MACHADO DE ASSIS (continued 4)
Reading edition
Eram, e naquella manhã parece que o diabo do homem adivinhára a nossa catastrophe. Jámais o engenho e a arte lhe foram tão propicios. Que requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de fórmas! Comia-se com a bocca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta desse dia; do contrario, é mui provavel que a deixasse nestas paginas. Sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os meus amores. Elles lá iam, mar em fóra, no espaço e no tempo, e eu ficava-me alli n'uma ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos annos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais, porque ella poderia tornar e tornou, mas o effluvio da manhã quem é que o pediu ao crepusculo da tarde?
CAPITULO CXVI
Philosophia das folhas velhas
Fiquei tão triste com o fim do ultimo capitulo que estava capaz de não escrever este, descançar um pouco, purgar o espirito da melancolia que o empacha, e continuar depois. Mas não, não quero perder tempo.
A partida de Virgilia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias metti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente o Suetonio, mas a fisgal-as de um modo particular: com os olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede, com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um pouco de tedio, e muito devaneio solto. Meu tio conego morreu nesse intervallo; item, dous primos; e eu não me dei por abalado; levei-os ao cemiterio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva cartas ao correio: sellei as cartas, metti-as na caixinha, e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mão propria. Foi tambem per esse tempo que nasceu minha sobrinha Venancia, filha do Cotrim. Morriam uns, nasciam outros: eu continuava ás moscas.
Outras vezes agitava-me. Ia ás gavetas, entornava as cartas antigas, dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcella), e abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o preterito... Leitor ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia a philosophia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao longe, na penumbra, com um chapéu de tres bicos, botas de sete leguas e longas barbas assyrias, a bailar ao som de uma gaita anacreontica. Guarda as tuas cartas da juventude!
Ou, se te não apraz o chapéu de tres bicos, empregarei a locução de um velho marujo, familiar da casa do Cotrim; direi que, se guardares as cartas da juventude, acharás occasião de «cantar uma saudade.» Parece que os nossos marujos dão este nome ás cantigas de terra, entoadas no alto mar. Como expressão poetica, é o que se póde exigir mais triste.
CAPITULO CXVII
O Humanitismo
Duas forças, porém, além de uma terceira, compelliam-me a tornar á vida agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã encaminhou a candidatura conjugal de Nhã-loló de um modo verdadeiramente impetuoso. Quando dei por mim estava com a moça quasi nos braços. Quanto ao Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia destinado a arruinar todos os demais systemas.
—Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas; a statica, anterior a toda a creação; a expansiva, começo das cousas; a dispersiva, apparecimento do homem; e contará mais uma, a contractiva, absorpção do homem e das cousas. A expansão, iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi a dispersão, que não é mais do que a multiplicação personificada da substancia original.
Como me não apparecesse assaz clara esta exposição, o Quincas Borba desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao Brahmanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas differentes partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religião indiana tinha apenas uma estreita significação theologica e politica, era no Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito ou dos rins de Humanitas, isto é, ser um forte, não era o mesmo que descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles não foi senão um symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado á verdade, se se não houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecerá com o Humanitismo. Nesta egreja nova não ha aventuras faceis, nem quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um sacerdocio, a reproducção um ritual. Como a vida é o maior beneficio do universo, e não ha mendigo que não prefira a miseria á morte (o que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma occasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha só uma desgraça: é não nascer.
—Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar comtigo, comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n'uma só palavra: viver. Nota que eu não faço do homem um simples vehiculo de Humanitas; não, elle é ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle é o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla a inveja. Não ha moralista grego ou turco, christão ou mussulmano, que não troveje contra o sentimento da inveja. O accordo é universal, desde os campos da Iduméa até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja, esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma reducção de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente opposto a outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por exemplo, o algoz que executa o condemnado póde excitar o vão clamor dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infracção da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta (e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste bem, facilmente comprehenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande funcção do genero humano, todos os sentimentos bellicosos são os mais adequados á sua felicidade. Dahi vem que a inveja é uma virtude.
Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposição, a logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triumpho. Tinha uma aza de frango no prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda alguma objecções, mas tão frouxas, que elle não gastou muito tempo em destruil-as.
—Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa não esquecer nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle chupava philosophicamente a aza do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submette a propria viscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu systema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe, um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite.
Entre o queijo e o café, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu systema era a destruição da dôr. A dôr, segundo o Humanitismo, é uma pura illusão. Quando a criança é ameaçada por um páu, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa predisposição é que constitue a base da illusão humana, herdada e transmittida. Não basta certamente a adopção do systema para acabar logo com a dôr; mas é indispensavel; o resto é a natural evolução das cousas. Uma vez que o homem se compenetre bem de que elle é o proprio Humanitas, não tem mais do que remontar o pensamento á substancia original para obstar qualquer sensação dolorosa. A evolução porém é tão profunda, que mal se lhe podem assignar alguns milhares de annos.
O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e citações latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema, posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreição, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as doenças; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substancia interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia não impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro á concepção acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta, cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se ao principio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo. Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire.
CAPITULO CXVIII
A terceira força
A terceira força (Veja a primeira linha do capitulo passado) a terceira força que me chamava ao bulicio era a impaciencia de luzir, e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão attrahia-me, o applauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos objectos de seducção. Se a idéa do emplasto me tem apparecido nesse tempo, quem sabe? não teria morrido logo e estaria celebre. Mas o emplasto não veiu. Veiu o desejo de agitar-me em alguma cousa, com alguma cousa e por alguma cousa. Tout notre mal vient de ne pouvoir être seuls. Esta maxima de la Bruyère sempre me pareceu um grande disparate. Não ha duvida que a sociabilidade é a primeira virtude dos homens, a segunda é a curiosidade, a terceira é a pontualidade dos pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante.
CAPITULO CXIX
Parenthesis
(Haverá uma critica tão perversa que possa attribuir a minha opinião sobre la Bruyère á inveja das suas maximas? Eu aparo desde já esse golpe, transcrevendo algumas das que compuz por aquelle tempo, e rasguei logo depois, por não me parecerem dignas do prélo. Fil-as n'um periodo em que a flor amarella do capitulo XXV tornára a abrir; eram bocejos de enfado. E se não vejam:
Supporta-se com paciencia a colica do proximo.
Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.
Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.
Não se comprehende que um botocudo fure o beiço para enfeital-o com um pedaço de páu. Esta reflexão é de um joalheiro.
Não te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.)
CAPITULO CXX
Compelle intrare
—Não, senhor, agora quer você queira, quer não, ha de casar, disse-me Sabina. Que bello futuro! Um solteirão sem filhos.
Sem filhos! Eis o dardo secreto. A idéa de ter filhos deu-me um sobresalto; percorreu-me outra vez o fluido mysterioso. Sim, cumpria ser pae. A vida celibata podia ter certas vantagens proprias, mas seriam tenues, e compradas a troco da solidão. Sem filhos! Não; impossivel. Dispuz-me a aceitar tudo, ainda mesmo a alliança do Damasceno. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança no Quincas Borba, fui ter com elle e expuz-lhe os movimentos internos da minha paternidade. O philosopho ouviu-me com alvoroço; declarou-me que Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento; ponderou que eram mais alguns convivas que batiam á porta, etc. Compelle intrare, como dizia Jesus. E não me deixou sem provar que o apologo evangelico não era mais do que um prenuncio do Humanitismo, erradamente interpretado pelos padres.
CAPITULO CXXI
Morro abaixo
No fim de tres mezes, ia tudo á maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da moça, os desejos do pae, eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimonio. A lembrança de Virgilia apparecia de quando em quando, á porta; e com ella um diabo negro, que me mettia á cara um espelho, no qual eu via ao longe Virgilia desfeita em lagrimas; mas outro diabo vinha, côr de rosa, com outro espelho, em que se reflectia a figura de Nhã-loló, terna, luminosa, angelica.
Não falo dos annos. Eu não os sentia; acrescentarei até que os deitára fóra, certo domingo, em que fui á missa na capella do Livramento. Como o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes á missa. O morro estava ainda nú de habitações, salvo o velho palacete do alto, onde era a capella. Pois um domingo, ao descer com Nhã-loló pelo braço, não sei que phenomeno se deu que fui deixando aqui dous annos, alli quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, estava com vinte annos apenas, tão lépidos como elles tinham sido.
Agora, se querem saber em que circumstancias se deu o phenomeno, basta-lhes ler este capitulo até o fim. Vinhamos da missa, ella, o pae e eu. No meio do morro achámos um grupo de homens. O Damasceno, que vinha ao pé de nós, percebeu o que era e adiantou-se alvoroçado; nós fomos atraz delle. E vimos isto: homens de todas as edades, tamanhos e côres, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros mettidos em sobrecasacas esfrangalhadas; attitudes diversas, uns de cócaras, outros com as mãos apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aquelles encostados ao muro; e todos com os olhos fixos no centro, e as almas debruçadas das pupillas.
—Que é? perguntou-me Nhã-loló.
Fiz-lhe signal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos me foram cedendo espaço, sem que positivamente ninguem me visse. O centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de gallos. Vi os dous contendores, dous gallos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado. Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava desplumado e rubro; invadia-os o cançasso. Mas lutavam ainda assim, olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe daquelle, vibrantes e raivosos. O Damasceno não sabia mais de nada; o espectaculo eliminou para elle todo o universo. Em vão lhe disse que era tempo de descer: elle não respondia, não ouvia, concentrara-se no duello. A briga de gallos era uma de suas paixões.
Foi nessa occasião que Nhã-loló me puxou brandamente pelo braço, dizendo que nos fossemos embora. Aceitei o conselho e vim com ella por alli abaixo. Já disse que o morro era então deshabitado; disse-lhes tambem que vinhamos da missa, e não lhes tendo dito que chovia, era claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. Tão forte que eu abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por modo que ajuntei uma pagina á philosophia do Quincas Borba: Humanitas osculou Humanitas... Foi assim que os annos me vieram caindo pelo morro abaixo.
Ao sopé detivemo-nos alguns minutos; á espera do Damasceno; elle veiu dahi a pouco, rodeado dos apostadores, a commentar com elles a briga. Um destes, thesoureiro das apostas, distribuia um velho maço de notas de dez tostões, que os triumphadores recebiam duplamente alegres. Quanto aos gallos vinham sobraçados pelo respectivo dono. Um delles trazia a crista tão comida e ensanguentada, que vi logo nelle o vencido; mas era engano,—o vencido era o outro, que não trazia crista nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados. Os apostadores, ao contrario, vinham alegres, sem embargo das fortes commoções da luta; biographavam os contendores, relembravam as proezas de ambos. Eu fui andando, vexado; Nhã-loló, vexadissima.
CAPITULO CXXII
Uma intenção mui fina
O que vexava a Nhã-loló era o pae. A facilidade com que elle se mettêra com os apostadores punha em relevo antigos costumes e affinidades sociaes; e Nhã-loló chegára a temer que tal sogro me parecesse indigno. Era notavel a differença que ella fazia de si mesma; estudava-se e estudava-me. A vida elegante e polida attrahia-a, principalmente porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. Nhã-loló observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao esforço de mascarar a inferioridade da familia. Naquelle dia, porém, a manifestação do pae foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu busquei então divertil-a do assumpto, dizendo-lhe muitas chanças e motes de bom tom; vãos esforços, que não a alegravam mais. Era tão profundo o abatimento, tão expressivo o desanimo, que eu cheguei a attribuir a Nhã-loló a intenção positiva de separar, no meu espirito, a sua causa da causa do pae. Este sentimento pareceu-me de grande elevação; era uma affinidade mais entre nós.
—Não ha remedio, disse eu commigo, vou arrancar esta flor a este pantano.
CAPITULO CXXIII
O verdadeiro Cotrim
Não obstante os meus quarenta e tantos annos, como eu amasse a harmonia da familia, entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao Cotrim. Elle ouviu-me e respondeu-me seriamente que não tinha opinião em negocio de parentes seus. Podiam suppor-lhe algum interesse, se acaso louvasse, as raras prendas de Nhã-loló; por isso calava-se. Mais: estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão, mas se ella o consultasse, o seu conselho seria negativo. Não era levado por nenhum odio; apreciava as minhas bôas qualidades,—não se fartava de as elogiar, como era de justiça; e pelo que respeita a Nhã-loló, não chegaria jámais a negar que era noiva excellente; mas dahi a aconselhar o casamento ia um abysmo.
—Lavo inteiramente as mãos, concluiu elle.
—Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes...
—Isso é outro negocio. Acho que é indispensavel casar, principalmente tendo ambições politicas. Saiba que na politica o celibato é uma rémora. Agora, quanto á noiva, não posso ter voto, não quero, não devo, não é de minha honra. Parece-me que Sabina foi além, fazendo-lhe certas confidencias, segundo me disse; mas em todo caso ella não é tia carnal de Nhã-loló, como eu. Olhe... mas não... não digo...
—Diga.
—Não; não digo nada.
Talvez pareça excessivo o escrupulo do Cotrim, a quem não souber que elle possuia um caracter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com elle durante os annos que se seguiram ao inventario do meu pae. Reconheço que era um modelo. Arguiam-n'o de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o deficit. Como era muito secco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a accusal-o de barbaro. O unico facto allegado neste particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dôr que padeceu quando lhe morreu Sára, dalli a alguns mezes; prova irrefutavel, acho eu; e não unica. Era thesoureiro de uma confraria, e irmão de varias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o beneficio não caíra no chão: a irmandade (de que elle fôra juiz,) mandara-lhe tirar o retrato a oleo. Não era perfeito, de certo; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornaes a noticia de um ou outro beneficio que praticava,—sestro reprehensivel ou não louvavel, concordo; mas elle desculpava-se dizendo que as bôas acções eram contagiosas, quando publicas; razão a que se não pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que elle não praticava, de quando em quando, esses beneficios senão com o fim de espertar a philantropia dos outros; e se tal era o intuito, força é confessar que a publicidade tornava-se uma condição sine qua non. Em summa, poderia dever algumas attenções, mas não devia um real a ninguem.
CAPIULO CXXIV
Vá de intermedio
Que ha entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Não obstante, se eu não compuzesse este capitulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz damnoso ao effeito do livro. Saltar de um retrato a um epitaphio, póde ser real e commum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão para escapar á vida. Não digo que este pensamento seja meu; digo que ha nelle uma dose de verdade, e que, ao menos, a fórma é pittoresca. E repito: não é meu.
Vá de intermedio, e contemos a este proposito uma anecdota. Foi no tempo da minha vida parlamentar; eramos cinco; falavamos de cousas e lousas, e aconteceu tocar nos negocios do Rio da Prata. Então, disse um:—O governo não deve esquecer que o dinheiro é o nervo da guerra. Ao que eu redargui que não, que o nervo da guerra eram os bons soldados. Um dos ouvintes coçou o nariz, outro consultou o relogio, o terceiro tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala, o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa idéa, inteiramente justa, não era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia que levou o primeiro a não coçar o nariz, o segundo a não consultar o relogio, o terceiro a não tamborilar sobre o joelho, e o quarto a não dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito, e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabeça approvando, saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idéas justas. Mas vamos ao epitaphio.
CAPITULO CXXV
Epitaphio
AQUI JAZ D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO MORTA AOS DEZENOVE ANNOS DE IDADE ORAI POR ELLA!
CAPITULO CXXVI
Desconsolação
O epitaphio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molestia de Nhã-loló, a morte, o desespero da familia, o enterro. Ficam sabendo que morreu; accrescentarei que foi por occasião da primeira entrada da febre amarella. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lagrimas. Conclui que talvez não a amasse devéras.
Vejam agora a que excessos póde levar uma inadvertencia; doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que, matando á direita e á esquerda, levou tambem uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; e não cheguei a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquella morte. Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes. O Quincas Borba, porém, explicou-me que as epidemias eram uteis á especie, embora desastrosas para uma certa porção de individuos; e fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espectaculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivencia do maior numero. Chegou a perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado ás garras da peste; mas esta pergunta era tão insensata, que ficou sem resposta.
Se não contei a morte, não conto igualmente a missa do setimo dia. A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma ruina. Quinze dias depois estive com elle; continuava inconsolavel, e dizia que a dor grande com que Deus o castigára fora ainda augmentada com a que lhe infligiram os homens. Não me disse mais nada. Tres semanas depois tornou ao assumpto, e então confessou-me que, no no meio do desastre irreparavel, quizera ter a consolação da presença dos amigos. Doze pessoas apenas, e tres quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam á cova o cadaver de sua querida filha. E elle fizera expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão geraes que bem se podia desculpar essa desattenção apparente. O Damasceno abanava a cabeça de um modo incredulo e triste.
—Qual! gemia elle, desampararam-me.
O Cotrim, que estava presente:
—Vieram os que devéras se interessam por você é por nós. Os oitenta viriam por formalidade, falariam da inercia do governo, das panacéas dos boticarios, do preço das casas, ou uns dos outros...
O Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabeça, e suspirou:
—Mas viessem!
CAPITULO CXXVII
Formalidade
Grande cousa é haver recebido do ceu uma particula da sabedoria, o dom de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distincção psychica; eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulchro.
De facto, o homem vulgar que ouvisse a ultima palavra do Damasceno, não se lembraria della, quando, tempos depois, houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram seis damas de Constantinopla,—modernas,—em trajos de rua, com a cara tapada, não tapada á outra maneira, com um espesso panno que as cobrisse devéras, mas com um veu tenuissimo, que simulava descobrir somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei graça a essa esperteza da faceirice musulmana, que assim esconde o rosto,—e cumpre o uso,—mas não o esconde,—e divulga a belleza. Apparentemente, nada ha entre as damas turcas e o Damasceno; mas se tu és um espirito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues isso), comprehenderás que, tanto n'um como n'outro caso, surge ahi a orelha de uma rigida e meiga companheira do homem social...
Amavel Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o balsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vinculo da terra e do ceu; tu enxugas as lagrimas de um pae, tu captas a indulgencia de um Propheta; e se a dôr adormece, e se a consciencia se accommoda, a quem, senão a ti, deverão esse immenso beneficio? A estima que passa de chapeu na cabeça não diz nada á alma; mas a indifferença que corteja deixa-lhe uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrario de uma velha formula absurda, não é a lettra que mata; a lettra dá vida; o espirito é que é objecto de controversia, de duvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amavel Formalidade, para socego do Damasceno e gloria de Muhammed.
CAPITULO CXXVIII
Na camara
E notai bem que eu vi a gravura turca, dous annos depois das palavras de Damasceno, e vi-a na camara dos deputados, em meio de grande borborinho, emquanto um deputado discutia um parecer da commissão de orçamento, sendo eu tambem deputado. Para quem ha lido este livro é escusado encarecer a minha satisfação, e para os outros é igualmente inutil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, entre um collega, que contava uma anecdota, e outro, que tirava a lapis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil do orador. O orador era o Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos á mesma praia, como duas botelhas de naufragos, elle contendo o seu resentimento, eu devendo conter o meu remorso; e emprégo esta fórma suspensiva, dubitativa ou condicional, para o fim de dizer que effectivamente não continha nada, a não ser a ambição de ser ministro.
CAPITULO CXXIX
Sem remorsos
Não tinha remorsos. Se possuisse os apparelhos proprios, incluia neste livro uma pagina de chimica, porque havia de decompor o remorso até os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e concludente, por que razão Achilles passea á roda de Troya o cadaver do adversario, e lady Macbeth passea á volta da sala a sua mancha de sangue. Mas eu não tenho apparelhos chimicos, como não tinha remorsos; tinha vontade de ser ministro de Estado. Comtudo, se hei de acabar este capitulo, direi que não quizera ser Achilles nem lady Macbeth; e que a ser alguma cousa, antes Achilles, antes passear ovante o cadaver do que a mancha; ouvem-se no fim as supplicas de Priamo, e ganha-se uma bonita reputação militar e litteraria. Eu não ouvia as supplicas de Priamo, mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.
CAPITULO CXXX
Para intercalar no cap. CXXIX
A primeira vez que pude falar a Virgilia, depois da presidencia, foi n'um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e ostentava ás luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. Não era a frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa, de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos muito; e lembra-me que não alludimos a cousa nenhuma do passado. Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas, e não sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra profundamente retrospectiva:
—Magnifica!
Convém intercalar este capitulo entre a primeira oração e a segunda do cap. CXXIX.
CAPITULO CXXXI
De uma calumnia
Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,—o que era simples opinião e não remorso,—senti que alguem me punha a mão no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha, jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e disse-me:
—Seu maganão! Recordações do passado, hein?
—Viva o passado!
—Você naturalmente foi reintegrado no emprego.
—Salta, pelintra! disse eu, ameaçando-o com o dedo.
Confesso que este dialogo era uma indiscrição,—principalmente a ultima replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres é que tem fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem rectificar essa noção do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico, etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razão desta differença é que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente physico de algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres, e póde ser que outras raças civilisadas; mas o homem,—falo do homem de uma sociedade culta e elegante,—o homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos), a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia; ao passo que o homem, sentindo-se causa da infracção e vencedor de outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro sentimento menos rispido e menos secreto,—essa meiga fatuidade, que é a transpiração luminosa do merito.
Mas seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar escripto nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrição das mulheres é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: «não ha cachorrinho tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.»
CAPITULO CXXXII
Que não é serio
Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo, quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe: «Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» como se dissesse:—«quem lhe levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capitulo não é serio.
CAPITULO CXXXIII
O principio de Helvetius
Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a confissão dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de Helvetius,—ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar; confirmar a suspeita de uma cousa antiga fôra provocar algum odio supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputação de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito. Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquelle interesse de segurança, havia outro, o do desvanecimento, que é mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto, o segundo proximo. Conclusão: o principio de Helvetius é verdadeiro no meu caso;—a diferença é que não era o interesse apparente, mas o recondito.
CAPITULO CXXXIV
Cincoenta annos
Não lhes disse ainda,—mas digo-o agora,—que quando Virgilia descia a escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,—ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de sustos,—capeada de dissimulação e duplicidade,—mas emfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual. Si, porém, empregarmos outra mais sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes dizer nas poucas paginas deste livro.
Cincoenta annos! Não era preciso confessal-o. Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquella occasião, cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu, confesso que fiquei um pouco triste. Voltei á sala, lembrou-me dansar uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei do baile, ás quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro? Os meus cincoenta annos. Lá estavam elles os teimosos, não tolhidos de frio, nem rheumaticos,—mas cochillando a sua fadiga, um pouco cobiçosos de cama e de repouso. Então,—e vejam até que ponto póde ir a imaginação de um homem, com somno,—então pareceu-me ouvir de um morcego encarapitado no tejadilho:—Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,—emfim, nos outros.
CAPITULO CXXXV
Oblivion
E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! Não é ainda a invalidez, mais já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglez dizia, entenderei que «cousa é não achar já quem se lembre de meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.»
Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dem todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da ultima hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministerio Paraná, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente já que outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. Tempora mutantur. E ella comprehenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem excepção nem piedade; e se tiver um pouco de philosophia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o carro, porque tambem ellas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. Espectaculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.
CAPITULO CXXXVI
Inutilidade
Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo inutil.
CAPITULO CXXXVII
A barretina
E dahi, não; elle resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia.
—Meu caro Braz Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho! é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir! dominar! Cincoenta annos é a edade da sciencia e do governo. Animo, Braz Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa successão de ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a peor philosophia é a do choramigas que se deita á margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O officio dellas é não parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de aproveital-a.
Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo. Crel-o-eis, posteros? Eu não havia intervindo até então nos grandes debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, commissões e votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.
Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o orçamento da justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se não julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. Não tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei Philopemen, que ordenou a substituição dos broqueis de suas tropas, que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que eram demasiado leves; facto que a historia não achou que desmentisse a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um córte profundo, não só por serem deselegantes, mas tambem por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos de Hippocrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saude e a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independencia, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito, frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus, decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina, por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a patria precisava de cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do poder; e conclui com esta idéa: O chorão, que inclina os seus galhos para a terra, é arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, é arvore do deserto, das praças e dos jardins.
Vária foi a impressão deste discurso. Quanto á forma, ao rapto eloquente, á parte litteraria e philosophica, a opinião foi só uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem ainda conseguira tirar tantas idéas. Mas a parte politica foi considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam já em opposição, entrando nesse numero os opposicionistas da camara, que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moção de desconfiança. Repelli energicamente tal interpretação, que não era só erronea, mas calumniosa, á vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete; accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, não era tamanha que não pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso, eu transigiria na extensão do córte, contentando-me com tres quartos de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha idéa não fosse adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento.
O Quincas Borba, porém, não fez restricção alguma. Não sou homem politico, disse-me elle ao jantar; não sei se andaste bem ou mal; sei que fizeste um excellente discurso. E então notou as partes mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse comedimento de louvor que tão bem fica a um grande philosopho; depois, tomou o assumpto á sua conta, e impugnou a barretina com tal força, com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu perigo.
CAPITULO CXXXVIII
A um Critico
Meu caro critico,
Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos, accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo.
CAPITULO CXXXIX
De como não fui ministro de estado
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
CAPITULO CXL
Que explica o anterior
Ha cousas que melhor se dizem calando; tal é a materia do capitulo anterior. Podem entendel-o os ambiciosos mallogrados. Se a paixão do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o desespero, a dôr, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da camara dos deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira politica. E notem que o Quincas Borba, por inducções philosophicas que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião delle, este sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais, porque orça pelo amor que as mulheres tem ás rendas e toucados. Um Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava elle, por isso mesmo que os queima a paixão do poder, lá chegam á fina força, ou pela escada da direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este, não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado; e dahi a maior afflicção, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu sentimento, segundo o Humanitismo...
—Vae para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de philosophias que me não levam a cousa nenhuma.
A dureza da interrupção, tratando-se de tamanho philosopho, equivalia a um desacato; mas elle proprio desculpou a irritação com que lhe falei. Trouxeram-nos café; era uma hora da tarde, estavamos na minha sala de estudo, uma bella sala, que dava para o fundo da chacara, bons livros, objectos d'arte, um Voltaire entre elles, um Voltaire de bronze, que nessa occasião parecia accentuar o risinho de sarcasmo, com que me olhava, o ladrão; cadeiras excellentes; fóra, o sol, um grande sol, que o Quincas Borba, não sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos ministros da natureza; corria um vento fresco, o ceu estava nitidamente azul. De cada janella,—eram trez—pendia uma gaiola com passaros, que chilreavam as suas operas rusticas. Tudo tinha a apparencia de uma conspiração das cousas contra o homem: e, comquanto eu estivesse na minha sala, olhando para a minha chacara, sentado na minha cadeira, ouvindo os meus passaros, ao pé dos meus livros, allumiado pelo meu sol, não chegava a curar-me das saudades daquella outra cadeira, que não era minha.
CAPITULO CXLI
Os cães
—Mas, emfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borbas, indo pôr a chicara vazia no parapeito de uma das janellas.
Não sei; vou metter-me na Tijuca; fugir aos homens. Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada.
—Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação.
Para distrair-me, convidou-me a sair; saimos para os lados do Engenho Velho. Iamos a pé, philosophando as cousas. Nunca me hade esquecer o beneficio desse passeio, que me restituiu o socego e a força. A palavra daquelle grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me elle que eu não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim que a lingua philosophica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no calão do povo. Funda um jornal, disse-me elle, e «desmancha toda esta egrejinha.»
—Magnifica idéa! Vou fundar um jornal, vou escachal-os, vou...
—Lutar. Pódes escachal-os ou não; o essencial é que lutes. Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.
Dahi a pouco demos com uma briga de cães; facto que aos olhos de um homem vulgar não teria valor. O Quincas Borba fez-me parar e observar os cães. Eram dous. Notou que ao pé delles estava um osso, motivo da guerra, e não deixou de chamar a minha attenção para a circumstancia de que o osso não tinha carne. Um simples osso nú. Os cães mordiam-se, rosnavam, com o furor nos olhos... O Quincas Borba metteu a bengala debaixo do braço, encostou o queixo no castão, e parecia em extasis.
—Que bello que isto é! dizia elle de quando em quando.
Quiz arrancar-me dalli, mas não pude; elle estava arraigado ao chão, e só continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte. Notei que ficára sinceramente alegre, posto contivesse a alegria, segundo convinha a um grande philosopho. Fez-me observar a belleza do espectaculo, relembrou o objecto da luta, concluiu que os cães tinham fome; mas a privação do alimento era nada para os effeitos geraes da philosophia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espectaculo é mais grandioso: as creaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos appeteciveis; luta que se complica muito, porque entra em acção a intelligencia do homem, com todo o accumulo de sagacidade que lhe deram os seculos, etc.
CAPITULO CXLII
O pedido secreto
Quanta cousa n'um minuete! como dizia o outro. Quanta cousa n'uma briga de cães! Mas eu não era um discipulo servil ou medroso, que deixasse de fazer uma ou outra objecção adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma duvida; não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães. Elle respondeu-me com excepcional brandura:
—Disputai-a aos outros homens é mais logico, porque a condição dos contendores é a mesma, e leva o osso o que fôr mais forte. Mas porque não será um espectaculo grandioso disputal-o aos cães? Voluntariamente, comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa peor, como Ezequiel; logo, o ruim é comivel; resta saber se é mais digno do homem disputal-o, por virtude de uma necessidade natural, ou preferil-o, para obedecer a uma exaltação religiosa, isto é, modificavel, ao passo que a fome é eterna, como a vida e como a morte.
Estavamos á porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma senhora. Entramos; e o Quincas Borba, com a discrição propria de um philosopho, foi ler a lombada dos livros de uma estante, emquanto eu lia a carta, que era de Virgilia:
«Meu bom amigo,
«D. Placida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer alguma cousa por ella; mora no becco das Escadinhas; veja se alcança metei-a na Misericordia.
Sua amiga sincera,
[signature]
Não era a letra fina e correcta de Virgilia, mas grossa e desegual; o V da assignatura não passava de um rabisco sem intenção alphabetica; de maneira que, se a carta apparecesse, era mui difficil attribuir-lhe a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Placida! Mas eu tinha-lhe deixado os cinco contos da praia da Gamboa, e não podia comprehender que...
—Vaes comprehender, disse o Quincas Borba, tirando um livro da estante.
—O que? perguntei espantado.
—Vaes comprehender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus avós espirituaes; e, comquanto a minha philosophia valha mais que a delle, não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz elle nesta pagina?—E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o logar com o dedo.—Que diz elle? Diz que o homem tem «uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o absolutamente.» Vês? Logo, o homem que disputa o osso a um cão tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e é isto que torna grandiosa a luta, como eu dizia. «Sabe que morre» é uma expressão profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe que tem fome. Porquanto, o facto da morte limita, por assim dizer, o entendimento humano; a consciencia da extincção dura um breve instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vae nisso alguma immodestia), que a fórmula de Pascal é inferior á minha, sem todavia deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem.
CAPITULO CXLIII
Não vou
Emquanto elle restituia o livro á estante, relia eu o bilhete. Ao jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engulir, fitava o canto da sala, a ponta da meza, um prato, uma cadeira, uma mosca invisivel, disse-me elle:—Tens alguma cousa; aposto que foi aquella carta?—Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incommodado, com o pedido de Virgilia. Tinha dado a D. Placida cinco contos de réis; duvido muito que ninguem fosse mais generoso do que eu, nem tanto. Cinco contos! E que fizera delles? Naturalmente botou-os fóra, comeu-os em grandes festas, e agora toca para a Misericordia, e eu que a leve! Morre-se em qualquer parte. Accresce que eu não sabia, ou não me lembrava do tal becco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de lá ir, chamar a attenção dos visinhos, bater á porta, etc. Que massada! Não vou.
CAPITULO CXLIV
Utilidade relativa
Mas a noite, que é boa conselheira, ponderou que a cortezia mandava obedecer aos desejos da minha antiga dama.
—Letras vencidas, urge pagal-as, disse eu ao levantar-me.
Depois do almoço fui á casa de D. Placida; achei um mólho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fil-a transportar para a Misericordia, onde ella morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida ás escondidas, tal qual entrára. Outra vez perguntei, a mim mesmo, como no cap. LXXV, se era para isto que o sachristão da Sé e a doceira trouxeram D. Placida á luz, n'um momento de sympathia especifica. Mas adverti logo que, se não fosse D. Placida, talvez os meus amores com Virgilia tivessem sido interrompidos, ou immediatamente quebrados, em plena effervescencia; tal foi, portanto, a utilidade da vida de D. Placida. Utilidade relativa, convenho; mas que diacho ha absoluto nesse mundo?
CAPITULO CXLV
Simples repetição
Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que um canteiro da visinhança fingiu-se enamorado de D. Placida, logrou espertar-lhe os sentidos, ou a vaidade, e casou com ella; no fim de alguns mezes inventou um negocio, vendeu as apolices e fugiu com o dinheiro. Não vale a pena. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de um capitulo.
CAPITULO CXLVI
O programma
Urgia fundar o jornal. Redigi o programma, que era uma applicação politica do Humanitismo; somente, como o Quincas Borba não houvesse ainda publicado o livro, (que aperfeiçoava de anno em anno) assentamos de lhe não fazer nenhuma referencia. O Quincas Borba exigiu apenas uma declaração, autographa e reservada, de que alguns principios novos applicados á politica eram tirados do livro delle, ainda inedito.
Era a fina flôr dos programmas; promettia curar a sociedade, destruir os abusos, defender os sãos principios de liberdade e conservação; fazia um appello ao commercio e á lavoura; citava Guizot e Ledru-Rollin e acabava com esta ameaça, que o Quincas Borba achou mesquinha e local: «A nova doutrina que professamos ha de inevitavelmente derribar o actual ministerio.» Confesso que, nas circumstancias politicas da occasião, o programma pareceu-me uma obra-prima. A ameaça do fim, que o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do mais puro Humanitismo, e elle mesmo o confessou depois. Porquanto, o Humanitismo não excluia nada; as guerras de Napoleão e uma contenda de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a differença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam, cousa que apparentemente não acontece ás cabras. Ora, eu não fazia mais do que applicar ás circumstancias a nossa fórmula philosophica: Humanitas queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas.
—Tu és o meu discipulo amado, o meu califa, bradou o Quincas Borba, com uma nota de ternura, que até então lhe não ouvira. Posso dizer como o grande Muhammed: nem que venham agora contra mim o sol e a lua, não recuarei das minhas idéas. Crê, meu caro Braz Cubas, que esta é a verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos seculos.
CAPITULO CXLVII
O desatino
Mandei logo para a imprensa uma noticia discreta, dizendo que provavelmente começaria a publicação de um jornal opposicionista, dahi a algumas semanas, redigido pelo Dr. Braz Cubas. O Quincas Borba, a quem li a noticia, pegou da penna, e acrescentou ao meu nome, com uma fraternidade verdadeiramente humanistica, esta phrase: «um dos mais gloriosos membros da passada camara.»
No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado, mas dissimulava, affectando socego e até alegria. Vira a noticia do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me de semelhante idéa. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia collocar-me n'uma situação difficil, e de certa maneira trancar as portas do parlamento. O ministerio, não só lhe parecia excellente, o que aliás podia não ser a minha opinião, mas com certeza viveria muito; e que podia eu ganhar com indispol-o contra mim? Sabia que alguns dos ministros me eram affeiçoados; não era impossivel uma vaga, e... Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditára muito o passo que ia dar, e não podia recuar uma linha. Cheguei a propôr-lhe a leitura do programma, mas elle recusou energicamente, dizendo que não queria ter a minima parte no meu desatino.
—É um verdadeiro desatino, repetiu elle; pense ainda alguns dias, e verá que é um desatino.
A mesma cousa disse Sabina, á noite, no theatro. Deixou a filha no camarote, como Cotrim, e trouxe-me ao corredor.
—Mano Braz, que é que você vae fazer? perguntou-me afflicta. Que idéa é essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia....
Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento; que a minha idéa era derrubar o ministerio, por não me parecer adequado á situação—e a certa fórmula philosophica; afiancei que empregaria sempre uma linguagem cortez, embora energica. A violencia não era especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos, abanou a cabeça, e tornou ao assumpto com um ar de supplica e ameaça, alternadamente; eu disse-lhe que não, que não, e que não. Desenganada, lançou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos della e do marido.—Pois siga o que, lhe parecer, concluiu; nós cumprimos a nossa obrigação. Deu-me as costas e voltou ao camarote.
CAPITULO CXLVIII
O problema insoluvel
Publiquei o jornal. Vinte e quatro horas depois, apparecia em outros uma declaração do Cotrim, dizendo, era substancia, que «posto não militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a patria, achava conveniente deixar bem claro que não tinha influencia nem parte directa ou indirecta na folha de seu cunhado, o Dr. Braz Cubas, cujas idéas e procedimento politico inteiramente reprovava. O actual ministerio (como aliás qualquer outro composto de eguaes capacidades) parecia-lhe destinado a promover a felicidade publica.»
Não podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas vezes, e reli a declaração inopportuna, insolita e enigmatica. Se elle nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente tão vulgar como a publicação de uma folha? Nem todos os cidadãos que acham bom ou mau um ministerio fazem declarações taes pela imprensa, nem são obrigados a fazel-as. Realmente, era um mysterio a intrusão do Cotrim neste negocio, não menos que a sua aggressão pessoal. Nossas relações até então tinham sido lhanas e benevolas; não me lembrava nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconciliação. Ao contrario, as recordações eram de verdadeiros obsequios; assim, por exemplo, sendo eu deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o arsenal de marinha, fornecimentos que elle continuava a fazer com a maior pontualidade, e dos quaes me dizia algumas semanas antes, que no fim de mais trez annos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois a lembrança de tamanho obsequio não teve força para obstar que elle viesse a publico enxovalhar o cunhado? Devia ser mui poderoso o motivo da declaração, que o fazia commetter ao mesmo tempo um destempero e uma ingratidão; confesso que era um problema insoluvel...
CAPITULO CXLIX
Theoria do beneficio
... Tão insoluvel que o Quincas Borba não pôde dar com elle, apezar de estudal-o longamente e com boa vontade.—Ora adeus! concluiu; nem todos os problemas valem cinco minutos de attenção.
Quanto á censura de ingratidão, o Quincas Borba rejeitou-a inteiramente, não como improvavel, mas como absurda, por não obedecer ás conclusões de uma boa philosophia humanistica:
—Não me pódes negar um facto, disse elle; é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o beneficio? é um acto que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido o effeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indifferente. Suppõe que tens apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incommodo, desabotôas o cós, respiras, saboreas um instante de gozo, o organismo torna á indifferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. Não havendo nada que perdure, é natural que a memoria se esvaeça, porque ella não é uma planta aerea, precisa de chão. A esperança de outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do primeiro; mas este facto, aliás um dos mais sublimes que a philosophia póde achar em seu caminho, explica-se pela memoria da privação, ou, usando de outra fórmula, pela privação continuada na memoria, que repercute a dor passada e aconselha a precaução do remedio opportuno. Não digo que, ainda sem esta circumstancia, não aconteça, algumas vezes, persistir a memoria do obsequio, acompanhada de certa affeição mais ou menos intensa; mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor aos olhos de um philosopho.
—Mas, repliquei eu, se nenhuma razão ha para que perdure a memoria do obsequio no obsequiado, menos ha de haver em relação ao obsequiador. Quizera que me explicasses este ponto.
—Não se explica o que é de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas Borba; mas eu direi alguma cousa mais. A persistencia do beneficio na memoria de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do beneficio e seus effeitos. Primeiramente, ha o sentimento de uma boa acção, e deductivamente a consciencia de que somos capazes de boas acções; em segundo logar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra creatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das cousas mais legitimamente agradaveis, segundo as melhores opiniões, ao organismo humano. Erasmo, que no seu Elogio da Sandice escreveu algumas cousas boas, chamou a attenção para a complacencia com que dois burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo; mas direi o que elle não disse, a saber, que se um dos burros coçar melhor o outro, esse ha de ter nos olhos algum indicio especial de satisfação. Porque é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? A consciencia é a mesma cousa; remira-se a miudo, quando se acha bella. Nem o remorso é outra cousa mais do que o trejeito de uma consciencia que se vê hedionda. Não esqueças que, sendo tudo uma simples irradiação de Humanitas, o beneficio e seus effeitos, são phenomenos perfeitamente admiraveis.
CAPITULO CL
Rotação e translação
Ha em cada empreza, affeição ou edade um cyclo inteiro da vida humana. O primeiro numero do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis mezes depois batia a hora da velhice, e dahi a duas semanas a da morte, que foi clandestina, como a de D. Placida. No dia em que o jornal amanheceu morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que, se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais ou menos ephemeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio não dizer uma cousa inteiramente absurda. Mas, para não arriscar essa figura menos nitida e adequada, prefiro uma imagem astronomica: o homem executa á roda do grande mysterio um movimento duplo de rotação e translação; tem os seus dias, deseguaes como os de Jupiter, e delles compõe o seu anno mais ou menos longo.
No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluia o Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada ministerial. Correu ao menos, durante algumas semanas, que elle ia ser ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja, não é impossivel que a noticia da morte me deixasse alguma tranquillidade, allivio, e um ou dous minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade; juro aos seculos que é a pura verdade.
Fui ao enterro. Na sala mortuaria achei Virgilia, ao pé do feretro, a soluçar. Quando levantou a cabeça, vi que chorava deveras. Ao sair o enterro, abraçou-se ao caixão, afflicta; vieram tiral-a e leval-a para dentro. Digo-vos que as lagrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemiterio; e, para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar; levava uma pedra na garganta ou na consciencia. No cemiterio, principalmente quando deixei cair a pá de cal sobre o caixão, no fundo da cova, o baque surdo da cal deu-me um estremecimento passageiro, é certo, mas desagradavel; e depois a tarde tinha o peso e a côr do chumbo; o cemiterio, as roupas pretas...
CAPITULO CLI
Philosophia dos epitaphios
Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitaphios. E, aliás, gosto dos epitaphios; elles são, entre a gente civilisada, uma expressão daquelle pio e secreto egoismo que induz o homem a arrancar á morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Dahi vem, talvez, a tristeza inconsolavel dos que levam os seus mortos á valla commum; parece-lhes que a podridão anonyma os alcança a elles mesmos.
CAPITULO CLII
A moeda do Vespasiano
Tinham ido todos; só o meu carro esperava pelo dono. Accendi um charuto; afastei-me do cemiterio. Não podia sacudir dos olhos a ceremonia do enterro, nem dos ouvidos os soluços de Virgilia. Os soluços, principalmente, tinham o som vago e mysterioso de um problema. Virgilia trahira o marido, com sinceridade; e agora chorava-o com sinceridade. Eis uma combinação difficil que não pude fazer em todo o trajecto; em casa, porém, apeando-me do carro, suspeitei que a combinação era possivel, e até facil. Meiga Natura! A taxa da dor é como a moeda de Vespasiano; não cheira á origem, e tanto se colhe do mal como do bem. A moral reprehenderá, porventura, a minha complice; é o que te não importa, implacavel amiga, uma vez que lhe recebeste pontualmente as lagrimas. Meiga, tres vezes meiga Natura!
CAPÍTULO CLIII
O alienista
Começo a ficar pathetico; e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era nababo, e acordei com a idéa de ser nababo. Eu gostava, ás vezes, de imaginar esses contrastes de região, estado e credo. Alguns dias antes tinha pensado na hypothese de uma revolução social, religiosa e politica, que transferisse o arcebispo de Cantuaria a simples collector de Petropolis, e fiz longos calculos para saber se o collector eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o collector, ou que porção de arcebispo póde jazer n'um collector, ou que somma de collector póde combinar com um arcebispo, etc. Questões insoluveis, apparentemente, mas na realidade perfeitamente soluveis, desde que se attenda que póde haver n'um arcebispo dous arcebispos,—o da bulla e o outro. Está dito, vou ser nababo.
Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que olhou para mim com certa cautella e pena, levando a sua bondade a communicar-me que eu estava doudo. Ri-me a principio; mas a nobre convicção do philosopho incutiu-me certo medo. A unica objecção contra a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doudo, mas não tendo geralmente os doudos outro conceito de si mesmos, tal objecção ficava sem valor. E vêde se ha algum fundamento na crença popular de que os philosophos são homens alheios ás cousas minimas. No dia seguinte mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado. Elle porém houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se tão alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me não achava doudo.
—Não, disse elle sorrindo; raros homens terão tanto juizo como o senhor.
—Então o Quincas Borba enganou-se?
—Redondamente. E depois:—Ao contrario, se é amigo delle... peço-lhe que o distraia... que...
—Justos ceus! Parece-lhe?... Um homem de tamanho espirito! um philosopho!
Não importa; a loucura entra em todas as casas. Imaginem a minha afflicção. O alienista, vendo o effeito de suas palavras, reconheceu que eu era amigo do Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da advertencia. Observou que podia não ser nada, e accrescentou até que um grãosinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo pico á vida. Como eu rejeitasse com horror esta opinião, o alienista sorriu e disse-me uma cousa tão extraordinaria, tão extraordinaria, que não merece menos de um capitulo.
CAPITULO CLIV
Os navios do Pireu
—Ha de lembrar-se, disse-me o alienista, daquelle famoso maniaco atheniense, que suppunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não tivesse, para dormir, a cuba de Diogenes; mas a posse imaginaria dos navios valia por todas as drachmas da Hellade. Ora bem, ha em todos nós um maniaco de Athenas; e quem jurar que não possuiu alguma vez, mentalmente, dous ou tres patachos, pelo menos, póde crer que jura falso.
—Tambem o senhor? perguntei-lhe.
—Tambem eu.
—Tambem eu?
—Tambem o senhor; e o seu criado, não menos, se é seu criado esse homem que alli está sacudindo os tapetes á janella.
De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto nós falavamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que elle escancarára as janellas todas, desde longo tempo, que alçára as cortinas, que devassára o mais possivel a sala, ricamente alfaiada, para que a vissem de fóra, e concluiu:—Este seu criado tem a mania do atheniense: crê que os navios são delle; uma hora de illusão que lhe dá a maior felicidade da terra.
CAPITULO CLV
Reflexão cordial
—Se o alienista tem razão, disse eu commigo, não haverá muito que lastimar o Quincas Borba; e uma questão de mais ou de menos. Comtudo, é justo cuidar delle, e evitar que lhe entrem no cerebro maniacos de outras paragens.
CAPITULO CLVI
Orgulho tem servilidade
O Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu criado.—Póde-se, por imagem, disse elle, attribuir ao teu criado a mania de atheniense; mas imagens não são idéas nem observações tomadas á natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da servilidade. A intenção delle é mostrar que não é criado de qualquer.—Depois chamou a minha attenção para os cocheiros de casa grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja solicitude obedece ás variações sociaes da freguezia, etc. E concluiu que era tudo a expressão daquelle sentimento delicado e nobre,—prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime.
CAPITULO CLVII
Phase brilhante
—Sublime és tu, bradei eu, lançando-lhe os braços ao pescoço.
Com effeito, era impossivel crer que um homem tão profundo pudesse chegar á demencia; e foi o que lhe disse após o meu abraço, denunciando-lhe a suspeita do alienista. Não posso descrever a impressão que lhe fez a denuncia; lembra-me que elle estremeceu e ficou muito pallido.
Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem chegar a saber a causa do dissentimento. Reconciliação opportuna, porque a solidão pesava-me, como um remorso, e a vida era para mim a peor das fadigas, que é a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui convidado por elle a filiar-me n'uma Ordem Terceira; o que eu não fiz sem consultar o Quincas Borba:
—Vae se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de annexar á minha philosophia uma parte dogmatica e liturgica. O Humanitismo ha de ser tambem uma religião, a do futuro, a unica verdadeira. O christianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza. O paraiso christão é um digno emulo do paraiso mussulmano; e quanto ao nirvana de Buddha não passa de uma concepção de paralyticos. Verás o que é a religião humanistica. A absorpção final, a phase contractiva, é a reconstituição da substancia, não o seu anniquilamento, etc. Vae aonde te chamam; não esqueças, porém, que és o meu califa.
E vede agora a minha, modestia; filiei-me na Ordem Terceira de ***, exerci alli alguns cargos, foi essa a phase mais brilhante da minha vida. Não obstante, calo-me, não digo nada, não conto os meus serviços, o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi, nada, não digo absolutamente nada.
Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, si eu mostrasse como todo e qualquer premio estranho vale pouco ao lado do premio subjectivo e immediato; mas seria romper o silencio que jurei guardar neste ponto. Demais, os phenomenos da consciencia são de difficil analyse; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que a elle se prendessem, e acabava fazendo um capitulo de psychologia. Affirmo sómente que foi a phase mais brilhante da minha vida. Os quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraça, que é tão aborrecida como a do gozo, e talvez peor. Mas a alegria que se dá á alma dos doentes e dos pobres, é recompensa de algum valor; e não me digam que é negativa, por só recebel-a o obsequiado. Não; eu recebia-a de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande que me dava excellente idéa de mim mesmo.
CAPITULO CLVIII
Dous encontros
No fim de alguns annos, tres ou quatro, estava enfarado do officio, e deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao retrato na sacristia. Não acabarei, porém, o capitulo sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcella; e vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir esmolas, achei... Agora é que não são capazes de adivinhar... achei a flôr da moita, Eugenia, a filha de D. Eusebia e do Villaça, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste.
Esta, ao reconhecer-me, ficou pallida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Comprehendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria á esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se no cubiculo. Nunca mais a vi; não soube nada da vida della, nem se a mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miseria. Sei que continuava coxa e triste. Foi com esta impressão profunda que cheguei ao hospital, onde Marcella entrara na vespera, e onde a vi expirar meia hora depois, feia, magra, decrepita...
CAPITULO CLIX
A semi-demencia
Comprehendi que estava velho, e precisava de uma força; mas o Quincas Borba partira seis mezes antes para Minas Geraes, e levou comsigo a melhor das philosophias. Voltou quatro mezes depois, e entrou-me em casa, certa manhã, quasi no estado em que eu o vira no Passeio Publico. A differença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimára o manuscripto todo e ia recomeçal-o. A parte dogmatica ficava completa, embora não escripta; era a verdadeira religião do futuro.
—Juras por Humanitas? perguntou-me.
—Sabes que sim.
A voz mal podia sair-me do peito; e aliás não tinha descoberto toda a cruel verdade. O Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de consciencia, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Sabia-o, e não se irritava contra o mal; ao contrario, dizia-me que era ainda uma prova de Humanitas, que assim brincava comsigo mesmo. Recitava-me longos capitulos do livro, e antiphonas, e litanias espirituaes; chegou até a reproduzir uma dansa sacra que inventara para as ceremonias do Humanitismo. A graça lugubre com que elle levantava e sacudia as pernas era singularmente fantastica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um raio persistente da razão, triste como uma lagrima...
Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma illusão, e que Pangloss, o calumniado Pangloss, não era tão tolo como o suppoz Voltaire.
CAPITULO CLX
Das negativas
Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os successos narrados na primeira parte do livro. O principal delles foi a invenção do emplasto Braz Cubas, que morreu commigo, por causa da molestia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os homens, acima da sciencia e da riqueza, porque eras a genuina e directa inspiração do ceu. O acaso determinou o contrario; e ahi vos ficaes eternamente hypocondriacos.
Este ultimo capitulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais: não padeci a morte de D. Placida, nem a semi-demencia do Quincas Borba. Sommadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve mingua nem sobra, e conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mysterio, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capitulo de negativas:—Não tive filhos, não transmitti a nenhuma creatura o legado da nossa miseria.
FIM
ÍNDICE
Ao leitor
Dedicatória
I —Obito do auto
II —O emplasto
III —Genealogia
IV —A idéa fixa
V —Em que apparece a orelha de uma senhora
VI —Chimène, qui l'eut dit? Rodrigue, qui l'eut cru?
VII —O delirio
VIII —Razão contra Sandice
IX —Transição
X —Naquelle dia
XI —O menino é pae do homem
XII —Um episodio de 1814
XIII —Um salto
XIV —O primeiro beijo
XV —Marcella
XVI —Uma reflexão immoral
XVII —Do trapezio o outras cousas
XVIII —Visão do corredor
XIX —A bordo
XX —Bacharelo-me
XXI —O almocreve
XXII —Volta ao Rio
XXIII —Triste, mas curto
XXIV —Curto, era alegre
XXV —Na Tijuca
XXVI —O autor hesita
XXVII —Virgilia?
XXVIII —Contanto que
XXIX —A visita
XXX —A flor da moita
XXXI —A borboleta preta
XXXII —Côxa de nascença
XXXIII —Bem aventurados os que não descem
XXXIV —A uma alma sensivel
XXXV —O caminho de Damasco
XXXVI —A proposito de botas
XXXVII —Emfim!
XXXVIII —A quarta edição
XXXIX —O visinho
XL —Na sege
XLI —A allucinação
XLII —Que escapou a Aristoteles
XLIII —Marqueza, porque eu serei marquez
XLIV —Um Cubas!
XLV —Notas
XLVI —A herança
XLVII —O recluso
XLVIII —Um primo de Virgilia
XLIX —A ponta do nariz
L —Virgilia casada
LI —É minha!
LII —O embrulho mysterioso
LIII —. . . . . .
LIV —A pendula
LV —O velho dialogo de Adão e Eva
LVI —O momento opportuno
LVII —Destino
LVIII —Confidencia
LIX —Um encontro
LX —O abraço
LXI —Um projecto
LXII —O travesseiro
LXIII —Fujamos!
LXIV —A transacção
LXV —Olheiros e escutas
LXVI —As pernas
LXVII —A casinha
LXVIII —O vergalho
LXIX —Um grão de sandice
LXX —D. Placida
LXXI —O senão do livro
LXXII —O bibliomano
LXXIII —O lunch
LXXIV —Historia de D. Placida
LXXV —Commigo
LXXVI —O estrume
LXXVII —Entrevista
LXXVIII —A presidencia
LXXIX —Compromisso de gato
LXXX —De secretario
LXXXI —A reconciliação
LXXXII —Questão de botanica
LXXXIII —13
LXXXIV —O conflicto
LXXXV —O cimo da montanha
LXXXVI —O mysterio
LXXXVII —Geologia
LXXXVIII —O enfermo
LXXXIX —In extremis
XC —O velho colloquio do Adão e Caim
XCI —Uma carta extraordinaria
XCII —Um homem extraordinario
XCIII —O jantar
XCIV —A causa secreta
XCV —Flores de antanho
XCVI —A carta anonyma
XCVII —Entre a boca e a testa
XCVIII —Supprimido
XCIX —Na plateia
C —O caso provavel
CI —A revolução dalmata
CII —De repouso
CIII —Distracção
CIV —Era elle!
CV —Equivalencia das janellas
CVI —Jogo perigoso
CVII —Bilhete
CVIII —Que se não entende
CIX —O philosopho
CX —31
CXI —O muro
CXII —A opinião
CXIII —A solda
CXIV —Fim do um dialogo
CXV —O almoço
CXVI —Philosophia das folhas velhas
CXVII —O Humanitismo
CXVIII —A terceira força
CXIX —Parenthesis
CXX —Compelle intrare
CXXI —Morro abaixo
CXXII —Uma intenção mui fina
CXXIII —O verdadeiro Cotrim
CXXIV —Vá de intermedio
CXXV —Epitaphio
CXXVI —Desconsolação
CXXVII —Formalidade
CXXVIII —Na camara
CXXIX —Sem remorsos
CXXX —Por intercallar no cap. CXXIX
CXXXI —De uma calumnia
CXXXII —Que não é serio
CXXXIII —O principio de Helvetius
CXXXIV —Cincoenta annos
CXXXV —Oblivion
CXXXVI —Inutilidade
CXXXVII —A barretina
CXXXVIII —A um critico
CXXXIX —De como não fui ministro d'Estado
CXL —Que explica o anterior
CXLI —Os cães
CXLII —O pedido secreto
CXLIII —Não vou
CXLIV —Utilidade relativa
CXLV —Simples repetição
CXLVI —O programma
CXLVII —O desatino
CXLVIII —O problema insoluvel
CXLIX —Theoria do beneficio
CL —Rotação e translação
CLI —Philosophia dos epitaphios
CLII —A moeda de Vespasiano
CLIII —O alienista
CLIV —Os navios do Pireu
CLV —Reflexão cordial
CLVI —Orgulho da servilidade
CLVII —Phase brilhante
CLVIII —Dous encontros
CLIX —A semi-demencia
CLX —Das negativas