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Eurico, o presbytero

Front matter (continued 3)

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No meio, porém, da revolta, havia alguem que se conservava quedo e que parecia tranquillo. Era o gardingo desconhecido. Encostado á parede anfractuosa da gruta e demudado o gesto, contemplava aquella scena com o vago olhar de quem alongara o pensamento para mui longe d'alli. Emquanto todos os demais cavalleiros rodeiavam Pelagio, indagando inquietos a causa daquelle subito apellidar para uma correria nocturna, elle só ficara immovel e como indifferente ao tumulto que as vozes do duque de Cantabria tinham excitado entre os seus guerreiros.

«Qual de vós outros cavalleiros—dizia Pelagio aos que o rodeiavam—duvidará um momento de que, se um mensageiro chegasse e lhe dissesse: «vossa esposa, vossa filha, vossa irman cahiu em poder d'infiéis» eu hesitasse em ir ajudá-lo a arrancar essa victima querida á bruteza cruel dos pagãos? Nenhum; porque mais d'uma vez tenho arriscado a vida para curar saudades e amarguras dos desterrados como eu. Deu-me o céu uma irman; deu-me o ultimo suspiro de meu pae uma filha; deu-me a ternura por essa virgem, cuja imagem vive eterna neste coração virgem como ella, uma esposa. Quando a triste innocente vinha abrigar-se á sombra do escudo de seu irmão, os infiéis roubaram-ma. Viuvo e orpham, appello para os ultimos corações generosos da Hespanha. Por Deus, que me ajudeis a salvar a minha pobre Hermengarda. Como tua filha Brunehilde, ella é formosa, Gudesteu! Como tua esposa Elvira, ella é boa e carinhosa, Algimiro! Como tua irman, Munio, ella é innocente e pura. Godos, por tudo quanto amaes, salvae-a, salvae a mesquinha!»

O nobre esforço do mancebo desapparecera ante a idéa dolorosa da sorte que a providencia reservara á desventurada filha de Favila. Elle estendia as mãos unidas para os cavalleiros, como uma creança timida que implora compaixão.

«Partamos!—exclamaram ao mesmo tempo os nobres foragidos.—Tua irman será salva ou nenhum de nós voltará mais á gruta de Covadonga!»

Uma voz trémula, mas retumbante, trovejou por detrás delles:

«Não partireis d'aqui!»

Voltaram-se. Era o gardingo.

«Quem o ordena?—bradou Pelagio, com toda a energia que esta inesperada resistencia despertara subitamente nelle.

«Um homem—replicou o desconhecido, atravessando o circulo dos guerreiros que rodeiavam o duque de Cantabria e lançando em volta olhos altivos;—um homem cujo coração é ha longo tempo morto, porque as paixões o queimaram; mas cuja intelligencia por isso mesmo é mais fria. Quantos sois vós? Quantos buccellarios dormem pelas tendas desse valle? Apenas alguns centenares de lanças poderiam, ao todo, transpôr comvosco os passos das serras. Os infiéis e os renegados que os servem quantos são? Se podeis contar as estrellas que ora recamam o céu, podereis dizer-me o numero delles. Tu, Pelagio, braço de ferro, coração de bronze, quem és tu? O guardador das ultimas esperanças da cruz e da patria. Quem te deu, pois, o direito de correres a morte certa? Quem te deu o direito de apagar no sangue dos ultimos godos o unico facho que alumia as trevas do futuro da escravisada Hespanha?»

«E a ti—interrompeu furioso e arrancando meia espada o violento Sancion—quem te incumbiu de nos dizeres: «não saireis d'aqui? Quem és tu, que, vindo não sei d'onde, pretendes dominar como senhor aquelles que só obedecem a Deus?»

O desconhecido olhou para o movimento ameaçador de Sancion, e pelo rosto passou-lhe um sorriso desdenhoso. Cruzou os braços e respondeu com voz lenta e solemne:

«Por minha boca falaram milhares de godos que gemem no captiveiro e que voltam de continuo os olhos para os cerros das Asturias, onde apenas fulgura tenue o sancto fogo da liberdade: falaram por minha boca as aras do Senhor calcadas pelos pés dos pagãos, as imagens do Christo derribadas no lodo, os muros ennegrecidos das cidades incendiadas. É isto tudo que vos diz:—não saireis d'aqui!—Perguntas quem sou? Dir-t'o-hei. O ultimo homem que, juncto do Chryssus, viu, combatendo, a face dos arabes vencedores, emquanto os valentes fugiam; o homem que tentou morrer com a patria, e que a mão de Deus salvou para neste momento vos dizer: «não saireis d'aqui! Queres saber quem eu sou? Lê, Pelagio, o que escreveu ahi Theodemiro. Dize-lhe depois qual é o meu nome!»

E, tirando da escarcella uma tira de pergaminho dobrada, abriu-a e entregou-a a Pelagio.

O duque de Cantabria correu-a pelos olhos e, deixando-a cahir em terra, murmurou:—«Meu Deus, o cavalleiro negro!»

Os godos apinhados em roda recuaram alguns passos, e houve um momento de ancioso silencio.

«Anjo ou demonio, que nos explicas um mysterio por outro mysterio—exclamou, emfim, Pelagio visivelmente perturbado:—christãos e arabes lembram-se ainda das tuas incriveis façanhas nas margens do Chryssus. Mil vezes eu proprio tenho dicto: dez como elle haveriam salvado o imperio de Theoderik! Devemos obedecer-te, se és um homem, como dizes, porque vales mais que nós. Se és o anjo que preside ao fado da Hespanha, mais submisso ainda será o nosso obedecer. Mas que mal te fez minha desgraçada irman?...»

«Que mal me fez tua irman?—atalhou com vehemencia o gardingo.—Nenhum!... E quem te disse que não quero, que não posso salva-la, eu que não sou anjo, que sou, como tu, um homem? Quaes d'entre vós—proseguiu, voltando-se para os cavalleiros que o rodeiavam—sois n'este mundo sós e não tendes quem na morte regue com lagrymas a terra que vos cobrir? Quaes de vós sois, como eu, desterrados no meio do genero-humano? Que os orphams de coração ergam a dextra para o céu, onde só ha um seio que lhes receba os gemidos de amargura, o seio immenso de Deus!»

Doze guerreiros, e entre elles o fero Sancion, alevantaram a dextra para o ar á voz imperiosa do gardingo.

«A cavallo!—gritou este, apertando o largo cincto da espada e enfiando no braço a ferrea cadeia do frankisk.—Pelagio! se dentro de oito dias não houvermos voltado, ora ao Christo por nós, que teremos dormido o nosso ultimo somno, e chora por tua irmã, cujo captiveiro já ninguem, provavelmente, quebrará, senão o anjo da morte. Partamos!»

Proferindo estas palavras, o gardingo atravessou rapidamente a caverna e desappareceu nas trevas exteriores: os doze guerreiros escolhidos seguiram-no machinalmente, porque os seus meneios e gesto os tinham fascinado, ao lembrarem-se de que este homem era o cavalleiro negro. O duque de Cantabria, subjugado tambem pela especie de mysterio solemne que cercava todas as acções d'este ente extraordinario, nem ousou perguntar-lhe por que meio intentava salvar Hermengarda. Todavia, uma voz intima e irresistivel lhe dizia: «resigna-te e confia». Confiado e resignado esperou, portanto, o cumprimento das promessas do incognito gardingo.

XIV A NOITE DO AMIR

Arrebatada no pallor das trevas.

Breviario Gothico—Hymno de S. Geroncio.

Era ao cahir do dia. O nordeste secco e regelado corria as campinas do espaço, onde, através da atmosphera purissima, scintillavam as estrellas. O clarão de Segisamon incendiada reflectia de longe nas brancas tendas dos arabes, acampados a bastante distancia dos muros da povoação destruida. Em volta do arraial, pelas coroas dos outeiros, accendiam-se as almenaras, a cuja luz tenue, comparada com a do incendio de Segisamon, se viam passar os atalaias nocturnos. Abdulaziz, semelhante a cometa caudato, seguia a sua orbita d'exterminio, deixando após si vestigios de fogo. O exercito devia ao romper da alva internar-se nos valles da Tarraconense.

Segisamon tinha na vespera offerecido um espectaculo semelhante ao de muitas outras cidades da Hespanha levadas á escala pelos mosselemanos. Não só a cubiça e o desenfreiamento da soldadesca multiplicavam ahi as scenas de rapina, de violencia e de sangue, mas tambem a politica dos capitães arabes procurava augmentar a terribilidade desses dramas repetidos para quebrar os animos dos godos e persuadi-los á submissão. O dia precedente a esta noite que começava tinha sido consagrado pelos vencedores ao repouso, depois de um duro lavor de morte e ruinas. Os jogos, os banquetes, as dissoluções de todo o genero haviam recompensado brutalmente o esforço brutal dos destruidores de Segisamon.

Ás cohortes do renegado Juliano tocava nesta noite a vigia do arraial: eram godos os que guardavam o campo, onde as virgens da Hespanha tinham sido violadas; onde a cruz captiva fora mais uma vez ludibriada; onde os velhos sacerdotes haviam soffrido contentes o martyrio no meio das affrontas. Aquelles homens perdidos, rodeiando esse montão de abominações, ainda não fartos dos deleites infernaes em que tinham tido parte com os infiéis, embriagavam-se, bebendo pelos vasos sagrados, e escarneciam blasphemos a crença da sua infancia no meio de hedionda ebriedade.

O murmurio immenso do arraial foi amortecendo gradualmente com o fechar da noite. Em breve, não se ouviu nas tendas do Islam mais que o respirar lento de tantos milhares d'homens adormecidos nos braços do goso. Juncto, porém, das almenaras as risadas dos soldados do conde de Septum, os cantos obscenos inspirados pela embriaguez, as disputas ardentes do jogo, em que o ouro corria de mão em mão, soavam ainda em volta do silencio do campo. Pouco e pouco, este mesmo ruído foi affrouxando, ao passo que os fachos accesos nas chapadas dos outeiros esmoreciam. A escuridão e o silencio reinaram, emfim, até nas atalaias. Os soldados godos, cansados de dissoluções, haviam tambem repousado. E para que prestaria velar? O terror que inspiravam os arabes era o melhor guardador do arraial. Como ousariam os christãos, medrosos atrás dos muros dos seus castellos, salteiar o campo de Abdulaziz? As vigias e almenaras eram apenas uma velha formula militar, cuja significação a serie não interrompida dos triumphos até então alcançados tornara inintelligivel.

Pela calada, porém, da alta noite e no meio das trevas que cobrem, como amplo manto, aquelle turbilhão d'homens de guerra, descansando então para ao romper do sol rugir de novo impetuoso, vê-se ainda, através das telas mal unidas de uma tenda mais vasta, reverberar vivo clarão, e ouve-se o rir alegre, o altercar, o tinir argentino das taças; todos os indicios, emfim, de que a orgia se prolongou ahi até mais tarde. Ao redor da tenda jazem por terra, com os alfanges nús junctos a si, alguns soldados da guarda de Abdulaziz, composta dos guerreiros mais temidos do exercito, os negros do remoto paiz de Al-Sudan. Nos ouvidos delles restruge debalde o alto ruído que soa do interior do pavilhão. Dormem, tambem, profundamente, e apenas á porta da tenda um delles vela immovel encostado á acha d'armas.

A tenda era, de feito, a do esforçado filho de Musa. A mesa do banquete ainda vergava com os restos das iguarias: os brandões já gastos e os candieiros mortiços derramavam uma claridade suave pelo aposento. Reclinado sobre um almatrah cuberto de preciosa alcatifa do oriente, o amir escutava o mais moço dos cheiks que estavam juncto delle, o qual, ora cantava os versos voluptuosos de Zohèir, que accendiam a imaginação do joven guerreiro, ora lhe repetia os antigos poemas licenciosos e satyricos de Ibn-Hagiar, que elle applaudia com estrondosas risadas.

O conde de Septum e os mais capitães godos alliados dos agarenos conservavam-se ainda nos logares que haviam occupado durante o banquete. Para aquella extremidade da vasta mesa viam-se algumas amphoras tombadas e outras ainda cheias dos vinhos mais preciosos da Hespanha: as taças que gyravam ao redor eram as que produziam o tinir que soava fóra, no meio do ruído das falas, dos gritos, e dos cantos monotonos do cheik Abdallah.

Um guerreiro, cuja barba crespa e cerrada lhe cahia como frócos de neve sobre os anneis dourados do saio de malha, estava assentado á direita de Juliano. A brancura dos seus cabellos era o unico signal que se lhe enxergava de uma larga peregrinação na terra; porque o rosado da tez, a viveza dos olhos azues, o garbo nos meneios e a robustez dos membros agigantados mostravam n'elle mais que muito a compleição vigorosa de homem de boa idade. Era Oppas, o bispo Oppas, que se esquecera do sacerdocio, como se havia esquecido da patria, e que, habituado á vida solta dos arraiaes, excedia já na violencia de paixões ignobeis os mais desenfreiados e barbaros chefes das tribus semi-selvagens da Africa. Muitos outros tiuphados e quingentarios, assentados ao longo da mesa, davam mostras de infernal alegria, despejando as taças de prata, que os libertos lhes enchiam de novo para de novo rapidamente se esgotarem.

«Vêde os nazarenos maldictos—dizia Abdulaziz em voz baixa ao cheik Abdallah, olhando de través para os godos.—O amor da embriaguez nunca os deixará ver a luz que mana das paginas do divino koran. Para elles o fructo da vide será sempre a ponte estreita, da qual, ao passarem na morte, se despenharão no inferno.»

«E que nos importam as suas almas tisnadas—replicou Abdallah—se elles nos ajudam a sujeitar á lei do sancto propheta

? Sem Deus e sem patria, deixae-lhes ao menos a sua bruteza.»

O bispo d'Hispalis percebeu que falavam delle e dos outros godos, porque os cheiks haviam volvido para lá os olhos. Erguendo-se então com a taça em punho, exclamou em arabico:

«Ao invencivel Abdulaziz; a um dos mais nobres vingadores de Witiza!»

«

—respondeu o amir—a lei do propheta não consente que eu acceite a saudação que atravessou por labios tinctos no licor amaldicçoado por elle.»

«E que montam as maldicções do teu propheta?—replicou Oppas em tom de gracejo.—Devemos nós por isso deixar de saudar o illustre filho de Musa com o abençoado e generoso vinho dos ferteis outeiros da Hespanha?...»

«Infiel!...—interrompeu o amir, em cujos olhos scintillara o despeito. Depois, reportando-se, proseguiu em tom brando, mas firme, como quem queria ser promptamente obedecido:—Nobres cavalleiros do Gharb, valentes cheiks do Negid, de Berryah, e d'Almoghreb, a noite vai alta, e ao romper da manhan é necessario partir. Que o somno vos desça sobre as palpebras nas vossas tendas de guerra!»

A estas palavras, godos e arabes, alevantando-se, foram sahindo da tenda vagarosamente e em silencio. Só o bispo d'Hispalis, apertando a mão de Juliano, murmurou:—«Oh, quanto fel se mistura com o prazer da vingança! Mas cumpra-se o nosso fado.»

Ao atravessarem o arraial, os dous filhos renegados da Hespanha notaram que nos cabeços das almenaras a escuridão era tão profunda como no resto do campo. Tudo, porém, estava tranquillo. Apenas a pouca distancia lhes pareceu verem passar como sombra um cavalleiro, que se encaminhava para o lado do pavilhão de Abdulaziz. Era, provavelmente, algum soldado d'Al-Sudan, que, transnoitado, se retrahia para o seu alojamento juncto da tenda do amir.

Entretanto este, apenas só, começou a caminhar agitado e a passos largos de uma até outra extremidade do aposento, que ricos pannos da Syria dividiam dos que occupavam os servos. No seu gesto, turbado por affectos encontrados, passavam successivamente os vestigios destes: ora a indignação lhe pesava nos sobrolhos confrangidos; ora lhe sorria nos olhos um pensamento voluptuoso; ora a compaixão parecia suavisar-lhe esse feroz sorrir. Por fim, o moço Abdulaziz, como vencido pela tempestade da sua alma, assentou-se no almatrah e cobriu o rosto com ambas as mãos. Conservou-se assim por largo tempo, em silencio e quedo, até que, a final, as suas paixões triumpharam e rebentaram com violencia.

Batendo as palmas, o amir bradou:—«Al-Fehri!»

Um dos pannos que dividiam a tenda em varias quadras alevantou-se de um lado, e um vulto negro e disforme, que parecia arrastar-se com difficuldade, encaminhou-se para o amir. Era como um tronco de gigante pelo espadaúdo do corpo, pela amplidão do ventre e pela desmesurada grossura da cabeça, onde só lhe alvejavam os olhos embaciados. O monstro, apenas deu alguns passos, parou, cruzando sobre o peito os braços grossos e curtos, semelhantes a dous madeiros informes.

«Eunucho—disse Abdulaziz com voz agitada—conduze aqui a ultima das minhas captivas que especialmente confiei de ti.»

O vulto recuou e, franzindo a especie de reposteiro que lhe dera passagem, desappareceu. Passados alguns momentos, tornou. Uma figura de mulher, cujas fórmas mal se podiam adivinhar através d'um raro cendal que a cubria até os pés, acompanhava-o. Com passo firme, ella se encaminhou para Abdulaziz, e o eunucho desappareceu de novo.

«Filha dos christãos—disse em lingua romana o amir—os dous dias que me pediste para chorares o teu captiveiro passaram. Resolveste, finalmente, ser a mais amada entre as mulheres de Abdulaziz; ser a invejada das donzellas do oriente e quasi a rainha das provincias de Andalús, porque acima de Abdulaziz só dous homens existem na terra, o amir d'Almoghreb, aquelle que me gerou, e o descendente do propheta, o que rege todo o imperio dos crentes?»

«A minha resolução é morrer, quando te approuver:—replicou a captiva com serenidade;—porque essa resolução ha muito que eu a tomei. Enganei-te, pagão, quando te pedi dous dias para chorar! Escarneci de ti, porque te abomino. Esperava que um braço de guerreiro que vale mais que o teu viesse arrancar-me do captiveiro. Ai de ti, se elle soubesse qual tinha sido o meu fado! Folga, pagão, de que a sentença fulminada por Deus contra os filhos da Hespanha me abrangesse tambem. Nesta hora não fora eu; foras tu quem deveria perecer. Mas elle não pôde salvar-me: só me resta dizer-te: infiel, tu és maldicto de Deus: principe dos arabes, tu és servo dos demonios: homem que me pedes amor, sabe que eu te detesto.»

«Dize tudo:—interrompeu o amir, apertando com força o braço da captiva e fitando nella os olhos, onde luctavam amor profundo e colera violenta:—exhala em injurias a tua dôr orgulhosa: sê, até, blasphema; mas não digas que detestas Abdulaziz; não digas que amas um godo e que elle fora capaz de te vir roubar da minha tenda. Desgraçado do nazareno que se lembrasse de amar-te depois que Abdulaziz te chamou sua. Onde se iria esconder esse malaventurado filho de uma raça vil e covarde, que podesse escapar a este braço, o qual ao estender-se arranca pelos fundamentos os vossos castellos e reduz a pó os templos do vosso Deus e os muros das vossas cidades?»

«Aquelle que eu cria viesse em meu soccorro—tornou com voz firme a captiva—não se esconderá de ti no dia em que estiverem em volta delle todos os seus irmãos em esforço e amor da terra natal; porque nesse dia das grandes vinganças vê-lo-has face a face. Muitas vezes os teus guerreiros têem fugido diante delle; muitas vezes o incendio dos arraiaes pagãos tem ajudado o incendio das nossas cidades a alumiar as trevas da noite, e a sua mão foi a que lançou o facho sobre a tenda do agareno. Esse, ao menos, se ainda se esconde, não é por temor de ti, nem dos teus cavalleiros, que, tantos por tantos e ainda em dobro, muitas vezes tem visto fugir.»

«Entendo-te, altiva filha dos godos:—replicou Abdulaziz.—Falas do que vós outros chamaes Pelagio, e que só de noite ousa saír das suas solidões das montanhas para acommetter as tribus d'Almoghreb que fizeram assento no conquistado Gharb ou para assassinar os cavalleiros do deserto transviados. Apenas Sarkosta e Tarkuna vissem fluctuar sobre as suas muralhas os estandartes do Islam, eu iria arrancá-lo dos seus escondrijos para o punir. Mas tu abbreviaste os dias do foragido nazareno. Dentro de pouco o seu cadaver servirá de pasto ás aves do céu, porque amou aquella que eu escolhi.»

«Deus defenderá meu irmão:—disse titubeiando a donzella, cuja firmeza começava a abandona-la, receiando ver cumprida a ameaça do amir.

«Irman de Pelagio?! Oh, repete-o mil vezes! São as prisões do sangue que te unem ao cruel inimigo dos crentes?»

«Porque finges ignora-lo? Os velhos cavalleiros que me acompanhavam e que comigo foram captivos no mosteiro que profanaste já o terão revelado.»

«Nem as promessas, nem os tormentos poderam tirar de suas bocas o teu nome e a tua jerarchia. Mas jura-me que és a irman de Pelagio, e elle poderá esquivar, se quizeres, o seu tremendo destino.»

«Fora inutil negar o que eu propria confessei. O meu nome é Hermengarda: o duque de Cantabria, Favila, foi meu pae, e Pelagio é o filho e successor de Favila.»

O amir ficou alguns momentos calado com o braço d'Hermengarda preso na mão robusta, que ella sentia tremula com o tumultuar dos affectos que agitavam o coração do arabe. Este, por fim, exclamou:

«Pelo precursor do sancto propheta; por Issa

[1]

, Hermengarda, que, se amas teu irmão, me digas:—eu serei tua. Estas palavras o farão senhor da mais rica provincia do Andalús, daquella que elle escolher para reinar como amir: os guerreiros que o seguem serão os walis das suas cidades, os kaiyds dos seus castellos: dos meus thesouros metade será delle. As escravas que muito hei amado não mais verão sorrir-lhes o rosto de seu senhor. Tu serás rainha do meu coração; rainha sem rival; senhora de tudo sobre quanto se estende o poder de Abdulaziz, do filho querido do invencivel Musa. Profere só essas palavras, e a sorte de Pelagio será invejada pelos nossos mais illustres guerreiros!...»

No gesto do agareno todos os vestigios da colera tinham desapparecido: só nelle se lia a anciedade

de um amor

immenso, que precisa, mais que do goso brutal, de um sentimento accorde com os proprios sentimentos.

Mas Hermengarda só vira affronta e opprobrio nas palavras do amir, e o odio a este homem, cuja natural fereza e orgulho o amor convertera em brandura e, talvez, em submissão, tornou-se ainda maior ao ouvi-lo. Recobrando toda a energia da sua alma, que por um momento vacillara, respondeu, olhando para Abdulaziz com ar de desprezo:

«Nem sempre os valentes conquistadores da Hespanha podem achar traidores que vendam por ouro e honras infames os sepulchros de seus paes e os altares do Senhor. Não! Pelagio não acceitará nunca um logar entre os filhos de Witiza e o conde de Septum; porque Deus o guarda para vingador de seus trahidos irmãos. Infiel, grande era o preço que davas por uma filha da serva raça dos godos: guarda-o para o empregares melhor; para comprares as nobres e livres donzellas do teu paiz. Tudo o que me offereces é vil; porque vem de ti, maldicto. Só uma offerta te acceito; ha muito que t'a pedi: a morte... a morte, e que seja breve. Abomino-te, destruidor da Hespanha... Não! Enganei-me! Desprezo-te, salteador do deserto.»

Com os labios brancos e o olhar desorientado, o amir ouvia as palavras d'Hermengarda, e a sua fronte enrugava-se como a face do oceano ao passar do furacão. Tremendo silencio reinou por alguns momentos na tenda. Com um rir abafado e diabolico, o amir o rompeu por fim:

«A morte?—Não terás a morte: juro-t'o pelo sepulchro do propheta. Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto, arrojará elle para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto? Tu serás minha, mulher orgulhosa; porque o meu amor é, como o meu odio, inexoravel e fatal. Depois, quando o incendio que me devora estiver extincto; quando o tedio morar para mim nos teus braços, irás cevar nas tendas dos bereberes a sensualidade brutal dessa soldadesca selvagem. Póde ser que teu nobre irmão venha entretanto salvar-te!... Guarda para então as suberbas; que hoje, pobre escrava, só te resta obedecer á voz do teu senhor.»

Ao dizer isto, Abdulaziz, segurando com a dextra o braço d'Hermengarda, apertou-o com tanta violencia que a desgraçada deu um grito de agonia e cahiu de joelhos aos pés do arabe. O amir ergueu-a e, impellindo-a com força, ao mesmo tempo que despedaçava com a esquerda o raro cendal que lhe velava o rosto, a fez cahir pallida e trémula sobre o almatrah. Os labios da donzella quizeram ainda proferir algumas palavras—porventura uma supplica; mas apenas murmurou sons inarticulados, que expiraram em arquejar doloroso.

No seu furor, o filho de Musa não sentira um rugido de colera que respondera ao grito d'Hermengarda, nem um ai passageiro e sumido, que, segundo era intimo, parecia de homem a quem a ponta de um punhal rasgara subitamente o coração. Nas telas, porém, que dividiam o aposento do logar d'onde pouco antes saíra o eunucho e que ficavam fronteiras á entrada principal da tenda uma figura humana se estampou negra sobre o chão brilhante da tapeçaria. O amir, volvendo casualmente os olhos, a viu. Crescia rapida. Escutou. Passos ligeiros soavam no vasto aposento. Voltou-se. Mas apenas pôde erguer o braço: vira reluzir no ar um ferro: vira um vulto cuberto d'armas semelhantes ás dos cavalleiros d'Al-Sudan: sentiu um golpe que lhe partia o braço erguido e, batendo-lhe ainda no craneo, lhe retumbava no cerebro. Deu um grito, fechou os olhos e cahiu aos pés d'Hermengarda, manando-lhe o sangue da fronte. O monstro humano que conduzira alli a irman de Pelagio, assomou então no topo interior da tenda: o brado do amir o attrahira. Vendo seu senhor derribado e juncto delle o que o feríra, o eunucho fez uma horrivel visagem, como pretendendo falar; mas sómente soltou um rugido acompanhado de um gesto d'ameaça. Segundo o atroz costume do oriente, Al-Fehri, destinado desde a infancia ao serviço mysterioso do harem, fora condemnado em tenros annos a nunca imitar a voz humana. Privado da lingua, as suas expressões eram acenos ou afflictivos e inarticulados rugidos.

O cavalleiro observava-o. Fê-lo sorrir o ademan feroz e ameaçador do eunucho. Tinha previsto todas as difficuldades daquella arriscada empreza e contava com o seu esforço e frieza d'animo para as vencer. Ligeiro, travou de uma das tochas que ardiam juncto da mesa do banquete e chegou-a ás ricas tapeçarias que forravam a tenda. A chamma enredou-se na tela: um rolo de fumo espesso trepou em espiraes, ennegrecendo-lhe os recamos e lavores brilhantes. Em breve, as labaredas abraçadas com os feixes de lanças, com os pannos custosos, que ondeiavam torcendo-se, treparam até o cimo e, curvando-se espalmadas sob o tecto, romperam em linguas ardentes aprumadas para o céu. O incendio, espalhando ao longe a sua sinistra claridade, erguia-se como um tocheiro disforme acceso no meio do arraial e despertava assim do somno profundo os soldados d'Al-Sudan lançados em volta do pavilhão do amir.

Mas já a este tempo o cavalleiro se affastava do logar daquella scena medonha. As palavras—«liberdade e Pelagio!» proferidas por elle, tinham calado como um balsamo de vida no coração d'Hermengarda. O desconhecido, tomando-a nos braços, atravessou ligeiro para o lado do arraial onde estanceiavam os godos. Outro cavalleiro lhe tinha de rédea dous ginetes. Hermengarda, a quem o perigo e a esperança haviam restituido toda a natural energia, não hesitou em acompanhar o seu audaz e mysterioso salvador. Seguindo os caminhos tortuosos e incertos que as tendas do immenso arraial formavam e guiando-se pela lua, que principiava a saír detrás dos outeiros, os tres fugitivos encaminharam-se para o lado do campo além do qual as montanhas, lá ao longe, reflectiam já o luar das cumiadas cubertas de neve.

Entretanto Al-Fehri correra a despertar os negros da guarda do amir, e o cavalleiro ainda ouviu os gritos destes ao contemplarem o incendio, mais prestes em acorda-los que o eunucho. Á entrada da tenda, o vigia que devera despertá-los ao primeiro signal de Abdulaziz havia adormecido de somno mais profundo que o delles. Um punhal enterrado na garganta até o punho lhe sellara para sempre os labios. Os gestos de desesperação d'Al-Fehri fizeram conhecer aos soldados o perigo do amir. Por entre as chammas, ferido e semi-morto, a custo poderam salvá-lo. Pouco a pouco, o tumulto se alongou pelo arraial: os cheiks arabes e os capitães de Juliano corriam para o logar onde brilhava o incendio, e, dentro em pouco, as vozes desentoadas, o tocar das trombetas, o rufar dos tambores, o tropeiar dos cavallos naquella vasta planicie fariam crer a quem olhasse para alli dos montes vizinhos que no arraial se pelejava uma batalha nocturna.

No meio da confusão que produzíra por toda a parte este acontecimento inesperado e cujo motivo e circumstancias inteiramente se ignoravam, ninguem reparou nos dous cavalleiros e na donzella que, atravessando rapidamente por entre as tendas dos arabes e dos godos, se dirigiam para as atalaias do norte. Era, porém, aqui onde os maiores perigos aguardavam os tres fugitivos.

A revolta do campo chegara aos ouvidos dos vigias. Sobresaltados pelo clarão que refulgia do logar do incendio e pelo rumor que soava dessa parte, o grito de alarma correra de boca em boca, de uns para os outros outeiros, que successivamente se illuminavam. No largo gyro que tal bradar fizera, aquella cadeia de sons uniformes fora subitamente quebrada. Lá, na almenara do norte, nenhuma voz respondera ao vozeiar dos esculcas; nenhuma luz de fogueira brilhara de novo. De cada um dos postos vizinhos, uma decania de corredores transfretanos desceu, então, aos valles e, subindo depois por uma e outra encosta, vieram todas topar na coroa do outeiro. Á claridade da lua, cujos raios inclinados roçavam já pela terra, viram reluzir no chão troços d'armas, e, estirados ao pé dellas, estavam os corpos de seus donos involtos nos saios de malha. Rapido e violento devia ter sido o commettimento, numerosos os cavalleiros inimigos; porque nem um dos atalaias podera escapar. Nem um: que todos ahi jaziam! Braço robusto tinham por certo aquelles que assim ousavam penetrar no campo de Abdulaziz: as feridas profundas assignadas nos cadaveres davam disso testemunho. Não havia que duvidar: Pelagio salteiara o arraial. O incendio que reverberava ao longe e o arruído como de um grande combate diziam que o facho da vingança fora arrojado ao meio das tendas do Islam, e que o ferro dos defensores da Hespanha viera, nas trevas da noite, lavar com sangue o logar dos banquetes, tincto ainda de vinho e immundo de prostituição.

Este pensamento passou fugitivo e confuso pelo espirito dos guerreiros, que olhavam como petrificados para a scena de morte que tinham ante si a qual, de um lado, era alumiada pela luz debil da lua nascente, e, do outro, pelo clarão avermelhado e ainda mais frouxo do incendio ao longe. Um correr de cavallos que subiam ligeiro a encosta da banda do arraial lhes divertiu a attenção. Volveram para lá os olhos. Tres vultos a cavallo se dirigiam para alli. Dous, cubertos de armas escuras, ladeiavam o terceiro, cujas roupas alvejavam ao luar. Os corredores transfretanos adiantaram-se para elles. Ao aproximarem-se, viram que o vulto branco era de mulher e que os outros trajavam saios e elmos e traziam achas d'armas. Eram em tudo semelhantes aos guerreiros d'Al-Sudan que compunham a guarda do amir.

Um dos dous cavalleiros affastou-se da donzella e, dirigindo-se aos capitães das decanias, unidas no topo do outeiro, disse-lhes em romano, com voz que simulava profunda colera:

«Os inimigos entraram no campo e accommetteram a propria tenda de Abdulaziz. Os soldados do conde de Septum lhes deram passagem; porque a elles estava confiada a guarda do campo. Em qual das atalaias estão os traidores?»

«Os valentes da Transfretana nunca mereceram esse nome—replicou um dos decanos ou capitães dos esculcas.—Foi aqui onde deram o passo aos inimigos; mas o caminho destes foi por cima dos seus cadaveres. Julgae-os.»

E as duas decanias affastaram-se para os lados. Vinte cadaveres estavam lançados por terra.

«Sobre elles não cahiu o opprobrio na sua ultima hora:—disse o guerreiro depois de contemplar um momento aquelle espectaculo.—Abdulaziz ordena que se guardem estreitamente as saídas do campo. Não tardam os cavalleiros zenetas que vem ajunctar-se nas atalaias comvosco, a fim de que nenhum infiel possa escapar, emquanto nós vamos conduzir para logar seguro, fóra do arraial revolto, a escrava querida do amir. Vinde!—proseguiu elle, voltando-se para o companheiro.

Atravessando por entre os soldados tingitanos, a donzella e os seus libertadores começaram a descer apressadamente a encosta.

Já os tres fugitivos íam a alguma distancia, quando, como tomado de uma idéa subita, um dos esculcas exclamou:

«Aquelle homem é godo!—Nenhum arabe fala assim a lingua romana: muito menos os broncos guerreiros d'Al-Sudan. Por minha fé, que são inimigos!»

Os acontecimentos inesperados dessa noite, a incerteza em que se achavam os esculcas sobre o que succedia no arraial, a rapidez com que se passara esta scena e, sobretudo, a audacia e o tom imperativo com que o desconhecido falara não haviam dado logar á reflexão e ás suspeitas. Mas as palavras do soldado foram para todos um raio de luz:

«Tens razão, buccellario:—atalhou o capitão da decania.—Fazei-os parar.»

Os tres, que já íam a meia encosta, ouviram muitas vozes clamar:—esperae!

«Somos perseguidos!—disse em voz baixa aquelle que ficara juncto da donzella emquanto o outro falava com os vigias.

«Está salva!—respondeu o companheiro, que parecia ter concentrado todos os seus cuidados n'um pensamento unico, a fuga d'Hermengarda.

Duas frechas lhes sibillaram então por cima das cabeças.

«Covadonga e Pelagio!—gritou o que proferira as ultimas palavras. Eram chegados á raiz do monte, juncto ao qual uma planicie inculta e cuberta d'urzes se estendia até ir topar com os bosques que povoavam os primeiros cabeços das serranias septemtrionaes.

A esta voz, lá na orla da floresta, ao cabo do sarçal, surgiram de repente uns reflexos metalicos, que se agitavam trémulos, semelhantes á phosphorencia de um marnel por noite sem lua. Depois, o grito de—Covadonga e Pelagio—foi repetido daquelle lado da gandra, como respondendo ao que soltara o cavalleiro.

«São os nossos valentes irmãos—disse ao companheiro o que falara com os decanos das tiuphadias transfretanas.—São nossos irmãos, que nos esperam. Tu, Sancion, guiarás ao meio delles a nobre irman do duque de Cantabria. Entretanto eu reterei aqui os miseraveis renegados, que já descem do outeiro a perseguir-nos; retê-los-hei emquanto alcançaes a entrada do bosque e vos embrenhaes na serrania, seguindo ao norte. A agrura das montanhas e a profundeza dos valles das Asturias demorarão os inimigos, quando eu haja de perecer e não podér embargar-lhes os passos. Ide-vos.»

«Não perecerás sem mim, cavalleiro negro:—replicou o fero Sancion.—Cumprirei o que ordenas, porque jurei obedecer-te cegamente emquanto não salvassemos a irman de Pelagio. Mas, apenas alcançar a orla da floresta onde mandaste esperar os nossos dez companheiros, voltarei com todos os que me quizerem seguir. Para guiar a filha de Favila bastam dous guerreiros: o resto não bastará, talvez, a reter durante o tempo necessario para a fuga a turba dos infiéis que se approxima.»

E, sem esperar a resposta do cavalleiro negro, Sancion adiantou-se, dizendo á donzella, que apenas podera perceber algumas palavras truncadas da conversação dos dous:

«Partamos!»

E a galope, acompanhado d'Hermengarda, brevemente se alongou pela vereda torcida, que se distinguia no meio das moutas, como beta alvacenta estampada no tapete escuro das sarças.

A attenção do cavalleiro negro, que os seguira com os olhos, foi, porém, distrahida para o outro lado pelo tropeiar, já pouco distante, dos corredores transfretanos, que a toda a brida se acercavam delle. Era chegada a occasião de mostrar o extremo do seu esforço.

XV AO LUAR

Das brenhas através affugentando-os, C'o a rapida carreira á ponte impelle-os. Officio Mosarabe—Hymno de S. Torquato.

Os soccorros dados immediatamente a Abdulaziz tinham-lhe restituido o sentimento da vida. O clarão da sua tenda, que ainda ardia a poucos passos do logar para onde o haviam transportado, foi a primeira cousa que lhe feriu a vista ao descerrar os olhos do lethargo em que estivera submerso. Esse facho desmesurado, cujo fóco vermelho lhe apparecia cuberto de vasta cupula de fumo negro, o crepitar do incendio, o rumor e alarido do arraial e a inquietação que se lia nos gestos dos que o rodeiavam retraçaram-lhe subitamente no espirito a scena que se passara, pouco antes, naquelle pavilhão incendiado. Era um quadro complexo e terrivel; e o primeiro signal de vida que o amir deu foi um grito d'horror e desesperação. Alçando violentamente o corpo, ficou assentado sobre o almatrah em que estava deitado. Com o rosto livido e tincto do sangue que lhe corria da fronte e o olhar espantado e feroz, hesitar-se-hia ao vê-lo, se esse vulto era o de um homem vivo, se o de um morto que, afastando o sudario, se fosse a erguer da tumba para revelar algum dos temerosos mysterios que encerra a apparente quietação do sepulchro. Parecia que o aspecto do amir convertera em estatuas todos os circumstantes: a immobilidade era completa, e o silencio profundo.

Mas uma e outra cousa duraram apenas rapido instante. Com a voz rouca e affogada, o arabe rugia:

«Segui-o! segui o infiel!... As suas armas são negras e semelhantes ás dos guerreiros d'Al-Sudan... A melhor cidade do Gharb e a mais bella das minhas escravas a quem m'o trouxer vivo aqui. Todos!... Ide, trazei-m'o vivo! Prestes, cheiks, walis, kaiyds, cavalleiros do propheta! Prestes! correi após o meu assassino!»

As palavras de Abdulaziz revelavam o delirio da sua alma; cheiks, walis, e kaiyds olharam tristemente uns para os outros e não fizeram um unico movimento.

«Que! Não me obedeceis? Não obedeceis ao filho de Musa—exclamou o amir—porque a sua voz não soa no meio das trombetas e tambores; porque elle não cinge a espada, nem cavalga o seu corcel de batalha? Sem mim, atterram-vos as solidões das montanhas? Cheiks do Sahará e de Barca, walis d'Andalús, kaiyds e almocadens do exercito dos crentes... sois covardes e desleaes. Quando corre este sangue, vós não sabeis vingá-lo!»

«Não somos desleaes nem covardes, Abdulaziz:—interrompeu o mancebo Abdallah, o unico dos chefes arabes que ousava replicar ao amir nos seus violentos accessos de furor.—Mas como queres que te obedeçamos, se não sabemos de quem te havemos de vingar? De um individuo ou de milhares delles; dos adoradores de Deus ou dos infiéis nazarenos; de nossos irmãos ou de nossos inimigos, não nos importa! Terás a vingança que pedes, inteira quanto mãos d'homens a podem dar. A torrente dos teus cavalleiros espera, apenas, que profiras um nome e apontes um logar, para correr destruidora e irresistivel. Não deves antes d'isso condemnar-nos.»

«Quereis um nome e um logar?—interrompeu o amir.—Ainda, pois, não os adivinhastes? Pelagio e as montanhas do norte. Lá, lá!... Era elle ou um demonio o que me feriu... Porque?... Quando?... Oh, agora me lembra. Ía possuí-la, e roubaram-m'a! Por alto preço pagarão

tanta audacia. A cavallo os almogaures do deserto... Persegui-o até o encontrardes. Mas vivo... quero-o vivo em minhas mãos! Ai daquelle que o matar!»

Alguns dos cheiks íam já a saír da tenda para executar as ordens do amir. Um brado subito deste os fez parar.

«Não!... Não partireis sem mim! Quero acompanhar-vos; hei-de acompanhar-vos pelas brenhas e desvios; quero assistir á carnificina desses malaventurados que ainda resistem aos decretos de Deus. É preciso que em breve estejam nas minhas mãos Pelagio e sua irman. Ambos!... Que me tragam ambos!»

D'ahi a pouco, umas andas forradas de telas preciosas recebiam Abdulaziz, conduzido para alli sobre o mesmo almatrah ensanguentado em que os medicos judeus lhe haviam ligado as feridas. Rodeiavam as andas os cavalleiros negros de Al-Sudan. Duzentos bereberes, filhos das serranias do Atlas, estavam, tambem, em volta dellas: estes deviam transportá-las a gyros pelos alcantis das Asturias. As renques de tendas alvejantes, ponteagudas, formando uma como vasta cidade, que, ao subir da lua, davam ao arraial o aspecto de um cemiterio do oriente, sem os cyprestes funebres e esguios; toda essa multidão de pavilhões brancos, semelhantes a um mar de pyramides, havia desapparecido, e, apenas, o luar, batendo nos ferros das lanças dos esquadrões cerrados e na geada que cahia sobre os turbantes dos cavalleiros, refrangia trémulo um clarão prateiado.

E o sussurro que se ouvia entre tantos milhares de homens era, apenas, o murmurio das respirações oppressas pelo frio nocturno e o resfolegar dos ginetes, aspirando o nevoeiro humido que se alevantava da terra.

Mas lá, na vanguarda, para o lado das atalaias do norte, d'onde se descortinavam os topos recortados das montanhas sobre o chão claro do céu, como fileira de gigantes petrificados durante uma dança de embriaguez, tão phantasticos eram os seus contornos, ouvia-se o ruído alto e indistincto do cruzar de muitas vozes, do tropeiar de muitos cavallos: viam-se lampejar as armas nos visos dos dous ultimos outeiros que por aquella parte rodeiavam o campo, e agitarem-se ondas de vultos humanos e sumirem-se, onda após onda, como se os devorasse voragem aberta de subito debaixo dos seus pés: eram os cavalleiros que transpunham a eminencia. O exercito, detrás daquelles dous outeiros, que formavam como um ponto unico, vinha successivamente engrossando até o logar em que estava Abdulaziz. Parecia um desmesurado triangulo de ferro, a ponto de ir bater na muralha da serrania, que, vestida com a sua armadura de selvas, esperava o embate daquelle disforme vaivem, que já começava a oscillar ante ella.

Uma scena horrenda se passava, entretanto, além das atalaias, no extenso sarçal que se estendia até o sopé das primeiras montanhas. Os soldados transfretanos tinham-se lançado pela encosta abaixo atrás dos fugitivos. Ao chegarem á planicie, um dos tres desconhecidos estava diante delles, esperando-os quedo no meio da estreita trilha aberta por entre as urzes. A acha d'armas goda e a cadeia que lh'a prendia ao braço reluziam unicamente naquelle vulto, cujo saio e cavallo negros e cujo silencio profundo faziam lembrar um desses espectros errantes alta noite pelos logares desertos.

Os outros dous vultos galopavam a alguma distancia, encaminhando-se para a orla do bosque, onde continuavam a reverberar reflexos de armas polidas.

«Quem és tu?—disse um dos capitães das decanias, dirigindo o cavallo para o vulto negro.—Quem és tu, que ousaste enganar os atalaias do campo d'Abdulaziz, os guerreiros do conde de Septum?»

«Sou um homem que aínda não renegou nem da cruz, nem da Hespanha; um homem que não acceitou o ouro dos barbaros para ser o assassino covarde de seus irmãos.»

«Miseravel, que ajunctas ao engano a insolencia!—rugiu o decano, alçando a espada.—As derradeiras palavras de orgulho e rebeldia acabam de sair-te dos labios.»

Ultímas palavras foram, porém, as do decano: a borda gyrou sibilando no ar, e o guerreiro transfretano cahiu para o lado morto, como se o fulminara o raio.

Com um grito de horror e de colera, os que o seguiam precipitaram-se para o desconhecido.

Rodeiado de quasi vinte homens, o cavaleiro negro repetia apenas uma parte das gentilezas que practicara na fatal jornada do Chryssus. A cada golpe da borda respondia um gemido de moribundo; depois, uma injuria ameaçadora dos que ficavam; depois, um rir de desprezo do cavalleiro, e, d'ahi a pouco, um novo gemido d'alma que se despedia da terra. O tropel dos pelejadores rareiava de instante a instante.

Mas os que expiraram não ficarão sem vingança. Os cabos das decanias, antes de seguirem os fugitivos, tinham enviado um buccellario que relatasse a Juliano o que succedera na atalaia e como elles íam no alcance daquelles a quem irreflectidamente haviam dado passagem. O buccellario fora encontrar o conde juncto de Abdulaziz. A sua narração e o que se passara na tenda do amir eram dous factos que mutuamente se explicavam. Os esquadrões mais bem encavalgados foram despedidos logo em seguimento dos fugitivos. Na idéa de que só Pelagio podia ter audacia bastante para vir accommetter o filho de Musa na sua propria tenda, os capitães do exercito mosselemano não duvidaram um momento de que fosse elle o desconhecido. Colhendo-o ás mãos antes de se unir aos seus montanhezes, o exterminio destes sería facil empreza. Assim, os melhores almogaures deviam perseguil-o sem descanço nem treguas até o captivarem. Sendo assás numerosos para resistirem a qualquer recontro inesperado dos godos das Asturias, bastaria que o grosso do exercito os seguisse de perto para fazer que a victoria fosse indubitavel e completa.

Uns após outros, os esquadrões dos almogaures desciam já dos outeiros: o ruído do combate e o brilho das armas serviam-lhes de guia. Pareciam rolar pela encosta e, cegos na carreira, atufavam-se no mato, que estalava debaixo dos leves pés dos ginetes arabes. O cavalleiro viu-os e pensou. Esperar a pé firme milhares d'homens não era esforço, era loucura. Além disso, os seus companheiros deviam ter-se já embrenhado nas selvas com a irman de Pelagio. Até ahi não fizera mais do que defender-se dos soldados transfretanos que o cercavam; mudando, porém, da defensão para o commettimento, arrojou-se contra os seus adversarios, e em poucos instantes os que não cahiram ante a acha d'armas foram constrangidos a fugir, buscando amparar-se no meio dos esquadrões que se approximavam.

Então o cavalleiro deu volta. A senda alvacenta que se estirava por entre o mato até a floresta começou a embeber-se-lhe debaixo dos pés do ginete. Á vista, assemelhava-se a um rolo de fita, estendido e retesado por momentos, que, solto, busca, volvendo-se de novo, a sua curvatura anterior. A rapidez da corrida era quem o podia salvar: a dianteira dos almogaures arabes hesitara vendo recuar tantos homens diante de um homem só; porém, ao retroceder do cavalleiro, lançavam-se despeiadamente após elle para o alcançarem antes que chegasse ao bosque.

Mas a distancia que os separava era grande, e os arabes, lançando-se ás cégas por entre as sarças e enredando-se nellas, retardavam-se a si proprios e augmentavam essa distancia. A sua alarida, que ía retumbar ao longe nas anfractuosidades da serra, ajudava o esporeiar do guerreiro com o espanto que produzia no agil e robusto ginete.

Já bem perto do extremo da selva, o cavalleiro pôde distinguir uns vultos que pareciam espera-lo. Ao seu bradar—Covadonga e Pelagio!—respondeu o mesmo brado, proferido por uma voz retumbante. Conheceu-a: era a de Sancion. O fero gardingo cumprira a sua promessa. A despedida dos christãos do campo de Abdulaziz devia ficar escripta com letras de sangue na historia dos triumphos do Islam.

Chegando á orla do bosque, as primeiras palavras que o cavalleiro negro soltou foram dirigidas a Sancion:

«Porque voltastes sem vo-lo eu ordenar, vós os que tinheis jurado obedecer-me em tudo? Onde está a irman de Pelagio?»

«Segue os desvios da serra: respondeu Sancion. Astrimiro e Gudesteu a acompanham: Hermengarda está salva. Só até este ponto nos ligava o juramento que démos. Foste nosso capitão: agora cessaste de o ser. Homens livres n'uma terra serva, queremos combater onde tu combates, morrer se tu morreres. Ao menos—accrescentou em tom amargo—não poderás dizer de novo que foste o ultimo no pelejar em quanto os valentes fugiam.»

«Louco!—exclamou o cavalleiro negro.—Juncto do Chryssus a Hespanha pedia aos seus filhos que morressem sem recuar: aqui é tambem a patria que exige dos seus ultimos defensores que não se votem a morte inutil. Fujamos! vos digo eu: porque a fuga não póde deshonrar aquelles que mil vezes tem provado quanto desprezam a vida. Vede... Não são apenas alguns corredores que nos perseguem: são esquadrões e esquadrões d'agarenos que transpõem após nós a assomada.

Mas elles não o escutavam: Sancion, seguido dos seus nove companheiros, investia com os arabes, que tinham entretanto chegado.

Semelhante á segure, entrando no amago do carvalho, sob os golpes do robusto lenhador, aquelle punhado de homens, a cuja frente se achava Sancion, penetrou no massiço da cavallaria arabe. O ferir das espadas nos saios e elmos retiniu n'um som estridente, e a alarida dos sarracenos foi cortada por momentaneo silencio: depois, ouviram-se alguns gemidos abafados, a que succederam novos gritos de ameaça e furor e o bater e o reluzir trémulo do ferro, cruzando-se com o ferro, e o tropeiar confuso dos ginetes em recontro bem travado. Os arabes haviam parado diante de tanta ousadia. Mas, logo que o primeiro espanto passou, os dez guerreiros christãos, accommettidos por todos os lados, começaram a recuar. O cavalleiro negro, que ficara quedo, disse-lhes então:

«Quizestes tentar o Senhor com uma façanha inutil, e o Senhor vos abandona. Salvae as vidas! Exige-o o desaggravo da cruz e a liberdade da Hespanha!»

E pondo-se ao lado de Sancion fez gyrar a sua borda destruidora no meio dos infiéis. Naquelle impeto os inimigos tambem recuaram, e o cavalleiro, aproveitando este rapido instante, proseguiu:

«Aos que se envergonham de poupar a vida, para a perder com gloria quando o dia do sacrificio chegar, darei eu o exemplo! Podeis dizer aos nossos irmãos que o primeiro em fugir foi aquelle que nunca fugiu; foi o cavalleiro negro!

E, voltando as costas aos agarenos, internou-se na espessura.

Habituados a considerar o desconhecido como um ente mysterioso e extraordinario, os guerreiros de Sancion deram volta, e o orgulhoso gardingo viu-se obrigado a imitá-los.

Ei-los vão! Endireitando a carreira para o lado do norte, dirigem-se após Hermengarda, emquanto os almogaures arabes, guiados pelo ruído dos ginetes, os cerram de perto. Os esquadrões, penetrando na selva, assemelhavam-se a uma serpe disforme, que se desenrolava, colleiando e estirando-se por entre o arvoredo, e que de momento a momento ameaçava tragar os fugitivos, os quaes mal podiam conservar uma pequena distancia entre si e os seus implacaveis perseguidores.

A lua passava então nas alturas do céu. O ar, postoque frio, estava manso e diaphano. Era uma formosa noite de inverno; mais formosa que as socegadas noites do estio. As arvores, na maior parte desfolhadas, deixavam o luar, por entre os ramos despidos e tortuosos, desenhar no chão figuras extranhas, que vacillavam indecisas: os robles nodosos e calvos, misturados com os rochedos pyramidaes, que se alevantavam irregulares e phantasticos nas arestas das encostas ingremes, nas lombadas penhascosas das serras, pareciam fileiras de demonios, caminhando de roldão a despenharem-se nos valles ou dançando nos visos das alturas. Os cavalleiros, correndo á redea solta, sentiam coar-lhes nas veias involuntario terror, augmentado pelo estrupído soturno da cavallaria sarracena, que soava e ía morrer a grande distancia n'um quasi imperceptivel sussurro.

A furia da carreira crescia ao passo que os fugitivos se embrenhavam na maior espessura da floresta. Durante algum tempo, elles tinham podido descortinar os pincaros das montanhas e, lá muito ao longe, os mais altos cabeços do Vinnio, que reflectiam o luar no seu manto prateiado de neve.

Mas a selva já começa a rareiar, e os ginetes a resfolegarem com mais violencia: d'instante a instante os cavalleiros christãos, espreitando as estrellas do horisonte, que lhes servem de guias, vêem fugir aquella teia enredada, que as franças das arvores lhes affiguram como lançada sobre o chão claro do firmamento. Menos frequentes, as bastas e perennes folhagens dos medronheiros passam como globos negros, que, elevando-se a pouca altura da terra, voam despedidos, por um e por outro lado, para trás delles. É que os onze guerreiros principiam a galgar as alturas que são como a base irregular das montanhas, como o pedestal commum d'aquelles obeliscos da creação. O galope dos corceis dá um som aspero de ferro batendo em pedra, e o alvejar desta revela que as torrentes passaram por lá e arrastaram a relva e os musgos que a humidade fizera nascer no outono sobre o pó, accumulado nos barrocaes pelas ventanias do estio. Naquelle solo pedregoso e revolto torna-se mais difficultosa a fuga, e o impeto da carreira affrouxa visivelmente. Os arabes começam a saír d'entre os arvoredos e a approximar-se dos christãos. Emquanto estes tenteiam a medo o chão malgradado, que lhes rola debaixo dos pés dos cavallos, porque para elles o tropeçar, o vacillar é a morte, os seus numerosos perseguidores, attentos só a alcançá-los, galgam por cima do desgraçado almogaure que, derribado pelos proprios companheiros, expira sem combate, sem gloria e sem que a perseguição dos fugitivos deixe por isso de ser, como até ahi, incessante, implacavel, vertiginosa.

Depois de subirem a encosta, o cavalleiro negro e os que o seguiam viram alongar-se diante delles uma chapada plana, em cujo topo a serra se alteiava de novo, com os seus mil accidentes de cordilheiras cortadas, de algares profundos, de gargantas selvosas, ao lado das quaes os picos agudos se atiravam para o ar ou pendiam sobre os abysmos e torrentes. A natureza, mais rude naquellas paragens, tinha um aspecto soturno, vista assim, ao perto e á luz da lua: era como um oceano tempestuoso, onde todas as gradações da morte-cor se confundiam e misturavam, desde a brancura desbotada e pallida do rochedo até a pretidão fechada dos pinheiros retinctos nas sombras da noite.

E por aquella dilatada chan os onze esforçados largam redeas aos ginetes e ensanguentam-lhes o ventre com o esporeiar incessante: o ruído do proprio correr já não o sentem; confunde-se no estrépito do esquadrão d'arabes que de mais perto os segue. A vingança vai-lhes no alcance; e, se algum volve atrás os olhos, aquelle turbilhão ennovelado que rola após elles, negro, rapido, tortuoso, composto de centenares de vultos, cujos olhos affogueiados reluzem nas trevas, cujos dentes alvejam como os do javali irritado, assemelha-se-lhes a uma legião de demonios, e a um rir infernal o tinir das espadas, o resfolegar dos cavallos, e o murmurar dos cavalleiros, que parece entoarem-lhes já o hymno da morte.

Na extensa chapada, tanto a fuga como a perseguição eram um phrenesi, um delirio. Christãos e mosselemanos desappareciam por entre as sarças cubertas de orvalho, e o ar, dividido violentamente, zumbia-lhes em roda, como um gemido contínuo. Christãos e mosselemanos punham o extremo da diligencia nesta ultima tentativa. Além da planicie, os alcantis e as selvas gigantes eram a esperança de uns, o desalento d'outros. Alli, os precipicios cortavam subitamente os caminhos abertos pelas feras nas balsas, e ao cabo de valle fundo os rochedos fechavam imprevistamente a saída: aqui, a senda tortuosa ía morrer na torrente; lá, a torrente em catadupa. Os godos, affeitos áquelles desvios alpestres, sabiam-no; os arabes adivinhavam-no ao descortinarem o espectaculo que tinham ante si, essa especie de cahos nascido das grandes convulsões do globo na sua vida de muitos seculos, que a baça claridade da noite tornava ainda mais phantastico.

Emfim, os christãos atravessam a campina e começam a embrenhar-se nas solidões das mais agras montanhas. Os agarenos redobram então de energia; mas debalde. Poucos passos medeiam entre uns e outros, e os fugitivos sentem já o resfolegar dos cavallos e o respirar alto dos inimigos; mas esse espaço não se encurta. Ahi, parece estar de permeio o braço da providencia, que quer salvar os defensores da cruz. Furiosos, esquecidos da vontade de Abdulaziz, que exige para pasto dos tormentos aquellas poucas vidas, os guerreiros do amir despedem de longe as lanças, que vão pela maior parte cravar-se nos troncos dos robles. Duas, porém, silvam por entre os fugitivos; ao mesmo tempo dous ginetes param, vacillam e cahem. São os de Viterico e Liuba, os mais moços dos onze guerreiros. Sem transição, sem esperança, o espectro da morte se lhes ergue diante dos olhos fatal, incontrastavel.—Oh minha mãe, vem receber teu filho!—foram as unicas palavras que proferiu Viterico. Era ás recordações maternas e á saudade que esse ultimo grito de um moribundo cheio de vida se dirigia. Liuba tambem murmurou um nome; mas só elle e Deus o ouviram. Era o da sua amante, violada e morta na tomada d'Emerita. No transe final, aquella alma pura não revelara aos homens o mysterio do amor, da desesperação e do sepulchro. Orpham no mundo, separado daquella em quem empregara o affecto de um coração virgem e que tão tristemente perdera, Liuba, solitario sobre as ruinas da Hespanha e sobre as ruinas da propria existencia, era o primeiro em se arrojar aos perigos; e nessa noite, emfim, chegava para o desgraçado a hora appetecida do repousar eterno.

Debalde os almogaures dianteiros tentaram suster a corrida, para colher ás mãos os dous godos derribados. Impellidos pelos que os seguiam e arrastados pela propria furia, galgaram por cima delles; e quando, aos gritos dos almocadens, ao soffreiar dos cavallos, ao baralharem-se os esquadrões em mó apinhada e ao abrirem aos lados, poderam erguê-los do chão onde jaziam, as suas almas tinham subido ao céu, e os seus cadaveres, esmagados, sanguinolentos, desconjunctados, eram duas cousas informes, em que apenas se divisavam vestigios de vultos humanos.

Logo que Viterico e Liuba cahiram, um movimento incerto de hesitação affrouxara um pouco a fuga dos seus companheiros; mas a voz de—ávante—proferida pelo cavalleiro negro, lhes troou nos ouvidos, e essa voz foi seguida de algumas palavras travadas de lagrymas, de que davam visivel signal o trémulo e cortado com que eram proferidas:

«As almas de dous martyres sobem neste momento ao céu: elles orarão ao Senhor para que salve a liberdade e a vida de seus irmãos, que só querem uma e outra para combaterem pelos altares do Christo.»

Dictas estas palavras, o cavalleiro negro cravou as esporas no ventre do ginete e repetiu:—ávante!—

E os outros godos seguiram-no sem hesitar mais: a carreira tinha-se convertido n'uma especie de furia louca e desesperada.

Os almogaures, desordenados já, retidos pelas diligencias que faziam para alçar os dous cadaveres, e embaraçando-se uns aos outros, viram desapparecer os godos n'uma garganta estreita, entre rochedos e balsas, emquanto os almocadens lhes bradavam tambem—ávante!—

E os primeiros que poderam obedecer-lhes atiraram-se por aquella especie de fojo cavado pelas torrentes de muitos seculos; mas as sinuosidades da penedia encobriam-lhes os godos, e, obrigados a parar frequentemente para conhecerem a que parte elles se encaminhavam, cada vez sentiam mais remoto e tenue o tropel dos ginetes.

Dir-se-hia que as palavras do cavalleiro negro haviam sido propheticas: o sangue dos dous martyres fora, talvez, o preço da redempção dos fugitivos.

XVI O CASTRO ROMANO

A desconforme profundeza do alto precipicio ahi está patente: elle gera terror no homem que o contempla de cima.

Valerio Bergidense—Explanações.

A hora de amanhecer approximava-se: o crepusculo matutino alumiava frouxamente as margens de rio malassombrado, que corria turvo e caudal com as correntes do inverno. Apertado entre ribas fragosas e escarpadas, sentia-se mugir ao longe com incessante ruído. A espaços, destorcendo-se em milhões de fios, despenhava-se das catadupas em fundos pegos, onde refervia, escumava e, golfando em olheirões, atirava-se, massiço e atropelando-se a si mesmo, pelo seu leito de rochas, até de novo tombar e despedaçar-se no proximo despenhadeiro. Era o Sallia, que, de quéda em quéda, rompia d'entre as montanhas e se encaminhava para o mar cantabrico. Perto ainda das suas fontes, o estio via-o passar pobre e limpido, murmurando á sombra dos choupos e dos carvalhos, ora por meio das balsas de carrascos e silvados, que se debruçavam, aqui e acolá, sobre a sua corrente, ora por entre penedias calvas ou corregos estereis, onde em vão tentava, estrepitando, recordar-se do seu bramido do inverno. Mas, quando as aguas do céu começavam nos fins do outono a fustigar as faces pallidas dos cabeços, a ossada núa das serras, e a unir-se em torrentes pelas gargantas e valles, ou quando o sol vivo e o ar tepido d'um dia formoso derretiam as orlas da neve que pousava eterna nos picos inaccessiveis das montanhas mais elevadas, o Sallia precipitava-se como uma besta-fera raivosa e, impaciente na sua soberba, arrancava os penedos, alluía as raizes das arvores seculares, carreiava as terras e rebramia com som medonho, até chegar ás planicies, onde o solo o não comprimia e o deixava espraiar-se pelos paúes e juncaes, correndo ao mar, onde, emfim, repousava, como um homem completamente ebrio que adormece, depois do bracejar e lidar da embriaguez.

Na margem direita do rio, que então passava grosso de cabedaes por um dos valles que retalham as montanhas das Asturias no seu pendor occidental, viam-se ainda no principio do oitavo seculo as ruinas de antigo castro ou arraial romano. Jaziam estas em uma especie de promontorio de rochas pendurado sobre a veia d'agua e talhado quasi a pique por todos os lados. Na borda de espaçoso lagedo, que formava como uma eira irregular, avultavam fragmentos de grossos pannos de vallos de pedra, e no alto de uma ladeira ingreme que conduzia á entrada daquelle circuito achavam-se os vestigios de uma porta de campo, provavelmente a pretoria: a decumana, fronteira a ella, fazia, fóra do vallo, um limitado terreirinho, em cujo topo, e a bastante profundidade passava o rio negro e veloz com mugido contínuo. Ainda na borda do rochedo aprumado sobre a agua se enxergavam alguns orificios profundos, que mostravam terem servido para embeber as traves de ponte lançada para a outra margem, tambem elevada e penhascosa. A situação daquellas ruinas, a fórma quasi circular dos vallos e a sua disposição interior evidentemente indicavam um desses hibernáculos ou arraiaes do inverno levantados pelas legiões de Roma nas suas tentativas repetidas e quasi sempre inuteis para subjugar os celtiberos das cordilheiras da Cantabria e das Asturias.

A ponte romana, porém, se outr'ora ahi existira, haviam-na consumido as injurias das estações. Em logar della, os habitantes daquelles desvios tinham tombado através do Sallia um roble gigante, um dos filhos primogenitos da terra que nos seus dias seculares fora enredando as raizes nos seios da pedra, até irem beber no leito do rio. A arvore monstruosa, derribada por cima da corrente, caira sobre o alcantil fronteiro e vivia de uma vegetação moribunda, que mal podia conservar através do cepo, arrancado quasi inteiramente do sólo. Calva e musgosa, apenas alguma vergontea, que lhe rompia da enrugada epiderme na primavera para morrer no estio, dava signal de que o rei dos bosques ainda não era inteiramente um cadaver. Mas essa pouca vida bastava para que a obra rude dos barbaros montanheses durasse por mais annos que a edificação regular e solida dos antigos metatores ou engenheiros das legiões romanas. Para aquelles, todavia, que não estivessem affeitos a perseguir a zebra pelas encostas escarpadas, a galgar os precipicios após a cabra montez e a combater com os ursos e javalís nas bordas dos fojos, sem se lhes turbar a vista; para esses taes a ponte vegetal dos asturios sería um sitio arriscado. No meio do passo estreito, irregular e cylindrico, sentindo e vendo mugir e desapparecer debaixo dos pés a corrente inchada e turva, quasi impossivel lhes fora não vacillar: mas ao vacillar seguir-se-hia o despenhar-se, e ao despenhar-se a morte. Á altura da quéda e ao impeto das aguas ajunctava-se o agudo dos rochedos, entre os quaes o rio, escumando, se estorcia e despedaçava.

Ao partir de Covadonga e ao dirigir-se para o campo de Abdulaziz, os cavalleiros christãos tinham rodeiado o Vinnio, seguindo mais ao oriente; mas, habituados nas suas contínuas correrias a discorrerem pelos atalhos e carrís das montanhas, de antemão previam que, no caso de levarem a cabo a temeraria empreza que commettiam, a agrura da serra sería a sua melhor defesa contra a perseguição dos arabes. Assim delinearam o caminho que deviam seguir na fuga, vindo atravessar o Sallia, já perto do seu escondrijo, naquella especie de passo fortificado, conhecido ainda entre os godos pelo nome de

Castrum Paganorum

ou arraial dos pagãos.

Foi justamente ao tingir-se o céu da faixa avermelhada que precede o surgir do sol que dous cavalleiros galgaram ao galope a ladeira que dava accesso para as ruinas do castro romano. No meio delles, cavalgando tambem um alazão agil e ao mesmo tempo robusto, uma dama vestida de branco parecia mal poder já manter-se na sella, segurando-se umas vezes ao arção, outras ás crinas fluctuantes do valente animal. Eram Hermengarda e os seus dous guardadores que chegavam, finalmente, ás margens do Sallia. Pouco devia tardar o instante em que a formosa irman de Pelagio achasse, depois de tantos perigos e terrores, abrigo e paz nos rudes paços de seu esforçado irmão.

Mas a corrida violenta e incessante por sendas montuosas e asperas tinha exhaurido as forças da filha de Favila, como os successos por que passara desde que partíra de Tárraco lhe tinham quasi anniquilado as do espirito. Ao chegar ao meio daquelles restos do acampamento romano sentia-se desfallecer de cansaço, ao passo que a febre e a sêde lhe devoravam as entranhas. Os dous cavalleiros, olhando para ella, viram-lhe, com a luz da alvorada, as faces tinctas de pallidez mortal. Ás vezes, durante o caminho e, sobretudo, nos sitios mais altos, quando as lufadas do norte acalmavam momentaneamente, percebiam ao longe um debil ruído, soturno e contínuo, que se assemelhava ao tropeiar de cavallos; mas havia horas em que apenas sentiam o estrepito do galopar dos proprios ginetes, bem que o vento houvesse cahido de todo na antemanhan. Inquietos, tambem, pela sorte dos companheiros que tinham deixado atraz de si, resolveram parar no meio daquellas ruinas. Salteiados de improviso pelos arabes, facil lhes sería transpôr a ponte natural que tinham diante, e as poucas raizes que prendiam o moribundo carvalho á margem opposta cederiam bem depressa aos gumes afiados dos seus frankisks. Então o tronco da velha arvore se despenharia no abysmo, e o leito profundo e escarpado do Sallia ficaria como uma barreira entre elles e os inimigos.

Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irman de Pelagio e foram recliná-la sobre um monticulo cuberto de relva e musgos, que, pela sua situação no logar onde, provavelmente, ficava a divisão entre o pretorio e a parte inferior do campo, dava indicios de ser o assento das aras dos deuses, que os romanos usavam collocar no meio dos arraiaes. Regelada exteriormente ao passo que o ardor febril lhe queimava o sangue, Hermengarda, apenas tocou em terra, só pôde pronunciar a palavra «sêde», cahindo amortecida sobre a relva orvalhada. O unico signal que nella revelava a vida era o tremor convulso que violentamente a agitava.

Emquanto Astrimiro subia ao vallo, de cujo topo se descortinava melhor, postoque a breve distancia, o caminho que haviam seguido, Gudesteu trabalhava em ajunctar alguns troncos de arvores e as folhas seccas amontoadas pelos ventos do estio que as chuvas outonaes ainda não tinham arrastado. Brevemente, o ar tepido de uma fogueira fez volver a si a donzella: o cavalleiro offereceu-lhe um pequeno frasco de sicera que desprendera do arção e que lhe restituiu algum vigor aos membros entorpecidos. Depois, Gudesteu chamou o seu companheiro e disse-lhe:

«Os ginetes não podem passar além. Ide e lançae-os para o lado oriental da montanha: elles buscarão o trilho acima das fontes do Sallia e descerão a Covadonga.»

E Astrimiro, guiando os tres ginetes pela ladeira abaixo, affagou-os um a um e, segurando-lhe as rédeas á ephippia, deu um silvo com soído particular. Os ginetes fitaram as orelhas, aspiraram ruidosamente o ar e partiram ao galope, por meio da selva, para o lado que Gudesteu indicara.

Este, apenas os viu desapparecer, dirigiu-se para Hermengarda.

«É necessario, senhora,—disse elle—uma derradeira prova d'esforço: é necessario partir já. Os nossos ginetes, ensinados a voltarem sós ao campo christão do deserto quando os ardís ou os perigos da guerra nos obrigam a abandoná-los, não causariam nem extranheza nem receio ao apparecerem ahi sem seus donos, se não fossem as circumstancias extraordinarias da nossa correria. Mas, quem poderá dizer ao duque de Cantabria qual sorte nos coube na temeraria empreza que commettemos? Quem, senão vós mesma restituida aos seus braços, lhe dará a certeza de que estaes salva das mãos dos infiéis? Para nós, habituados a descer precipicios e a salvar torrentes, aquella ponte estreita e selvatica é facil de transpôr, galgando-a rapidamente e sem volver os olhos para o abysmo. Invocae toda a energia da vossa alma, todas as vossas forças, para vencer este ultimo obstaculo, e, dentro de poucas horas, veremos os cabeços que rodeiam a caverna de Covadonga. Em leito de ramos tomar-vos-hemos sobre nossos hombros na margem fronteira: homens livres e gardingos, faremos mister de servos; porque sois uma dama e porque sois a irman do nobre e valente Pelagio... Astrimiro, mostrae que o risco só existe quando existe o temor.»

Então Astrimiro, olhando fito ante si, atravessou com passos firmes e ligeiros por cima do tronco arredondado e nodoso, e, n'um relanceiar d'olhos, achou-se do outro lado.

Hermengarda comprehendera bem a necessidade de colligir toda a robustez da sua alma naquelle momento; mas, ao erguer-se, conheceu que seus membros doridos e exhaustos quasi recusavam obedecer-lhe. Firmando-se, todavia, no braço de Gudesteu, encaminhou-se para o terreirinho exterior que se abria além dos vallos sobre a torrente. Ahi, antes de chegar ao temeroso transito, ajoelhou e, alevantando as mãos e os olhos ao céu, nem sequer se lhe viam mover os labios, embebida em oração fervorosa e íntima. Com os seus trajos brancos e em completa immobilidade, dir-se-hia que era um destes anjos curvados sobre os lodams de capitel gothico, que, no frontispicio de cathedral, parecem ser o symbolo da morada das preces, se os primeiros raios do sol, cujo orbe mal despontava detrás das collinas, não revelassem nella a vida, scintillando-lhe nos cabellos dourados e no véu de duas lagrymas que lhe offuscava os olhos e começava a deslisar-se-lhe em dous fios brilhantes ao longo das faces, onde o rubor da febre rompia por entre a pallidez, como as papoulas rompem no meio da seara madura.

Depois de alguns instantes, alevantou-se de novo e encaminhou-se para o roble, cujo topo monstruoso se assemelhava á cabeça calva de um gigante que, inteiriçado, fincasse os pés na outra riba. Gudesteu seguia-a de perto, estendendo os braços involuntariamente, como querendo sustê-la, emquanto Astrimiro, tambem por um movimento machinal, em pé sobre as raizes torcidas da arvore e curvando-se para diante, lhe offerecia a mão robusta, como se a distancia lhe permittisse alcançá-la.

No momento em que já punha o pé sobre o tronco, o reflexo alvacento da escuma, que fervia lá embaixo no meio do crepusculo frouxo do corrego profundo, e o estrepito da torrente, espadanando por entre os musgos e limos estampados nos pannos irregulares do despenhadeiro, fizeram abaixar os olhos a Hermengarda para o abysmo, como uma fascinação irresistivel, como um conjuro diabolico. Cravados naquelle horrendo espectaculo, fitos, espantados, ella não os podia despregar desse cahos infernal das aguas, que, redemoinhando ou jorrando contra os rochedos, ora negrejavam, precipitando-se compactas para diante, ora, repellidas, despedaçadas em ondas d'escuma, repuxando cruzadas no ar ou espalmando-se nas faces da penedia, misturavam no seu confuso soído um murmurar e rugir como de dôr, de colera, de desesperação, d'agonia, que vozes humanas não saberiam ajunctar e que só póde ser semelhante ao concerto de blasphemias dos condemnados, entoando o hymno atroz das eternas maldicções contra Deus.

E Hermengarda sentia uma ancia vertiginosa de se atirar áquella voragem; uma como attracção magnetica, voluptuaria, indizivel, a favor da qual luctava um sentimento mysterioso e vago, mas que nem por isso era menos ardente, ao mesmo tempo que alma e corpo a repelliam pelo instincto e pelo amor da vida. Com as mãos contrahidas, a fronte pendida e o olhar incerto de um moribundo, a donzella parecia haver sido petrificada no momento em que dera a primeira passada para transpôr essa meta, além da qual, unicamente, existia a esperança.

Observando o gesto da irman de Pelagio, Gudesteu viu que um instante bastaria para anniquilar o fructo dos perigos até ahi corridos. Mais de uma vez, antes que se habituasse á sua vida de foragido, passando pelas bordas dos fojos, pelas arestas dos precipicios, elle proprio sentira essa fascinação do terror, esse magnetismo da morte que costuma subjugar-nos e attrahir-nos quando pelas primeiras vezes nos achamos sobranceiros a algum abysmo; sentimento de voluptuosidade dolorosa, que, paralisando-nos os movimentos, porque dobra em nós o terror, nos salva, talvez, do suicidio, ao mesmo tempo que para elle nos convida com attractivo inexplicavel.

O cavalleiro, segurando violentamente o braço da donzella, desfez aquella especie do encanto fatal, obrigando-a a recuar alguns passos. Então Hermengarda, como se acordasse de um sonho, murmurou: «Não posso!»—E soluçava, e as lagrimas rolavam-lhe abundantes pelas faces macilentas. Em tremor convulso, os joelhos vergavam-lhe, e teria cahido por terra, se Gudesteu não a houvera sustentado.

Astrimiro, que vira o movimento do seu companheiro, atravessou de novo a arriscada passagem. Um pensamento horrivel passou a ambos pelo espirito: era que os arabes podiam chegar! Encararam-se mutuamente, e cada um delles notou que o outro tinha o gesto demudado. Gudesteu, volvendo a cabeça, lançou os olhos para a selva de que haviam saído, porque lhe parecera ouvir um rumor abafado. Astrimiro, que crera ouvir o mesmo, correu de novo ao vallo.

E o ruído soava, de feito. Os dous cavalleiros nem respiravam. Era um tropeiar de cavallos á rédea solta: não havia que duvidar. Para elles em alguns instantes se resumiu, então, um seculo de trances mortaes.

São nove: nove os que sáem da espessura, correndo desordenados, e que se precipitam para as ruinas. São godos! Os largos ferros dos frankisks lá reluzem, batendo-lhes sobre as coxas no rapido galope: o lodo dos brejos ennodoa-lhes as armas escuras e pulidas. Ondeiam eriçadas as crinas dos corceis, cujos peitos mosqueia a escuma, cujos freios tinge o sangue. O mysterioso cavalleiro negro vem á frente delles.—«Ei-los!—brada Astrimiro, com uma especie de alegria phrenetica.—Estão salvos!»

«Salvos?!—interrompeu tristemente Gudesteu e, sem se mover, olhou para Astrimiro e, depois, para Hermengarda, que sustinha nos braços.

«Perdidos! perdidos comnosco e como nós!—replicou em tom lugubre Astrimiro, para quem a interrupção e o olhar de Gudesteu tinham sido um raio de luz medonha. O Sallia era a linha traçada pela feiticeira com a verbena magica, além da qual não passará jámais aquelle ante cujos pés ella a riscou. O juramento que tinham dado e, mais do que isso, a lealdade de guerreiros godos não lhes consentiam abandonarem a irman do seu capitão; não lh'o consentiria o fero cavalleiro negro, esse homem ou esse phantasma, cuja vida era um segredo, cuja vontade era de ferro, cuja voz era um terror para inimigos e, para os seus, um decreto de cima.

E os nove n'um relance transpuseram o valle, galgaram a ladeira e atiraram-se de tropel ao meio das ruinas do arraial romano. O cavalleiro negro foi o primeiro em desmontar; os outros oito imitaram-no.

«Rapido, rapido!—disse elle—Lançae os cavallos para as brenhas, e atravessemos o Sallia! Não ha um momento que perder, se queremos salvar-nos.»

E ouviu-se um silvo accorde, unico, estridente de todos os recem-vindos. Os ginetes soltos desceram de novo a ladeira, respirando com violencia e seguiram a pista dos tres que pouco antes, ao sibillar d'Astrimiro, se haviam embrenhado na floresta, seguindo ao oriente as margens do Sallia.

O cavalleiro negro, porém, ao volver-se, recuou com um grito d'espanto, que não pôde conter: fora naquelle momento que vira Gudesteu e Hermengarda quasi desfallecida, que este amparava.

«Vós aqui?! Ainda aqui?!—exclamou elle, com gesto d'espanto misturado de afflicção e perdendo a compostura solemne e altiva que soubera até então conservar nas mais arriscadas situações, nos trances mais dolorosos.—Prestes passae o rio. Os infiéis seguem-nos de perto, e os seus esquadrões não tardarão a transpôr aquellas collinas. O Sallia é a unica barreira que póde tolher os passos a esses corredores africanos, iguaes em robustez e ligeireza aos nossos corceis das montanhas. Irman de Pelagio!—accrescentou, dirigindo-se á donzella, que parecia alheia ao que passava juncto della, volvendo d'instante a instante para a borda do despenhadeiro um olhar de terror.—Irman de Pelagio, por Deus, que cobreis animo! Dous dos mais valentes guerreiros da cruz lá os deixámos despedaçados sob os pés da cavallaria arabe: estes que vedes breve acabarão nos gumes dos ferros inimigos, se não podérem salvar-vos. Juraram-no: hão-de cumpri-lo. Não vo-lo imploro por mim: não quero; não posso querer de vós piedade nem recompensa; mas os meus rogos são pelos irmãos d'armas do duque de Cantabria, pelos que têem misturado com as delle as lagrymas do desterro, com elle tragado o pão negro do proscripto. Diante do Senhor não vos pediriam conta do seu sangue; não valera a pena: mas, quem sabe se não vo-la pedirá o Christo pela sua religião, a Hespanha pela sua liberdade?»

Hermengarda não tinha ouvido ainda ao cavalleiro negro senão os sons quasi inarticulados do seu grito de guerra: agora, porém, estas palavras, proferidas em tom energico, mas com voz tremula, troaram-lhe nos ouvidos, semelhantes á voz de alguem que na vida conhecera e que o sepulchro, provavelmente, tragara. O terror que lhe tolhia os membros redobrou com esta voz: por um impeto convulso de desesperação encaminhou-se, todavia, com passos incertos para a ponte fatal; mas, ao chegar a ella, recuou: tinha abaixado de novo os olhos para a torrente, e de novo a torrente, como um sortilegio diabolico, a havia fascinado.

«Por tudo quanto haveis amado, cavalleiros da cruz:—exclamou ella desvairada:—em nome do céu, abandonae-me! O desalento e o susto me abrigarão no seio da morte da violencia dos infiéis. Não posso!... Não posso vencer esse terrivel abysmo, que ha-de tragar-me!»

Os guerreiros de Pelagio, escolhendo aquella senda para a fuga, não haviam calculado com um coração feminino, mistura d'esforço e timidez, d'energia e de fraqueza, que será sempre para a philosophia um mysterio.

«Os arabes!—Esta palavra, cem mil vezes repetida na Hespanha, como o dobrar por finado em paiz assolado da peste, soou atrás dos cavalleiros apinhados juncto aos vestigios da porta decumana. Saira da boca de Astrimiro, que, sem deixar o vallo, tinha a vista cravada nos visos dos montes fronteiros, até cujas gargantas se dilatava a selva.

Os guerreiros abriram subitamente aos lados, e olharam para as cumiadas da cordilheira coroadas de mosselemanos: os ferros pulidos dos frankisks, que tinham pendentes dos pulsos por uma cadeia de ferro, scintillavam levemente trémulos.

Só Hermengarda abaixou os olhos, e ajoelhou com as mãos erguidas no meio delles, murmurando:—Não posso! Abandonae-me!»

Então o cavalleiro negro, tomando-a pela mão, correu a vista pelas duas alas: no seu gesto havia a mesma expressão imperiosa e sinistra de que se revestira quando em Covadonga embargara a saída de Pelagio.

«Qual de vós ousa tomar nos braços a irman do duque de Cantabria e conduzí-la por cima do abysmo para a outra margem? Qual de vós ousa jurar sobre a cruz da sua espada que sem vacillar o fará?

Houve um momento de silencio: todos os rostos empallideceram; todos os labios calaram.

Um alarido de muitas vozes o interrompeu: eram os infiéis, que a meia encosta haviam enxergado os fugitivos e que se atiravam para o valle.

«Não ha entre vós um que o ouse?—reperguntou o mysterioso guerreiro, fitando o olhar successivamente em todos.—Vai seguro o que o tentar. A entrada deste recincto é estreita, e os pagãos antes de chegarem ao Sallia passarão por cima do meu cadaver. Direis depois a Pelagio que sómente o cavalleiro negro lhe pede, a elle e a sua irman, algumas lagrymas em memoria de um tiuphado de Witiza, que deixou de viver... Chamava-se Eurico... Elle nos tenros annos ainda o conheceu em Tárraco... Fruela, Gudesteu, e tu Sancion, qual de vós será o mensageiro? qual de vós será o salvador d'Hermengarda?»

Todos calaram de novo; mas aqui não houve silencio: ouvia-se já o ruído dos corredores sarracenos, bem de perto, no fundo do valle.

E, ao proferir o cavalleiro negro o nome de Eurico, a irman de Pelagio soltou um gemido e deu em terra como se fora morta.

«Nenhum!—rugiu o guerreiro quasi suffocado de furor e de angustia: e, alongando a vista pelo portal do recincto, viu alvejar os turbantes, e, depois, surgirem rostos tostados, e, depois, reluzirem armas. Os arabes começavam a galgar a ladeira. Astrimiro descera de um pulo do vallo.

A contracção d'agonia que neste momento passou nas faces do cavalleiro negro, estendendo para o céu os punhos cerrados, não haveria ahi palavras humanas que a pintassem. Não disse mais nada. Tomou nos braços aquelle corpo de mulher que lhe jazia aos pés e encaminhou-se para a estreita ponte do Sallia. Era o seu andar hirto, vagaroso, solemne, como o de um phantasma: parecia que as suas passadas não tinham som; que lhe cessara o coração de bater, e os pulmões de respirar.

Viram-no atravessar, lento como sombra; como sombra, lento, hirto, solemne, internar-se com Hermengarda na selva da outra margem.

Era um corpo ou um cadaver que conduzia? Estava morta ou estava salva?

Sancion e os demais godos tinham ficado immoveis d'espanto e de susto. Aquelle homem, menos habituado a transitar por meio dos precipicios das montanhas, commettera um feito, para o qual lhes fallecera o animo. Mal sabiam elles quanto os alcantis do Calpe eram mais asperos, os seus despenhadeiros mais frequentes, os seus corregos mais fundos e quantas vezes esse homem os havia galgado na escuridão d'alta noite, por entre o redemoinhar e bramir do vento e das tempestades.

Foi por um momento rapidissimo que durou a immobilidade dos godos, porque tanto bastou ao cavalleiro negro para transpôr a breve largura do Sallia e sumir-se na floresta que, descendo das montanhas fronteiras, vinha quasi tocar na borda dos alcantis pendurados sobre as aguas.

Os dez guerreiros, uns após outros, galgaram ligeiros por cima do roble nodoso, sem abaixarem os olhos para a especie de sorvedouro negro, revolto, ruidoso, que, mugindo lá embaixo, parecia, com seu estrepito violento, tentar attrahí-los e devorá-los.

Sancion foi o derradeiro a passar: a meio rio sentiu após si o tumulto dos arabes que se precipitavam dentro dos arruinados vallos romanos. Não titubeiou e seguiu ávante. Chegando á margem opposta, volveu os olhos e viu que alguns dos inimigos punham pé em terra e, cegos na sua furia, se arrojavam para a ponte fatal.

«Godos, aqui!—gritou elle; e o primeiro golpe do frankisk deu um som baço, entrando nas raizes ainda vivas da velha arvore.

E, manso e manso, os agarenos, lançando-se ao comprido sobre o cepo que estremecera ao golpe de Sancion e segurando-se ás cavidades do velho tronco e ás asperezas do seu grosseiro cortex, se approximavam, semelhantes ao estellio que se arrasta, nas ruinas de Balbek, ao longo de columna tombada.

Christãos e infiéis fizeram silencio: era uma destas situações em que a voz expira na garganta; porque o viver parece quasi paralisar-se.

E os arabes avançavam sempre, e os golpes das pesadas secures godas batiam roucos e cada vez mais violentos e repetidos nas raizes que estalavam, lascando; e já os olhos esverdeados de colera, faiscantes, desvairados dos infiéis, cujas barbas negras varriam o tronco, se encontravam com o olhar torvo de Sancion, curvo, vibrando golpes sobre golpes, e cercado de alguns companheiros que o imitavam,—aquelles a quem o consentia a apertura do sitio, emquanto os outros, com os frankisks nas mãos, se preparavam para repellir os inimigos, que só um a um poderiam transpôr a estreita passagem.

Subitamente estouram as ultimas fibras do lenho: a arvore monstruosa despenha-se da sua base de pedra, escapa da riba fronteira, tomba pelas pontas dos rochedos limosos, fa-las voar em rachas e bate sobre o dorso da torrente, cujo ruído não póde devorar inteiramente o alarido dos infiéis precipitados, que deixam os fragmentos das armas, dos vestidos e dos membros pendentes dos bicos das rochas. As aguas, espadanando, trepam em lençoes d'escuma pelas paredes anfractuosas do precipicio e lambem o sangue que por instantes as tingiu. Depois, o grosso madeiro fluctua, deriva pela corrente e lá vai, d'envolta com ella, em demanda das solidões do mar.

Os arabes que enchem o recincto das ruinas recuam diante de tão horroroso espectaculo: os godos enviam-lhes uma risada feroz de insulto e desapparecem na espessura das brenhas que se dilatam até as raizes da montanha d'Auseba, onde deve ser o termo da sua viagem.

XVII A AURORA DA REDEMPÇÃO

Desprezamos essa multidão de pagãos, e nenhum temor ha em nós. Sebast. de Salamanca—Chronicon.

O espectaculo que offerecia a caverna de Covadonga na noite immediata áquella que se terminou com os successos das margens do Sallia era mui semelhante ao dess'outra noite em que Pelagio recebera a nova do captiveiro d'Hermengarda;—espectaculo semelhante, mas personagens, em parte, diversas. Na vasta lareira proxima da entrada da gruta e a que servia de chaminé uma larga fenda dos rochedos superiores ardiam alguns cepos de carvalho, que, repassados do fogo durante uma longa noite de novembro e abrazados até a medúlla, davam apenas uma chamma tenue e azulada, cujo fraco esplendor se perdia na claridade brilhante de cinco ou seis fachos encostados pelas paredes irregulares da caverna. Do numeroso tropel de guerreiros que naquella memoravel noite se tinham erguido á voz do moço duque de Cantabria, travando das armas, apenas se viam agora, estendidos nos grosseiros leitos formados das pelles de animaes bravios, dez cavalleiros, que no seu profundo somno, no transfigurado do gesto e no desalinho dos trajos faziam antes lembrar o jazer de cadaveres, que o repousar de vivos. Perto do lar acceso, assentado em escabello tosco e com a cabeça encostada ao braço firmado n'uma anfractuosidade do rochedo, via-se, tambem adormecido, um guerreiro em cujo rosto os sulcos das rugas e o cavado das faces davam, porventura, mostra de mais dilatada vida do que, na realidade, era a sua. O somno parecia nelle unicamente o entorpecimento das forças physicas exhaustas e não o repouso do espirito; porque, de quando em quando, os membros se lhe agitavam por estremeção violento, ou se lhe descerravam os olhos, e moviam os labios, como se tentasse falar; mas sussurrava apenas alguns sons inarticulados e cahia de novo em torpor, que não tardava em ser outra vez interrompido. N'um recésso da gruta, formado pelos resaltos das rochas e que servia como de camara ao joven capitão dos foragidos, parecia tambem jazer um vulto sobre telas mais delicadas que os despojos d'animaes silvestres, as quaes eram, talvez, ainda restos do anterior luxo dos paços de Tárraco; talvez, vestigios da passada grandeza dos duques de Cantabria e da antiga civilisação gothica. Um panno de purpura franjado d'ouro pendia da abobada natural, preso nas stalactites seculares que della desciam, semelhantes aos penduróes do tecto de um templo normando-arabe. A luz dos fachos mal alumiava aquelle recanto affastado; mas nessa meia-claridade branquejavam roupas alvas de mulher, que tambem parecia agitada por sonhos dolorosos, se é que o seu gemer de espaço a espaço, o soluçar contínuo, o agitar-se d'instante a instante não eram antes indicios dessa modorra febril, dessa hesitação entre o dormir e a vigilia, semelhante ao arquejar do moribundo que já perdeu a consciencia da vida que vai fugindo. No meio desta scena de duvidosa quietação uma personagem velava. Era o moço Pelagio, que, atravessando a caverna a passos lentos e cautelosos, de um para outro lado, ora applicava o ouvido aos movimentos irrequietos e ao respirar agitado do vulto branco, ora parava á entrada da gruta, fitando os olhos na escuridão exterior e escutando com todos os signaes d'impaciencia de quem espera alguem que tarda. Depois, dirigia-se para o lado do vermelho brasido e, cruzando os braços, punha-se a contemplar o torvo aspecto do cavalleiro do escabello, com um olhar de sympathia e compaixão, misturada do que quer que era de admiração e de terror involuntario.

Estes movimentos successivos do mancebo repetiram-se umas poucas de vezes; por fim, a figura membruda e selvatica do lusitano Gutislo assomou no arco irregular que servia de portico áquella habitação roubada pela desventura ás feras.

«Voltaram?—perguntou em voz baixa ao barbaro do Herminio o duque de Cantabria.

«Desmontam agora:—respondeu Gutislo:—Vellido, o centenario, disse-me viesse vêr se repousavas.»

«Repousar!—replicou Pelagio, sorrindo tristemente e olhando para o sitio onde o panno de purpura occultava o vulto branco. «Que venha; que venha já.»

Gutislo desappareceu. D'ahi a alguns momentos, o centenario entrava.

Era um guerreiro, cujos cabellos brancos, cujos meneios pausados e cujo olhar penetrante davam testemunho de prudencia e discrição. Parecia inquieto e assustado.

«Que novas nos trazes, Vellido? Qual caminho seguem os arabes?»

«O que prouvera a Deus elles nunca houvessem encontrado. Ao amanhecer os cavallos africanos beberão as aguas do Deva; os sons das trombetas agarenas ouvir-se-hão retumbar pelas encostas de Concana e ecchoarão nos alcantís do Auseba. Vagueiámos dispersos a tarde inteira e a maior parte da noite. Pelas alturas do sul e do oriente reluziam ao longe as armas dos infiéis, e depois as suas almenaras. Os pastores asturios, que já nos esperavam no valle d'Onis, onde todos os esculcas se ajunctaram á hora de terça nocturna, nos relataram então o que, sumidos por entre as brenhas, tinham podido observar de perto...»

«E quaes foram as novas dos pegureiros?—interrompeu vivamente Pelagio.—São muitos ou poucos os inimigos? A que distancia se acham?»

«Pouco depois do amanhecer devem ter descido os ultimos outeiros do Vinnio e quando o sol brilhar em todo o seu esplendor poderão pisar o solo, até hoje livre, do valle de Covadonga. Os pastores viram os nossos cavalleiros transpôrem o Sallia: viram despenhar-se o roble, e os infiéis recuarem espantados. Mas, esquadrões após esquadrões desciam das montanhas, e dentro em breve na margem do rio não se descortinavam por grande espaço senão tropeis d'arabes. Ao pôr do sol ainda as gargantas das serranias golfavam torrentes de infiéis, e as selvas retumbavam com os golpes de machado. Antes de anoitecer, uma ponte espaçosa estava lançada sobre o Sallia n'um sitio menos profundo, e os inimigos começavam a atravessá-la. Entre os primeiros que passaram áquem, asseguram os zagaes terem visto muitos cavalleiros que, pelos elmos e couraças, pelas cateias e frankisks, eram, sem duvida, godos.»

«São as tiuphadias da Tingitania: são os soldados réprobos do conde de Septum, que Deus conduz aos desertos das Asturias para que os abutres e javalís tenham lauto banquete de cadaveres.»

Pelagio e o centenario voltaram-se: a voz que proferíra estas palavras soára atrás delles. Era o cavalleiro do escabello, que despertara ás primeiras palavras do capitão dos esculcas e que, firmados os cotovelos sobre os joelhos e com a cabeça entre os punhos, escutara todo o dialogo.

«Que?!—exclamou o mancebo—ainda ha pouco havieis cerrado as palpebras, e já despertastes, Eurico?»

«Duque de Cantabria, desde muito que o somno é sempre breve para mim: ha muito que nestas veias elle não derrama consolação nem frescor. Adormecido ou desperto, o meu espirito vê sempre ante si immutavel a realidade, e a realidade é medonha. Oxalá podesse esta alma dormir!»

«Bem o sei:—replicou o filho de Favila.—A imagem da patria, sancta e melancholica, se misturava sanguinolenta nos vossos sonhos do dormitar. Algumas palavras soltas que proferieis...»

«Ah!—interrompeu o cavalleiro, pondo-se em pé rapidamente, com um gesto d'espanto.—Eu falava?! Eram tão extravagantes os meus sonhos!... Que palavras me ouvistes? Delirios, loucuras!... Dizei; não é assim?»

E olhava inquieto para o mancebo, como se receiasse que um segredo importante lhe houvesse fugido dos labios.

«As vossas palavras eram quasi inintelligiveis—respondeu Pelagio.—Perdida para sempre; para sempre!—Eis o que repetieis muitas vezes; e depois:—Não resta uma esperança!... Oh, tão formosa e gentil!... Homem infame, que tinhas em mais o ouro que a virtude e a gloria, maldicto sejas tu!—E então os dentes vos rangiam, e, entreabrindo os olhos, o vosso aspecto era terrivel! Pensaveis, por certo, na Hespanha, na formosa terra dos godos, e a indignação vos arrancava maldicções contra Oppas, e contra os que venderam pelo ouro dos arabes as aras de Christo e a liberdade de seus irmãos. Enganaram-vos, porém, os sonhos, cavalleiro! A esperança resta ainda, e a Hespanha não se perdeu para sempre! Vós mesmo agora o dissestes. Abundante cevo de cadaveres humanos vão ter os abutres e os javalís das montanhas.»

«Tendes razão!—replicou o guerreiro, deixando-se cahir de novo sobre o escabello e voltando á postura anterior.—Os meus labios mentiram ao coração, se disseram que para a Hespanha não havia esperança. Mas a mentir não tornarão elles, porque estes olhos só hão-de cerrar-se, já agora, em somno bem profundo, no qual não haja sonhar! Depois dos combates é que se dorme bem placidamente! É então que eu dormirei.»

Era sinistro e lugubre e, todavia, tranquillo o modo com que elle o dizia. Pelagio, preoccupado pelas novas que o centenario trouxera, não reparou no sorriso doloroso que enrugava as faces de Eurico e, voltando-se para Vellido, proseguiu:

«Oh! Abdulaziz busca a ultima guarida dos christãos,

da Hespanha: persegue-nos como a besta-feras?... Pois bem! Vai, e dize aos nossos cavalleiros que antes de romper a manhan estejam a cavallo com a lança em punho promptos a marcharem para a entrada do valle. Os fundeiros e mais buccellarios de pé que se preparem para subir aos pincaros sobranceiros por ambos os lados do arraial. Dize-lhes, tambem, a uns e a outros, que sem demora eu serei com elles.»

O centenario saiu.

Pelagio chegou-se então aos que dormiam e, despertando-os um a um, fe-los approximar da boca da gruta:

«Vedes vós a estrella matutina que empallidece?—disse, apontando para um breve espaço do firmamento, onde, atravez do portal irregular, se via fulgir o planeta Venus.—Não tarda muito que ella desappareça mergulhada na vermelhidão da aurora. Essa vermelhidão tingirá em breve o céu, como o sangue ha-de hoje tingir a terra: mas confio em Deus que, tambem, como após ella ha-de surgir o sol envolto no seu fulgor glorioso, assim a cruz e o nome dos godos se alevantarão triumphantes, após o sangue vertido por esses dous objectos sanctos e queridos, que nos tem alimentado a energia da alma no meio dos trabalhos e perigos. Guerreiros! os arabes seguiram as vossas pisadas. Abdulaziz e Juliano, um insensato e um renegado, ousaram approximar-se ao antro dos leões d'Hespanha, e os leões hão-de despedaçá-los. O céu condemnou-os: diz-me íntima voz que elle os condemnou, inspirando-me um estratagema a que os infiéis não poderão resistir.»

No gesto de Pelagio, ao proferir estas palavras, estava estampada a expressão da confiança, do esforço e do enthusiasmo; daquelle enthusiasmo que elle sabía communicar aos que o ouviam e que, na situação quasi desesperada em que se achavam os foragidos das Asturias, fizera com que lhe cedessem voluntariamente o mando supremo os mais velhos e experimentados guerreiros.

Pelagio expôs em breves palavras os seus desenhos para obter dos arabes um triumpho completo. O caminho que seguiam devia forçosamente trazê-los ás gargantas das serras. Collocados na entrada do valle, uma parte dos cavalleiros offerecer-lhes-hiam debil resistencia, cedendo pouco a pouco e retirando-se para o topo daquella especie de caldeira cortada nas montanhas: apenas ahi chegados, abandonando os ginetes, precipitar-se-hiam para a caverna, aonde já se teriam acolhido as mulheres, creanças e velhos dispersos pelas tendas do campo, e em cujo estreito e escarpado portal poucos pelejadores bastavam para resistir á multidão dos inimigos. Então o grosso dos cavalleiros, em cilada nas selvas que se dilatavam para as alturas, á esquerda das gargantas do valle, acommette-los-hiam pelas costas, emquanto os buccellarios, sumidos pelas penedias, lá no alto dos barrocaes que formavam como um muro de ambos os lados do arraial, fariam chover sobre os infiéis as armas de arremesso, sem que a estes fosse possivel repelli-los, ignorando os caminhos que conduziam áquelles logares, na apparencia só accessiveis ás aguias e aos abutres, que alli tinham, de feito, a sua guarida solitaria.

«Mas a vós, cavalleiros—concluia Pelagio—que provastes extremos de esforço na correria a que devo a salvação de minha pobre irman, a vós pertence o acabar a victoria que o Senhor nos vai dar. Ha mais de um anno que as nossas mãos se tem callejado a alluir os penhascos que coroam o tecto desta caverna; ha mais de um anno que raro dia se passa sem que o suor das nossas frontes os humedeça, ao tombarmo-los lentamente para a borda do despenhadeiro que se eleva a prumo sobre o ádito deste recincto. Ahi, acompanhados dos meus robustos cantabros e dos selvagens do Herminio, será o vosso pelejar: ahi, quando os inimigos, apinhados ante aquelle portal, se arremessarem contra os guerreiros que o hão-de defender; quando as trombetas dos que os ferirem pelas costas soarem uma toada de morte, e os invisiveis buccellarios fizerem chover sobre os infiéis os tiros de funda, as settas e os dardos, cumpre que esses rochedos que, lá no cimo, parecem embebidos na penedia, cáiam rapidamente e esmaguem os esquadrões cerrados dos inimigos da Hespanha. Pelo caminho talhado na rocha sobre as nascentes subterraneas do Deva, ireis assentar-vos no cume do Auseba, e o anjo do exterminio pairará juncto de vós: sereis a intelligencia que guie o duro braço dos cantabros e dos lusitanos para lhes dirigir os golpes, para os reter quando, rareiados, confundidos, esmagados os troços da serpente maldicta que ousa colleiar juncto de Covadonga, nós podermos arremessar-nos ao meio delles e fazer cahir sobre a cabeça dos pagãos os golpes dos nossos frankisks, não menos destruidores que os rochedos despenhados.

«Como assim?!—replicou Sancion, que por vezes estivera a ponto d'interromper o mancebo.—Nós, próceres e gardingos, nós que meneiamos a facha e a espada; nós que trajamos o ferro, combateremos, como os servos e vís, de longe e sem risco? Nós, que por tantas milhas através das serras démos as costas aos infiéis, não poderemos, embebendo-lhes as espadas no peito, dizer-lhes emfim:—Eis-nos aqui?...—Pelagio, isso é impossivel!»

«Impossivel!—repetiram todos os outros cavalleiros apinhados ao redor de Sancion.

«Impossivel é—interrompeu o duque de Cantabria com gesto severo—que haja guerreiros christãos que recusem obedecer-me, no momento em que se tracta, não de ambições de gloria, mas da redempção da Hespanha. Cavalleiros, o esforço de vossos corações vos engana! Exhaustos pela correria da proxima noite, os braços vos desmentiriam o animo, e eu não consentirei jámais um sacrificio inutil, quando de outro modo podeis contribuir para salvarmos as Asturias. Gutislo!—clamou elle approximando-se da boca da caverna—dize aos teus irmãos do Herminio que venham aqui e ao quingentario da minha tiuphadia que vos siga com os soldados cantabros. Sancion, Gudesteu, Astrimiro, Énecon, vós todos que me cercaes, eis alli o vosso caminho! Parti.»

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