PRIMEIROS VERSOS. FÁBULAS E CONTOS.—SONETOS.
Reading edition
Senti sempre que a lingua portugueza era para todo o genero de composições. E o rebellar-se ella em algumas pareceu-me que era mais inhabilidade de quem a conduzia do que defeito proprio seu. Por honra d’ella, mais que por vaidade minha, tentei compor em tam desvairados assumptos e generos como tenho feito. Hoje estou crente e firme convencido de que a tudo serve, a todo stylo se presta. Nem me persuadi mais d’isso por alguma coisa em que sahi bem de meus insaios, do que pelas muitas em que falhei.
A singeleza de seu dizer, uma certa malicia popular e mordente de sua innocencia saloia faz o dialecto portuguez eminentemente proprio para o apologo e para o conto.
Está pouco trabalhado o genero entre nós em verso. Mas as fábulas dos animaes, contadas em prosa pelas gentes do campo, teem tanta graça de stylo como as de Esopo e de Pilpay; e as narrativas do Decameron popular em que sempre figura o frade, a mulher do çapateiro, o marido logrado, o amante umas vezes bem succedido em seus artificios, outras colhido n’elles proprios e punido de sua audacia, não teem que invejar a Lafontaine ou ao licencioso italiano que fez as delicias de nossos gaiatos avós da renascença.
Quando, em bem criança, quiz tambem insaiar a minha penna n’este genero, não adverti tanto no que agora escrevo e penso.
Fique pois o meu mau exemplo, fique a minha quéda por farol de aviso aos que navegarem n’este rumo, paraque saibam que as imitações dos extrangeiros são perigosas sempre, e quasi sempre infelizes quando se não poem bem deante dos olhos os unicos typos verdadeiros, que são a natureza, a indole da lingua, e os modos de dizer do povo em cujo idioma se escreve.
Tambem comprehende a segunda parte destes meus ‘primeiros versos’ alguns sonetos, poucos. De centos que fiz, e que me fizeram fazer, apenas deixei estes. Não são bons, e eu não gósto do genero, que por indole propria é pretencioso e facticio. Mas confesso que hoje tenho remorso da reacção que promovi contra o soneto. Tinha aomenos restricções e difficuldades que não tem a sôlta liberdade das canções descabelladas e plusquam romanticas, pelas quaes foi substituido; na qual soltura cresceu descompassadamente a turma dos janisaros do Parnaso, que levaram a anarchia poetica alêm de todas as raias do senso commum.
Se nós invocaremos ainda o soneto e a Arcadia e a Academia, como os povos, cançados e infastiados das orgias da liberdade desinfreada, invocam a tyrannia, último e fatal remedio dos males presentes, que lhes fazem esquecer os passados? Ochalá que não, porque a coisa era muito semsabor e muito pedante. Mas ésta é tam piegas!
Da litteratura piegas nos livre Deus, sôbre todas as coisas.
Emfim, a historia do mundo não é senão uma serie de reacções e contra-reacções. A da litteratura é o mesmo. O que unicamente fica immutavel são os eternos principios da verdade, do gôsto, e da razão em tudo.
Lisboa, Janeiro 1853.
FÁBULAS E CONTOS. LIVRO UNICO
I. INTRODUCÇÃO.
Cahiram com a folha os meus prazeres; E as musas, caro Gomes,[2] que, outro tempo, Torrentes d’estro me esparziam n’alma, Até as mesmas musas Sem dó, sem compaixão desampararam O froixo amante inválido. Embalde as chamo, e as desmontadas cordas Da saudosa lyra Lhes peço aomenos que siquer me affinem. São bellas, como bellas, caprichosas: Não me admirou que fujam. Porêm, amigo, no celeste côro, Como por ca na terra, De milagre inda ás vezes se depara Com alma bemfazeja. Das nove irmans gentis a mais gaiata, Garrida e brincalhona, A galhofeira, magica Thalia, Rindo-se ás gargalhadas Da lamuria que fiz por ver fugi-las: —‘Deixa,’ me disse ‘és louco; Deixa, que ellas virão sem que as tu chames: É costume do sexo, Assim fazemos todas. E que lhes queres tu? que incantos achas Na macillenta, pallida Melpomene, Que, desde que houve em Grecia um tal Eschylo Até o dia d’hoje, Sempre lagrymijando Nos sécca, nos injoa E nos quebra os ouvidos com gemidos?... Sempre se anda a mattar e nunca morre! As outras—na verdade, Aqui muito em segredo, Éstas minhas irmans... Não é má lingua, Não é geito da saia... mas decerto Não sei esses poetas Porque tanto as incensam, tanto as buscam. Olha: o velho Philinto, Que tu, e os teus patricios—boa gente!— Tanto gabaram, applaudiram tanto, Sem lhe mattar a fome, Postoque a todas nós galanteava, Comtudo a do seu peito Foi a mana Polymnia. Nunca vi um namôro mais rançoso; Fizeram duzias de odes... duzias!—centos. Tantas e tantas foram, Que emfim o mano Apollo Ja de odes infastiado, Assim que o pobre velho deu á casca, Protestou, e protesta Não dar a mais ninguem o officio vago De Lyrico da casa. ‘Caliope, essa tolla impavezada, Que Homero, e o teu Camões, Virgilio e Tasso Tam mal acostumaram, Sempre de bico doce, Torce o nariz a tudo E diz que a ninguem mais quer dar cavaco; E até, se não soubesse Que um tal poeta lá da tua terra Que faz Orientes e baptiza Gamas, E a quem nós todas temos mortal osga, Fôra frade tambem... que ia ser freira. As mais é tudo o mesmo, São todas desdenhosas: Além d’isso têem lá os seus namoros, E não querem largá-los. ‘Eu ca não sou assim ... Porêm não penses, Por me ver rir com todos, Que a todos quero, que namóro a todos. Ingana-se commigo muita gente, Tenho inganado a muitos Que julgam conseguir os meus favores: Cahem como uns patinhos Nas peças que lhes armo. Cuidou que me pilhava aqui ha tempos Um tal cantor de burros, Macaco encyclopedico Que em tudo quer metter-se. Preguei-lhe um lôgro... oh este foi machucho: Vesti a minha môça da cozinha Que vocês lá no mundo Appellidam Chalaça, Que sempre anda mettida entre estudantes, Marujos e arreeiros, Vesti-a c’uma roupa do meu uso Ja rota e desbotada, E mandei-lh’a em meu nome ao tal poeta, Que a pillula ingoliu, E muito satisfeito da conquista, Por tal a deu aos parvos Que as sujas trovas, que os immundos versos Extasiados applaudem. ‘Quando eu tinha os meus dôze, e era donzella... —Que hoje, cre-me a verdade, Vai ca no Olympo o que lá vai na terra! Namorei-me de um Grego: oh! bello amante! Chamava-se Aristophanes: Dei-lhe, intreguei-lhe tudo —Como o teu Camões disse— O que deu para dar-se á natureza. Um Phrygio corcovado, Mas que tinha mil graças Que a corcova das costas lhe incubriam, Soube tambem vencer-me. Com estes dois gosei prazer tam doce, Tam deleitosas horas, Que os monumentos d’ellas Inda lá pela terra os mimos fazem De quantos sentem de meus dons o preço. ‘Quando no Sena ovante, Quando no Tejo e Tybre Se ergueram nossos templos Que a barbara ignorancia derrubára, Ao cantor do Lutrin, ao da Pucelle, Ao mago auctor do santarrão Tartufo, Ao teu do bento Hyssope, E a esse galhofeiro Italiano Que aos animaes deu falla, Dei-lhe os favores, franqueei-lhe os mimos Que a Ariosto, a Gil-Vicente, Que aos outros todos concedêra outrora. Se o que elles foram sabes, Quanto eu valho apprecia. Eu não sou como as manas, Rio de tudo, tudo rindo insino; E nas coisas mais sérias Acho, descubro o lado Em que o sal do epigramma incaixa a geito. Por mim da atroz affronta, Por mim da escravidão, por mim da inveja O ingenho se despica, E n’um só trait d’esprit, de eterno opprobrio, C’o sêllo do ridiculo, Marca indelevel na ignorancia imprime, Na presumpção, no orgulho, Toma’ e, dizendo, me intregou a lyra, ‘Toma, e conhece quanto podem risos Da magica Thalia. Fere-a, e, se os sons mal destros, Desafinados, rudes te sahirem, Começa n’isso mesmo A gosar minhas dadivas; Ri-te d’elles, de ti, ri-te da lyra, E de mim se quizeres.’ Tal me fallou a minha bella deusa Que tantas gargalhadas, Nos dias folgasões de nosso tempo, Nos fez dar tantas vezes Quando na voz roufenha Do nosso mathematico Alvarenga.[3] Ás mãos cheias vertia Pilherias do Kai-Pira e Sganarello,[4] Do impulhado Avarento. Satisfeito da offerta, e mais que d’ella, Do longo e bom cavaco, —Cavaco que jejuo ha tanto tempo! Cavaco suspirado Com que me acenam ja vesperas sanctas Do tardio feriado!— Toquei, ou antes arranhei á toa Os versos que te mando. Ri-te se forem bons e se gostares, Ri-te se forem maus e te injoarem, Ri-te, ri-te, que o mundo Não se póde levar de outra maneira: Assim o insina a deusa.
Coimbra—1820.
NOTAS DE RODAPÉ:
II. PELO ZURRO O BURRO. CONTO ACADEMICO.
Naturam expellas Furca, tamen usque recurral. MORAT.
Era uma vez: diz mestre Lafontaine, Que lh’o dissera Phedro seu amigo, Que lh’o dissera um grego corcovado... Pois tudo n’este mundo vai por dittos, Tudo se diz porque outros o disseram... E talvez que não fôsse Lafontaine, Mas foi outro que tal, que vale o mesmo: Um dia... mas o fio á minha historia Não o tórno a quebrar por coisa alguma; Poema que tem muitos episodios Nunca póde ser bom, nem bons ser elles: Diz padre Horacio ou outro tal como elle D’estes que intentam accanhar o genio Com leis servis por elles arranjadas Que, segundo a moderna guapa eschola, As não póde soffrer de taes birbantes. Um dia pois o pae d’homens e numes, Como eu ia contando aos meus leitores... —Se é que a sorte, que os nega a bons poetas, M’os deparar a mim, chulo trovista— A rogos, mas de quem ja me não lembra, Asno felpudo de orelhões cahidos Quiz transformar em fervido ginete; E ao bom Mercurio, seu fiel ministro, Manda que o longo pêllo lhe tosquie E um bom naco cerceie das orelhas. Era grande o burrico, nedeo e gordo, E por milagre do supremo Jove, Que sempre faz como este bons milagres, Ei-lo desimpennado e mui lampeiro, Qual andaluz corcel ou egua arabia, A par d’outros corceis se vai trotando. O povo cavallar na fórma nova Não reconhece a burrical maranha. Como elles folgazão retouça e pulla, Ladeia, faz corcovos, trava o passo, Emfim parece—Tanto podem numes E tal é o podêr de um bom milagre!— Cavallo mestre e feito em picaria. —Qual rustico peão de bronca aldea De tamancos nos pés, no sacco a broa, Que vem para imbarcar lá da provincia, E para um tio, que é senhor d’ingenho, Ricasso em pretos, em arroz, mellaço, Ingoiado apprendiz vai ser caixeiro: Morre-lhe o tio, eis o rapaz n’um sino, Vende pretos e pretas e mellaço, E vem, Cresso de cocos e patacas, Metter toda Lisboa n’um chinello; Ja por boas, luzentes amarellas Serodeo compra fidalguesco fôro... D’antes—que hoje a visita da saude, Em cheirando a caturra, a bordo o prende, E é ja barão quando põe pé em terra. Ei-lo que alteia os hombros incolhidos, Intufa em vento as bochechudas belfas, Impina a pansa, ingrossa a voz pausada, E no tropel dos nobres involvido, Se o não conheces, crêra-lo provindo Dos que nos velhos pergaminhos vivem. Tal ja desorelhado e uffano o burro Entre altivos ginetes campeava. Mas, oh fado infeliz, mesquinha sorte! Quando entre os novos ledos companheiros Se vai trotando com pimpão meneio, Ei-lo depara com villan jumenta De hirsuta felpa e de costado esguio, Que os fios corta d’alma a quem a via, Como bem diz Latino-luso vate De mui gaiata e festival memória. Subito esquece o recem-nobre estado, Lembram-lhe antigos, burricaes requebros E o tom gallanteador de asnal namôro: Estira amante o beijador focinho, E em notas de invejar por um Lablache, Psalmeia airoso, compassado orneio, Deixa os amigos e a azzurrar se fica! Ora pois, como fez o senhor Jove, Fez certo gran’senhor de lettras gordas E protector das magras.—Foi milagre Que pela intercessão foi operado De uma a que chamam deusa da Sandice, De outra Impostura e de outra Pedantice. Começa o caso c’o outro parecido. Havia em certa terra muito longe, Lá nas pontas dos pés d’este hemispherio, Que dizem fôra outr’ora povoada Por certo beberrão feitor de Baccho, Havia uma familia de animalculos, Zoophytos, e quasi mycroscopicos, Aos quaes Lineu, que achou nomes a tudo, Nunca deu nome, nem especie ou genero, Nem eu lh’o sei tambem, só sei que arrotam Textos, medalhas, chymicas rançosas, Que trazem n’algibeira um compassinho, Muito accanhado, curto e pequenino, Talhado ao molde dos miollos d’elles, Com que querem medir todo este mundo. D’estes pois—e aqui vai o gran’milagre— Burros na fórma, na sciencia burros, Mas burros mais que tudo na cacholla, Quiz o tal gran’senhor citado acima Fazer—ó musa o quê?—Dize, não temas, Não fujas, dize e vai-te.—‘Uma académia’ Disse a musa e safou-se ás gargalhadas. Mas que académia!—Oh! venham as brilhantes De Londres, de Paris, de Petersburgo Beber aqui sciencia não sabida De assopradas, pomposas ninharias. Que producções, que producções! Oh quanto Quanto seria mais se um deus maligno, Inimigo dos guapos academicos, Das tres que Deus nos deu potencias d’alma Lhes não saccasse duas á surrelfa, Deixando só memorias e memorias... Quanto sería mais, quanto fulgira Em gordos, grossos, grandes calhamaços A portugueza, majestosa lingua, Se os novos sabios, no comêço á emprêsa, A antigas manhas não perdendo o affinco, Não incontrassem por desgraça nossa C’um perfido azzurrar—zurrar malditto!... Ficaram no azzurrar sempre zurrando.
Coimbra—1818.
III. AMOR E VAIDADE. FÁBULA.
Ja mais veloz corria o espaço usado Que as horas marca ao dia O deus que atrás de Daphne —Infructuoso trabalho!—dera ás gambias; E aos braços d’Amphitrite ia mais cedo Dos trabalhos da luz gosar nas trevas Desejado descanço. Iam seccando pelo prado as hervas, E o verde-escuro dos frondosos montes Amarello cahia; Sentado aopé da magustal[5] fogueira, Vermelho e rubicundo O bemdito e louvado San’ Martinho, —Que a cega antiguidade, Por não tomar a bulla da cruzada, Nem jejuar aos dias de jejum, Baccho chamava em sua escandalosa E misera ignorancia— Bastas fazia navegar, nos máres Da barriga sanctissima, As puchantes castanhas; Banhos e quintas ao socêgo antigo Despovoados tornavam; Voava a folha, sibilava o vento, E em fim, sem metaphoricas periphrases, Era ja meio outomno. Amor, Cupido, ou Ero, ou qual mais gostem Dar-lhe baptismo ou chrisma, Comtanto que não chegue A tanto o desafôro Que ousem—como eu ouvi, por meus peccados, Co’estes que a terra um dia Ou mar tem de comer— Por louca affectação de Anglo-mania, (O que não farão modas!) Chamar-lhe em Portuguez... chamar-lhe Love! Amor pois ou Cupido, —Que assim nossos avos sempre disseram Em tempos venturosos Que tudo se chamava por seu nome, Que ás bellas se dizia Em Portuguez sincero e sem malicia O que hoje é fôrça rebuçar no manto De alegoria equivoca— Amor, do rebulicio da cidade, Do barulho infastiado, Farto ja de frexar c’os aureos tiros Os corações tam gastos, Usados, velhos, estropiados, frouxos Da gente que a povoa, Para o campo fugiu d’onde ella foge. Lá nos singelos bosques, Nas simplices cabanas Singelos corações, simplices almas Espera achar ainda Em Daphnis e Amaryllis. Por um ameno solitario valle, Em seus projectos imbebido o numen, Caminhava... eis da incosta d’um outeiro Ve descendo gentil, esbelta dama Que bem, no airoso infeite, No perluxo das modas, Conheceu que não era habitadora Da rustica espessura. Fugi-la quer; mas sentimento occulto, Que entre nós ca na terra Se diz curiosidade, —Não sei como no ceo lhe chamam numes!— Sentimento imperioso No sexo lindo que nos doira a vida... —Que a doira se gosar sabemos d’elle, Que aos parvos a invenena— Este o reteve, suspendeu-lhe os passos. Quem será? Quer sabê-lo. Ei-los junctos; e Amor que á bella dama Cortezmente sauda: —‘No campo ainda e só, quando á cidade Apressurada corre toda a gente! Tam delicada, tam formosa dama Da quadra desabrida Os insultos não teme? Foge acaso o prazer da sociedade, E n’estas mudas selvas Vem porventura, desgraçada amante, Chorar na soledade?’ Não gostou do cortejo e cumprimento A nympha bella, desdenhosa e dengue; Offendida que o nome lhe ignorassem, Orgulhosa responde: —‘Conhece-me o universo; em toda a parte Templos, altares tenho; Domino os corações, govérno as almas, Sou uma deusa, e chamo-me Vaidade. Por mim co’a morte, c’os revezes lucta O guerreiro no campo; E ante o espelho traidor consomme a vida A belleza que aos annos se não rende: Por mim o litterato sôbre os livros Curva a frente abrazeada; Por mim nos gestos, no fallar se estuda O adamado peralta; Por mim vivem contentes satisfeitos Os que menos razão têem de viverem; E o mago meu podêr se estende a tanto, Que entro no seio mesmo aos que me offendem, Desprezam e injuriam. Por meu influxo, n’esse proprio escripto Em que me insulta o sabio, Corrige e apura o sabio o stylo, a penna, Aos louvores armando. Eu as suberbas, elevadas cupulas Ergo de vãos palacios; E até na estancia gellida da morte, Nas mentirosas lapidas Lavro pomposas lettras Que a inganado porvir levam memorias De parvos, de maus reis, sanctões Tartufos, De tonsuradas bêstas. Eu em certa famosa academia As charamellas tanjo, As conclusões defendo, Em vandalo Latim peroro ás turbas, Tufo a brilhante borla Com que as caveiras jumentaes adórno. Emfim até d’amor perturbo o imperio: Por mim, por meus auspicios, A parvoa chusma dos galans mais parvos, Dos fofos petimestres Ja do sexo gentil não quer favores: Indiff’rentes ao gôso e á ventura, Basta que o mundo os tenha por felizes... Por mim a dama desdenhosa e bella Ja não procura amores, Nem de Venus suavissimos deleites, Mas o gaudio maior, mais lisongeiro De que os outros a creiam Cercada de servis adoradores, De humildosos escravos’... Ia por diante; mas o deus zangado, Furioso a interrompe: —‘Basta; o numen d’amor sou eu: não entra Tam facil em meu reino Teu sacrilego pé: sobejas vezes De muitos corações tenho extirpado Teu petulante vício. Em vão esse Hymeneo, que deus se chama E egual amim se inculca. Ousa pleitear commigo: Os nós lhe quebro que appellida sanctos, E em seu templo introduzo —Embora a testa doia Aos miseros maridos— Quem me apraz, quem me segue, e a quem eu quero. Por mim se eguallam desvairadas sortes, Que as baixas condições uno ás mais altas. Lidia, a orgulhosa Lidia Que a ladaínha dos avós impurra A todo o instante e a todos, Lidia que nunca ri... c’um tiro as pompas E as sombras dos avós lhe desfiz n’alma: Puni-a, fi-la escrava, Fi-la escrava... e de quem!... do seu lacaio. Togas, aureos bastões, borlas, espadas, Mittras, coroas, toucas e capuzes Ao meu imperio tudo está sujeito.’ Desdenhosa e surrindo ouviu a deusa, E em submissa ironia lhe responde: —‘Pois bem: assim será; não valho nada No coração das bellas. Mas expliquem sem mim seu vário peito; Isso que o mundo appellidou capricho, Que em sua alma domina, Dize-me o que é? será sem causa o effeito? Suas obras tam variaveis, tam confusas, Com que os amantes pasmam, Não as deciphro eu só, de mim não partem?’ Esquentou-se a questão: denovo os deuses Pro e contra razões allegam, mostram. É cabeçudo Amor, ella teimosa... Não acabavam nunca. Ficariam na mesma, Se o meio de findar contendas tantas Não acordasse á deusa: —‘Prescindamos’ clamou ‘de vans palavras, Argumentos deixemos; Vamos a factos, e de nossas armas Façamos experiencia.’ Sahia a ponto do vizinho bosque Pastorella innocente: Alma inda nova, coração ingenuo, No simples do vestido, No mal composto dos cabellos louros, De sobejo mostrava: Era toda ao pintar para a exp’riencia. Consentem ambos em provar, na bella E timida pastora, O podêr de suas armas. Jurou Amor de dar-se por vencido Se de seus magos tiros Podésse defendê-la a Vaidade. Com lisonjeiro, placido semblante E com doces palavras, Tomando-a pela mão, a affaga a deusa; Pungente frexa Amor no arco imbebe, E mostrando-lhe a um tempo Joven pastor que dera inveja a Páris, O tiro lhe dispara. Voa a setta fatal... mas no momento Em que lhe toca o peito, Subito a deusa aos olhos lhe apresenta No mesmo instante crystallino espelho... Pasma extasiada e fixa A simplice donzella, O semblante gentil contempla immovel; Nem um só volver d’olhos para o bello Mancebo lhe escapou. Sorriu-se a deusa; Amor de invergonhado, De corrido fugiu.
Coimbra—1818.
NOTAS DE RODAPÉ:
IV. ESOPO E O BURRO. FÁBULA.
A. TH. DA SILVA QUINTANILHA.
Foi grande tempo, amigo, Aquelle tempo antigo: Eram maiores peras e mellões... Pois uma melancia? Por essa casa dentro não cabia. Bem o mostram as sábias conclusões Do famoso Gil-Braz de Santilhana: Guardadas proporções, Se a conta não ingana, Certamente sería A maçan com que a Adão Eva inganou, Maior do que uma abobora-menina: E então ja bem se atina Como ella lhe incalhou No gargallo do pae da humanidade; Cuja enorme hombridade, Segundo o mesmo cálculo constante, Devia ser maior que a d’um gigante. N’esse tempo feliz da carochinha, Em que pato e peru, porco e gallinha, Burros e burras—e o rhynoceronte— Cabreavam, ahi por esse monte, Com toda a mais canalha Que era da sua egualha, Toda essa corja dizem que fallava, Como nós, na sua lingua-mistiforio. Não sei se Deus fez bem no seu decreto Que a mercê lhe tirou do fallatorio; Pois, segundo mui douto me insinava Meu mestre José-Vaz, homem discreto E de saber profundo, Em toda a sociedade d’este mundo Por fôrça hade reger O famoso direito de accrescer. Accresceu para nós, tristes humanos, Toda a loquacidade De quantos bicharrões, bichos, bichanos D’este universo á grande sociedade Veio a perdas e damnos: E assim vemos fallar moços e môças, Velhos e velhas, sabios e tarellos, Com vozes finas e com vozes grossas, O gentio, o christão, moiro e judeu, Por quantos cotovellos Deus e o direito de accrescer lhes deu. N’esse tempo feliz então havia Em Grecia um corcovado Que de todo o animal, ave ou pescado Intendia e fallava a algaravia. Muitas ja tinha em Grego traduzido Das famosas comedias, Altisonas tragedias, Entremezes chistosos e ingraçados, A que tinha assistido, Dos bichassos auctores mais fallados. Um dia passeando Por juncto de um ribeiro, —Talvez algum dialogo pilhando De bichitos de couve ou formigueiro— Eis-ahi senão quando Direito a elle em frente Orelhudo jumento vem trotando; E depois de o saudar mui cortezmente Com uma cavatina Em notas que nem ja Lablache affina, Findado o ritornello, Assim o nosso burro, Em sua lingua asinina De mui pullido zurro, Ao corcunda fallou, Quero dizer—orneou: —‘Tenho um favor que te pedir, Esopo: No apologo primeiro Que em lingua traduzires da tua gente, Não me faças tam zôpo Como, useiro e veseiro, Fazes constantemente. Em meus discursos mette alguma graça E pilherias com sal e com finura, Que eu, a zurrar, sou forte na chalaça.’ O bom do Esopo olhou para a figura Do elegante orelhudo, E com tam destampada, Tremenda gargalhada Lhe respondeu ao animal felpudo, Que elle, de orelha murcha e mui trombudo, Se foi sem dizer nada. Do sincero de Esopo quam diff’rentes Andam certos auctores Que altisonantes fallas farfalhudas Imprestam a patetas gran’senhores, Excelsos presidentes De pedantes reaes academias, Illustres senadores Que as cachollas vazias Inchados ornam de compradas flores! Quantos ha ahi garraios descarados Que vão pimpar, sem pejo, pelos pulpitos Com os sermões espurios Que aos padres mestres da ordem são furtados! Quantos vates servís, lamosos gansos Que, em vis dedicatorias campanudas, De podres versos ranços, Na linguagem da Phenix-renascida, Vão dar ethica vida A Zenobias barbudas; E a Mecenas palhaças De sabichões da Grecia dão fumaças! Mas Esopo ficou qual d’antes era, E o burro, burro estreme; Mas aos nossos Mecenas sécca e treme Na frente o loiro, a hera Com que venaes poetas Lhes coroaram as testas de patetas, Em trovas semsabôres; Mas os nossos modernos escriptores Ficam asnos sem sizo Para os homens de bem e de juizo.
Coimbra—1820.
V. O MENINO E A COBRA.
C’uma cobra doméstica folgava Criança innocentinha, E—‘Meu bicho’ dizia a criancinha ‘Comtigo tam seguro eu não brincava Se primeiro, o veneno refalsado Não te houvessem tirado. Que vós sois muito más, muito ingratonas, Minhas serpentezonas. Oh! nunca a tal historia me esqueceu D’aquelle homem que a cobra achou na rua —Talvez fôsse avó tua— E tanto se doeu De a ver toda de frio retransida. Que no seio a metteu E comsigo a aqueceu. Que fez a bicha mal-agradecida? Apenas se recobra A traidora da cobra Vai, e zaz!—e mordeu O pobre homem, que logo da ferida Venenosa morreu.’ —‘Bem parciaes’ responde-lhe a serpente ‘São as vossas historias; Recontam-nos o caso mui diff’rente Lá as nossas memorias. O teu homem, que tens por charidoso, Creu realmente a cobra ja finada, E foi, por cubiçoso Da pelle, que era linda e mosqueada. Que o teu santinho d’home’ a quiz salvar: Era para a esfollar.’ —‘Vai-te’ responde em cholera o menino ‘Vai-te, bicho mofino: Todo o ingrato é ladino Para se desculpar, E ao seu bemfeitor calumniar.’ O pae da criancinha, mui contente. Toda ésta conversa ouvindo esteve; E—‘Pois, meu filho’ disse ‘honradamente Julgaste como deve Todo homem de bem: Mas é preciso em tudo ser prudente, E injusto com ninguem. Ha casos de tam feia ingratidão. Que a razão Não se atreve A crê-los, sem exame, assim de leve. Raras vezes a ingratos obrigaram Os que são verdadeiros bemfeitores; Mas o mundo, meu filho, por desgraça, Harto está cheio de ruins Mecenas, De falsos protectores, Que a detestavel raça Dos ingratos no mundo propagaram. Arrastados favores, Inda menos baratos Que interesseiras sordidas onzenas, O que hãode produzir, senão ingratos?’
Coimbra—1821.
VI. A SAUDE E A MEDICINA.
Ja tenho, meu Eloy,[6] tudo inmallado; Fica até no bahu o estro fechado. Mas antes de partir, Quero contar-te um conto, que hasde rir. Hontem o incontrei N’aquelle teu Pignotti tam magano; E, se em meu Portuguez não desbotei As côres do Italiano, Hasde-lhe achar a graça que eu lhe achei. Vou abrir o bahu, e venha o estro! Sôbre o canhão da bota. Como dizer se usa, Farei regrinhas curtas e compridas. Botas... e esporas tenho ja cingidas, Montarei o Pégaso, que nem trota Commigo, de esfalfado. Eu muito descançado Ahi me vou choitando, O meu conto contando. O conto é da Saude e Medicina... E tracta de te rir, Que, se não ris, serviu-te a carapuça, É um reles doutor de mula ruça Doutor que se amoffina E não quer consentir Que a pobre, atormentada humanidade Se desforre uma vez co’a faculdade. Jove, esse Jove em Grecia tam temido, Que imperava nos ceos, nos elementos, Nos raios e nos ventos, De moda emfim cahido, O credito perdeu e está fallido. Mas quando elle reinava Viam-se casos n’este baixo mundo Que o vulgo parvo assegurar ousava Desdizerem de seu saber profundo: E n’este ponto a grega theologia Por desculpa dizia Que, ao dar ordem a coisa tam soez Como é d’esta vida o entremez, Lhe cahem muita vez Os oc’los do nariz; E que n’estes momentos Tudo o que faz e diz É asneira—sandice por um triz. Em um d’estes accessos mazelentos, Em que de facto, do nariz divino, E sem elle dar tino, Tinham cahido os seus oculos bentos, Á terra nos mandou, Só para nosso bem, como julgou, Duas boas divindades companheiras, Ambas riccas herdeiras De sua graça divina: A saber, a Saude e a Medicina. Na fôrça juvenil tinha uma d’ellas Ageis e vigorosos Fortes os membros, cheios, musculosos, Tintas de côr rosada, Florida e ingraçada As frescas faces bellas; E nos olhos tranquillos e gozosos Tinha a indolência com a paz pintada. A outra, de gesto magro e macilento, Cabello pouco, e o pouco de alvo argento, Com as faces rugosas descahidas, As carnes resequidas, E em círculos de chumbo incaixilhados Os olhos incovados Remelosos, vidrados. Intrançada de malva e de chicoria Ampla coroa a frente lhe cingia, Como um splendor de glória; E a negra sotana que vestia Rota, e cossado o pêllo, lhe luzia Com erudita e sábia porcaria. Aos hombros alquebrados, Que a muita edade impêna, Em fórma de capuz, juncto ao toitiço Assim como uns calções esfarrapados De antigo, velho riço, E da côr de bandeira em quarentena. N’um frangalho da tal coisa amarella Lhe pendia, á feição de bambinella, Não Tusão de Oiro ou a Pollar estrêlla, Vermelho Christo ou roxo San’ Thiago, Mas o instrumento aziago... Certo tubo que todos conhecemos, Que no lúbrico pau escorregando, Emquanto vai e vem assim brincando, Ao nobre officio serve que sabemos... Cingida era de emtòrno A venera pendente De um magnífico adôrno De pilulas, lancetas em pingente, Sinapismos, ventosas, Com que, a modo de pedras preciosas, A nova ordem militar fulgia, De Esculapio em memoria e honraria. A este sabio Mentor, Jove intregára Em guarda a bella deusa das rotundas Bochechas rubicundas, E mui severamente Que em tudo a governasse, lhe mandára. Ei-las, breve, a caminho: E a deusa obediente Submissa e reverente, A sua mestra seguia Como ao guardião faria Um timido noviço capuchinho. Mas, alguns passos dados, A magra Medicina Prega na outra os olhos incovados, De admiração malina Franze o sobrôlho esguio, E tomando-lhe o pulso, em ar sombrio, Com palavras que ignoras, Profano vulgo, graves e sonoras, Disse—‘que a robustez ja muito athletica Que lhe achava, a fazia mui plethorica, E daria em pleuritica ou phrenetica. Provou-lhe mais com medica rhetorica Que um excesso mui rude Soffria de saude; E para que o morboso estado mude, E ella possa viver seguramente, De todo era forçoso Que tivesse o seu tanto de doente.’ Disse, impunha a lanceta, Fere um vaso venenoso, E á pobre da pateta Tres libras de sadio e generoso, Vermelho sangue puro lhe sacou: Muito menos a muitos ja mattou! Mas era a paciente Tam pouco natural a estar doente, Que á sua directora vigilante De melhorar não deu signal bastante: Pelo que foi gramando, ás ordens d’ella, Nogenta beberagem amarella, Fedorenta, asquerosa Em dóze prodigiosa!.. Tanto, tanto bebeu, Que a rebelde natura emfim cedeu. O appetite, o vigor Iam diminuindo; E a brilhante côr, A frescura das faces vai fugindo. —‘Bravo,’ gritava a outra em ledo aspeito ‘Bravo, que a arte vai fazendo effeito!’ E temendo funesta recahida Em quanto de uma vez Não tinha debellada e bem vencida Do morbo a robustez, Manda avançar as horridas catervas Dos xaropes, conservas, Seguros laxativos, Fortes aperitivos... Com tal fôrça e podêr, que a desgraçada Em sua consciencia De todo em todo se sentiu curada. Mas com tanta sciencia Tam eruditamente era trattada, Por via de tam graves aphorismos E agudos sylogismos, Lardeados de Grego e de Latim, Que até, morrer assim, Morrer n’esta doçura, Morrer tam sabiamente era ventura. Da nossa boa alumna, por má sorte. Era estupida um tanto a natureza, E romba de agudeza: Graça a mais superfina Que nos póde fazer a mão divina! De tam ditosa morte Não pôde comprehender toda a belleza. Cobrou medo a mofina Da sciencia divina, E, sem mais Deus-te-salve ou mais embora, Desanda-me a fugir, dando á canella Por esse mundo fóra. Larga a outra atrás d’ella A correr... e correu, e correrá... Mas nunca a apanhará. E d’então para ca Ninguem mais se gabou De que junctas ou perto as incontrou. Tal medo uma da outra concebeu, Que aonde a Medicina appareceu, É logo—n’um momento Foge a Saude mais veloz que o vento.
Coimbra—1821.
NOTAS DE RODAPÉ:
VII. O GALLEGO E O DIABO.
Eu por mim gósto de contos, Diga o mundo o que quizer; E para mattar o tempo Um conto quero escrever. Mattar o tempo é preciso Aos ignorantes—dirão; Ao sabio sempre elle corre Voando, que lento não. Porêm, amigo censor, E quem me fez sabio a mim? Sou eu lente ou academico, Prégador ou coisa assim? Verdade é, no Quebra-costas Minha vez escorreguei, Fui prêso por Verdeaes, E á porta Ferrea m...ei. Mas que doutor fiquei eu, Se nunca o Martini li, Se, o que sube da instituta E do digesto, esqueci? Sabenças para que servem? Brucharia, eu t’arrenego! Vou-me contar o meu conto; E o meu conto é de um Gallego. Era uma vez um Gallego Boçal, felpudo e lanzudo, Um Gallego em corpo e alma. Em chancas, juizo e tudo. Nunca lá das Gallileas[7] Sahiu cabeça tam romba A alistar-se nas companhas Dos bravos heroes da bomba. Melena loira e comprida, Azeitada e corredia, Ôlho azul, pasmado e parvo, Bôcca aberta, a barba esguia; Calção de abanante orelha, Por onde fura o quadril, Nos pés a fragante chanca, Ás costas sacco e barril; Eis-aqui a vera effigie De Thiago Manuel Juan, O mais fiel dos Gallegos Que jamais comieron pan. Em devoção não fallemos, Que nisso era exemplar; Deixára um prato de tripas Para á missa não faltar. A miudo ia a confêsso; E nunca o somno o pilhou Senão a rezar o terço, Que—nunca mais acabou. Em duas ou tres egrejas Era freguez de basar; O seu barril tinha a honra De agua benta ás pias dar. Tam devoto, tam modesto Nunca houve outro Thiago; Não ha memorias de ouvir-lhe Nem uma só vez um ajo. Um dia, á volta das onze, Cançado de apregoar, —Era em Julho, que escaldava, Um calor mesmo de assar!— N’uma egreja de capuchos O bom de Thiago entrava; E a egreja tam fresquinha, Que á oração convidava. Por tendencia natural, Instincto de chafariz, Ajoelhou aopé da pia, Herdeira de seus barris. Mal se tinha santiguado,[8] Isto é, se persignou, Um berreiro destampado Detrás de si escutou: Era um membrudo capucho, Destemido Ferrabraz Que, a duros botes d’estolla, Brigava com Satanaz. Tinha-se o demo incaixado No bôjo de uma beata, E d’alli se defendia Como de uma casa-matta. Arripiaram-se as melenas A Thiago no toitiço, Pôz-se-lhe em pé no cachaço Até o próprio choiriço.[9] Mas o ôlho arregallado Em ponto de admiração, Não se attrevia a tirá-lo D’aquella horrivel visão. Travava a descompostura Do dize-tu, direi-eu... Fallava o frade latim Que nem o demo intendeu. Satanaz é bom latino; Ninguem lh’o póde negar: As syllabadas do frade Faziam-n’o blasphemar. Grita o frade:—‘Abrenuncí-ò!’ E o cachorro do Asmodeu: —‘Assim não me deitas fóra; Dize abrenún-cio, sandeu.’ —‘Latim sabe elle, o malditto...’ Disse o frade aos seus cordões; Que os frades, como os não usam, Não fallam c’os seus botões: ‘No Latim me venceu elle, E não fez grande façanha; Elle é o diabo, e eu sou capucho! Veremos se o faz na manha.’ Ria o demo ás gargalhadas Por ter o frade incovado; E o capucho, de velhaco, Dava-se ja por cangado, Mas co’a mão á caldeirinha, Sem que o pesque Satanaz, Vai mansinho... e de repente Prega-lhe a hyssopada—zaz! Deu tal estoiro a beata, Que parecia uma bomba ... Não era ella, era o demo: Cheira a enxophre que tomba. —‘Eu te esconjuro, malditto!’ Brada o frade em Portuguez (Que não quiz comprometter O seu Latim d’esta vez) ‘Eu te esconjuro, malditto, Que d’este corpo te vas, E não tornes a entrar nelle, Negregado Satanaz.’ —‘Vou-me’ disse o porco-sujo ‘Vou-me embora, Fr. Sandeu, Que me escalda essa agua benta. Mas para onde heide ir eu?’ —‘Para onde?...’ E deitando os olhos A um lado d’improviso, Deu o frade com Thiago Que rebentava de riso. Thiago, de um grande medo Passára a grande alegria; E, esfregando as mãos no sacco, Como um perdido se ria. Leitor não te escandalizes; Que o ver logrado o demonio Até fez perder de riso, N’um sermão, a Sancto Antonio. —‘Para onde?...’ repete o frade ‘Que me importa a mim, pespêgo? Vai-te metter, se quizeres, No c... d’aquelle Gallego.’ Conhecem-se os grandes homens Nas grandes occasiões: Thiago, sem mais demora, Deitou abaixo os calções; E, em menos tempo ainda Do que o demo esfrega um ôlho, Ja na pia da agua benta Tinha elle o seu de môlho. Batte-me quatro palmadas No rechonchudo do traz, E diz-lhe:—‘Agora, só diabo, Venha p’ra ca, se é capaz.’
Havre de Graça—1824.
NOTAS DE RODAPÉ:
VIII. O Casquilho. (JANOTA) FÁBULA.
Quem de Ovidio os contos leu Certo inda tem na memoria A mais curiosa historia Que elle em seus contos metteu: —De como Jove indignado C’uma nação de velhacos, Para os não fazer em cacos Os converteu em macacos. Vendo-se assim humilhado, Veio o povo castigado, De contricto coração A pedir perdão Ao deus que fulmina o raio e o trovão. Fazendo caretas, ganindo e guinchando Lhe vinham bradando Em mona e bugia: —‘Restaura-nos, ó padre soberano, O antigo vulto humano Co’a perdida razão.’ O Tonnante, a quem passado Era o primeiro furor, Dos bugios ao clamor Prestou ouvido apiedado; Mas do macaco requerimento Não despachou senão ametade, E o resto a deidade Mandou dispersar nas azas do vento. Mal o acceno omnipotente Troou na celeste abobeda, A monaria contente Se ergueu altiva, impavida; Toda se impavesou E repimpou; E como gente A andar por esse mundo se deitou. O pêllo esfarripado. Que as cabeças télli lhes ouriçava, Em lindos caracoes se debruçava Agora pelo rosto transmudado. Não mudou por dentro o caco, Que ficou sempre macaco; E a cara por fóra Tambem não mudou muito do que fôra. Os mesmos focinhos, As mesmas caretas, E os parvos risinhos E as fofas e as tretas. Assim meio mudados, meio não, Lhes fez o padre Jove um bom sermão, E lhes mandou tomar Aopé da raça humana o seu logar. O homem com desprêzo o bicho olhou, Nem siquer nome para dar-lhe achou; Mas a mulher gostou Da tal farofia de apparente brilho, E á coisa pôz o nome de—CASQUILHO.
Londres—1829.
IX. OS AMANTES GENEROSOS. CONTO.
A. J. LARCHER.
Pois os mimosos sons da branda musa Do tam gentil Bernard, na patria lyra Queres ouvir suave modulados, E em luso trajo disputar-se um beijo De Tempe os generosos amadores, As cordas ferirei por comprazer-te, Cortar-lhe-hei galas dos pastores nossos: Na lingua de Camões, se posso tanto, Virão aqui a suspirar d’amores; E os echos d’estes valles mais sinceros Te dirão suas fallas namoradas. Tu, que es meio francez, meio germano, Que á meiga Deshouliers canções tam finas, Que a Gesner mais singelo ouviste o canto Na propria avena de seus tons cantado, Se os teus pastores nas ribeiras nossas, N’estas suaves margens do Mondego Vires diff’rentes, demudada a graça, E alternando sem arte a cantilena Que em seu patrio idioma foi tam bella, A ti só, que o quizeste, imputa o êrro, Nem acoimes á lingua tam formosa O desprimor e as faltas do poeta. Juncto aos valles de Tempe, amena estancia, Mansão querida de Pomona e Flora, O joven Hylas, Égle inda mais joven, Ambos loucos d’amor, o amor se occultam. A um terno olhar suas fallas se limitam, Sua chamma constrangida não se exhala: O innocente pastor fallar não ousa, Nem, que fallasse, a simples o intendêra. Mas tarde ou cedo, se o desejo a inflamma, Amestram a innocencia amor e a edade. Tirou-os d’este nada em que jaziam O acaso um dia. Á sombra da espessura, Tam bella, ou mais que amor, Égle dormia, Hylas a incontra, e os olhos namorados Para admirá-la não lhe bastam ambos. —‘Vénus’ exclama ‘eu tibio em teu serviço Ouso implorar-te: dá-me que estes labios, Em quanto aqui na relva Égle descança, Possam nos seus colhêr suave beijo. E eu te juro, ó divina Cytherea, Que em trôco lhe darei dois mansos pombos Muito mais lindos que os que tens em Chypre.’ O voto fez-se; o beijo foi colhido: Fingido somno approveitou á bella, E, á noite o preço recebeu do voto. Veio outro dia, e Égle a dormir sempre... Mas não dorme o pastor:—‘Deus dos amores, Ves alli quanto adoro n’este mundo. Ah, de tanta belleza, tantas graças Consente que uma só eu gose ao menos. Se eu podesse—sem que Égle o presentisse, Sob o lenço invejoso ir co’a mão trémula Tocar n’aquelles candidos thesoiros, Dar-lhe-hia pelo roubo—tam secreto! O cordeirinho que entre os meus mais quero. Oh! adormece, amor, Égle formosa!’ O mais profundo somno Hylas incontra. Viu, tocou, apalpou, beijou cem vezes O seio d’Égle, que retem manhosa Até o respirar, e a somno sôlto Mais dormia... quanto elle mais velava. Custou-lhe no outro dia a vir ao bosque, Timida ainda e vergonhosa a bella; Mas veio emfim... Foi só curiosidade, Tinha curiosidade—era o que tinha— De saber que presente aquelle dia Lhe faria o pastor; veio. Após ella Hylas veio também:—‘Eternos deuses, Aqui a incontro! Oh concedei-me agora Um último favor, que nos seus braços Eu gose emfim dos seus incantos todos. Ah! vós bem o sabeis: eu nada tenho, Mais nada ja do que o meu cão—e dou-lh’o.’ Oh que pesado somno Égle dormia! E é bem de crer que o instante em que o mancebo No extasi do prazer fechára os olhos, Os lindos olhos d’Égle não se abriram. Mas o sonho acabou... e despertaram. O pastor imbrenhou-se na espessura E o cãosinho fiel ficou co’a bella. Incontraram-se á tarde, invergonhados... A pastora corou, elle suspira... Sós se achavam, sem medo, sem receios... Ao amante acordada Égle se intrega, Acha mais doce não dormir agora, E toda a imbriaguez do amor conhece: Quantos dons do pastor Égle recebe, Com dulcissima usura os restitue. Mas as antigas dadivas pesavam Á pastora gentil:—‘Sei que te devo Duas pombinhas que uma vez me déste. E se me ellas fugirem! vivo sempre N’este receio! Toma-as lá, e o preço Que por ellas te dei também m’o torna.’ Surriu-se o joven, e pagou-as... ambas. Um momento depois o cordeirinho Á pastora lembrou:—‘Tanto te quero, E heide-te privar do que mais amas? Tam bonito! era a tua companhia, Comia-te nas mãos! Nada, não quero: Recebe-o, que t’o dou.’ E o cordeirinho Foi restituido.—O cão só lhe restava: Novas razões, e emfim ordem por fôrça De acceitar outra vez o seu rafeiro: —‘Não tens mais que um, é o guarda do rebanho, Recebe-o, doce amante, e ainda emcima, De fóraparte te heide dar um beijo. Eu não quero mais dadivas, querido; Com o teu coração estou contente.’ Oh! taes dons para dar custaram pouco. Mas o preço da intrega era dobrado ... O pastor affroixou, negocio serio Veio porfim a ser o tal brinquedo. Aopé de Égle acordada Hylas dormia... E ella, que mais pretextos ja não tinha, A suspirar dizia tristemente: —‘Não me dar elle todo o seu rebanho!’
Coimbra—1821.