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Eurico, o presbytero

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E apontava para um lado da gruta, onde quem chegava ao perto via, lá em cima, o céu estrellado, por uma especie de claraboia natural, e, quasi debaixo dos pés, um como sorvedouro escuro, em cujas profundezas se percebia o ruído das nascentes do Deva. Na circumferencia daquelle abysmo, desde o chão da caverna, os foragidos, aproveitando as escabrosidades das paredes circulares, tinham formado uma escada tosca, ora cavada na pedra, ora firmada sobre troncos de arvores fixos nas fendas e cavidades da rocha, e que, lançada em espiral, saía perto do cimo calvo do Auseba. Assim, quando o valle fosse occupado dos sarracenos, os christãos poderiam defender-se por largo tempo, obtendo por esse caminho occulto os soccorros dos montanheses.

Entre os cavalleiros a quem Pelagio dirigíra aquellas palavras houve alguns instantes de hesitação, e um murmurio de descontentamento; mas, por fim, Sancion, pegando em um dos fachos, encaminhou-se para a escada subterranea, e os outros seguiram-no. Os quasi selvagens filhos do Munda, vestidos de pelles de alimarias, e os cantabros, cujas feições e trajos tambem revelavam a sua origem celtica, não tardaram a entrar na caverna. Pelagio então lhes ordenou obedecessem aos guerreiros que os haviam precedido, e em breve o som das passadas daquelle tropel desordenado, alongando-se pelo abysmo, morreu em silencio total.

Eurico parecia indifferente ao que se passava ao pé delle, assentado no escabello e com os olhos cravados no cepo candente que se consumia no afumado lar. Pelagio voltou-se para elle, e disse-lhe:

«Vós, Eurico, ficareis aqui: vós que salvastes minha irman, sereis o seu guardador. Quem melhor vigiaria por Hermengarda do que esse homem que nella tem um testemunho perenne do mais indizivel esforço, da mais pura e generosa lealdade? Desejaria ver juncto de mim no combate o melhor guerreiro da Hespanha: ter-vo-lo-hia, até, pedido quando o mysterio em que vos involvieis nos fazia suspeitar a todos que vós, o cavalleiro negro, ereis um ente privilegiado e não um mortal como nós. Agora, porém, depois que no trance horroroso das margens do Sallia nos revelastes quem sois, quando, resolvido a morrer, pedieis apenas algumas lagrymas para a vossa memoria áquelles que vos sobreviviam, pedir-vos-hei eu, tambem, que não queiraes encontrar o primeiro impeto dos sarracenos. Se na defensão desta nossa triste morada, aonde cumpre attrahi-los, for necessario o auxilio do vencedor dos vasconios, do mais illustre dos tiuphados de Witiza, ou se a colera de Deus ainda não está satisfeita, e devem hoje perecer os ultimos homens livres da Hespanha, vireis vós morrer comnosco. Entretanto, continuae a ser o anjo da guarda da pobre filha de Favila. Ella parece mais tranquilla, e o monge Bacchiario, em cuja sciencia tem achado allivio tantos de nossos irmãos, recommendou o repouso como o melhor remedio para a febre que a devora. Retardarei quanto podér o instante de se acolherem aqui as mulheres, as creanças e os velhos inuteis para o combate. Fazei, entretanto, que nestes logares reine profundo silencio.»

Silencio guardava o cavalleiro: no seu olhar incerto e scintillante descobria-se que lá, naquella alma, tumultuavam paixões violentas e oppostas. Não respondeu; nem Pelagio lhe dera para isso tempo. Crendo ler no seu gesto perturbado a mesma repugnancia que tinham mostrado os outros guerreiros em não assistir ao primeiro recontro dos infiéis, o duque de Cantabria atravessou apressado a boca da gruta e desceu a senda tortuosa que conduzia ao fundo do valle. D'ahi a pouco, sentiu-se o galopar de um cavallo á rédea solta, que se confundiu, por fim, no sussurro longinquo do arraial que se agitava, preparando-se para o temeroso dia que pouco tardaria a nascer.

Eurico estava, emfim, só.

XVIII IMPOSSIVEL!

Nada neste mundo me agita o seio, senão o teu amor. Lenda de S. Pedro Confessor—9.

Apenas Pelagio transpôs o escuro portal da gruta, Eurico alevantou-se. Aspirava com ancia, como se aquelle ambiente tepido não bastasse a saciá-lo. O desgraçado resumia n'um pensamento devorador, n'uma synthese atroz, o seu longo e doloroso passado e o seu torvo e irremediavel futuro. Como voltara áquelle logar? Como, sem lhe vergarem os joelhos, tinha elle descido das alturas do Vinnio com Hermengarda nos braços? Que tempo durara essa carreira deliciosa e ao mesmo tempo infernal? Não o sabía. Imagens confusas de tudo isso eram apenas o que lhe restava,—do sol, que pouco a pouco lhe viera alumiar os passos, dos ribeiros que vadeiara, das penedias agras, dos recostos dos montes, das selvas que recuavam para trás delle, dos cabeços negros que, ás vezes, lhe parecera debruçarem-se no cimo dos despenhadeiros, como para o verem correr. No meio destas recordações incertas e materiaes outras passavam íntimas, ardentes, voluptuosas, negras, desesperadas. Por horas, que haviam sido para elle uma eternidade de ventura, o respirar daquella que amava como insensato se misturara com o seu alento; por horas sentira o ardor das faces della aquecer as suas, e o coração bater-lhe contra o seu coração. Depois, avultavam-lhe no espirito a imagem veneranda de Siseberto e o altar da sé d'Hispalis, juncto do qual vestira a pura stringe de sacerdote, e Carteia e o presbyterio e as noites de agonia volvidas nos ermos do Calpe. E tudo isto se contradizia, se repellia, se condemnava, o amor pelo sacerdocio, o sacerdocio pelo amor, o futuro pelo passado; e aquella alma, dilacerada no combate destes pensamentos, quasi cedia ao peso de tanta amargura.

Eurico deu alguns passos e encostou-se á boca da gruta; porque os membros exhaustos lhe fraqueiavam, apesar de que nem um momento o abandonasse a força da sua alma energica. A brisa frigidissima da madrugada consolava-o como ao febricitante a aragem de um sol-posto do outono. A seus pés estavam as trevas do valle, sobre a sua cabeça as solidões profundas e serenas do céu semeiado dos pontos rutilantes das estrellas e mal desbotado ao occidente pela ultima claridade da lua minguante que desapparecia. Era a imagem da sua vida. Serena e esperançosa, como o crepusculo do luar fugitivo, lhe fora a juventude. Desde que um amor desditoso o fizera alevantar uma barreira entre si e o ruído do mundo; desde que se votara ás solemnes tristezas da soledade e a derramar beneficios e consolações sobre a cabeça dos miseraveis e humildes; pela alta noite do seu viver muitas vezes fulgurara uma luz de alegria, como esses astros que brilham a espaços nos abysmos do firmamento: lá, ao menos, havia instantes em que se esquecia do seu destino. Mas, depois que o phrenesi das batalhas o arrastara; depois que trocara as harmonias das tempestades do Calpe e o rugido das vagas do Estreito pelo gemer de moribundos nos combates e pelo retinir dos golpes, nunca mais descera um raio de cima a alumiar-lhe o espirito. O seu presente e o seu porvir eram, como esse valle, um precipicio sem fundo, indelineavel, tenebroso e maldicto.

E pelo céu tão placido e melancholico; pelo céu, que elle ás vezes se punha a contemplar ás horas mortas no pobre presbyterio de Carteia ou assentado em algum promontorio, a sua imaginação voou até os desvios do sul, e as lagrymas de saudade começaram a rolar-lhe mansamente pelas faces. O desventurado tinha saudades das tristezas do ermo, porque já não podia ter desejos dos contentamentos humanos.

Engolfado naquellas cogitações dolorosas, o guerreiro conservou-se por algum tempo immovel e com os olhos cravados nos astros scintillantes, que pareciam sorrir-lhe e chamá-lo para o seio immenso do Senhor. As lagrymas correram-lhe então mais abundantes, e o coração parecia dilatar-se-lhe com o pensamento da morte. Insensivelmente ajoelhou e estendeu as mãos para o firmamento: os seus labios murmuravam com cicío quasi imperceptivel. Era a oração d'alma, férvida, procellosa, que os agitava: era essa oração que todos nós sabemos no momento de suprema agonia e que nenhumas palavras, nenhuma escriptura poderiam representar; oração que é um mysterio entre Deus e o homem e que nem os anjos comprehendem; gemido energico de todas as miserias terrenas, cuja intensidade só a providencia, que as accumula ou dissipa, sabe pesar nas balanças da justiça e da piedade divinas.

A morte; esta idéa, tremenda, indifferente ou formosa, segundo a vida é risonha, pallida ou negra, veio suavisar o martyrio daquella alma attribulada, como em estio ardente as grossas aguas da trovoada refrigeram a terra, que estûa sob os raios aprumados do sol. Tinha-a buscado; buscado com a placidez horrivel da desesperança; como um remedio de cuja efficacia a consciencia da immortalidade o fazia duvidar. Sería não mais do que ir deitar-se em leito de dores eternas? Talvez: mas a mudança podia ser refrigerio: tanto bastava. A morte parecia, comtudo, fugir delle para que nem este ultimo desejo se lhe cumprisse. Houve um instante em que lhe occorreu o pensamento de subir ao pinaculo escarpado do Auseba e despenhar-se no valle. Refugiu d'esta idéa, porque era covarde. Eurico, o sacerdote soldado, não devia fenecer impia e vilmente; devia depôr o peso intoleravel da vida no campo das batalhas pelejadas em nome da cruz e da Hespanha. E no recontro daquelle dia, uma voz íntima lhe murmurava que o havia de obter.

Este anhelar pela morte era uma bem triste cubiça! E quando se lembrava de que essa mulher que ahi jazia a poucos passos delle; essa mulher, em cuja adoração concentrara todos os affectos dos mais formosos dias da vida; cuja imagem sonhada nas solidões do Calpe, desenhada de contínuo diante dos olhos da sua alma, gravada como um sello de saudade e de amargura em todas as suas cogitações; essa mulher que, pouco havia, por horas de delicioso delirio, apertara contra o peito, e o podera, outr'ora, tornar o mais feliz dos homens; quando se lembrava de que sobre isso tudo elle deixara cahir a campa de bronze do sacerdocio, que ninguem podia erguer, o desgraçado sentia estalarem-lhe uma a uma todas as fibras do coração, e fugir-lhe do seio um grito semelhante ao que rebenta dos labios do condemnado ao supplicio do potro, no primeiro movimento da mão pesada do algoz.

E, como se quizesse ainda mais saciar-se de dor, encaminhou-se para o lado onde Hermengarda repousava. Ao clarão da tocha que espargia uma luz mortiça, o guerreiro contemplou-a naquelle inquieto dormir. Era bella; mais bella que nos tempos da primeira mocidade! O seu gesto angelico, desbotado pela pallidez, emmagrecido pelos pesares e terrores, ganhara em expressão, em reflexo dos íntimos pensamentos o que perdera em viço e em toques d'innocencia. Bonina desabrochada nos campos da vida, brilhara com todas as pompas do seu vecejar á luz da manhan; o ardor intenso do meio-dia a fizera pender; a viração da tarde lhe traria, talvez, ainda frescor e viveza; mas a sua fragrancia perdia-se nas auras que passavam; nas suas côres harmoniosas revia-se, apenas, o céu! Aquella alma fugia solitaria pela terra n'um viver incompleto e volveria aos abysmos da creação sem conhecer o mais profundo e energico dos affectos humanos, o amor, que une dous espiritos como dous fragmentos de um todo, os quaes a providencia separou ao lançá-los na terra, e que devem buscar-se, unir-se, completar-se, até irem, depois da morte, formar, talvez, uma só existencia de anjo no seio de Deus.

Mas quando Eurico se lembrou de que, porventura, isto era um sonho; de que podia ser que essa alma não passasse na vida tão vazia e solitaria como elle julgava, e que esse coração que poucas horas antes pulsára tão perto do seu batia, acaso, por outrem, sentiu o suor frio manar-lhe da fronte. A tocha baça e funebre que mal alumiava a irman de Pelagio pareceu-lhe retincta em sangue; e, como o cedro arrancado por tufão repentino, foi encostar-se á rocha lateral, cuja superficie irregular lhe escondia Hermengarda. O vê-la despertara todo o delirio do seu primeiro amor, e aquella idéa intoleravel, que tantas vezes o atormentara nas solidões do Calpe, espremia-lhe agora o coração com redobrado furor.

E assim ficou por alguns momentos mudo, anhelante, anniquilado. Quem era, onde estava, porque viera alli, não o saberia dizer: os pensamentos revolviam-se-lhe na mente, como as ondas n'um sorvedouro maritimo, tempestuosos, rapidos e indistinctos.

De repente, um ai comprimido veio acordá-lo daquella especie de torpor doloroso. Estremeceu. Era a voz de Hermengarda. Approximou-se manso e manso, de modo que ella o não visse. Assentada sobre o leito, demudado o gesto, e com o susto pintado no olhar, a irman de Pelagio estendia os braços, voltando o rosto para o lado, como quem tentava affastar visão medonha. Pelas suas palavras incoherentes e truncadas, o guerreiro conheceu que um sonho máu a agitava, até que, inteiramente desperta, essas palavras confusas se começaram a coordenar em periodos intelligiveis. O pulsar do coração d'Eurico redobrava de violencia, ao passo que o seu respirar se ia tornando cada vez mais imperceptivel.

«Sempre elle! sempre esta visão de remorso!—murmurou Hermengarda.—Meu pae, meu pae! Perdoe-te o céu o orgulho com que repelliste o gardingo... Perdoe-te o céu o haveres-me obrigado a sacrificar aos pés desse orgulho o sentimento de amor que se alevantara neste coração. Nós ambos assassinámos o desgraçado; mas a punição cahiu inteira sobre mim! Embora. Eu não te amaldicçoarei, oh meu pae! A tua filha nunca te accusará ante o supremo juiz.»

Depois, ficou por alguns instantes calada, com os olhos fitos no rochedo fronteiro, em cuja face escabrosa as sombras pareciam dançar e agitar-se á luz da tocha que ardia a curta distancia, e que a aragem movia. Crera perceber perto de si um gemido abafado, cortando fugitivo o grande silencio nocturno.

«Vai-te, vai-te!—proseguiu ella.—Que posso eu fazer-te, infeliz?... Bem longo e atroz tem sido o meu martyrio, porque ainda não achei no mundo alma com quem me fosse dado repartir o calis do infortunio; a quem houvesse de contar os tormentos que ha tanto tempo me varreram dos labios o sorrir. Se vivesses, sería tua; tua esposa, tua escrava!... mas a benção nupcial não póde descer entre o tumulo e a vida. Favila!... meu pae!... diante do throno do Senhor, onde são iguaes o duque e o gardingo, jura-lhe que tua filha repelliu o seu amor por obedecer-te: dize-lhe que o pranto correu destes olhos ao ouvir a nova da sua morte. Oh, dize-lhe, dize-lhe que não fui eu que o assassinei!»

E aqui, deixando pender a cabeça sobre o peito, pareceu voltar ao sentimento da realidade; mas aquella especie de terror febril que lhe haviam gerado no espirito os trances, qual mais doloroso, por que successivamente passara, se tornou a apossar della. Favoreciam-no o logar, a hora, o silencio. Hermengarda alevantou de novo os olhos desvairados e, firmando-se no rochedo, tentava erguer-se.

«Era Eurico!—murmurou ella.—Depois de dez annos, bem conheci a sua voz! Mais triste, só: triste, como tantas vezes a tenho ouvido nos meus sonhos de remorsos! Bem conheci o seu gesto! Mais pallido e carregado, só: pallido e carregado, como tantas vezes tem surgido do sepulchro para vir mudamente accusar-me, silencioso e quedo ante mim, por longas e não dormidas noites. Era elle!... um espectro cujo coração eu sentia bater, cujos braços me apertaram por cima do abysmo revolto, através da floresta, pelos recostos das serranias. Dos seus olhos cahiu sobre o meu seio uma lagryma! As lagrymas dos mortos queimam... devoram a vida; porque bem sinto a morte chamar-me...»

Tinha-se posto de joelhos e, com as mãos estendidas, parecia implorar piedade.

«Morrer! tão cedo! Quando apenas tórno a vêr meu irmão?!... Pelagio! Pelagio! porque me deixaste? Vem despedir-te da tua pobre Hermengarda. Eurico a espera para o noivado do sepulchro, e eu não posso tardar.»

E desvairada, poz-se em pé, chamando por Pelagio com voz suffocada. Apenas, porém, dera os primeiros passos, soltou um gemido agudo e ficou immovel. Diante della, realidade ou phantasma, estava a origem dos seus terrores secretos. Era o gardingo que a amara, que ella cria morto, e cuja imagem vingadora vinha mais uma vez atormentá-la. O vulto cravara nella um olhar ardente, que a fascinava. Sorriso doloroso lhe pousava nos labios. Estendeu o braço, segurando a mão de Hermengarda, que pretendeu recuar e não pôde. Como petrificada, parecia que os pés se lhe haviam enraizado no chão da caverna. Aquella mão, que segurava a sua escaldando de febre, era gelada como a de um morto. A vida do gardingo tinha-se concentrado toda no coração, que lhe despedaçavam duas idéas, horriveis porque associadas: o amor correspondido e tornado ao mesmo tempo maldicto, monstruoso, impossivel por uma palavra fatal, que lá estava escripta em caracteres de fogo, e que elle via, escutava, sentia—o sacerdocio!

«Oh, Deus t'o pague!—disse Eurico em voz baixa e lenta—que lançaste na tão longa noite da minha alma um raio fugitivo de luz, luz sancta e pura de contentamento e felicidade!... Ha dez annos que não me alumia, e ella é tão bella, ainda quando passa como o relampago!»—E, depois de estar calado alguns instantes, com um gesto de íntimo e angustiado cogitar, proseguiu:—Não, Hermengarda, não! Os vermes ainda não receberam a parte da sua herança que eu lhes retenho. Morri; porém não para isso que, na linguagem mentirosa do mundo, se chama a vida. Durante annos dei-a a devorar á desesperação, e a desesperação não pôde consummi-la. Pendurei-a alta noite, pela espessura das trevas, nas rochas escarpadas do mar do occidente, á beira dos precipicios, e o mar e os precipicios não quizeram tragá-la. Atirei-a á torrente impetuosa das batalhas, e o ferro embotou-se n'ella. O céu guardava-me para te ouvir palavras de amor e arrependimento; essas palavras de ineffavel doçura que nunca esperei escutar. É que na minha fronte está gravada a maldicção de cima: é que ainda me faltava o derradeiro martyrio... Ao menos posso acabar o teu: o pensá-lo é um refrigerio. Hermengarda, eu vivo ainda! Vivi para te salvar da deshonra, e todo o meu passado esqueci-o. Só uma cousa não, porque me subverteu para sempre o futuro; porque, depois de passageira alegria, me recalcou mais violentamente esperanças que ousaram um momento agitar-se no fundo desta alma, tranquilla na desesperança. Agora, se ha repouso debaixo da campa, posso ir buscar lá meu repouso. Mas dize-me; oh, dize-me, ainda outra vez, que amas Eurico! Repete diante do que respira aquillo que proferiste diante da sombra creada pelo teu terror. Essas palavras e o morrer!... O teu amor e a morte; eis para mim a unica ventura possivel, mas que não tem igual na terra.

E Hermengarda sentia ao contacto daquella mão fria e trémula apertando a sua, no accento dessas phrases, tempestuosas como o oceano, tristes como céu procelloso, que lá, no peito do vulto que tinha ante si, havia um coração de homem vivo, onde chaga antiga e cancerosa vertia ainda sangue. A especie de pesadelo em que se debatia desapparecera com a realidade. O repentino impulso da sua alma foi lançar-se nos braços de Eurico. Fora elle o objecto do seu quasi infantil e unico amor, amor condemnado ao silencio antes do primeiro suspiro, antes do primeiro volver d'olhos; era elle o cavalleiro negro, cujo nome se tornara conhecido e glorioso por todos os angulos da Hespanha; era elle, finalmente, o homem que duas vezes acabava de salva-la. Reteve-a, todavia, o pudor e, talvez, aquella mysteriosa tristeza que escurecia as idéas desordenadas vindas de tropel aos labios do guerreiro. Procurando asserenar a violencia dos affectos que a agitavam, Hermengarda respondeu com voz fraca e tremula:

«Bemdicta a mão do Senhor, que te salvou, Eurico, leal e nobre entre os mais nobres e leaes filhos dos godos! Graças á piedade do céu, que por meio de tantas desventuras e perigos nos uniu nos paços que restam ao filho do duque de Cantabria! No devaneiar do terror revelei-te, sem querer, o segredo do meu coração: a sua historia, ouviste-a. Perdoa á memoria de meu pae, e, se de mim depende a tua felicidade, as palavras que me saíram involuntariamente da boca te asseguram que serás feliz. O orgulho que a ambos nos fez desgraçados não o herdou Pelagio. Que o herdasse, mal caberia n'estas brenhas, na caverna dos fugitivos. E depois, que nome ha hoje na Hespanha mais illustre que o do cavalleiro negro, o nome de Eurico? Morreres?!... Oh, não? Salvaste Hermengarda do opprobrio: se nunca te houvera amado, ella te diria como te diz hoje: Sou tua, Eurico!»

A filha de Favila, cujo profundo e energico sentir mal poderia comprehender quem só a houvera visto no momento em que timida recuava diante do perigo mais apparente que real das margens do Sallia, proferiu estas palavras com um tom de enthusiasmo, com uma expressão affectuosa tão íntima, que o guerreiro cahiu a seus pés. A ventura embargava-lhe a voz. O que lhe tumultuava no coração não tem nome na linguagem dos homens: era mais que a loucura. Com um movimento delirante, apertou contra os labios a mão da donzella. Queimavam! Depois de largo silencio, elle murmurou emfim:

«Minha!... Quem ha na terra que possa roubar-m'a?... Annos de tormentos, fostes como um dia de bonança e deleite! Imagem que absorveste esta existencia inteira; anjo que me fazes surgir do meu inferno para o teu céu, tu foste que me salvaste a mim! Oh, como é bom ser feliz!... Tinha-me já esquecido!... Como o sol deve agora ser bello, serena a aragem da tarde, meigo o murmurar do ribeiro, viçosa a verdura do prado!... Tinha-me tambem esquecido! Tens razão, Hermengarda. Quero viver: o viver é delicioso; delicioso, porque será comtigo... ao pé de ti... a adorar-te sempre, sem me lembrar do que existe, além de ti, no universo. Vem, minha amante, minha esposa! vem jurar que me pertences, perante o altar e aos pés do sacerdote...»

A esta palavra fatal, um grito semelhante ao de homem ferido de morte, rompeu agudo e rapido do seio do cavalleiro. A mão d'Eurico abandonou a mão d'Hermengarda, e os seus olhos brilharam com fulgor infernal. Recuou, affastando de si a irman de Pelagio, sobresaltada por aquelle gesto subitamente demudado, por aquelle olhar ardente e vago. Ella não podia comprehender a causa de semelhante mudança... Com o braço esquerdo estendido, o guerreiro parecia querer arredá-la de si, emquanto com a mão confrangida apertava a fronte, como se buscasse esmagar um pensamento atroz que lhe surgia lá dentro.

«Affasta-te, mulher, que o teu amor me perdeu!—murmurou emfim.—Ha entre nós um abysmo: tu o abriste; eu precipitei-me nelle. Um crime, só um crime, póde unir-nos...» Fez uma pausa, e proseguiu:—E porque não se commetterá elle? Talvez obtivessemos perdão!... Perdão? Oh meu Deus, não o terias para o sacrilego... não!—Affasta-te, Hermengarda. Diante de ti tens um desgraçado, um desgraçado que fizeste!»

A donzella uniu as mãos lavada em lagrymas, e exclamou:

«Eurico! Eurico! enlouqueceste?... Por piedade, explica-me este horroroso mysterio! Porque me repelles? que te fiz eu... eu que te amo, que sou tua, tua para sempre?!»

Mas os olhos scintillantes do cavalleiro tinham amortecido: derribado na lucta que travara com o destino, o seu combater de tantos annos terminava, finalmente. Um sorriso insensato substituiu-lhe no rosto as contracções habituaes de melancholia. Affigurava-se-lhe que em roda delle balouçava a caverna, e a luz fumosa da tocha que ardia segura no braço de ferro cravado na pedra parecia-lhe faiscar em fitas cor de sangue. Esvaído, vacillante, assentou-se n'um fragmento da rocha e, estendendo a mão para Hermengarda, pegou de novo na della e, com um sorriso indizivel, continuou em voz submissa:

«Dez annos!... Sabes tu, Hermengarda, o que é o passar dez annos amarrado ao proprio cadaver? Sabes tu o que são mil e mil noites consummidas a espreitar em horisonte illimitado a estrella polar da esperança e, quando, no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrella reluzir um instante e, depois, desfechar do céu nas profundezas do nada? Sabes o que é caminhar sobre silvados pelo caminho da vida e achar ao cabo, em vez do marco milliario onde o peregrino dê treguas aos pés rasgados e sanguentos, a borda de um despenhadeiro, no qual é força precipitar-se? Sabes o que isto é? É a minha triste historia! Estrella momentanea que me illuminaste, cahiste no abysmo! Arbusto que me retiveste um instante, a minha mão desfalecida abandonou-te, e eu despenhei-me! Oh, quanto o meu fado foi negro!»

Hermengarda contemplava-o com assombro e terror... Como o entenderia ella? Eurico proseguiu:

«Olha tu! Ao pôr do sol, no estio, ía eu assentar-me sobre um cerro maritimo, alongando a vista pelo oceano tranquillo, e parecia-me divisar-te desenhada na atmosphera a sorrir-me. Então, as lagrymas de felicidade começavam a brotar-me dos olhos: depois, lembrava-me de quem eu era, e essas lagrymas condensavam-se a meio das faces e queimavam como se fossem de metal candente. A horas mortas, correndo pelos desvios, quando o vento açoutava os arbustos enfezados da montanha, cada sombra que se meneiava ao luar, sobre o chão pardacento, era a tua sombra que eu via. Outras noites, em que mais tranquillo podia, a sós comigo, engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a lampada mortiça que me alumiava, e o hymno do Presbytero de Carteia, que devia, talvez, escrever-se nos hymnarios das cathedraes da Hespanha, ficava incompleto ou terminava por uma blasphemia; porque, tambem, te via sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu tinha então sede... sede de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da lua e, até, na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim impossivel!»

«Mas deliras!...—interrompeu Hermengarda.—Que tens tu com o Presbytero de Carteia; com esse illustre sacerdote, cujos hymnos sacros reboavam ainda ha pouco pelos templos da Hespanha, e a quem, de certo, o

ferro impio dos arabes

não respeitou? A tua gloria é outra e mais bella; a gloria de seres o vencedor dos vencedores da cruz. A sua era sancta e pacifica. Deus chamou-o para si, e tu vives para ser meu. Ninguem existe hoje no mundo que possa embaraçá-lo. Esquece o passado; esquece-o por amor de mim!»

O cavalleiro sorriu de novo dolorosamente, e disse-lhe:

«Que tenho eu com o Presbytero de Carteia?!... Hermengarda, lembras-te do seu nome?»

Os labios da donzella fizeram-se brancos ao ouvir esta pergunta: um pensamento monstruoso e incrivel lhe passara pelo espirito. Com voz affogada e quasi imperceptivel replicou:

«Era.... era o teu, Eurico!... Mas que póde haver commum entre o guerreiro e o sacerdote? Que importa um nome... uma palavra?.... que...»

O cavalleiro pôs-se em pé e, deixando descahir os braços e pender o rosto sobre o peito, murmurou:

«Ha commum, que o guerreiro e o presbytero são um desgraçado só!... Importa, que esse desgraçado é neste momento um sacerdote sacrilego. O pastor de Carteia...»

«Oh não acabes!—interrompeu Hermengarda, com indizivel afflicção.

«Era Eurico, o gardingo!»

Proferindo estas palavras, que explicavam o mysterio da sua existencia, o cavalleiro negro viu cahir como fulminada a filha de Favila. E elle não se moveu. A sua imaginação tresvariada affigurou-lhe perto de si o vulto suave e triste do veneravel Siseberto, que estendia a mão mirrada entre ambos, como para os dividir em nome da religião, que os devia salvar, e do sepulchro, a quem pertenciam.

Neste momento uma grande multidão de creanças, de velhos, de mulheres penetraram na caverna com gritos e chóros de terror. No coração das Asturias, entre alcantis intractaveis, no fundo de um vasto deserto, repetia-se o grito que mil vezes tinha soado na devastada Hespanha: «Os arabes!»

Amanhecera.

Aquelle sobresalto, tão impensado, revocou o cavalleiro ao sentimento da sua situação. Ajoelhou juncto de Hermengarda e, pegando-lhe na mão já fria, beijou-lh'a. Nas raias da vida, aquelle beijo, primeiro e ultimo, era purificado pelo halito da morte que se approximava: era innocente e sancto, como o de dous cherubins ao dizer-lhes o Creador: «existí!»

Depois ergueu-se, vestiu a sua negra armadura, cingiu a espada, lançou mão do frankisk e, rompendo por entre o tropel, que fizera silencio ao vê-lo, desappareceu através da porta da gruta, cujas rochas tingia cor de sangue a dourada vermelhidão da aurora.

XIX CONCLUSÃO

Da morte ás trévas,

Immortal, te diriges!

Merobaude

:

Poema de Christo

.

A ventura das armas mosselemanas tinha chegado ao apogeu, e a sua declinação começava, finalmente. E na verdade, a ira celeste contra os godos parecia dever estar satisfeita. O solo da Hespanha era como uma ara immensa, onde as chammas das cidades incendiadas serviam de fogo sagrado para consummir aos milhares as victimas humanas. O silencio do desalento reinava por toda a parte, e os christãos viam com apparente indifferença os seus vencedores polluirem as ultimas cousas que, até sem esperança, ainda defende uma nação conquistada—as mulheres e os templos. Theodemiro pagava bem caro o procedimento que o desejo de salvar os seus subditos o movera a seguir. O pacto feito por elle com os arabes não tardou a ser por mil modos violado, e o illustre guerreiro teve de se arrepender, mas já debalde, por haver deposto a espada aos pés dos infiéis, em vez de pelejar até a morte pela liberdade. Fora isto o que Pelagio preferira, e a victoria coroou o seu confiar no esforço dos verdadeiros godos e na piedade de Deus.

Os que tem lido a historia daquella epocha sabem que a batalha de Cangas de Onis foi o primeiro élo dessa cadeia de combates que, prolongando-se através de quasi oito seculos, fez recuar o koran para as praias d'Africa e restituiu ao evangelho esta boa terra d'Hespanha, terra, mais que nenhuma, de martyres. Na batalha de juncto do Auseba foram vingados os valentes que pereceram nas margens do Chryssus; porque mais de vinte mil sarracenos viram pela ultima vez a luz do sol naquellas tristes solidões. Mas, nesse dia da punição, esta devia abranger assim os infiéis, como os que lhes haviam vendido a patria e que ainda vinham disputar a seus irmãos a dura liberdade de que gosavam nas brenhas intractaveis das Asturias.

O ardil de Pelagio para resistir com vantagem aos mosselemanos, cem vezes mais numerosos que os christãos, surtira o desejado effeito. Ainda que muito a custo, os cavalleiros enviados em cilada para a floresta á esquerda das gargantas de Covadonga poderam chegar ahi sem serem sentidos dos arabes, que se haviam approximado mais cedo do que o fizera crer a narração do velho Vellido. Os infiéis pararam nas bordas do Deva, no sitio em que rompia do valle, e os seus almogaures tinham ousado penetrar ávante. Os cavalleiros da cilada, que a pouca distancia passavam manso e manso, ouviram distinctamente o tropeiar dos ginetes inimigos.

Mas, quando, ao primeiro alvor da manhan, Pelagio se encaminhava com o seu pequeno esquadrão para a garganta das serras, já os arabes rompiam por ella e começavam a espraiar-se, como ribeira que, saindo de leito apertado, se dilata pela campina. Os christãos recuaram, e os infiéis, attribuindo ao temor esta fuga simulada, precipitaram-se após elles. Pouco a pouco, o duque de Cantabria attrahiu-os para a entrada da gruta de Covadonga. Chegado alli, pondo á boca a sua buzina, tirou um som prolongado. Immediatamente os cimos dos rochedos, que pareciam inaccessiveis, cubriram-se de fundibularios e frecheiros, e uma nuvem de tiros choveu de toda a parte sobre os africanos e sobre os renegados godos. Vacillaram; mas o desejo da vingança levou-os a apinharem-se, esquadrões após esquadrões, á entrada da caverna, onde, finalmente, encontravam desesperada resistencia. Então, como se despegassem do céu, grandes rochedos começaram a rolar sobre elles dos cimos do precipicio que lhes ficava sobranceiro. Mãos invisiveis os impelliam. Cada rocha traçava no meio daquelle vulto informe que oscillava, naquella vasta planicie de alvos turbantes e de capacetes reluzentes, uma escura mancha, semelhante a chaga horrivel. Eram dez ou vinte guerreiros, cujos membros esmagados, cujos ossos triturados, cujo sangue confundido espirravam por cima das frontes dos seus companheiros. Era medonho!—porque a esse espectaculo se ajunctava o grito de raiva e desesperação dos pelejadores, grito feroz e agudo, só comparavel ao bramido de cem leoas a quem os caçadores do Atlas houvessem, na ausencia dellas, roubado os seus cachorrinhos.

Pela volta da tarde, apenas do numeroso e brilhante exercito dos arabes alguns milhares de cavalleiros fugiam desalentados diante dos foragidos das Asturias, que os perseguiam incansaveis além de Cangas de Onis.

Fora no momento em que Pelagio penetrava, na sua fingida fuga, sob o vasto portal da gruta que o cavalleiro negro saía. O joven guerreiro viu-o e estremeceu. Eurico tinha as faces encovadas, o rosto pallido e transtornado, e havia em todo o seu gesto uma tão singular expressão de tranquillidade que fazia terror. Emquanto os christãos defendiam a entrada elle esteve quedo, como indifferente ao combate; mas, logo que os arabes, acommettidos já pelas costas, principiaram a recuar, e que Pelagio pôde combater na planicie, o cavalleiro, abrindo caminho com o frankisk, desappareceu no meio dos inimigos. Desde esse momento, debalde o duque de Cantabria o buscou: nem elle, nem ninguem mais o viu.

Era quasi ao pôr do sol. Seguindo a corrente do Deva, a pouco mais de duas milhas das encostas do Auseba, dilatava-se nessa epocha denso bosque de carvalhos, no meio do qual se abria vasta clareira, onde sobre dous rochedos aprumados assentava um terceiro. Era, provavelmente, uma ara celtica. Em frente de tosca ponte de pedras brutas lançada sobre o rio, uma senda estreita e tortuosa atravessava a selva e, passando pela clareira, continuava por meio dos outeiros vizinhos, dirigindo-se, nas suas mil voltas, para as bandas da Gallecia. Quatro cavalleiros, a pé e em fio, caminhavam por aquelle apertado carreiro. Pelos trajos e armas, conhecia-se que eram tres christãos e um sarraceno. Chegados á clareira, este parou de repente e, voltando-se com aspecto carregado para um dos tres, disse-lhe:

«Nazareno, offereceste-nos a salvação, se te seguissemos: fiámo-nos em ti, porque não precisavas de trahir-nos. Estavamos nas mãos dos soldados de Pelagio, e foi a um aceno teu que elles cessaram de perseguir-nos. Porém o silencio tenaz que tens guardado gera em mim graves suspeitas. Quem és tu? Cumpre que sejas sincero, como nós. Sabe que tens diante de ti Mugueiz, o amir da cavallaria arabe, Juliano, o conde de Septum e Oppas, o bispo d'Hispalis.»

«Sabía-o:—respondeu o cavalleiro—por isso vos trouxe aqui. Queres saber quem sou? Um soldado e um sacerdote do Christo!»

«Aqui!?... atalhou o amir, levando a mão ao punho da espada e lançando os olhos em roda. Para que fim?»

«A ti, que não eras nosso irmão pelo berço; que tens combatido lealmente comnosco, inimigos da tua fé; a ti que nos opprimes, porque nos venceste com esforço e á luz do dia, foi para te ensinar um caminho que te conduza em salvo ás tendas dos teus soldados. É por alli!... A estes, que venderam a terra da patria, que cuspiram no altar do seu Deus, sem ousarem francamente renegá-lo, que ganharam nas trevas a victoria maldicta da sua perfidia, é para lhes ensinar o caminho do inferno... Ide, miseraveis, segui-o!»

E quasi a um tempo dous pesados golpes de frankisk assignalaram profundamente os elmos de Oppas e Juliano. No mesmo momento mais tres ferros reluziram.

Um contra tres!—Era um combate calado e temeroso. O cavalleiro da cruz parecia desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos dous godos.

.

Então, recuando, o guerreiro christão exclamou:

«Meu Deus! Meu Deus!—Possa o sangue do martyr remir o crime do Presbytero!»

E, largando o frankisk, levou as mãos ao capacete de bronze e arrojou-o para longe de si.

Mugueiz, cego de colera, vibrara a espada: o craneo do seu adversario rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno.

Como tomba o abeto solitario da encosta ao passar do furacão, assim o guerreiro mysterioso do Chryssus cahia para não mais se erguer!...

Nessa noite, quando Pelagio voltou á caverna, Hermengarda, deitada sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo-a tranquilla, o mancebo adormeceu, tambem, perto della, sobre o duro pavimento da gruta. Ao romper da manhan, acordou ao som de cantico suavissimo. Era sua irman que cantava um dos hymnos sagrados que muitas vezes elle ouvira entoar na cathedral de Tárraco. Dizia-se que seu auctor fora um Presbytero da diocese de Hispalis, chamado Eurico.

Quando Hermengarda acabou de cantar ficou um momento pensando. Depois, repentinamente, soltou uma destas risadas que fazem erriçar os cabellos, tão tristes, soturnas e dolorosas são ellas: tão completamente exprimem irremediavel alienação d'espirito.

A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.

NOTAS

Pag. X

Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem isso me afflige demasiado. Sem ambicionar para elle a qualificação de poema em prosa—que não o é por certo—tambem vejo, como todos hão-de ver, que não é um romance historico, ao menos conforme o creou o modelo e a desesperação de todos os romancistas, o immortal Scott. Pretendendo fixar a acção que imaginei n'uma epocha de transição—a da morte do imperio gothico, e do nascimento das sociedades modernas da Peninsula, tive de luctar com a difficuldade de descrever successos e de retratar homens que, se, por um lado, pertenciam a eras que nas recordações da Hespanha tenho por analogas aos tempos heroicos da Grecia, precediam immediatamente, por outro, a epocha a que, em rigor, podemos chamar historica, ao menos em relação ao romance. Desde a primeira até a ultima pagina do meu pobre livro caminhei sempre por estrada duvidosa traçada em terreno movediço; se o fiz com passos firmes ou vacillantes, outros, que não eu, o dirão.

Conhecemos, talvez, a sociedade wisigothica melhor que a d'Oviedo e Leão, que a do nosso Portugal no primeiro periodo da sua existencia como individuo politico. Sabemos melhor quaes foram as instituições dos godos, as suas leis, os seus usos, a sua civilisação intellectual e material, do que sabemos o que era isso tudo em seculos mais proximos de nós. O esplendor dos paços, as formulas dos tribunaes, os ritos dos templos, a administração, a milicia, a propriedade, as relações civís são menos nebulosas e incertas para nós nas eras gothicas que durante o longo periodo da restauração christan. E, comtudo, o reproduzir a vida dessa sociedade, que nos legou tantos monumentos, com as fórmas do verdadeiro romance historico temo-lo por impossivel, ao passo que o representar a existencia dos homens do undecimo ou dos seguintes seculos será para o que os tiver estudado, não digo facil, mas, sem duvida, possivel.

Qual é a causa d'isto?

É que nós conhecemos a vida publica dos wisigodos e não a sua vida íntima, emquanto os seculos da Hespanha restaurada revelam-nos a segunda com mais individuação e verdade que a primeira. Dos godos restam-nos codigos, historia, litteratura, monumentos escriptos de todo o genero, mas os codigos e a litteratura são reflexos, mais ou menos pallidos, das leis e erudição do imperio romano, e a historia desconhece o povo. O gothicismo hespanhol, ao primeiro aspecto, parece mover-se. Palpamo-lo: é uma estatua de marmore, fria, immovel, hirta. As portas das habitações dos cidadãos cerram-nas os sete sellos do Apocalypse: são a campa da familia. A familia goda é para nós como se nunca existira.

Não cabe n'uma nota o fazer sentir esse não sei quê de magestade

esculptural

que conserva sempre a raça wisigothica, por mais que tentemos galvanisá-la, nem o contrapor-lhe as gerações nascidas durante a reacção contra o islamismo, que surgem e agitam-se e vivem quando lhes applicamos a corrente electrica e mysteriosa que, partindo da imaginação, vai despertar os tempos que foram do seu calado sepulchro.

Desta differença, que é mais facil sentir que definir, nasce a necessidade de estabelecer uma distincção nas fórmas litterarias applicadas ás diversas epochas da antiga Hespanha, a romano-germanica, e a moderna.

O periodo wisigothico deve ser para nós como os tempos homericos da Peninsula. Nos cantos do Presbytero tentei achar o pensamento e a cor que convem a semelhante assumpto, e em que cumpre predominem o estylo e fórmas da Biblia e do Edda—as tradições christans, e as tradições gothicas, que, partindo do oriente e do norte, vieram encontrar-se e completar-se, em relação á poesia da vída humana, no extremo occidente da Europa.

O romance historico, como o concebeu Walter Scott, só é possivel áquem do oitavo—talvez só áquem do decimo seculo; porque só áquem dessa data a vida da familia, o homem sinceramente homem, e não ensaiado e trajado para apparecer na praça publica, se nos vai pouco a pouco revelando. As fórmas e o estylo que convem aos tempos wisigothicos seriam, desde então, absurdos e, parece-me, até, que ridiculos.

A Hespanha romano-germanica transformou-se na Hespanha rigorosamente moderna no terrivel cadinho da conquista arabe. A obra litteraria (novella ou poema—verso ou prosa—que importa?) relativa a essa transição deve combinar as duas fórmulas—indicar as duas extremidades a que se prende; fazer sentir que o descendente de Theoderik ou de Leuwighild será o ascendente do Cid ou do lidador; que o heroe se vai transformar em cavalleiro; que o servo, entidade duvidosa entre homem e cousa, começa a converter-se em altivo e irrequieto burguez.

E a fórma e o estylo devem approximar-se mais ou menos d'um ou d'outro extremo, conforme a epocha em que lançamos a nossa concepção está mais vizinha ou mais remota da que vai deixando d'existir ou da que vem surgindo. A difficultosa mistura dessas cores na palheta do artista nenhuma doutrina, nenhum preceito lh'a diz: ensinar-lh'a-ha o instincto.

Tive eu esse instincto?—É mais provavel o não que o sim.—Se a arte fora facil para todos os que tentam possuí-la, não nos faltariam artistas!

Pag. 2.

Hesitei muito tempo sobre se conviria usar dos nomes proprios, quer de pessoas quer de logares, como as successivas alterações da linguagem na Hespanha os foram transformando, a ponto de muitos delles se acharem hoje totalmente diversos do que eram na sua origem. Destas mudanças, aquellas que apenas consistiam no augmento ou diminuição de uma letra, ou na diversidade das desinencias, podiam, talvez, ser admittidas sem darem um aspecto anachronico ao livro. Outros nomes, porém, havia, sobretudo nas designações corographicas, tão completamente alterados, que me repugnava o substituir o moderno ao antigo. Assim Toletum, Emérita seriam sem difficuldade representados por Toledo e Mérida; mas, como substituir, sem anachronismo na expressão, Sevilha a Hispalis, Leão a Legio, Guadalete a Chryssus e, finalmente, Burgos a Augustobriga, quando, como neste caso, até a situação da moderna cidade não é exactamente a da antiga povoação? Preferi, portanto, conservar os nomes primitivos, os quaes, não influindo de modo algum na ordem e clareza da narrativa, podem facilmente encontrar-se em qualquer diccionario ou tractado de geographia antiga.

Aos nomes individuaes dos primeiros wisigodos procurei conservar, quando alludi a elles, os vestigios da origem gothica: aos dos personagens do meu livro conservei as fórmas alatinadas que se encontram nos monumentos contemporaneos, porque, segundo todas as probabilidades, já nesta epocha o elemento romano de todo havia triumphado na lingua.

Pag. 9.

Uma das cousas mais disputadas na historia das instituições gothicas é a natureza dessa classe de individuos, que tantas vezes figuram nos monumentos daquellas epochas, chamados gardingos (

gardigg

em lingua gothica). Masdeu e com elle Romey, que o traduz quasi sempre ácerca da historia dos wisigodos, postoque não o cite senão neste logar, são de parecer que o gardingato não era um titulo de nobreza, mas do cargo de substituto do duque (governador de provincia) como o

vicarius

o era do conde (governador de cidade). Aschbach deriva a palavra de

Gards

, que significa

solar com terras adjacentes

, e parece querer confirmar assim a opinião de Vossio, que pretendia fossem os administradores ou almoxarifes dos palacios reaes, opinião que sería mui difficil de sustentar á vista de varios monumentos hispano-gothicos. Segui o parecer de Grimm e Lembke, que suppõem formarem os

gardiggos

uma classe de

curiales

(cortesãos) ou nobres. Neste caso não serviria a etymologia

gards

para indicar no gardingato uma nobreza estribada sobre certa extensão e importancia de propriedade territorial, formando a terceira classe de nobreza depois dos

duces

e

comites

? Rosseeuw-Saint-Hilaire pensa-o assim e faz o gardingo synonimo de

Procer

. Procer, todavia, não indicava em especial o gardingo, mas era denominação generica da nobreza.

Quanto ao cargo de tiuphado ou tiufado, deve saber-se que o exercito godo se dividia em corpos de mil homens, e estes em companhias e esquadras de cem e de dez. Abaixo do tiuphado (

thiud

ou

theod

povo e

fath

conduzir, ou, segundo outra derivação,

taihunda

mil e

fath

) que, tambem, se chamava millenario (da etymologia latina

mille

) estava o quingentario, segundo uns, capitão de quinhentos homens, especie de major dos regimentos modernos, e, segundo outros, substituto do tiuphado ou semelhante aos nossos tenentes-coroneis. A companhia de cem homens (

centuria

) era regida por um

centenario

, e a de dez (

decania

) por um

decano

.

Pag. 13.

O vestido civil dos wisigodos era uma especie de tunica chamada

Stringe

ou

Strigio

, já d'antes conhecida pelos romanos. O clero usava deste trajo como os seculares, com a differença de ser branco ou d'outra cor modesta, porque o havia, até, cor de purpura, o uso da qual era severamente prohibido aos sacerdotes. Veja-se Masdeu, Hist. Crit. d'Esp. T. 11, p. 63 e 197, e Ducange e Carpentier ás palavras

Stringes

,

Strigio

.

Pag. 16.

A igreja goda empregava oito ministros na celebração do culto: 1.º o Ostiario, que abria e fechava o templo, cuidava da conservação dos objetos do culto e vigiava que não assistissem ao sacrificio herejes ou excommungados: 2.º o Acolito, que illuminava os altares e tinha na mão um candelabro emquanto se lia o evangelho: 3.º o Exorcista, a quem incumbia o expulsar o demonio dos possessos: 4.º o Psalmista, que levantava no coro as antiphonas, psalmos e hymnos: 5.º o Leitor, que lia em alta voz as prophecias do Antigo Testamento e as Epistolas e as explicava ao povo: 6.º o Subdiacono, que recebia as oblações dos fiéis e dispunha as vestiduras e vasos sagrados para a missa: 7.º o Diacono, que ajudava a esta e dava a

communhão

: 8.º o Presbytero, que sacrificava, prégava e dava a benção ao povo.

Pag. 17.

Poetas celebres hispano-godos do seculo V.—De Draconcio resta-nos o

Carmen de Deo

e uma epistola dirigida a Gunth-rik rei dos vandalos. De Merobaude subsiste um fragmento do

Poema de Christo

. D'Orencio, tão elogiado pelo poeta Fortunato e por Sidonio Apollinario, apenas resta uma pequena poesia na

Bibliotheca Veterum Patrum

.

Pag. 26.

A raça dos godos, asiatica na origem e germanica na lingua, que, antes de occupar uma parte do territorio romano, habitava ao norte do Ponto Euxino (Mar Negro), dividia-se em duas grandes familias, cujas denominações provieram da sua situação relativa. Os que estanceiavam ao oriente chamavam-se

ost-goths

(godos de leste) e depois, corruptamente, ostrogodos; os que demoravam ao occidente eram os

west-goths

(godos de oeste) ou wisigodos, que, depois de ora servirem o imperio como alliados, ora assolarem-no como inimigos, vieram fazer assento no sul das Gallias e na Peninsula, estabelecendo, a final, em Toledo o centro do seu imperio.

Ibidem.

A celebre batalha dada por Theoderik, rei dos wisigodos, e pelo general romano Aecio, seu alliado, ao feroz Attila nos

campi catalaunici

(planicies de Chalons-sur-Marne) é o mais celebre entre os terriveis combates que custou á Europa no V seculo a dissolução do grande cadaver romano. Podem-se ver em Jornandes e no Panegyrico de Avito por Sidonio Apollinario as particularidades deste successo.

Pag. 42.

Algeziras. Este nome foi posto pelos arabes ao logar onde Tarik veio aportar, saindo de Ceuta para a conquista d'Hespanha. O ilheu, hoje chamado

das Pombas

, fica a um tiro d'espingarda daquella povoação, á qual passou o nome que os arabes tinham dado á ilhota, vendo-a verdejar ao longe:—

Djezirat-al-Hadra

(ilha-verde). Ignorando-lhe o nome antigo, suppuz que essa denominação de origem arabica era anterior e que já os godos lh'a attribuiam. O anachronismo é, a meu ver, assás desculpavel.

Pag. 46.

O

amiculo

, que entre os romanos era proprio das mulheres de baixa esphera, tornou-se em Hespanha trajo commum das mais honestas e nobres: era uma especie de manto, com que cubriam as vestiduras inferiores: Os cabellos encerravam-nos n'uma como coifa, denominada

retíolo

. Veja-se Masdeu, Hist. Crit. T. 11, p. 6.

Pag. 55.

Os wisigodos tinham dado em especial o nome de

Campi gothici

ás planicies de Leão e da Extremadura Hespanhola. D'ahi, contrahida a menor territorio, veio a denominação da terra de

Campos

.

Pag. 67.

«

Wali

: Prefeito, caudilho principal, governador de provincia, general d'exercito:»

Conde

,

Declar. de alg. nom. arabes

. Juliano era, segundo parece, o governador da provincia gothica d'além do Estreito, chamada

Transfretana

; cabia-lhe por isso entre os arabes o titulo de Wali. Sebta é a corrupção arabica do nome de Septum, corrupção d'onde os nossos antigos formaram

Cepta

e, depois,

Ceuta

.

Pag. 70.

O

frankisk

ou

frankiska

era uma especie de machadinha de dous gumes, usada pelos frankos, de quem os godos a tomaram. Consulte-se Masdeu, Hist. Crit. T. 11, p. 52—e Ducange, verb.

Francisca

. A

Cateia

, de que adiante se ha-de falar, era uma lança curta ou dardo, a origem, talvez, da

azcuma

dos tempos posteriores.

Pag. 82.

Sevilha no tempo dos romanos tinha dous nomes—

Romula

e

Hispalis

. Este ultimo veio a prevalecer, emfim. Veja-se

Flores, Esp. Sagr

. T. 9, p. 87.

Pag. 85.

Mohammed era natural de Medina. Esta cidade chamava-se Yatrib. Foi elle quem lhe poz o nome de Medina-al-Nabi—

Cidade do Propheta

.

Pag. 87.

Os arabes, tendo desembarcado nas costas d'Hespanha e vendo que a montanha do Calpe era um logar grandemente defensavel, fortificaram-se ahi, porventura emquanto esperavam o resto do exercito que passava d'Africa. A montanha recebeu então o nome de

Geb-al-Tarik

(monte de Tarik) e, tambem, o de

Gel-al-Fetah

(monte da Entrada). Da palavra Geb-al-Tarik se formou depois a de Gibraltar.

Pag. 89.

Islam

em arabe, o islamismo ou religião do koran. Significa, propriamente, esta palavra

resignação

;

resignação em Deus

.

Pag. 90.

Esculcas eram, nos tempos barbaros, chamadas as rondas ou sentinellas nocturnas dos arraiaes. Esta palavra encontra-se nos escriptores do VI seculo e dos seguintes, como em S. Gregorio Magno;

sculcas quos mittitis sollicitè requirant

: Epist. 12—23.—A fórma pura do vocabulo,

Exculcatores

, apparece já em Vegecio: depois, por abbreviatura,

Exculcae

e

Sculcae

.

Sculcas

são contrapostos aos

atalaias

nas leis das Partidas. P. 2. tit 26, onde estes significam

guardas de dia

.

Ibidem.

Os arabes designavam os christãos ou, antes, em geral, qualquer europeu pelo nome de

al-rumi

, o romano, quer fosse grego, franko ou hespanhol. Aquelles mesmos que abraçavam o islamismo conservavam este appellido. Tal era o amir ou general da cavallaria, Mugueiz, um dos mais famosos companheiros de Tarik. Quando, em especial, os pretendiam designar, não pela differença de raça, mas pela de crença, denominavam-nos

Nassrani

(nazarenos).

Pag. 99.

Deus só é grande!

era para os arabes a voz de accommetter, como, depois, foi para os christãos o grito de

Sanctiago

!

Pag. 109.

A ephippia era uma especie de sella de lan que os godos haviam imitado da cavallaria romana.

Pag. 117.

«As armas delles (dos berebéres e arabes africanos) quasi se limitam a páus compridos a que se prendem pequenos tóros atados pelo meio, que no combate descarregam sobre os inimigos com ambas as mãos:» Alkhathib,

Pleni-Lunii Splendor

, em Casiri, T. 2, p. 258.

Pag. 153.

Como a palavra latina

senior

(o mais velho) veio a significar no latim barbaro e no romance ou linguas vulgares das nações modernas, o

principal

, o

senhor

, assim a palavra arabe

Cheik, Chek, Xeque

, isto é, o

ancião

, tomou entre os sarracenos a significação de senhor ou chefe de uma tribu.

Pag. 157.

No imperio godo os buccellarios vinham a ser o mesmo que os clientes dos romanos, homens livres addictos ás familias poderosas, por quem eram patrocinados e, talvez, sustentados, se, como pretende Masdeu e o seu, nesta parte, quasi traductor Romey, o nome

buccellarius

lhes provinha de

buccella

(migalha de pão). O Codigo Wisigothico (Liv. 5. tit. 3.º) estabelece os deveres e relações destes homens com seus amos e patronos. A obrigação mais importante do buccellario parece ter consistido no serviço militar:

Si ei... arma dederit

. É por isso que se me affigura mais provavel a etymologia que a semelhante denominação attribue com preferencia o erudito Canciani (Barbar. Leg. Ant. Vol. 4, p. 117) derivando-a da palavra scandinava

buklar

(o escudo), transformada no idioma germanico em

buckel

e nas linguas modernas em

buckler, bouclier, broquel

. Neste caso o buccellario corresponderia ao

armigero

ou

escudeiro

do seculo 12 e 13, que, significando na sua origem o que trazia as armas ou o escudo do seu senhor ou amo, veio a tomar-se por um homem d'armas de certa distincção, a quem, todavia, faltava o grau de cavalleiro.

Pag. 164.

O facto narrado neste capitulo é historico. O logar da scena e a epocha é que são inventados. Foram as monjas de Nossa Senhora do Valle, juncto d'Écija, que, em tempos posteriores, practicaram este feito heroico, para se esquivarem á sensualidade brutal dos arabes. Parece que o procedimento das freiras d'Écija foi imitado em muitas outras partes. Consulte-se

Berganza

,

Antiguedades de España

, T. 1, pag. 139; e

Morales, Cron. Gener.

T. 3, pag. 105.

Pag. 197.

Segundo Lembke, cuja opinião assenta no testemunho de Ibn-Said e de Ahmed-Al-makkari, os arabes conheciam a Hespanha, antes da conquista, pelo nome de

Andalós

ou

Andalús

, nome que, depois, applicaram em especial ao territorio entre o Wadi-Al-Kebir e o Wadi-Ana (Guadalquivir e Guadiana), isto é, á moderna Andalusia. O nome de Al-Gharb (o occidente) que, igualmente, deram á Peninsula para a distinguir da Mauritania (Al-Moghreb) veio, tambem, a contrahir-se á nossa provincia do Algarve.

Pag. 197.

Alfaquih.

É titulo que os africanos dão aos seus sacerdotes e sabios da lei: Moura, Vestig. da Lingua Arab. p. 38.

Pag. 220.

As grandes divisões da Hespanha, segundo a geographia arabe, eram quatro:—

Al-Gharb

o occidente;

Al-Sharhiah

o oriente;

Al-Kiblah

o meio-dia;

Al-Djuf

o norte. Era esta, por isso, a designação dos territorios christãos das Asturias e Cantabria.

Pag. 270.

O

aripennis

,

arapennis

,

agripennis

, ou

arpentum

, d'onde veio a palavra franceza

arpent

, era uma medida d'extensão igual a metade do

jugerum

, d'onde tomámos a palavra

geira

. O aripenne media-se em quadro e tinha de cada lado 12

pérticas

, medida que equivalia a dous palmos. Masdeu affirma que o aripenne era medida especial da Betica, o que é inexacto; porque ella se acha mencionada em muitos documentos, não só de outras provincias d'Hespanha, mas tambem de diversos paizes, como se póde ver em Ducange, á palavra

Arapennis

.

Pag. 308.

Nas mil tradições diversas, quer antigas, quer inventadas em tempos mais modernos, sobre o modo como se constituiu a monarchia das Asturias procurei cingir-me, ao menos no desenho geral, ao que passa por mais rigorosamente historico. Todavia, cumpre advertir que Pelagio viveu, segundo todas as probabilidades, em tempos um pouco posteriores á conquista arabe e que a morte de Oppas e de Juliano na batalha de Cangas de Onis, successo narrado por alguns escriptores, tem sobrados caractéres de fabulosa. A minha intenção, porém, foi, como já notei, pintar os homens da epocha de transição, digamos assim, dos tempos heroicos da historia moderna para o periodo da cavallaria, brilhante ainda, mas já de dimensões ordinarias. O meu heroe do Chryssus é como o ultimo semideus que combate na terra; os foragidos de Covadonga são como os primeiros cavalleiros da longa, patriotica e tenaz cruzada da Peninsula contra os sarracenos. Deste modo, sendo hoje difficultoso separar, em relação áquellas eras, o historico do fabuloso, aproveitei d'um e d'outro o que me pareceu mais appropriado ao meu fim.

Notas de Rodapé:

[1]

Jesus.

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