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Memorias Posthumas de Braz Cubas

MACHADO DE ASSIS (continued 3)

Reading edition

CAPITULO LXVI

As pernas

Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei á porta do hotel Pharoux. De costume jantava ahi; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da acção me cabe, e sim ás pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigaveis, quando não podieis ir além de certo ponto, e me deixaveis com o desejo a avoaçar, á semelhança de gallinha atada pelos pés.

Aquelle caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes á minha cabeça o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes uma á outra:—Elle precisa comer, são horas de jantar, vamos levai-o ao Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que elle vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes á risca o vosso proposito, amaveis pernas, o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina.

CAPITULO LXVII

A casinha

Jantei e fui á casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandára o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas côr de rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:

«Meu B...

«Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz

«V...a»

Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri á casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janella, contou-me o que se passára com a baroneza. A baroneza disse-lhe francamente que se falára muito, no theatro, na noite anterior, a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham commentado as minhas relações na casa; em suma, eramos objecto da suspeita publica. Conclui dizendo que não sabia o que fazer.

—O melhor é fugirmos, insinuei.

—Nunca, respondeu ella abanando a cabeça.

Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração publica. Virgilia era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as vantagens; e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa semelhante a despeito; mas as comoções daquelles dous dias eram já muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.

Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janellas na frente e duas de cada lado,—todas com venezianas côr de tijolo,—trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solidão. Um brinco!

Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia, em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente o resto.

Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;—dalli para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros, sem escutas,—um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só affeição,—a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das que me eram contrarias.

CAPITULO LXVIII

O vergalho

Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas unicas palavras:

—«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.

—Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado!

—Meu senhor! gemia o outro.

—Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei... Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudencio,—o que meu pae libertára alguns annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a benção; perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle.

—E, sim, nhonhô.

—Fez-te alguma cousa?

—É um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e elle deixou a quitanda para ir na venda beber.

—Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

—Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bebado!

Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria materia para um bom capitulo, e talvez alegre. Eu gósto dos capitulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de se desfazer das pancadas recebidas,—transmittindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; elle gemia e soffria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que elle se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!

CAPITULO LXIX

Um grão de sandice

Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa maneira de a explicar.

—Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer Tartaros.

Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.

CAPITULO LXX

D. Placida

Voltemos á casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas.

E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos espaços, como uma lancha de naufragos, que vae dar á costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que soffreu um casal de peccados. Amanhã pode lá dormir um ecclesiastico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de terra, que lhes deu algumas illusões.

Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e dispol-as com a intuição esthetica da mulher elegante; eu levei para lá alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa.

Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejára a intenção, e doia-lhe o officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, séria, carrancuda, ás vezes triste. Eu queria angarial-a, e não me dava por offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevolencia, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e não sei que outros toques de novella. D. Placida não rejeitou uma só pagina da novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida era minha sogra.

Não fui ingrato; fiz-lhe um peculio de cinco contos,—os cinco contos achados em Botafogo,—como um pão para a velhice. D. Placida agradeceu-me com lagrimas nos olhos; e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, deante de uma imagem da Virgem, que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.

CAPITULO LXXI

O senão do livro

Começo a arrepender-me deste livro. Não que elle me cance; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capitulos para esse mundo sempre é tarefa que distráe um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadaverica; vicio grave, e aliás infimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estylo regular e fluente, e este livro e o meu estylo são como os ebrios, guinam á direita e á esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o ceu, escorregam e cáem...

E cáem!—Folhas miserrimas do meu cypreste, heis de cair, como quaesquer outras bellas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-hia uma lagrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que se não deixa boca para rir, tambem não deixa olhos para chorar... Heis de cair. Turvo é o ar que respiraes, amadas folhas. O sol que vos allumia, com ser de toda a gente, é um sol opaco e reles, de cemiterio e carnaval.

CAPITULO LXXII

O bibliomano

Talvez supprima o capitulo anterior; entre outros motivos, ha ahi, nas ultimas linhas, uma phrase muito parecida com desproposito, e eu não quero dar pasto á critica do futuro.

Olhae: daqui a setenta annos, um sugeito magro, amarello, grisalho, que não ama nenhuma outra cousa além dos livros, inclina-se sobre a pagina anterior, a ver se lhe descobre o desproposito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, sacca uma syllaba, depois outra, mais outra, e as restantes, examina-as por dentro e por fóra, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica sempre o mesmo desproposito.

É um bibliomano. Não conhece o autor; este nome de Braz Cubas não vem nos seus diccionarios biographicos. Achou o volume, por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, pesquizou, esgaravatou, e veiu a descobrir que era um exemplar, unico... Unico! Vós, que não só amaes os livros, senão que padeceis a mania delles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhaes, portanto, as delicias de meu bibliomano. Elle regeitaria a corôa das Indias, o papado, todos os muzeus da Italia e da Hollanda, se os houvesse de trocar por esse unico exemplar; e não porque seja o das minhas Memorias; faria a mesma cousa com o Almanak de Laemmert, uma vez que fosse unico.

O peor é o desproposito. Lá continúa o homem inclinado sobre a pagina, com uma lente no olho direito, todo entregue á nobre e aspera funcção de decifrar o desproposito. Já prometteu a si mesmo escrever uma breve memoria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquella phrase obscura. Ao cabo, não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se á janella e mostra-o ao sol. Um exemplar unico! Nesse momento passa-lhe por baixo da janella um Cesar ou um Cromwell, a caminho do poder. Elle dá de hombros, fecha a janella, estira-se na rede e folhea o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar unico!

CAPITULO LXXIII

O lunch

O desproposito fez-me perder outro capitulo. Que melhor não era dizer as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu estylo ao andar dos ebrios. Se a idéa vos parece indecorosa, direi que elle é o que eram as minhas refeições com Virgilia, na casinha da Gamboa, onde ás vezes faziamos a nossa patuscada, o nosso lunch. Vinho, fructas, compotas. Comiamos, é verdade, mas era um comer virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices, uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o ininterrupto discurso do amor. Ás vezes vinha o arrufo temperar o nimio adocicado da situação. Ella deixava-me, refugiava-se n'um canto do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de D. Placida. Cinco ou dez minutos depois, reatavamos a palestra, como eu reato a narração, para desatal-a outra vez. Note-se que, longe de termos horror ao methodo, era nosso costume convidal-o, na pessoa de D. Placida, a sentar-se comnosco á meza; mas D. Placida não aceitava nunca.

—Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgilia.

—Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o tecto. Não gosto de Yayá! Mas então de quem é que eu gostaria neste mundo?

E, pegando-lhe nas mãos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até molharem-se-lhe os olhos, de tão fixo que era. Virgilia acariciou-a muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.

CAPITULO LXXIV

Historia de D. Placida

Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidencia de D. Placida, e conseguintemente este capitulo. Dias depois, como eu a achasse só em casa, travámos palestra, e ella contou-me em breves termos a sua historia. Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fóra. Perdeu o pae aos dez annos. Já então ralava côco e fazia não sei que outros misteres de doceira, compativeis com a edade. Aos quinze ou dezeseis casou com um alfaiate, que morreu tisico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viuva, com pouco mais de vinte annos, ficaram a seu cargo a filha, com dous, e a mãe, cançada de trabalhar. Tinha de sustentar a tres pessoas. Fazia doces, que era o seu officio, mas cosia tambem, de dia e de noite, com affinco, para tres ou quatro lojas, e ensinava algumas crianças do bairro, a dez tostões por mez. Com isto iam-se passando os annos, não a belleza, porque não a tivera nunca. Appareceram-lhe alguns namoros, propostas, seducções, a que resistia.

—Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ella, creia que me teria casado; mas ninguem queria casar commigo.

Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo, porém, mais delicado que os outros, D. Placida despediu-o do mesmo modo, e depois de o despedir chorou muito. Continuou a coser para fóra e a escumar os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos annos e da necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de emprestimo e de occasião, que lh'a pediam. E bradava:

—Queres ser melhor do eu? Não sei donde te vem essas fiducias de pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja á toa; não se come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Polycarpo da venda, coitado...Esperas algum fidalgo, não é?

D. Placida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum. Era genio. Queria ser casada. Sabia muito bem que a mãe o não fôra, e conhecia algumas que tinham só o seu moço dellas; mas era genio e queria ser casada. Não queria tambem que a filha fosse outra cousa. E trabalhava muito, queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candieiro, para comer e não cair. Emmagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscripção, e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze annos; mas era muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadocios que lhe rondavam a rotula. D. Placida vivia com immensos cuidados, levando-a comsigo, quando tinha de ir entregar costuras; e a gente das lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ella a levava para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam graçolas, faziam comprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro...

Interrompeu-se um instante, e continuou logo:

—Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber... Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha ninguem mais no mundo e estava quasi velha e doente. Foi por esse tempo que conheci a familia de Yayá; boa gente, que me deu que fazer, e até chegou a me dar casa. Estive lá muitos mezes, um anno, mais de um anno, aggregada, costurando. Saí quando Yayá casou. Depois vivi como Deus foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha.—Não se cria isto á toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria... Felizmente, Yayá me protegeu, e o senhor doutor tambem... Eu tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola...

Ao soltar a ultima phrase, D. Placida teve um calafrio. Depois, como se tornasse a si, pareceu attentar na inconveniencia daquella confissão ao amante de uma mulher casada, e começou a rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, «cheia de fiducias», como lhe dizia a mãe; enfim, cançada do meu silencio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a ponta do botim.

CAPITULO LXXV

Commigo

Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capitulo anterior, observo que é preciso lel-o para entender o que eu disse commigo, logo depois que D. Placida saiu da sala. O que eu disse foi isto:

—Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar a dama, que devia ser sua collaboradora na vida de D. Placida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ella gostou delle, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuncção de luxurias vadias brotou D. Placida. É de crer que D. Placida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:—Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe respondi riam:—Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, n'um momento de sympathia.

CAPITULO LXXVI

O estrume

Subito deu-me a consciencia um repellão; accusou-me de ter feito capitular a probidade de D. Placida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era, melhor que concubina; e eu tinha-a baixado a esse officio, á custa de obsequios e dinheiros. Foi o que me disse a consciencia; e eu fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ella accrescentou que eu me aproveitára da fascinação exercida por Virgilia sobre a ex-costureira, da gratidão desta, emfim da necessidade. Notou a resistencia de D. Placida, as lagrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silencios, os olhos baixos, e a minha arte em supportar tudo isso, até vencel-a. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e nervoso.

Concordei que assim era, mas alleguei que a velhice de D. Placida estava agora ao abrigo da mendicidade; era uma compensação. E raciocinei então que, se não fossem os meus amores, provavelmente D. Placida acabaria como tantas outras creaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vicio é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude, seja uma flor cheirosa e sã. A consciência concordou, e eu fui abrir a porta a Virgilia.

CAPITULO LXXVII

Entrevista

Virgilia entrou risonha e socegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era vel-a chegar, nos primeiros dias, envergonhada e tremula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida n'uma especie de manteu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no canapé, offegante, escarlate, com os olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra occasião a achei tão bella, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.

Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam no periodo chronometrico. A intensidade de amor era a mesma; a differença é que a chamma perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquillo e constante, como nos casamentos.

—Estou muito zangada com você, disse ella sentando-se.

—Porque?

—Porque não foi lá hontem, como me tinha dito. O Damião perguntou muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Porque é que não foi?

Com effeito, eu havia faltado á palavra que dera, e a culpa era toda de Virgilia, Questão de ciumes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevespera, em casa da baroneza, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois de lhe escutar as cortezanices, ao canto de uma janella. Estava tão alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum sobresalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta e as cortezanices. Veiu depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cançaço, e disse muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas occasiões, e eu ouvi-a quasi sem responder nada.

Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas emfim contei-lhe o motivo da minha ausencia... Não, eternas estrellas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma estupefacção visivel, tangivel, que senão podia negar, tal foi a primeira replica de Virgilia; abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura, que inteiramente me confundiu.

—Ora você!

E foi tirar o chapéo, lepida, jovial, como a menina que torna do collegio; depois veiu a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na testa, com um só dedo, a repetir;—Isto, isto;—e eu não tive remedio senão rir tambem, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganára.

CAPITULO LXXVIII

A presidencia

Certo dia, mezes depois, entrou o Lobo Neves em casa, dizendo que iria talvez occupar uma presidencia de provincia. Olhei para Virgilia, que empallideceu; elle, que a viu empallidecer, perguntou-lhe:

—A modo que não gostaste, Virgilia?

Virgilia abanou a cabeça.

—Não me agrada muito, foi a sua resposta.

Não se disse mais nada; mas de noite o Lobo Neves insistiu no projecto, um pouco mais resolutamente do que de tarde; e dous dias depois declarou á mulher que a presidencia era cousa definitiva. Virgilia não pôde dissimular a repugnancia que isto lhe causava. O marido respondia a tudo com as necessidades politicas. E accrescentava:

—Não posso recusar o que me pedem; é até conveniencia nossa, do nosso futuro, dos teus brazões, meu amor, porque eu prometti que serias marqueza, e nem baroneza estás. Dirás que sou ambicioso? Sou-o devéras, mas é preciso que me não ponhas um peso nas azas da ambição.

Virgilia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa da Gamboa, á minha espera; tinha dito tudo a D. Placida, que buscava consolal-a, como podia. Não fiquei menos abatido.

—Você hade ir comnosco, disse-me Virgilia.

—Está douda? Seria uma insensatez.

—Mas então...?

—Então, é preciso desfazer o projecto.

—É impossível.

—Já aceitou?

—Parece que sim.

Levantei-me, atirei o chapeu a uma cadeira, e entrei a passeiar de um lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei nada. Emfim, cheguei-me a Virgilia, que estava sentada, e travei-lhe da mão; D. Placida foi á janella.

—Nesta pequenina mão está toda a minha existencia, disse eu; voce é responsavel por ella; faça o que lhe parecer.

Virgilia teve um gesto afflictivo; eu fui encostar-me ao consolo fronteiro. Decorreram alguns instantes do silencio; ouviamos sómente o latir de um cão, e não sei se o rumor da agua, que morria na praia. Vendo que não falava, olhei para ella. Virgilia tinha os olhos no chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na attitude da suprema desesperança. N'outra occasião, por differente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés della, e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém, era preciso compellil-a ao esforço de si mesma, ao sacrificio, á responsabilidade da nossa vida commun, e conseguintemente desamparal-a, deixal-a, e saír; foi o que fiz.

—Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu.

Virgilia quiz agarrar-me, mas eu já estava fóra da porta. Cheguei a ouvir um proromper de lagrimas, e digo-lhes que estive a ponto de voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e saí.

CAPITULO LXXIX

Compromisso de gato

Não acabaria se houvesse de contar pelo miudo o que padeci nas primeiras horas. Vacillava entre um querer e um não querer, entre a piedade que me empuxava á casa de Virgilia e outro sentimento,—egoismo, supponhamos,—que me dizia:—Fica; deixa-a a sós com o problema, deixa-a que ella o resolverá no sentido do amor. Creio que essas duas forças tinham egual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. Ás rezes sentia um dentesinho de remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada sacrificar nem arriscar de mim proprio; e, quando ia a capitular, vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoista, e eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso do a ver, e receioso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solução.

Por fim interveiu um compromisso entre o egoismo e a piedade; eu iria vel-a em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer nada, á espera do effeito da minha intimação. Deste modo, poderia conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda um fórma de egoismo, e que a resolução de ir consolar Virgilia não passava de uma suggestão de meu proprio padecimento. Occorre-me a este proposito um naturalista,—não me lembra qual,—mas era um naturalista,—em quem li esta observação curiosa: «O gato não nos affaga, affaga-se em nós.» Vejo que eu fazia um compromisso de gato.

CAPITULO LXXX

Do secretario

Na noite seguinte fui effectivamente á casa do Lobo Neves; estavam ambos, Virgilia muito triste, elle muito jovial. Juro que ella sentiu certo allivio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de curiosidade e ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou expresso no capitulo anterior, in fine. O Lobo Neves contou-me os planos que levava para a presidencia, as difficuldades locaes, as esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado! Virgilia, ao pé da meza, fingia ler um livro, mas por cima da pagina olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.

—O peor, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei secretario.

—Não?

—Não, e tenho uma idéa.

—Ah!

—Uma idéa... Quer você dar um passeio ao norte? Não sei o que lhe disse.

—Você é rico, continuou elle, não precisa de um magro ordenado; mas se quizesse obsequiar-me, ia de secretario commigo.

Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente deante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento occulto... Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive animo de olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar della, que me pedia tambem a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um modo administrativo.

CAPITULO LXXXI

A reconciliação

E comtudo, ao sair de lá, tive umas sombras de duvida; cogitei se não ia expor insanamente a reputação de Virgilia, se não haveria outro meio razoavel de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia seguinte, ao levantar-mo da cama, trazia o espirito feito e resoluto a aceitar a nomeação. Ao meio dia, veiu o creado dizer-me que estava na sala uma senhora, coberta com um véo. Corro; era minha irmã Sabina.

—Isto não pode continuar assim, disse ella; é preciso que, de uma vez por todas, façamos as pazes. Nossa familia está acabando; não havemos de ficar como dous inimigos.

—Mas se eu não te peço outra cousa, mana! bradei eu estendendo-lhe os braços.

E sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negocios, de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido viria mostrar-m'a, se eu consentissse.

—Ora essa! irei eu mesmo vel-a.

—Sim?

—Palavra.

—Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.

Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte annos, e contava mais de trinta. Graciosa, affavel, nenhum acanhamento, nenhum resentimento. Olhavamos um para o outro, com as mãos seguras, falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era a minha infancia que resurgia, fresca, travessa e loura; os annos iam caindo, como as fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa familia, as nossas festas. Supportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da visinhança lembrou-se de zangarrear na classica rabeca, e essa voz,—porque até então a recordação era muda,—essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me commoveu, que...

Os olhos della estavam seccos. Sabina não herdára a flor amarella e morbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha mãe, e eu disse-lh'o com ternura, com sinceridade... Subito, ouço bater á porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco annos.

—Entra, Sára, disse Sabina.

Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a pequena, espantada, empurrava-me o hombro com a mãosinha, quebrando o corpo para descer... Nisto, apparece-me á porta um chapéu, e logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão commovido, que deixei a filha e lancei-me aos braços do pae. Talvez essa effusão o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples prologo. Dahi a pouco falavamos como bons amigos velhos. Nenhuma allusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em casa um do outro; e não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção, por que eu andava com idéas de uma viagem ao norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para Sabina; ambos concordaram que essas idéas não tinham senso commum. Que diacho podia eu achar no norte? Pois não era na côrte, em plena côrte, que devia continuar a luzir, a metter n'um chinello os rapazes do tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; elle, Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridicula, teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triumphos. Ouvia o que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns mezes na provincia, sem necessidade, sem motivo serio? A menos que não fosse politica...

—Justamente política, disse eu.

—Nem assim, replicou elle dahi a um instante—E depois de outro silencio:—Seja como for, venha jantar hoje comnosco.

—Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar commigo.

—Não sei, não sei, objectou Sabina; casa de homem solteiro... Você precisa casar, mano. Tambem eu quero uma sobrinha, ouviu?

O Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem. Não importa; a reconciliação de uma familia vale bem um gesto enigmatico.

CAPITULO LXXXII

Questão de botanica

Digam o que quizerem dizer os hypocondriacos: a vida é uma cousa doce. Foi o que eu pensei commigo, ao ver Sabina, o marido e a filha descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras affectuosas para cima, onde eu ficava—no patamar,—a dizer-lhes outras tantas para baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me uma mulher, tinha a confiança do marido, ia por secretario de ambos, e reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro horas?

Nesse mesmo dia, tratando de apparelhar os animos, comecei a espalhar que talvez fosse para o norte, como secretario de provincia, afim de realizar certos designios politicos, que me eram pessoaes. Disse-o na rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no theatro. Alguns, ligando a minha nomeação á do Lobo Neves, que já andava em boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no hombro. No theatro disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da esculptura. Referia-se ás bellas fórmas de Virgilia.

Mas a allusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, tres dias depois. Fel-a um certo Garcez, velho cirurgião, pequenino, trivial e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa annos, sem adquirir jamais aquella compostura austera, que é a gentileza do ancião. A velhice ridicula é, porventura, a mais triste e derradeira sorpresa da natureza humana.

—Já sei, desta vez vae ler Cicero, disse-me elle, ao saber da viagem.

—Cicero! exclamou Sabina.

—Pois então? Seu mano é um grande latinista. Traduz Virgilio de relance. Olhe que é Virgilio, e não Virgilia... não confunda...

E ria, de um riso grosso, rasteiro e frivolo. Sabina empallideceu e olhou para mim, receiosa de alguma replica; mas sorriu, quando me viu sorrir, e voltou o rosto para disfarçal-o. As outras pessoas olhavam-me com um ar de curiosidade, indulgencia e sympathia; era transparente que não acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava mais publico do que eu podia suppor. E entretanto sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso,—palreiro como as pegas de Cintra. Virgilia era um bello erro, e é tão facil confessar um bello erro! Costumava ficar carrancudo, a principio, quando ouvia alguma allusão aos nossos amores; mas, palavra de honra! sentia cá dentro uma impressão suave e linsongeira. Uma vez, porém, aconteceu-me sorrir, e continuei a fazel-o das outras vezes. Não sei se ha ahi algum Hobbes ou Spinoza, que explique o phenomeno. Eu explico-o assim: a principio, o contentamento, sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado; andando o tempo, desabotou-se em flor, e appareceu aos olhos do proximo. Simples questão de botanica.

CAPITULO LXXXIII

13

O Cotrim tirou-me daquelle gozo, levando-me á janella.—Você quer que lhe diga uma cousa? perguntou elle;—não faça essa viagem; é insensata, é perigosa.

—Porque?

—Você bem sabe porque, tornou elle: é, sobretudo, perigosa, muito perigosa. Aqui na côrte, um caso desses perde-se na multidão da gente e dos interesses; mas na provincia muda de figura; e tratando-se de personagens politicos, é realmente insensatez. As gazetas de opposição, logo que farejarem o negocio, passam a imprimil-o com todas as lettras, e ahi virão as chufas, os remoques, as alcunhas...

—Mas não entendo...

—Entende, entende; e, na verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso ha longos mezes. Repito, não faça semelhante viagem; supporte a ausencia, que é melhor, e evite algum grande escandalo e maior desgosto...

Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina,—um antigo lampião de azeite,—triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me á fortuna, ou lutar com ella e subjugal-a. Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão. O lampião não me dizia nada. As palavras do Cotrim resoavam-me aos ouvidos da memoria, de um modo bem diverso do das palavras do Garcez. Talvez o Cotrim tivesse razão: mas podia eu separar-me de Virgilia?

Sabina veiu ter commigo, e perguntou-me em que estava pensando. Respondi que em cousa nenhuma, que tinha somno e ia para casa. Sabina esteve um instante calada.—O que você precisa, sei eu; é uma noiva. Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para você. Saí de lá oppresso, desorientado. Tudo prompto para embarcar,—espirito e coração,—e eis ahi me surge esse porteiro das conveniencias, que me pede o cartão de ingresso. Dei ao diabo as conveniências, e com ellas a constituição, o corpo legislativo, o ministerio, tudo.

No dia seguinte, abro uma folha politica e leio a noticia de que, por decretos de 13, tínhamos sido nomeados presidente e secretario da provincia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi immediatamente a Virgilia, e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Placida! Estava cada vez mais afflicta; perguntou-me se esqueceriamos a nossa velha, se a ausencia era grande e se a provincia ficava longe. Consolei-a; mas eu proprio precisava de consolações; a objecção do Cotrim affligia-me profundamente. Virgilia chegou dahi a pouco, lepida como uma andorinha; mas, ao ver-me triste, ficou muito seria.

—Que aconteceu?

—Vacillo, disse eu; não sei se devo aceitar...

Virgilia deixou-se cair, no canapé, a rir.—Porque? disse ella.

—Não é conveniente, dá muito na vista...

—Mas nós já não vamos.

—Como assim?

Contou-me que o marido ia recusar a nomeação, e por motivo que só disse a ella, pedindo-lhe o maior segredo; não podia confessal-o a ninguem mais.—É pueril, observou elle, é ridiculo; mas em summa, é um motivo poderoso para mim. E referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse numero significava para elle uma recordação funebre. O pae morreu n'um dia 13, treze dias depois de um jantar, em que havia treze pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o n. 13. Et cætera. Era um algarismo fatidico. Não podia allegar semelhante cousa ao ministro; dir-lhe-hia que tinha razões particulares para não aceitar. Eu fiquei como ha de estar o leitor,—um pouco assombrado com esse sacrificio a um numero; mas, sendo elle ambicioso, o sacrificio devia ser sincero... E ficavamos. Para alguma cousa ha de servir a superstição dos homens.

CAPITULO LXXXIV

O conflicto

Numero fatidico, lembras-te que te abençoei muitas vezes? Assim tambem as virgens ruivas de Thebas deviam abençoar a egua, de ruiva crina, que as substituiu no sacrificio de Pelopidas,—uma donosa egua, que lá morreu, coberta de flores, sem que ninguem lhe désse nunca uma palavra de saudade. Pois dou-t'a eu, egua piedosa, não só pela morte havida, como porque, entre as donzellas escapas, não é impossivel que figurasse uma avó dos Cubas... Numero fatidico, tu foste a nossa salvação. Não me confessou o marido a causa da recusa; disse-me tambem que eram negocios particulares, e o rosto serio, convencido, com que eu o escutei, fez honra á dissimulação humana. Elle é que mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco, absorvia-se, mettia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e então conversava e ria muito, com estrepito e affectação. Opprimiam-n'o duas cousas,—a ambição, que um escrupulo desazára, e logo depois a duvida, e talvez o arrependimento,—mas um arrependimento, que viria outra vez, si se repetisse a hypothese, porque o fundo supersticioso existia. Duvidava da superstição, sem chegar a rejeital-a. Essa persistencia de um sentimento, que repugna ao mesmo individuo, era um phenomeno digno de alguma attenção. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Placida, quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar.

—Que tem isso? perguntava-lhe eu.

—Faz mal, era a sua resposta.

Isto somente, esta unica resposta, que valia para ella o livro dos sete sellos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação; e ella contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia a mesma cousa quando se falava de apontar uma estrella com o dedo; ahi sabia perfeitamente que era caso de crear uma verruga.

Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem não perde uma presidencia de provincia? Tolera-se uma superstição gratuita ou barata; é insupportavel a que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo Neves; com o accrescimo da duvida e do terror de haver sido ridiculo. E mais este outro accrescimo, que o ministro não acreditou nos motivos particulares; attribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos politicos, illusão complicada de algumas apparencias; tratou-o mal, communicou a desconfiança aos collegas; sobrevieram incidentes; emfim, com o tempo, o presidente resignatario foi para a opposição.

CAPITULO LXXXV

O cimo da montanha

Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade; eu entrei a amar Virgilia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ella. Assim, a presidencia não fez mais do que avivar a affeição primitiva; foi a droga de Malabar, com que tornámos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambem. Nos primeiros dias, depois daquelle incidente, folgavamos de imaginar a dôr da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de outro, á proporção que o mar, como uma toalha elastica, se fosse dilatando entre nós; e, semelhantes ás crianças, que se achegam ao regaço das mães, para fugir a uma simples careta, fugiamos do supposto perigo, apertando-nos com abraços.

—Minha boa Virgilia!

—Meu amor!

—Tu és minha, não?

—Tua, tua...

E assim reatámos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto maximo do nosso amor, o cimo da montanha, donde por algum tempo divisámos os valles de leste e de oeste, e por cima de nós o ceu tranquillo e azul. Repousado esse tempo, começámos a descer a encosta, com as mãos presas ou soltas, mas a descer, a descer...

CAPITULO LXXXVI

O mysterio

Serra abaixo, como eu a visse um pouco differente, não sei se abatida ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de enfado, de máu estar, de fadiga; ateimei, ella disse-me que... Um fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensação forte; rapida, singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza de zephyro e uma gravidade de Abrahão. Ella estremeceu, colheu-me a cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois affagou-me com um gesto maternal...Eis ahi um mysterio; deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mysterio.

CAPITULO LXXXVII

Geologia

Succedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou ahi de relance, n'um capitulo, com os seus setenta annos, abafados de asthma, desconjuntados de rheumatismo, e uma lesão de coração por quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgilia nutria grandes esperanças em que esse velho parente, avaro como um sepulchro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se o marido tinha eguaes pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os. Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental, uma camada de rocha, que resistia ao commercio dos homens. As outras, as camadas de cima, terra solta e arêa, levou-lh'as a vida, que é um enxurro perpetuo. Se o leitor ainda se lembra do cap. XXXIII, observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro; mas tambem ha de reparar que desta vez accrescento-lhe um adjectivo—perpetuo. E Deus sabe a força de um adjectivo, principalmente em paizes novos e cálidos.

O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves, e provavelmente a do cavalheiro, que me está lendo. Sim, essas camadas de caracter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a resistencia dellas, essas camadas mereceriam um capitulo, que eu não escrevo, por não alongar a narração. Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob Medeiros ou Jacob Valladares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacob Rodrigues; em summa, Jacob. Era a probidade mesma; podia ser rico, violentando um pequenino escapulo, e não quiz; deixou ir pelas mãos fóra nada menos de uns quatrocentos contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava a ser miuda e cançativa. Um dia, como nos achassemos, a sós, em casa delle, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um sujeito enfadonho. O Jacob mandou dizer que não estava em casa.

—Não péga, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.

E, com effeito, era o Dr. B., que appareceu logo á porta da sala. O Jacob foi recebel-o, affirmando que cuidava ser outra pessoa, e não elle, e accrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque o Jacob tirou o relogio; o Dr. B. pergutou-lhe então se ia sair.

—Com minha mulher, disse o Jacob.

Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao Jacob que elle acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas: a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, accrescentando que com a mulher. O Jacob reflectiu um instante, depois confessou a justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta era incompativel com um estado social adiantado, e que a paz das cidades só se podia obter á custa de embaçadellas reciprocas... Ah! lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares.

CAPITULO LXXXVIII

O enfermo

Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina, com os mais elementares argumentos; mas elle estava tão vexado do meu reparo, que resistiu até o fim, mostrando certo calor ficticio, talvez para atordoar a consciencia.

O caso de Virgilia tinha alguma gravidade mais. Ella era menos escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanças que trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortezias, attenções e affagos que poderiam render, pelo menos, um codicillo. Propriamente, adulava-o; mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma cousa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se com a affeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza physica dão á acção lisonjeira da mulher uma côr local, um aspecto legitimo. Não importa a edade do adulado; a mulher ha de ter sempre para elle uns ares de mãe ou de irmã,—ou ainda de enfermeira, outro officio feminil, em que o mais habil dos homens carecerá sempre de um quid, um fluido, alguma cousa.

Era o que eu pensava commigo, quando Virgilia se desfazia toda em affagos ao velho parente. Ella ia recebel-o á porta, falando e rindo, tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o até uma cadeira, ou até á cadeira, porque havia lá em casa a «cadeira do Viegas», obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã. Ia fechar a janella proxima, se havia alguma brisa, ou abril-a, se estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não désse um golpe de ar.

—Então? hoje está mais fortesinho...

—Qual! Passei mal a noite; o diabo da asthma não me deixa.

E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do cançaço da entrada e da subida, não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado, um pouco mais para a frente, sentava-se Virgilia, n'uma banquinha, com as mãos nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava á sala, sem os pulos do costume, mas discreto, meigo, serio. O Viegas gostava muito delle.

—Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, mettia uma na boca o dava outra ao pequeno. Pastilhas anti-asthmaticas. O pequeno dizia que eram muito boas.

Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas, Virgilia cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as pedras com a mão frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a passear na chacara, dando-lhe ella o braço, que elle nem sempre aceitava, por dizer-se rijo e capaz de andar uma legua. Iam, sentavam-se, tornavam a ir, a falar de cousas varias, ora de um negocio de familia, ora de uma bisbilhotice de alcova, ora emfim de uma casa que elle meditava construir, para residencia propria, casa de feitio moderno, porque a delle era das antigas, contemporanea de el-rei D. João VI, á maneira de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S. Christovão, com as suas grossas columnas na frente. Parecia-lhe que o casarão em que morava podia ser substituido, e já tinha encommendado o risco a um pedreiro de fama. Ah! então sim, então é que Virgilia chegaria a ver o que era um velho de gosto.

Falava, como se póde suppôr, lentamente e a custo, intervallado de uma arfagem incommoda para elle e para os outros. De quando em quando, vinha um accesso de tosse; curvo, gemendo, levava o lenço á boca, e investigava-o; passado o accesso, tornava ao plano da casa, que devia ter taes e taes quartos, um terraço, cocheira, um primor.

CAPITULO LXXXIX

In extremis

—Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ella uma vez. Coitado! não tem ninguem...

O Viegas caíra na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera justamente agora, e não podia fazer-lhe companhia. Virgilia ia lá de quando em quando. Eu aproveitei a circumstancia para passar todo aquelle dia ao pé della. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito; no intervallo dos accessos debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro. O sujeito offerecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O comprador instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas o Viegas não cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois mais dous, depois mais tres, emfim teve um forte accesso, que lhe tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito, arranjou-lhe os travesseiros, offereceu-lhe trinta e seis contos.

—Nunca! gemeu o enfermo.

E mandou buscar um maço de papeis á escrivaninha; não tendo forças para tirar a fita de borracha que prendia os papeis, pediu-me que os deslaçasse: fil-o. Eram as contas das despezas com a construcção da casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel da sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas das ferragens; custo do terreno. Elle abria-as, uma por uma, com a mão tremula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.

—Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça. Dobradiças francezas... Veja, é de graça, concluiu elle depois de lida a ultima conta.

—Pois bem... mas...

—Quarenta contos; não lhe dou por menos. Só os juros... faça a conta dos juros...

Vinham tossidas estas palavras, ás golfadas, ás syllabas, como se fossem migalhas de um pulmão desfeito. Nas orbitas fundas rolavam os olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob o lençol desenhava-se a estructura ossea do corpo, pontudo em dous lugares, nos joelhos e nos pés; a pelle amarellada, bamba, rugosa, revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão; uma carapuça de algodão branco cobria-lhe o craneo rapado pelo tempo.

—Então? disse o sujeito magro.

Fiz-lhe signal para que não insistisse, e elle calou-se por alguns instantes. O doente ficou a olhar para o tecto, calado, a arfar muito; Virgilia empallideceu, levantou-se, foi até á janella. Suspeitara a morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro contou uma anecdota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.

—Trinta e oito contos, disse elle.

—Am?... gemeu o enfermo.

O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa, se queria tomar um calice de vinho.

—Não... não... quar... quaren... quar... quar...

Teve um accesso de tosse, e foi o ultimo; dahi a pouco expirava elle, com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a disposição em que estava de offerecer os quarenta contos; mas era tarde.

CAPITULO XC

O velho colloquio de Adão e Caim

E nada. Nenhuma lembrança testamentaria, uma pastilha que fosse, com que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido. Nada. Virgilia tragou raivosa esse mallogro, e disse-m'o com certa cautela, não pela cousa em si, senão porque entendia com o filho, de quem sabia que eu não gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que não devia pensar mais em semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa, um cainho sem nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por exemplo.

Lá me escapou a decifração do mysterio, esse doce mysterio de algumas semanas antes, quando Virgilia me pareceu um pouco differente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preoccupação exclusiva daquelle tempo. Olhos do mundo, zelos do marido, morte do Viegas, nada me interessava por então, nem conflictos politicos, nem revoluções, nem terremotos, nem nada. En só pensava naquelle embryão anonymo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia: é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa voluptuosidade indefinivel, e não sei que assomos de orgulho. Sentia-me homem.

O melhor é que conversavamos os dous, o embryão e eu, falavamos de cousas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mãosinhas gordas, ou então traçava a beca de bacharel, porque elle havia de ser bacharel, e fazia um discurso na camara dos deputados. E o pae a ouvil-o de uma tribuna, com os olhos rasos de lagrimas. De bacharel passava outra vez á escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou então caía no berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no espirito uma edade, uma attitude; esse embryão tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos: elle mamava, elle escrevia, elle valsava, elle era o interminavel nos limites de um quarto de hora,—baby e deputado, collegial e pintalegrete. Ás vezes, ao pé de Virgilia, esquecia-me della e de tudo; Virgilia sacudia-me, reprochava-me o silencio, dizia que eu já lhe não queria nada. A verdade é que estava em dialogo com o embryão; era o velho colloquio de Adão e Caim, uma conversa sem palavras entre a vida e a vida, o mysterio e o mysterio.

CAPITULO XCI

Uma carta extraordinaria

Por esse tempo recebi uma carta extraordinaria, acompanhada de um objecto não menos extraordinario. Eis o que a carta dizia:

«Meu caro Braz Cubas.

«Ha tempos, no Passeio Publico, tomei-lhe de emprestimo um relogio. Tenho a satisfação de restituir-lh'o com esta carta. A differença é que não é o mesmo, porém outro, não digo superior, mas egual ao primeiro. Que voulez-vous, monseigneur,—como dizia Figaro,—c'est la misère. Muitas cousas se deram depois do nosso encontro; irei contal-as pelo miudo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago aquellas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau da escada de S. Francisco; finalmente, almóço.

«Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe um trabalho, fructo de longo estudo, um novo systema de philosophia, que não só explica e descreve a origem e a consummação das cousas, como faz dar um grande passo adeante de Zenon e Seneca, cujo stoicismo era um verdadeiro brinco de crianças ao pé da minha receita moral. É singularmente espantoso este meu systema; rectifica o espirito humano, supprime a dor, assegura a felicidade, e enche de immensa gloria o nosso paiz. Chamo-lhe humanitismo, de Humanitas, principio das cousas. Minha primeira idéa revelava uma grande enfatuação; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia menos. Verá, meu caro Braz Cubas, verá que é devéras um monumento; e se alguma cousa ha que possa fazer-me esquecer as amarguras da vida, é o gosto de haver emfim apanhado a verdade e a felicidade. Eil-as na minha mão essas duas esquivas; após tantos seculos de lutas, pesquizas, descobertas, systemas e quédas, eil-as nas mãos do homem. Até breve, meu caro Braz Cubas. Saudades do

Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.»

Li esta carta sem entendel-a. Vinha com ella uma boceta contendo um bonito relogio com as minhas iniciaes gravadas, e esta phrase: Lembrança do velho Quincas. Voltei á carta, reli-a com pausa, com attenção. A restituição do relogio excluia toda a idéa de burla; a lucidez, a serenidade, a convicção,—um pouco jactanciosa, é certo,—pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; ha cousas que se não podem rehaver integralmente; mas emfim a regeneração não era impossivel. Guardei a carta e o relogio, e esperei a philosophia.

CAPITULO XCII

Um homem extraordinario

Já agora acabo com as cousas extraordinarias. Vinha de guardar a carta e o relogio, quando me procurou um homem magro e meão, com um bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado com uma irmã do Cotrim, chegára poucos dias antes do norte, chamava-se Damasceno, e fizera a revolução de 1831. Foi elle mesmo que me disse isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de Janeiro, por desaccordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviram com elle. De resto, a revolução estava outra vez ás portas. Neste ponto, comquanto trouxesse as idéas politicas um pouco baralhadas, consegui organisar e formular o governo de suas preferencias: era um despotismo temperado,—não por cantigas, como dizem alhures,—mas por pennachos da guarda nacional. Só não pude alcançar se elle queria o despotismo de um, de tres, de trinta ou de tresentos. Opinava por varias cousas, entre outras, o desenvolvimento do trafico dos africanos e a expulsão dos inglezes. Gostava muito de theatro; logo que chegou foi ao theatro de S. Pedro, onde viu um drama soberbo, a Maria Joanna, e uma comedia muito interessante, Kettly, ou a volta á Suissa. Tambem gostara muito da Deperini, na Sapho, ou na Anna Bolena, não se lembrava bem. Mas a Candiani! sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o Ernani, que a filha delle cantava em casa, ao piano: Ernani, Ernani, involami...—E dizia isto levantando-se e cantarolando a meia voz.—No norte essas cousas chegavam como um echo. A filha morria por ouvir todas as operas. Tinha uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! elle estava ancioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda, com umas saudades... Palavra! em alguns logares teve vontade de chorar. Mas não embarcaria mais. Enjoára muito a bordo, como todos os outros passageiros, excepto um inglez... Que os levasse o diabo os inglezes! Isto não ficava direito sem irem todos elles barra fóra. Que é que a Inglaterra podia fazer-nos? Se elle encontrasse algumas pessoas de boa vontade, era obra de uma noite a expulsão dos taes godemes... Graças a Deus, tinha patriotismo,—e batia no peito,—o que não admirava porque era de familia; descendia de um antigo capitão-mór muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a occasião, e elle havia de mostrar de que pau era a canoa... Mas fazia-se tarde, ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para maior palestra.—Levei-o até á porta da sala; elle parou dizendo que sympathisava muito commigo. Quando casára, estava eu na Europa. Conheceu meu pae, um homem ás direitas, com quem dansára n'um celebre baile da Praia Grande... Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a porta... Uf!

CAPITULO XCIII

O jantar

Que supplicio que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé da filha do Damasceno, uma D. Eulalia, ou mais familiarmente Nhã-lóló, moça bem graciosa, um tanto acanhada a principio, mas só a principio. Faltava-lhe elegancia, mas compensava-a com os olhos, que eram soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim, excepto quando desciam ao prato; mas Nhã-lóló comia tão pouco, que quasi não olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pae, «muito mimosa». Não obstante, esquivei-me. Sabina veiu até á porta, e perguntou-me que tal achára a filha do Damasceno.

—Assim, assim.

—Muito sympathica, não é? acudiu ella; falta-lhe um pouco mais de corte. Mas que coração! é uma perola. Bem boa noiva para você.

—Não gosto de perolas.

—Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando estiver a cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer não, ha de casar com Nhã-lóló.

E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a idéa, mas uma voz mysteriosa chamava-me á casa do Lobo Neves, disse adeus a Sabina e ás suas ameaças.

CAPITULO XCIV

A causa secreta

—Como está a minha querida mamãe?

A esta palavra, Virgilia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma janella, sosinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas quando lhe falei no nosso filho amuou-se. Não gostava de semelhante allusão, aborreciam-lhe as minhas anticipadas caricias paternaes. E eu, para quem ella era já uma pessoa sagrada, uma ambula divina, deixava-a estar quieta. Suppuz a principio que o embryão, esse perfil do incognito, projectando-se na nossa aventura, lhe restituira a consciencia do mal. E enganava-me. Nunca Virgilia me parecera mais expansiva, mais sem reservas, menos preoccupada dos outros e do marido. Não eram remorsos. Imaginei tambem que a concepção seria um puro invento, um modo de prender-me a ella, recurso sem longa efficacia, que talvez começava de opprimil-a. Não era absurda esta hypothese; a minha doce Virgilia mentia ás vezes, com tanta graça!

Naquella noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte, dava-lhe já imaginariamente os calefrios do patibulo. Quanto ao vexame, complicava-se ainda da forçada privação de certos habitos da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lh'o a entender, reprehendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pae. Virgilia fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um geito incredulo.

CAPITULO XCV

Flores de antanho

Onde estão ellas as flores de antanho? Uma tarde, apoz algumas semanas de gestação, esboroou-se todo o edificio das minhas chimeras paternaes. Foi-se o embryão, naquelle ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga. Tive a noticia por boca do Lobo Neves, que me deixou na sala, e acompanhou o medico á alcova da frustrada mãe. Eu encostei-me á janella, a olhar para a chacara, onde verdejavam as laranjeiras sem flores. Onde iam ellas as flores de antanho?

CAPITULO XCVI

A carta anonyma

Senti tocar-me no hombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos, inconsolaveis. Indaguei de Virgilia, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma carta; elle leu-a, empallideceu muito, e fechou-a com a mão tremula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quizesse atirar-se sobre mim; mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeu-me frio e taciturno. Emfim, Virgilia contou-me tudo, dahi a dias na Gamboa.

O marido mostrou-lhe a carta, logo que ella se restabeleceu. Era anonyma e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas; limitava-se a precavel-o contra a minha intimidade, e accrescentava que a suspeita era publica. Virgilia leu a carta e disse com indignação que era uma calumnia infame.

—Calumnia? perguntou o Lobo Neves.

—Infame.

O marido respirou; mas, tornando á carta, parece que cada palavra della lhe fazia com o dedo um signal negativo, cada lettra bradava contra a indignação da mulher. Esse homem, aliás intrepido, era agora a mais fragil das creaturas. Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o famoso olho da opinião, a fital-o sarcasticamente, com um ar de pulha; talvez uma boca invisivel lhe repetiu ao ouvido as chufas que elle escutara ou dissera outr'ora. Instou com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgilia comprehendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a insistencia, jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortezia. A carta havia de ser de algum namorado sem ventura. E citou alguns,—um que a galanteára francamente, durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com circumstancias, estudando os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem á calumnia, tratar-me-hia de maneira que eu não voltaria lá.

Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo accrescimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela tranquillidade moral de Virgilia, pela falta de commoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgilia notou a minha preoccupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava então para o soalho, e disse-me com certa amargura:

—Você não merece os sacrificios que lhe faço.

Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria á nossa situação o sabor caustico dos primeiros dias; mas se lh'o dissesse, não é impossivel que ella chegasse lenta e artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse nada. Ella batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na testa. Virgilia recuou, como se fosse um beijo de defuncto.

CAPITULO XCVII

Entre a boca e a testa

Sinto que o leitor estremeceu,—ou devia estremecer. Naturalmente a ultima palavra suggeriu-lhe tres ou quatro reflexões. Veja bem o quadro: n'uma casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam ha muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadaver. Ha ahi, no breve intervallo, entre a boca e a testa, antes do beijo e depois do beijo, ha ahi largo espaço para muita cousa,—a contracção de um resentimento,—a ruga da desconfiança,—ou emfim o nariz pallido e somnolento da saciedade...

CAPITULO XCVIII

Supprimido

Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta anonyma restituia á nossa aventura o sal do mysterio e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom que Virgilia não perdesse naquella crise a posse de si mesma. De noite fui ao theatro de S. Pedro; representava-se uma grande peça, em que a Estella arrancava lagrimas. Entro; corro os olhos pelos camarotes; vejo em um delles o Damasceno e a familia. Trajava a filha com outra elegancia e certo apuro, cousa difficil de explicar, porque o pae ganhava apenas o necessario para endividar-se; e dahi, talvez fosse por isso mesmo.

No intervallo fui visital-os. O Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-lóló, não tirou mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etherea casada ao polido das fórmas terrenas:—expressão vaga, e condigna de um capitulo em que tudo ha de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava cocegas de Tartuffo. Ao contemplal-o, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessaria ao desenvolvimento da nossa especie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos cuidados do individuo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuario, negaceando a natureza, aguça e attráe as vontades, activa-as, reprodul-as, e conseguintemente faz andar a civilisação. Abençoado uso que nos deu Othello e os paquetes transatlanticos!

Estou com vontade de supprimir este capitulo. O declive é perigoso. Mas emfim eu escrevo as minhas memorias e não as tuas, leitor pacato. Ao pé da graciosa donzella, parecia-me tomado de uma sensação dupla e indefinivel. Ella exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, l'ange et la bête, com a differença que o jansenista não admittia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que ellas ahi estavam bem juntinhas,—l'ange, que dizia algumas cousas do ceu,—e la bête, que... Não; decididamente supprimo este capitulo.

CAPITULO XCIX

Na platéa

Na platéa achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falámos por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervallo seguinte, prestes a levantar o panno, encontramo-nos n'um dos corredores, em que não havia ninguem. Elle veiu a mim, com muita affabilidade e riso, puxou-me a um dos oculos do theatro, e falamos muito, principalmente elle, que parecia o mais tranquillo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação para assumptos geraes, expansivo, quasi risonho. Adivinhe quem quizera causa da differença; eu fujo ao Damasceno que me espreita alli da porta do camarote.

Não ouvi nada do seguinte acto, nem as palavras dos actores, nem as palmas do publico. Reclinado na cadeira, apanhava de memoria os retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras delle, e concluia que era muito melhor a nova situaçao. Bastava-nos a Gamboa. A frequencia da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podiamos dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, mettia a saudade de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta annos, e não era nada, nem simples eleitor de parochia. Urgia fazer alguma cousa, ainda por amor de Virgilia, que havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome... Creio que nessa occasião houve grandes applausos, mas não juro; eu pensava em outra cousa.

Multidão, cujo amor cobicei até á morte, era assim que eu me vingava ás vezes de ti; deixava borborinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometheu de Eschylo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indifferença, ou da tua agitação? Frageis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar cousa é ir considerar no ermo. O voluptuoso, o exquisito, é insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheiado, inaccessivel, ausente. O mais que podem dizer, quando elle torna a si,—isto é, quando torna aos outros,—é que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cerebro, que outra cousa é senão a affirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? Vive Deus! eis um bom fecho de capitulo.

CAPITULO C

O caso provavel

Se esse mundo não fosse uma região de espiritos desattentos, era escusado lembrar ao leitor que eu só affirmo certas leis, quando as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me á admissão da probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitue o presente capitulo, cuja leitura recommendo a todas as pessoas que amam o estudo dos phenomenos sociaes. Segundo parece, e não é improvavel, existe entre os factos da vida publica e os da vida particular uma certa acção reciproca, regular, e talvez periodica,—ou, para usar de uma imagem, ha alguma cousa semelhante ás marés da praia do Flamengo e de outras egualmente marulhosas. Com effeito, quando a onda investe a praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma agua torna ao mar, com variavel força, e vae engrossar a onda que ha de vir, e que terá de tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a applicação.

Deixei dito n'outra pagina que o Lobo Neves, nomeado presidente de provincia, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era 13; acto grave, cuja consequencia foi separar do ministerio o marido de Virgilia. Assim, o facto particular da ogerisa de um numero produziu o phenomeno da dissidencia politica. Resta ver como, tempos depois, um acto politico determinou na vida particular uma cessação de movimento. Não convindo ao methodo deste livro descrever immediatamente esse outro phenomeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro mezes depois de nosso encontro no theatro, reconciliou-se com o ministerio; facto que o leitor não deve perder de vista, se quizer penetrar a subtileza do meu pensamento.

CAPITULO CI

A revolução dalmata

Foi Virgilia quem me deu noticia da vira-volta politica do marido, certa manhã de outubro, entre onze e meio dia; falou-me de reuniões, de conversas, de um discurso...

—De maneira que desta vez fica você baroneza, interrompi eu.

Ella derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado; mas esse gesto de indifferença era desmentido por alguma cousa menos definivel, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. E não sei por que imaginei que a carta imperial da nomeação podia attraíl-a á virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. Que ella amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de nossa vida foi o apparecimento de um certo pelintra de legação,—da legação da Dalmacia, supponhamos,—o conde B. V., que a namorou durante tres mezes.

Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça de Virgilia, que, além do mais, possuia a vocação diplomatica. Não chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmacia uma revolução, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi sangrenta a revolução, dolorosa, formidavel; os jornaes, a cada navio que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade... Eu não; eu abençoava interiormente essa tragedia, que me tirára uma pedrinha do sapato. E depois a Dalmacia era tão longe!

CAPITULO CII

De repouso

Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou dahi a tempos... Não, não hei de contal-o nesta pagina; fique esse capitulo para repouso do meu vexame. Uma acção grosseira, baixa, sem explicação possivel... Repito, não contarei o caso nesta pagina.

CAPITULO CIII

Distracção

—Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.

Tinha razão D. Placida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao logar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgilia tinha ido embora. D. Placida contou-me que ella esperára muito, que se irritara, que chorara, que jurára votar-me ao desprezo, e outras mais cousas que a nossa caseira dizia com lagrimas na voz, pedindo-me que não desamparasse Yayá, que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificara tudo. Expliquei-lhe então que um equivoco... E não era; cuido que foi simples distracção. Um dito, uma conversa, uma anecdota, qualquer cousa; simples distracção.

Coitada de D. Placida! Estava afflicta deveras. Andava de um lado para outro, abanando a cabeça, suspirando com estrepito, espiando pela rotula. Coitada de D. Placida! Com que arte conchegava as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação fertil em tornar as horas mais apraziveis e breves! Flores, doces,—os bons doces de outros dias,—e muito riso, muito affago, um riso e um affago que cresciam com o tempo, como se ella quizesse fixar a nossa aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia suspiros e saudades que não presenciára; nada, nem a calumnia, porque uma vez chegou a attribuir-me uma paixão nova.—Você sabe que não posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgilia me falou em semelhante cousa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou admoestação, dissipou o aleive-de D. Placida, que ficou triste.

—Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgilia hade reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta agora mesmo?

—Ella hade estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte de ninguem; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Yayá, então sim, é que hade ver o anjo que ella é!

Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recommendo este gesto ás pessoas que não tiverem uma palavra prompta para responder, ou ainda ás que receiarem encarar a pupilla do outros olhos. Em taes casos, alguns preferem recitar uma oitava dos Lusiadas, outros adoptam o recurso de assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; é mais simples, exige menos esforço.

Tres dias depois, estava tudo explicado. Supponho que Virgilia ficou um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lagrimas que derramára naquella triste occasião; e não me lembra se interiormente as attribui a D. Placida. Com effeito, podia acontecer que D. Placida chorasse, ao vel-a desapontada, e, por um phenomeno da visão, as lagrimas que tinha nos proprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgilia. Fosse como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda esquecido. Virgilia dizia-me uma porção de cousas duras, ameaçava-me com a separação, emfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortezia e affeição; é o que ella dizia, emquanto eu, sentado, com os braços fincados nos joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!

—Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgilia, parando deante de mim.

—Que heide dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que heide dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, que se aborrece, que quer acabar...

—Justamente!

Foi dali pôr o chapéu, com a mão tremula, raivosa...—Adeus, D. Placida, bradou ella para dentro. Depois foi até á porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.—Está bom, está bom, disse-lhe. Virgilia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse; ella afastou-se da porta e foi cair no canapé. Sentei-me ao pé della, disse-lhe muitas cousas meigas, outras humildes, outras graciosas. Não affirmo se os nossos labios chegaram á distancia de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, sim, que na agitação caiu um brinco de Virgilia, que eu inclinei-me a apanhal-o, e que a mosca de ha pouco trepou ao brinco, levando sempre a formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso seculo, puz na palma da mão aquelle casal de mortificados; calculei toda a distancia que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver n'um episodio tão mofino. Se conclues dahi que eu era um barbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virgilia, afim de separar os dous insectos; mas a mosca farejou a minha intenção, abriu as azas e foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escriptura.

CAPITULO CIV

Era elle!

Restitui o grampo a Virgilia, que o repregou nos cabellos, e preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado tres horas. Tudo estava esquecido e perdoado. D. Placida, que espreitava a occasião idonea para a saída, fecha subitamente a janella e exclama:

—Virgem Nossa Senhora! ahi vem o marido de Yayá!

O momento de terror foi curto, mas completo. Virgilia fez-se da cor das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; D. Placida, que fechára a rotula, queria fechar tambem a porta de dentro; eu dispuz-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgilia tornou a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Placida que voltasse á janella; a confidente obedeceu.

Era elle. D. Placida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de pasmo:—O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça favor. Adivinhe quem está cá... Não tem que adivinhar: não veiu por outra cousa... Appareça, Yayá.

Virgilia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pallido, frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em volta da sala.

—Que é isto? exclamou Virgilia. Você por aqui?

—Ia passando, vi D. Placida á janella, e vim comprimental-a.

—Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem alguma cousa... Olhae, gentes! Yayá parece estar com ciumes. E acariciando-a muito:—Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Placida. Coitadinha! é mesmo a cara da mãe... Sente-se, senhor doutor...

—Não me demoro.

—Você vae para casa? disse Virgilia. Vamos juntos.

—Vou.

—Dê cá o meu chapéu, D. Placida.

—Está aqui.

D. Placida foi buscar um espelho, abriu-o deante della. Virgilia punha o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabellos, falando ao marido, que não respondia nada. A nossa boa velha tagarellava de mais; era um modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgilia, dominado o primeiro instante, tornára á posse de si mesma.

—Prompta! disse ella. Adeus, D. Placida; não se esqueça de apparecer, ouviu? A outra prometteu que sim, e abriu-lhes a porta.

CAPITULO CV

Equivalencia das janellas

D. Placida fechou a porta e caiu n'uma cadeira. Eu deixei immediatamente a alcova, e dei dous passos para sair á rua, com o fim de arrancar Virgilia ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse, porque D. Placida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei a suppor que não dissera aquillo senão para que ella me detivesse; mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais genuino e cordial não podia ser senão esse. E isto por aquella famosa lei da equivalencia das janellas, que eu tive a satisfação de descobrir e formular, no cap. LI. Era preciso arejar a consciencia. A alcova foi uma janella fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.

CAPITULO CVI

Jogo perigoso

Respirei e sentei-me. D. Placida atroava a sala com exclamações e lastimas. Eu ouvia, sem lhe dizer cousa nenhuma; reflectia commigo se não era melhor ter fechado Virgilia na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria peior; confirmaria a suspeita, e chegaria o fogo á polvora e uma scena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas depois? que ia acontecer em casa de Virgilia? Matal-a-hia o marido? espancal-a-hia? encerral-a-hia? expulsal-a-hia? Estas interrogações percorriam lentamente o meu cerebro, como os pontinhos e virgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e vinham, com o seu aspecto secco e tragico, e eu não podia agarrar um dellos e dizer: és tu, tu e não outro.

De repente vejo um vulto negro; era D. Placida, que fôra dentro, enfiára a mantilha, e vinha offerecer-se-me para ir á casa do Lobo Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque elle desconfiaria da visita tão proxima.

—Socegue, interrompeu ella; eu saberei arranjar as cousas. Se elle estiver em casa não entro.

Saiu; eu fiquei a ruminar o successo e as consequencias possiveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer, como um parceiro do whist. E então senti-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida. Porque não? Meu coração tinha ainda que explorar; não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade, as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a excepção; eu estava enfarado dellas; não sei até se me pungia algum remorso. Mal pensei naquillo, deixei-me ir atraz da imaginação; vi-me logo casado, ao pé de uma mulher adoravel, deante de um baby, que dormia no regaço da ama, todos nós no fundo do uma chacara sombria e verde, a espiarmos atravez das arvores uma nesga do ceu azul, extremamente azul...

CAPITULO CVII

Bilhete

«Não houve nada, mas elle suspeita alguma cousa; está muito serio e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vae acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.»

CAPITULO CVIII

Que se não entende

Eis ahi o drama, eis ahi a ponta da orelha tragica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de analyse, que eu não farei neste capitulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicacia e o animo dessas poucas linhas traçadas á pressa; e por traz dellas a tempestade de outro cerebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, por que tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lagrymas?

Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete tres ou quatro vezes, naquelle dia, accreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crel-o, é a realidade pura. Mas se vos disser a commoção que tive, duvidai um pouco da asserção, e não a acceiteis sem provas. Nem então, nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; emfim, era amor sem amor, isto é, sem delirio; e tudo isso dava uma combinação assás complexa e vaga, uma cousa que não podereis entender, como eu não entendi. Supponhamos que não disse nada.

CAPITULO CIX

O philosopho

Sabido que reli a carta, antes e depois do almoço, sabido fica que almocei, e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas da minha vida: um ovo, uma fatia de pão, uma chicara de chá. Não me esqueceu esta circumstancia minima; no meio de tanta cousa importante obliterada escapou esse almoço. A razão principal poderia ser justamente o meu desastre; mas não foi; a principal razão foi a reflexão que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquelle dia. Disse-me elle que a frugalidade não era necessaria para entender o Humanitismo, é menos ainda pratical-o; que esta philosophia acommodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa, o espectaculo e os amores; e que, ao contrario, a frugalidade podia indicar certa tendencia para o ascetismo, o qual era a expressão acabada da tolice humana.

—Veja S. João, continuou elle; mantinha-se de gafanhotos, no deserto, em vez de engordar tranquillamente na cidade, e fazer emmagrecer o pharisaismo na synagoga.

Deus me livre de contar a historia do Quincas Borba, que aliás ouvi toda naquella triste occasião, uma historia longa, complicada, mas interessante. E se não conto a historia, dispenso-me outrosim de descrever-lhe a figura, aliás mui diversa da que me appareceu no Passeio Publico. Calo-me; digo somente que se o principal caracteristico do homem não são as feições, mas o vestuario, elle não era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um general sem farda, um negociante sem deficit. Notei-lhe a perfeição da sobrecasaca, a alvura da camisa, o aceio das botas. A mesma voz, roufenha outr'ora, parecia restituida á primitiva sonoridade. Quanto á gesticulação, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, não tinha já a desordem, sujeitava-se a um certo methodo. Mas eu não quero descrevel-o. Se falasse, por exemplo, no botão de ouro que trazia ao peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria uma descripção, que omitto por brevidade. Contentem-se de saber que as botas eram de verniz. Saibam mais que elle herdára alguns pares de contos de réis de um velho tio de Barbacena.

Meu espirito, (permittam-me aqui uma comparação de criança!) meu espirito era n'aquella occasião uma especie de peteca. A narração do Quincas Borba dava-lhe uma palmada, elle subia; quando ia a cair, o bilhete de Virgilia dava-lhe outra palmada, e elle era de novo arremessado aos ares; descia, e o episodio do Passeio Publico recebia-o com outra palmada, egualmente rija e efficaz. Cuido que não nasci para situações complexas. Esse puxar e empuxar de cousas oppostas, desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo Neves e o bilhete de Virgilia na mesma philosophia, e mandal-os de presente a Aristoteles. E, comtudo, era instructiva a narração do nosso philosopho; admirava-lhe sobretudo o talento de observação com que descrevia a gestação e o crescimento do vicio, as luctas interiores, as capitulações vagarosas, o uso da lama.

—Olhe, observou elle; a primeira noite que passei, na escada de S. Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Porque? Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau, do quarto proprio ao corpo da guarda, do corpo da guarda ao xadrez, do xadrez á rua...

Quiz expor-me finalmente a philosophia; eu pedi-lhe que não.—Estou assaz preocupado hoje e não poderia attendel-o; venha depois; estou sempre em casa. O Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez soubesse da minha aventura, mas não accrescentou nada. Só me disse estas ultimas palavras á porta:

—Venha para o Humanitismo; elle é o grande regaço dos espiritos, o mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Os gregos faziam-na sair de um poço. Que concepção mesquinha! Um poço! Mas é por isso mesmo que nunca atinaram com ella. Gregos, sub-gregos, anti-gregos, toda a longa serie dos homens tem-se debruçado sobre o poço, para ver sair a verdade, que não está lá. Gastaram cordas e caçambas; alguns mais afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu fui directamente ao mar. Venha para o Humanitismo.

CAPITULO CX

31

Uma semana depois, o Lobo Neves foi nomeado presidente de provincia. Agarrei-me á esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porém, a data de 31; e esta simples transposição de algarismos eliminou delles a substancia diabolica. Que profundas que são as molas da vida!

CAPITULO CXI

O muro

Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta pagina o caso do muro. Elles estavam prestes a embarcar. Entrando em casa de D. Placida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um bilhete de Virgilia; dizia que me esperava á noite, na chacara, sem falta. E concluía: «O muro é baixo do lado do becco.»

Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descommunalmente audaciosa, mal pensada e até ridicula. Não era só convidar o escandalo, era convidal-o de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar o muro, embora baixo e do lado do becco; e, quando ia a galgal-o, via-me agarrado por um pedestre de policia, que me levava ao corpo da guarda. O muro é baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgilia não soube o que fez; era possivel que já estivesse arrependida. Olhei para o papel, um pedaço de papel amarrotado, mas inflexivel. Tive comichões de o rasgar, em trinta mil pedaços, e atiral-os ao vento, como o ultimo despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-proprio, o vexame da fuga, a idéa do medo... Não havia remedio senão ir.

—Diga-lhe que vou.

—Aonde? perguntou D. Placida.

—Onde ella disse que me espera.

—Não me disse nada.

—Neste papel.

D. Placida arregalou os olhos:—Mas esse papel, achei-o hoje de manhã, nesta sua gaveta, e pensei que...

Tive uma sensação exquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, na verdade, um antigo bilhete de Virgilia, recebido no começo dos nossos amores, uma certa entrevista na chacara, que me levou effectivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e... Tive uma sensação exquisita.

CAPITULO CXII

A opinião

Mas estava escripto que esse dia devia ser o dos lances dubios. Poucas horas depois, encontrava-me eu com o Lobo Neves, na rua do Ouvidor, e falavamos da presidencia e da politica. Elle aproveitou o primeiro conhecido que nos passou á ilharga, e deixou-me, depois de muitos comprimentos. Lembra-me que estava retraindo, mas de um retrahimento que forcejava por dissimular. Pareceu-me então (e peço perdão á critica, se este meu juizo fôr temerario!) pareceu-me que elle tinha medo—não medo de mim, nem de si, nem do codigo, nem da consciencia; tinha medo da opinião. Suppuz que esse tribunal anonymo e invisivel, em que cada membro accusa e julga, era o limite posto á vontade do Lobo Neves. Talvez que elle já não amasse a mulher; e, assim, póde ser que o coração fosse estranho á indulgencia dos seus ultimos actos. Cuido (e de novo insto pela boa vontade da critica!) cuido que elle estaria prompto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado de muitas relações pessoaes; mas a opinião, essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquerito ácerca do caso, que colligiria uma a uma todas as circumstancias, antecedencias, inducções, provas, que as relataria na palestra das chacaras desoccupadas, essa terrivel opinião, tão curiosa das alcovas, obstou á dispersão da familia. Ao mesmo tempo tornou impossivel o desforço, que seria a divulgação. Elle não podia mostrar-se resentido commigo, sem egualmente buscar a separação conjugal; e teve então de simular a mesma ignorancia de outr'ora, e, por deducção, eguaes sentimentos.

Que lhe custasse creio; naquelles dias, principalmente, vi-o de modo que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu espero a indulgencia dos homens pensadores!), o tempo calleja a sensibilidade, e oblitera a memoria das cousas; era de suppor que os annos lhe despontassem os espinhos, que a distancia dos factos apagasse os respectivos contornos, que uma sombra de duvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade; emfim, que a opinião se occupasse um pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer as ambições do pae; seria o herdeiro de todos os seus affectos. Isso, e a actividade externa, e o prestigio publico, e a velhice depois, a doença, o declinio, a morte, um responso, uma noticia biographica, e estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pagina de sangue.

CAPITULO CXIII

A solda

A conclusão, se ha alguma no capitulo anterior, é que a opinião é uma bôa solda das instituições domesticas. Não é impossivel que eu desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas tambem não é impossivel que o deixe como está. De um ou de outro modo, é uma bôa solda a opinião, e tanto na ordem domestica, como na politica. Alguns metaphysicos biliosos tem chegado ao extremo de a darem como simples producto da gente chocha ou mediocre; mas é evidente que, ainda quando um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os effeitos salutares da opinião, para concluir que ella é a obra superfina da flôr dos homens, a saber, do maior numero.

CAPITULO CXIV

Fim de um dialogo

—Sim, é amanhã. Você vae a bordo?

—Está douda? É impossível.

—Então, adeus!

—Adeus!

—Não se esqueça de D. Placida. Vá vel-a algumas vezes. Coitada! Foi hontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria mais... É uma boa creatura, não?

—Certamente.

—Se tivermos de escrever, ella receberá as cartas. Agora até daqui a...

—Talvez dous annos?

—Qual! elle diz que é só até fazer as eleições.

—Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.

—Quem?

—Alli do sophá. Separemo-nos.

—Custa-me muito.

—Mas é preciso; adeus, Virgilia!

—Até breve. Adeus!

CAPITULO CXV

O almoço

Não a vi partir; mas á hora marcada senti alguma cousa que não era dor nem prazer, uma cousa mixta, allivio e saudade, tudo misturado, em eguaes doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titillar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lagrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biographico. A realidade pura é que eu almocei, como nos demais dias, acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura, e ao estomago com os acepipes de Mr. Pruddon...

...Velhos do meu tempo, lembrai-vos desse mestre cosinheiro do hotel Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos palacios do conde Molé e do duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de Janeiro com a polka... A polka, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos estrangeiros, o Casino, eis algumas das melhores recordações daquelle tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.

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