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Memorias de um pobre diabo

SEGUNDA PARTE.

Reading edition

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CAPITULO I.

Devo muito ao Rio de Janeiro, não é por estar na sua presença.

Ha um sentimento que eleva o cão acima de muitos homens: o reconhecimento do bem que se lhe faz.

Verdade, verdade; por esse lado, corro parelhas com a parentella de Pythagoras, cada vez mais numerosa, apezar das bolas.

Quando cheguei a esta capital, contava ella apenas seis peccados mortaes; dias depois, prefazia o numero dos indicados na cartilha.{32}

Não vim prefazer o setimo, como já pensaram; foi o ministerio n. 7, que se criou depois da minha chegada.

De haver a minha estrella influido para essa criação, é que não é nenhum juizo temerario, caipora depois de mim, só eu mesmo.

Isto não é politica.

Lembro-me que o programma do Camarão rematava assim (vide esse periodico n. 1, I.ª colum. ultimas linhas).

«Não somos politicos; a politica é uma escada; os tolos são os degráos por onde os ladinos sobem....»

Bem bonita definição.

«Não somos tão tolos, continuava a rezar o programma, que de nós deixemos fazer degráos, nem tão ladinos que queiramos subir.»

Linda epigraphe para a testa de um jornal intitulado O modesto.

E, pois, nunca fui tão tolo nem tão ladino, isto é, politico.

O que eu aspirava ex-corde, dos seios da alma, como hoje dizem, dando a alma a propriedade de amas de leite, era ser literato.{33}

CAPITULO II.

Ser literato... fosse como fosse, custasse o que custasse, desse no que desse, era o meu diuturno desejo.

Sahi do torrão natal no firme proposito de estudar mathematicas e os primeiros livros que comprei nesta côrte foram o Diccionario poetico, por Candido Lusitano e o das Rimas por Beltrano de Tal Guerreiro.

Eu era um montão de poetas a um só tempo, não se enganara o Lagarto.

Todas as paixões me ferviam dentro da alma, como a um tempo fervem muitas panellas n'um só fogão.

Na segunda feira, eu era poeta sceptico e crente; na terça, ascetico e materialista; na quarta, pudico e licencioso, e d'ahi até o domingo, mais seis poetas extremamente oppostos.

Animações choviam.

Os jornaes diarios e periodicos, a partir dos mais rispidos e terminando na benevolentissima Marmota Fluminense, me gritavam avante!{34}

Se eu dava á luz uma poesia recendendo scepticismo—é Byron, é Voltaire... diziam elles; se asceticismo—é o novo padre Caldas, é Racine (pai e filho), é o nosso David... se materialismo—é, outra vez, Byron, Piron, Parny... se tristeza—André Chénier e mais quatro; se facecia—é Bocage, Diniz e não sei quaes mais... se pudicicia e amor, não tem que vêr,—é Bernardim Ribeiro e até Sapho! se epigramma—é Juvenal, é Marcial, é Nicoláo Tolentino e mais tres vivos, sendo um destes o meu amigo Faustino Xavier de Novaes... se... o menos que me chamaram foi Homero!

E o echo repercutia pelos angulos do imperio—Homero!

Estavam cumpridas as prophecias do Camarão mais do Lagarto: na minha vanguarda não se via outro literato mais consummado.

E quando ao por do sol, do postigo das minhas aguas-furtadas, eu percorria in mente as paginas da literatura de todas as nações partindo do 1.º até o 19.º seculos, eu desdenhava os genios com a sobranceria do Pão d'Assucar contemplando as microscopicas ilhas{35} dispersas pelo oceano, como pés de repolhos á tona d'agua.

CAPITULO III.

Aos vinte e dous annos colleccionei meus manuscritos que, impressos, dariam tres volumes, inclusive versos e prosas, romances e dramas, comedias e algumas maximas.

Dirigia-me ao prélo com os originaes do primeiro volume (poesias), quando encontrei o maior enthusiasta e admirador do genio que o céo cobre, moço de 25 annos de idade, bacharelado em letras pelo collegio de Pedro II.

—Que andas fazendo, meu poeta? perguntou elle.

—Vou á typographia, respondi.

—O que estás imprimindo?

—As minhas obras, disse enchendo a bocca....

—Meus parabens, a ti e ao Brazil. Ora, graças a Deus! vamos ter uma literatura patria.{36}

Enguli a pilula sem difficuldade, como outros muitos a—tem engulido depois de mim.

—Quantos volumes?

—Tres.

—Só?! clamou admirado.

Como se aos vinte e dous annos de idade tres volumes de asneiras não bastassem.

—E quando sahem?

—Breve, aqui levo os originaes do primeiro volume.

—Permittes?....

—Pódes vêr.

O bacharel, meu amigo e enthusiasta, depois de varrer duas vezes com os olhos os originaes, assim se exprimio, como quem entendia do riscado.

—O titulo abrange o totum; direi até—este titulo foi inspirado e leu.

«Horas incertas Versos, prosas e comedias, Dramas, maximas e pensamentos do Exilio.»

—É como digo, proseguio; isto que é{37} saber achar um titulo. Horas incertas! quanta profundeza nestas duas palavras horas incertas!... Se as horas da vida são incertas, mais incertas são as horas do genio....

(Sim, porque o genio não tem horas certas, é da sua indole não saber nunca a quantas anda.)

—Concedes-me uma observação.

—Faze-a.

—Gósto de tudo isto, tudo isto é grande, menos a epigraphe. Esta epigraphe não cabe nas obras de um genio.... E leu a epigraphe:

«Joios da adolescencia levados á praça pela precisão.»

—Joios! chamar joios a um celeiro de trigo são! e depois, levados á praça pela precisão! que significa isto?

—Eu te explico....

—Não pergunto por ignorar o teu pensamento; sinto-lhe a essencia; sei o que tu queres dizer: levados á praça pela precisão, todos entenderão a elipse, pela precisão de... voar... sim, de voar, porque o genio precisa voar como a aguia, como o condor. Os malevolos, porém e invejosos cujas linguas{38} não poupam os genios, esses dirão ser a precisão de dinheiro, apezar de todos saberem que tu de dinheiro não precisas...

Estavam adiantados! era justamente do que eu mais precisava[1].

—Ou precisas? perguntou com ar de quem responderia sentir muito não me poder servir na occasião, se lhe eu respondesse pela affirmativa.

—Ora... desdenhei. Eu lá careço de dinheiro!

—Se precisas, tornou animadamente, não faças ceremonia comigo.

E sem esperar pelo muito obrigado, continuou.

—O estylo é o homem, disse Buffon; por minha vez tambem digo: o nome do autor é a epigraphe do seu livro; tu não te deves rebaixar deitando outra epigraphe nas tuas obras que não teu proprio nome.

Á vista disto, chegando ao prélo borrei a epigraphe.{39}

CAPITULO IV.

Já se achava quasi finda a impressão do primeiro volume, quando em um bom dia recebi este bilhete traçado a lapis:

«Illm. Sr.—Vou suspender a impressão das suas poesias, até que V. S. satisfaça a importancia de 113$500 das ultimas folhas impressas.»

Subi ás nuvens. O recadinho vinha escripto no reverso da prova de uma das minhas mais mimosas poesias.

Tomei a penna e desanquei o recado com esta resposta:

«Illm. Sr.—Que eu deva não admira, todos os autores celebres têm contrahido dividas com a imprensa, e sabem todos que a machina inventada por Guttemberg não é simplesmente machina de imprimir, é tambem machina de abonar o credito dos homens. O que, porém, admira até os calcanhares é um sectario de Guttemberg menospresar a seiva, digamos assim, de que se nutre a imprensa, isto é, os fructos da intelligencia. V. S. é um renegado, queira perdoar. Commetteu{40} crime de leza-literattura-nacional traçando o seu recado nas costas, digo, no reverso da prova da minha poesia intitulada a Piroga! Suspenda, portanto, a continuação da impressão do meu volume, até minha segunda ordem.»

Levou a lição!

CAPITULO V.

Em verdade, eu devia ao prélo cento e treze mil e quinhentos réis.

Do que me gabo hoje é que, actualmente nas typographias, o credito dos escriptores não monta áquella quantia.

—Diabo!.. ruminei, alguns jornaes já annunciaram o proximo apparecimento de minhas poesias: se não satisfaço a conta pára a impressão; se a impressão pára, começam os typographos a decorar os versos impressos... elles então que são cantadores de modinhas! e decorados, adeus novidade! Ruminando na solucção do imprevisto embaraço, fui interrompido pelo padre Severino. Conhecem-o?

Eu tambem já o-conhecia.{41}

O reverendo entrou pelo meu habitaculo clamando:

—Leva-me preso comtigo N'um fio dos teus cabellos!

—Glose este motte, meu poeta.

Nós já nos não respeitavamos.

—Ouça isto, foi proseguindo:

Não se sabe apartar quem ama e pena, E quem nisto é mais fraco, este é mais forte; A dôr da mesma morte é mais pequena, Que quem morre melhora muito a sorte; Quem morre acaba o mal, quê toda a pena Dura co'a vida sem passar da morte: Maior pena padece o que está ausente, Pois morre de saudade e morto sente.

—O que acha?

—Que li algures...

—Onde homem? isto é meu e muito meu. Pensa vossê que só faz versos? Por mais prosa que a gente seja, batendo-lhe devéras o coração, torna-se poeta. Adivinhe o que me succedeu?

—Suspenderam-lhe as ordens...

—Assim fosse; cousa mais seria; partio para a Bahia a Mariquinhas...{42}

—Qual dellas? o padre falla em tantas...

—A da rua da Lapa, a unica Mariquinhas, que tenho confessado, de olhos azúes. O marido foi removido.

—Coitado do homem!

—Faça idéa do meu pezar ao receber esta noticia, chegando hontem de Petropolis.

—Avalio!

—Vossê, deve escrever um artigo contra o ministerio, tosando a valer o ministro da fazenda. Isso é cousa que se pratique, remover d'aqui para alli e sem porquê um pobre empregado publico?

—E de mais a mais casado!...

—E querem moralidade, e exigem honradez da pobreza obrigando-a a fazer sacrificios... escreva o artigo, mostre tambem saber prosa.

—Mas, padre, porque não o-escreve vossê, que é o interessado?

—Muito obrigado! então vossê porque não é padre, não se interessa pelos seus semelhantes?

Non sibi soli se natum homo Meminerit...

Seja menos egoista meu poeta, e glose o motte:{43}

Leva-me preso comtigo N'um fio dos teus cabellos,

que é para eu remetter com aquella oitava a Mariquinhas. Quero uma decima triste, triste como o miserere.

—Temos outra. Pois se o padre é quem está triste, porque não compõe a glosa?

—Porque tenho que pregar um sermão na quinta-feira, o vapor sahe amanhã para a Bahia e hoje é terça.

—Pois eu, reverendo, não terei cabeça para glosar motte algum, emquanto não resolver este problema: cento e treze mil e quinhentos réis, que devo, estão para o que tenho, como o que tenho está para X...

E ficamos a olhar um para o outro, durante cinco minutos.

CAPITULO VI.

—É como conto, tornei interrompendo o silencio, devo cento e treze mil e quinhentos réis e não possuo um real para chamariz dos outros.

—A quem deve?{44}

—Á typographia onde estou imprimindo as minhas poesias.

—Vossê ha de ter algum amigo, que lhe empreste essa quantia, nem por isso é grande.

—Empresta-m'a o padre?

—Eu? pobre de mim! Meu caro, nós os padres não ganhamos, como vulgarmente se pensa, mundos e fundos. Quantas vezes tenho, em vez de encommendar á Deus, encommendado ao diabo algumas almas... uma encommendação por dous mil réis só feita ao diabo! Já não se póde viver nesta côrte, acredite-me, encommendando; e por fallar nisto, vou vêr se fallo ao vigario capitular, quero conseguir ao menos, a nomeação de vigario encommendado. Até breve, meu poeta. Tomára já vêl-o em outra posição.

E sahio.

E que me dizem?...

CAPITULO VII.

Suggerio-me á mente uma ideia a visita do padre. Havia elle, dias antes, publicado{45} um estirado artigo relativamente á instrucção publica e com particularidade á desmoralisação do clero. Quanto a esta não sei se fallou de cadeira, lá quanto á instrucção deixou impressas mil barbaridades.

—Se o conselho da instrucção publica, pensei, mandasse admittir nas escolas as minhas maximas? E porque não? As de La Rochefoucauld são muito sediças; as do marquez de Maricá inadmissiveis por extensas; as de Vauvenargues ninguem ainda leu; as do conselheiro Bastos ultramontanas exageradas; as de Montesquieu são carapuças politicas; as... as minhas são modernas... e, approvadas pelo conselho da instrucção publica, editores não faltarão.

Estava dada solução ao embaraço dos cento e treze mil e quinhentos; vendi, in-mente, a primeira edição das maximas.

Nesse mesmo dia fiz o requerimento ao conselho da instrucção publica remettendo os originaes. As sommas das maximas montava ao numero 1250, sendo algumas rimadas e outras anotadas—entre parenthesis.

Apreciem-me por esse lado, emquanto avio a lavadeira, que chega a pello.{46}

CAPITULO VIII.

A VIDA:—A vida é um pique-nique, e nós, ainda os mais refinados caloteiros, havemos de pagar o nosso escote á morte.

(Para these dos sermões de quarta feira de cinza não conheço outra. O memento homo já não produz nada...)

VERDADE:—Uma verdade é uma mentira ás avessas.

(Difinição a mais clara possivel).

DISPENSA:—[2]A mulher que pensa Engorda a dispensa.

(E a familia toda. Na casa das minhas avós até as baratas da dispensa eram gordas, não fallando nos ratos).

AMOR:—O amôr Não tem côr.

(Neguem, se são capazes).{47}

AMAR:—Quem ama perdoa, E não vive á toa.

CIDADÃO:—O cidadão deve ser para a patria o que o menino é para a escola.

(Conhecem moralista mais governista?)

FALLAR:—Quanto menos fallares ao jantar, Menos fome terás ao ceiar.

(Lição altamente economica).

CHÁ DO VISINHO:—Ha pessoas que tem quebrado muitas abas de chapéo fino e sujado muitas luvas de pellica—pela obrigação de uma chicara de chá do visinho.

(Conheço tres duzias).

PROSPERIDADE HUMANA:—Prosperaria mais a humanidade, se os padres semeassem trigo em vez de absurdos.

(Não creio nisso; escrevi a maxima para bolir com o padre Ventura, que então ainda vivia.)

CONDECORAÇÕES:—Se as condecorações estimulassem o caracter para o bem, a esta hora no Brasil não haveria máos caracteres.{48}

(Negarei a paternidade desta maxima, quando fôr commendador).

BAPTISMO:—O baptismo só é util pelo lado da estatistica.

(Esta é para bolir com o padre Severino.)

ATHEO:—O atheo é um ente tão desprezivel, que, não achando entre os homens quem queira ser seu inimigo, faz-se inimigo de Deus.

(Esta salva as memorias da condemnação do index).

& & & & & & & & & & & &

CAPITULO IX.

Primeiro que as maximas obtivessem despacho, recebi da minha terra uma carta do muito probo Sr. Silva, cognominado pelo vulgo o tira pelle, negociante com armazem de seccos e molhados na travessa da Forquilha.

Recommendo este estabelecimento aos que procuram do bom e barato.{49}

O vulgo, que sempre ha de mostrar ser vulgo, cousa baixa e vil e mais baixa e mais vil depois das eleições concluidas, cognominára tira pelle a esse honrado cavalheiro por um facto, que, em seu nome, justificarei.

O Sr. Silva nunca tirou nem pretendeu tirar o couro, quanto mais a pelle, á ninguem.... obrigaram-o a isso.

O meu amigo, actualmente negociante matriculado, começou a vida refinando assucar. Honra lhe seja feita, antes principiar a vida refinando assucar do que leval-a ao cabo na qualidade de refinado vadio, ou refinadissimo velhaco.

Achava-se certa vez na sua labutação, quando apparece na cosinha um individuo, que entrou pela casa como se fosse o dono.

—Sr. Silva! diz o individuo com má catadura.

—Bom dia, Sr. Alves, acode o laborioso refinador; e foi continuando a mecher o tacho com a grande escumadeira.

—Não temos cá bons dias! replica Alves. Quero que diga, quantas arrobas de mascavo-claro mandei refinar.

—Cinco, respondeu o refinador.{50}

—Justas, cinco; e quantas enviou?

—Quatro e meia.

—Justas, quatro e meia. Quatro e meia, sim, quatro e meia.... porém, duas e meia de assucar e as outras do que, Sr. Silva?

—Tambem de assucar, está claro.

—De assucar.... de assucar, êim, Sr. Silva? Digo-lhe, todavia, que entendo de refinação....

—Não duvido.

—Duvide ou não duvide, o que digo, digo. E quando digo que cinco arrobas de assucar são cento e sessenta libras, é porque sei que uma arroba, seja lá do que fôr, tem trinta e duas libras. Ora, sendo certo, como é incontestavel, que cada arroba de mascavo-claro perde na refinação, quando muito cinco libras, é porque tambem sei que em cinco arrobas perderá vinte e cinco, já que a taboada quer que cinco vezes cinco sejam vinte e cinco.

—Noves fóra sete, diz rindo-se Silva.

—Não preciso que o senhor me ensine a tirar os noves fóra, o que preciso é saber como é isto....

—O que? pergunta o outro.

—Que devendo eu, por consequencia, receber{51} quatro arrobas e sete libras de assucar refinado, recebi quatro arrobas e meia?

—Está-se mettendo pelos olhos; é que mandei nove libras de mais, segundo a sua taboada.

—A taboada não é minha, Sr. Silva! brada Alves, enfurecendo-se mais. A taboada é de todo o mundo, entendeu?

—Entendi... entendi... responde o meu amigo com santa calma.

—O que é meu é o calculo, e, conforme calculei, entre as quatro e meia arrobas de assucar, foram duas de arêa, fique sabendo de arêa...

—De arêa? acode o refinador cahindo das estrelas; essa agora é sua... ou então o portador...

—Não temos aqui portador nem portadores. Os meus caixeiros são homens de bem, e o senhor devia saber que, sendo meu freguez o presidente da camara, mais dia menos dia, eu seria multado pela sua... e engulio a palavra.

—Solte a palavra... brada Silva.

—A palavra é ladroeira, responde Alves.

—Então sou ladrão? Diga, se é capaz, sou ou não sou?{52}

Alves não se intimidou e asseverou;

—É, é, e é ladrão, e ladrão refinado...

O meu amigo não podia ser mais prudente do que o foi até alli. A prudencia, porém, tem o seu termo. Alves não previu que, obrigando o honrado refinador a sahir fóra do termo da prudencia uma pollegada, sugeitava-se a receber, como recebeu, na cara a escumadeira impregnada de assucar em calda a ferver. Sem esperar repetição da dóse, Alves sahio vendendo mel ás canadas.

Quinze dias depois tinha a mesma cara, menos a pelle.

Propalado o caso, deu-se ao meu amigo o cognome citado, que nada teve com a substituição do assucar trocado por arêa, como prova a carta a qual me repórto.

CAPITULO X.

Eis a carta em capitulo separado.

«Illm. Sr. (Historica.)

Presadissimo amigo.

«Inclusa remetto a V. S. uma letra saccada{53} a seu favor sobre a casa Souto & C., dessa côrte, obsequio que faço a sua madrinha de baptismo, viuva do seu padrinho, ultimamente fallecido. Sendo-lhe deixada em testamento pelo dito fallecido, pelo que aceite os meus pezames, a quantia de 450$000, a letra vai saccada no valor de 437$820 por subtração a que tenho direito de 12$180, sendo:

Direito de confiança, 2%. 9$000

Sello e seguro desta. 1$180

Papel e expediente. 2$000

Somma... 12$180

«Poupe o seu dinheiro, meu amigo, olhe que muito custa havel-o.

«Sou seu amigo e criado.»

Não foi elle quem grifou a palavra subtracção.

CAPITULO XI.

Quando o conselho da instrucção publica deu este despacho ao meu requerimento: «Junte o supplicante folhas corridas», eu já{54} não precisava de editor para as maximas.—Resgatado da imprensa o meu 1.º volume já corria pelo mundo.

Estava saboreando a leitura do mais pomposo elogio, que jámais se teceu a nenhum outro homem de letras, quando entrou o Sr. Gusmão. O Sr. Gusmão era typographo e trabalhava na officina onde se imprimio o volume. Vinha buscar os originaes do segundo.

—Meu caro Sr. Gusmão, assente-se, então como vai?

—Remendando a vida.

—Já leu o meu livro?

—Sim, senhor.

—Francamente, como o-acha?

—Volumoso...

—Volumoso, sim, quasi que abrange trezentas paginas. Já comecei a urdir um poema heroico.

—Que titulo?

—Homem, ainda não sei; talvez lhe ponha o titulo em lingua indigena, quero vêr se desperto a literatura nacional.

—É muito preciso.

—Se o-é. O Sr. Gusmão entende de poesias?{55}

—Gosto de lêr, sim, senhor.

—De qual genero gosta mais?

—De todos, sendo a poesia boa.

—Gosta do meu genero?

—Qual é?

—São todos, pois os jornaes não disseram que eu primo em todos os generos? Então não leu o meu livro?

—O senhor sabe, lêr é um caso e compôr é outro. Na qualidade de compositor li-o quando o-compunha, na qualidade, de leitor, propriamente dito, ainda não o-li.

—Então não sabe dizer se os versos são bons, se as rimas ricas, se é corrente a grammatica, se ha ideia...

—Mas V. S. deve estar contente com a opinião dos jornaes.

—Contentissimo. De cada vez que leio um elogio releio o volume, e quando acabo de relêr a este tenho vontade de escrever outro.

—Lá isso ha de ter.

—Diga com franqueza, nem de passagem notou tal ou qual defeito?

—Ninguem anda isento delles.

—Nos versos?{56}

—A sua metrificação é regular.

—Nas rimas?

—As rimas são toleraveis, excepto algumas como, por exemplo, nuvem com houve...

—E que diz da dicção?

—A dicção...

—Seja franco, eu não sou parente daquelle cura, que foi amo de Gil-Braz.

—Como pede franqueza direi que, se não fosse a grammatica, o livrinho podia passar incolume, mas a sua grammatica é muito differente d'aquella por onde aprendi.

—Aprendi pela do Lobato.

—Então é a mesma. Queira vêr os originaes do segundo volume.

—Ainda não os-reuni todos, volte amanhã, se não fôr incommodo. Quer fumar, offereço-lhe um charuto de Havana.

—Não senhor, obrigado, eu não fumo se não charutos de vintem.

Eu fiquei fumando...

CAPITULO XII.

De que lado estava a verdade, do Sr. Gusmão{57} ou dos jornaes? Afinal de contas, o typographo tinha razão. Entretanto, a primeira parte do meu celeiro de bom trigo, no conceito do meu amigo bacharel, estava esgotada!

Hoje, quando corro os olhos pelo exemplar que, por castigo, releio uma vez na semana, dirijo ao creador este acto de contricção: «Meu Deus e meu Senhor! por serdes vós, quem sois, permitti que os irmãos deste exemplar caiam todos n'uma padaria e passem para as fornalhas como auxiliares da lenha, que nesse dia cosinhe os pães! São elhas por elhas, Senhor, trigo cosinhando trigo. Amen.»

CAPITULO XIII.

Ao outro dia recebi o Sr. Gusmão entre os braços.

—Entre, meu amigo, assente-se e conversemos. Ainda aqui está o charuto de Havana, aceite-o.

—Obrigado, mas não aceito, insistio o homem. Penso diversamente dos outros; o{58} que não posso sustentar todos os dias, não alardeio uma vez. Demais, habituado a fumar charutos de vintem, sabem-me a pessimos os de tostão para cima.

—Respeito o seu modo de pensar. Dou-lhe parte que suspendo a publicação das minhas obras.

—Então tomou a peito a opinião de um typographo?

—E o typographo não póde ter opinião aceitavel, não póde saber grammatica?

—Que opinião póde ter o homem, que anda de ventanilha? Lá quanto a grammatica devia saber. Onde me vê, com o pouco que entendo della, tenho salvo a reputação futura de muitos escriptores, aliás intelligencias brilhantes, emendando-lhes, quando componho seus originaes, erros de tirar couro e cabello...

—Ora, Sr. Gusmão, porque não emendou os meus?

—O senhor desejava um volume de trezentas paginas e se eu corrigisse os seus descuidos não ficava o livro com cem....

Apre! tambem esta foi de tirar couro e cabello!{59}

EPILOGO DA SEGUNDA PARTE.

Ahi vai em italico o que devo ao Rio de Janeiro; saiba o Imperio todo:

—Devo o conhecimento do Sr. Gusmão,—que me mandou aprender—grammatica—depois dos jornaes me haverem—chamado—Homero—!

Cautela com as reputações.{60} {61}

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