II
Reading edition
ENTREVISTA
A SULAMENSE
—Quem é que eu oiço bradando? Oiço uma voz e por força Que é a voz d'elle esta voz: Ah! lá vem além saltando Montes e valles, nem corça Nem veado é mais veloz.
Eil-o detraz da parede Além já da outra banda E o que elle faz, como elle anda A vêr no vallado todo E na cancella se ha modo De me pôr olho: ora vêde.
SALOMÃO
—Oh minha amada! depressa Vem vêr o campo, anda, vem: Mettida em casa, meu bem! Que demora tua é essa?
Foi o inverno passando, Até que a chuva acabou: Veio a herva rebentando, Revestiu a terra toda, Chegou o tempo da poda, Ouviu-se a rola arrulhando, O figo vem já inchando E a vinha está já em flôr: Pelo que estás esperando?
Quando has-de tu, meu amor! Andar então passeando? Ouve lá que estamos sós, E aqui não ha quem nos oiça: Vês esta fresta? é um gosto Até pela pedra ensossa Vêr assomar o teu rosto, Ouvir essa linda voz.
A SULAMENSE
—Toda em flôr, como está bella! Mas lá o ter flôr que monta? Se as boas das raposinhas A tomam á sua conta, Depois a uva que é d'ella? Bons laços se lhe hão-de armar, Que ellas dão cabo das vinhas Se ninguem as apanhar.
Tu és meu; e eu tambem Sou tua, de mais ninguem. Nós somos como um casal De corcinhas, com effeito; Andamos sempre a vêr qual Guarda ao outro mais respeito E lhe ha-de ser mais leal. Logo ali de manhãsinha, Ou pela fresca, á tardinha, Quando a corça e o veado Volta aos valles de Belher, Cá ficas sendo esperado: Não te esqueça, haja cuidado, Vê lá o que has-de fazer.