FOLHAS CAHIDAS. LIVRO SEGUNDO.
Reading edition
I. BARCA BELLA.
Pescador da barca bella, Onde vas pescar com ella, Que é tam bella, Oh pescador? Não ves que a última estrêlla No ceo nublado se vela? Colhe a vela, Oh pescador! Deita o lanço com cautella, Que a sereia canta bella... Mas cautella, Oh pescador! Não se inrede a rede n’ella, Que perdido é remo e vela Só de vê-la, Oh pescador. Pescador da barca bella, Inda é tempo, foge d’ella, Foge d’ella Oh pescador!
II. A COROA.
Bem sei que é toda de flores Essa coroa d’amores Que na frente vais cingir. Mas é coroa—é reinado; E a pôsto mais arriscado Não se póde hoje subir. N’esses reinos populosos Os vassallos revoltosos Tarde ou cedo dão a lei. Quem hade conter, domá-los, Se são tantos os vassallos E um só o pobre do rei? Não vejo, rainha bella, Para fugir essa estrella Que os reis persegue sem dó, Mais que um meio—fallo serio: É pôr limites ao imperio E ter um vassallo só.
III. SINA.
Por todas quantas estrêllas Tem o ceo que possam mais, Pelas flores virginaes De que se c’roam donzellas, Pelas lagrymas singellas Que o primeiro amor derrama, Por aquella etherea chamma Que a mão de Deus accendeu E que na terra allumia Quanto ha na terra do ceu! Por tudo quanto eu queria Quando eu sabia querer, E por tudo quanto eu cria Quando me era dado crer! Bem fadada seja a vida Que por éstas folhas brancas[11] Sua historia hade escrever! Que as dores lhe venham mancas E com azas o prazer! Ésta sina que lhe dou, Bruxa não n’a adivinhou, Nem duende m’a insinou: Li-a eu por meu condão Em seus olhos innocentes, Transparentes—transparentes Até dentro ao coração.
NOTAS DE RODAPÉ:
IV. AI HELENA!
Ai Helena! de amante e de espôso Ja o nome te faz suspirar, Ja tua alma singela presente Esse fogo de amor delicioso Que primeiro nos faz palpitar!... Oh! não vas, donzellinha innocente, Não te vas a esse ingano intregar: É amor que te illude e te mente, É amor que te hade mattar! Quando o sol n’estes montes desertos Deixa a luz derradeira apagar, Com as trevas da noite que espanta Véem os anjos do inferno incubertos A sua victima incauta affagar. Doce é a voz que adormece e quebranta, Mas a mão do traidor... faz gelar. Treme, foge do amor que te incanta, É amor que te hade mattar.
V. THE ROSE—A SIGH.[12]
If this delicious, grateful flower, Which blows but for a little hour, Should to the sight so lovely be, As from it’s fragrance seems to me, A sigh must then it’s colour show, For that is the softest joy I know. And sure the rose is like a sigh, Borne just to soothe and then—to die.
NOTAS DE RODAPÉ:
V. A ROSA—UM SUSPIRO[13]
Se ésta flor tam bella e pura, Que apenas uma hora dura, Tem pintado no matiz O que o seu perfume diz, Porcerto na linda côr Mostra um suspiro d’amor: Dos que eu chego a conhecer É este o maior prazer. E a rosa como um suspiro Hade ser; bem se discorre: Tem na vida o mesmo gyro, É um gôsto que nasce e—morre.
NOTAS DE RODAPÉ:
VI. RETRATTO. (N’UM ALBUM)
Ah! despreza o meu retratto Que lhe eu queria aqui pôr! Tem medo que lhe desfeie O seu livro de primor? Pois saiba que por despique Eu sei tambem ser pintor: Co’esta penna por pincel, E a tinta do meu tinteiro, Vou fazer o seu retratto Aqui ja de corpo inteiro. Vamos a isto.—Sentada Na cadeira ‘moyen-âge,’ O cabello en ‘chatellaines,’ As mangas sôltas.—É o traje. Em longas pregas negras Caia o velludo e arraste; De si com desdem regio Com o pésinho o affaste... N’essa attitude! Está bem: Agora mais um geitinho; A airosa cabeça a um lado E o lindo pé no banquinho. Aqui estão os contornos, são estes, Nem Daguerre lh’os tira melhor. Este é o ar, ésta a ‘pose,’ eu lh’o juro, E o trajar que lhe fica melhor. Vamos agora ao difficil: Tirar feição por feição; Intendê-las, que é o ponto, E dar-lhe a justa expressão. Os olhos são côr da noite, Da noite em seu começar, Quando inda é joven, incerta, E o dia vem de acabar; Têem uma luz que vai longe, Que faz gôsto de queimar: É uma especie de lume Que serve só de abrazar. Na bôcca há um surriso amavel. Amavel é... mas queria Saber se é todo bondade Ou se meio é zombaria. Ninguem m’o diz? O retratto Incompleto ficará, Que n’estas duas feições Todo o ser, toda a alma está. Pois fiel como um espelho É tudo o que n’elle fiz; E o que lhe falta—que é muito, Tambem o espelho o não diz.
VII. LUCINDA.
Ergue a frente, lirio, Ergue a branca frente! O astro do delirio Ja surgiu no oriente. Ves, o sol ardente Lá cahiu no mar; A frente pendente Ergue a respirar! Alvo é o luar, Teu alvor não cresta; A hora de gosar, De viver é ésta. Longa foi a sésta Longo o teu dormir; Ergue a branca testa, Tempo é de surgir! Ja se abre a surrir Tua bôcca linda... Despertar, sentir Ou sonhar é ainda? Sonho que não finda Será o teu sonhar, Se a dormir, Lucinda, Te sentes amar.
VIII. AS DUAS ROSAS.
Sôbre se era mais formosa A vermelha ou branca rosa, Ardeu seculos a guerra Em Inglaterra. Paz entre as duas, jamais! Reinar ambas as rivais, Tambem não; e uma ceder Como hade ser? Faltei eu lá na Inglaterra Para acabar com a guerra. Ei-las aqui bem eguaes, Mas não rivaes. Atei-as em laço estreito: Que artista fui, com que geito! E oh! que lindas são, que amores As minhas flores! Dirão que é cópia;—bem sei: Que todo inteiro o roubei Meu pensamento brilhante Do teu semblante... Será. Mas se é tam bello Que lhe deem esse modello, Do meu quadro, na verdade, Tenho vaidade.
IX. VOZ E AROMA.
A brisa vaga no prado, Perfume nem voz não tem; Quem canta é o ramo agitado, O aroma é da flor que vem. A mim, tornem-me essas flores Que uma a uma eu vi murchar, Restituam-me os verdores Aos ramos que eu vi seccar... E em torrentes de harmonia Minha alma se exhalará, Ésta alma que muda e fria Nem sabe se existe ja.
X. SEUS OLHOS.
Seus olhos—se eu sei pintar O que os meus olhos cegou— Não tinham luz de brilhar, Era chamma de queimar; E o fogo que a ateou Vivaz, eterno, divino, Como o facho do Destino. Divino, eterno!—e suave Ao mesmo tempo: mas grave E de tam fatal podêr, Que, um só momento que a vi, Queimar toda alma senti... Nem ficou mais de meu ser, Senão a cinza em que ardi.
XI. A DÉLIA.
Cuidas tu que a rosa chora, Que é tammanha a sua dor, Quando, ja passada a aurora, O sol, ardente de amor, Com seus bejos a devora? —Feche virgineo pudor O que inda é botão agora E ámanhan hade ser flor; Mas ella é rosa n’esta hora. Rosa no aroma e na côr. —Para ámanhan o prazer Deixe o que ámanhan viver. Hoje, Délia, é nossa a vida; Ámanhan... o que hade ser? A hora de amor perdida Quem sabe se hade volver? Não desperdices, querida, A duvidar e a soffrer O que é mal gasto da vida Quando o não gasta o prazer.
XII. A JOVEN AMERICANA.
Donde é que te eu vi, donzella, E o que eras tu n’esta vida Quando não tinhas vestida A fórma de virgem bella Que ora te vejo trajar? Estrêlla foste no ceo, Serias no prado flor? Ou, no diaphano splendor De que Iris faz o seu veo, Estavas, Silpha, a bordar? Não houve poeta ainda Que te não visse e cantasse, Mulher que não te invejasse, Nem pintor que a face linda Te não fôsse copiar. Seculos tens.—E ah!... ja sei Quem es, quem foste e hasde ser: Bem te eu estava a conhecer Quando primeiro te olhei Sem te podêr estranhar. Com Deus e co’a Liberdade De nossas terras fugiste Quando perdidos nos viste, E te foste á soledade Do novo-mundo acoitar. Pois que ora piedosa vens E nos sentes resurgir, Oh! não tornes a fugir, Que melhor patria não tens Nem que mais te saiba amar. Teu natal celebraremos Hoje e sempre: teus amigos Somos na lealdade antigos, E no ardor novos seremos, No desvéllo em te adorar: Porque tu es o Ideal Da só belleza—do Bem; Não es estranha a ninguem, E de ti só foge o mal Que te não póde incarar.
XIII. ADEUS, MÃE!
—‘Adeus, mãe! adeus, querida, Que eu ja não posso co’a vida, E os anjos chamam por mim. Adeus, mãe, adeus!... Assim, Juncta os teus labios aos meus, E recebe o último adeus N’este suspiro... Não chores, Não chores: aquellas dores Ja sinto accalmar em mim. Adeus, mãe, adeus!... Assim, Juncta os teus labios aos meus... Um bejo—um último... Adeus!’ E o corpo desanimado No collo da mãe cahia; E ella o corpo... só pesado, Só mais pesado o sentia! Não se lamenta, não chora, E quasi a surrir, dizia: —‘Que tem este filho agora, Que tanto pésa? Não posso...’ E uma a uma, osso por osso, Com a mão trémula tenta As mãosinhas descarnadas, As faces cavas, myrradas, A testa inda morna e lenta. —‘Que febre, que febre!’ diz; E em tudo pensa a infeliz, Tudo que ha mau lhe occorreu, Tudo—menos que morreu. Como nos gelos do norte O somno traidor da morte Ingana o desfallecido Que imagina adormecer, Assim cançado, esvahido De tam longo padecer, Ja não ha no coração Da mãe fôrça de sentir; Não tem ja lume a razão Senão só para a illudir. Acorda, ó mãe desgraçada, Que é tempo de despertar! Anda ver a eça armada, As luzes que ardem no altar. Ouves? É a rouca toada Dos padres a psalmear?... Vamos, que a hora é chegada, É tempo de o amortalhar. E os anjos cantavam: ‘Alleluia!’ E os sanctos clamavam: ‘Hosanna!’ Ao triste cantar da terra Responde o cantar do ceu; Todos lhe bradam:—‘morreu!’ E a todos o ouvido cerra. E os sinos a tocar, E os padres a rezar, E ella ainda a accalentar Nos braços o filho morto, Que ja não tem mais confôrto, Mais socêgo n’este mundo Que o jazigo humido e fundo Onde hade ir a sepultar. Levae, ó anjos de Deus, Levae essa dor aos ceus. Com a alma do innocente Aos pés do Juiz Clemente Ahi fique a sancta dor Rogando á Eterna Bondade Que extenda a immensa piedade A quantos peccam d’amor.
XIV. AVE, MARIA!
Maria, doce mãe dos desvalidos, A ti clamo, a ti brado! A ti sobem, senhora, os meus gemidos, A ti o hymno sagrado Do coração de um pae voa, ó Maria, Pela filha innocente. Com sua debil voz que balbucia, Piedosa mãe clemente, Ella ja sabe, erguendo as mãos tenrinhas, Pedir ao Pae dos ceos O pão de cada dia. As preces minhas Como irão ao meu Deus, Ao meu Deus que é teu filho e tens nos braços, Se tu, mãe de piedade, Me não tomas por teu? Oh! rompe os laços Da velha humanidade; Despe de mim todo outro pensamento E van tenção da terra; Outra glória, outro amor, outro contento De minha alma desterra. Mãe, oh! mãe, salva o filho que te implora Pela filha querida. Demais tenho vivido, e só agora Sei o preço da vida, D’esta vida, tam mal gasta e prezada Porque minha só era... Salva-a, que a um sancto amor está votada, N’elle se regenera.
XV. OS EXILADOS. Á SENHORA ROSSI-CACCIA.[14]
Elles tristes, das praias do destêrro, Os olhos longos e arrazados de agua Estendem para aqui... Cravado o ferro Da saudade têem n’alma; e é negra mágua A que lhes ralla os corações afflictos, É a maior da vida—são proscrittos. Dor como outra não ha, é a dor que os matta! Dizer eu: ‘Essa terra é minha... minha, Que nasci n’ella, que a servi, a ingrata! Que lhe dei... dei por ella quanto tinha, Sangue, vida, saude, os bens da sorte... E ella, por galardão, me intrega á morte!’ Morte lenta e cruel—a de Ugolino![15] Bem lhes quizeram dar... Mas não será assim: sôpro divino De bondade e nobreza Não o póde apagar Nos corações da gente portugueza Esse rancor de fera Que em almas negras, negro e vil impera. Tu, genio da Harmonia, Tu sólta a voz em que triumpha a glória, Com que suspira amor! Bella d’enthusiasmo e de fervor, Ergue-te, ó Rossi, tua voz nos guia: A tua voz divina Hoje um echo immortal deixa na historia. Inda no mar d’Egina Soa o hymno d’Alceu; E atravessaram seculos Os cantos de Tyrtheu. Mais poderosa e válida A tua voz será; A tua voz etherea, Tua voz não morrerá. Nós no templo da patria pendurâmos Ésta c’roa singela Que de myrtho e de rosas intrançâmos Para essa fronte bella: Aqui, de voto, ficará pendente, E um culto de saudade Aqui, perennemente, Lhe daremos no altar da Liberdade.
NOTAS DE RODAPÉ:
XVI. PREITO.
É lei do tempo, Senhora, Que ninguem domine agora E todos queiram reinar. Quanto vale n’esta hora Um vassallo bem sujeito, Leal de homenage e preito E facil de governar? Pois o tal sou eu, Senhora: E aqui juro e firmo agora Que a um despotico reinar Me rendo todo n’esta hora, Que a liberdade sujeito... Não a reis!—outro é meu preito: Anjos me hãode governar.
XVII. NO LUMIAR.
Era um dia de Abril; a primavera Mostrava apenas seu virgineo seio Entre a folhagem tenra; não vencêra, De todo, o sol o mysterioso inleio Da nevoa rara e fina que extendêra A manhan sôbre as flores; o gorgeio Das aves inda timido e infantil... Era um dia de Abril. E nós iamos lentos passeiando De vergel em vergel, no descuidado Socêgo d’alma que se está lembrando Das luctas do passado, Das vagas incertezas do porvir. E eu não cançava de admirar, de ouvir, Porque era grande, um grande homem devéras Aquelle duque—alli maior ainda, Alli no seu Lumiar, entre as sinceras Bellezas d’esse parque, entre essas flores, A qual mais bella e de mais longe vinda Esmaltar de mil côres Bosque, jardim, e as relvas tam mimosas, Tam suaves ao pé—muito ha cançado De pisar alcatifas ambiciosas, De tropeçar no perigoso estrado Das vaidades da terra. E o velho duque, o velho homem d’Estado, Ao fallar d’essa guerra Distante—e das paixões da humanidade, Surria malicioso D’aquelle surrir fino sem maldade, Que tam seu era, que, entre desdenhoso E benevolo, a quanto lhe sahia Dos labios dava um cunho de nobreza, De razão superior. E então como elle a amava e lhe queria A ésta pobre terra portugueza! Velha tinha a razão, velha a experiencia, Joven só esse amor. Tam joven, que inda cria, inda esperava, Inda tinha a fe viva da innocencia!... Eu, na fôrça da vida, Tristemente de mim me invergonhava. —Passeavamos assim, e em reflectida Meditação tranquilla descuidados Iamos sós, ja sem fallar, descendo Por entre os velhos olmos tam copados, Quando sentimos para nós crescendo Rumor de vozes finas que zumbia Como enxame de abelhas entre as flores, E vimos, qual Diana entre os menores Astros do ceo, a fórma que se erguia. Sôbre todas gentil, d’essa extrangeira Que se esperava alli. Perfeita, inteira No velho amavel renasceu a vida E a graça facil. Cuidei ver o antigo O nobre Portugal que resurgia No venerado amigo; E na formosa dama que surria, O genio da subida, Rara e fina elegancia que a nobreza, O gòsto, o amor do Bello, o instincto da Arte Reune e faz irmãos em toda a parte; Que affere a grandeza Pela medida só dos pensamentos, Do stylo de viver, dos sentimentos, Tudo o mais como futil desprezando. Pensei que a saudar o velho illustre Em seus ultimos dias E a despedir-se, até Deus sabe quando, De nossas praias tristes e sombrias, Vinha esse genio... Tristes e sombrias, Que o sol lhe foge, lhe esmorece o lustre, E onde tudo o que é alto vai baixando... O triste, o que não tem ja sol que o aqueça Sou eu talvez—que, á míngua de fe, sinto O cerebro gelar-me na cabeça Porque no coração o fogo é extincto. Elle não era assim, Ou, sabía fingir melhor do que eu! —Como o nobre corcel que invelheceu Nas guerras, ao sentir o aureo telim E as armas sôbre o dorso descarnado, Remoça o garbo, em juvenil meneio Franja de espuma o freio, E honra os brazões da casa em que foi nado. Nunca me hade esquecer aquelle dia! Nem os olhos, as fallas, e a sincera Admiração da bella dama ingleza Por tudo quanto via; O fructo, a flor, o aroma, o sol que os gera, E ésta vivaz, vehemente natureza, Toda de fogo e luz, Que ama incessante, que de amar não cança, E continua produz Nos fructos o prazer, na flor a esp’rança. Alli as nações todas se junctaram, Alli as várias línguas se fallaram; A Europa convidada Veio ao festim—não ao festim, ao preito. Vassallagem rendida foi prestada Ao talento, á belleza, A quanto n’alma infunde amor, respeito, Porque é devéras grande:—que a grandeza Os homens não a dão; Põe-na por sua mão N’aquelles que são seus, Nos que escolheu—só Deus. Oh! minha pobre terra, que saudades D’aquelle dia! Como se me aperta O coração no peito co’as vaidades, Co’as miserias que ahi vejo andar álerta, Á sôlta, appregoando-se! Na intriga, Na traição, na calúmnia é forte a liga, É fraca em tudo o mais... Tu, socegado Descança no sepulchro; e cerra, cerra Bem os olhos, amigo venerado, Não vejas o que vai por nossa terra. Eu fecho os meus, para trazer mais viva Na memoria a tua imagem E a dessa bella Ingleza que se esquiva De nós entre a folhagem Dos bosques de Parthenope. Cançado, Fito n’esta miragem Os olhos d’alma, em quanto que arrastado, Vai o tardio pé Por este que inda é, Que cedo não será, bem cedo—em mal! O velho Portugal.[16]
NOTAS DE RODAPÉ:
XVIII. A UM AMIGO.
Fiel ao costume antigo, Trago ao meu joven amigo Versos proprios d’este dia. E que de os ver tam singelos, Tam simples como eu, não ria Qualquer os fara mais bellos, Ninguem tam d’alma os faria. Que sôbre a flor de seus annos Soprem tarde os desinganos; Que emtôrno os bafeje amor, Amor da espôsa querida, Prolongando a doce vida Fructo que succeda á flor. Recebo este voto, amigo, Que eu, fiel ao uso antigo, Quiz trazer-te n’este dia Em poucos versos singelos, Qualquer os fara mais bellos, Ninguem tam d’alma os faria.
XIX. OS LUSIADAS.
EPILOGO DE PAGGI. I.
Co’a doce voz o cysne lusitano Assim as proprias feras abrandava; Mas nem o Tejo, de seu canto ufano, Nem as ingratas Tagides tocava: De seu impio destino deshumano Nunca as íras fataes, nunca domava; Nem achou entre os seus humanidade Quem moveria as pedras á piedade.
II.
Ingrata patria, o ingenho sublimado Digno de um capitolio em Roma antiga, Tu não o ergueste d’esse baixo estado Em que só por tua glória se affadiga! O ingenho que te inveja mallogrado Toda a nação de meritos amiga, Tu na vida em miserias o deixaste, E em leito vil á fome o assacinaste!
III.
Vai! Sua glória é mais hoje a maravilha Das gentes, porque mais o perseguiste; Morre o teu nome quando o seu mais brilha, Despojam delle a tua lingua triste; Iberia o adoptou, França o perfilha, Britannia o quer; e agora eterno existe, Que n’um e n’outro italico idioma Entre os seus vates o colloca Roma.
IV.
Tu fica-te c’os ossos deshonrados Que te accusam de ingrata ao ceo e á terra; Seu spirito, esse vai onde prezados São virtude e talento, e onde ímpia guerra Stulto o podêr não faz aos mais honrados: Mais de outros ja que teu, ja não se incerra N’um canto do orbe sua altiva fama, Que Augusto a ampara e um Alexandre a acclama
V.
Lá onde surge de alto monte, e brilha Sôbre a escolhida grey de Deus a estrêlla, E egual áquella antiga maravilha Que os reis guiou a Deus, sôbre os reis véla, Lá onde ao merito o podêr se humilha, Beja a paz da justiça a face bella, E de illustre carvalho á sombra amena Descança Roma no velar de Siena,[18]
VI.
Lá vai, minha obra, e d’esta luz roubada Tu leva á patria musa esses primores; Em falla ignota estava sepultada, Raios de extranho sol são seus fulgores. Vai, viverás: tambem com luz furtada Deu vida Prometheu. Se mais não fores, Serás reflexo de belleza, lustre, E de eterno splendor émula illustre.[19]
XIX. LA LUSIADA.
EPILOGO DI PAGGI.[17] I.
Cotal cantava il lusitano cigno Molcendo con sue voce anco le fere, Non che l’amato patrio Tago e’l Migno, E le del canto suo Tagide altere: Che pur del suo destino empio e maligno Non puote unqua addolcir l’ire severe; Non trovando fra suoi humanitade Quei ch’i scelsi avria mossi anco a pietade.
II.
Potesti, ingrata patria, un spirto degno D’un campidoglio in una Roma antica, Non sollevar da basso stato, indegno Di cui fiè per te gloria ogni fatica? Un spirto che t’invidia al maggior segno Ogni altra nazion di mer’ti amica, Veder soffristi vivo egro e scontento Ed in vil letto di disagio spento!
III.
Ma vanne pur che, quanto iniqua, austera Fusti com lui, tanto fra l’altre genti Sorgerá la sua gloria ove tua pera, Fino a caciarne i tuoi nativi accenti. Adotteranlo la nazione ibera, La franca, use adottar spirti eminenti, L’angla; ed ambe le italiche favelle Vorran che viva fra suoi poeti anch’elle.
IV.
Tienti pur l’ossa inonorate ancora Che t’accusan d’ingrata anco sepulte; Che lo spirto di lui, gia di te fuora Non errará, ne fien sue pene inulte; Vedrailo accolto ove virtu s’onora: Gia piu d’altri che tuo, fra le piu culte Genti del orbe, e maturar sua speme Sotto un Augusto e un Alessandro insieme
V.
La ve ad illuminar da eccelso monte Astro di Dio, l’eletta gregia, sorge, Che al par di quel che ad inchinar la fronte Condussi i regi a Dio, i regi scorge, La dove il merto abbatte sforzi ed onte, La giustizia à la pace il labro porge, E di quercia Feretria à l’ombre amena Riposa Roma al vigilar di Siena.
VI.
Or la vanne, opra, ed à le patrie muse, Quasi terzo cristal le luci rendi Che sotto ignoto dir sepolte e chiuse Da sol che altrove splende or furi e prendi. Vanne, e qual gia Prometteo anima infuse Con le luci non sue, tu vita attendi: Spechio del altrui bello, emulo industre E d’eterno splendor riflesso illustre.
NOTAS DE RODAPÉ:
XX. O TEJO. AO SENHOR VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT. PELO CONDE DE CAMBURZANO.
N’essas margens risonhas do Tejo Não ha som que não cante de amor; Em suas ondas azues o lampejo Das estrêllas, no albor, se espelhou.
XX. IL TAGO. AL SIGNOR VISCONTE DE ALMEIDA-GARRETT. DAL CONTE DI CAMBURZANO.
Sule sponde ridenti del Tago Dice ogni eco canzone d’amore; In que’ flutti d’azzuro sì vago Ogni stella al mattin si spechiò. Essa terra produz a violeta Ao primeiro surrir da manhan, Vago Zephyro a flor indiscreta, Sussurrando, lascivo beijou. É loquaz este bosque sombrio, Cheio ainda do canto dos bardos; Aqui é Tempe, aqui o Menalo frio, E o Meandro que os cysnes produz. Oiço uns echos de magica lyra Pela noite ir ao longo da praia... Quem é esse tam fero que ahi gyra E do dia desdenha da luz? É Catão,[20]—só a este não doma Quem a terra fez muda a seu mando; É Catão—a infamia de Roma Na sua frente jamais não pesou. Quella terra produce la viola Al primiero dell’ alba sorriso, Zefiretto che lene trasvola Susurrando quel fiore baciò. Son loquaci le brune foreste, Piene ancora del canto de’ bardi; Quivi è Tempe, quì Menalo agreste, E’l Meandro che i cigni nutrì. Odo un suono di magica lira Lungo il lido sull’ umida sera... Chi è colui che sì fiero s’aggira E disdegna la luce del di? Egli é Cato[21], lui solo non doma Chi la terra fè muta á suoi cenni; Egli é Cato, l’infamia di Roma Sul suo capo giammai non pesò. Como geme alva pomba ferida, Assim Merope[22] geme e lamenta; Soam trompas guerreira alarida, E a alegria ao seu peito voltou. Nas cumiadas de Herminio[23] nevosas, Que dos horridos gelos se c’roam, Ve a aurora coberta de rosas De belleza em que pompa surgiu! Na hástea debil as tenras florinhas Vão o puro rocio bebendo, Cada gotta do ceo, nas hervinhas, Ricca perola ardente luziu. Mas o Genio do monte, que horrendo Entre as sombras impera da noite, Bate as azas, ja foge e fremendo No profundo do mar mergulhou. Come gemon le bianche colombe, Cosi Merope[24] piange e lamenta; Ma improviso squillare di trombe Alta gioja in suo cuore versò. Su le cime d’Erminio[25] nevose, Cui fan gl’orridi ghiacci corona, Ve’ l’aurora cosparsa di rose Qual fa pompa di rara beltà! I fioretti sul gracile stelo Van bevendo la pura rugiada, Ogni stilla caduta dal cielo Fra l’erbette una perla si fa. Ma lo Spirto del monte, che orrendo Tiene impero fra l’ombre di notte, Bate l’ali, gia fugge e fremendo Nel profondo dei mari piombó. Repentino lá surge um guerreiro, Torvo o cenho, a armadura de ferro... É Viriato... a seus pés—o primeiro!— Calca as Aguias que o mundo adorou. Da caverna que os ossos lhe incerra Surde a voz... Inclinae as cabeças Ante o livre que impavido á terra —Ou morrer—ou salvá-la jurou... Immudece a harpa.—O nome adorado Da sua Julia[26] as Driades cantem! Sôbre a fronte ao poeta sagrado Phebo proprio os seus loiros poisou. Un guerriero repente si desta, Torvo il ciglio, rachiuso nell’arme, É Viriato... un vessillo calpesta Che tremante la terra mirò. Dallo speco che l’ossa ne serra Una voce si parte—t’inchina A colui che la libera terra O far salva o perire giurò... Tace l’arpa... Di Giulia[27] ripeta Ogni Driade il nome soave!... Su la fronte del sacro poeta Febo istesso l’alloro posò.
NOTAS DE RODAPÉ:
XXI. CANÇÃO DA DONZELLA FINLANDEZA.
Oh! se o meu Bem me volver, Se quem d’antes via, eu vejo, Traga elle a bôcca a escorrer De lobo em sangue, lh’a bejo; E a mão vou-lh’a apertar, Cobras lh’a andem a inroscar. Ah! se o vento alma tivera, Lingua o ar da primavera, Fôra a sua voz bastante: Novas levára e trouxera Entre um e outro amante. Desprézo finos guizados, Deixo ao cura os seus assados; Só quero amar, ser constante A quem o verão me deu E o hinverno affez a ser meu.[28]
NOTAS DE RODAPÉ:
XXI. EYTON RUNO SUOMALAISEN.
Jos mun tuttuni tulisi, Ennen nähtyni näkyisi, Sillen suuta suikkajaisin; Jos olis suu suden weressä; Sillen kättä käppäjäisin, Jospa käärme kämmen-päässä. Olisko tuuli mielellisnä, Ahawainen kielellisnä: Sanan toisi, sanan weisi, Sanan liian liikuttaisi, Kahden kaunihin wälillä. Ennen heitän herkku-ruuat, Paistit pappilan unohdan, Ennenkun heitän herttaseni, Kesän kestyteltyäni, Talwen taiwuteltuani.[A]
XXI. CARMEN FENICAE FUELLAE.
Ille si meus veniret, Visus ante si veniret; Illitum lupi cruore Os libenter oscularer; Si ter implicaret anguis, At manum manu tenerem. Si qua mens adesset austro, Si qua lingua veris aurae; Ferret aura, ferret auster, Et referret usque verba, Nuntians, amanti amantis. Nil moror dapes opimas, Presbiter nihil quod assat, Dum mihi meum reservem, Quem mihi subegit aestas, Bruma quem dedit domandum. A. Hedner Praepositus Ydriensis.
XXI. ΕΙΔΥΛΛΙΟΝ ΦΕΝΝΙΚΟΝ
Ὡς ἴκοιθ’ ὁ προσφιλής μοι, Τὸν πάλαι φανέντ’ ἴδοιμι, Τόνδε κἀκ λύκου φιλοῖμ’ ἄν Αἱματοσταγῆ τὰ χείλη, Ἐν χεροῖν αὐτοῦ δὲ φῦσα Ὄφιος οὐ ταρβοῖμ’ ἑλιγμούς. Εἰ γένοιτ’ ἔμφρων μὲν αὔρα, Εἰ πνοὴ δ’ ἔναυδος ἦρος, Σὺν τάχει πρόσω πάλιν τε, Τοὺς ἂν ἀλλήλων ἐρώντων, Πίστεως λόγους κομίίζοι. Πλὴν λιχνεύματ’ ἂν μεθείην, Ὀπτὰ κρέα θ’ ἱρέως ἔγωγε Μᾶλλον, ἢ τἀνδρὸς λαθοίμην, Τοῦπερ ἐν θέρει δαμέντος, Ἐν κρύει κατεκράτησα. J. Spongberg Professor Linguæ Græcæ