MACHADO DE ASSIS (continued 2)
Reading edition
CAPITULO XXV
Na Tijuca
Ui! lá me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples, como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe.
No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos, um moleque,—o Prudencio da capitulo XI,—e fui metter-me n'uma velha, casa de nossa propriedade. Meu pae forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum tempo,—duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar á fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passára de estroina a circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manhã até á noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado á janella, a encaracolar as suiças, não pensava em outra cousa. Amava a mulher e um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam que era avaro.
Renunciei tudo; tinha o espirito attonito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella, solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.—«Que bom que é estar triste e não dizer cousa nenhuma!»—Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a attenção, confesso que senti em mim um echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espirito ainda mais cabisbaixo do que a figura,—ou jururú, como dizemos das gallinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das sensações mais subtis desse mundo e daquelle tempo.
Ás vezes caçava, outras dormia, outras lia,—lia muito,—outras emfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéa em idéa, de imaginação em imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me deixassem só. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fóra e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor applacára; o espirito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu. Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bahú o problema da vida e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditações, as gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudára na vespera para uma casa roxa, situada a duzentos passos da nossa.
—Quem?
—Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusebia...
—Lembra-me... É ella?
—Ella e a filha. Vieram hontem de manhã.
Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fôra impossivel evitar as relações intimas do Villaça com a irmã do sargento-mór; antes mesmo do meu embarque, já se boquejava mysteriosamente no nascimento de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Villaça, ao morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que fallar em todo o bairro. O proprio tio João, guloso de escandalos, não tratou de outro assumpto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me dado razão os acontecimentos. Ainda porém que m'a não dessem, 1814 lá ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaça, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ella. Fiz commigo essa reflexão e acabei de fechar o bahú.
—Nhonhô não vae visitar sinhá D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio. Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.
Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasião da morte e do enterro; ignorava porém que ella houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obsequio. A ponderação do moleque era razoavel; eu devia-lhe uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer.
CAPITULO XXVI
O autor hesita
Subito ouço uma voz:—Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me a mão com um gesto commovido:
—Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.
—Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.
Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem, quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a duas vezes.
—Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e acho que deves ir tambem...
—Eu?
—Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago commigo uma idéa, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous projectos, um logar de deputado e um casamento.
Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.
—Aceitas?
—Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.
—Mas os ursos casam-se, replicou elle.
—Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior.
Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razões, que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos de pessoas do nosso conhecimento. Quanto á noiva, bastava que eu a visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem docil nem rebelde á proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição politica eram bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeições, da familia...
—Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo.
Bebeu o ultimo gole de café; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo, do senado, da camara, da Regencia, da restauração, do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos... Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n'um pedaço de papel, com uma ponta de lapis; traçava uma palavra, uma phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:
arma virumque cano A Arma virumque cano arma virumque cano arma virumque arma virumque cano virumque
Machinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa logica, certa deducção; por exemplo, foi o virumque que me fez chegar ao nome do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrever virumque—e sae-me Virgilio, então continuei:
Vir Virgilio Virgilio Virgilio Virgilio Virgilio
Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferença, ergueu-se, veiu a mim, lançou os olhos ao papel...
—Virgilio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgilia.
CAPITULO XXVII
Virgilia?
Virgilia? Mas então era a mesma senhora que alguns annos depois...? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais intimas sensações. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos ás sardas e espinhas; mas tambem não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha; não. Era bonita, fresca, sahia das mãos da natureza, cheia daquelle feitiço, precario e eterno, que o individuo passa a outro individuo, para os fins secretos da creação. Era isto Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns impetos mysteriosos; muita preguiça e alguma devoção,—devoção, ou talvez medo; creio que medo.
Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis annos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem á luz,—tu que me lês, Virgilia amada, não reparas na differença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabujento, nem injusto.
—Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memoria a imagem do que fui, como é que póde assim discernir a verdade daquelle tempo, e exprimil-a depois de tantos annos?
Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos affectos. Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida tambem, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
CAPITULO XXVIII
Contanto que...
—Virgilia? interrompi eu.
—Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem azas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos... filha do Dutra...
—Que Dutra?
—O Conselheiro Dutra; não conheces; uma influencia politica. Vamos lá; aceitas?
Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o casamento, comtanto que...
—Comtanto que?
—Comtanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso ser separadamente homem casado ou homem publico...
—Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a vista fará fé. Demais, a noiva e o casamento são a mesma cousa... isto é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação, comtanto que...
—Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz.
—Ah! brejeiro! Comtanto que não te deixes ficar ahi inutil, obscuro, e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver brilhar, como deves, e te convem, e a todos nós; é preciso continuar o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com sessenta annos, mas se fosse necessario começar vida nova, começava-a sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que é infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios...
E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarella, e nada morbida,—o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas.
CAPITULO XXIX
A visita
Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia e a camara dos deputados.—As duas Virgilias, disse elle n'um assomo de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraços. Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente, o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pae alguma cousa do velho Cid; era a alma que colligira n'uma só flamma todas as ultimas scentelhas.
—Desces commigo?
—Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia...
Meu pae torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento:
—Ora, o Brázinho! Um homem! Quem diria, ha annos... Um homemzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim...
Disse-lhe que sim, que não era possivel esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa. D. Eusebia começou a fallar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea á conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os namoros... Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaça, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouço um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:
—Mamãe... mamãe...
CAPITULO XXX
A flor da moita
A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve á porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:
—Vem cá, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do Sr. Cubas; veiu da Europa.
E voltando-se para mim:
—Minha filha Eugenia.
Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabello, cuja ponta se desmanchara.—Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me commoveu um pouco; lembrou-me minha mãe, e,—direi tudo,—tive umas cocegas de ser pae.
—Travêssa? disse eu. Pois já não está em edade propria, ao que parece.
—Quantos lhe dá?
—Dezesete.
—Menos um.
—Dezeseis. Pois então! é uma moça.
Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel, tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria, com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante...
Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas:—T'esconjuro!... sáe, diabo!... Virgem Nossa Senhora!...
—Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D. Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavallo a filha de D. Eusebia, seguida de um pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a cabeça para traz; mas não voltou.
CAPITULO XXXI
A borboleta preta
No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saíu dalli e veiu parar em cima de um velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as azas, tinha um certo ar escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu muito. Dei de hombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repellão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ella caíu.
Não caíu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depol-a no peitoril da janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incommodado.
—Tambem porque diabo não era ella azul? disse eu commigo.
E esta reflexão,—uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas,—me consolou do maleficio, e me reconciliou commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma sympathia, confesso. Imaginei que ella saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veiu por alli fóra, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices sob a vasta cupula de um céo azul, que é sempre azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e dá commigo. Supponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura collossal. Então disse comsigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas.» A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é tambem suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dalli o retrato de meu pae, e não é impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia.
Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a immensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho crú. Vejam como é bom ser superior ás borboletas! Porque, é justo dizel-o, se ella fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossivel que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta ultima idéa restituiu-me a consolação, uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi vinham já as providas formigas... Não, volto á primeira idéa; creio que para ella era melhor ter nascido azul.
CAPITULO XXXII
Coxa de nascença
Fui dalli acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro mais. Desço immediatamente; desço ainda que algum leitor circumspecto me detenha para perguntar se o capitulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação... Ai de mim! Não contava com D. Eusebia. Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, era-lhe devida aquella compensação; fui.
Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa,—se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas orelhas finamente recortadas n'uma cabeça de nympha. Um simples vestido branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um botão de madreperola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e nem sombra de pulseira.
Era isso no corpo; não era outra cousa no espirito. Idéas claras, maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da mãe, a qual me lembrava o episodio de 1814, e então dava-me impetos de glosar o mesmo mote á filha...
—Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a mãe, logo que exgotámos o ultimo gole de café.
Saímos á varanda, dalli á chacara; e foi então que notei uma circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem titubear:
—Não, senhor, sou coxa de nascença.
Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi na vespera—a moça chegára-se lentamente á cadeira da mãe, e que naquelle dia já a achei á mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas por que razão o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia triste.
Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;—não me foi difficil, por que a mãe era, segundo confessára, uma velha patusca, e promptamente travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugenia...
Palavra que o olhar de Eugenia não era coxo, mas direito, perfeitamente são; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres vezes sómente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem biocos.
CAPITULO XXXIII
Bemaventurados os que não descem
O peor é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é ás vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite; e não atinava com a solução do enigma. O melhor que ha, quando se não resolve um enigma, é sacudil-o pela janella fóra; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espirito, deixou novamente entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem explical-o.
Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas, frescas, convidativas; lá em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao pé da minha Venus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estylo; não havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação physica e moral. Queria-lhe, é verdade; ao pé dessa creatura tão singela, filha espuria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé della sentia-me bem, e ella creio que ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade com a conveniencia; e a filha, nessa primeira explosão da natureza, entregava-me a alma em flôr.
—O senhor desce amanhã? disse-me ella no sabbado.
—Pretendo.
—Não desça.
Não desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:—Bemaventurados os que não descem, porque delles é o primeiro beijo das damas. Com effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,—o primeiro que nenhum outro varão jámais lhe tomára, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre Eugenia! Se tu soubesses que idéas me vagavam pela mente fóra n'aquella occasião! Tu, tremula de commoção, com os braços nos meus hombros, a contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Villaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, á tua origem...
D. Eusebia entrou inesperadamente, mas não tão subita, que nos apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até á janella: Eugenia sentou-se a concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, não estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor! D. Eusebia não suspeitou nada.
CAPITULO XXXIV
A uma alma sensivel
Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma sensivel, que está de certo um pouquito agastada com o capitulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma sensivel, eu não sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado em que se deram peças de todo o genero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comedia louçã, a desgrenhada farça, os autos, as bufonerias, um pandemonium, alma sensivel, uma barafunda de cousas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna até a arruda do teu quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos de varia casta e feição. Não havia alli a atmosphera sómente da aguia e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,—que isso ás vezes é dos oculos,—e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
CAPITULO XXXV
O caminho de damasco
Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz mysteriosa, que me sussurrou as palavras da Escriptura (Act., IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devéras, e desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não ha duvidar que ella o achou e m'o disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo.—Adeus, suspirou ella estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem.—E como eu nada dissesse, continuou:—Faz bem em fugir ao ridiculo de casar commigo. Ia dizer-lhe que não; ella retirou-se lentamente, engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou sem dizer nada.
—Acredita-me? perguntei eu no fim.
—Não; e digo-lhe que faz bem.
Quiz retel-a, mas o olhar que me lançou não foi já de supplica, senão de imperio. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pae, que era conveniente abraçar a carreira politica... que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavallo...
CAPITULO XXXVI
A proposito de botas
Meu pae, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento.—Agora é devéras? disse elle. Posso emfim....?
Deixei-o nessa reticencia, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez alliviado, respirei á larga, e deitei-me a fio comprido, emquanto os pés, e todo eu atraz delles, entravamos n'uma relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta idéa me trabalhava no famoso trapezio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu coração não tardaria tambem a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e incoercivel momento de gozo, que succede a uma dôr pungente, a uma preoccupação, a um incommodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos phenomenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a occasião de comer, e não inventou os callos, senão porque elles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu, minha Eugenia, é que não as descalçaste nunca; foste ahi pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, até que vieste tambem para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existencia era muito necessaria ao seculo. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragedia humana.
CAPITULO XXXVII
Emfim
Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir á casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pae se havia algum ajuste prévio de casamento.
—Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o fará. Quanto á noiva, é o nome que dou a uma creaturinha, que é uma joia, uma flôr, uma estrella, uma cousa rara... é a filha delle; imaginei que, se casasses com ella, mais depressa serias deputado.
—Só isto?
—Só isto.
Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á mulher,—uma estimavel senhora,—e á filha, que não desmentiu em nada o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII. Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez estavamos intimos.
CAPITULO XXXVIII
A quarta edição
—Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.
Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á mão; era um cubiculo,—pouco mais,—empoeirado e escuro.
Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era Marcella.
Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.
—Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão.
Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a amára outr'ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco buscada a loja—talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em dizer-ll'a; não era longa, nem interessante.
—Casou? disse Marcella no fim de minha narração.
—Ainda não, respondi seccamente.
Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr'ora, como hoje, ardia nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh'a; eram olhos da primeira edição.
—Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo daquella especie de torpor.
—Não, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.
Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa. Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me daria finas joias por preços baratos. Não disse preços baratos, mas usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que me disseram depois.
CAPITULO XXXIX
O visinho
Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexão, entrou na loja um sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mão uma menina de quatro annos.
—Como passou de hoje de manhã? disse elle a Marcella.
—Assim, assim. Vem cá, Maricota.
O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do balcão.
—Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava anciosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vestil-a... Então, Maricota? Toma a benção. .. Olha a vara de marmelo! Assim... Não imagina o que ella é lá em casa; falla na senhora a todos os instantes, e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem... Digo, Maricota?
—Não, diga, não, papae.
—Então foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da menina.
—Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem veiu pedir-me com voz muito humilde... imagine o que?... que queria offerecel-os a Santa Marcella.
—Coitadinha! disse Marcella beijando-a.
—É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina ... A mãe diz que é feitiço...
Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, até que saíu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle.
—É um relojoeiro de visinhança, um bom homem; a mulher tambem; e a filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente.
Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...
CAPITULO XL
Na sege
Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo; já me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse a Marcella que voltaria n'outra occasião, e saí a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impressões oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao almoço, repetiu-me, por anticipação, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem, que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. Vae se não quando, cáe-me o vidro do relogio; entro na primeira loja que me fica á mão; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas...
Lá o deixei; metti-me ás pressas na sege, que me esperava no largo do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fóra. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não ha, ás vezes, um certo vento, morno que não bochorno, não forte nem aspero, mas abafadiço, que nos não leva o chapéo da cabeça, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia é ou parece ser peior do que se fizesse uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o presente, almejava por saír á planicie do futuro. O peior é que a sege não andava.
—João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?
—Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.
CAPITULO XLI
A allucinação
E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim dos comprimentos disse-me a moça com sequidão:
—Esperavamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moça? Fitei-a muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle, ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella, stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.
Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus proprios pés. Devia, saír ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto della algum vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.
—Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistencia.
—Tão bonita, nunca.
Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica.
Havia alguma affectação naquelle desdem; era um arrebique do gesto. Lá dentro, ella padecia, e não pouco,—ou fosse magua pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dóe mais, é mui provavel que Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é metaphysica.
CAPITULO XLII
Que escapou a Aristoteles
Outra cousa que tambem me parece metaphysica é isto:—Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; róla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. Supponhamos que a primeira bola se chama... Marcella,—é uma simples supposição; a segunda, Braz Cubas;—a terceira, Virgilia. Temos que Marcella, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Braz Cubas,—o qual, cedendo á força impulsiva, entrou a rolar tambem até esbarrar em Virgilia, que não tinha nada com a primeira bola; e eis ahi como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar—solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capitulo escapou a Aristoteles?
CAPITULO XLIII
Marqueza, porque eu serei marquez
Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se querem, mas era-o, e então...
E então appareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria elle ministro.
—Pela minha vontade, ja; pela dos outros, daqui a um anno.
Virgilia replicou:
—Promette que algum dia me fará baroneza?
—Marqueza, porque eu serei marquez.
Desde então fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavão, e elegeu a aguia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem não é como a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; é justamente o contrario.
CAPITULO XLIV
Um Cubas!
Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhára, tantos e tantissimos os sonhos, que não podia vel-os assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A principio não quiz crel-o. Um Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a voluvel dama, para só contemplar aquelle phenomeno, não raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciencia.
—Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manhã, ao almoço.
Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.
Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,—acabrunhado, triste, com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe,—lembra-me bem,—vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia.
—Um Cubas!
Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de morrer, morreu.
—Um Cubas!
CAPITULO XLV
Notas
Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'agua benta, o fechar do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario, eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta do sol; porquanto:—a) a natureza não inventou a morte, senão com o fim de dar vida a algumas industrias,—armadores, segeiros, emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente previu;—b) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana, não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não escrevo.
CAPITULO XLVI
A herança
Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,—minha irmã sentada n'um sophá,—pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,—eu a passeiar de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo silencio.
—Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco...
—Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito...
—Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos, quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?
—Não fale nisso! Uma casa velha.
—Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto.
—Parece-lhe nova, aposto?
—Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo...
—O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar outro.
—Bem; fico com o Paulo e o Prudencio.
—O Prudencio está livre.
—Livre?
—Ha dois annos.
—Livre? Como seu pae arranjava estas cousas cá por casa, sem dar parte a ninguem! Está direito. Quanto á prata... creio que não libertou a prata?
Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I, a porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisavô Luiz Cubas.
—Quanto á prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ella; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Você é solteiro, não recebe, não...
—Mas posso casar.
—Para que? interrompeu Sabina.
Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de acquiescencia, e agradeceu-m'o.
—Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo.
—Nem cede?
Abanei a cabeça.
—Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta.
—Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro officio!
Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo. Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,—e depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.
—Isso nunca! não faço esmolas! disse elle.
Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda presenciou uma pequena altercação.
—Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.
Mas o Cotrim:
—Creio, creio. A questão, porem, não é de pão, é de manteiga. Pão secco é que eu não engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estavamos brigados. E digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos tão amigos! Jogos pueris, furias de criança, risos e tristezas da edade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miseria, irmãmente, como bons irmãos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas.
CAPITULO XLVII
O recluso
Marcella, Sabina, Virgilia... ahi estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos de ser da minha affeição interior. Penna de máus costumes, ata uma gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de meu pae até 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou da Z. ou da U.—que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua elegante abjecção. Mas, se além do aroma, quizeres outra cousa, fica-te com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memorias; a mesma commoção esvaiu-se, e só me ficaram as lettras iniciaes.
Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro, ou palestra, mas a mór parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora boliçoso, ora apathico, entre a ambição e o desanimo. Escrevia politica e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas, e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgilia, futura marqueza, perguntava a mim mesmo porque não seria melhor deputado e melhor marquez do que o Lobo Neves,—eu, que valia mais, muito mais do que elle,—e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...
CAPITULO XLVIII
Um primo de Virgilia
—Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz Dutra.
O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas forças e arremettia juvenilmente ao trabalho.
Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa, e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu falava-lhe de mil cousas differentes,—do ultimo baile do Cattete, da discussão das camaras, de berlindas e cavallos,—de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação, depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz...
CAPITULO XLIX
A ponta do nariz
Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,—e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação.
Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra, dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.
Ouço daqui uma objecção do leitor:—Como pode ser assim, diz elle, se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu proprio nariz?
Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus; é a loja de um rival, que a abriu ha dois annos; tinha então duas portas, hoje tem quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapeus do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro compara aquella loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas, e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual preço. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz.
A conclusão, portanto, é que ha duas forças capitaes: o amor, que multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo. Procreação, equilibrio.
CAPITULO L
Virgilia casada
—Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo Neves, continuou o Luiz Dutra.
—Ah!
—E só hoje é que eu soube uma cousa, seu maganão...
—Que foi?
—Que você quiz casar com ella.
—Idéas de meu pae. Quem lhe disse isso?
—Ella mesma. Falei-lhe muito em você, e ella então contou-me tudo.
No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, á porta da typographia do Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejámo-nos; ella seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu fiquei attonito.
Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegámos a trocar duas ou tres palavras. Mas n'outro baile, dado dahi a um mez, em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, porque conversámos e valsámos. A valsa é uma deliciosa cousa. Valsámos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e magnifico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.
—Está muito calor, disse ella, logo que acabámos. Vamos ao terraço?
—Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala.
Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos, ácerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia dos litterarios, por não entender delles; mas os politicos eram excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes esmeros de cortezia, e separámos-nos contentes um do outro.
Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunião intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:—O senhor hoje ha de valsar commigo.—Na verdade, eu tinha fama e era valsista emerito; não admira que ella me preferisse. Valsámos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ella deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçal-a, e todos com os olhos em nós, e nos outros que tambem se abraçavam e giravam...Um delirio.
CAPITULO LI
É minha!
—É minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a idéa entranhando no espirito, não á força de martello, mas de verruma, que é mais insinuativa.
—É minha! dizia eu ao chegar á porta de casa.
Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me no chão uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia-dobra.
—É minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso.
Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repellões da consciencia, e uma voz que me perguntava porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas sómente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operario que não teria com que dar de comer á mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvel-o ás mãos do verdadeiro dono.
Mandei a carta e almocei tranquillo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciencia valsára tanto na vespera, que chegou a ficar suffocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou á larga. Ventilae as consciencias! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ella me dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta.
—Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsamico, e uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?
E a boa dama sacou um espelho e abriu-m'o deante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida, multiplicando-se por si mesma,—ser dez—depois trinta—depois quinhentas,—exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e na morte o simples acto da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um poucochinho mais.
Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada é abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a consciencia. Talvez não entendas o que ahi fica; talvez queiras uma cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso. Pois toma lá o embrulho mysterioso.
CAPITULO LII
O embrulho mysterioso
Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam,—um pescador curava as redes ainda mais longe,—ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.
Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco adeante, desandei o caminho e guiei para casa.
—Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.
E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco contos,—eu, que era abastado.
Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves, que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado; elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.
De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos beneficios da Providencia.
—Estes cinco contos, dizia eu commigo, tres semanas depois, hei de empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra cousa assim... hei de ver...
Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. Lá me receberam com muitas e delicadas allusões ao caso de meia dobra, cuja noticia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modestia,—e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era simplesmente grande.
CAPITULO LIII
..........
Virgilia é que já se não lembrava da meia dobra; toda ella estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento;—era o que dizia, e era verdade.
Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante creatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo que ella me deu, tremula,—coitadinha,—tremula de medo, porque era ao portão da chacara, á vista das estrellas,—das castas estrellas de Othello,—you chaste stars! Uniu-nos esse beijo unico,—breve como a occasião, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflicções que desabrochavam em alegria,—uma hypocrisia paciente e systematica, unico freio de uma paixão sem freio,—vida de agitações, de coleras, de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava á farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar á tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquelle prologo.
CAPITULO LIV
A pendula
Saí dalli a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito mal; esse tic-tac soturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as moedas da vida para dal-as á morte, e a contal-as assim:
—Outra de menos...
—Outra de menos...
—Outra de menos...
—Outra de menos...
O mais singular é que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para que elle não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções ha, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relogio é definitivo e perpetuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre.
Naquella noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As phantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, á semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fóra e bateu as azas na direcção da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Adão e Eva.
CAPITULO LV
O velho dialogo de Adão e Eva
BRAZ CUBAS
. . . . ?
VIRGILIA
. .
BRAZ CUBAS
. . . . . . . . .
. . .
VIRGILIA
. . . !
BRAZ CUBAS
. .
VIRGILIA
. . . . . . . . . . . . . . ? . . . . . . . . . . . . . . . . .
BRAZ CUBAS
. . . . . .
VIRGILIA
. . . .
BRAZ CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !
VIRGILIA
. . . . . . . . . . . . .?
BRAZ CUBAS
. . . . .!
VIRGILIA
. . . . .!
CAPITULO LVI
O momento opportuno
Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta differença? Um dia vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza de Virgilia chegára, é certo, a um alto gráu de apuro, mas nós eramos substancialmente os mesmos, e eu, á minha parte, não me tornára mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa differença?
A razão não podia ser outra senão o momento opportuno. Não era opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estavamos para o nosso amor: distincção fundamental. Não ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava.
—Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva.
Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então occorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e comprehendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de importuno a opportuno.
CAPITULO LVII
Destino
Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam, agora é que nos amavamos devéras. Achavamo-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio:
Di pari, come buoi, che vanno a giogo;
e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós eramos outra especie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber até onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negocios humanos? Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossivel que... Já me não lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu commigo que já agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgilia cingiu-me com os seus magnificos braços, murmurando:
—Amo-te, é a vontade do céu.
E esta palavra não vinha á toa; Virgilia era um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia ás igrejas em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha medo ás trovoadas; nessas occasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as orações do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho de jacarandá, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens dentro; mas não falava delle ás amigas; ao contrario, taxava de beatas as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo vexame de crer, e que a sua religião era uma especie de camisa de flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.
CAPITULO LVIII
Confidencia
O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illusão! Como adorasse a mulher, não se vexava de m'o dizer muitas vezes; achava que Virgilia era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle ouviu com aquella uncção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer; então comprehendi que a ambição delle andava cançada de bater as azas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma crise de melancolia; tratei de combatel-a.
—Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não póde imaginar o que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem á vida publica; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o theatro pelo lado da platéa; e, palavra, que era bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graça na representação. Escripturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho passado horas e dias... Não ha constancia de sentimentos, não ha gratidão, não ha nada... nada... nada...
Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não ouvir cousa nenhuma, a não ser o echo de seus proprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão:—O senhor ha de rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste; depois pediu-me que não referisse a ninguem o que se passara entre nós; ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dous deputados e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria, a principio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguem diria que elle não era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.
CAPITULO LIX
Um encontro
Deve ser um vinho bem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de collegio. Cortejámo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando... andando... andando....
—Porque não serei eu ministro?
Esta idéa, rútila e grande,—trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes,—esta idéa começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nella, a achar-lhe graça. E não pensei mais na tristeza de Lobo Neves; senti a attracção do abysmo. Recordei aquelle companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo porque não seria eu como elle. Entrava então no Passeio Publico; e tudo me parecia dizer a mesma cousa.—Porque não serás ministro, Cubas?—Cubas, porque não serás ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma deliciosa sensação me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me n'um banco, a cavar commigo aquella idéa. E Virgilia que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d'onde fosse.
Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta annos, alto, magro e pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro de Babylonia; o chapéu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,—ou, litteralmente, os ossos da pessoa; a côr preta ia cedendo o passo a um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito primitivos botões restavam tres. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo tacão de um botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoço fluctuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.
—Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle.
—Não me lembra...
—Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, tão intelligente e abastado. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode ser. Não podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo; e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparação acabrunhava.
—Não é preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha tudo. Uma vida de miserias, de attribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo...
E alçando a mão direita e os hombros, com um ar de indifferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassivel. Não havia nelle a resignação christã, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe callejàra a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os andrajos, como outr'ora a purpura: com certa graça indolente.
—Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.
Um sorriso magnifico lhe abriu os labios.—Não é o primeiro que me promette alguma cousa, replicou; e não sei se será o ultimo que não me fará nada. E para que? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessario comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vintens de angú, nem isso fiam as malditas quitandeiras.... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo.... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.
—Não?
—Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degráu das escadas de S. Francisco, á esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não comi...
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis,—a menos limpa,—e dei-lh'a. Elle recebeu-m'a com os olhos scintillantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado.
—In hoc signo vinces! bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento mixto de nôjo e lastima. Elle, que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil réis.
—Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
—Sim? acudiu elle, dando um bote para mim.
—Trabalhando, conclui eu.
Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjecção tão comica e tão triste, e preparei-me para sair.
—Não vá sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle, escarranchando-se diante de mim.
CAPITULO LX
O abraço
Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça, uns pruridos de posse.
—Magnifico! disse elle.
Depois começou a andar á roda de mim e a examinar-me muito.
—O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e... Compare esses sapatos aos meus; que differença! Podera não! Digo-lhe que se trata. E moças? Como vão ellas? Está casado?
—Não...
—Nem eu.
—Móro na rua...
—Não quero saber onde móra, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo que está impaciente.
—Adeus!
—E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?
E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora, entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo...
—Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.
Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba furtára-m'o no abraço.
CAPITULO LXI
Um projecto
Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa, para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.
Saí de casa, mas era cedo; iria achal-os á mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba, e tive então um desejo de tornar ao Passeio Publico, a ver se o achava; a idéa de o regenerar surgiu-me como uma forte necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que effectivamente «esse sujeito» ia por alli ás vezes.
—A que horas?
—Não tem hora certa.
Não era impossivel encontral-o n'outra occasião; prometti a mim mesmo lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessôa enchia-me o coração; eu começava a sentir um bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim proprio... Nisto caía a noite; fui ter com Virgilia.
CAPITULO LXII
O travesseiro
Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido, aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem pesadas as cousas, não era outra a razão da existencia de Virgilia; não podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação mutua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrofula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?
CAPITULO LXIII
Fujamos!
Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo á casa de Virgilia,—eram quatro horas da tarde,—achei-a triste e abatida. Não me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito:
—Creio que o Damião desconfia alguma cousa. Noto agora umas exquisitices nelle... Não sei... Trata-me bem, não ha duvida; mas o olhar parece que não é o mesmo. Durmo mal; ainda esta noite acordei, aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illusão, mas eu penso que elle desconfia...
Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos. Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a chacara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhára o binoculo da imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéa embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, não haveria mais do que penetrar naquella habitação dos anjos.
—Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa.
—Que é?
—Amas-me?
—Oh! suspirou ella, cingindo-me os braços ao pescoço.
Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente. Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando muito, deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam uma sensação singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte. A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que não possuira antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas não apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas, e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquella occasião, em que exprimia mudamente tudo quanto póde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem.
—De que?
—De fugir. Iremos para onde nos fôr mais commodo, uma casa grande ou pequena, á tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ninguem nos aborreça, e não haja perigos para ti, onde vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle póde descobrir alguma cousa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta... e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te.
Interrompi-me; Virgilia empallidecêra muito, deixou cair os braços e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer palavra, não sei se vacillante na escolha, se aterrada com a idéa da descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores, nem afflicções. Virgilia ouvia-me calada; depois disse:
—Não escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo modo.
Mostrei-lhe que não. O mundo era assás vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle não chegaria até lá; só as grandes paixões são capazes de grandes acções, e elle não a amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia fez um gesto de espanto e quasi indignação; murmurou que o marido gostava muito della.
—Póde ser, respondi eu; póde ser que sim...
E fui até a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli á mão... Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. Não tremas assim, leitora pallida; descança, que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos.
—Está cá ha muito tempo? disse-me elle.
—Não.
Entrára serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido, costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expansão de jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonhô, o futuro bacharel do cap. VIII; tomou-o nos braços, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes. Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou á sala.
—Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sophá.
—Cançado? perguntei eu.
—Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher..
—Que é? perguntou Virgilia.
—Um... Adivinha!
Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n'uma das mãos, compoz-lhe a gravata, e tornou a perguntar o que era.
—Nada menos que um camarote.
—Para a Candiani?
—Para a Candiani.
Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa, acerca da toilette que faria, da opera que se cantava, e de não sei que outras cousas.
—Você janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves.
—Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possue o melhor vinho do Rio de Janeiro.
—Nem por isso bebe muito.
Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado, fiquei urn pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia. Não olhei uma só vez para ella durante o jantar; falei de politica, da imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse, ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e dignidade, e até com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me apenas nos levantámos da mesa.
—Até logo, não? perguntou o Lobo Neves.
—Póde ser.
E saí.
CAPITULO LXIV
A transacção
Vaguei pelas ruas e recolhi-me ás nove horas. Não podendo dormir, atirei-me a ler e escrever. Ás onze horas estava arrependido de não ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e saír. Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza. Evidentemente, Virgilia começava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta idéa fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a esquecel-a e a matal-a. Via-a d'alli mesmo, reclinada no camarote, com os seus magnificos braços nús,—os braços que eram meus, só meus,—fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bandós, á maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della... Via-a assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despil-a, a pôr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mãos sofregas e lascivas, a tornal-a,—não sei se mais bella, se mais natural,—a tornal-a minha, sómente minha, unicamente minha.
No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo á casa de Virgilia; achei-a com os olhos vermelhos de chorar.
—Que houve? perguntei.
—Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi?
—Que foi o que? Creio que não houve nada.
—Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...
A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lagrimas rebentaram-lhe dos olhos.
—Acabou, acabou, disse eu.
Não tive animo de arguir, e, aliás, arguil-a de que? Não era culpa della se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera cousa nenhuma, que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito de dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e ás dissensões era aceitar a minha idéa da vespera.
—Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha só nossa, solitaria, mettida n'um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a idéa boa; mas para que fugir?
Disse isto com o tom ingenuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de candidez. Então, afastando-me, respondi:
—Você é que nunca me teve amor.
—Eu?
—Sim, é uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma egoista sem nome!
Virgilia desatou a chorar, e para não attrahir gente, mettia o lenço na boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguem a ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos, susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o perigo; o terror apaziguou-a.
—Não posso, disse ella dahi a alguns instantes; não deixo meu filho; se o levar, estou certa de que elle me irá buscar ao fim do mundo. Não posso; mate-me você, se o quizer, ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus! meu Deus!
—Socegue; olhe que podem ouvil-a.
—Que ouçam! Não me importa.
Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos ambos; minutos depois, tornavamos ao assumpto da casinha solitaria, em alguma rua escusa...
CAPITULO LXV
Olheiros e escutas
Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos.
—Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o melhor é não receber.
—Já se apeou? perguntou Virgilia ao escravo.
—Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!
—Que entre!
A baroneza entrou dahi a pouco. Não sei se contava commigo na sala; mas era impossivel mostrar maior alvoroço.
—Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que não apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me não o ver no theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia hontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que é peor. Mas porque é que o senhor não foi hontem ao theatro?
—Uma enxaqueca.
—Qual! Algum namoro; não acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta annos... ou perto disso... Não tem quarenta annos?
—Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença, vou consultar a certidão de baptismo.
—Vá, vá... E estendendo-me a mão:—Até quando? Sabbado ficamos em casa; o barão está com umas saudades suas...
Chegando á rua, arrependi-me de ter saído. A baroneza era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cincoenta e cinco annos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuia a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ella olhava só, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de olhar ás vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras; mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio, remexendo a alma e a vida dos outros.
A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo teimoso, de uma asthma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. Virgilia, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro.
Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto, desarmava á força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome á pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não ha duvida que o Luiz Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que elle nos não denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras, vários gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim da condição servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a tactica e maciez das cobras.