V
Reading edition
SURPREZA
A SULAMENSE
Estava a dormir... que importa? Velava o meu coração. Oiço o meu amado á porta:
—Ah formosa sem senão, Minha pomba, minha amada! Trago a cabeça molhada, E os anneis do meu cabello Todos escorrendo orvalho, Estou mais frio que um gelo.
—Dá-me isto agora um trabalho... Despi-me, lavei os pés, Estou na cama deitada, E é uma pena, bem vês, Vestir-me agora outra vez, Andar inda levantada.
Vai elle empurra o postigo, E eu assusto-me de modo Que, na verdade vos digo, Tremia-me o corpo todo.
Salto da cama exhalando Um cheiro delicioso: Eu tinha-me estado untando Com um oleo precioso E inda as mãos me iam pingando.
Abro a porta, eis senão quando Elle foge de repente...
Eu só de lhe ouvir a falla Fui ás nuvens de contente. E em paga de tudo, abala; Bradei-lhe, não me acudiu, Vou por essas ruas fóra Á busca d'elle, até'gora: Parece que o chão se abriu...
Encontro a ronda, espancou-me; Um dos da guarda á entrada Da cidade, esse, roubou-me A capa onde ia embrulhada.
Peço-vos isto por bem, Moças de Jerusalem! Contai tudo ao meu amado, Que elle é por amor de quem Estou n'este triste estado.
CORO
—O teu amado... responde, Formosura sem igual! Ha tantos onde escolher Que é necessario um signal. Qual é o signal por onde Havemos de o conhecer?
—Eu vos digo: o meu amado, D'aquellas côres no mundo, Estou que não ha segundo; É muito branco e córado. A cabeça é um thesoiro Do que ha de mais principal; Que a sabedoria vale Mais do que a prata e o oiro.
De negro que é o cabello, Vêr um corvo, é mesmo vêl-o.
Os olhos, aquelle olhar, Ha n'elles uma doçura, Que não sei a que os compare; Só sendo a um casalinho De pombas, que estão no ninho, Todas pureza e candura.
As suas faces rosadas, Rescendem como um canteiro D'aquellas plantas de cheiro De que fazem as pomadas.
A bocca, digo a verdade, Que a açucena mais pura Cheia da myrrha melhor Não apresenta a doçura, Pureza e suavidade Das fallas do meu amor.
Aquelles dedos, vereis, São uns canudos de anneis!
O ventre d'elle é assim Como um cofre de marfim. As pernas, de musculosas, São columnas magestosas E de marmore inteiriço Em bases de oiro maciço. É o Libano em altura, É como um cedro na matta A sua bella figura.
É tão suave, tão pura A sua voz, que arrebata.
Todo elle é singular E todo de cubiçar. Eil-o ahi retratado, Moças de Jerusalem! E não só o meu amado; O meu amante tambem.
CORO
—Ah rainha das mulheres! Se sabes para que banda Elle iria o teu amigo, Anda d'ahi, vamos, anda: Nós imos todas comtigo Á busca d'elle se queres.
A SULAMENSE
—Elle parece-me a mim Que ha-de andar no seu jardim, A apanhar açucenas, Que é do que elle gosta apenas.
SALOMÃO
—Oh que formosa, meu bem! Não ha cidade afamada, Nem Thirsa ou Jerusalem, Mais bella que a minha amada.
Mettes mais respeito andando, Que um exercito avançando.
Os olhos faiscam fogo. Tira de mim essa vista, Que ao depois fugi eu logo Porque não ha quem resista.
O cabello, em quantidade E tamanho, é singular! E não me lembra senão Das cabras de Galaad, Que o arrastam pelo chão, Em ellas indo a andar. Os dentes, em tu abrindo A tua bocca, que lindo! Nem um rebanho d'ovelhas, Todas brancas e parelhas, Ao vir sahindo do banho D'uma em uma, e cada uma Seus dois gemeos d'um tamanho, Sem ser maninha nenhuma. As faces não ha de certo Assim casca de romã De cor tão linda e tão sã. E fóra o que anda encoberto.
És tão formosa, vê lá, Que as rainhas são sessenta, As concubinas oitenta, Donzellas, quem é que as dá Todas contadas? ninguem. Pois e de quantas possuo, A minha pomba, o meu bem, A minha mimosa, és tu. E o mesmo dizia já Lá em casa tua mãi, Com tantas filhas que tem.
Quando chegaste, as donzellas, Concubinas e em summaAs rainhas, todas ellas Sem excepção de nenhuma, Gritaram todas á uma: Viva a rainha das bellas!