada, economica; é preciso ter a intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos encargos da vida.
Toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino, e protesta contra as leis, contra os usos, contra as instituições, que a exilaram dos altos cargos da republica, que lhe tolheram o passo para todas as eminencias sociaes, e que a condemnam á obscuridade e á lhaneza do viver domestico.
Oh! abençoados sejam os costumes, as leis, as instituições, que deram ao homem tudo que é ruido, pompa, ostentação, orgulho e vaidade, e que nos deram a nós a dôce missão de encaminharmos o futuro, de guiarmos a humanidade no caminho do bello e do bom!
Se até agora temos trahido essa missão a que fomos destinadas, a culpa é nossa e não de quem constituio sob uma fórma tão racional e tão justa a sociedade.
O tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas, colhendo decepções e rancores, excitando invejas, provocando sensuaes applausos, porque o não gastamos a lêr, a estudar, a penetrar no mundo da natureza e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos tão varios, em todas as suas manifestações tão sympathicas; porque não dirigimos a poder de trabalho e de esforço a primeira educação de nossos filhos, e deixamos que mãos mercenarias lhe arranquem aquella dôce penugem da alma que é a ignorancia dos pequeninos?
Porque não fazemos da nossa casa, um ninho alegre e fôfo, que o nosso marido prefira ao botequim, ao Gremio, ao Club, ao restaurante, á casa dos seus amigos, e onde elle esteja certo de encontrar o alimento mais saboroso e mais hygienico, o ar mais puro e lavado, a poltrona mais commoda, a conversação mais animada, mais substancial, mais chistosa e menos pedante?
Pouco a pouco á regeneração da mulher, seguir-se-hia a regeneração do homem, deixariamos de ser a ruina, para nos tornarmos o conforto; deixariamos de ser o tédio para nos tornarmos a alegria.
Talvez não houvesse tantos bailes e saraus, talvez Offenbach, Dumas filho, Sardou tivessem menos espectadores, talvez as salas de bilhar perdessem um pouco da sua popularidade; talvez os ourives e as modistas fechassem algumas das suas lojas, mas em compensação quebravam menos negociantes, perdiam-se menos mulheres, a calumnia renunciava a uma grande porção do seu alimento diario, o falso luxo que mata de fome os filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade, ou se reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coupé de oito mollas, o falso luxo deixaria de ostentar com tão descarada altivez as suas lentejoulas compradas com moeda vil, e esta nossa sociedade, que parodía tão ridicula e tão desgraçadamente a sociedade cosmopolita, opulenta e artificial da França, tomava diverso rumo, assumia a dignidade que lhe falta, e descobriria no futuro o ideal, que não tem e que procura nas trevas.
O primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um pouco, é que as mulheres comecem a trabalhar.
As ricas instruam-se; as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem da sua honesta pobreza, e todas sem exceptuar qualquer posição social, occupem o tempo para não darem logar ás tentações da vaidade, aos sonhos morbidos que enfraquecem o corpo e o espirito, ás negras horas dissolventes do tédio, em que tudo se concebe e se admitte como possivel, até o esquecimento de todos os deveres, até o proprio crime com o seu romantico cortejo de sensações e de terrores.
CAPITULO XII
A toilette
As mulheres teem, na generalidade, um costume deploravel! Só se vestem e se enfeitam e querem ser amaveis para o publico.
O marido, ainda o mais feliz e mais extremoso, tem sempre um rival terrivel, um rival exigente, um rival que lhe rouba parte das prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos.
Esse rival é o publico, é esse detestavel tyranno chamado
tout le monde
, a quem tudo se sacrifica, e do qual em recompensa só se recebem criticas e desdens!
Para elle nos vestimos, para elle levamos horas e horas a combinar o effeito da nossa
toilette
, para elle estamos defronte do espelho prendendo flores no cabello, inventando as difficeis architecturas do penteado, para elle sabemos tocar piano e sabemos cantar, para elle desejamos ser formosas! para que elle nos applauda―mentiroso e humilhante applauso!―exhaurimos todos os recursos da nossa imaginação.
Para agradarmos a elle, que é o
extranho
, nos esquecemos dos que são nossos!
Em casa as mulheres, pelo menos as mulheres portuguezas, as que eu de mais perto conheço, preferem a tudo, aquillo a que tão impropriamente chamam
estar á vontade
.
Usam uma
robe-de-chambre
desbotada, quando não trazem um vestido velho que já não serve para a rua; trazem o cabello em
papelotes
ou frisado em ganchos, e como querem descansar um pouco das talas que impuzeram aos pés, consolam-nos, mettendo-os em umas largas
babouches
desgeitosas.
Pela manhã, á hora do almoço dão vontade de chorar!
O marido olha para ellas e... de duas uma:―ou sente fastio ou come como um lobo.
De qualquer dos modos manifesta a sua melancolia.
Questão de temperamento que não vem ao caso analysar aqui.