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Flores do Campo

VI

Reading edition

PASSEIO

CORO

—Que linda mulher aquella! Nem a aurora lhe ganha. A lua não é tão bella Nem a luz do sol tamanha; Mette mais vista só ella Que um exercito em campanha.

A SULAMENSE

—Nunca tive um susto igual! Ia á horta das nogueiras, Ia passear ao valle, Vêr se tinha flôr a vinha E já romãs as romeiras; Mas a multidão que vinha Atraz de mim era tal Que não vi nada, e tão cedo Apanho tamanho medo.

CORO

—Oh não fujas, anda cá, Sulamense! deixa vêr Belleza como não ha No mundo nem póde haver.

SALOMÃO

—Arrebata na verdade, Mas como um canto de guerra, Porque ao mesmo tempo aterra Este ar e magestade.

O teu andar, que nobreza! E tem o pé uma graça Assim calçado, princeza!

Os joelhos, que perfeitos! Não ha ourives que faça Eixos de oiro mais bem feitos. Umbigo, qual é a taça, D'estas taças pequeninas Por onde a gente costuma Beber bebidas mais finas, Tão redondinha? Nenhuma.

É o ventre de tal modo Casto e fecundo, que apenas Um monte de trigo, todo Rodeado de açucenas Me parece haver no mundo Assim tão casto e fecundo.

O teu seio é um casal De corcinhas, que o seu pasto São açucenas do val: Nada mais timido e casto!

Lembra-me o pescoço a mim, Uma torre de marfim E os olhos, esses então Os dois lagos de Hesebão.

Vês a torre que apparece Lá no Libano, e que diz Para Damasco? parece Na lindeza esse nariz.

A cabeça vêl-a toda Por cima das mais, é bello, Como a serra do Carmelo, Toda collinas á roda.

O cabello é tal e qual Um grande manto real!

É tudo uma perfeição, Amada do coração!

Vêr-te é vêr uma parreira Armada n'uma palmeira; E lá em cima os teus peitos, No tamanho e no feitio, Dois cachos d'uvas perfeitos Que a parreira produziu. E eu disse d'esta maneira: Dois cachos d'uvas tão bellos Hei-de ir lá cima colhel-os; Que bem se vê que a doçura Corresponde á formosura; E que a tua bocca é pura E a respiração é sã Como o cheiro da maçã Quando se apanha madura.

—Como é suave e me encanta O que me estás a dizer! A voz da tua garganta Embebeda como o vinho, D'esse que a doçura é tanta Que se costuma beber Aos sôrvos, devagarinho.

És só meu e eu tambem Sou tua, de mais ninguem. Anda com a tua amada Morar para o campo, amor! Iremos de madrugada, Logo ao romper da manhã, Em se a gente levantando, Vêr se a vinha já tem flôr, Se está em flôr a romã E se a fruta vai vingando. Alli é que eu hei-de então Abrir-te o meu coração.

Estamos na primavera, A mandrágora já cheira, E em minha casa, estar lá, É como estar n'uma horta: Mesmo ao pé da nossa porta Temos quanta fruta ha. E o teu quinhão, meu amado! Assim do anno passado Como da que vem agora, Esse está sempre guardado.

Ouvisse-te eu n'esta hora Chamar mãi á minha mãi! Como se tu com effeito Fosses criado ao seu peito Assim como eu fui tambem: Então já eu te beijava Ás claras e te abraçava Sem vergonha de ninguem.

Vamos aonde ella dorme, A pedir a nossos paes A sua benção, conforme Costumam fazer os mais, E depois seja o que fôr É só mandar, meu amor!

Verás como te hei-de dar D'um vinho delicioso E d'um licor precioso, De romã, que has de gostar. ......................... Um braço já me elle passa Pelos hombros... e me abraça Pela cinta... o meu amado! —Deixai-a dormir, cuidado, Moças de Jerusalem! Deixai dormir o meu bem Um somno bem socegado. ......................

Messines.

Ouviste-me não sei quê Trincolejar n'algibeira, Acudiste mui lampeira, Que me amavas. Já se vê.

Tens amado mais de mil, Não era agora o primeiro. Mas pensas que era dinheiro? É a pedra e o fuzil.

Messines.

FIM

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