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Nota de editor:
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Rita Farinha (Junho 2014)

EURICO O PRESBYTERO
QUINTA EDIÇÃO
LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1864
Para as almas, não sei se diga demasiadamente positivas, se demasiadamente grosseiras, o celibato do sacerdocio não passa de uma condição, de uma formula social applicada a certa classe d'individuos cuja existencia ella modifica vantajosamente por um lado e desfavoravelmente por outro. A philosophia do celibato para os espiritos vulgares acaba aqui. Aos olhos dos que avaliam as cousas e os homens só pela sua utilidade social, essa especie d'insulação domestica do sacerdote, essa indirecta abjuração dos affectos mais puros e sanctos, os da familia, é condemnada por uns como contraria ao interesse das nações, como damnosa em moral e em politica, e defendida por outros como util e moral. Deus me livre de debater materia tantas vezes disputada, tantas vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo e pelos que sabem a sciencia do céu! Eu, por minha parte, fraco argumentador, só tenho pensado no celibato á luz do sentimento e sob a influencia da impressão singular que desde verdes annos fez em mim a idéa da irremediavel solidão d'alma a que a igreja condemnou os seus ministros, especie de amputação espiritual, em que para o sacerdote morre a esperança de completar a sua existencia na terra. Supponde todos os contentamentos, todas as consolações que as imagens celestiaes e a crença viva podem gerar, e achareis que estas não supprem o triste vacuo da soledade do coração. Dae ás paixões todo o ardor que poderdes, aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a maxima energia e convertei o mundo em paraizo, mas tirae delle a mulher, e o mundo será um ermo melancholico, os deleites serão apenas o preludio do tedio. Muitas vezes, na verdade, ella desce, arrastada por nós, ao charco immundo da extrema depravação moral; muitissimas mais, porém, nos salva de nós mesmos e, pelo affecto e enthusiasmo, nos impelle a quanto ha bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na existencia dos anjos revelada nos profundos vestigios dessa existencia impressos n'um coração de mulher? E porque não sería ella na escala da creação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, á humanidade pela fraqueza e pela morte e, do outro, aos espiritos puros pelo amor e pelo mysterio? Porque não sería a mulher o intermedio entre o céu e a terra?
Mas, se isto assim é, ao sacerdote não foi dado comprehendê-lo; não lhe foi dado julgá-lo pelos mil factos que no-lo tem dicto, a nós os que não jurámos juncto do altar repellir metade da nossa alma, quando a providencia no-la fizesse encontrar na vida. Ao sacerdote cumpre acceitar esta por verdadeiro desterro: para elle o mundo deve passar desconsolado e triste, como se nos apresenta ao despovoarmo-lo daquellas por quem e para quem vivemos.
A historia das agonias íntimas geradas pela lucta desta situação excepcional do clero com as tendencias naturaes do homem sería bem dolorosa e variada, se as phases do coração tivessem os seus annaes como os tem as gerações e os povos. A obra da logica potente da imaginação que cria o romance sería bem grosseira e fria comparada com a terrivel realidade historica de uma alma devorada pela solidão do sacerdocio.
Essa chronica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros quando elles desabavam no meio das nossas transformações politicas. Era um buscar insensato. Nem nos codices illúminados da idade média, nem nos pallidos pergaminhos dos archivos monasticos estava ella. Debaixo das lageas que cubriam os sepulchros claustraes havia, por certo, muitos que a sabiam; mas as sepulturas dos monges achei-as mudas. Alguns fragmentos avulsos que nas minhas indagações encontrei eram apenas phrases soltas e obscuras da historia que eu buscava debalde; debalde, porque á pobre victima, quer voluntaria, quer forçada ao sacrificio, não era lícito o gemer, nem dizer aos vindouros:—«sabei quanto eu padeci!»
E, por isso mesmo que sobre ella pesava o mysterio, a imaginação vinha ahi para supprir a historia. Da idéa do celibato religioso, das suas consequencias forçosas e dos raros vestigios que destas achei nas tradições monasticas nasceu o presente livro.
Desde o palacio até a taberna e o prostibulo; desde o mais esplendido viver até o vejetar do vulgacho mais rude, todos os logares e todas as condições tem tido o seu romancista. Deixae que o mais obscuro de todos seja o do clero. Pouco perdereis com isso.
O
Monasticon
é uma intuição quasi prophetica do passado, ás vezes intuição mais difficultosa que a do futuro.
Sabeis qual seja o valor da palavra monge na sua origem remota, na sua fórma primitiva? É o de—
só e triste
.
Por isso na minha concepção complexa, cujos limites não sei de antemão assignalar, dei cabida á
do Presbytero godo: dei-lh'a, tambem, porque o pensamento della foi despertado pela narrativa de certo manuscripto gothico, affumado e gasto do roçar dos seculos que outr'ora pertenceu a um antigo mosteiro do Minho.
O
Monge de Cister
, que deve seguir-se a
Eurico
, teve, proximamente, a mesma origem.
ajuda—novembro de 1843.
EURICO O PRESBYTERO
I OS WISIGODOS
A um tempo toda a raça goda, soltas as redeas do governo, começou a inclinar o animo para a lascivia e suberba. Monge de Silos: Chronicon. c. 2.
A raça dos wisigodos conquistadora das Hespanhas subjugara toda a Peninsula havia mais de um seculo. Nenhuma das tribus germanicas que, dividindo entre si as provincias do imperio dos cesares, tinham tentado vestir sua barbara nudez com os trajos despedaçados, mas esplendidos, da civilisação romana soubera como os godos ajunctar esses fragmentos de purpura e ouro para se compôr a exemplo de povo civilisado.
, depois de ter estabelecido leis politicas e civis e a paz e ordem publicas nos seus vastos dominios, que se estendiam de mar a mar e, ainda, transpondo as montanhas da Vasconia, abrangiam uma grande porção da antiga Gallia narbonense.
Desde essa epocha a distincção das duas raças, a conquistadora ou goda e a romana ou conquistada, quasi desapparecera, e os homens do norte haviam-se confundido com os do meio-dia em uma só nação, para cuja grandeza contribuira aquella com as virtudes asperas da Germania, esta com as tradições da cultura e policia romanas. As leis dos cesares, pelas quaes se regiam os vencidos, misturaram-se com as singelas e rudes instituições wisigothicas, e já um codigo unico, escripto na lingua latina, regulava os direitos e deveres communs quando o arianismo, que os godos tinham abraçado abraçando o evangelho, se declarou vencido pelo catholicismo, a que pertencia a raça romana. Esta conversão dos vencedores á crença dos subjugados foi o complemento da fusão social dos dous povos. A civilisação, porém, que suavisou a rudeza dos barbaros era uma civilisação velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aquelles homens primitivos trouxe-lhes o peior dos males, a perversão moral. A monarchia wisigothica procurou imitar o luxo do imperio que morrera e que ella substituira. Toletum quiz ser a imagem de Roma ou de Constantinopola. Esta causa principal, ajudada por muitas outras, nascidas em grande parte da mesma origem, gerou a dissolução politica por via da dissolução moral.
Debalde muitos homens de genio revestidos da auctoridade suprema tentaram evitar a ruina que viam no futuro: debalde o clero hespanhol, incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquellas eras tenebrosas e cuja influencia nos negocios publicos era maior que a de todas as outras classes junctas, procurou nas severas leis dos concilios, que eram verdadeiros parlamentos politicos, reter a nação que se despenhava. A podridão tinha chegado ao amago da arvore, e ella devia seccar: o proprio clero se corrompeu por fim. O vicio e a degeneração corriam soltamente, rota a ultima barreira.
Foi então que o celebre Ruderico se apossou da coroa. Os filhos do seu predecessor Witiza, os mancebos Sisebuto e Ebbas, disputaram-lh'a largo tempo; mas, segundo parece dos escaços monumentos historicos dessa escura epocha, cederam por fim, não á usurpação, porque o throno gothico não era legalmente hereditario, mas á fortuna e ousadia do ambicioso soldado, que os deixou viver em paz na propria corte e os revestiu de dignidades militares. D'ahi, se dermos credito a antigos historiadores, lhe veiu a ultima ruina na batalha do rio Chryssus ou Guadalete, em que o imperio gothico foi anniquilado.
No meio, porém, da decadencia dos godos algumas almas conservavam ainda a tempera robusta dos antigos homens da Germania. Da civilisação romana ellas não haviam acceitado senão a cultura intellectual e as sublimes theorias moraes do christianismo. As virtudes civís e, sobretudo, o amor da patria tinham nascido para os godos logo que, fixando o seu domicilio nas Hespanhas, possuiram de paes a filhos o campo agricultado, o lar domestico, o templo da oração e o cemiterio do repouso e da saudade. Nestes corações, onde reinavam affectos ao mesmo tempo ardentes e profundos, porque nelles a indole meridional se misturava com o caracter tenaz dos povos do norte, a moral evangelica revestia esses affectos d'uma poesia divina, e a civilisação ornava-os de uma expressão suave, que lhes realçava a poesia. Mas no fim do seculo septimo eram já bem raros aquelles em quem as tradições da cultura romana não haviam subjugado os instinctos generosos da barbaria germanica e a quem o christianismo fazia ainda escutar o seu verbo intimo, esquecido no meio do luxo profano do clero e da pompa insensata do culto exterior. Uma longa paz com as outras nações tinha convertido a antiga energia dos godos em alimento das dissensões intestinas, e a guerra civil, gastando essa energia, havia posto em logar della o habito das traições covardes, das vinganças mesquinhas, dos enredos infames e das abjecções ambiciosas. O povo, esmagado debaixo do peso dos tributos, dilacerado pelas luctas dos bandos civis, prostituido ás paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras de seus avós. As leis de Wamba e as expressões de Erwig no duodecimo concilio de Toletum revelam quão fundo ía nesta parte o cancro da degeneração moral das Hespanhas. No meio de tantos e tão duros vexames e padecimentos, o mais custoso e aborrecido de todos elles para os afeminados descendentes dos soldados de Theoderik, de Thorsmund, de Theudes e de Leuwighild era o vestir as armas em defensão daquella mesma patria que os heroes wisigodos tinham conquistado para a legarem a seus filhos, e a maioria do povo preferia a infamia que a lei impunha aos que recusavam defender a terra natal aos riscos gloriosos dos combates e á vida fadigosa da guerra.
Tal era, em resumo, o estado politico e moral da Hespanha na epocha em que aconteceram os sucessos que vamos narrar.
II O PRESBYTERO
Sublimado ao grau de presbytero.... quanta brandura, qual caridade fosse a sua o amor de todos lh'o demonstrava. Alvaro de Cordova: Vida de S. Eulogio c. 1.
No reconcavo da bahia que se encurva ao oeste do Calpe, Carteia, a filha dos phenicios, mira ao longe as correntes rapidas do estreito que divide a Europa da Africa. Opulenta outr'ora, os seus estaleiros tinham sido famosos antes da conquista romana, mas apenas restam vestigios delles; as suas muralhas haviam sido extensas e solidas, mas jazem desmoronadas; os seus edificios foram cheios de magnificencia, mas cahiram em ruinas; a sua povoação era numerosa e activa, mas rareiou e tornou-se indolente. Passaram por lá as revoluções, as conquistas, todas as vicissitudes da Iberia durante doze seculos, e cada vicissitude dessas deixou ahi uma pégada de decadencia. Os curtos annos d'explendor da monarchia wisigothica tinham sido para ella como um dia formoso d'inverno, em que os raios do sol resvalam pela face da terra sem a aquecerem, para depois vir a noite, humida e fria como as que a precederam. Debaixo do governo de Witiza e de Ruderico a antiga Carteia é uma povoação decrepita e mesquinha, á roda da qual estão espalhados os fragmentos da passada opulencia e que, talvez, na sua miseria, apenas nas recordações que lhe suggerem esses farrapos de louçainhas juvenis acha algum refrigerio ás amarguras da malfadada velhice.
Não!—Resta-lhe ainda outro: a religião do Christo.
O presbyterio, situado no meio da povoação, era um edificio humilde, como todos os que ainda subsistem alevantados pelos godos sobre o sólo da Hespanha. Cantos enormes sem cimento alteiam-lhe os muros, cobre-lhe o ambito tecto achatado, tecido de grossas traves de carvalho sobpostas ao ténue colmo: o seu portal profundo e estreito presagia de certo modo a mysteriosa portada da cathedral da idade-média: as suas janellas, por onde a claridade, passando para o interior, se transforma em tristonho crepusculo, são como um typo indeciso e rude das frestas que, depois, alumiaram os templos edificados no decimo quarto seculo, através das quaes, coada por vidros de mil cores, a luz ia bater melancholica nos alvos pannos dos muros gigantes e estampar nelles as sombras das columnas e arcos enredados das naves. Mas se o presbyterio wisigothico, no escaço da claridade, se approxima do typo christão d'architectura, no resto revela que ainda as idéas grosseiras do culto de Odin não se tem apagado de todo nos filhos e netos dos barbaros, convertidos ha tres ou quatro seculos á crença do crucificado.
O presbytero Eurico era o pastor da pobre parochia de Carteia. Descendente de uma antiga familia barbara,
, vivera os ligeiros dias da mocidade no meio dos deleites da opulenta Toletum. Rico, poderoso, gentil, o amor viera, apesar disso, quebrar a cadeia brilhante da sua felicidade. Namorado d'Hermengarda, filha de Favila, duque de Cantabria, e irman do valoroso e depois tão celebre Pelagio, o seu amor fora infeliz. O orgulhoso Favila não consentira que o menos nobre gardingo pusesse tão alto a mira dos seus desejos. Depois de mil provas de um affecto immenso, de uma paixão ardente, o moço guerreiro vira submergir todas as suas esperanças. Eurico era uma destas almas ricas de sublime poesia a que o mundo deu o nome d'imaginações desregradas, porque não é para o mundo entendê-las. Desventurado, o seu coração de fogo queimou-lhe o viço da existencia ao despertar dos sonhos do amor que o tinham embalado. A ingratidão d'Hermengarda, que parecera ceder sem resistencia á vontade de seu pae, e o orgulho insultuoso do velho procer deram em terra com aquelle animo, que o aspecto da morte não sería capaz de abater. A melancholia que o devorava, consumindo-lhe as forças, fe-lo cahir em longa e perigosa enfermidade, e, quando a energia de uma constituição vigorosa o arrancou das bordas do tumulo, semelhante ao anjo rebelde, os toques bellos e puros do seu gesto formoso e varonil transpareciam-lhe a custo através do véu de muda tristeza que lhe entenebrecia a fronte. O cedro pendia fulminado pelo fogo do céu.
Uma destas revoluções moraes que as grandes crises produzem no espirito humano se operou então no moço Eurico. Educado na crença viva daquelles tempos; naturalmente religioso porque poeta, foi procurar abrigo e consolações aos pés d'Aquelle cujos braços estão sempre abertos para receber o desgraçado que nelles vai buscar o derradeiro refugio. Ao cabo das grandezas cortesans o pobre gardingo encontrara a morte do espirito, o desengano do mundo. Ao cabo da estreita senda da cruz acharia elle, porventura, a vida e o repouso intimos? Era este problema, no qual se resumia todo o seu futuro, que tentava resolver o pastor do pobre presbyterio da velha cidade do Calpe.
Depois de passar pelos differentes gráus do sacerdocio, Eurico recebera ainda de Siseberto, o predecessor de Oppas na sé de Hispalis, o encargo de pastoreiar esse diminuto rebanho da povoação phenicia. O moço presbytero, legando á cathedral uma porção dos dominios que herdara junctamente com a espada conquistadora de seus avós, havia reservado apenas uma parte das proprias riquezas. Era esta a herança dos miseraveis, que elle sabia não escaceiarem na quasi solitaria e meia arruinada Carteia.
A nova existencia d'Eurico tinha modificado, porém não destruido o seu brilhante caracter. A maior das humanas desventuras, a viuvez do espirito, abrandara, pela melancholia, as impetuosas paixões do mancebo e apagara nos seus labios o riso do contentamento, mas não podera desvanecer no coração do sacerdote os generosos affectos do guerreiro, nem as inspirações do
poeta. O templo
havia sanctificado aquelles, moldando-os pelo evangelho, e tornado estas mais solemnes, alimentando-as com as imagens e sentimentos sublimes estampados nas paginas sacrosanctas da Biblia. O enthusiasmo e o amor tinham resurgido naquelle coração que parecera morto, mas transformados; o enthusiasmo em enthusiasmo pela virtude; o amor em amor dos homens. E a esperança? Oh, a esperança, essa é que não renascera!
III O POETA
Nenhum de vós ouse reprovar os hymnos compostos em louvor de Deus. Concilio de Toledo IV. can. 13.
Muitas vezes, pela tarde, quando o sol, transpondo a bahia de Carteia, descia affogueiado para a banda de Mellaria, dourando com os ultimos resplendores os cimos da montanha pyramidal do Calpe, via-se ao longo da praia vestido
o presbytero Eurico, encaminhando-se para os alcantis aprumados á beira-mar. Os pastores que o encontravam, voltando ao povoado, diziam que, ao passarem por elle e ao saudarem-no, nem sequer os escutava e que dos seus labios semi-abertos e tremulos rompia um sussurro de palavras inarticuladas, semelhante ao ciciar da aragem pelas ramas da selva. Os que lhe espreitavam os passos, nestes largos passeios da tarde, viam-no chegar ás raizes do Calpe, trepar aos precipicios, sumir-se entre os rochedos e apparecer, por fim, lá ao longe, immovel sobre algum pincaro requeimado pelos soes do estio e poido pelas tempestades do inverno. Ao lusco-fusco, as amplas pregas da stringe d'Eurico, branquejando movediças á mercê do vento, eram o signal de que elle estava lá, e, quando a lua subia ás alturas do céu, esse alvejar de roupas tremulas durava, quasi sempre, até que o planeta da saudade se atufava nas aguas do Estreito. D'ahi a poucas horas, os habitantes de Carteia que se erguiam para os seus trabalhos ruraes antes do alvorecer, olhando para o presbyterio, viam, através dos vidros corados da solitaria morada de Eurico, a luz da lampada nocturna que esmorecia, desvanecendo-se na claridade matutina. Cada qual tecia então sua novella ajudado pelas crenças da superstição popular: artes criminosas, tracto com o espirito mau, penitencia de uma abominavel vida passada e, até, a loucura, tudo serviu successivamente para explicar o proceder mysterioso do presbytero. O povo rude de Carteia não podia entender esta vida d'excepção, porque não percebia que a intelligencia do poeta precisa de viver n'um mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites.
Mas Eurico era como um anjo tutelar dos amargurados. Nunca a sua mão benefica deixou de estender-se para o logar em que a afflicção se assentava; nunca os seus olhos recusaram lagrymas que se misturassem com lagrymas d'alheias desventuras. Servo ou homem livre, liberto ou patrono, para elle todos eram filhos. Todas as condições se livelavam onde elle apparecia; porque, pae commum daquelles que a providencia lhe confiara, todos para elle eram irmãos. Sacerdote do Christo, ensinado pelas largas horas de intima agonia, esmagado o seu coração pela suberba dos homens, Eurico percebera, emfim, claramente que o christianismo se resume em uma palavra—fraternidade. Sabía que o evangelho é um protesto dictado por Deus, para os seculos, contra as vans distincções que a força e o orgulho radicaram neste mundo de lodo, d'oppressão e de sangue; sabía que a unica nobreza é a dos corações e dos entendimentos que buscam erguer-se para as alturas do céu, mas que essa superioridade real é exteriormente humilde e singela.
Pouco a pouco, a severidade dos costumes do pastor de Carteia e a sua beneficencia, tão meiga, tão despida das insolencias que costumam acompanhar e encher d'amargor para os miseraveis a piedade hypocrita dos felizes da terra; essa beneficencia que a religião chamou caridade, porque a linguagem dos homens não tinha palavra que exprimisse rigorosamente um affecto revelado á terra pela victima do Calvario; essa beneficencia que a gratidão geral recompensava com amor sincero tinha desvanecido gradualmente as suspeitas odiosas que o proceder extraordinario do presbytero suscitara a principio. Emfim, certo domingo em que, tendo aberto as portas do templo, e havendo já o psalmista entoado os canticos matutinos,
cuidadoso o sacerdote, que parecia ter-se esquecido da hora em que devia sacrificar a hostia do cordeiro e abençoar o povo, foi encontrá-lo adormecido juncto á sua lampada ainda accesa e com o braço firmado sobre um pergaminho cuberto de linhas desiguaes. Antes de despertar Eurico, o ostiario correu com os olhos a parte da escriptura que o braço do presbytero não encobria. Era um novo hymno no genero daquelles que Isidoro, o celebre bispo de Hispalis, introduzira nas solemnidades da igreja goda. Então o ostiario entendeu o mysterio da vida errante do pastor de Carteia e as suas vigilias nocturnas. Não tardou em espalhar-se na povoação e nos logares circumvizinhos que Eurico era o auctor de alguns canticos religiosos transcriptos nos hymnarios de varias dioceses, e uma parte dos quaes brevemente foi admittida na propria cathedral d'Hispalis. O caracter de poeta tornou-o ainda mais respeitado. A poesia, dedicada quasi exclusivamente entre os wisigodos ás solemnidades da igreja, sanctificava a arte e augmentava a veneração publica para quem a exercitava. O nome do presbytero começou a soar por toda a Hespanha, como o de um successor
Desde então ninguem mais lhe seguiu os passos. Assentado nos alcantis do Calpe,vagabundo pelas campinas vizinhas ou embrenhado pelas selvas sertanejas, deixaram-no tranquillo embalar-se nos seus pensamentos. Na conta de inspirado por Deus, quasi na de propheta, o tinham as multidões. Não gastava elle as horas que lhe sobejavam do exercicio de seu laborioso ministerio n'uma obra do Senhor? Não deviam esses hymnos da soledade e da noite derramar-se como um perfume ao pé dos altares? Não completava Eurico a sua missão sacerdotal, revestindo a oração das harmonias do céu, estudadas e colhidas por elle no silencio e na meditação? Mancebo, o numeroso clero das parochias vizinhas considerava-o como o mais veneravel entre os seus irmãos no sacerdocio, e os velhos procuravam na sua fronte, quasi sempre carregada e triste, e nas suas breves mas eloquentes palavras o segredo das inspirações e o ensino da sabedoria.
Mas, se os que o acatavam como um predestinado soubessem quão negra era a predestinação do poeta, porventura que essa especie de culto de que o cercavam se converteria em compaixão ou antes em terror. Os hymnos tão suaves, tão cheios d'uncção, tão intimos, que os psalmistas das cathedraes de Hespanha repetiam com enthusiasmo eram como o respirar tranquillo do somno da madrugada que vem depois de arquejar e gemer de pesadello nocturno. Rapido e raro passava o sorrir nas faces de Eurico; profundas e indeleveis eram as rugas da sua fronte. No sorriso reverberava o hymno pio, harmonioso, sancto dessa alma, quando, alevantando-se da terra, se entranhava nos sonhos de um mundo melhor. Ás rugas, porém, da fronte do presbytero, semelhantes ás vagas varridas pelo noroeste, respondia um canto lugubre de colera ou desalento, que rebramia lá dentro, quando a sua imaginação, cahindo, como a aguia ferida, das alturas do espaço, se rojava pela morada dos homens. Era este canto doloroso e tetrico, o qual lhe transsudava do coração em noites não dormidas, na montanha ou na selva, na campina ou no estreito aposento, que elle derramava em torrentes de amargura ou de fel sobre pergaminhos que nem o ostiario nem ninguem tinha visto. Estes poemas, em que palpitava a indignação e a dor de um animo generoso, eram o Gethsemani do poeta. Todavia, os virtuosos nem sequer o imaginavam, porque não perceberiam como, tranquilla a consciencia e repousada a vida, um coração póde devorar-se a si proprio, e os maus não criam que o sacerdote, embebido unicamente em suas esperanças credulas, em suas cogitações d'além do tumulo, curasse dos males e crimes que roíam o imperio moribundo dos wisigodos; não criam que tivesse um verbo de colera para amaldicçoar os homens aquelle que ensinava o perdão e o amor. Era por isto que o poeta escondia as suas terriveis inspirações. Monstruosas para uns, objecto de ludibrio para outros, n'uma sociedade corrupta, em que a virtude era egoista e o vicio incredulo, ninguem o escutara ou, antes, ninguem o entenderia.
Levado á existencia tranquilla do sacerdocio pela desesperança, Eurico sentira a principio uma suave melancholia refrigerar-lhe a alma requeimada ao fogo da desdita. A especie de torpor moral em que uma rapida transição de habitos e pensamentos o lançara pareceu-lhe paz e repouso. A ferida affizera-se ao ferro que estava dentro della, e Eurico suppunha-a sarada. Quando um novo affecto veio espremê-la é que sentiu que não se havia cerrado e que o sangue manava ainda, porventura, com mais força. Um amor de mulher mal correspondido a tinha aberto: o amor da patria, despertado pelos acontecimentos que rapidamente succediam uns aos outros na Hespanha despedaçada pelos bandos civis, foi a mão que de novo abriu essa chaga. As dores recentes, avivando as antigas, começaram a converter pouco a pouco os severos principios do christianismo em flagello e martyrio daquella alma, que, a um tempo, o mundo repellia e chamava e que nos seus transes d'angustia sentia escripta na consciencia com a penna do destino esta sentença cruel:—nem a todos dá o tumulo a bonança das tempestades do espirito.
As scenas de dissolução social que naquelle tempo se representavam na Peninsula eram capazes de despertar a indignação mais vehemente em todos os animos que ainda conservavam um diminuto vestigio do antigo caracter godo. Desde que Eurico trocara o gardingato pelo sacerdocio, os odios civís, as ambições, a ousadia dos bandos e a corrupção dos costumes haviam feito incriveis progressos. Nas solidões do Calpe tinha reboado a desastrada morte de Witiza, a enthronisação violenta de Ruderico e as conspirações que ameaçavam rebentar por toda a parte e que a muito custo o novo monarcha ía affogando em sangue. Ebbas e Sisebuto, filhos de Witiza, Oppas, seu tio, successor de Siseberto na sé de Hispalis, e Juliano, conde dos dominios hespanhoes nas costas d'Africa, do outro lado do Estreito, eram os cabeças dos conspiradores. Unicamente o povo conservava aínda alguma virtude, a qual, semelhante ao liquido transvasado por cendal delgado e gasto, escoara inteiramente atravez das classes superiores. Opprimido, todavia, por muitos generos de violencias, esmagado debaixo dos pés dos grandes que luctavam, descrera por fim da patria, tornando-se indifferente e covarde, prestes a sacrificar a sua existencia collectiva á paz individual e domestica. A força moral da nação tinha, portanto, desapparecido, e a força material era apenas um phantasma; porque, debaixo das lorigas dos cavalleiros e dos saios dos peões das hostes não havia senão animos gelados, que não podiam aquecer-se ao fogo do sancto amor da terra natal.
Com a profunda intelligencia de poeta, o Presbytero contemplava este horrivel espectaculo de uma nação cadaver e, longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes daquella geração degenerada, ou derramava sobre o pergaminho em torrentes de fel, d'ironia e de colera a amargura que lhe trasbordava do coração ou, recordando-se dos tempos em que era feliz porque tinha esperança, escrevia com lagrymas os hymnos de amor e de saudade. Das elegias tremendas do Presbytero alguns fragmentos que duraram até hoje diziam assim:
IV RECORDAÇÕES
Onde é que se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?
S. Eulogio
:
Memorial dos Sanct. liv.
3.º
Presbyterio de Carteia. Á meia noite dos Idos de Dezembro de 748.
1
Era por uma destas noites vagarosas do inverno em que o brilho do céu sem lua é vivo e tremulo; em que o gemer das selvas é profundo e longo; em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é absoluta e tetrica.
Era a hora em que o homem está recolhido nas suas mesquinhas moradas; em que pelos cemiterios o orvalho se pendura do topo das cruzes e, sósinho, goteja das bordas das campas; em que só elle chora os mortos. As larvas da imaginação e o gear nocturno affastam do campo sancto a saudade da viuva e do orpham, a desesperação da amante, o coração despedaçado do amigo. Para se consolarem, os infelizes dormiam tranquillos em seus leitos macios!... em quanto os vérmes íam roendo esses cadaveres amarrados pelos grilhões da morte. Hypocritas dos affectos humanos, o somno enxugou-lhes as lagrymas!
E depois, as lousas eram já tão frias! Nos seios de um torrão humido o sudario do cadaver tinha apodrecido com elle.
Haverá paz no tumulo? Deus sabe o destino de cada homem. Para o que ahi repousa sei eu que ha na terra o esquecimento!
Os mares pareciam naquella hora recordar-se ainda do rugido harmonioso do estio, e a vaga arqueiava-se, rolava e, espreguiçando-se pela praia, reflectia a espaços nas golfadas de escuma a luz indecisa dos céus.
E o animal que ri e chora, o rei da creação, a imagem da divindade, onde é que se escondera?
Tremia de frio em aposento cerrado, e sentia confrangido a brisa fresca do norte que passava nas trevas e sibilava contente nas sarças rasteiras dos maninhos desertos.
Sem dúvida, o homem é forte e a mais excellente obra da creação. Gloria ao rei da natureza que tiritando geme!
Orgulho humano, qual és tu mais?—feroz, estupido ou ridiculo?
2
quando, ora arrastando por terra as aguias romanas, ora segurando com o seu braço de ferro o imperio que desabava, imperavam na Italia, nas Gallias e nas Hespanhas, moderadores e arbitros entre o Septemtrião e o Meio-dia:
Não era assim, quando o velho Theoderik, semelhante ao urso feroz da montanha,
rodeiado de tres filhos contra o terrivel Attila e ganhava no seu ultimo dia a sua ultima victoria:
Quando a larga e curta espada de dous gumes se convertera em fouce de morte nas mãos dos godos, e diante della retrocedia a cavallaria dos gépidas, e os esquadrões dos hunos vacillavam, dando roucos gritos d'espanto e terror.
Quando as trevas eram mais cerradas e profundas viam-se á claridade das estrellas relampagueiar as armas dos hunos, volteiando em roda dos seus carros, que lhes serviam de vallos. Como o caçador espreita o leão tomado no fojo, os wisigodos os vigiavam, esperando o romper da alvorada.
Lá, o sopro gelado da noite não fazia confranger nossos avós debaixo das armaduras. Lá, a neve era um leito como outro qualquer, e o rugir do bosque, debatendo-se nas azas da tempestade, era uma cantilena de repouso.
O velho Theoderik cahira atravessado por uma frecha despedida pelo ostrogodo Handags, que com os da sua tribu combatia pelos hunos.
Os wisigodos viram-no, passaram ávante e vingaram-no. Ao pôr do sol, gépidas, ostrogodos, scyros, burgundos, thuringios, hunos, misturados uns com outros, tinham mordido a terra catalaunica, e os restos da innumeravel hoste d'Attila, encerrados no seu acampamento fortificado, preparavam-se para morrer; porque Theoderik jazia para sempre, e o frankisk dos wisigodos era vingador e inexoravel.
O romano Aecio teve, porém, piedade d'Attila e disse aos filhos de Theoderik:—ide-vos, porque o imperio está salvo.
E Thorsmund, o mais velho, perguntou a seus dous irmãos Theoderik e Friederik:—está acaso vingado o sangue de nosso pae?
De sobejo o estava elle! Ao apparecer do dia, por quanto os olhos podiam alcançar, não se viam senão cadaveres.
E os wisigodos deixaram entregues a si os romanos, que, desde então, não souberam senão fugir diante d'Attila.
Quem contará, porém, as victorias de nossos avós durante tres seculos de gloria? Quem poderá celebrar o esforço d'Eurik, de Theudes, de Leuwighild; quem saberá todas as virtudes de Rekkáred e de Wamba?
Mas, em qual coração resta hoje virtude e esforço no vasto imperio d'Hespanha?
3
Era, pois, n'uma destas noites como a que desceu do céu depois do desbarato dos hunos; era n'uma destas noites em que a terra, envolta no seu manto d'escuridade, se povôa de terrores incertos; em que o sussurro do pinhal é como um coro de finados, o despenho da torrente como um ameaçar d'assassino, o grito da ave nocturna como uma blasphemia do que não crê em Deus.
Nessa noite fria e humida, arrastado por agonia intima, vagava eu ás horas mortas pelos alcantis escalvados das ribas do mar e enxergava ao longe o vulto negro das aguas balouçando-se no abysmo que o Senhor lhes deu para perpetua morada.
Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sopro do vento, como o rugido do mar.
Porque o vento e o oceano são as duas unicas expressões sublimes do verbo de Deus, escriptas na face da terra quando ainda ella se chamava o cahos.
Depois é que surgiu o homem e a podridão, a arvore e o verme, a bonina e o emmurchecer.
E o vento e o mar viram nascer o genero-humano, crescer a selva, crescer a primavera;—e passaram, e sorriram-se.
E, depois, viram as gerações reclinadas nos campos do sepulchro, as arvores derribadas no fundo dos valles seccas e carcomidas, as flores pendidas e murchas pelos raios do sol do estio;—e passaram, e sorriram-se.
Que tinham elles, de feito, com essas existencias, mais passageiras e incertas que as correntezas de um e que as ondas buliçosas do outro?
4
O mundo actual nunca poderá entender plenamente o affecto que, vibrando-me dolorosamente as fibras do coração, me arrastava para as solidões marinhas do promontorio, quando os outros homens nos povoados se apinhavam á roda do lar acceso e falavam das suas mágoas infantis e dos seus contentamentos de um instante.
E que m'importa a mim isso? Virão um dia a esta nobre terra d'Hespanha gerações que comprehendam as palavras do Presbytero.
Arrastava-me para o ermo um sentimento intimo, o sentimento de haver acordado, vivo ainda, deste sonho febril chamado vida e de que hoje ninguem acorda, senão depois de morrer.
Sabeis o que é esse despertar de poeta?
É o ter entrado na existencia com um coração que trasborda d'amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajunctarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso d'innocencia lodo, fel e peçonha e, depois, rirem-se d'elle:
É o ter dado ás palavras—virtude, amor patrio e gloria—uma significação profunda e, depois de haver buscado por annos a realidade dellas neste mundo, só encontrar ahi hypocrisia, egoismo e infamia:
É o perceber á custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas cousas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tenue que ondeia em horisonte áquem do qual está assentada a sepultura.
Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abysmos da sua alma só ha para mandar aos labios um sorriso de desprezo em resposta ás palavras mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldicção desabridamente sincera para julgar as acções dos homens.
É então que para elle ha unicamente uma vida real—a intima; unicamente uma linguagem intelligivel—a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convivencia não travada de perfidia—a da solidão.
5
Tal era eu quando me assentei sobre as fragas; e a minha alma via passar diante de si esta geração vaidosa e má, que se crê grande e forte, porque sem horror derrama em luctas civis o sangue de seus irmãos.
E o meu espirito atirava-se para as trévas do passado.
E o sopro rijo do norte affagava-me a fronte requeimada pela amargura, e a memoria consolava-me das dissoluções presentes com a aspiração suave do formoso e energico viver d'outr'ora.
E o meu meditar era profundo como o céu, que se arqueia immovel sobre nossas cabeças; como o oceano, que, firmando-se em pé no seu leito insondavel, braceja pelas bahias e enseadas, tentando esmigalhar e desfazer os continentes.
E eu pude, emfim, chorar.
6
Que fora a vida, se nella não houvera lagrymas?
O Senhor estende o seu braço pesado de maldicções sobre um povo criminoso: o pae que perdoara mil vezes converte-se em juiz inexoravel; mas, ainda assim, a Piedade não deixa de orar juncto dos degráus do seu throno.
Porque sua irman é a Esperança, e a esperança nunca morre nos céus. De lá ella desce ao seio dos máus antes que sejam precítos:
E os desgraçados na sua miseria conservam sempre olhos que saibam chorar.
A dor mais tremenda do espirito quebrantam-na e entorpecem-na as lagrymas.
O Sempiterno as creou quando nossa primeira mãe nos converteu em réprobos: ellas servem, porventura, ainda de algum refrigerio lá nas trévas exteriores, onde ha o ranger dos dentes.
Meu Deus, meu Deus!—Bemdicto seja o teu nome, porque nos déste o chorar.
V A MEDITAÇÃO
Então os godos cahirão na guerra;
Então fero inimigo ha-de opprimi-los
Com ruinas sem conto, e o susto e a fome.
Hymno de
S. Isidoro
em
Lucas de Tui
. Chronicon liv. 3.º
No templo—Ao romper d'alva—Dia de Natal da era de 748.
1
Mais de sete seculos são passados depois que tu, oh Christo, vieste visitar a terra.
E as tuas palavras foram escutadas pelos indomaveis filhos da Gothia, e elles ajoelharam aos pés da cruz.
Era que nessas palavras divinas havia uma poesia celeste, a qual as almas rudes mas virgens do septemtrião sentiam casar-se com as suas primitivas virtudes.
Tu evangelisavas a liberdade e condemnavas todo o genero de tyrannia: tu restituias ao valor a sua generosidade, á generosidade a sua modestia; tu revelavas inauditos mysterios no esforço do morrer: a constancia dos teus martyres escurecia a dos nossos guerreiros quando, debaixo do punhal de inimigo victorioso, recusavam confessar-se vencidos.
Tu convertias o amor, esse sentimento delicioso, até então limitado ao goso material da mulher, em um grande e sublime affecto: alargavas o ambito do coração por toda a terra, por tudo quanto nella vive e respira, e davas-lhe para conquistar todas as existencias dos céus.
A generosidade, o esforço e o amor, ensinaste-os tu em toda a sua sublimidade: só nas almas dos barbaros estavam elles em germen. Não para os romanos corrompidos, mas para nós, os selvagens septemtrionaes, era o christianismo. Para estes o evangelho assemelhava-se ao sol que rompe d'além das serras e que illumina, aquece e alegra; para os escravos abjectos dos cesares assemelhava-se ao sol mergulhando-se no mar, que só deixa nos campos escuridão, frialdade e tristeza.
Por isso, emquanto elles voltavam as costas á tua cruz ou a lançavam d'envolta com os idolos nos seus mesquinhos lararios, nós quebravamos no fundo das selvas ou no topo das montanhas as imagens d'Odin, de Thor e de Freda e corriamos a abraçarmo-nos com ella.
Tem compaixão de nós, oh Christo: lembra-te de que os ossos dos que assim o fizeram ainda não são inteiramente cinzas debaixo das lousas; porque só quatro seculos tem passado por cima delles.
2
Quem é hoje christão e godo nesta nossa terra d'Hespanha?
Uma geração degenerada pisa os restos d'heroes: homens sem crença, blasphemos ou hypocritas, succederam aos que criam na grandeza moral do genero-humano e na providencia de Deus.
D'antes, os principes do povo eram os capitães das hostes: a espada dos reis a primeira que se tingia no sangue dos inimigos da patria.
D'antes, o sacerdote era o anjo da terra: os que passavam curvavam-se para beijar a fimbria da sua stringe; porque a paz e a esperança entravam em todas as moradas sobre que desciam as bençams delle.
D'antes, o juiz era o pae do opprimido, o tribunal o abrigo do innocente, a justiça o nervo do imperio gothico.
D'antes, nos concelhos dos prelados, dos nobres, dos homens livres as leis íam buscar a sancção da sabedoria e afferir-se pela utilidade commum. Lá, o rei sabía que o poder lhe vinha de Deus e da vontade dos godos, que o sceptro era cajado de pastor, não cutello d'algoz, e a coroa uma carga pesada, não uma aureola de vangloria.
Hoje, nos paços de Toletum só retumba o ruido das festas, os frankos e os vasconios talam as provincias do norte, e a espada dos guerreiros só reluz nas luctas civís.
Hoje, os principes na embriaguez dos banquetes esqueceram-se das tradições d'avós; esqueceram-se de que era aos capitães das hostes da Germania que os romanos imbelles davam o nome de reis.
Hoje, a prostituição entrou no templo do Crucificado: os claustros das cathedraes velam com o seu manto de pedra as abominações da torpeza, e as mãos do sacerdote deixam muitas vezes humedecida a tela que veste os altares com vestigios do sangue derramado covarde e vilmente.
Hoje, a cubiça assentou-se no logar da equidade: o juiz vende a consciencia no mercado dos poderosos, como as mulheres de Babylonia vendiam a pudicicia nas praças publicas aos que passavam, diante da luz do dia.
Hoje, a espada substituiu o conselho dos prelados, dos nobres e dos homens livres: a coroa é uma conquista, a lei uma vontade do deshonrado vencedor de pelejas domesticas, a liberdade uma palavra mentida.
Imperio d'Hespanha, imperio d'Hespanha! porque foram os teus dias contados?
3
O sol oriental que ora bate ridente no pavimento da igreja afflige a minha alma, porque me parece que, alumiando esta terra condemnada, se assemelha a homem cruel que viesse dar uma risada juncto ao leito do moribundo.
Porque te havia eu de amar, oh sol, se tu és o inimigo dos sonhos do imaginar; se tu nos chamas á realidade, e a realidade é tão triste?
Pela escuridão da noite, nos logares ermos e ás horas mortas do alto silencio a phantasia do homem é mais ardente e robusta.
É então que elle dá movimento e vida aos penhascos, voz e entendimento ás selvas que se meneiam e gemem á mercê da brisa nocturna.
É então que elle collige as suas recordações; une, parte, transmuda as imagens das existencias que viu passar ante si e estampa nas sombras que o rodeiam um universo transitorio, mas para elle real.
E é bello esse mundo de phantasmas aereos, por entre cujos labios descorados não transpiram nem perjurio nem dobrez e a cujos olhos sem brilho não assoma o reflexo de animos pervertidos.
Ahi ha o repouso, a paz e a esperança que desappareceram da terra; porque o mundo das visões cria-o a mente pura do poeta: ella dá corpo e vulto ao que já só é ideal, e o passado, deixando cahir o seu immenso sudario, ergue-se em pé e, pondo-se diante do que medita, diz-lhe:—aqui estou eu!
E este o compara com o presente e recúa d'involuntario terror:
Porque o cadaver que se alevanta do pó é formoso e sancto, e o presente que vive e passa e sorri é horrendo e maldicto.
E o poeta atira-se chorando ao seio do cadaver e responde-lhe:—esconde-me tu!
É lá que esta alma, arida como a urze, sente, quando ahi se abriga, refrescá-la um como orvalho do céu.
VI SAUDADE
Christo!—dá-me o perdão; dá-me remedio;
Que entre tão vario mal fraqueia a mente!
Eugenio Toledano
:
Opusculos—XI.
Na Ilha-verde. Ao pôr do sol das kalendas de abril da era de 749.
1
O mar estava tranquillo, e o ar puro e diaphano. As costas d'Africa fronteiras, lá na extremidade do horisonte, pareciam uma orla escura bordada no manto azul do firmamento.
A aragem do norte encrespava suavemente a superficie das aguas: as ondas vinham espraiar-se preguiçosas no areial da bahia.
O barqueiro Ranimiro dormia na sua barca amarrada na foz do Palmonio. Uma saudade indizivel attrahia-me para o mar.
Saltei na barca; o ruido que fiz despertou Ranimiro.—«Ao largo»—disse-lhe eu. Empunhou os remos, e partimos.
«Para onde, Presbytero?»—perguntou o barqueiro, depois de vogar alguns momentos em silencio.
«Quero respirar o ar puro e fresco da tarde; mais nada:—repliquei.—Leva-me para onde te approuver.»
—Se vos parece—tornou Ranimiro—
, entraremos no canal, e saltareis na margem. Pelo tempo que vai, ella estará agora esmaltada de verdura e boninas.»
Calei-me: o barqueiro tomou por approvação o meu silencio. Voltando a proa para poente, corremos ao largo da ilha e, rodeiando a sua margem occidental, abicámos em terra pelo lado da enseada que a separa do continente.
Ranimiro não se enganara: como uma tapeçaria riquissima lançada ao som das aguas, a superficie da ilha agitava-se trémula com a aragem da terra, que curvava brandamente as flores e as folhinhas lanceoladas da relva.
Assentado á sombra de uma rocha que formava um promontoriosinho do lado do sul, lancei os olhos em volta até onde se descubria o horisonte. Lá, no extremo do Estreito para a banda do mar interior, viam-se na ponta da Africa os cimos das torres de Septum fronteiras aos cerros escalvados do Calpe. De Septum para o occidente as costas africanas contrastavam nas suas ondulações suaves com a penedia aspera das ribas hispanicas, e, confrangido entre os dous continentes, o mar balouçava-se resplandecente com os raios já inclinados do sol.
De roda de mim a atmosphera estava impregnada de um halito perfumado: era a natureza que sorria affagada pela primavera. As aves aquaticas redemoinhavam nos ares ou pousavam sobre as aguas e pareciam, nos seus vôos incertos, ora vagarosos, ora rapidos, folgarem com os primeiros dias da estação dos amores.
Uma melancholia suave se me erguia lentamente no coração, debaixo daquelle céu puro, n'aquella atmosphera balsamica, ante aquelles horisontes saudosos. As lagrymas rebentaram-me involuntariamente dos olhos.
Era feliz neste momento, porque repousava d'amarguras. Olhei para a barca: Ranimiro adormecera de novo á proa. Repousavam bem perto um do outro a materia e o espirito.
Bemaventurado, pensei eu comigo, aquelle em quem os affagos de uma tarde serena de primavera no silencio da solidão produzem o torpor dos membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do ruido da vida!
E este pensamento trouxe-me pouco e pouco á memoria as tempestades do passado. Ai de mim! Logo se me enchugaram as lagrymas, porque eram de consolação, e essa lembrança as estancou!
2
Porque não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmurio das vagas somnolentas, ao sussurro da brisa do norte?
Porque mulher barbara não entendeu o que valia o amor d'Eurico; porque velho orgulhoso e avaro sabía mais um nome de avós do que eu, e porque nos seus cofres havia mais alguns punhados d'ouro do que nos meus.
As mãos imbelles de uma donzella e de um velho esmagaram e despedaçaram o coração de um homem, como os caçadores covardes assassinam no fojo o leão indomavel e generoso.
E, todavia, este coração sentia a voz da consciencia pregoar-lhe largos destinos! Porque não emmudeceu essa voz quando do portico do templo lancei ao mundo a maldicção da despedida?
Porque me lembra com saudade, aqui, a estas horas, o tempo das minhas esperanças?
É porque o viver é o éculeo do espirito: a alma estorce-se como agonisante no meio dos mais incomportaveis tormentos, sem nunca poder expirar, e os seus affectos profundos são com ella; não lhes é dado o morrer.
Paz e esquecimento, oh meu Deus!
3
Os raios derradeiros do sol desappareceram: o clarão avermelhado da tarde vai quasi vencido pelo grande vulto da noite, que se alevanta do lado de Septum. Nesse chão tenebroso do oriente a tua imagem serena e luminosa surge a meus olhos, oh Hermengarda, semelhante á apparição do anjo da esperança nas trevas do condemnado.
E essa imagem é pura e sorri; orna-lhe a frente a coroa das virgens; sobe-lhe ao rosto a vermelhidão do pudor;
da innocencia, fluctuando-lhe em volta dos membros, esconde-lhes as fórmas divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos bellas que a realidade.
É assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz saudade: mas, em sonhos ou desenhada no vapor do crepusculo, tu não és para mim mais do que uma imagem celestial; uma recordação indecifravel; um consolo e ao mesmo tempo um martyrio.
Não eras tu emanação e reflexo do céu? Porque não ousaste, pois, volver os olhos para o fundo abysmo do meu amor? Verias que esse amor do poeta é maior que o de nenhum homem; porque é immenso, como o ideal, que elle comprehende; eterno, como o seu nome, que nunca perece.
Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! adorava-te só no sanctuario do meu coração, emquanto precisava de ajoelhar ante os altares para orar ao Senhor. Qual era o melhor dos dous templos?
Foi depois que o teu desabou, que eu me acolhi ao outro para sempre.
Porque vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti está a cruz ensanguentada do Calvario; quando a mão inexoravel do sacerdocio soldou a cadeia da minha vida ás lageas frias da igreja; quando o primeiro passo alèm do limiar desta será a perdição eterna?
Mas, ai de mim! essa imagem que parece sorrir-me nas solidões do espaço está estampada unicamente em minha alma e reflecte-se no céu do oriente através destes olhos perturbados pela febre da loucura, que lhes queimou as lagrymas.
Tu, Hermengarda, recordares-te?! Mentira!... Crês que morri, ou, porventura, nem isso crês; porque para creres era preciso lembrares-te, e nem uma só vez te lembrarás de mim!
Lá, no tumulto dos cortezãos, onde o amor é calculo ou sentimento grosseiro, terás achado quem te chame sua, quem te aperte entre os braços, quem tivesse para dar a teu pae o preço do teu corpo e te comprasse como alfaia preciosa para serviço domestico. O velho estará contente, porque trocou sua filha por ouro.
A isto chama prudencia o mundo estupido e ambicioso; a isto, que não é mais do que uma prostituição abençoada sacrilegamente perante as aras sacrosanctas.
Oh, quantas vezes esse pensamento repugnante me tem feito vagueiar louco pelas montanhas, uivando como o lobo esfaimado e tentando despedaçar os rochedos com as mãos, d'onde me goteja o sangue!
E tu folgas e ris! Oxalá nunca saibas quão intenso e atroz é o meu tormento, que devo velar diante dos homens debaixo de aspecto tranquillo, como se, em vez de martyrio, elle fosse um abominavel crime.
4
E quem te disse, Presbytero, que o teu amor não era um crime?
Tens razão, consciencia! Quando aos pés do veneravel Siseberto o gardingo Eurico jurou que abandonava o mundo devia despir as paixões que do mundo trouxera.
A luz brilhante d'affeições e esperanças a que vivia e que me povoava o coração de felicidade devia apagar-se então, como a lampada do templo ao amanhecer; porque eu voltava-me para o céu, buscando a luz do Senhor.
Mas o sol, apenas nasceu para mim, logo desappareceu no occaso, e os que me creem alumiado mal pensam que vivo em trevas!
As minhas paixões não podiam morrer, porque eram immensas, e o que é immenso é eterno.
E assim, nem ouso pedir a paz do sepulchro; porque para mim não haveria paz, senão no anniquilamento!
O anniquilamento! Que mal te fiz eu, oh meu Deus, para me não deixares cá dentro mais que uma idéa risonha, mais que um desejo capaz de encher o abysmo da minha desventura? Que mal te fiz eu para que esse desejo, essa idéa seja a que unicamente resta ao precíto que se revolve em perpetuas angustias?
Mas para mim, como para elle, tal pensamento é vão e mentido! Eternidade, eternidade, a alma do homem está encerrada e captiva no illimitado do teu imperio!
VII A Visão
No espelho da visão está a segurança da verdade.
Codigo wisigothico—I-1-2.
Presbyterio. Antemanhan. Oito dos idos d'abril da era de 749.
1
O somno ou a vigilia, que me importa esta ou aquelle? As horas da minha vida são quasi todas dolorosas; porque a imaginação do homem não póde dormir.
Para o povo, ignorante e impiamente credulo, a noite é cheia de terrores; em cada folha que range na selva elle ouve um gemido de alma que vagueia na terra; em cada sombra de arvore solitaria que se balouça com a aragem sente o mover de um phantasma; as exhalações dos bréjos são para elle luz de demonios, alumiando folgares de feiticeiras.
Mas, quando jaz no leito do repouso, o seu dormir é tranquillo. Ao cruzar os umbraes domesticos esses terrores sumiram-se com os objectos que os geraram. A sua alma parece despir-se da phantasia grosseira, como o corpo se despe da stringe aspera que lhe resguarda os membros.
Não assim eu. Quando as palpebras, cerrando-se, m'escondem o mundo das realidades, os olhos do espirito volvem-se para o mundo das existencias ideaes. Ás vezes, a felicidade e a esperança vem consolar-me então; muitas mais, porém, os sonhos maus me perseguem; e por bem alto preço me saem os instantes de ventura transitoria trazidos por visões consoladoras.
Esta foi para mim uma noite cruel. Ainda o suor frio que me corria da fronte se não seccou; ainda o coração parece mal caber no peito, e o pulso bate desordenado e violento.
Terribilissimos foram os sonhos que Deus mandou ao Presbytero; mas, porventura, mais terrivel é a sua significação.
Diz-me voz intima que esse doloroso espectaculo a que assistiu a minha alma é, oh Hespanha, o mysterio dos teus destinos.
E esta foi a visão:
2
Eram as horas das trevas profundas. Sem saber como, achava-me no viso mais alto do Calpe: traspassava-me a medúla dos ossos o vento frio da noite, e parecia-me que os membros hirtos se me haviam pregado no topo da penedia.
Olhava fito ante mim, e os meus olhos rompiam a escuridão do horisonte, como se a luz do sol o illuminasse.
O espectaculo maravilhoso que se passava nesse espaço insondavel fazia-me erriçar os cabellos, que o norte me açoutava com o sopro gelado.
Eis o que eu vi nessa hora de agonia, depois de estar alli alguns não sei se instantes ou seculos.
O mar cessou de agitar-se e rugir, semelhante ao metal fervente destinado para a feitura d'estatua colossal que resfriasse de subito em vasta caldeira.
E era horribilissimo ver convertido em cadaver, de todo immovel e mudo, o oceano; aquelle oceano que ha mais de quarenta seculos nem um só dia deixou de revolver-se e bramir em torno dos continentes, como o tigre ao redor da rez que jaz morta.
O sibillar das rajadas tambem cessou completamente. Parado sobre a face da terra, o ar era semelhante ao lençol do finado a quem recalcaram a gleba que o cobre, frio, humido, pesado, sem ranger, sem movimento, cosido sobre o peito, onde acabou o bater do coração e o arfar compassado dos pulmões.
Então, muito ao longe, uma vermelhidão tenuissima foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo horisonte e repintando a abobada immensa dos céus.
Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas, dentadas, tortuosas, alvacentas das fragas marinhas tinham-se abatido e livelado, como os cerros informes de neve amontoada, que, derretidos nos primeiros dias do estio, vão, despenhando-se, formar um lago chão e morto na caldeira mais funda do valle fechado.
Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, affogueiado, como a atmosphera que pesava em cima delle: e, além, jazia o cadaver do mar.
Eu, o Silencio e a Solidão eramos quem estava ahi.
3
Subitamente, naquelle vasto horisonte, até então puro na sua luz horrenda, dous castellos de nuvens cerradas e negras começaram a alevantar-se, um da banda da Europa, outro do lado d'Africa.
Os bulcões conglobados corriam um para o outro e multiplicavam-se, vomitando novos castellos de nuvens, que se diffundiam, fluctuando ennoveladas com fórmas incertas.
E aquellas montanhas vaporosas e negras rasgaram-se d'alto a baixo em fendas semelhantes a algares profundos, e os seus fragmentos informes e cambiantes vacillavam tremulos em ascensão diagonal para as alturas do céu.
Ao approximarem-se, os dous exercitos de nuvens prolongaram-se em frente um do outro e toparam em cheio. Era uma verdadeira batalha.
Como duas vagas encontradas, no meio de grande procella, que, tombando uma sobre a outra, se quebram em cachões que espadanam lençoes de escuma para ambos os lados, antes que a menos violenta se incorpore na mais possante, assim aquellas nuvens tenebrosas se despedaçavam, derramando-se pela immensidão da abobada affogueiada.
Então, pareceu-me ouvir muito ao longe um choro sentido misturado com gritos agudos, como os do que morre violentamente, e um tinir de ferro, como o de milhares de espadas, batendo nas cimeiras de milhares de elmos.
Mas este ruido foi-se alongando e cessou: os bulcões alevantados da banda d'Africa tinham embebido em si os que subiam da Europa, e desciam rapidamente
Depois, sentí lá embaixo, na raiz da montanha, um rir diabolico. Olhei: o Calpe esboroava-se ao redor de mim, e os rochedos sobre que eu estava assentado vacillavam nos seus fundamentos.
Despertei. Tinha os cabellos hirtos, e o suor frio manava-me da fronte aquecida por febre ardente.
Senhor, Senhor! foste tu que déste a ler á minha alma a ultima pagina do livro eterno em que a providencia escreveu a historia do imperio godo?
Contam-se cousas incriveis desses povos que assolam a Africa, chamados os arabes, e que, em nome de uma crença nova, pretendem apagar na terra os vestigios da cruz. Quem sabe se aos arabes foi confiado o castigo desta nação corrupta?
Já as nossas praias foram visitadas por elles, e para os repellir cumpriu que desembainhasse a espada o illustre Theodemiro, o ultimo guerreiro, talvez, que mereça o nome de neto dos godos.
Terra em que nasci, se o teu dia de morrer é chegado, eu morrerei comtigo. Na procella que se alevanta d'Africa deixarei submergir o meu debil esquife, sem que a esses gemidos que ouvi se vão ajunctar os meus. Que m'importa a vida ou a morte, se o padecer é eterno?
VIII O DESEMBARQUE
E eu estava em um angulo, observando com temor.
Paulo Diacono: Vidas dos PP. Emeritenses.
DO PRESBYTERO DE CARTEIA AO DUQUE DE CORDUBA
Ao Duque Theodemiro, saude!
Quando Witiza reinava, na corte esplendida de Toletum, havia dois tiuphados que a todos serviam d'exemplo d'intima e sincera amizade. Opiniões e intentos, alegrias e tristezas eram communs para ambos. Chamava-se Theodemiro o mais velho, Eurico o mais moço. Nas suas esperanças de mancebos, as Hespanhas foram-lhes, muitas vezes, limitado theatro para illusões de ambição. A gloria era o seu perpetuo sonho, e as recordações das façanhas dos antigos godos embriagavam-lhes os animos ao lembrarem-se de que as armas dos seus avós da Germania tinham brilhado victoriosas sempre sobre os membros despedaçados do imperio romano. Quando o grito da revolta soou na Cantabria as tiuphadias dos dous mais irmãos que amigos acompanhavam Witiza na expedição contra os montanhezes rebeldes e contra os frankos seus alliados. Então, n'essa guerra d'exterminio, os dous mancebos viram saciada sua sede de renome. Como os macissos de neve que se despenham das montanhas escarpadas da Vasconia, as duas tiuphadias de Theodemiro e de Eurico appareciam, ás vezes, subitamente, nos visos das serras e, apenas os primeiros raios do sol faziam reluzir as armas, semelhantes no brilho tremulo ao alvejar da geada, ei-las que pareciam rolar-se pela encosta, e, dentro de pouco, os acampamentos dos frankos e cantabros ficavam esmagados debaixo do impeto irresistivel dessas pinhas de soldados que eram arremessados sobre os inimigos por duas vontades emulas de gloria. Expulsos os estrangeiros e submettidos os rebellados, a hoste real entrou victoriosa em Tárraco. O duque Favilla recebeu em triumpho os pacificadores de Cantabria, e Theodemiro e Eurico obtiveram a recompensa do que combateu pela patria, a gratidão dos seus naturaes.
Foi ahi que o destino preparou a separação dos dous guerreiros que parecia só a morte poder dividir. Favilla tinha dous filhos, Hermengarda e Pelagio. Pelagio saía apenas da infancia, mas para Hermengarda despontavam já então os risonhos dias da juventude. A sua formosura era celestial: Eurico viu-a e amou-a. Quando as tiuphadias foram chamadas a Toletum, Eurico voltou triste á terra da sua infancia. Dir-se-hia que eram os contentamentos da patria que elle trocava pelas tristezas do desterro. Debalde buscou Theodemiro apagar aquella paixão violenta no coração do seu amigo, lançando-se com elle nas festas ruidosas de uma corte dissoluta. A embriaguez dos banquetes era para Eurico tristonha; as caricias feminís, facilmente compradas e profundamente mentidas, atrás das quaes correra loucamente outr'ora, tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade sublime, lhe convertera em podridão asquerosa os deleites grosseiros que o mundo offerece á sensualidade do homem. Theodemiro acreditara na efficacia da bruteza para matar o mais formoso dos affectos humanos; mas o amor devorou na mente de Eurico todos os outros sentimentos, como a lava candente devora tudo o que encontra, quando o vulcão a vomita, alagando a superficie da terra.
Favila veio á corte: Hermengarda acompanhava-o. Theodemiro recordar-se-ha ainda de qual foi o desfecho do amor de Eurico, que ousou dizer ao velho procer: «Dá-me por mulher tua filha.» A amizade de Theodemiro salvou então o desprezado gardingo da morte do corpo, mas não pôde salva-lo da morte da alma. Razões, rogos, lagrymas; quanto a eloquencia de affeição mais que fraterna tem de vehemencia; quantas cordas do coração sabe fazer vibrar a mão de um amigo, tudo elle tentou debalde! Não ha palavras que possam erguer um espirito que deu em terra; mão nenhuma tira sons de cordas que estalaram. Eurico ou, antes, a sua sombra, fugiu do lado de Theodemiro, e da porta do sanctuario disse-lhe um adeus eterno, como ao resto do mundo.
Mal sabía o desgraçado que n'esse adeus a sua consciencia mentia a si propria! Theodemiro, tu hoje és duque de Corduba: entre os povos sujeitos ao teu imperio; entre os que abençoam a tua justiça e bondade, n'um angulo da vasta provincia da Betica, em Carteia, vive um pobre presbytero que para ti pede ao Senhor tanto o renome e o poderio quanto para si deseja a obscuridade e o esquecimento. Este presbytero é quem te escreve; quem limitou a bem poucos annos a eternidade do adeus que te dissera; é aquelle que se chamava no mundo o gardingo Eurico, aquelle de quem foste amigo, e que foi teu rival de gloria.
Duque de Corduba, não creias que o meu espirito se volte hoje para as miserias da terra, impellido por uma tardia saudade. Não! De que me serviriam o ouro, o poder e a grandeza? Para tomar um punhado desse lodo não se curvaria o Presbytero. O unico affecto eterno que, talvez, resta a este coração depurado pelo fogo ardente da desdita, o amor da patria, sentimento confuso e indefinido, mas indelevel, é quem obriga Eurico a dizer-te o logar em que veio coar gota a gota as horas aborridas da sua tormentosa existencia.
Theodemiro! Theodemiro! Um dia tremendo se approxima em que a Hespanha deve ser o tumulo da raça goda. Em sonhos antevi esse dia, e, após dos sonhos, a medonha realidade ahi se me alevanta diante dos olhos. Carteia está deserta, como as demais povoações vizinhas. Apenas eu ouso demorar-me nas immediações do Calpe; porque sei, passo a passo, todas as veredas que guiam ao topo dos desfiladeiros, tendo-as regado muitas vezes com lagrymas, tendo-lhes muitas mais confiado a historia das minhas agonias. As cidades despovoam-se, e, como ellas, os campos convertem-se em ermos. Embora ainda sorriam no vecejar das searas, no florescer dos pomares, no murmurar das fontes: semelhante sorrir consterna; porque o homem desappareceu do meio desta scena formosa, e o ruido da vida converteu-se em silencio de morte.—Os arabes!—eis o unico grito que o interrompe; e esta palavra maldicta é como a peste quando passa: seguem-na o susto e o desacordo. A vileza do coração humano surge após ella em toda a hediondez do seu aspecto. O terror acabou com os mais sanctos affectos e, até, com o amor filial e paterno. Cada qual busca salvar-se a si proprio. Os netos dos nobres godos converteram-se n'um bando desprezivel de covardes egoistas.
Ha tres dias, ao romper da manhan, um grande numero de velas branquejava sobre as aguas do Estreito; vinham do lado de Septum. Corremos á praia. Dentro de poucas horas entraram na bahia de Carteia, e algumas entestaram com a Ilha-Verde. Via-se distinctamente o reluzir das armas, e varios soldados que tinham ajudado a repellir os primeiros saltos dos africanos nas costas d'Hespanha reconheceram logo os trajos e as armas dos arabes. Entre estes, porém, divisavam-se muitos godos, pelas armaduras pesadas, pelos largos ferros dos frankisks e pelas stringes mais curtas que as amplas vestiduras dos filhos do Oriente. D'ahi a pouco toda a frota velejou para o lado do Calpe, e, quando anoiteceu, as faldas da montanha appareceram alumiadas por muitos fachos. Os arabes tinham desembarcado.
A anciedade era indizivel. Demudadas as faces, olhavamos uns para os outros. Elles tremiam por si: eu pela sorte da Hespanha. Mas porque entre esses que pareciam inimigos se achava tão avultado numero de godos? Esta pergunta significava a nossa derradeira esperança.
Ao entenebrecer, alguns barqueiros saíram ao largo e, vogando surdamente, foram espiar a frota. Tomando os atalhos mais curtos, eu encaminhei-me sósinho para o Calpe, cujo vulto gigante, rodeiado de fachos ao sopé, negrejava no topo sobre o fundo alvacento do céu limpo de nuvens, onde a lua passava tranquilla, embargando com o seu clarão pallido o scintillar das estrellas.
Era alta noite quando cheguei á montanha. Subindo pelas quebradas, salvando precipicios, cozendo-me com as fragas tortuosas, descendo pelos leitos das torrentes, cheguei a um rochedo contiguo á planicie que das raizes da serrania vai morrer no rolo do mar, na costa oriental da bahia. Era ahi que os arabes, desamparando a frota, se haviam acampado. Comprimindo o alento, approximei-me insensivelmente de uma tenda mais vasta, alevantada juncto do penhasco a que eu chegara sem ser percebido. Por uma fenda que deixavam as telas mal unidas do pavilhão descortinei o que se passava no interior á luz das tochas que tinham nas mãos dous ethiopes, cujos rostos negros contrastavam com a brancura das suas roupas. Assentado no chão, com os braços cruzados, um arabe mancebo parecia escutar attentamente um guerreiro godo que, em pé no meio de outros dous, tinha as costas voltadas para mim. Com espanto e ao mesmo tempo com alegria, percebi que se exprimia em romano rustico, o qual, d'ahi a pouco, vi que o moço arabe falava como se fosse a propria linguagem. Comecei então a escutar attentamente.
«Tarik—dizia o godo—ámanhan ao romper d'alva é necessario que todos estes penhascos empinados sobre nossas cabeças se coroem de teus soldados e que não tardes em fortificar essa estreita passagem que une o promontorio do Calpe com o resto do continente. É aqui, nestas serras inaccessiveis, que deves esperar o resto dos libertadores da Hespanha: é d'aqui que deves saír com os teus irmãos do deserto para quebrar o sceptro do tyranno Ruderico. Se a sorte das armas nos for contraria, esperaremos neste logar novos soccorros d'Africa. Septum nos fica fronteiro, e Septum entreguei-t'o eu...»
Tarik não o deixou continuar. Como o leão, pulando subitamente dos juncaes da Mauritania, o moço arabe pôs-se em pé, com o gesto colerico, e exclamou:
«Wali dos christãos! quem te fez crer que Tarik podia ser vencido? Vi em sonhos o propheta de Deus que me disse:—a Hespanha curvar-se-ha ao koran:—e Mohammed não mente! Ainda sem ti, eu me teria arrojado sobre o imperio godo, e a minha lança o faria cahir a meus pés moribundo, quando Sebta me tivesse fechado as portas; quando todos vós os godos estivesseis unidos contra mim. Deus é grande, e Mohammed o seu propheta!»
As palavras violentas do arabe revelaram-me quem era o guerreiro godo. Juliano capitaneiou, como nós, uma tiuphadia na guerra cantabrica e foi valente soldado. Sabía que elle fora elevado á dignidade de conde de Septum e que ahi se cubrira de gloria, repellindo os inimigos do imperio, que já tinham tentado conquistar aquella provincia. Como e porque atraiçoou a terra natal? Odios civís o levaram a tanta infamia, segundo entendi das suas palavras. Parricida e fratricida a um tempo, busca vingar-se, talvez de bem poucos de seus irmãos, esmagando-os debaixo das ruinas da patria. A memoria deste malaventurado será reproba e maldicta das gerações remotas!
Juliano parecia querer responder ao mancebo, quando um soldado entrou com um rolo de pergaminho na mão e, entregando-o a Tarik, proferiu algumas palavras em arabe. Tarik olhou então para Juliano com um sorriso e, estendendo-lhe a dextra, disse-lhe em voz baixa:
«
! perdoa-me este impeto, como me tens perdoado tantos outros. Bem sei que não podes comprehender o que é a fé viva de um mosselemano na protecção de Deus: mas eu sería réu do inferno, se duvidasse um instante das promessas do Propheta. O judeu Zabulon acaba de chegar com essa carta do que vós chamaes bispo de Hispalis. Lê-a e dize-me que novas ha de Ruderico.»
Juliano desdeu o nó da carta e leu. Batia-me o coração de furor; mas procurei tranquillisar-me. Importava-me assás conhecer o que ella continha para dever prestar toda a attenção possivel ás palavras do conde Juliano.
«Ruderico—disse este, acabando de correr com os olhos o rolo de pergaminho—entregue aos banquetes e festas, não acredita que o dia da vingança amanhecesse para a Hespanha: todavia, logo que a noticia indubitavel da nossa vinda retumbar sob os tectos dourados dos paços de Toletum, elle convocará os seus numerosos soldados, as suas tiuphadias veteranas, e arremessar-se-ha contra nós; porque Ruderico é dissoluto e perverso, mas nunca foi covarde. O prudente Oppas pensa, como eu, que importa fortificar-nos no Calpe. Aconselha-o a sciencia da guerra, e, se, como crente, confias no teu propheta para contar com a victoria, como capitão deves seguir os conselhos da prudencia humana. Tambem eu espero no Deus das batalhas—proseguiu o conde em tom de mofa, batendo no punho da espada;—tambem eu tenho a minha providencia; mas a aguia, quando se arroja sobre a prêa, tem já construido o seu ninho no penhasco da montanha, e as penedias do Calpe devem ser o ninho das aguias que pairam sobre o throno de Ruderico.»
Tarik ficou por alguns momentos calado e pensativo:
«Seja como te aprouver:—disse por fim.—Busca no exercito os melhores artifices arabes e com elles e com os teus godos alevanta esses vallos em que põe sua confiança o teu coração descrido.»
«Houve um tempo em que não o foi:—replicou Juliano com o accento da colera misturada de indignação e tristeza:—mas Witiza dorme debaixo d'uma lousa o somno da eternidade, e o seu assassino chama-se o rei dos godos. Elle folga e ri assentado no throno que lhe deu a traição e o perjurio. Tarik, o teu propheta inspira-te em sonhos; mas a vingança é mais segura inspiração, porque é o sonho perenne do homem desperto, quando vê, assim, falhar a justiça do céu, se é que nelle ha justiça.»
Proferindo estas palavras blasphemas, Juliano saíu da tenda. Tarik bateu as palmas, e um guerreiro ethiope, cujos olhos lhe reluziam sanguineos na pretidão do rosto, entrou com os braços cruzados e ficou immovel e curvado diante de Tarik. Pareceu-me que este lhe ordenava o que quer que fosse; mas falava na sua linguagem barbara, e não o pude entender.
Sabía assás qual era a situação e quaes os accidentes do solo de todos os desvios do Calpe para perceber que a minha demora naquelles sitios podia tornar-me impossivel a saída. A defensa do promontorio consistia unicamente em cortar com vallos e cavas o isthmo que o liga ao continente. Juliano começaria, talvez, a alevantar as tranqueiras nessa mesma noite; era, portanto, necessario partir.
Quando atravessei a serra pelos trilhos mais curtos e escusos, conheci que o meu receio fora bem fundado. Parando no topo de uma penedia, donde se divisava ao redor quasi toda a montanha, vi centenares de fachos que vacillavam, correndo tortuosamente pelas ladeiras, sumindo-se, tornando a apparecer, retrocedendo. O todo daquella illuminação terrivel estendia-se em volta da montanha, formando uma extensa meia lua, cujas pontas cresciam para o isthmo, ao passo que se approximavam uma da outra, estreitando o cume da serrania. Era visivel que alguem practico nas apertadas gargantas, nas sendas intrincadas do promontorio, guiava os barbaros. Convinha fugir, não porque m'importasse o morrer, mas porque, talvez, a Providencia me guiara á tenda de Tarik para que as Hespanhas fossem salvas, se é que ella não escreveu irrevogavelmente a sua condemnação no livro dos eternos designios.
Theodemiro, vê que a traição, semelhante ao veneno recentemente bebido, que gyra nas veias e ainda não apparece no aspecto, está por toda a parte e, até, penetra no sanctuario. É necessario esforço e vigilancia, já que as dissenções civís quizeram que
hajam de se vibrar sobre a fronte de godos que combatem ao lado do estrangeiro infiel; já que a perfidia póde abrir as portas das nossas cidades aos africanos, sem que estes tenham de passar por cima dos cadaveres de seus irmãos, para se assenhoreiarem dellas. Cumpre que avises Ruderico. Em Hispalis está Oppas, e Oppas tem comsigo numerosos clientes, que, porventura, entregarão aos invasores a mais formosa e opulenta entre as povoações da Betica. Não tardará que os arabes desçam do Calpe e se derramem pelas provincias da Hespanha. Ha dous dias, em que vagueio, quasi só, nas immediações de Carteia, não se passa uma hora, sem que os navios d'Africa venham vomitar na bahia novos esquadrões de soldados. Semelhante aos éstos do mar, é rapido o seu ir e voltar. Dentro d'oito dias, bem custoso sería resistir a Tarik com todo o poder do imperio, quanto mais divididos os godos em dous bandos, um dos quaes pelejará ao lado dos inimigos.
Dir-to-hei, Duque de Corduba: tambem eu não amo Ruderico; porque a memoria de Witiza nunca morrerá no coração do seu antigo gardingo. Sei por quaes meios Ruderico subiu ao throno, que não obteria pela eleição dos godos. Mas não é a sua coroa que os filhos das Hespanhas tem hoje que defender; é a liberdade da patria; é a nossa crença; é o cemiterio em que jazem os ossos dos nossos paes; é o templo e a cruz, o lar domestico, os filhos e as mulheres, os campos que nos sustentam e as arvores que nós plantámos. Para mim, de todos estes incentivos, apenas restam dous; o amor da terra natal e a crença do evangelho. No dia do combate, Eurico despirá a stringe innocente do sacerdocio e vestirá as armas para defender estes objectos queridos dos seus derradeiros affectos. Que, tambem, esses que ainda se enlaçam ás illusões e esperanças, como a hera ás ruinas, se ergam para pelejarem batalhas tremendas, porque o serão, por certo, as que nos aguardam; e oxalá que os meus tristes sonhos sejam desmentidos pelo esforço dos guerreiros godos; oxalá que não esteja para bater a derradeira hora do dominio da cruz nesta terra do occidente, regada pelo sangue de tantos martyres!
De Mellaria, aonde me acolhi com grande numero dos moradores de Carteia e dos seus arredores, continuarei as minhas correrias nocturnas para as bandas do Calpe, com os homens mais ousados que quizerem acompanhar-me, até que os arabes desçam da sua guarida, e seja inutil o vigiá-los; até que chegue o dia em que os desgraçados, como eu, achem na morte honrada das pelejas o repouso das amarguras da vida, se é que além do morrer ha o repouso do espirito.
DO DUQUE DE CORDUBA AO PRESBYTERO.
Ao Gardingo Eurico, saude!
Vives ainda Eurico! Perto de Corduba, onde existia o seu antigo irmão d'armas, o heroe da guerra cantabrica nunca teve um impulso de affecto que o levasse a revelar o mysterio do seu retiro, em que enviasse uma palavra de consolação para a saudade fraterna. Accusas de egoismo e fereza os filhos da Hespanha, e cahiste na mesma culpa: foste egoista e cruel. Não podias crer por certo que eu me houvesse esquecido de ti: larga experiencia te ensinou que as minhas affeições são duradouras e profundas. Mas aquelle que te amou tanto; aquelle que poria a vida para salvar a tua; que nunca teve contentamento ou magua que fosse para ti segredo, tractaste-o com o mesmo desprezo, com que, no teu nobre orgulho de desgraçado, tractaste o resto do mundo; e do limiar do templo disseste-lhe, talvez, o mesmo adeus de odio e despeito que disseste ao resto do genero humano.
É nos dias em que se abre para a patria uma longa carreira de desventuras, que tu surges, gardingo, como a lembrança querida dos formosos dias da nossa mocidade; é na vespera de uma lucta em que se vai resolver se ha-de ser livre ou serva a terra dos godos; em que mil cogitações tristemente solemnes me assaltam o espirito e me obrigam a não me afastar de Corduba, onde incessantemente trabalho por ajunctar os valentes companheiros de nossas glorias de outr'ora; é quando a voz do dever me tem como captivo, que d'um angulo da Betica me dizes—eu vivo!—Embora! Já que não me é dado buscar-te, serás tu que virás lançar-te nos braços do teu amigo.
Sim, gardingo!—Hoje que o imperio é abalado nos seus fundamentos; que os pagãos d'Africa ameaçam derribar a cruz erguida no cimo das nossas cathedraes; hoje, tu despirás a stringe sacerdotal e cingirás de novo a deposta e esquecida espada. Em Corduba, onde se ajunctam já as tiuphadias da Betica, Eurico achará bom numero dos seus antigos guerreiros, e os mais ousados mancebos, que ora encetam a vida dos combates em defesa da patria e da fé, acceitarão com jubilo para seu capitão o homem que deixou um nome que não morrerá emquanto durar a memoria do desbarato dos vasconios e francos. Na ebriedade da gloria que te espera, porventura, achará o teu pobre coração, despedaçado pelas paixões que ahi passaram, o allivio e conforto que vejo teres buscado debalde nos braços de uma piedade austera, de uma vida d'humildade e abnegação. Esta gloria será tanto maior, quanto é certo que nunca o imperio godo se viu tão perto da sua ultima ruina e que nunca foram postos a tão dura prova o esforço e a lealdade dos seus filhos.
As novas que me dás da traição do bispo d'Hispalis são assás graves; mas são necessarias a circumspecção e a prudencia. Os teus ouvidos podem ter-te enganado. Se essa trama horrivel existisse, estender-se-hia por toda a Hespanha. Sabes que Oppas é tio dos moços Sisebuto e Ebbas, cujas pretensões á coroa são conhecidas, pretensões que os beneficios de Ruderico ainda, por certo, lhes não fizeram esquecer. Diz-se que o rei dos godos lhes confiará o mando de uma das alas do exercito com que se encaminha á Betica. Este procedimento generoso obstaria a que rebentasse a conjuração. Não se tracta agora de satisfazer odios de parcialidades civís: tracta-se de salvar o imperio. Fora mais que infamia; não tem nome, immolar a Hespanha no altar de ambiciosa vingança. Não! Embora estejamos corruptos: o exemplo do conde de Septum não será entre nós seguido.
Vem, Eurico, para que reverdeçam os louros da tua gloria. Ouves a voz da patria? É ella que te brada:—Vem combater por salvar-me, tu, o mais valente dos meus filhos!
DO PRESBYTERO AO DUQUE DE CORDUBA.
Eurico a Theodemiro, saude!
Não comprehendeste, duque de Corduba, quão fundo é o abysmo cavado neste coração pela desventura. Não me queixo de ti; porque nem a ti, nem a ninguem é dado comprehendê-lo. Medes o meu espirito pelos affectos humanos; mas é porque não sabes como elle saíu depurado do crisol de padecer infernal.
Gloria! Que m'importa a mim a gloria? Que posso fazer dessa riqueza, inutil como as outras riquezas?
Examina bem a consciencia e dize-me qual é para os corações puros e nobres o motivo immenso, irresistivel das ambições de poder, de opulencia, de renome? É um só—a mulher: é esse o termo final de todos os nossos sonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos desejos. Para o que encontrou na terra aquella que deve amar para sempre, aquella que é a realidade do typo ideal que desde o berço trouxe estampado na alma, a mira das mais exaltadas paixões é a aureola celestial que cinge a fronte da virgem, idolo das suas adorações. Para o que anda, por assim dizer, perdido nas solidões do mundo, porque ainda não descubriu a estrella polar da sua existencia, o astro que ha-de illuminar-lhe a noite do coração, como o sol com os seus primeiros raios illumina as trevas de um templo, para esse a mulher é uma idéa vaga e confusa, mas formosa e querida. Não a conhece, não sabe onde esteja a imagem visivel da filha da sua imaginação, e, todavia, é para lhe pôr aos pés gloria, poderio, riqueza, que elle cubiça tudo isso. Tirae do mundo a mulher, e a ambição desapparecerá de todas as almas generosas. Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento primitivo da actividade interior; é a causa, o fim e o resumo de todos os affectos humanos.
Theodemiro, eu amei como ninguem, talvez, ainda amara. Este amor foi desprezado e ludibriado e, depois, comprimido pelo desprezo e pelo ludibrio no fundo do coração do teu pobre amigo. Sabes o que faz um amor immenso assim recalcado?—Devora e consome o futuro e entenebrece para sempre o horisonte da vida. Nada ha, depois disso, que possa restaurar o que elle tragou: nada que possa rasgar as trevas que elle estendeu. No mesmo sepulchro não ha porvir d'esperança, nem, porventura, luz de consolação; porque ao passamento do corpo precedeu a morte do espirito.
Não, eu não quero a gloria inutil e inintelligivel hoje para mim. Não, eu não quero o mando e o poderio, porque já não sei para o que elles prestam. Como o febricitante em dia ardente do estio, que aspira a brisa da tarde, a qual não póde sará-lo, mas que lhe refrigera por momentos o ardor do sangue, assim eu ainda me deixo affagar pela idéa de me atirar ao maior fervor das batalhas pelejadas em nome da patria: esse delirio dos perigos, essa loucura que o cheiro de sangue produz é um respiradouro por onde resfolegará a indignação e a colera enthesourada por annos neste coração. Tiuphado, seria constrangido a vigiar as acções dos outros, a usar do valor tranquillo que affronta immovel a morte; mas que é tal valor para aquelle a quem a vida serve só de martyrio? Uma hypocrisia mais; mais um meio de enganar o mundo. E que tenho eu com o mundo para curar d'enganá-lo?
Homem de paz—dir-me-has tu—pela profissão do sacerdocio; tendo buscado o repouso á sombra eterna da cruz, como é que desejas só o que nos combates ha mais brutal, ignobil e obscuro, o furor da matança, e recusas o que nelles ha mais nobre e puro, a intelligencia com que um unico individuo move milhares delles e lhes multiplica a força com a rapidez das idéas, com a sublimidade das concepções, com a robustez de uma vontade immutavel? Homem de paz, cingindo a espada do guerreiro, que outro mister deverá ser o teu?
Busquei, é verdade, o repouso e a paz no sanctuario de Deus!—Dias e dias, passei-os orando com a fronte unida ás lageas do pavimento sagrado, esperando que da morada dos mortos surgisse para mim descanço e esquecimento; mas o sepulchro foi esteril. Noites e noites, vagueei-as pelas solidões: assentei-me ao luar sobre os penhascos dos promontorios, com os olhos cravados no céu ou errantes pela vastidão das aguas, e onde todos acham lagrymas de consolo e d'esperança eu não achei uma só, porque as minhas morriam apenas brotavam. O Senhor não me escutou as preces: não me acceitou a resignação. Este espirito, que tentava erguer-se nas asas da philosophia do Christo para as alturas, despenhava-se de novo para o pelago medonho das recordações amargas. Ainda os homens abençoavam o Presbytero, e já a consciencia lhe bradava, a todos os momentos:—condemnação para a tua alma!
Quando o céu é um deserto para a esperança, onde a acharei na terra? Que póde hoje embriagar-me, senão uma festa de sangue?
Já me teria assentado a esse phrenetico banquete nas guerras civís, se ainda não vivesse em mim o sentimento moral, ultimo que se desvanece naquelle que por largos annos viveu vida pura de crimes. Mas, sem crime, se póde assentar a elle um desgraçado como eu, ao chamar por nós todos, no meio de um grande perigo, a terra de que somos filhos.
Theodemiro, breve virá, talvez, o dia em que vejas que o braço do gardingo não enfraqueceu debaixo das roupas do Presbytero; em que elle te prove que a mortiça côr de uma negra armadura póde ser tão bella ao sol das batalhas como as couraças e os elmos resplandecentes de nobres guerreiros: que o frankisk grosseiro de um obscuro soldado póde contribuir para a victoria como a pericia militar de capitão famoso. Oxalá que, entretanto, seja verdade o que dizes!—Oxalá que eu me enganasse, e que a traição não tenha tornado inuteis a intelligencia e o braço do homem para salvar as Hespanhas!
IX JUNCTO AO CHRYSSUS
Congregados todos os godos, oppôs-se á entrada dos arabes e valorosamente foi ao encontro da invasão. Rodrigo de Toledo: Das Cousas d'Hesp. L. 3.º
Poucos dias haviam passado depois que o duque de Corduba recebera a ultima carta do infeliz Eurico. Á frente das suas tiuphadias, elle se encaminhara para Hispalis, seguindo as margens do Betis. Ao chegar
, o bispo Oppas recebeu-o com demonstrações de alegria taes, que as suspeitas de Theodemiro, suscitadas, máu grado seu, pelas revelações do Presbytero, quasi se desvaneceram. Na linguagem do sacerdote parecia reverberar-se uma indignação profunda contra o conde de Septum e contra os demais godos que tentavam, unidos com os barbaros, assolar a terra natal. O metropolita, segundo os costumes daquella epocha, tinha deposto o baculo de pastor para cingir a espada do guerreiro, e aos paços episcopaes de Hispalis viam-se chegar todos os dias os parentes de Oppas e, por isso, de Witiza, cujo irmão este era. Os nobres que tinham seguido o bando dos mancebos Sisebuto e Ebbas e que, pela maior parte, viviam longe da corte ajunctavam os seus servos e clientes á hoste do bispo guerreiro, que promettia acompanhar o rei godo com um esquadrão mais lustroso que os de seus sobrinhos, a quem Ruderico dera de feito o mando supremo de uma das alas do exercito que congregara em Toletum.
Em Hispalis, como por todos os angulos da Hespanha, os martellos dos fundidores e armeiros retumbavam nas bigornas com ruido incessante; açacalavam-se as armas, puliam-se e provavam-se as armaduras, e os corceis rapidos e robustos da Betica e da Lusitania, impacientes nas tendas alevantadas em roda dos muros da cidade, mordiam os freios brilhantes e pareciam adivinhar que estava proximo um dia de combate. Os servos e os libertos, em competencia com os homens livres e nobres, corriam a rodeiar os pendões da independencia da patria, e o sangue generoso dos godos como que se despertava mais ardente e cheio de vigor ao grito da guerra sancta, depois de uma somnolencia de seculos, em que a sua antiga ousadia só dera signaes de vida nas luctas sem gloria das dissenções intestinas.
E toda esta energia, todo este recordar-se da rica herança d'esforço legado pelos conquistadores septemtrionaes a seus netos da Iberia, dir-se-hia que eram suscitados pela Providencia para salvar a monarchia gothica, porque de tudo isso ella carecia para resistir aos invasores. Desde que o exercito destes, semelhante a serpe monstruosa, tinha cingido estreitamente a montanha do Calpe, não se passara um unico dia em que não se fortalecesse e engrossasse. As encostas do Abyla e os despenhadeiros do Atlas, os valles da Mauritania e os areiaes de Sahara e de Barca de contínuo arrojam para a Europa, através do Estreito, os seus filhos tostados ao sol fervente d'Africa. Sem pericia militar, estes barbaros são todavia temerosos nas pelejas, porque os capitães experimentados da Arabia os dirigem e movem como lhes apraz, e porque, sectarios de uma religião nova, credulos martyres do inferno, buscam os embusteiros e torpes deleites que, além da morte, lhes prometteu
, arremessando-se com um valor que se creria de desesperados diante do ferro dos seus contrarios e contentando-se de acabar, com tanto que sobre seus cadaveres se hasteie victorioso o estandarte do Islam.
A esta gente bruta e indomavel, cujo esforço vem das crenças da outra vida, se ajunctam os esquadrões dos cavalleiros sarracenos que vagueiam pelas solidões da Arabia, pelas planicies do Egypto e pelos valles da Syria, e que, montados nas suas eguas ligeiras, podem rir-se do pesado frankisk dos godos, acommettendo e fugindo para acommetterem de novo, rapidos como o pensamento, volteiando ao redor dos seus inimigos, falsando-lhes as armas pelas juncturas das peças, cerceiando-lhes os membros desguarnecidos, quasi sem serem vistos, e, apesar da sua incrivel destreza, pelejando, quando cumpre, frente a frente, descarregando tremendos golpes de espada, topando em cheio com a lança no riste, como os guerreiros da Europa, e assás robustos para, muitas vezes, os fazerem voar da sella nestes recontros violentos: homens, emfim, que, sem orgulho, se podem crer os primeiros do mundo n'um campo de batalha, pelo valor e pela sciencia da guerra. É esta cavallaria irresistivel que constitue o nervo da hoste dos mosselemanos e em que funda todas as suas esperanças o impetuoso Tarik.
Pouco depois da chegada de Theodemiro a Hispalis, um dia ao romper do sol, viu-se ao longe para a banda das serranias ao norte do Betis resplandecerem as cumiadas das montanhas, como se um grande incendio devorasse as brenhas e os carvalhaes antigos que povoavam as quebradas das serras. Era a hoste do rei dos godos, que, saíndo de Oretum, se encaminhava por Ilipa e Italica, seguindo a margem direita do rio, para a antiga capital da Betica. D'aqui, engrossando com as tiuphadias de Theodemiro e com os que seguiam o pendão de Oppas, o exercito de Ruderico devia marchar para acommetter os arabes e entregar á sorte das batalhas os futuros destinos da Hespanha.
Era já tempo. A torrente dos inimigos descera, emfim, do
, cujo nome de muitos seculos o capitão arabe tinha apagado, para escrever o proprio nome no collar servil de muralhas que lhe lançara. O estandarte do propheta de Mekka já fluctuava nos campos da Betica, e a sua passagem era assignalada com ruinas, sangue e incendios. Por onde quer que os mosselemanos tinham atravessado ficavam assentados o silencio do sepulchro e a assolação do anniquilamento. Tarik era o anjo exterminador mandado por Deus ás Hespanhas, e a sua espada o raio despedido do céu para fulminar o imperio dos godos.
Saíndo do seu ninho d'aguia, construido no promontorio do Estreito, os invasores internavam-se no coração da provincia. Depois de haverem transposto as montanhas que se alteiam desde as ribas septemtrionaes do Belon até Lastigi, onde as serranias se enlaçam com as alturas de Nescania, tinham-se assenhoreado sem resistencia da cidade episcopal d'Asido, e, descendo d'alli para os valles que serpeiam de Gades a Segoncia, haviam assentado as tendas do Islam nas margens do Chryssus. Tarik esperava lá o recontro dos godos. Desde que partira do Calpe, todos os dias, quasi todas as horas, se viam chegar á hoste dos mosselemanos christãos vindos do lado d'Hispalis, conduzidos pelos caudilhos dos almogaures ou corredores africanos. Apenas estes homens desconhecidos eram levados ante o capitão arabe, elle enviava um dos seus cavalleiros ao logar onde tremolava o pendão de Juliano, e o conde de Septum não tardava a vir ajunctar-se com Tarik. Por vezes, á sombra de carvalho frondoso, no meio dos bosques cerrados das montanhas ou debaixo do pavilhão alevantado á hora da sésta em campina abrazada do sol, demoravam-se os dous, por largo espaço, a sós com esses homens, em cujo aspecto era facil ler estampada a traição e a vileza. Depois, os desconhecidos partiam, sem que ninguem ousasse atalhar-lhes os passos; e, quando Juliano voltava para a pequena ala dos soldados da provincia transfretana, via-se-lhe o rosto, não radiante do contentamento que ressumbra de um coração puro quando folga, mas como sulcado por um raio da alegria feroz do criminoso que vê chegar o momento do crime ha muito meditado e previsto.
Havia dous dias que nenhum incognito atravessava o Chryssus para falar a sós com Juliano e Tarik. Estes passavam horas inteiras vagueiando nas alturas vizinhas do acampamento pelo lado do meio-dia e do oriente. D'alli olhavam para a montanha em cujo cimo campeiava a antiga povoação d'Asta, e, depois de a examinarem por largo espaço, voltavam ao campo ou corriam as atalaias, que se multiplicavam continuamente. Depois, tudo recahia no silencio e na escuridão; porque as almenaras ou fogueiras nocturnas, que eram d'uso entre os arabes, haviam inteiramente cessado desde a primeira noite em que estes assentaram as tendas perto da beira do rio.
Ia em meio a terceira noite após aquella em que
tinham parado nas faldas septemtrionaes das cordilheiras de Asido. Eram profundas as trevas que se dilatavam pela face da terra, mas os raios scintillantes das estrellas rareiavam o manto negro da atmosphera. Esta luz incerta reverberava tremula e fugitiva nas pontas das lanças dos atalaias, que, apinhados na coroa dos outeirinhos ou embrenhados entre as sebes dos vallados, observavam os picos agudos que, ao longe para o norte, negrejavam como recortados nas profundezas do céu. O Chryssus murmurava lá em baixo, e a esteira da corrente faiscava, tambem, com o reverberar da luz dos astros, emquanto o vento, passando pelas ramas de algumas arvores solitarias, respondia ao seu murmurar com o gemer da folhagem movediça.
Subitamente, no meio deste silencio,
e vigias lançados além do rio, na margem direita, creram perceber um ruído longinquo, que menos exercitados ouvidos não saberiam distinguir de remoto e quasi imperceptivel despenhar de torrente. Então elles se debruçaram no chão e, unindo a face á terra, escutaram por alguns momentos. Depois, erguendo-se a um tempo, ouviu-se entre elles uma voz sumida, que dizia—
E, unindo-se n'uma fileira, encurvaram os arcos e ficaram immoveis.
Pouco a pouco aquelle ruído, mal sentido a principio, cresceu e tornou-se mais distincto. Brevemente, facil foi de perceber o tropeiar de milhares de cavallos e o bater confuso dos pés de milhares d'homens. Os esculcas arabes conservavam-se unidos e em silencio.
De repente o grito de:—Allah!—retumbou d'além do Chryssus: seguiu-se um estridor de poucas frechas, e n'um instante os atalaias do campo viram alvejar fitas d'escuma, que se estendiam através do rio para a margem esquerda. Eram os esculcas que o cruzavam a nado, tendo empregado na dianteira dos godos os seus primeiros tiros.
Uma nuvem de settas respondeu ao sibillar das dos esculcas arabes: algumas das fitas de escuma ondeiaram, derivaram pela corrente e desvaneceram-se no dorso escuro e scintillante das aguas. O Chryssus recolhia os primeiros despojos de um terrivel combate.
Na principal atalaia dos mosselemanos soou então uma trombeta; centenares dellas responderam por todos os angulos do campo a este convocar para a morte. Os esquadrões uniam-se com a rapidez do relampago e, abandonando o recincto das tendas, arrojavam-se para a margem do rio.
Os godos, porém, tinham a vantagem de caminharem ordenados e, por isso, haviam topado com a corrente, antes que os seus contrarios começassem a atravessar a planicie fronteira. As frechas cahiam sobre os arabes que se approximavam, como saraiva espessa: largas e solidas jangadas, trazidas em carros puxados pelas mulas possantes da Lusitania, baqueiavam sobre a agua e, desdobrando-se com engenhosa arte, cresciam até entestar com a margem opposta. Então, os melhores cavalleiros godos, curvando-se para diante, com o frankisk erguido, corriam para as pontes, vergadas debaixo do peso dos cavallos e dos homens cubertos de armaduras, e vinham bater em cheio nos corredores arabes, que, no meio das trevas, não podiam esquivar-se aos golpes do ferro inimigo. Já, nas bocas d'algumas dessas estradas movediças, os cadaveres amontoados começavam a embargar os passos dos vivos; mas por outras, onde os arabes ainda mal ordenados e menos numerosos não tinham podido resistir ao impeto dos godos, golfavam torrentes de guerreiros, que, marchando unidos para uma e outra parte, accommettiam de lado os arabes, os quaes, feridos pela frente e pelas costas, vacillavam e retrocediam. Debalde a voz retumbante de Tarik sobrelevava por cima dos gritos de furor e de agonia de mosselemanos e christãos. O numero dez vezes maior dos godos tornava impossivel a resistencia, e a passagem do exercito de Ruderico para a margem esquerda do Chryssus só Deus a poderia impedir.