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Memorias de um pobre diabo

PRIMEIRA PARTE.

Reading edition

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CAPITULO I.

Vim á luz ao pôr do sol, minutos antes do toque das Ave-Marias. Hora fresca. No anno em que nasci, não appareceu nenhum cometa por cima de mim. Não requeri para vir á luz e, ai de nós! se o nascimento dependesse de um—como requer!—A esta hora meio mundo não teria feito a barba.

Do dia do nascimento aos meus oito annos de idade, deram-se mil e uma circumstancias; notem que não digo—pormenores e aprendam a evitar um hespanholismo.{10}

CAPITULO II.

Aos doze annos lia, escrevia, contava e até grammaticava, se dou crédito ao attestado do meu professor, que, nesse tempo, escrevia deste modo—proFeçôr.

Ainda noje não atinei como aprendi a lêr, a escrever, a contar e a grammaticar com um professor, que lia Simeão da Nautica em vez de Simão de Nantua, orthographava professor d'aquelle modo, contando pelos dedos quando sommava 3+2+5?!

Tambem já não tinha medo de almas do outro mundo.

CAPITULO III.

Ouçam isto:

—Senhor meu sobrinho! abeire-se cá, sommemos as nossas contas. Ha dous mezes esteve vossê de cama, em risco de morrer entrevado, consequencias das suas sahidas de casa a deshoras; pondo novamente os{11} pés na rua foi contrahir uma divida na importancia de oitenta e cinco mil e quinhentos réis; aqui tenho a nota:

1 Vestido de cambraia de côr com babados. 15$000

1 Chale de lã e sêda. 10$000

Dinheiro pedido. 6$000

Juros. 2$000

2 Pares de chinelas de saltinho. 6$000

1 Peça de morim francez. 8$000

1 Vidro d'agua de Colonia. 1$500

1 Dito de Patchouly. 1$000

1 Pente de tartaruga (imitação). 10$000

1 Pote de pomada. 1$000

1 Par de brincos (ouro de lei). 25$000

Rs... 85$500

pagos por mim ao Sr. Moreira, por honra das cinzas de meu irmão. Não satisfeito com esta compra, que vossê diz ter feito para seu uso, como se eu fosse algum pato, ave a mais estupida dos gallinheiros, tanto assim que sempre ouvi chamar pato a quem se deixa levar, sobretudo, pelos não me-deixes de certas mulheres; não satisfeito, dizia, ha oito dias recebeu vossê uma sova de peias,{12} em resposta aos desaforados versos que dirigio á santa mulher do honrado visinho o Sr. Onofre. Somme as parcellas, subtrahindo a sova a seu favor, e veja quanto me resta? O embolso é a sua entrada para a escola de aprendizes marinheiros.... Vá aprender a ser homem....

—E os meus estudos, tio? balbuciei.

—Os seus estudos! replicou elle; o que estuda vossê?

—Oh tio! o latim....

—Sim, o latim.... ha quatro annos anda vossê estudando o latim; e o que sabe delle?

—Já declino os nominativos, tio....

Que vergonha! eu chegava aos 16 annos!

CAPITULO IV.

O excellente velho era homem de têmpera austera, não lia os jornaes. Se os lesse teria visto que eu, apezar de haver gasto quatro annos para no cabo chegar aos nominativos da artinha, por outro lado, dava provas do meu talento.{13}

N'aquella idade já o Camarão e o Lagarto, periodicos literarios, artisticos, politicos e burlescos publicados então, chamavam a attenção dos leitores, o primeiro para o meu artigo intitulado O homem deve ser sceptico e o outro sobre a minha poesia—Ella (á qual meu tio alludio quando fallou na santa mulher do nosso honrado visinho o Sr. Onofre).

O meu primeiro escripto que andou em letra redonda foi o artigo. Quem conhece o gigante pelo dedo, conhecerá o artigo inteiro por este começar:—«Eil-o cabisbaixo e taciturno fitando o horisonte da existencia... Esqueleto de crenças resequidas, elle descrê da luz e das trévas, de si e de todos, etc.»

O Camarão, sem inquirir como póde a gente cabisbaixa fitar o horisonte da existencia, e muito menos a que animal pertencera o esqueleto de crenças resequidas, rematava o encomio ao artigo com estas palavras de arromba:

«É de crêr que o joven e talentoso escriptor com o andar do tempo modifique as doentias idéas, prematuramente bebidas nas fontes de Benedicto Spinosa, J. J. Rousseau,{14} Claudio Helvecio, e outros materialistas. Asseveramos, no entanto, que se este artigo levasse o nome de um destes autores—seria uma faisca electrica lançada no meio da sociedade; tal é o vigor dos seus paradoxos...»

Muito obrigado, aos Srs. Redactores do Camarão.

CAPITULO V.

Quando escrevi—O homem deve ser sceptico, eu sabia onde ficava a fonte de Helvecio, Rousseau, Spinosa e outros, que o Camarão conhecia igualmente, como no Japão a esta hora se sabe que hontem chegou o vapor do Norte! Mas tal nomeada de literato consummado ganhei na opinião dos ledores do Camarão, que a redacção do Lagarto, receiando desequilibrar a prosperidade, poz logo á minha disposição todas as suas columnas.

Respondi á offerta enviando a minha—Ella.

Tres dias depois, corria ella o mundo,{15} inserta na 1.ª columna do 1.º numero da 2.ª serie do periodico, levando na cabeça este chapelinho:

«—A redacção do Lagarto sente ineffavel satisfação dando aos seus assignantes a grata noticia de haver o muito talentoso, muito sympathico e já assaz conhecido autor do—Homem deve ser sceptico, honrado as humildes columnas do nosso periodico com o prestigio do seu invejavel nome. A poesia abaixo inserta, verdadeiro primor da imaginação, fôra o melhor padrão da gloria de Petrarcha, se Petrarcha a escrevesse. Felicitamo-nos, pois, reconhecendo que o mavioso poeta deste torrão, reune em si conjunctamente as qualidades dos cysnes do Senna, do Tejo, de Thebas, de Albião, de Torento, da Ausonia, etc.»

Leiam a primeira estrophe d'ella:

—Não sei dizer se a flôr da larangeira É tão formosa, tão gentil, tão bella, Como a flôr do jardim da phantasia, A flôr do meu amor, a minha—Ella...

Quem souber, diga.

Vim a saber mais tarde que cysne Ausonio{16} queria dizer—Virgilio; cysne de Torento—Torquato Tasso; Cysne de Albião—Miltão; cysne de Thebas—Pindaro; cysne do Tejo—Camões; cysne do Senna—Lamartine; cysne da... n'uma palavra, que todos os poetas tem o seu quê de pato.

CAPITULO VI.

Peroremos: meu tio não tentára torcer a minha vocação se lesse os jornaes, ficando provado que se ella fosse outra e não a pessoa da Sra. D. Balbina, santa mulher do Sr. Onofre, de memoria não saudosa para meus ossos, eu não teria levado a sova de peias estreando na poesia.

—Do berço á tumba só padece o genio!

CAPITULO VII.

O irmão de meu pai não faltava quando promettia.{17}

Era seu dizer de todos os dias que o cumprimento devia andar nas ancas do prometter, (ditado da maior embirração dos ministros).

Prometteu-lhe no domingo, cumprio na segunda.

Sahia-me eu lepido com a artinha debaixo do braço.

—Aonde vamos? pergunta.

—A aula; respondo.

—Não senhor, não é a aula, vamos para o arsenal de marinha... marche...

—Eu juro ao tio... gaguejei, esfregando os olhos com as costas da mão, de ora em diante estudar, como se fosse um boi...

Tinham-me contado que se os bois fossem homens seriam grandes letrados.

—Para boi caminha vossê, replica elle, que para bezerro não lhe falta nada.

Já estavamos no meio da rua. E a mulher do Sr. Onofre na janella.

Nem de caso pensado, meu tio foi em direitura. Eu tinha desejado o contrario... n'aquelle dia bastava eu desejar, para succeder ás avessas, fosse o que fosse.{18}

CAPITULO VIII.

—Bom dia, vizinha; disse elle parando a um metro de distancia.

—Deus lhe dê o mesmo; respondeu ella.

—O vizinho Onofre, está?

—Sahio.

—Tinha a dar-lhe boa noticia.

—Que noticia é, então?

—A da entrada deste meco para a companhia de aprendizes marinheiros... além de outros, pelo atrevimento... a vizinha bem sabe...

Para encobrir o pudor, que me colorio as faces, abri a artinha fingindo declinar o servus servi, observando de esguelha a vizinha.

—Por isso não vá agora o vizinho, acudio ella medindo as palavras, desencaminhar o moço dos estudos.... sabe que... repelli o atrevimento... Disse—repelli—em tom menor.

—Desencaminhado anda elle, ha muito tempo, tornou meu tio... Ainda hontem, fui saber no mercado que o nome deste madraço já corre em letras de fórma.{19}

O Sr. Onofre apontou na esquina.

Patife!

CAPITULO IX.

—Perguntava pelo vizinho.

—Apre! diz o Sr. Onofre, já não se póde em dias de hoje comer farinha... cára como o assucar... Como vai o rapazete? (continua, dirigindo-me a palavra).

Não me pude conter. Tudo quanto quizesse, menos rapazete diante da mulher.

—Sr. Onofre, investi, veja como falla!... Rapazete foi o senhor quando tinha 16 annos; eu aos 16 annos não sou rapazete, sou um homem de muito talento e escriptor de boa nota e como tal reconhecido pelo Camarão e pelo Lagarto, fique sabendo, se não sabe lêr. Se o senhor me chama rapazete porque não tenho barbas, saiba que não faço caso de cabellos, desses distinctivos do toucinho ordinario, e que não tenho barbas porque não as quero ter. E de mais, assim como ha mulheres as quaes não sendo do genero{20} masculino têm barbas, de igual modo, ha homens os quaes não sendo do genero feminino não as têm...

Os circumstantes pasmaram.

De relance, pensei que meu tio gostara da resposta, quando... zás... atira-me uma tapona, verdadeira tapona, tapona com todos os ff e rr e mais esta addenda:

—Leve, malcriado, para môlho do Camarão mais do seu Lagarto.

CAPITULO X.

Atirando o Antonio Pereira pelos ares, deixando voar o chapéo, deitei a correr pela rua fóra, enfiando-me pelo primeiro becco, como navio fugindo do temporal pela primeira enseada.

Abençoado becco!

Abençoadas pernas!

Abençoados oitenta e cinco mil e quinhentos réis, pagos por meu tio ao Sr. Moreira!

Abençoado tambem seja o dito Sr. Moreira, pelo bom conceito, que fez do meu credito!{21}

Bem empregados oitenta e cinco mil e quinhentos réis dispendidos comtigo,—Aurora!

CAPITULO XI.

Na aurora da vida, ao alvorecer do amor, a primeira mulher que amei chamava-se—Aurora!

Como é poetica esta coincidencia, e como ficou bem phraseada! Quando eu for homem celebre ahi fica o thema para uma Epopéa.

Aurora morava no becco!

Relatei-lhe a occurrencia, guardando reserva ácerca da tapona.

Para ganhar mais no seu coração, fallei nos oitenta e cinco mil e quinhentos réis, acrescentando, se eu tal adivinhára houvera empenhado na loja do Sr. Moreira todos os teres e haveres de meu tio.

O galanteio influe naturalmente no coração da mulher, soube aos 16 annos, antes de saber latim, e, conseguintemente, antes de lêr Ovidio.

O numero do Camarão onde vinha inserto{22} o meu artigo O homem deve ser sceptico, e o do Lagarto onde vinha a Ella, andavam comigo como talismans. Tirei do bolso o Lagarto e dei a Aurora para lêr os versos, declarando serem feitos quando pensava n'ella.

A rapariga ainda ignorava mais essa prova de amor, (que tão cara me sahira quando a dei á visinha).

A ultima quadra commoveu-a de uma vez: tambem era o sentimentalismo metrificado.

Que peito de mulher não commoverá esta quadra:

«Sê minha? Serei teu.... abre-me os braços.... Voemos deste mundo.... Sacuras Fujamos do paul.... vamos, querida, Fazer o nosso ninho nas alturas?!

Aurora lia soletrando palavra por palavra. Quando acabou de lêr eu estava com fome. Davam tres horas da tarde:

CAPITULO XII.

Eu contava 16 annos.

Aurora cerca de 26. {23}

Meu tio ignorava o rumo, que eu tomara, em seguida a tapona; Aurora não tinha a quem désse contas do rumo e nem quem lhe désse taponas.

Eu precisava de credito no coração de Aurora; Aurora creditava meu amor...

N'uma palavra, se me afiançam dous dias, tão saudosos, como os que passei ao abrigo de Aurora, vá feito, aceito uma tapona de tres em tres dias... Não posso ser mais rasoavel.

CAPITULO XIII.

Verdade lizas diziam os antigos, diziam elles: hospede ao terceiro dia fede.

Na casa do proprio amor, tres dias depois, não cheira o hospede.

Ao quarto dia, me disse Aurora:

—Não te amuas comigo?

—Porque? perguntei.

—Se eu te disser a verdade?

—Não.

—És um empecilho...

—Só?{24}

—E é pouco?

Era de facto assaz. Puz-me a pensar.

—No que pensas? tornou ella.

—Na cousa mais simples deste mundo.

—Qual?

—N'um chapéo...

—Por fallares em chapéo, de quem será um, que anda pelo sotão?

—Poderá ser meu... anda vêr...

A rapariga não se deixou rogar. Lesta foi, lesta voltou.

—É justamente meu, clamei, antes de pôr o chapéo na cabeça.

O chapéo era tanto meu como de quem me ouve. Ficava-me na cabeça por muito obsequio.

—Acautela-te, acudio Aurora, olha que elle quer subir...

—Aurora, lhe disse com seriedade, toma um beijo... é tudo quanto posso dar-te, como lembrança de minha gratidão...

Ao proferir a palavra gratidão—cresceu-me o nó da garganta.

—Não me deves nada, meu querido, respondeu a meia voz. Eu sinto muito mas... tu sabes...{25}

—Sei... tens razão... adeus...

Beijamo-nos...

—Tornas ao tio?

—Torno.

Sahi.

—Pois, se tornares ao tio, rematou ella fechando a porta, apparece por aqui de quando em quando...

—Se tornares ao tio, repeti a mim mesmo, sim! se tornares ao tio, isto é, quando tiveres casa, a minha estará as tuas ordens... Agradecido, Aurora.

No entanto, Aurora tinha coração.

Assim houvesse ella juizo.

CAPITULO XIV.

Entrei em casa com cara de quem voltava da missa.

Meu tio estava almoçando.

—Quem é? perguntou ouvindo os meus passos, e sem volver os olhos.

—Sou eu... tio... respondi, entre dentes.{26}

—Quem?

—O Sr. moço; respondeu por mim Nicoláo.

—Senta-te, meu filho; o almoço não se diminuio, nem o jantar... nem o amor. Disse com natural bondade.

A minha cadeira estava como d'antes á sua esquerda, o talher e o prato no lugar do costume.

Sentei-me e cruzei os braços como um penitente.

Meu tio continuou a almoçar sem dar palavra.

Eu tinha almoçado no becco...

Nicoláo trouxe a nata, sobremesa que meu tio nunca dispensava ao almoço. Regeitou-a. O preto carregou as sobrancelhas admirado. Pôz-lhe o café na chicara; sorveu-o e, emfim, levantou-se.

Levantei-me tambem.

—Agora venha esta sobremesa, melhor que todas as natas, disse abrindo os braços.

Atirei-me n'elles como o prodigo nos de seu pae.

Solucei devéras, pela primeira vez em dias de minha vida.{27}

Tambem pela primeira vez a modo que vi lagrimas nos olhos de meu tio.

Este capitulo ia tomando fórma de eça?

CAPITULO XV.

Nasceram-me n'aquelle dia os dentes do siso.

Oito mezes depois, fui examinado e aprovado cum laude em latim e francez. Após dous annos, em geographia e historia, philosophia, rhetorica e lingua tupy. Presidio aos exames um bispo.

As pitadas de algebra e geometria, inglez, physica e chimica, tomei-as mais tarde aqui no Rio de Janeiro.

Reunindo tudo o que sei, fico sabendo conscienciosamente que careço aprender tudo de novo, menos o methodo de passar por sabio.

EPILOGO DA PRIMEIRA PARTE.

Os ultimos dias dos meus dezenove annos correram nesta côrte.{28}

Meu tio já havia fallecido quando deixei o torrão natal:

A santa mulher do Sr. Onofre enviuvado segunda vez:

O redactor em chefe do Camarão, pedido demissão de supplente de delegado de policia, por desaccordo politico com o redactor do Lagarto, que se fizera genro do delegado.

Se as cousas não pararam alli, a esta hora o delegado está avô de alguns netos, estes inspectores de quarteirão e a Sra. Balbina viuva pela quinta vez.

Mulher de nome Balbina, perca as esperanças, comigo não casa.{29}

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