TERCEIRA PARTE.
Reading edition
{62} {63}
CAPITULO I.
Cheguei ao estado de dizer com o philosopho grego:
«Omnia mea mecum porto.»
Ignoro se os gregos fallavam latim no tempo de Bias.
Cifravam-se as minhas posses em 25 annos de idade e na roupa do corpo, sendo que essa já estava fóra da moda.
O melhor excitante para o fastio do espirito é, incontestavelmente, a privação. Essa é a razão porque no vigor da idade não são os desejos vehementissimos, como aos 90{64} annos, na decrepitude, quando já se não póde com um gato morto, para não dizer gata... e isso por ser a privação, em todos os sentidos, irreparavel. Induza-se d'ahi o gráo da minha excitação, privado de meios com os quaes satisfizesse desejos, que, como vespas damnadas, me agrilhoavam por todos os modos e em todos os sentidos?!
Silencio, bocca!...
CAPITULO II.
Sem credito literario diante dos meus proprios olhos—abertos pelo bom senso do typographo Gusmão; sem abono-monetario diante de todos os olhos fechados pelas minhas circumstancias; eu andava a pleno ar a procura de um meio, que me arredasse do precipicio para cujas bordas já me encaminhava—o jogo. Eu teria calado no fundo desse abysmo, se houvesse tido para a primeira parada.
Capitulos da altura deste não indigestam. Digerem como sorvas, e fazem render um livro...{65}
CAPITULO III.
Todas as mulheres deviam collocar na alcova de orações um nicho, e dentro delle o busto de Aristophanes. Ao mordaz atheniense são ellas obrigadas pela reforma do meu juizo a seu respeito. Antes de lêr Lysistrata, meu pensar era que as mulheres rezavam pela cartilha da Sra. Balbina.
Emendei-me, dando rédeas ao amor.
Amei com impeto! como o leão seria capaz de amar, se as leôas das brenhas soubessem como as das cidades—encarentar favores...
O amor! o amor! Dizem que não come! se não comesse não se alojaria no coração—que fica ás portas do estomago.
Montaigne já o-chamava sêde da mocidade.
Da sêde á fome vai só um passo.
CAPITULO IV.
«Eu sempre ouvi dizer:—frade nem vivo, Nem morto e nem pintado na parede.—{66} A rasão deste dito salta aos olhos; O que frades, outr'ora, não fizessem Incumbir ao diabo era debalde: E as chronicas referem muitos casos De quináos, que ao diabo os frades deram. Mas verdade verdade, o frade de hoje, Labéo das frias cinzas de Epicuro, Não chega ao calcanhar do velho frade.» Repetindo em voz alta estas blasphemias, Os olhos affinquei n'um poento quadro, Meu fiel companheiro no deserto Em que a mão da fortuna me lançára. O quadro figurava um frei Rotundo, Nutrido e nédio, rindo-se á sorrélfa Da feia carantonha do diabo, Que raivoso mordia um par de dados. Mingúa a humanidade a pouco e pouco! Já se não topa mais um frei Bojudo Estillando gordura ao sol em pino. Que ditosa panella, a de outros tempos, Onde cahisse o lenço de Alcobaça Que limpasse o cachaço de algum frade! Sahia a olha convertida em banha. Hoje o frade, sequer, sabe o Larraga Ou Brillat-Savarin. Dantes o frade Era um poço ambulante de sciencias. E os costumes? e o lar? se bem me lembro,{67} Algures li que, vós, ditosos monges, Fostes, nas priscas eras dos conventos, Pesadelo de todos os maridos, E horror! horror! horror! das raparigas! «Illustre Guardião (clamo inspirado) Tu mais que Belphegor sagaz nos tramas, Mais roliço e mais sabio, tu me ensina O meio de sahir destes apuros!» Avalie-se agora o que eram frades Em tempos que lá vão,—que desenhados Inda fazem milagres. Repentino Me occorre um pensamento de alta monta.
CAPITULO V.
Escrevi esta epistola:
«Senhora.—Vós sois a belleza, de mimosos contornos; eu sou o bello, de rudes musculos. Vós sois a bonina, que murcha ao primeiro raio do sol; eu sou o sol, que o diluvio não apagou. Vós sois a debil pastorinha avergada ao peso dos trevos com que se enfeita; eu sou o vigoroso camponez, que leva as costas um boi sem lhe sentir o peso.{68} Senhora! meditai nestas parabolicas palavras! e se julgardes ser a força o amparo da fraqueza, respondei em carta fechada com endereço a ***, que eu mesmo a-irei tirar da latinha do escriptorio do Jornal do Commercio.»
O remate estragou a epistola.
CAPITULO VI.
Eram oito horas e meia da noite, subi e desci a rua do Ouvidor.
Nenhum ignotus Deus! nenhuma mulher com cara de entender a epistola!
Mas eu confiava na inspiração!
As transeuntes levavam todas a reboque um marido ou cousa com semelhança disso.
Eram nove e meia. Ainda nada.
Mas o frade não me sahia da mente!
—Dar-se-ha o caso, reflecti, que hoje seja a noite tão sómente dos casados?
Entendamo-nos. Queria dizer, a noite de sómente passeiarem os casados; nós sabemos que todas as noites são delles, quand-même...{69}
Puz-me a olhar através dos vidros os livros expostos á venda na casa Garnier.
D'ahi a pouco, chega e pára a outra vidraça uma mulher só... Só digo eu, não contando o cãosinho felpudo, que a-seguia.
Era um animalsinho com ar inoffensivo e prasenteiro e cara de quem não aceitaria, se lhe mandassem, um cartel. Começa a mão do frade!
Olhou... olhou... (ella e não o cão), e entrou na livraria. Ouvi-a dizer em francez de Racine:
—Les Femmes, par Alphonse Karr?
—É justamente a mulher, que eu sonhava, disse a mim mesmo; mulher que lêsse o autor de La pêche.... en eau douce... et en eau salée.... Abeirei-me á porta.
Deram-lhe o livro; folheou-o, pagou-o sem questionar o preço, deu boa-noite e sahio.
Fóra da loja, tomei-lhe a frente, comprimentei-a com acatamento, rogando-lhe aceitasse a carta.
—Quem é o senhor? e donde vem essa carta? perguntou meio desdenhosa.
—É tudo um mysterio, respondi. Lendo a carta saberá.{70}
—Ah! cheira a mysterio? pois sim, dê-m'a, eu gosto dos mysterios.
Tomou-a e partio com ar senhoril. E viva o frade!
Ao desapparecer na turbamulta, aproximou-se-me um permanente pedindo-me o charuto para acender um cigarro.
—Camarada, lhe disse, eu não inventei a polvora, porque nasci depois della inventada.
Elle concordou, rosnando:
—Polvora! polvora! que diabo é polvora?
CAPITULO VII.
Doze horas depois fui ao escriptorio do Jornal; lá estava uma cartinha com a minha senha. Constava de duas linhas bem traçadas, quanto á essencia; quanto á calligraphia, nunca vi peóres gregotins.
«Sr. ***.—Ora queira Deus e Deus queira vos não mettais em camisa de onze varas! Rua do Conde n....»{71}
Resposta mais laconica e expressiva, só um couce, mal comparada.
Sem perder os estribos da confiança, em presença de tamanha ameaça, fui.
Eram onze horas da manhã, duas horas depois de feita a digestão dos que almoçam ás nove.
CAPITULO VIII.
Ha trinta minutos.
—Que idade tendes? pergunta ella.
—Vinte e cinco annos; respondo.
—Como sois moço!... Meu marido morreu dessa idade.
—É lei da natureza, que se morra de toda idade.
Proferi o axioma na intenção de afugentar qualquer idéa negra, que, por ventura, viesse perturbar a interlocução.
—É facto, concordou, accrescentando, como quem a si propria dava desculpa: tambem elle era muito franzino...
E de esguelha, pela oitava vez, medio-me com os olhos de alto a baixo.{72}
Neste ensejo, tomei-me o pulso. Deitava 105 pulsações por minuto. Eu na vespera almoçára mão de vacca.
CAPITULO IX.
Ha dous mezes. Deu-se garrote á prudencia. Reina o commumnismo. Folga Épicuro. Vai tudo de afogadilho. O trem assovia. Tenha o leitor paciencia. Escasseiam-me trégoas.
Isto é prosa.
CAPITULO X.
Chamava-se Monica; nome que não anda na bocca de todos, e a essa vantagem reune a de ser esdruxulo.
Casára aos vinte nove annos de idade com um rapaz de vinte e quatro; e enviuvou{73} no anno seguinte. Tudo isto foi muito natural, sendo mais natural a morte do rapaz.
Não era bonita, era sympathica. Não era sabia como D. Maria Caetana Agnezi, mas era intelligente; e mais espiritada do que espirituosa. Neste ponto trivialissima.
Lia o portuguez corrente como um juiz de paz, e trazia o francez em sarilho. Tocava a saloia ao piano, e nutria a presumpção de saber contar.
Quando a-conheci seus progenitores já haviam levado a breca.
Pretendeu-a na viuvez um capitalista, tambem viuvo.
Monica accedeu á licita pretenção. Nas vesperas das bodas, revelou-se-lhe o noivo com queda para a literatura-funda, ao lêr um artigo, inserto não sei em qual periodico, onde, ad-rem, o escriptor citava este aphorismo de Balzac:
«Un mari ne doit jamais s'endormir le premier ni se réveiller le dernier.»
Seguia-se a traducção, o pomo da discordia: «O marido não deve pegar no somno antes da mulher e nem acordar depois della.»{74}
—Como isto é fundo! exclamou o capitalista, chamando a attenção da noiva para o conselho em portuguez.
—E o senhor, perguntou Monica, no seu tempo de casado seguio isso á risca?
—Como seguiria, se é agora que sei disto?! Ah! se eu em outro tempo adivinhára... e engasgou-se com o resto. Mas, proseguio, cá me fica no canhenho; conselhos como estes não se perdem.
Confessemos, o capitalista não andava corrente com o Codigo do Bom-Tom. Declarar á noiva que um aphorismo de tal jaez lhe ficava no canhenho, foi falta de tino imperdoavel.
Monica, que lia Alphonse Karr e tencionava dar um pulo até á França para comprimentar o autor das Guêpes, com o que o Sr. Alphonse Karr, por sem duvida, muito se lisongearia, não contendeu.
Na manhã do dia seguinte pespegou ao capitalista em carta este bofetão:
«Senhor.—Toda a noite considerei no conselho de hontem e não me convenci que seja o marido quem deva pegar no somno depois da mulher e acordar antes della, por{75} muitas e longas razões com as quaes eu encheria uma resma de papel, se quizesse argumentar. Tendo V. S. no seu canhenho, tomado nota do conselho, pol-o-ha em pratica depois de casado; achando-me em opposição a semelhante pratica, desisto do meu compromisso. V. S. está livre, disponha do seu coração. Prefiro a monogamia ás desavenças do lar.
«Sua criada
«MONICA.»
Quando um homem recebe nas bochechas um recado destes, é mister que saibam todos o seu nome.
O capitalista chamava-se Joaquim.
CAPITULO XI.
O Sr. Joaquim leu, releu e treleu a carta. Ao depois chamou o guarda-livros.
—Sô Pinto? chegue-se, faça favor.
Pinto aproxima-se.
—Que palavra é esta? pergunta mostrando a Pinto a segunda palavra do remate da carta.{76}
Pinto arregalou os olhos, soletrou a palavra e leu—monógámia... e repetio separando as syllabas: Mo-nó-gá-mi-a... Isto não é palavra, decidio.
—A mim tambem me parece que não é, concordou o Sr. Joaquim, cuja intelligencia dava pelo estalão da do outro.
Pinto voltou aos livros.
O Sr. Joaquim garatujou;
«Senhora.—Eu quando digo as cousas é porque sei. Não é debalde que sou viuvo. O meu pezar é ter aberto os olhos quando a mulher fechou os seus. O conselho do periodico é fundo como um poço, e os periodicos quando dizem as cousas—são como eu—sabem o que dizem. Estou no mesmo pé. A mulher ha de pegar no somno antes do marido e acordar depois delle, sem esta condição saia não me torna a entrar em casa. A palavrinha monogamia não leva a resposta devida por não ser palavra.
«E temos conversado.»
Monica revelou-me este episódio uma vez quando lhe disse andar perto de querer casar com ella.{77}
No fim da narração, pendi para a opinião do Sr. Joaquim.
Não sei porque, mais tarde, fizeram barão a este homem, que tanto senso parecia ter!
CAPITULO XII.
Não fui eu, propriamente dito, que cahi na graça da viuva.
Disse-me ella:
—Á primeira vista antipathisei com o teu focinho. Cahio-me no gôto o teu singular modo de amar. Fui sempre enfermiça do desejo de ser amada por um exquisito, um original fosse em que fosse. Meu marido foi um homem como os mais, media pela bitola geral. Não se lhe notava particularidade alguma, que o destacasse do chavão commum. Tu me pareceste um homem raro, a julgar pela tua carta.
E case-se um homem commum?!
—Tenho desmentido a tua espectativa? perguntei.
—Vais descahindo... vais... ha dias a esta parte: respondeu.{78}
De facto, eu descahia a ôlho.
Que querem?
L'amour use vite les hommes; il soutient longtemps les femmes...
Aphorismo é isto.
CAPITULO XIII.
Balzac limpe as mãos á parede.
«É mais facil, diz elle, ser-se amante do que marido, por isso que é mais difficil ter-se espirito todos os dias do que, de quando em quando, amabilidades para dizer».
E quando o amante, meu caro Sr. Balzac, no meu caso, á guisa de marido, cohabita com a amante, é facil ter espirito todos os dias?
Nem uma nem outra cousa. Eu já não tenho que dizer a Monica.
No capitulo passado não briguei com ella por evitar a descripção da queréla. E se não fosse o medico, a botica, o padre, a confissão e depois o enterro, e em seguida as missas e no fim, tres dias de nôjo—matava-a neste.{79}
CAPITULO XIV.
Uma tarde, no largo de S. Francisco de Paula, no espaço onde plantaram o actual lampeão, que lá existe com ar de vedeta desarmada, encontrando-me com o meu velho amigo Simphoriano, o unico que possuo com este nome, me disse elle:
—Que tens tu? estás pallido como uma abobora?
Simphoriano é filho de uma provincia do Norte, cujos naturaes chamam pallidas ás aboboras maduras.
—Falta de sangue, meu caro; o sangue se me aguou todo, depois da ictericia, respondi.
Elle sabia que essa doença me acommettera havia dous annos.
—E a magreza? replicou.
—Que queres? transpira-se muito neste Rio de Janeiro... o sol derrete...
—Fosse essa a causa...
—Não sei de outra.
—Disse-me o Patricio (Patricio era um trocatintas do meu conhecimento), que tu sacrificas em demazia ás graças...{80}
—És tu quem sacrifica a verdade á peta, trepliquei, pelo gostinho de alardeares certa illustração. Quem ainda não sabe que Platão aconselhava ao discipulo Xenócrates, austero, como Newton, nos costumes, a sacrificar ás graças? Ouve o que do mesmo Xenócrates disse o padre José Agostinho na Viagem extatica:
«Da belleza inimigo e da ternura, Xenócrates descubro austero e triste, Vergonhoso baldão da especie humana, Que nem ao vivo scintilar de uns olhos, Nem ao mago sorriso deslizado De um labio, côr de purpura, ou de rosas, Ou aos aureos anneis de tranças de ouro, Da natureza escuta a voz suave, E sopro avivador, que atêa o fogo, Tão grato ao coração, que é delle a vida; Fogo, que até do mar no abysmo fundo Sujeita a seu imperio equóreos monstros, E a sanguinario tigre, indocil sempre, Amar ensina, e conhecer ternura.»
—Isto disse o padre, como entendedor que era, na Viagem extatica que, ao depois, crismou com o nome de Newton emendando entre outros, este verso, que tu nem ninguem recitará sem ao principio latir o seu pouco:{81}
OU AOS AUREOS—anneis de tranças de ouro.
—Concorda, prosegui, não me achaste descalço. Agora o suppores que abuso do sacrificio é outro engano. O nequid nimis—equivalente ao preceito de Hippocrates:
«Omne nimium naturae inimicum est» foi sempre a minha divisa.
Houve excepção....
Simphoriano ia tomando a mão.
Atalhei-o, já esquentado.
—Andas sempre a prasmar contra os que sacrificam ás graças. Quererás ser tido na conta dos ditos Xenócrates e Newton ou de Kan, Vico, W. Pitt ou Carlos XII?
Pensas que ignoro que Mirabeau morreu aos quarenta e dous annos em consequencia do abuso desse sacrificio e que pela mesma consequencia morreria Bichat, a quem Bourg levantou uma estatua, se não morresse em 1802 aos trinta e um annos, da queda que deu descendo as escadas do Hotel de Dieu cujo medico era? Vês que ás apalpadellas não ando nos factos da historia, e será bom que percas o sestro de literato á la violeta.
Com effeito, Simphoriano era boa creatura,{82} mas não soltava tres palavras sem citar dous ditos ou nomes de homens celebres, seus conhecidos—pelos catalagos dos livros.
E eu sem saber o cabo que darei a Monica?!
CAPITULO XV.
—Estás sufficientemente barbado, proseguia de outra feita o meu amigo. A ultima de mão que a natureza dá ao homem são as barbas....
Isto dito em francez—passava a proverbio.
—Portanto, continuava elle, és homem feito, em todos os sentidos.
—Em sentido algum, nunca deixei....
—Não me atrapalhes e nem comeces a zombar, senão, calo-me. Trata-se de cousa séria; sou mais velho, sou teu amigo, ouve-me.
—Sou todo ouvidos, falla.
—Bem. Estás perto dos trinta annos...
—Cinco annos distante...
—Aos vinte e cinco já se tem andado quazi meio caminho da vida. Na outra metade{83} precisamos pôr todo o cuidado. D'aqui a vinte e cinco annos serás velho, e esse espaço de tempo, além de curto, passa com a velocidade do vento. Em que te occupas presentemente? Dás pasto á ociosidade abusando da tua compleição.... vives, portas a dentro, com uma desgraçada, que te suga a seiva da mocidade e até os brios...
—Alto lá....
—E os brios, sim. Que esperas do futuro? o menospreço publico—a mais digna herança dos chichisbéos....
—Perdôa-me, atalhei-o, senão arrebento. De accordo com o Diccionario do amor, chichisbéo é, commummente, um celibatario maduro, namorador assiduo, servo de uma mulher casada com todos os onus do marido, excepto os lucros... Ora;—não me deves metter na conta dos celibatarios, por que, ha dous dias, posso dizer, cheguei á idade rébora, juridicamente fallando; e quanto á graça a quem sacrifico é viuva e o homem, que foi seu marido, já está livre dos onus... Applica-me outro substantivo, menos esse.
—Como enxergas tudo, rematou Simphoriano{84} murchamente, pelo prisma da facecia, tua alma—tua palma, adeus.
E desappareceu na primeira esquina da rua o unico amigo, que eu possuia com aquelle nome.
CAPITULO XVI.
Cocegaram-me o arrependimento aquellas palavras.
Cocegar era o unico verbo cuja falta se sentia na lingua portugueza. Criei-o, ahi fica. Não m'o-estraguem.
Percorri com os olhos o horizonte do meu futuro. Trevas e só trevas... nenhum vagalume, no espaço!
Cheguei a casa com vontade de brigar.
Monica, que não levou ainda a breca, estava risonha, como um dia de primavera.
Eu levava o inverno dentro d'alma.
—Chegas a proposito, disse acariciando-me; lê esta cartinha.
Tomei-a e li sem desfranzir as sobrancelhas:{85}
«Senhora Dona Monica.
«Participo-lhe, para seu castigo, que tirei o diploma de barão, ficando a senhora sem ser barôa por querer pegar no somno depois de mim...»
—De quem é esta carta? bufei, arremessando-a precipitadamente ao soalho, sem terminar a leitura.
—De quem ha de ser? do Joaquim, respondeu Monica.
—Qual Joaquim?
—O Joaquim do aphorismo, aquelle capitalista... mas estás pallido e a ranger os dentes! que tens?
—Remorsos, senhora! respondi já de cothurnos. Remorsos, perfida, tres vezes perfida! Era assim que tu correspondias ao meu amor! era assim! entretendo relações pela surdina com esse Sr. Joaquim, que já é barão! Com que cara hei de sahir á rua?!
—Vossê endoideceu, homem! diz ella, rindo-se a bandeiras despregadas.
—Doido!... sim, mulher, endoideci... com um endoideceu é que se desculpa o escandalo!!{86} Mulheres! mulheres! todas são a mesma estampa...
—Com flores o punhal disfarçam rindo!
—Ande vêr a minha mala, senhora, quero sahir desta casa...
—Qual mala nem pêra mala! objectou com despreso ironico; vossê quando entrou nesta casa não trouxe a mala, se é que algum dia a-teve.
Tolerei a vergalhada sem replicar.
—Quer sahir, saia, proseguio, ingrato de um dardo! não me deixa saudades; e saiba que já não estou em Paris por sua causa; ainda tenho com que pagar a passagem.
—Pois, não a-demorarei mais. O paquete parte a vinte e cinco, estamos a dezoito, sobejam-lhe sete dias para arrumar os bahús. Boa-viagem. Se encontrar no Mabille o Alphonse Karr, dê-lhe lembranças minhas.
E sahi.
E lá vai a Monica...
CAPITULO XVII.
Cahia a noite e a chuva.{87}
Não se me dava a queda da noite, importava-me a queda da agua.
Eu não tinha guarda-chuva.
Identificando o corpo com as paredes das casas, cheguei ao Restaurant do Mangini ensopado como uma garoupa de escabeche, pois que fallei em restaurant.
Por felicidade das tres quatro partes do genero humano, se a agua da chuva tem a propriedade de ensopar o facto, este tem a de enxugar passado o preciso tempo. Panno para mangas tinha eu aqui, se quizesse mostrar até onde chego em physica.
Assentei-me junto a uma meza, onde não dava em cheio a luz.
Nenhum dos caixeiros do estabelecimento fez conta da minha humida-individualidade.
Cheguei no momento em que um sujeito, galhardamente vestido á moderna, travava razões com um dos caixeiros. Dizia elle, calçando as luvas e olhando de travez para a nota da despeza, que fizera:
—Oh! senhor! esta conta está exacta? em que despendi essa enorme somma? nem no hotel da Europa.
—V. S. veja a lista, acodia o caixeiro.{88}
—Vêr o que, homem? pois eu quando como, olho lá o preço das iguarias? peço o que quero, porque não venho a estas casas comer de graça, fique sabendo, mas isto é um roubo.
—Confira pela lista e verá que lhe não levamos um vintem de mais...
—Não sou conferente de casas de pasto, ouvio? bradou o homem com nobre altivez. Confira vossê.
O proprietario do estabelecimento que se achava ao balcão, dirige-se ao cavalheiro, e com bons modos, lhe disse que se não amofinasse, que a conta estava exacta, mas se não queria pagar—seria o mesmo.
—Tenho muito dinheiro, alardeou o freguez; não preciso do seu jantar. Nem ando comendo nos botequins; se entrei neste, antes foi para esperar que passasse a chuva do que para outro fim. Almoço, janto e ceio no hotel da Europa, porém, não quero ser roubado, não estamos na Siberia.
Ein, Siberia?
—Pois, senhor, a chuva já passou, V. S. não deve nada, respondeu o proprietario.
—Então, não reforma a conta?{89}
—Está exacta.
—Ah! está exacta! pois sim, já disse que não estamos na Siberia, adeus.
E partio.
O dono da casa aproximou-se-me dizendo;
—Veja isto; um homem, que calça luvas de pellica, almoça, janta e ceia no hotel da Europa, sahe d'aqui deixando o debito de dous mil setecentos e sessenta réis. Ha de vêr que é sustentado por alguma...
Não o-deixei acabar, todo o corpo se me arrepiou...
—Um calix de cognac!
CAPITULO XVIII.
Sorvendo a ultima gota do licor, affigurou-se-me Monica arrumando as malas.
—Monica vai para Paris, disse entre mim. O Sr, Joaquim já é barão... e eu aqui fico, sem eira nem beira... nem ao menos sou commendador!... Paris! todos fallam em Paris e eu mesmo já o-descrevi em verso, sem ainda lá ter ido:{90}
Paris! Paris! Paris! terra de encantos, Eterno, ebri-festante paraiso, Aonde os risos de prazer são tantos, Que só é sério quem não tem juizo!...
As melhores descripções são devidas aos que pintam lugares, que nunca viram. Isto já passa em julgado e, passará a anexim, quando apparecer o meu romance passado om Djirjeh, no alto Egypto, aonde não pretendo jámais pizar.
CAPITULO XIX.
Decidido a mudar de rumo, fui levar essa nova a Simphoriano.
Entrei pé ante pé. O meu amigo estudava. Simphoriano ainda acreditava que, para se saber alguma cousa, fosse mister—queimar as pestanas. Toleirão por esse lado.
Não se convencia que a sapience-moufle do filho de Gargantua é a que mais apanha neste abençoado torrão, aonde de meia em meia braça se esbarra a gente com um Dr. Tubal Holoferne.{91}
Isto não offende a ninguem... É pura inveja.
CAPITULO XX.
—Boa noite, Simphoriano!
—Ah!... Sê bem vindo.
—Deus te pague. O que fazes?
—Nada; estou lendo.
—A Historia de Cezar, por Napoleão?
—Leio Humboldt.
—Perdes o tempo: Humboldt não sabia nada, foi um pessimo copista de Plinio.
—Sim? quando leste Plinio?
—Nunca, e nem Humboldt e nem precisava para formar o meu juizo.
—Achaste a pedra philosophal?
—Nem nada. Ouvi dizer que Plinio estudava a natureza; depois me disseram que o mesmo fez Humboldt. Logo, tudo quanto este fez copiou do outro, isto é logico. Seja lá no que fôr, segue este methodo e farás figura, passando por sabio. Ideias associadas, Humboldt foi barão e o Sr. Joaquim{92} tambem já o-é. E, passando a inscrever o nome na nobiliarchia deste Imperio, julgou-se com direito de enviar um epigramma á graça á qual não sacrificarei mais, o que te participo, sob a condição de uma hospedagem por esta noite, senão vou dormir ao relento.
E narrei o succedido.
Simphoriano pulou de contentamento.
Fallou em regeneração (palavrinha a mais elastica dos tempos modernos), citando todos os moralistas das cinco partes do globo, inclusive um poeta de nome Sadi ou Saadi, que elle jurou ser perso e eu suppunha italiano, por acabar o nome em—i.—
Prasmou contra o meu passado aconselhando-me a cuidar do futuro.
—Vejo por ahi muitos futuros á feição do meu desejo, mas os homens não me protegem.
—Homem, sentenciou o meu amigo, é aquelle que é o que quer ser e não o que os outros querem que elle seja. Toma nota disto. Arrima-te na perseverança; faze della bastão e caminha. Caminha... e se encontrares obstaculos, que te empeçam os passos,{93} desanda-lhes a perseverança. Tornam a apparecer adiante? torna a dar. Dá, dá de rijo, dá a valer, não te doam os pulsos e verás se chegas a ser o que quizeres.
Copiei a receita para matar os obstaculos, mas em vez de bastão comprei um guarda sol, que tambem guarda da chuva e serve de bengala sendo preciso.
CAPITULO XXI.
Por desobriga de minha consciencia, respondi á mofa do Sr. Joaquim. Exigia a lembrança do passado que eu vingasse a viuva da affronta do capitalista. Mandei-lhe a resposta. Ignoro se elle a-recebeu e se Monica chegou a ter conhecimento da remessa feita em seu nome.
Disse-lhe:
Illm. e Exm. Sr. Joaquim, barão.
«E tenho observado que, ha trinta annos a esta parte, essa molestia (empanturração) só aos burros cançados e a certos barões acommette... (Dr. Gomez d'Eça. Art. Veterinaria;{94} cap. XXV, § II—; edição de Simão Thadeo Ferreira. Lisboa 1718)»
Sua criada
«MONICA.»
E ficamos, de uma vez para sempre, livres della e do barão, que já se me ia apegando.
Abrenuntio!
CAPITULO XXII.
Até esta data, comigo ainda não se verificou a sentença si vis potes. Ha quatro annos—quero—succeder na herança de uma velha rica e nenhuma ainda morreu, que se lembrasse de mim. Isto é o menos.
Quero—que o tabellião, em cujo cartorio sou copista,—augmente dez vintens no meu salario de mil réis e em vão tenho querido isto—ha quarenta e oito mezes.
Não obstante, vislumbro ainda muitas esperanças, mormente, quando considero que o mesmo Simphoriano quiz ser e foi condecorado pelos relevantes serviços, que prestou ao Brazil no Paraguay aonde nunca poz os pés!... (É facto).{95}
Tambem o padre Severino quiz ser vigario e foi,—e a população da freguezia... cresce...
EPILOGO DA TERCEIRA E ULTIMA PARTE.
Agua vai!
Quem em dias de sua vida não pregou um calote?
Esperava o leitor que os meus conhecidos morressem apunhalados, e, sabidas as contas, apenas falleceram dous, em consequencia dos remedios das boticas!
Fallei em bodas e o Sr. Joaquim roeu-nos a corda.
Moraes no seu diccionario, a proposito da palavra—boi, cita estes versos:
Coisas ha hi que passam sem ser cridas, E coisas cridas ha nunca passadas...
E eu, a proposito do amor, fui mais laconico que o veni, vidi, vici; tantas vezes citado e nem uma só comprehendido!
Puz em scena um enthusiasta do genio e não me referi ao—stultorum infinitus est numerus de Salomão!{96}
Abiquei o Parnaso e não arenguei á cerca da impropriedade deste decasyllabo de Francisco Manoel:
Capri-barbi-corní-pedes-felpudos!
Agatanhei Plinio e não trouxe á balha o livro 7.º cap. 9.º onde diz que a—gloria para uma mulher é suspender das orelhas duas perolas!
Notei Pantagruel e não aproveitei este remate de um discurso, (vai a um de fundo):
dos poros dos nossos corações, transuda a mais pura essencia, que póde ser respirada pelo{97} olfacto da patria;[3]
para analysar o Tratado do Sublime do conselheiro da rainha Zenobia!
Embarquei Monica para a França e não lhe besuntei os labios com o adeus de Scipião ao sahir de Roma:
Ingrata patria, non possidebis ossa mea!
Tropecei no commumnismo e nem patavina com referencia á Republica de Platão, ou á Utopia do Moro, ou á Civitas solis de Thomaz de Campanella, o Calabrez, que nunca li.
Obviei... É tarde.
Ah! se não fosse tarde! Só na applicação, que Monica fez da palavra monogamia (que não é palavra, conforme decidiram o capitalista e o seu guarda-livros), tinhamos materia para um in-folio, se, ácinte, eu pretendesse revoltar contra mim trezentos e sessenta e cinco doutores, pelo minimo. Mas é que tenho teiró ás inimizades.{98}
E os plagiatos? Neste ponto o reverendo padre Severino fôra como um Potosi. Tem-lhe custado caro alguns! Rendeu-lhe, por exemplo, tres mezes de cama esta odesinha copiada, assignada e enviada a quem não a inspirara.
A M.... (O original dizia—A R....) Não cumpriste o promettido, Teu marido, Teu marido t'o-privou! Não te salva essa desculpa... Teve a culpa, Teve a culpa—quem faltou. — Teu marido... oh que embaraço Erro crasso; Erro crasso, e provo-o já; Elle velava ou dormia: Que fazia? Que fazia, dize lá? — Se velava e... cobiçoso... Desejoso... Desejoso em... te ameigar... Entre os braços te-prendia; Não podia, Não te-podia... obrigar...{99} — Se dormia—estava morto. Franco o porto... Franco o porto estava então... Mas, não dormia; velava, Devorava... Devorava o meu quinhão... — Adormeceste cançada, Fatigada, Fatigada... Deus do Céo! Elle tambem—fatigado, Do seu lado, A teu lado adormeceu! — E eu? lá ao sereno exposto! Dando o gôsto, Dando o gosto ao meu rival, De me vêr magro... e desfeito, Pelo effeito, Effeito... da catarrhal! — Não cumpriste o promettido! Teu marido, Teu marido t'o-privou; Não te salva essa desculpa: Teve a culpa Quem com elle se fartou...
Pobre pastor!{100}
Verificou-se-lhe no lombo o rifão—guardado está o bocado para quem o hade comer.
Eu compuz as estrophes e elle comeu a... sova!
Antes assim! que lhe faça bom proveito.
......
Leitor!... talvez não acredites e no entanto assim é: vou passar a limpo uma escriptura!
Se alguma vez eu escrever as minhas aventuras, abarrotar-te-hei de pasteis....
P. S.
POSTERIDADE!
—Fallei a puro esmo em quanto disse.... da minha pessoa. Quando escreveres a minha biographia procura em outra fonte os apontamentos, senão irás de gatinhas como até esta data em todas as mais... tens ido.
FIM.
[1] E se ha ahi quem saiba de algum remedio, que repare essa doença, annuncie pelos jornaes, por especial favor a uma creatura sugeita, desde aquella época até hoje, aos seus accessos.
[2] Quartinho escuro onde se guardam viveres. Em a dona da casa sendo desconfiada é difficil perder a chave.
[3] Vide supplemento do Jornal do Commercio de 16 de maio de 1866, correspondencias do Norte.