SEGUNDA PARTE
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A PROPOSITO DE UM LIVRO
Ha momentos em que eu não posso deixar de me sentir desconsolada. Parece-me n'esses momentos que a humanidade está passando por uma das crises mais graves da sua vida de tantos seculos.
E quem terá forças para conservar-se espectador indifferente d'essa dolorosa tragedia de que é theatro o mundo inteiro!
Theorias que se atropellam e se contradizem, systemas politicos que mutuamente se combatem, opiniões tão variadas, ácerca das cousas graves e das cousas insignificantes, que não nos resta meio algum de descortinar a verdade em meio de tão babylonica confusão.
Na pratica o desmentido formal e permanente a todas as doutrinas que se prégam e se propagam!
Celebra-se a apotheose da familia, e a familia decadente, desnorteada, desunida, apresenta o reflexo fiel d'esta quadra de desalento e de incerteza!
Emquanto os sonhadores erguem um altar á justiça, como á deusa moderna que mais cultos merece, a injustiça acclamada, protegida, triumphante campeia n'este mundo onde a victoria já não pertence ao mais forte, mas sim ao mais astuto!
A politica, que parecia dever ser aquella sciencia complexa e respeitavel de conduzir as sociedades ao mais alto grau de aperfeiçoamento material e moral, não é senão um mercado abjecto, onde se debatem os mesquinhos interesses individuaes, não aquelles interesses que são a base do bem collectivo, mas os que se traduzem na exploração do homem pelo homem.
A guerra aqui acesa e selvagem, de uma selvageria refinada e scientifica, acolá disfarçada e hypocrita, arma-se por toda a parte, como nos seculos que lá vão, egualmente funesta, embora a revistam mais prestigiosos aspectos.
Falla-se em paz, em fraternidade universal, préga-se uma religião humana que parece querer e dever supprir a religião divina, mas os modernos crentes d'esse dogma que assenta no direito, na justiça, no amor universal, atraiçoam tanto as suas doutrinas, como atraiçoavam a sua fé os catholicos mal esclarecidos das épocas de ascetismo rude, e de fanatica superstição.
Para onde vamos nós?
Se vamos para o Bem, o que é que origina esta dolorosa inquietação, que avassalla e confrange todas as almas, este contraste incomprehensivel, entre o que se pratica e o que se pensa?
Se vamos para o Mal, para que nos fallam do progresso, da perfectibilidade humana, das conquistas da civilisação, dos arrojos felizes da sciencia, de tudo que parece preparar ao homem uma quadra luminosa, feliz, nunca realisada até agora?
D'antes, n'estas horas de duvida, de angustia oppressiva, iamos nós procurar consolação na palavra animadora e harmoniosa dos que, com os olhos fitos na estrella do ideal, indicavam ao homem o rumo que elle tinha a seguir, para não se perder na sua gloriosa ascenção.
Hoje, esses pilotos da náu do futuro estão mudos ou descrêem tambem!
Mais doloroso ainda que o silencio desalentado, é o rictus sarcastico com que elles assistem á lucta estranha e confusa de tantos elementos contradictorios e incompativeis.
Depois a litteratura, que é o espelho da alma das sociedades, é hoje por toda a parte um brado unanime de negação.
Não reconstrue, não modifica o que está feito, trata de o desmoronar pedra por pedra!
Ha um homem em França que refaz, collocado n'um ponto de vista diverso, a obra collossal de Balsac.
O romancista mais admiravel da França, aquelle que fez do romance um ramo das sciencias sociaes, fez n'um momento, que tem por força de ficar, a synthese de sua época.
Pintou, e com que potencia da verdade! os reis, e os operarios, as duquezas sentimentaes, e os artistas convulsionados pela nevrose do seu tempo, os politicos, os sabios, os pensadores, os litteratos; as peccadoras do alto mundo, e as peccadoras do mundo equivoco; os financeiros, e os luctadores ambiciosos; os que vinham perder a alma e gastar o corpo n'essa Pariz electrica e absorvente, que attrahe os genios e os monstros, e os que vinham alli conquistar a fortuna, o poder, a soberania omnipotente.
Na sua obra complexa, enorme, que ás vezes tem na distancia um não sei que de monstruoso, encontra-se viva, palpitante, com os seus vicios, com as suas paixões, com o seu talento ardente, com a sua magnetica e irresistivel seducção, uma das épocas mais caracteristicas da civilisação da França, o que significa a civilisação da Europa.
Se em Balzac encontramos as florescencias rubras do mal, nem por isso nos seduzem menos as suavidades castas da virtude.
Ao pé de Madame de Marneffe, a pequenina e graciosa féra parisiense, felina e nervosa, com caricias que mordem e furores que acariciam, ha a doce figura de Eugenia Grandet, a mais dolorosa virgem, que a imaginação moderna ainda concebeu e idealisou.
Ao pé de Luciano de Rubempré o ambicioso effeminado e morbido; de Vautrin o brutal luctador que seria um condottiere do seculo XVI e que só póde ser um forçado no seculo XIX; ao pé de Marsay o politico sagaz, que faz dos homens, das mulheres e das cousas, meros instrumentos da sua fortuna, que não tem lei nem fé, e que é capaz de assassinar com um sorriso de dandy, temos d'Arthés o pensador austero, e pobre escriptor para quem a litteratura é um magisterio e não um officio, temos Cesar Birotteau, a sublimidade burgueza, o honesto commerciante que tem palavra de duque, que é perfumista com a mesma nobreza de abnegação e de honradez, com que se é sacerdote, e que glorifica toda uma classe de que se riem os frivolos, sem saber quanta heroicidade é precisa para saber guardar immaculada em um peito de burguez, a honra de um paladino.
Dizem que o vicio pollula na obra de Balzac com uma exhuberancia de vegetação inacreditavel.
Elle não foi mais do que o analysta apaixonado da sua época.
Adorou-a pelo que ella tinha de grande, comprehendeu que lhe podia desnudar as chagas, visto que ao lado d'ellas podia mostrar tão admiraveis bellezas.
Foi implacavel na sua justiça.
O seu tempo seduziu-o pelo que havia de brilhante nos seus vicios, de fecundo e poderoso nas suas paixões, de arrebatado e creador no seu genio, de raro e dedicado nas suas virtudes.
Hoje no artista que segue as pisadas de Balsac, que não tem a sua potencia creadora, mas que tem como elle, e talvez mais methodicamente do que elle, o estudo paciente e investigador, que vemos nós que possa dar-nos aquella sensação de prazer agudo que a leitura conscienciosa de Balzac dá a um verdadeiro artista?
Emilio Zola tambem descreve a sua época.
É artista, porque sente e sabe fazer sentir.
Diz-se imparcial!
Faz viver nos seus livros a sociedade de que faz parte; entra nos palacetes de pedraria rendilhada dos modernos financeiros, os reis do mundo actual, percorre os salões doirados e os boudoirs phantasistas, as salas de jantar, onde se reunem as reliquias mais preciosas de umas poucas de civilisações, janta nos restaurantes de mais fama, visita nos seus camarotes da opera ou dos italianos as mundanas mais elegantes, as hautes gommeuses mais admiradas e invejadas, está no segredo de todas as operações da Bolsa, escutou a uma porta todas as combinações e convenios diplomaticos, penetrou com a sua perspicacia tenaz no interior da alma que anima o seu tempo, fallou com os artistas, com os sabios, com os poetas, com as mulheres; subiu aos oitavos andares onde dormem amalgamados n'uma dolorosa e medonha promiscuidade os miseraveis d'essa Pariz, cuja superficie é tão seductora e tão brilhante; viu os farrapos que cobriam o corpo d'esses indigentes, e os vermes que corroiam a alma d'esses parias; escutou as perfumadas confidencias que murmuram devagarinho uns labios frescos e vermelhos, por detraz d'um leque onde dançam a gavotte umas pastorinhas de Watteau.
Observou de perto o que ha de mais brilhante e o que ha de mais abjecto, o que ha de mais puro e o que ha de mais ignobil.
D'essa observação tão variada e tão completa que resultado colheu?
Não o posso dizer ao certo, sei só que não ha nada mais desolador e mais triste do que a leitura d'um livro de Zola.
E Zola é, depois de Tlambert, o grande mestre que morreu, o escriptor de mais pulso da moderna geração realista.
Os outros não téem o talento d'elle, não téem o alcance funesto ou bom, mas em todo o caso poderosissimo da sua obra, não téem a sua paciencia de benedictino, exercida com os processos da nova escola.
Isto não é dizer mal dos que trabalham agora, é notar e assignalar um dos symptomas da confusão que hoje nos desnorteia.
Acudiam-me todos estes pensamentos, imagina como, leitora?
Ao lêr um novo livro de Feuillet, ultimamente publicado em Pariz Le journal d'une femme.
Feuillet é por excellencia o escriptor elegante e delicado.
No fundo, póde ser que a obra d'elle tomada no seu conjuncto não seja de uma moralidade tão cauterisadora como a que resulta dos livros de Zola.
Ninguem diga que Zola é um escriptor immoral, não; elle é simplesmente um escriptor mysantropo: vê as cousas pelo lado mais negro, e as suas bachanaes, nuas como são, não téem effeitos enervantes, doem como um caustico applicado sobre uma ulcera aberta.
Ao lel-o, a gente não tem de certo tentações de imitar os seus deploraveis heroes; pelo contrario. Sente-se ferida, humilhada, quasi que angustiada, e exclama tristemente: Meu Deus! pois a humanidade é isto!
Octavio Feuillet é, por assim dizer, o contraste do seu illustre contemporaneo.
Escreve das mulheres e para as mulheres com penna d'ouro e nacar.
Feuillet é o ultimo romantico, depois do romantismo ter morrido, como Balzac é o primeiro realista antes do realismo nascer.
Para Feuillet, o delicado observador, as paixões são doenças da alma; para Zola, o anatomista implacavel, as paixões são doenças do corpo.
O convulso e repugnante hysterismo das mulheres de Zola não tem nada que vêr com a sentimentalidade melancolica das mulheres de Feuillet.
Nenhuma d'ellas—deixe-se isto bem claramente registrado para honra e felicidade do sexo feminino—nenhuma d'ellas é a verdadeira mulher, a que tinha a obrigação de ser a mulher do futuro, já me não atrevo a dizer da que o será.
Octavio Feuillet, que está talvez perto demais das cruas pinturas do realismo, intentou n'este seu ultimo livro, chamado Le journal d'une femme, rehabilitar as ideias romanticas, que visto perderem tantas mulheres, podem tambem salvar algumas.
Elle que sabe tão bem dar vida ás suas pallidas e nervosas heroinas, que téem na bocca o sorriso da esphinge, que téem na voz uns feitiços mysteriosos, que téem no gesto uma graça irrequieta e caprichosa, que sabem arrastar o homem até á beira do crime com um aceno das suas mãos esguias e aristocratas, elle, o creador do Conde de Camors, esse ultimo producto da litteratura byroniana, que endoudeceu de amor litterario tanta mulher, eil-o que se propõe d'esta vez o difficil thema de explicar a que nobres e altos sacrificios o romantismo bem entendido póde levantar uma mulher.
Foi arrojada a empreza; arrojada, mas feliz.
Le journal d'une femme, livro que eu já d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras, é uma joia admiravel, cinzelada pela mão de um artista de coração.
E depois são taes os exageros e desmandos da chamada escola realista, é tal o amesquinhamento a que ella reduz a humanidade, que é bom que um escriptor de tão prestigiosa eloquencia como é Octavio Feuillet mostre que, no fim de contas, nem tudo era mau na geração que os moços de hoje tentam desthronar com tão arrogante desdem.
Roubar ao homem e sobretudo á mulher aquelle ideal em que até agora todos punham a mira embora o julgassem inacessivel, é despir a vida das poucas flôres que ella póde ter.
Não; o homem não é só um ser organisado que pensa, é tambem uma alma que ama, espera e crê!
N'esta era de transformação e de incerta claridade, é bom que uma voz se erga e diga bem alto que a paixão só é criminosa quando mal dirigida, que o excesso do sentimento só é ridiculo quando mal applicado, que a abnegação inteira e absoluta tem gozos superiores a todos os gozos da materia, e que as almas boas e as almas grandes descobriram uma linguagem mysteriosa, na qual fallam com Deus.
Não basta descrever minuciosamente com uma perversão de gosto, devéras deploravel, tudo que ha mau, grotesco, ou vicioso na creação; não basta ter em si tão accentuada preoccupação horrivel, que se deseje vêr com o microscopio do naturalista, para bem lhe distinguir os defeitos, as anfractuosidades, as maculas, os vermes, de tudo que á simples vista seria harmonioso e bello.
Áquelle a quem se roubam todas as illusões salutares cumpre apontar para algum bem que ainda lhe ficará na terra, bem verdadeiro que o compense de todas as suas perdidas alegrias mentirosas!
Não basta negar, é necessario affirmar com convicção robusta; não basta demolir, é preciso ao lado dos edificios que se derrubam e desmoronam construir novos edificios mais ricos e mais seguros.
Octavio Feuillet fez este livro, como um protesto de escola, sem comtudo perder com esta qualidade um tanto dogmatica, o seu interesse dramatico, a vida intensa, tão indispensavel ás verdadeiras obras d'arte.
Dado o caso de se chamar romantismo ao excesso de certos e determinados sentimentos, á concepção mais ou menos chimerica que temos das cousas da vida, resta provar se o romantismo póde ou não póde ser nocivo conforme o terreno em que medrar e o meio em que se desenvolver.
A principal heroina do romance, aquella que escreve o seu Diario, ao qual dá o titulo de livro, é uma rapariga apaixonadamente romantica, tudo quanto ha mais romantico, quer dizer tudo quanto ha de menos pratico e real.
Por isso sendo moça, formosissima, sentindo cantar dentro da sua alma a festiva e triumphante symphonia dos vinte annos, tendo uma d'estas bellezas caracteristicas que dão a certas mulheres um aspecto de deusas, amando com aquella primeira e casta ternura das virgens um homem em tudo digno d'ella, sacrifica todas estas superioridades da natureza, todas estas radiosas promessas de felicidade a quem? a que?
A um pobre mutilado que morria de amor por ella, a um soldado que voltára da guerra sem uma perna e sem um braço, informe, grotesco, irremediavelmente desgraçado, e que, assim mesmo do fundo do abysmo em que o destino o lançára, ousou amar aquella mulher olympica, e teve a audacia de tentar morrer por causa d'ella.
Emquanto elle viveu, foi-lhe fiel como as mulheres dignas o sabem ser, consolou-o de tudo que perdera, levou a luz da sua caridade bemdita aos antros em que aquella pobre alma se debatera inutilmente por tanto tempo.
Mais tarde quando o marido morre, abençoando-a como se abençôa um anjo, ella, livre de novo, torna a encontrar o homem que amou uma vez, e que não soube esquecer.
Esse é então marido da amiga, da infancia, da juvenil viuva.
Não são felizes, os dous, mas ella, a intrepida, a caridosa creatura, lá está tentando da abnegação de cada um d'elles fazer a felicidade de ambos.
Não o consegue, e quando a amiga, culpada e arrependida se mata para fugir ao horror de mentir eternamente a seu marido, só ella no mundo recebe a confidencia do seu crime, confidencia que n'uma carta repassada de dôr a douda creança lhe pede que transmitta ao esposo ultrajado.
Ficaram ambos livres em face um do outro, ambos viuvos, ambos tendo cumprido a missão que o destino lhe confiára.
Nada os desune agora, nada, a não ser uma duvida que punge o animo d'aquelle, que hoje ella ama perdidamente com a paixão concentrada de tantos annos de sacrificio.
—Porque foi que a minha mulher se matou? pergunta elle então. Ás vezes lembro-me que foi talvez o desamor que eu não soube occultar bastante. Se assim fôr, fugirei. Não quero gozar uma ventura de que não sou digno. Se eu matei uma innocente e casta creança, quem me dá direito a ser ainda feliz na terra?
Só ella o sabe, só d'ella depende aquella ventura divina, de que o dever e a caridade a fizeram fugir n'outro tempo.
Pois a ninguem revelou o segredo da sua amiga morta, da doce creatura que a paixão fustigara e que a paixão matou!
Calou-se, deixou que o noivo da sua alma se affastasse para sempre, pungido por um remorso que o separava da ventura, e olhando para o berço da filha escreveu estas palavras que vertem lagrimas, as santas lagrimas, que os realistas não conhecem:
«Restas-me tu, minha filha... Escrevo estas linhas ao pé do teu bercinho... Espero que um dia estas paginas façam parte do teu enxoval de noiva; talvez ellas te digam que queiras muito á tua pobre mãe, tão romantica!... D'ella saberás talvez que a paixão e o romance podem ser bons, com a ajuda de Deus, porque elevam os corações e ensinam-lhes os deveres superiores, os grandes sacrificios, as elevadas alegrias da vida. É verdade que eu chóro ao dizer-te isto, mas olha que ha lagrimas que causam inveja aos anjos.
MADAME DE BALSAC
I
Ha tempo annunciaram os jornaes que a viuva do grande romancista vinha fazer uma viagem á Peninsula e que partira já de Paris em direcção á capital de Hespanha.
Senti então um impeto de curiosidade verdadeiramente irresistivel.
Pensei em vêr a deliciosa russa e em conhecer n'ella humanado e visivel, um de aquelles immoredouros typos femininos, de que Balsac foi o analysta assombroso, se é que não foi o phantastico creador.
Em Madame de Balsac havia de haver por força muito d'aquelle homem que é o producto mais genuino da sua época e do seu meio; homem prodigio, que era ao mesmo tempo o espirito mais sceptico e o mais supersticioso, o mais corrupto e o mais infantil, o mais cultivado e o mais ignorante, o mais positivo e o mais phantasista, o mais atrozmente eivado de todos os venenos corrosivos da civilisação moderna, e o mais primitivo e adoravelmente poetico que existe no mundo da Arte.
Ella conhecera-o por muitos annos, mesmo antes de ser sua mulher, amparara-o muitas vezes nas suas luctas cyclopicas contra os modernos monstros—a Divida, a Calumnia, a Inveja—e tantos outros que lhe retalhavam o coração com as garras sanguinarias; acolhera-o muitas outras, cançado, vencido, aniquillado, depois de uma d'aquellas vertiginosas viagens pelos mundos chymericos do Impossivel; vira-o partir montado no fogoso Pegaso do sonho. Imaginario terrivel, moderno e mais complicado D. Quichote, em busca de tesouros que nunca existiram, de fabulosas hypotheses em que ninguem acreditava, de ideaes entrevistos que lhe davam o deslumbramento extatico e paradisiaco; ouvira-lhe depois no seu regresso ao mundo da realidade o rir estrondoso e rabelaisiano, rir de um gigante em horas de gaudio, rir só digno d'aquella natureza robusta e fecunda em contrastes, que tinha todos os requintes aristocraticos e todas as grossas expansões plebeias; conheçera-o a fundo, debaixo de todos os aspectos, e aos meus olhos havia n'ella uma attração extranha e magnetica como quem visitou o antro de um leão e o domou meigo e dôce aos seus pés pequeninos.
Levei então horas e horas ideiando o meio porque me havia de approximar, eu obscura e desconhecida da illustre mulher, duplamente celebre pelo merito pessoal, e pelo genio de que era como que o reflexo vivo.
Quando estava no meio d'estas locubrações inoffensivas aconteceu o que era de esperar: a condessa Hanskan de Balsac, entendeu que Portugal, o Portugal tão querido dos poetas patriotas, não era digno de uma visita sua.
Resignei-me, portanto, a conhecêl-a sómente atravez de um livro que é a obra-prima de Balsac, o auctor de tantas obras primas que não morrem.
Este livro é a Correspondencia do grande escriptor, publicada ha pouco pela casa Calmann Levy.
Não conhecemos, podemos affoitamente confessal-o, livro mais dramatico, mais cheio de vida e de interesse, mais empoignant, permitta-se-nos o expressivo francezismo.
N'estes dous volumes de cartas apparece-nos Balsac em toda a potencia da sua extraordinaria individualidade, e conhecer Balsac é como que conhecer a sua época, a sociedade que o produziu e formou, os vicios, virtudes, preoccupações, sentimentos, ideias e paixões do seculo extraordinario, de que elle é a synthese mais completa, seculo agitado por esse poder fecundo e malefico chamado Oiro que tamanha influencia exerceu na vida intima de Balsac.
Nos livros devidos á penna do fecundo escriptor, o oiro com o seu brilho fulvo, com as suas tentações diabolicas, com o seu cortejo de visões sinistras ou luminosas, com as suas miragens attrahentes e enganadoras, com as paixões phreneticas que elle cria, que elle excita, que elle exacerba, com os milagres de que é a fonte tantas vezes turva, com os explendores de que é o mais perfeito creador, o oiro, esse inimigo, esse auxiliar, esse idolo humano, scintilla, tremeluz, precipita-se em cascatas fulgidas, doira com o seu reflexo infernal todas as cousas, communica um não sei que de vertiginoso e satanico a todas as creaturas e a todos os objectos, produz allucinações doentias que desorientam e desvairam.
Esta preoccupação, que tanto nos espanta nos romances eminentemente modernos de pintor mais perfeito e mais realista que a sociedade franceza do seculo XIX encontrou, transparece, na existencia inteira do homem, e explica-se por todos os factos do seu agitado viver.
Ganhar dinheiro, muito dinheiro, o que bastasse para saciar as ambições mais desregradas, os desejos mais insensatos, o ideal de luxo mais artistico e requintado, os sonhos mais orientaes de um nababo ebrio de haschish, eis o ficto que preencheu a vida de Balsac.
Á primeira vista a gente imagina que o escriptor lhe sacrificou e subordinou tudo o mais.
Engano!
Emquanto aquella phantasia desenfreada e febril revolvia milhões, aspirava á opulencia das Mil e uma noites, se lançava nas mais doidas especulações, escavava minas que não havia, procurava thesouros occultos, se exhauria emfim n'uma lucta impossivel e tenaz contra a mediocridade da sua fortuna, o escriptor severo e consciencioso não sacrificava ao ganho nem uma diminuta parcella da sua legitima gloria.
Os editores ajustavam pagar-lhe um livro por certa e determinada quantia, muitas vezes vantajosa para o orçamento do poeta, mas conhecendo-lhe a singularidade do caracter especificavam no contracto que o auctor só teria direito a receber um certo numero de provas, e que, excedido elle, as correcções seriam por sua conta.
Muitas vezes todo o preço do romance era esgotado nas correcções que Balsac fazia á sua custa, tão elevada era a ideia que elle tinha da perfeição da Arte.
Esmagado debaixo do peso das dividas, que todos os dias pagava e todos os dias cresciam, trabalhou como um titan, trabalhou sem descanço, sem treguas, com phrenezi, com paixão, com tenacidade de que só era capaz aquelle organismo d'uma robustez antiga, e ao mesmo tempo vibratil, nervoso, delicado como o de uma mulher.
Chegou a escrever consecutivamente e sem descanço pelo espaço de quarenta e oito horas, conservando-se n'uma exaltação artificial, produzida pelo fortissimo café, que bebia em grandes doses.
Quem deixaria de succumbir a esta vida de martyrio?
Apesar do seu estranho vigor, aos cincoenta e um annos Balsac succumbia a um aneurisma, tendo produzido dezenas e dezenas de obras admiraveis, que bastariam, repartidas, para constituir a fama de vinte escriptores.
Morreu com a penna na mão, tendo attingido as duas ambições supremas da sua vida; morreu sendo amado e sendo celebre, mas morreu antes de haver podido saborear no repouso e na dilatação tranquilla da alma o amor conquistado em annos e annos de servidão cavalleiresca, de castidade monastica, de paixão secreta e delicada; a celebridade adquirida em trinta annos do mais infatigavel e violento labutar que ainda um espirito de homem concebeu e realisou.
Quanto mais se estuda aquella vida singular, maior pasmo nos avassalla o entendimento.
Todo elle era contrastes incomprehensiveis, dos quaes, no entanto, tinha a consciencia definida e clara.
Pondo na bocca d'um dos seus protagonistas pensamentos que eram seus, diz elle analysando a sua propria vida:
«Amante effeminado da preguiça oriental, namorado dos meus sonhos, sensual por temperamento, trabalhei sempre sem repouso, recusando-me a todos os gozos da vida parisiense; guloso, fui sobrio; gostando dos grandes passeios, das longas viagens maritimas, desejando conhecer todos os paizes da terra, vivi constantemente immovel, sedentario, com a penna na mão, amarrado á banca do trabalho; fallador, loquaz, communicativo, ia escutar em silencio os professores nos cursos publicos da bibliotheca e do museu; vivi solitario como um monge benedictino, e a mulher no entanto era a minha chimera unica, chimera sempre acariciada, e sempre esquiva.»
O que elle aqui não diz, mas o que mais d'uma vez lhe foge dos labios e dos biccos da penna, n'um grito doloroso e dilacerante de agonia prophetica, é que a morte implacavel ha de vir colhel-o no instante em que elle já extenuado de tantas luctas ia tocar a méta do seu desejar infrene.
O que torna mais digno de um curioso estudo a indole litteraria de Balsac é a revelação feita pelos seus amigos e confirmada por elle proprio, da excessiva difficuldade, que o romancista encontrava para achar um molde adequado ao seu pensamento tão profundo e complexo.
A palavra trahia-o a cada instante, a lingua, como a Galatheia da fabula, recusava-se a ceder ás febris solicitações do seu pensamento, fugia-lhe ondeante e caprichosa, e elle impotente, desesperado, ardendo em febre, luctava noites e noites com a fórma tyrannica que se não queria deixar domar!
«N'essas batalhas nocturnas,—diz Théophile Gauthier, no admiravel estudo que consagrou a Balsac,—e das quaes o escriptor acabava de manhã despedaçado, mas vencedor, quando o lume do fogão se apagava e a atmosphera arrefecia, a cabeça d'elle exhalava fumo, e do seu corpo sahia uma especie de nevoeiro vizivel como do corpo dos cavallos em tempo de inverno.
«Ás vezes uma só phrase occupava uma vigilia inteira; era empolgada, tornada a empolgar, torcida, amassada, martellada, allongada, encurtada, escripta de mil modos differentes, e coisa notavel! a fórma necessaria, absoluta, não apparecia senão depois de se haverem exgotado as fórmas approximativas. O metal, sem duvida, corria muitas vezes de um jacto mais cheio e mais solido, mas poucas paginas existem de Balsac que ficassem exactamente iguaes ao primeiro rascunho.»
II
É ainda Théophile Gauthier quem nos deixou de Balsac o retrato mais expressivo, aquelle que se nos affigura mais fiel.
«Usava elle sempre, diz o escriptor já citado, em vez de robe de chambre, o habito de cachemira ou de flanella branca, preso á cintura por um cordão grosso, com o qual, mais tarde, se fez retratar por Luiz Boulanger.
«Que phantasia o levára a escolher de preferencia aquelle vestuario que nunca mais deixou? Não o saberemos dizer.
«Talvez que elle aos seus olhos symbolisasse a vida claustral a que o seu trabalho o condemnava, e, benedictino do romance, adoptara o trajo da sua vocação.
«Como quer que seja, a verdade é que lhe ficava muito bem.
«Gabava-se sempre mostrando-nos as suas mangas intactas, de não lhes haver jámais manchado a alvura com a menor nodoa de tinta, porque, dizia elle, «o verdadeiro homem de lettras deve ser aceiado no trabalho.»
«O habito, um pouco aberto, deixava-lhe vêr o pescoço de athleta ou de touro, redondo como um troço de columna, sem musculos salientes, e de uma alvura assetinada, que fazia perfeito contraste com o tom mais colorido das faces.
«N'essa época, Balsac, em todo o vigor da sua virilidade, apresentava indicios de uma saude violenta, pouco em harmonia com a pallidez esverdeada que o romantismo tinha posto á moda.
«O puro sangue da Touraine fustigava-lhe as faces tintas de purpura vivaz, e dava-lhe um colorido quente aos grossos labios bondosos e espessos, tão accessiveis ao riso; um pequeno bigode e uma pêra impercetivel accentuavam-lhe os contornos sem os esconder; o nariz quadrado na extremidade, repartido em dois lobulos, de narinas amplas e dilatadas, tinha um caracter inteiramente original e unico; a ponto de Balsac dizer a David de Angers em quanto este lhe modelava o busto: «Dê attenção ao meu nariz;—o meu nariz é um mundo!»
«A testa era bella, vasta, nobilissima, muito mais branca do que o rosto, sem rugas, a não ser um sulco perpendicular; as protuberancias da memoria dos logares formavam uma saliencia pronunciadissima, por cima das arcadas superciliarias; os cabellos longos, abundantes, asperos e negros, arripiavam-se para traz como uma juba leonina.
«Quanto aos olhos nunca houve outros que se parecessem com os d'elle.
«Tinham uma vida, uma luz, um magnetismo inconcebiveis.
«Apesar das longas vigilias nocturnas, a esclerotica conservava-se-lhe pura, limpida, azulada, como a de uma creança, ou a de uma virgem, e engastava dois diamantes negros, a espaços allumiados por oppulentos reflexos de ouro. Eram olhos para fazerem baixar as palpebras ás aguias; olhos capazes de lerem atravez das paredes e dos corações, de fulminarem uma féra furiosa: olhos de soberano, de vidente e de domador!»
Madame de Girardin, no seu romance intitulado: A bengala do snr. de Balsac, falla d'estes olhos esplendidos:
«Tancredo avistou então no cabo d'esta especie de masso, turquezas e ouro, cinzeladuras maravilhosas; e por detraz de tudo isto dois grandes olhos negros mais brilhantes que todas as pedrarias.
«Logo que a gente encontrava o olhar d'estes olhos extraordinarios, não podia notar sequer o que as outras feições tinham de trivial ou de irregular.
«As mãos de Balsac eram de rara formosura, verdadeiras mãos de prelado, brancas, de dedos pequenos e redondinhos, unhas roseas e brilhantes; era muito presumido d'ellas, e sorria-se de prazer quando via que as notavam».
Diante d'este retrato é mais facil comprehender o escriptor com a sua admiravel potencia intellectual, e as suas pequenas manias pueris; sympathico, bom, com vaidades inoffensivas, e austeros orgulhos, sedento de um affecto unico, e de uma celebridade que fosse só d'elle.
Nas suas cartas de uma eloquencia irresistivel, volteiam constantemente as duas grandes preoccupações da sua vida—a gloria e a mulher!
«Tenho a alma profundamente triste, escreve elle. Só o trabalho me ampara na vida. Não haverá para mim no mundo a mulher a que eu aspiro? As minhas melancolias e tedios physicos cada dia se aggravam mais, se tornam mais longos e mais frequentes. Cahir d'este trabalho esmagador ao nada mais completo! não ter nunca ao pé de mim aquelle doce e carinhoso espirito da mulher, por quem tenho feito tanto!»
E fez! digam o que disserem os seus detractores, ninguem como elle comprehendeu a mulher,—principalmente a mulher do seu tempo,—nas suas fraquezas, nos seus crimes, nas suas delicadezas occultas, nas suas aspirações morbidas e doentias, nas exigencias despoticas da sua alma e dos seus nervos, nas abnegações sublimes de todo o seu sêr, nas suas vaidades ferozes, no esquecimento absoluto, na abdicação completa de qualquer egoismo, em tudo emfim que ella tem de bello e de feio, de grandioso e de ridiculo, de puro e de maculado.
Que o digam Eugenia Grandet, a mais doce e mais melancolica das suas creações; La Fossette, idylica visão tão sympathica como a Mignon, e mais real do que ella; a condessa de Morsauf, a martyr do dever; a viscondessa de Bauseant, a duqueza de Langeais, madame de Restaud, lady Dudley, a monumental Valeria Marneffe, e tantas outras, tragicas peccadoras, fascinantes, demonios que teem filtros na voz e no olhar; productos de uma civilisação gasta e apodrecida; figuras typicas que hão de ficar umas, caracteristicas da sua época e do seu meio, outras, eternas e sempre verdadeiras como a humanidade!
Em Balsac ha muitas vezes expansões de candido orgulho que seriam ridiculas n'outro homem, e que a elle o tornam mais sympathico.
Tem mais do que a consciencia clara do seu valor, tem uma confiança enorme em si, no seu talento, na sua obra, na sua missão.
Imagina-se apto para todos os misteres, julga-se não só um grande romancista, mas alguma cousa menos—um grande politico!
Escrevendo Seraphita e Luiz Lambert, duas obras que lhe foram inspiradas pelas suas leituras de philosophia espiritualista, e pelas tendencias Swedenborgistas que houve n'elle n'um dado momento da sua existencia, tão intellectualmente accidentada, julga preencher uma grande lacuna, produzir alguma cousa de grande que os seculos vindouros possam pôr ao lado do Fausto!
Curiosa illusão do genio!
Como se houvesse nada menos nebuloso, menos metaphysico do que esse vigoroso realista, observador potente para quem a vida com todas as paixões que a convulsionam e agitam não conservou um unico segredo.
III
São de 1835 as primeiras cartas que na Correspondencia de Balsac apparecem dirigidas a madame Hanska, se bem que já de mais tempo dactassem as suas relações de pura e platonica amisade com a elegante e fidalga mulher, que muito mais tarde foi sua esposa.
Duram cerca de dezesete a dezoito annos estas relações que o tempo modificou, e estreitou tão profundamente, mas desde a época em que esta mulher superior apparece no seu destino, a vida de Balsac tem um profundo e apaixonado interesse.
Vinte horas por dia trabalhava elle então, para conseguir encher aquelle horrivel tonnel das Danaides, que era a sua divida!
Apesar d'isso, lograva ainda roubar alguns instantes a este agro labutar, para escrever umas cartas que todos os criticos hão de consultar no futuro, para conhecerem a fundo a vida e o caracter do prodigioso escriptor.
São caricias ideaes, interrompidas por calculos monetarios, são queixas dilacerantes a que se segue uma longa risada de inoffensiva ironia; porque elle, que soube pintar tão bem os cynicos, os depravados, os terriveis escarnecedores, cujo riso corroia como um caustico, era no intimo bom, quasi infantil; depois confidencias, esperanças, sonhos politicos, sonhos financeiros, sonhos industriaes, planos gigantescos de trabalho, phantasias de artista, desejos de mulher garrida e bonita, observações profundas, divagações poeticas, melancolias de alma solitaria que ninguem na terra sabia entender.
Entendia o ella, a adoravel slava, que vêmos atravez d'estas cartas, altiva para todos, consoladora e maternal para elle; grave, magestosa, fidalga como a sua velha raça, e no entanto cheia de graciosas delicadezas, que endoideciam de jubilo e de amor o plebeu namorado de todos os requintes aristocraticos, o trabalhador eternamente exilado de todas as alegrias do amor, o artista que tão bem sabia avaliar o lado elevado e bello de todos os sentimentos.
É um estudo interessante e curiosissimo vêr como o tom ao principio respeitosamente affectuoso das cartas de Balsac vae seguindo gradações successivas e harmonicas, tornando-se terno, apaixonado, confiante, expansivamente amoroso.
É que madame Hanska, quando elle a conheceu, é uma senhora casada e sinceramente virtuosa.
O adoravel monstro parisiense de juba de leão e olhos de brilho fulvo e diamantino, poude attrahir-lhe a curiosidade, excitar-lhe a imaginação, seduzir-lhe o espirito, mas parou aqui o seu terrivel poder!
E só depois de viuva, quando, sem crime, a altiva dama póde entregar-se á tendencia tão violenta do seu coração, é que ella o acolhe com o abandono de mulher amada e amante, que lhe deixa conceber esperanças que o fascinam, e que por fim as corôas, dando a sua fina mão branca, esguia, principesca, ao pobre artista, ao louco aventureiro do genio, que tão fiel e estremecidamente lhe quiz, em longos annos de casta abstenção.
Mas elle trabalhara, luctara, padecera tanto; por tanto tempo desejara aquelle enlace, que era ao mesmo tempo a realização das suas chymeras de ambicioso, e dos seus sonhos de homem e de poeta; empregára tão violentos esforços para pagar até ao ultimo ceitil a sua enorme divida, para entrar desassombrado e digno na vida conjugal, em que, aos olhos d'esta sociedade ignorante, elle dava tão pouco e recebia tanto; realisára taes prodigios para mobilar, como um artista millionario, o ninho em que havia de receber a adorada mulher que deixava por elle as pompas seculares da sua vida opulenta, que succumbiu ao excesso das fadigas e que ao tocar com os labios sofregos o pômo tantas vezes sonhado, o sentiu esvaír-se em cinzas, como em cinzas se esvaía a sua vitalidade opulenta!
É esta lucta d'um tragico sublime, mais interessante do que todos os romances que Balsac escreveu, que se desenrolla com uma belleza maravilhosa na sua Correspondencia, cuja leitura aconselhamos sem hesitação a todas as nossas leitoras, cousa que não fariamos a respeito da obra do escriptor, apesar da sua incontestavel e radiante formosura.
É preciso ler estes dois volumes para saber como o grande romancista soffreu e como se compram caras as glorias do genio, tão invejadas pela turba.
«Não tenho nem uma hora para chorar, nem uma noite para descançar!», diz elle n'uma das suas cartas.
Madame Hanska é comtudo para o titan, infatigavel e sempre vencedor, a suprema doçura, o balsamo ineffavel de todos os instantes.
«Ó minha querida alma fraternal, tu és a santa, a nobre, a dedicada creatura a quem eu entrego toda a minha vida e toda a minha felicidade com a mais ampla confiança! Tu és o pharol, a estrella luminosa e la sicura richezza senza brama! Em ti comprehendo tudo, até as tuas tristezas e por isso as amo tanto! Comtigo a sociedade moral não existe! eis o grande segredo, o segredo supremo de felicidade.»
Mas para que havemos de fazer citações sempre incompletas e sempre inuteis?
Quem quizer conhecer a que foi esposa e hoje é viuva d'um dos maiores genios da França, que leia o livro de que temos extrahido rapidos trechos.
Vel-a-ha serena, intelligente, instruida, não bella d'aquella belleza juvenil, que agrada aos mais profanos, mas da grave formosura, que envolve o outomno da mulher n'uma nuvem de indefinivel saudade, sabendo curvar a sua gentil e orgulhosa cabeça de madonna ao jugo d'uma elevada ternura, e comtudo conservar intacta a sua dignidade de senhora, duplamente illustre pela virtude e pelo nascimento; tendo para o genio a admiração e a indulgencia; comprehendendo com uma finura toda feminil, feita de talento e de experiencia, o que ha de infantil n'um grande homem, o que ha de fraqueza n'uma potencia intellectual, abdicando todas as falsas vaidades, cultivando em si todos os verdadeiros orgulhos, n'uma palavra a mulher completa, tal como a sonhamos e como quereriamos vel-a mais vezes realisada.
LINCOLN E GRANT
De vez em quando a tela monotona d'esta nossa vida de Lisboa, unicamente bordada de pequeninos cancans politicos, litterarios e sociaes, rompe-se com a chegada, ou para melhor dizer, com a passagem de um viajante illustre.
Em geral os viajantes que por cá apparecem não chegam, passam.
É mais verdadeiro o verbo, embora lisongeie muito menos a vaidade nacional.
Este nosso modesto Jardim da Europa á beira-mar plantado, como a caridosa phantasia do poeta do D. Jayme lhe chamou, tem poucos attractivos que chamem os viajantes.
D'entre os que nos teem visitado, só um, e esse na sua qualidade de mulher tinha amplo direito para se entreter com devaneios illusorios, só um—M.me Ratazzi—descobriu em nós qualidades extraordinarias que nos vaticinam brilhante futuro, além de nos dotar de genios pouco vulgares, de obscuros Shakespeares, para quem soará brevemente a hora gloriosa da fama universal.
A propria M.me Ratazzi se offereceu bizarramente para apressar essa hora, que já ia tardando, não só pondo em prosa franceza a prosa dos nossos escriptores, como tambem encarregando-se ella propria de personalisar, n'um dos eternos theatrinhos que anda armando por toda a parte, as creações mais ou menos formosas dos ditos Shakespeares, desconhecidos.
Será bom que a gente peça a Deus d'aqui por diante nas suas orações mais fervorosas não excitar a dedicada admiração d'aquella illustre, mas indiscreta dama!
Quem lhe manda a ella andar apreguando lá por fóra nossas glorias!
Nós bastamos ao menos para nos applaudirmos mutuamente.
A que vem, porém, todas estas divagações? pergunta de certo a leitora.
E pergunta com muita justiça, porque a minha imaginação, está folle du logis indisciplinada, não tem direito para cansar assim a benevola attenção dos que me lêem.
Vinha tudo isto a proposito de ter estado ha pouco entre nós, vindo embarcar no nosso porto, o general Ulysses Grant, um dos vultos mais importantes da moderna historia.
O apparecimento d'este homem modesto, que foi um heróe, além de ser um grande cidadão, pouca ou nenhuma impressão produziu no espirito dos lisboetas.
Porque, emfim, sejamos justos, o general Grant que direito podia ter á fervida admiração dos seus contemporaneos?
O general Grant não inventou, como o seu patricio Boyton, um apparelho de borracha para andar por cima d'agua; o general Grant não é um palhaço afamado dos que attrahem o High life ao circo Price; o general Grant não tem nem a voz de Manrico ou de Arthur, nem a capa e o chapeu de pluma d'estes cavalheiros; o general Grant não passa de um homem muito vulgar, que salvou o seu paiz na guerra, e que o reconstruiu, desenvolveu, fortificou e engrandeceu durante a paz!
Que significarão estas cousas para quem só gosta de aventureiros e de poseurs?
Nós, porém, é que, lendo que chegara á cidade em que vivemos o ex-presidente dos Estados-Unidos da America, tivemos curiosidade de lançar um relance de olhos, comquanto rapido, sobre a vida d'esse homem singular, d'esse moderno luctador, vida que se nos afigura um estudo proprio para levantar e robustecer o espirito dos que acreditam nos futuros destinos da democracia.
Não é possivel separar na historia os dous nomes de Lincoln e de Grant.
Ambos combateram pela mesma nobre causa, ambos concorreram igualmente para o seu grande e difinitivo triumpho.
O nome de Lincoln tem a suprema aureola que dá o martyrio, o nome de Grant tem o prestigio fascinador que dá a heroicidade.
Nenhum conhece o apparato, a ostentação, esta humilde vaidade que torna os povos latinos tão doudamente namorados de tudo que fulgura.
Ambos elles pertencem profundamente, mais ainda pelo caracter do que pelo nascimento, ao paiz de que são filhos.
Paiz estranho, gigantesco, sempre agitado, onde o homem tem campo vasto para desenvolver a sua multipla actividade, para exercitar e pelo exercicio permanente robustecer as suas varias e complexas faculdades, e onde, tendo de dever sómente ás suas forças individuaes a elevação a que forçosamente aspira, elle tem de empregar n'essa lucta de ambições fecundas todos os recursos, todas as energias da sua intelligencia, todas as riquezas da sua organisação.
O que ha de extraordinario n'estes dous homens é que ambos alcançaram o mesmo fim, ambos partiram da mesma origem, e comtudo não ha nada mais divergente do que o caracter d'elles e os meios que empregaram para subir ao mesmo posto supremo da sua nação.
É fóra de toda a duvida que hoje a ideia democratica tende a triumphar por toda a parte.
É uma ideia que germinou ha dezenove seculos, e que, antes de bracejar e florir á luz crua do dia, lançou até ás entranhas da terra as suas raizes vigorosas, cresceu, medrou, sugou a mais exhuberante e a mais substanciosa seiva, minou lentamente tudo que lhe ficava em torno, e, quando emfim appareceu a todos os olhos, já vinha forte e robusta demais para que ousassem derrubal-a.
A democracia não é um modo de ser transitorio das sociedades modernas; quando as leis e os costumes, quando os acontecimentos e os homens, se modificaram e transformaram á sua grande voz, já ella tinha direito de asylo em todas as consciencias.
Os que a repulsam não desconhecem o feio crime que perpetram.
Os que a atacam são movidos pelo seu proprio interesse, que ella muitas vezes tem de magoar ou de destruir, mas nunca pela sinceridade das suas convicções.
A democracia bem entendida não póde separar-se da ideia da justiça.
Desde que uma despontou sobre a terra, outra começou a apparecer imponente e irresistivel ao espirito dos que sabem ler em vagos prenuncios as transformações fataes de que teem de ser theatro as sociedades.
A democracia não está, pois, destinada a morrer como as outras fórmas sociaes que a precederam, e que não foram senão a lenta preparação do seu triumpho, comquanto pareçam as suas inimigas irreconciliaveis.
Entre os elementos que constituiram o passado, e os que vão constituir o futuro, não ha inimizade, ha incompatibilidade.
Uns teem de succumbir para que os outros triumphem, eis tudo.
N'esta grande evolução que nunca pára, o que ás vezes se nos afigura mais contrario a uma causa é justamente aquillo que lhe está preparando a victoria absoluta.
É bom que tenhamos isto sempre bem presente, para que não sejamos accintosamente inimigos do que foi, nem loucamente vaidosos do que vai ser.
Os acontecimentos não são nunca o resultado de uma causa isolada; são a consequencia fatal de uma lei relacionada com todas as outras, parte que está em perfeita harmonia com o seu conjuncto.
A geração de hoje, e a que foi sua predecessora, fizeram muito, é verdade, em favor da causa democratica, porém não foram ellas que no curto espaço de um seculo semearam o germen, regaram a planta, a viram transformada em arvore gigantesca, e lhe colheram os fructos abençoados.
Seria demais para tão pouco tempo.
É bom que o repitamos: ha dezenove seculos que a humanidade caminha, sem parar um só instante.
Tem tido dias que podem chamar-se seculos, e em compensação tem tido seculos que pódem chamar-se dias; em todo o caso, é porque ella ainda não estacionou que hoje avista emfim o ponto a que se dirigia.
Tenhamos o santo orgulho do que temos feito, mas não desprezemos o que os outros fizeram antes de nós.
A America é o paiz em que o pensamento democratico tem tido mais pratica e mais positiva realização.
Sem entrarmos em considerações que seriam inopportunas, sem analysarmos todas as condicções excepcionaes que favoreciam este povo, para que elle pudesse, mais do que nenhum outro, dar uma forma real ao que tem sido o sonho de tantos utopistas e de tantos martyres, basta-nos percorrer rapidamente a vida dos dous homens notaveis de que fallamos para conhecermos a fundo quanto os costumes, as ideias, as leis, os sentimentos do povo americano estão profundamente penetrados do principio da igualdade de condições, que é no fim de contas a base de toda a verdadeira democracia.
Tanto Lincoln como Grant sahiram das mais humildes posições sociaes.
Lincoln foi até aos vinte annos carpinteiro e barqueiro; Grant foi até aos trinta e tantos annos operario como seu pae, operario humilde e obscuro.
Se me perguntarem qual dos dous me inspira mais sympathia, responderei que prefiro Lincoln.
Ambos teem a suprema distincção da honestidade, esta virtude moderna, que é indispensavel aos grandes homens, os quaes tinham d'antes ampla licença para serem aventureiros felizes, sem por isso deixarem de ser admiraveis e admirados.
Mas, emquanto Grant é simplesmente um homem de energia inquebrantavel, e de espirito positivo e clarissimo, Lincoln, que é tambem isso, é mais ainda do que isso, porque é uma alma de poeta.
De poeta, sim; não se riam, minhas queridas leitoras.
A poesia que se escreve é muito inferior áquella que se sente e que se pratica.
Não admira que a alma do martyr americano se colorisse na mocidade de todas as tintas opulentas da genuina poesia.
Elle conhecêra de perto a natureza grandiosa do seu paiz; ouvira, humilde, pobre, talvez inconsciente, o que diz no silencio das noites ou no acordar festivo das madrugadas a voz sonora, grave, religiosa das florestas insondaveis.
Depois, o seu primeiro livro, aquelle em que aprendeu a lêr na obscura escola da terra em que vivia, o que mais o inspirou, o que lhe deu adoraveis côres para as suas tão finas parabolas, eloquencia e uncção para advogar a causa de tantos milhões de parias, arrojo, audacia e valor para proclamar a redempção dos seus irmãos escravos—e escravos na terra onde uns poucos de homens intemeratos tinham vindo erguer o estandarte da liberdade, desconhecido na Europa—o livro, emfim, da sua mocidade foi a Biblia, o grande, o immutavel poema, o maior de todos, porque não é o poema de um homem, é o poema de um povo.
Lincoln teve, como todos os poetas do coração, o culto mais profundo pela mãe.
—Tudo que sou a ella lh'o devo,—dizia.
E, no entanto, ella morrêra-lhe quando o filho contava apenas dez annos, e fôra em vida uma creatura simples, uma alma ingenua e ignorante.
Quem póde, porém, affirmar que não existisse uma communhão mysteriosa entre a alma da mãe e o espirito do filho!
Quem sabe se a ella lhe faltou apenas cultivo esmerado para ser uma creatura superior, e se a creança rude e obscura, que foi mais tarde o grande homem e o grande martyr, não deveu as qualidades que o tornaram tão distincto á influencia occulta da que o gerou no seio?
Como quer que seja, a verdade é que o pobre operario conseguiu á força de estudo—estudo ainda assim que nada teve de methodico—improvisar-se advogado.
Lincoln n'esta nova posição, conquistada pela sua energica vontade, tinha uma singularidade que deve espantar altamente: só acceitava a defeza de causas justas.
A feição mais caracteristica do espirito de Lincoln é uma jovialidade conceituosa, uma malicia benevola, uma graça de moralista, que faz das fabulas e das parabolas armas infalliveis de argumentação.
Nunca se deu ao trabalho de improvisar arrojos de eloquencia, tinha sempre ao serviço das suas convicções umas anecdotas a um tempo cheias de graça e de bom senso, umas pequenas historias que deitavam por terra toda a laboriosa rethorica dos adversarios.
Aos trinta annos o advogado modesto viu-se de repente orador popular e candidato á legislatura da sua terra.
Não que elle fizesse nenhum d'esses discursos tribunicios que arrastam e enthusiasmam as massas, mas sempre pela força irresistivel do seu bom senso, que era tão raro e tão completo, que o punha a par dos homens de genio.
Todos conhecem a vida de Lincoln, que, depois de ser um dos oradores mais populares e mais queridos das reuniões publicas do seu paiz, foi duas vezes eleito presidente dos Estados-Unidos, e durante os ultimos annos da sua vida gloriosa sustentou e venceu uma das guerras mais assoladoras dos modernos tempos, e arrancou da terra que lhe deu o sêr essa lepra—hoje felizmente desconhecida no mundo civilisado—que se chama escravidão!
Foi pouco tempo depois de ter assignado o decreto que remia dos horrores do captiveiro quatro milhões de desgraçados, que Lincoln, um dos heróes da humanidade, um dos santos, um dos conquistadores, um dos martyres de que falla com mais louvor a historia, cahiu morto, ás mãos covardes de um assassino!
Nada mais pathetico e de uma tristeza mais commovente e mais profunda do que a descripção do funeral do libertador da patria, do grande emancipador da raça escrava.
O seu cadaver, consagrado pela admiração d'esse povo gigante, foi levado de capital em capital, desde Washington até á pequenina cidade de Springffel, patria de sua mocidade laboriosa e humilde.
Foi um caminho de triumpho, que lembrava, mas de bem diverso modo, o caminho que elle andara em vida, desde a sua terra pequena e pobre, até á grande capital, onde o tinham levantado á primeira magistratura do paiz.
D'alli voltava elle agora, martyr da sua causa que era a causa da patria, da humanidade da pura democracia, e que deixára vencedora e triumphante.
Não póde haver existencia mais cheia, não póde haver gloria mais pura, nao póde haver destino mais digno de admiração.
Grant, que fôra desconhecido até muito mais tarde do que Lincoln, revelou-se d'outro modo á attenção dos seus patricios.
Longe de ter a facilidade graciosa do espirito do seu predecessor, o espirito de Grant era acanhado e silencioso. Na infancia e na mocidade nenhuma superioridade visivel o distinguia dos seus companheiros.
Educado á custa do Estado na escola de West-Point, sahio d'alli como alferes graduado do 4.o regimento de infanteria, e partindo para a guerra do Mexico, distinguiu-se ás ordens do general Taylor no cerco de Vera Cruz.
Depois de sete annos de serviço, em que se mostrou sempre militar valente, pediu a sua demissão, e estabeleceu-se como simples rendeiro no Missouri, proximo de S. Luiz.
Muito pobre, se bem que muito trabalhador, tendo já quatro filhos, Grant não tinha remedio senão ir elle proprio vender as madeiras da sua matta á cidade de S. Luiz, e muitos habitantes d'essa cidade se hão de lembrar ainda de vêr aquelle homem agil, laborioso, calado, quasi mudo, passar na sua carroça, ao galope dos cavallos, que sempre teve bons, descarregar a lenha que trazia, e partir de novo, tão mal trajado, que muitos dos seus antigos camaradas do exercito se envergonhavam de se darem por conhecidos d'aquelle grotesco figurão.
Não lhe correu, porém, favoravel a fortuna, apesar da energia com que elle trabalhava.
E o futuro presidente dos Estados-Unidos, cançado de luctar em vão contra a má sorte, voltou para junto da sua familia, que toda vivia do commercio dos couros, e começou tambem a trabalhar n'este humilde ramo de industria.
Foi d'esta posição, de que na nossa aristocratica Europa ninguem era capaz de sahir, por mais que soubesse e por mais que valesse, que Grant subiu a commandante em chefe do exercito dos Estados-Unidos, e depois a presidente da Republica.
Como? porque?
Eis o que só se comprehende comprehendendo bem a indole do povo americano.
Subiu mesmo pelos motivos que entre nós inutilisam os homens.
Subiu porque conhecia a miseria e o trabalho; por que não o amedrontava o perigo, porque tinha a energia concentrada e omnipotente dos que, tendo nascido para altas emprezas, são longos tempos esmagados pela desgraça.
Elle era destemido e energico, tinha—não a instrucção—mas a intuição guerreira; antes d'elle o norte fôra sempre vencido pelo sul, na terrivel guerra civil, que começára em 1861; depois d'elle apparecer succederam-se rapidas e brilhantes as victorias do norte.
Em 1865 a auctoridade federal restabelecia-se em todo o territorio dos Estados-Unidos, o general Lee aceitava a capitulação de Richmond, e Lincoln entrara na cidade que o fogo destruira, descobrindo-se diante dos miseraveis negros, que recebiam pela primeira vez n'aquella homenagem, a confirmação da sua dignidade de homens.
Foi um anno de triumphos devidos á audaciosa iniciativa do general Grant, que além da bravura do soldado, tinha em alto grau a bravura do general.
Tão excepcional foi sempre a sua energia, como são raras as suas palavras.
Os seus ditos, de uma concisão antiga, nas horas de crise de sua vida, são dignos de ficarem registrados pela historia.
Nenhuma ostentação, nenhuma pretenção nos seus modos excepcionaes.
Na carreira triumphal de militar e de cidadão conservou o seu feitio de rude agricultor ou de obscuro operario.
Não admira que a morte de Lincoln désse o posto supremo a Grant.
Lincoln fôra o advogado de uma causa da qual Grant foi o guerreiro.
A herança era logica a natural.
Quando o elegeram presidente, Grant respondeu com esta simples carta á communicação que recebera:
«Procurarei applicar as leis com boa fé, e serei economico. Tenhamos paz, emfim.»
Esta carta define-o.
Elle não tinha levantadas theorias, não tinha planos concebidos, não tinha presumpçosos systemas.
Estava resolvido a ter economia, boa fé, respeito ás leis.
Todo o segredo de uma administração magistral.
E quantos obstaculos encontrára!
Tudo em roda d'elle eram vestigios do assolador flagello que passára, desvastação, fome, miseria; que vasto campo, e ao mesmo tempo que missão perigosa e difficil!
Pois cumpriu-a.
Cinco annos depois de finda a guerra já o exercito estava dispersado; mais de oito mil homens tinham ido com os seus braços dar um novo impulso á agricultura, á industria, ao commercio, a todos os ramos uteis da actividade de um povo.
As leis eram rigorosamente executadas, a divida diminuira, a protecção aos antigos escravos estava plenamente confirmada, a America emfim entrava definitivamente em uma phase de reconstrução e de prosperidade.
E tudo isto se devia á energia, á intelligencia, á actividade de um só homem.
E este homem, tão modesto na apparencia, tão laconico nas fallas, tão simples no viver, este homem que recusa recompensas apparatosas, porque julga que a suprema recompensa é a da propria consciencia, este homem que póde apresentar-se como a personalisação da democracia moderna, é o mesmo que Lisboa ha pouco viu passar com a estupida e distrahida indifferença que ella tem para tudo que é verdadeiramente grande, e por isso mesmo despretencioso e simples.
AS FILHAS DE VICTOR HUGO
Ha pouco tempo um escriptor francez desconhecido entre nós, o sr. Gustavo Rivet, publicou um livro intitulado Victor Hugo chez lui, no qual pinta o grande poeta francez, surprehendido, por assim dizer, na intimidade dos seus pensamentos, de seus gostos, das suas attitudes mais familiares.
Desce do pedestal onde a nossa phantasia se compraz em o collocar, o poeta da Lenda dos Seculos, e mostra-nol-o com a robe de chambre e os pantufos de qualquer honesto rentier do Marais.
Victor Hugo não perde em ser visto assim.
A sua alma amantissima, desnudada diante do nosso olhar corresponde positivamente a tudo que d'ella esperavamos.
O avô brincando no tapete do seu quarto de trabalho com a graciosa Joanninha que a Art d'être grand père immortalisou, não desmente de modo algum o justiceiro implacavel dos Châtiments.
Comtudo não é o pae de familia, que nós vamos hoje estudar em Victor Hugo, como o nosso titulo um tanto phantasista parece estar indicando.
As filhas de Victor Hugo, que nós tentaremos apresentar diante dos olhos das leitoras, não são as filhas do seu matrimonio de simples mortal, são as radiosas filhas do seu genio, as visões illuminadas que elle evocou com palavras de mysterioso encantamento d'esse Olympo inaccessivel onde vivem e nascem as creações immortaes dos grandes artistas.
Para nós que temos vivido da palavra do mestre, que temos seguido com enternecimento apaixonado todas as phases do seu espirito, essas mulheres ideaes é que são as suas verdadeiras filhas. Que nos importam as outras no fim de contas, se atravez d'estas é que elle se revelou tal como é?
Todos os artistas de primeira ordem criam um typo de mulher, em que consubstanciam e sinthethisam todos os sonhos que tiveram, todas as aspirações que tem concebido.
A mulher que elles fazem viver com a penna, se são poetas, com o escopro ou com o pincel, se são estatuarios ou pintores, não é como alguns querem que seja, a mulher que elles amaram: é mais do que isso, é a mulher que elles queriam amar!
Para essa é que a sua lyra tem cantos mais ardentes, o seu cinzel mais avelludadas caricias, a sua palêta côres mais suaves, a sua penna traços mais vivos, analyses mais delicadas, intenções mais graciosas e mais finas.
E como o coração dos homens é tão vasto que n'elle cabem dous cultos que se não prejudicam mutuamente, quasi sempre esses artistas de que fallamos tratam com o mesmo primoroso esmero dous typos de mulher bem diversos, e que representam como a dupla face do seu modo de sentir.
Um d'elles personifica a virginal creança cujas seducções mais irresistiveis se chamam innocencia, pudor, candura, ou ignorancia; lyrios que o orvalho da manhã corôa com um diadema de perolas, lyrios que uma aragem mais quente crestaria, e que o contacto de uns dedos brutaes lançaria por terra murchos e amarrotados. Outro, a mulher na plena posse da sua perigosa soberania, a mulher sereia que encanta e embriaga e mata, consciente dos seus maleficios, e gosando do seu fatal poder!
Consoante o espirito do artista se enamora da sombria belleza do mal, ou da immaculada candura do bem, assim elle trata com mais delicada predileção o eterno feminino que representa uma das faces do mesmo problema insoluvel.
Porque o homem grande ou pequeno, intelligente ou mediocre, ha de sempre amar a mulher debaixo de qualquer d'estas duas formas, ou antes debaixo d'ellas ambas.
Até os bons nas suas horas de perversão, nas crises em que no coração d'elles triumpha a porção de dominio que ha até mesmo na alma dos anjos, hão de sentir-se attrahidos por este mysterio luminoso e sombrio, que na arte pagã se chamou Circe ou Helena, que na edade média foi Melusina, que na Renascença foi Imperia ou Lucrecia Borgia, que os modernos emfim conhecem debaixo de tantos nomes, que o genio de tantos homens tem revestido de prestigio magico e de superior fascinação.
Os maus... escusado é dizer que os maus, só n'essas mulheres symbolos do mal, symbolos de todas as seducções insalubres, hão de achar a graça magnetica que arrasta e que enlouquece.
Não é por isso de admirar que todos os poetas as tenham cantado, que todos os romancistas as tenham descripto, mas na feição peculiar que cada um d'elles dá ao modo por que as estuda e as pinta, é que consiste a superioridade ou inferioridade do eterno typo.
Quanto ás outras, ás boas, ás candidas, ás angelicas, poucos as comprehendem na sua genuina e original pureza, e os que as souberam comprehender teem produzido obras primas!
Shakespeare é o poeta a quem se deve uma galeria mais radiosa e pura d'estas divinas creanças impeccaveis.
Umas absortas n'um sonho de eterna tristeza, envoltas como que n'um presentimento de inevitavel desdita, como Ophelia ou Desdemona; outras deixando florir nos labios frescos a rubra flôr da alegria matinal, mas todas lindas, e meigas e innocentes, todas fazendo crer no bem até os mais cynicos.
Victor Hugo tem, como Shakspeare, d'estas criações risonhas e sympathicas.
As mulheres de um como as mulheres do outro, téem na alma um pouco da alma das aves.
Téem a ligeireza alada do sonho, téem a graça imponderavel das visões.
Não ha ninguem que não quizesse ter por filha uma d'essas creanças borboletas; não sei se todas as quereriam para esposas.
E no entanto são boas, de uma doce bondade inconsciente que d'ellas se exhala como o aroma se exhala da flôr; mas tambem as creanças são boas, e comtudo ninguem como ellas sabe ser engenhosamente cruel.
Victor Hugo com a sua alma de forte, que não precisa de auxilio, e não precisa de guia, não comprehende a mulher como os modernos aspiram a encontral-a.
Não quer a companheira robusta d'esse athleta moral, que é o luctador de hoje; não quer a mulher de animo reflectido, de coragem viril, de consciencia illuminada e austera, que na hora do perigo ou na hora da vacilação criminosa, arrasta ao impulso da sua voz o espirito do homem esmorecido ou duvidoso.
Elle, cuja vida tem sido uma ascenção progressiva para o bem, elle, que não precisa d'outra bussola que não seja a luz interior que nunca se apaga nem bruxoleia, não teve necessidade de crear ao lado de Marius, ao lado de Didier, ao lado de Gennaro, ao lado dos seus altivos heroes, uma mulher forte que os auxiliasse e fortalecesse na grande lucta do bem!
Oh! não era de força que elles careciam.
Era de luz nas sombras do seu caminho sombrio!
Didier saberia resistir ás seducções da criminosa voluptuosidade; Hernani saberia responder ao sinistro som da trompa funeraria; Gennaro saberia confessar as suas indignações austeras e os seus odios inquebrantaveis; Marius saberia amar a honra impolluta como as virgens, brilhante como as espadas, implacavel como a eterna justiça.
Do que elles precisavam era de risos, de flôres, de caricias e de beijos.
Precisavam de quem os arrancasse á contemplação do seu deslumbramento ideal e lhes dissesse ao ouvido ternamente, melodiosamente:
—Olha! eu sou a graça, sou a poesia, sou o esquecimento, sou a embriaguez. Tenho só um nome, que vale por todos e a todos sobreleva: eu sou o amor!
E não são mais nada as mulheres creadas pelo genio portentoso de Hugo!
O amor, sempre o amor.
O amor egoista, o amor cego, o amor absorvente, exclusivo, com os seus pudores instinctivos, as suas ignorancias virginaes e as suas aspirações insaciadas a fatalidade irresistivel da sua força!
No seu primeiro drama, Hugo todo imbuido das ideias cavalleirescas do romanceiro, creou um typo de mulher que é talvez um dos mais bellos da sua formosa e radiante galeria.
Dona Sol sabe amar impetuosamente, ardentemente, e n'esse amor que é a nota predominante do seu caracter, encontra força para todas as resistencias viris.
Como ella é dôce e humilde enlaçada pelos braços valentes do seu senhor, do seu leão das montanhas, do seu principe bandido, do seu rebelde e indomavel cavalleiro!
Sorrisos, olhares, vozes, caricias, tudo é de velludo!
Um desejo d'elle, tem-na escrava! no entanto sabe por instincto, que elle o heroe, o forte lhe não póde pedir cousa alguma que a filha de um paladino das Hespanhas deva recusar envergonhada.
Quem dirá que aquella graça póde fazer-se indignação, que aquella flexibilidade ondeante póde transformar-se em revolta implacavel?
É que n'ella ha de tudo! porém esse tudo é simplesmente amor.
Appareça outro que a requeste, outro que ouse amal-a, e a pomba saberá ser leôa, para defender o seu thesouro!
Mas de que lhe vem a força com que ella domina, a indignação austera que a transfigura? Do coração.
As mulheres de Hugo não pensam, não raciocinam, amam! Isso lhes basta.
E se a fome ás vezes as perde, se a maldade e a perfidia do homem as arrasta, nunca o amor deixou de as redimir.
Para ellas o amor não é a perdição, é o resgate!
Vêde Marion, a cortezã incredula, a serpente de enganosas caricias, que um sentimento verdadeiro purifica e exalta, e que d'elle recebe uma nova e mysteriosa virgindade! Vêde Eponine, a filha das lamas de Pariz, a quem um olhar de Marius inocula o amor, o sacrificio, a abnegação e a heroicidade!
Mas—contradicção á primeira vista inexplicavel e que no fundo tem talvez uma significação sublime—o amor que transfigura e santifica e illumina as peccadoras, torna egoistas, torna ingratas as puras!
Eponine immola-se, porque ama, e Cosette, porque ama, esquece tudo que não seja o seu amor, e com a mesma pequena mão com que abre a Marius os paraisos inacessiveis enterra o punhal no seio de João Valjean!
Marion, de Magdalena impudica e triumphante, levanta-se Magdalena arrependida e piedosa, e Esmeralda não tem a esmola, a caridade de um sorriso bom para Quasimodo!
Porque?
Ah! é que umas são a ignorancia na sua perfeição mais divina, outras guardam na bocca o gosto amargo de todos os fructos vedados que teem devorado!
Umas não conhecem nada para além da nuvem iriada que as envolve e lhes intercepta o mundo, outras possuem a medonha sciencia que é feita de todas as decepções, de todas as agonias, de todos os tedios, de todos os remorsos, de todas as nauseas da vergonha e do desprezo proprio!
Umas entram no amor, triumphantes, immaculadas, curiosas, ébrias de harmonias nunca ouvidas, sedentas de alegrias nunca sonhadas, absortas pela radiante visão que as transporta a mundos desconhecidos.
Viviam d'antes? tinham affectos? prazeres? distracções?
Não sabem.
Sabem que as inundou a luz de um olhar, e que, a essa luz, viram o que nunca tinham visto, esqueceram tudo mais que fôra seu.
As outras vão alli á porta d'aquella região de que hão de ser as eternas exiladas, pedir a esmola de um perdão, a caridade de umas horas de esquecimento.
E em troca d'esse consolo supremo a que se julgam sem direito, são capazes de todos os sacrificios, de todos os renunciamentos sublimes que inventa a mulher depois de ter perdido a esperança de ser feliz.
Leitora, estás cansada das chatas e incaracteristicas figuras que tens encontrado na vida real? Entristecem-te dolorosamente os typos hediondos ou repugnantes da moderna arte?
As Gervasias, as Bovarys, as Fannys, as peccadoras da França juvenil?
Pois bem, deixa que desfile por diante do teu olhar pensativo a gloriosa legião das filhas de Victor Hugo.
Oh! crê que não aprenderás com ellas cousa alguma que rebaixe o teu espirito, que fira o teu coração, que surprehenda cruelmente o teu entendimento.
Ellas sabem todas o que é o amor, muitas o que é o arrependimento, o remorso, a vergonha, a expiação; nenhuma sabe o que é o triumpho impudico do vicio, a ostentação criminosa das vaidades mundanas, a impenitencia immoral das que medram no meio do crime.
As peccadoras contar-te-hão a dolorosa historia das suas amarguras, as virgens a doçura sonhadora dos seus extasis!
Amaram, acreditaram, sentiram na plenitude do coração que a vida é boa, e que o paraiso póde encontrar-se n'um canto da terra.
Não sabem nada de toilettes, de pequenas intrigas, de namoros, de vicios mesquinhos, de invejas e de tagarelices; atravessaram o mundo com os olhos fitos n'outros olhos, com as mãos enlaçadas n'outras mãos, com a alma a cantar-lhes um hosanna de mysticos arroubos!
Se queres estudar os escaninhos caprichosos de um coração de mulher bonita e garrida, não as procures, mas tambem lhes não peças que te fallem nos nossos piedosos e obscuros deveres de todos os dias.
São as hallucinadas do amor! Arrastou-as uma tempestade para outras espheras ardentes onde se não vive a vida que conhecemos!
Vê tu—Esmeralda! que bem posto nome!
Toda ella scintilla ao sol como a pedra preciosa que lhe serviu de baptismo; os seus dedos de gitana crestados e finos arrancam ao pandeiro do seu paiz doidos e extranhos sons! Fascina com um olhar inconsciente dos seus olhos de velludo, com uma nota da sua voz crystallina, com um meneio do seu corpo de serpente.
Que sabe ella da vida? Nada; a não ser que a vida é bella, visto que ha dous olhos que ao fixar nos seus os banharam de fulgor!
E Cosette! vive ao pé d'ella um enygma sombrio! um espirito sobrehumano! um luctador d'estas luctas interiores cujo reflexo se estampa na frente que as encerra.
Ella nunca interrogou essa alma, e nunca tentou decifrar esse enygma, e nunca sequer comprehendeu a existencia d'essas luctas.
Ao seu companheiro triste, humilde, heroico, adoravel ella deve durante quinze annos a ventura mais perfeita que póde gosar-se na terra.
Satisfez-lhe todos os desejos; todos os brinquedos d'aquella fada, encarregou-se de os fornecer a natureza na liberdade plena, nos seus idyllios primaveris! Estava na escuridão, e deram-lhe luz; era escrava fizeram-n'a rainha.
Não importa! Marius appareceu e Cosette louca, deslumbrada, esquecida, deixa morrer de dôr o amigo da sua risonha mocidade.
É má?
Não; é ignorante. Não sabe que se morre visto que elle vive na posse de uma ventura que nunca até alli conhecera.
Não sabe que se tem saudades, porque ao pé de Marius nunca esse espinho lhe mordeu no coração!
Pois é possivel ser desgraçado quando eu sou tão feliz! pergunta tacitamente com barbaridade que se ignora, cada um dos sorrisos de ventura que ella atirara em redor de si, sem se importar onde lhe vão cahir!
Ai! Cosette, Cosette! eu gosto de ti, borboleta, ébria de luz! és uma das visões luminosas que ficarás para sempre moça e querida! és uma estatua branca que ninguem ousará mutilar e que os seculos verão erguida no teu pedestal de flôres! Mas como eu te amaria muito mais ainda se em vez de seres o Amor fosses o Sacrificio!
Um dia Victor Hugo pediu ás neblinas matinaes dos climas do norte, uma porção de renda branca e transparente com que ellas corôam a crista das montanhas e... fez Déa!
Que doce, vaporosa e lendaria visão!
Não ha n'ella cousa alguma que seja realidade!
Toca na terra ao de leve; não tanto que pareça filha d'ella, não tão pouco que lhe não seja dado consolar alguem votado ás dores sem consolo.
É cega!
Amada por um monstro sabe verter-lhe n'alma as alegrias de um Deus!
Não vê o homem que a ama, vê o amor de que elle a veste!
Abençoada cegueira que faz dous felizes!
Ao lado d'ella—supremo contraste!—sorri Josiane com o seu sorriso de deusa pagã!
No olho azul da patricia ingleza scintilla em chispas uma diabolica ironia.
Josiane é a amante do impossivel! Procura o que nunca ninguem achou!
Quer um sonho que a sacie, o amor de um Titan, ou de um cyclope, o amor de Apollo ou de Polyphemo!
Estranha figura, producto doentio de uma noite de febre!
Dona Sol, Maria de Neuburgo, Marion, Eponine, Cosette, Déa, quantas figuras radiosas, quantas humanições esplendidas da mulher sonhada!
Nas horas de desalento ou de amarga duvida, nas horas em que as miserias que nos cercam, nos fizeram encarar a vida pelo seu aspecto mais desolado e mais escuro olhemos para ellas!
Dir-nos-hão os poetas de hoje que ellas não existem, e, o que é peior, que ellas não puderam existir nunca.
Oh! é bem triste, é bem esteril a arte que só trata de rebaixar o que em nós é de mais elevada essencia, e só quer que vejamos a fatalidade brutal do instincto, onde viamos d'antes a fatalidade mais nobre do sentimento.
Não acreditemos o que elles nos dizem, porque na sua preoccupação exagerada do horrivel, elles mentem muito mais do que os outros mentiam na sua preoccupação exagerada do bello!
Estes reunindo todos os vicios e hediondezas que encontraram dispersos n'uma só figura, conseguem apenas crear... um monstro, um ser hybrido e infecundo que a ninguem aproveita!
Os outros synthetisando n'uma filha do seu genio as harmonias, as feições, os encantos, que estudaram e amaram em toda a natureza, conseguiram alguma coisa mais!
Crearam o ideal immutavel e eterno e ensinaram-nos a fitar n'elle os olhos da nossa alma, e a invocal-o como um consolo adoravel nas nossas horas de desalento e de agonia.
FIM