PRIMEIRA PARTE (continued 2)
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Uma estufa de plantas raras, de extranho colorido, de fórmas phantasticas e inquietadoras, de cheiro irritante e acre; taboleiros de gazon d'uma frescura esmeraldina, camelias, rosas, trepadeiras floridas, tudo que as tyrannias da arte teem misturado nas liberdades da Natureza.
O visconde depois de haver-se rodeado de tudo que póde tornar aos ricos a vida não só aprazivel o que é pouco, mas invejavel o que é muitissimo, começou a grangear relações, e a receber com bizarra hospitalidade os amigos que durante o inverno adquiria nas salas da capital.
Em Lisboa não era menos rica, nem menos confortavel, a habitação do millionario.
Vastos salões ricamente mobilados, equipagens de alto estylo, criadagem insolente e ociosa, escadarias alcatifadas, bailes e ceias onde toda a côrte concorria tão cheia de curiosidade como de gulodice, jantares aos quaes eram convidados os ministros, os titulares, os diplomatas estrangeiros e os funccionarios mais influentes, tudo emfim que póde dar á vida um aspecto opulento e principesco, tudo que constitue o orgulho supremo dos mediocres e a inveja brutal dos ambiciosos.
De resto o dono da casa era tão pouco conhecido da maioria dos frequentadores das suas festas, que mais d'um o tomou pelo criado de si mesmo, e lhe pediu com desdenhosa insolencia, o paletot, ou um copo de agua.
O visconde enviuvára antes de deixar o Brazil, e os que haviam conhecido sua mulher, não lamentavam que a pobre senhora fosse dispensada pela Providencia de assistir á espectaculosa mise-en-scéne da vida dos que tinham sido seus.
O visconde tivera do seu matrimonio, duas filhas e dois filhos.
Na epocha em que elle maior ostentação desenvolvia, teriam as meninas dezoito a vinte annos.
Tinham sido educadas em casa, por uma mestra franceza escolhida pelo pae. Vestiam-se da Aline, quando não mandavam vir directamente de Pariz as suas toilettes extraordinarias, e sempre muito além da moda.
Usavam tudo que havia de mais excentrico. Os chapeus mais pequenos, ou os chapeus de mais largas abas, os vestidos que deixassem vêr o pé todo, ou os vestidos cuja cauda roçagante lembrasse um manto de rainha... de theatro.
Havia tempos em que usavam na cabeça o cabello de uma duzia de mulheres, e outros tempos em que appareciam de repente de cabello cortado como os rapazes, encaracollado e de risco ao lado.
Timbravam em não se parecer com mais ninguem.
Mas não podiam eximir-se a um defeito especial que as fazia darem muito na vista. Occupavam-se extremamente de si.
Fallavam do seu boudoir, das suas toilettes, das meias de sêda de tres libras ou doze mil réis—as unicas que traziam—, do elegante edredon do seu leito, das finas perfumarias do seu toucador.
Isto fazia rir com riso amarello as amigas mais intimas, que diante de gente, costumavam puxar-lhes pela lingua.
De resto as filhas do visconde seguiam rigorosamente os preceitos e regras da alta-vida.
Tinham assignatura em S. Carlos, para serem vistas, e frequentavam assiduamente a egreja, para se parecerem com as filhas de condes pallidas e anemicas, cujo luxo superior é a devoção e a caridade, diluidas ambas as cousas em pequeninas praticas de todos os dias.
Sabiam conversar pouco mais ou menos sobre tudo, sendo no fundo d'uma crassa ignorancia ácerca de todas as cousas.
Como dissemos fôra franceza a mestra que as dirigira. Dera-lhes o verniz da educação, e mais nada.
De linguas sabiam o bastante para conversarem com os diplomatas; de musica, para criticarem o physico das cantoras; de artes para revellarem a cada instante a negação profunda que tinham para o bello.
Respeitavam e invejavam todas as superioridades sociaes; o dinheiro, a fidalguia herdada ou comprada, a posição, as honras, a formosura.
Desprezavam profundamente uma só cousa: a pobreza.
Quando viam alguem pobre, pouca ou nenhuma attenção lhe prestavam; mas se esse alguem tivesse a inaudita ousadia de apresentar uma ideia, uma opinião, um juizo, de contrarial-as, de escarnecer alguma das cousas que ellas acima de tudo reverenciavam viam-as então revellar um pasmo sincero, um espanto que tinha o seu quê de tragicamente ridiculo.
Um dia ouviu alguem a uma d'ellas este aphorismo extraordinario.
Quem é pobre não tem opinião.
E tinham um modo de levantar a voz, de alçar altivamente a cabeça, de sublinhar vigorosamente as palavras, que mais do que tudo confirmava que ellas como pessoas que possuiam duzentos mil réis por mez, só para os seus alfinetes, não tinham nunca imaginado sequer a possibilidade de não terem razão.
Era uma maneira não menos auctoritaria, porém menos correcta de dizer o que á senhora de Stael disse um dia a duqueza de la Ferté.
Il n'y a que moi, chère amie, qui aie toujours raison.
Ahi estão pouco mais ou menos as duas filhas do visconde.
O filho mais velho, que partilhara no Brazil os primeiros trabalhos e as primeiras luctas de seu pae, adquirira com a victoria d'elle, que era tambem sua, o mesmo ar de ingenua superioridade.
Tinham trazido do Brazil uma fortuna collossal, logo tinham o direito de dominarem onde quer que estivessem.
Toda a gente que frequentava a casa d'elles, que lhes aturava a impertinencia boçal, confirmava pela sua servil condescendencia esta convicção; porque é pois que não haviam de a sentir?
O primogenito do visconde occupava-se muito, com verdadeira alegria de seu pae, de cifras e de operações bancarias; jogava em fundos extrangeiros, tinha a vocação mercantil pronunciadissima, e nos intervallos que estas occupações transcendentes lhe deixavam, governava um carro, e mandava correr os seus cavallos.
Estivera em Londres, quando lá fôra deixar n'um collegio o seu irmão mais novo, e voltara com certas aspirações a gentleman rider.
Fallava pouco, com ar sacudido, apressado, sentencioso.
Usava suissas e vestia d'um alfaiate inglez. Queria ser homem sério, respeitavel, homem de pezo, e pensava n'uma candidatura como n'um pedestal proprio para as suas attitudes.
É no meio d'esta familia admiravelmente feita para a sua epocha e para a posição que tem, que vamos encontrar Gastão, o ultimo filho do visconde, um phenomeno destinado a contrariar tudo que se tem dito e escripto sobre a lei da hereditariedade.
Gastão tem vinte e um annos, é alto, delgado, d'uma constituição tão delicada e nervosa, que ao lado de suas irmãs com o seu ar masculino e as suas inflexões duras, elle é que parece a mulher e ellas é que parecem os homens.
Dizem os que um dia se atreveram a chasqueal-o pelo ar timido e suave que apparenta, que nos seus olhos azues, d'uma expressão triste e soffredôra, passou um relampago de colera, pouco tranquilisador para os que abusarem da sua excellente educação.
Gastão da Silveira, chegara havia pouco d'uma viagem que fizera pela Europa, depois de concluir a sua formatura n'uma Universidade de Inglaterra.
Da sua familia não sabia senão que era rica, e que vivia grandemente, como elle tinha visto viver os opulentos banqueiros inglezes, nas suas deliciosas casas dos arrabaldes da cidade, confortaveis e luxuosas.
Esta informação não lhe faltava porque seu pae, suas irmãs, seu irmão mais velho, nunca se cançavam de lh'a repetir em todas as cartas.
Isto porém não bastava a Gastão. O que elle desejaria profundamente, era conhecer a fundo o caracter dos seus, e o que d'esse caracter lhe revellavam as cartas seccas e laconicas de que fallamos, teimava elle na sua fé juvenil, em não o acceitar como prova ou como manifestação.
Tinha pelos seus amigos e condiscipulos conhecido a vida ingleza em relação á familia, fôra convidado para passar as ferias, em casa de ricos industriaes na companhia de alguns dos seus mais caros collegas de estudo, e podera conceber um ideal realisavel, de paz, de conchêgo, de conforto domestico, que anciava encontrar no seio da sua familia.
Tinham-lhe dito que seu pae ganhara pelo trabalho a grande fortuna que possuia, e Gastão habituado a observar a actividade enorme, incansavel, persistente, a fecunda actividade ingleza, sentira crescer o amor pelo visconde ao saber a tenacidade com que elle trabalhara.
Intelligente, d'uma intelligencia fina e delicada, a viagem que fizera desenvolvera-lhe o espirito, e afinara-lhe o gosto.
Voltava cheio de ideias, de factos, de noções praticas, respeitando acima de tudo a intelligencia, e a dignidade da vida.
Como homem educado ao contacto da vida inglesa, avaliava o dinheiro mas não como um fim, simplesmente como um meio, o mais energico e infallivel dos meios para chegar a grandes fins.
No dia em que Gastão conheceu seu pae e seus irmãos imaginem a dolorosa surpresa que elle sentiria.
No animo do visconde e de seus filhos excitou porém o apparecimento d'aquelle bello moço de maneiras distinctas, affavelmente dignas, de espirito superiormente cultivado, de conhecimentos scientificos excepcionalmente desenvolvidos, a mais agradavel das impressões.
Um irmão d'aquelles, um filho de tal maneira elegante e fino, dava-lhes honra, dava-lhes importancia e realce. Se fosse um extranho ter-lhe-hiam inveja, mas emfim, Gastão pertencia-lhes, era d'elles, a sua graça, a sua superioridade, a sua distincção communicava-se-lhes, destingia sobre as suas pessoas.
O visconde pensava que no fim de contas o que constituia o especial encanto do filho, a educação, fôra elle quem a comprára muitissimo cara.
Podia orgulhar-se de Gastão diante dos extranhos mas queria dominal-o, subordinar as opiniões d'elle ás suas, mostrar lhe bem claro, que o adorava pelo que elle transmittia a sua vida de elegante e de superior, mas que o considerava um objecto raro adquirido por muito bom preço, e do qual dispunha absolutamente.
As manas, essas não occultaram no primeiro momento de enthusiasmo que a posse de Gastão lhes dava muito mais chic do que a posse do seu coupé novo tirado por dois cavallos inglezes pur sang e cujos arreios irreprehensiveis tinham sido louvados pelo embaixador de França.
—Ora tu verás, dizia a mais velha para a outra, que as Pimentas em vendo Gastão ficam de fel e vinagre. Repara bem para a cara que ellas fazem, sobretudo se vierem acompanhadas do mano, d'aquelle Leopoldo, de olhos vesgos, de quem toda gente se ri, e que ainda não acertou a fazer uma conta de sommar.
E exhibiam o irmão pelas salas das suas amigas, sob pretexto de que não tinham quem as acompanhasse, e repetiam em segrêdo a todas as pessoas do seu conhecimento:
—Não fazem ideia! O mano Gastão é um poço de sciencia. Sabe todas as linguas. Eu creio que elle até sabe sanskrito. O papá gastou immenso, mas que educação que elle lhe deu!
E por aqui adiante uma ladainha em que se confundiam a sciencia do mano, os gastos do papá, a inveja que todos tinham d'ambos, e a gloria que a ellas provinha da inveja, dos gastos e da sciencia.
Gastão tornara-se o luxo superior da familia.
Foi por esse tempo que o visconde entendeu que era necessario casar o filho mais novo, visto que o mais velho dissera com desdem supremo que só se atiraria a esse abysmo do casamento, quando tivesse completado os seus folgados quarenta annos.
—Quando Gastão casar, as pequenas poderão frequentar mais os bailes, os saraus e os passeios.
Eu gosto de receber em casa; não me incommodo com isso, mas lá para andar sempre pelo meio da rua é que não estou. E depois Gastão póde fazer um casamento esplendido. Está n'esses casos por todos os motivos.
E foi resolvido em conselho de familia, que Gastão tomasse estado.
A casa do visconde das Lagôas tornou-se a mansão de todos os prazeres, como o bom do homem dizia na praça aos seus amigos titulares e merceeiros. Bailes, jantares, petites sauteries intimes, concertos, a fortuna!
A leôa d'estas reuniões, que os noticiaristas immortalisavam na secção da alta elegancia mundana, chamava-se Clotilde de Magalhães. O pae ambicionava um titulo que ainda não tinha podido alcançar dos governos, mas que mediante um avultado donativo a não sei que estabelecimento bafejado pelo favor da côrte, lhe fôra promettido para muito breve.
O conselheiro Magalhães dissera porém ao seu amigo o visconde das Lagôas, que essa promessa lhe não bastava, que o que elle queria e alcançaria decerto, visto que ao dinheiro nada é impossivel, era um titulo em duas vidas, um titulo que elle podesse transmittir a sua filha e portanto a seu genro.
O visconde ouviu e comprehendeu.
Desde esse dia as duas familias acariciaram como uma esperança lisongeira, o projecto de enlace entre Clotilde de Magalhães, a filha unica d'esse conselheiro millionario, e Gastão da Silveira, o elegante filho do visconde das Lagôas.
Clotilde tinha vinte e dous annos. Uma esplendida physionomia peninsular illuminada por um par de olhos negros, dos que ateariam incendios ha trinta annos no seio apaixonado dos tetricos trovadores.
Era intelligente o bastante para occultar o soberano orgulho, que lhe esterilisava o coração.
Tudo quanto a educação das salas tem de mais requintado e precioso possuia-o Clotilde em larga escala.
Manejava facilmente duas ou tres linguas, cantava com uma voz de contralto quente e apaixonada as arias mais enervantes dos mestres italianos, dançava com uma perfeição de attitudes que a tornavam celebre nos salões, vestia-se bem, sem excentricidades e sem plebeismos de mau gosto.
As filhas do visconde das Lagôas invejavam-na ardentemente conhecendo-lhe a superioridade dominadora, mas fingiam adoral-a, porque da frequencia de Clotilde em casa d'ellas, resultava grande animação para as suas soirées.
Clotilde que era caridosa em certas horas, e que ostentava o capricho da protecção, tinha em sua casa, como companheira, pupilla ou o que quer que fosse, uma parenta pobre de sua fallecida mãe.
Muitas vezes a levava comsigo ás reuniões mais intimas talvez por um refinado instincto de garridice.
Tão admiravel e triumphante era a belleza de Clotilde, como doce, modesta, soffredora, era a apparencia de Angelina. D'este contraste que a todos os olhos se impunha, resultavam sempre grandes alegrias de amor proprio para a elegante herdeira.
Angelina tinha pois uma dupla missão, inteiramente passiva. Fazer sobresahir a bondade de Clotilde e a sua formosura.
Quando Clotilde conheceu mais de perto aquelle que seu pae lhe promettera muito brevemente para esposo, comprehendeu logo, com a rara perspicacia que a distinguia, que o que na sua pessoa havia de mais brilhante e admirado pouca ou nenhuma influencia exerceria no coração d'elle.
Uma noite em que a filha do conselheiro Magalhães estivera mais rodeada de admirações lorpas e de cultos banaes, em que, ebria d'esse grosseiro incenso das salas, ella exhibira todas as suas raras e distinctas prendas de mulher bonita e de mulher garrida, ousou sorrindo perguntar a Gastão, que mais d'uma vez a tinha olhado com mal disfarçada ironia:
—Não me dirá qual é o seu ideal de mulher? Vejo-o sempre tão reservadamente cortez com todas as senhoras, que ainda não percebi o que é preciso ser para lhe agradar.
—Meu Deus! não ha nada mais facil—respondeu o moço fictando o olhar limpido e honesto no altivo olhar de Clotilde.—É preciso ser uma mulher em quem ninguem repare.
—Julguei que a mediocridade o não captivava a esse ponto—volveu Clotilde mordendo os beiços de colera.
—Mas é que não é ser mediocre ser modesta. É que a mulher que gosta de brilhar, não sabe o que é sacrificio e abnegação, é que para mim todos os encantos que se apreciam nas salas, não valem um bom e candido coração que saiba amar-me e viver só para mim.
Não se póde dizer que Clotilde adorava Gastão, mas emfim a verdade é que gostava muito d'elle. Achava-o superior, correcto, distincto, d'uma aristocracia innata que a encantava.
Achava-o digno de si.
Não lhe sacrificaria nenhum dos seus triumphos, nenhuma das suas vaidades, nenhum dos seus gozos, mas sacrificava-lhe com certeza todos os seus adoradores.
Ser mulher d'elle era para ella um sonho radioso.
Discordavam, porém, em tudo, nos gostos, nas ideias, nos sentimentos, na maneira de entenderem a vida.
Clotilde na arte preferia tudo que é brilhante e apparatoso; Gastão amava tudo quanto é grande e dedicado. Clotilde só vivia no meio das opulencias sociaes; Gastão tinha a ambição das alegrias intimas e ignoradas.
Ella gostava do incenso de todas as lisonjas por mais grosseiramente capitoso que fosse; elle mais d'uma vez dissera que achava ignobil da parte d'uma mulher consentir que um sujeito de casaca, engravatado e ridiculo, tivesse a audacia de lhe declarar perto do ouvido que a estava achando formosa e cubiçavel.
—Só digo finezas ás mulheres a quem desprezo. São as unicas que nos dão direito de lhes dizermos o que nos passa pela cabeça.
Um homem que diz cousas ternas a uma senhora, fazendo boquinhas e phrases romanticas, insulta-a d'um modo indigno.
Como é que as mulheres são tão absurdamente educadas que não percebem isto?
Um dia perguntaram a Gastão diante de Clotilde se gostava da musica italiana.
—Conforme! Gosto do bom que ha em todas as escolas. N'esse ponto sou ecletico e creio que todos o deviam ser. Agora a musica italiana das salas acho-a ridicula e pouco decente. Uma senhora a cantar arias em que se falla de amor, de paixão, de extasis inolvidaveis, etc., que diz io t'amo revirando os olhos ao primeiro sujeito que passa, perdeu o direito a que um homem serio a escolha para sua mulher.
Desde esse dia Clotilde deixou de cantar.
Gastão não percebeu o sacrificio, ou pelo menos não mostrou que o percebera.
Era um espirito logico e recto, e tinha o defeito de se guiar na vida pelas opiniões que professava.
Dançavam todos em casa do visconde das Lagôas, e junto d'uma pequena mesa de trabalho, no gabinete das filhas do visconde, uma figura loura e delicadissima, inclinada sobre um album de retratos, parecia ignorada e esquecida de toda aquella multidão que se divertia.
—Porque não dança, senhora D. Angelina? perguntou jovialmente a voz de Gastão. Se eu lhe pedir que seja meu par, recusa-me?
—Recuso, respondeu ella docemente, e uma côr viva tingiu-lhe as faces.
Recuso por muitas razões. Em primeiro lugar é um pouco extranho dançar quando se tem a posição que eu tenho, porque emfim eu não sou mais que uma dame de compagnie, uma aia, uma governante ou como queiram chamar-me, de casa dos meus caridosos parentes.—Ao dizer isto, talvez involuntariamente, na voz de Angelina havia umas inflexões de amargura resignada.
—Depois—continuou—não danço porque me faria mal. Dóe-me muito o peito!
Gastão sentiu dentro d'alma como que a brotar subitamente, um sentimento que lhe era desconhecido e em que havia dó, tristeza, admiração, um enternecimento sem nome que lhe embargava a voz.
Angelina era tão delgada, tão fragil, d'uma physionomia tão delicadamente melancolica!
Para tudo a fizera o destino, menos para combater e para luctar. A desgraça despedaçara-a sem que ella tentasse resistir-lhe sequer.
Como seria doce protegel-a, guial-a na vida, abrigal-a no peito contra os embates hostis da adversidade!
Era assim que Gastão havia sonhado uma adoravel e submissa mulherzinha, com aquelle olhar largo e limpido que lembrava um lago da Suissa, com aquelles louros cabellos ondados emmoldurando uma testa setinosa e côr de marfim.
Trocaram mais duas ou tres palavras, e depois separaram-se de novo. Angelina talvez ficasse a scismar, que nunca mais teria occasião de ver postos nos seus uns olhos onde se lesse tão doce e tão honesta sympathia.
O visconde das Lagôas convidou a familia do conselheiro para estar um mez na sua quinta do Alto Minho.
Angelina acompanhou naturalmente a sua gentil parenta e protectora.
No campo estabelecem-se facilmente intimidades que na cidade parecem inconvenientes e impossiveis.
Gastão entre aquellas duas bellas creaturas, d'uma belleza tão diversa como diversos eram os caracteres, poude apreciar e aquilatar a alma e o coração de ambas.
Durante um mez Clotilde foi a rainha acclamada e triumphante do solar provinciano povoado de numerosos hospedes que alternadamente chegavam, ou partiam.
Era ella quem organisava as festas, quem dirigia as partidas, quem inventava as distrações e os jogos. Activa, intelligente, soberanamente caprichosa, ser dominada por ella constituia uma seducção. Emquanto assim era o centro da animação festiva que se notava na opulenta casa do visconde, Clotilde empregava para captivar Gastão todos os seus artificios de sereia.
Envolvia-o no magnetismo irresistivel dos seus sorrisos mysteriosos, do seu espirito acerado e mordaz, da sua graça magestosa e altiva.
Punha aos pés d'elle todas as homenagens de que era objecto.
Ás vezes á noite, sentava-se á meza com o desleixo creoulo que sabia fingir, e punha-se a desenhar, com uma verve comica imcomparavel, as caricaturas dos galans suspirosos que a cercavam. Depois, conscia de que a sua mão valia um milhão, e sem attender aos desesperos que excitava, offerecia a Gastão os desenhos com um gesto ironico e submisso de que só ella possuia o segredo encantador.
Os serões animava-os com a sua presença, com a sua voz, com a sua mestria musical, com os seus conhecimentos variados adquiridos nas viagens e nas leituras.
Angelina voluntariamente occulta no canto mais escuro da sala, assistia a todo este jogo brilhantissimo com a silenciosa resignação de quem se sente para sempre expulsa de todos os prazeres da vida.
Nem sequer percebia que era para o lugar em que ella trabalhava, que os olhos de Gastão se dirigiam constantemente, e que elle tão desdenhoso e tão ironico para com as outras, lhe fallava sempre timidamente, respeitosamente, como os devotos fallam com o seu Deus, como as mães fallam com os seus filhos doentes.
Houve um dia em que uma resposta quasi insolente de Clotilde a fez padecer muito.
Arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, levantou-se e foi encostar-se á varanda toda enredada de trepadeiras que dava sobre o jardim.
Não percebeu que a crueldade de Clotilde significava um despeito, um ciume, talvez uma agonia profunda de amor proprio! Pensou sómente que a herdeira rica e poderosa insultava diante da sua familia, diante do seu noivo, a orphã desamparada, e chamou baixinho por sua mãe, pedindo lhe que a levasse comsigo para o ceu.
Então uma voz grave, sonora e viril, a voz d'um homem de coração e de coragem, murmurou perto d'ella:
—Quer ser minha mulher, Angelina? Ha muitos dias que tenho vontade de fazer-lhe esta pergunta e não me atrevia!
É que se me recusar, juro-lhe que me dá um desgosto muito grande! Não faz idéa! Parece-me que a conheço desde que nasci, que nunca vi outra mulher, que nunca achei possivel ter outra esposa... Talvez não creia... mas olhe... hei de fazel-a muito feliz... hei de amal-a com uma devoção tão profunda...
Angelina não o deixou concluir. Tapou-lhe a bocca com uma das suas mãos diaphanas, e pallida, a tremer, deixou-lhe cahir a cabeça sobre o peito a soluçar..............................
A familia de Gastão quando o moço lhe participou a resolução definitiva que adoptára, repelliu-o do seu gremio illustre com o mais indignado espanto.
Aquelle mesquinho enlace que vinha destruir tantas esperanças pomposas, era para todos uma vergonha.
O visconde, as duas manas, o irmão mais velho, o conselheiro Magalhães, tudo se revoltára contra o que chamavam o romantismo de Gastão.
Só uma pessoa o acceitou sem colera e sem protestos.
Foi Clotilde.
Quiz ella propria conduzir á egreja a sua juvenil protegida, e até á ultima hora teve para com ella e para com o homem a quem um dia no intimo do coração chamára—o seu noivo—uma attitude irreprehensivel de serena dignidade.
Gastão e Angelina vivem n'uma deliciosa casinha em Buenos-Ayres, onde ha dias os visitei.
Elle alcançou uma excellente collocação n'uma casa bancaria; ella tem o singular segredo de ser economica com elegancia e laboriosa com gentil dignidade.
São ambos felizes como dois leaes corações que se estremecem e se entendem.
No seu gabinete confortavel e artisticamente arranjado pelas mãos de Angelina, quantas vezes á noite no tranquillo recolhimento do serão commum, os dois noivos não lamentam a sorte dos seus parentes millionarios!
Clotilde não casou ainda nem casará talvez.
Apparece em todas as festas, em todos os bailes, em todos os theatros, sempre com o seu eterno sorriso mordaz nos labios empallidecidos.
Ha porém quem julgue lêr na sua bella physionomia altiva, uns toques de intraduzivel soffrimento.
O ROMANCE DE ADELINA
(FRAGMENTOS DE CARTAS)
Meu pae, minha mãe, as pessoas que me cercam dizem-me continuamente que a vida é triste, que o dever tem sempre um aspecto difficil, que as chiméras da nossa imaginação nunca chegam a realizar-se...
Eu ouço-os, mas affirmo-te que não estou nada convencida.
Supponho ás vezes que vejo a existencia pelo avesso, que tenho um modo muito extravagante de comprehender as cousas.
Ouço por exemplo chamar romanescas a todas as mulheres loucas ou desgraçadas.
Ás que deixam seus maridos para seguir um sujeito de bigode e collete branco que lhes recitou versos ao piano entre dois candelabros; ás que andam toda a vida á procura de um ideal que ora encontram ora deixam, percebendo que se enganaram; ás que usam olheiras e cabellos cahidos, e fallam do seu desespero inconsolado entre uma quadrilha e uma valsa.
Para mim essas mulheres são tudo menos romanescas.
Sabes ao que eu chamo romantismo?
A uma aspiração delicada, a tudo que é bello e bom. A um desejo ardente de perfeição que se não satisfaz facilmente. A uma tendencia para idealisar os deveres e os sentimentos.
Crê, minha boa Thereza, que não ha ninguem mais romantica do que eu!
Chego ás vezes a ter medo de que isto seja um pendor funesto que me arraste a algum desvario.
No outro dia casou aqui uma prima minha.
É uma galante rapariga, bem educada e intelligente.
Encontrou o noivo uma duzia de vezes, elle pediu-lhe licença para confessar aos paes que a amava muito.
D'alli a dous mezes, concluidos os preparativos, casaram-se.
Não se conhecem nada, mas como as fortunas, as idades, e as posições dos paes estavam em harmonia, concluiram que se haviam de dar optimamente.
Aquelle casamento que agradou a toda a gente, consternou-me a mim.
O meu casamento ha de ser o unico romance da minha vida, mas affirmo-te que o quero bem longo, bem completo. Quero que as suas paginas luminosas lidas uma vez me dourem de mysteriosa claridade todo o futuro. Quero amar o meu noivo para adorar eternamente o meu marido.
Dizem que o dever é sempre custoso de cumprir.
Conforme!
Eu tenho dezoito annos, e nunca até hoje liguei á ideia do dever uma ideia que não fosse de satisfação intima.
Sou tão feliz em amar meus paes, em soccorrer os desgraçados, em cultivar o meu espirito, em sacrificar os meus prazeres aos prazeres de alguem!
O sacrificio seja elle de que genero fôr, parece-me uma dôr suave, uma sensação de pungitiva delicia, que nos eleva e nos engrandece.
Só os que sabem sacrificar-se affirmam a sua superioridade.
Tenho medo de ser criminosamente aristocrata.
Parece-me que assim como as pessoas bem educadas nunca se deixam avassallar pela gula, pela violencia dos appetites grosseiros, assim as almas finas não devem entregar-se a uma ambição desregrada de prazeres.
Soffrer é uma condição humana, mas ha soffrimentos que são a mais requintada das doçuras.
Ás vezes olho para minha mãe e lembro-me que se pudesse trocar a minha robustez pela sua debil saude, a minha cabelleira densa e loura pelos seus lindos cabellos brancos, a minha alegria exhuberante pelo seu sorriso meigo e soffredor, conheceria um gráo de felicidade mais puro, mais alto do que todos os gozos que até agora experimentei.
E no emtanto ao dar-lhe a minha mocidade, ao receber em troca a sua velhice, de certo que sentiria infinitas saudades!
Não se renuncia friamente a todas as esperanças do futuro!
Seria, porém, uma das taes dôres que eu amo, uma d'aquellas tristezas divinas que fazem bem á alma e como que a depuram das imperfeições da terra.
Será isto romantismo, Theresa?
Andam commigo agora de baile em baile, de soirée em jantar.
Imaginam que me enganam, os queridos velhinhos!
Elles que gostam tanto do cantinho do fogão, onde conversam, e se recordam de tudo que passou, fingem um subito e inexplicavel desejo de distrações mundanas.
Eu sigo-os com um sorriso malicioso que ás vezes os assusta.
Sabes as minhas ideias, não é verdade?
Que garantias de futuro me daria a mim um marido apanhado a laço á luz dos lustres dourados, em uma sala de baile frivola e banal?
Não é ahi que eu encontrarei de certo o noivo da minha alma!
Porque é que se não poderá alliar a poesia do coração com os deveres da realidade? Não entendo isto!
Pois só serão deliciosos os amores vedados?
A mim parece-me que a vida com o seu cortejo de dores, de deveres, de sacrificios, de affectos, a vida com a sua manhã purpurea e gorgeada, com o seu meio dia luminoso em que rompe em ondas crystallinas a musica triumphante dos vinte annos, com a sua tarde melancolica d'uma doçura indefinida e dubia, com a sua noite emfim, noite estrellada e calma, em que esmorecem e expiram todos os rumores da terra, é como que um poema completo, uma symphonia em que ha todas as notas, todos os tons, todas as expressões.
Os que amaldiçoam a vida, ou querem fugir das suas commoções naturaes, procurando n'um meio artificial, n'uma atmosphera de estufa outros gozos, outros prazeres, outras angustias, são esses que não entendem a opulencia harmoniosa da criação!
Ser filha, e noiva e esposa e mãe! onde acharemos estados da alma mais completos que aquelles que resultam naturalmente d'estes modos de ser?
Aqui ha tudo! Alegrias, dôres, sobre-saltos, esperanças, sonhos, arrebatamentos, extasis ineffaveis!
Não proscrevamos o romance da vida, pelo contrario identifiquemol-o com a vida!
Ponhamos no nosso modo de sentir a maior porção de ideal, a que sejamos accessiveis.
Pensar que o dever só póde comprehender-se terra a terra é amesquinhar e rebaixar o dever!
A paixão não precisa de ser criminosa para nos dar gozos supremos; creio mesmo que é o crime que a torna amarga aos labios e dolorosa ao coração!
Perguntavas-me no outro dia maliciosamente se eu faço a minha leitura predilecta da Moral em acção.
Não faço.
Se ha cousa que eu acho desmoralisador é um tratado de moral chaufé à froid.
Sabes quem são os meus mestres do bom e do bello? São Beethoven, Mozart, Hayden, os meus queridos e nobres artistas.
Cada dia me deixo levar mais apaixonadamente por este amor da musica que me consola, e me levanta e por assim dizer me realiza todos os sonhos ambiciosos da minha alma.
Presinto que se chegar na vida para mim uma hora sombria em que veja por terra os meus idolos, a musica me ha de consolar de tudo!
Ha pessoas que choram com a musica. Foge sempre da musica que faz chorar. É enervante, é perigosa e traiçoeira.
Mozart e Beethoven não enfraquecem, fortificam. Dão-nos á alma como um grande banho de ar puro.
Fazem-nos subir ás alturas immaculadas e de lá ver tudo que é pequeno, ephemero, transitorio aos nossos pés.
Ó Beethoven, se eu alguma vez fôr trahida envolve-me nas tuas azas de luz!
Não te disse eu que o meu romance existia algures, n'um mysterioso recanto onde eu ainda não déra com elle?
Não me enganei.
Existe.
Tem vinte e cinco annos, ha muita gente que diz que elle é feio. Eu acho-o simplesmente adoravel.
Tem uns bellos olhos escuros que a paixão illumina, de que a ironia faz chispar faiscas sombrias, e que em horas de embevecimento e de ternura tem segredos doces de uma bondade ineffavel! Tem uma testa larga e pensativa, e uma boca desdenhosa como se o sarcasmo a houvesse affeiçoado.
Acham-lhe innumeros defeitos, eu acho-lhe sómente alguns.
Mas é para aquelles que a vida endureceu e azedou, que as almas moças devem abrir os mananciaes da sua fé.
Hontem disse-me, depois de me ter ouvido tocar piano durante tres horas, que eu lhe fizera tanto bem, que se esquecia por amor de mim do mal que todos os outros lhe tinham feito.
Estas palavras que em outra boca seriam uma banalidade, na boca d'elle pareceram-me um juramento que vinculava para sempre as nossas duas vidas.
Tres annos de silencio! Como é que tu has de perdoar-me, Thereza!
Mas se eu te disser uma cousa, só uma cousa, perdôas-me de certo.
Sou muito infeliz.
Quiz talvez realizar o impossivel, quiz achar no amor de meu marido o conjuncto de todos os amores de que eu me sentia capaz.
Fiz tudo para conservar a felicidade, e a felicidade fugiu-me.
Elle vê em mim um pezo, uma prisão, talvez que um grande desapontamento.
Nunca me queixo. Para que?
A gente não deve queixar se, porque é uma humilhação escusada e inutil.
Procuro convencer-me de que na vida de todas as mulheres ha d'estes cilicios occultos que ellas supportam ageitando nos labios um sorriso heroico.
Não renego nenhuma das minhas ideias. O dever consola, o dever compensa.
Não comprehendo que, porque um faltou ao contrato ideal que fez com a consciencia, o outro deva faltar tambem.
Emquanto elle me quizer junto de si, hei de dar-lhe toda a minha vida, feliz d'este sacrificio sem paga.
Illudi-me porque lhe quiz muito, e perdôo-lhe por que me illudi.
Hontem, minha mãe, a pobre velhinha que succumbe ás agonias da sua recente viuvez, dizia-me diante do berço de meu filho desamparado, do meu orphãozinho, cujo pae vive ainda:—Acabou-se tudo! Naufragámos todos tres!
Pelo contrario! Agora é que tudo começa!
Não imaginas a coragem e a energia que eu sinto em mim!
Sou eu, minha mãe e meu filho.
Uma quasi que perdeu a consciencia, o outro não a tem ainda. Sou eu que preciso pensar e trabalhar por todos tres.
Na grande desgraça que me feriu, a ideia de que sou necessaria, de que me tornei indispensavel aos entes a quem mais quero, inoculou-me no espirito dilacerado uma força superior.
Mas como foi que tudo isto succedeu? perguntas tu cheia de pasmo.
Não sei! Uma mulher que passou, uma artista que tinha em talento o que lhe faltava em coração e que o levou atrás de si, satelite desprezivel, de um astro cahido.
Não tenho saudades d'elle, crê que não tenho.
O homem que eu amei era uma nobre e digna creatura, incapaz de transigir com a honra, e de submetter-se á tyrannia dos appetites brutaes.
Tinha defeitos, era violento, apaixonado, irascivel, mas era honesto.
Esse homem morreu, ou não existiu nunca.
O que fugiu não se parecia com elle.
Quando estou só, estremeço ás vezes com um asco intraduzivel de mim propria.
Quem é que se consola das maculas de um tal amor?
Não te disse eu, que se tudo me faltasse, os meus velhos mestres, os meus amigos, as almas sonoras e transparentes que sabem traduzir em sons tudo que ha de bello na natureza, as côres, os perfumes, as linhas, o mundo da materia e o mundo do espirito; não te disse eu que elles me consolariam e me haviam de amparar?!
Chegou o momento supremo.
Chamei os e não faltaram ao meu apello.
Mostrei-lhes o meu coração partido, o meu orgulho machucado, as minhas illusões desfeitas e disse-lhes: Consolai-me! Mostrei-lhes o meu filho pequenino, e a minha mãe decrepita, e disse-lhes: dae-lhes pão!
E ouviram-me as almas adoraveis!
Sinto em mim a virilidade augusta dos fortes.
O meu Arthur tem hoje quinze annos.
É um formoso adolescente, louro e timido como uma virgem.
Vivemos eu e elle n'uma casinha de um bairro tranquillo e retirado.
De dia elle frequenta o lyceu, e eu dou as minhas lições de musica, á noite lemos, conversamos e tocamos juntos.
Todos os annos, n'um dia certo, fazemos uma romagem piedosa.
Vamos visitar ao cemiterio o tumulo de pedra, pobre e modesto, onde dorme o seu tranquillo somno a minha querida mãe.
Foram serenos e doces os ultimos dias que ella viveu na terra.
Ajudou a crear o meu Arthur, que era tão endiabrado e travesso como hoje é tranquillo e scismador!
Eu sahia de casa muito cedo, e deixava-os a ambos juntos a papaguearem alegremente, porque não ha nada que illumine a tristeza dos velhos como a alegria dos netos.
Ao principio era-me doloroso aquelle monotono trabalho de ensinar os principios de musica, mas quando vi desenvolver-se em casa o conforto devido aos meus pertinazes esforços, cobrei nova coragem e alentos novos.
Sahia com mais animo e voltava com mais alegria.
Em mim faziam-se dous trabalhos: Procurava afazer-me á minha nova existencia e apagar da memoria o meu passado enganoso.
Tivera o meu romance, e o romance deixára-me na boca o travor amargo das cousas insalubres!
Em todo o caso nunca me arrependi de ter aspirado a saciar a minha sêde de ideal nas fontes puras do coração.
Era mais feliz na minha infelicidade que os outros nas suas alegrias!
A minha vida de professora, fazendo-me penetrar em muitas casas diversas, deu-me ensejo para conhecer melhor o mundo.
Encontrei muita gente alegre e satisfeita que me causou profundo dó.
Marido e mulher separados pelas ideias moraes, pelas crenças religiosas, pelas occupações, pelas indoles diversas, pelo modo antithectico de encarar as cousas; unidos sómente por um laço, o habito; por uma força, as conveniencias sociaes.
Oh! antes o meu desamparo, antes o abandono em que eu fiquei na flôr da vida!
Conheci muitas mulheres que procuravam no turbilhão mundano consolação para intimas tristezas; outras, que me confessaram chorando, que a ingratidão e a inconstancia do marido as arrastára á perdição, ao desprezo de si proprias.
Não as repelli, porque não tinha direito para ser implacavel; lamentei-as, não porque as achasse dignas de lastima, mas porque me pareciam dignas de desdem!
Como se o crime posterior da mulher não fosse a justificação do crime anterior do marido!
Ser boa e digna e virtuosa, quando tudo nos ajuda a isso, grande milagre!
Na solidão, no abandono, na injustiça do mundo, é que a honestidade da mulher se acrisola!
Se meu marido não houvesse fugido de mim, deixando-me nos braços uma creancinha de mezes, como poderia eu conhecer as luctas da vida e ter sahido triumphante das provações da desgraça?
Não imaginas, querida amiga, como hoje é doce e tranquillo o meu outomno!
Em primeiro lugar o querido anjo que eu eduquei sósinha, depois a musica, as flôres e os bons livros. Falta-me a minha mãe querida, mas essa morreu abençoando-me!
Ao domingo, quando eu e Arthur nos achamos bem sós, no nosso pequeno gabinete de trabalho, chego a conceber a beatitude do paraizo.
Sento-me ao piano e toco, toco até me sentir sem forças.
Converso longamente com os amigos da minha mocidade, com os que me vestiram a alma da crystallina armadura que resistiu a todos os attrictos da miseria humana.
Conto-lhes as luminosas aspirações da minha adolescencia, a ideia que eu fazia da abnegação, do amor, do sacrificio; e os esforços que empreguei para me cingir sempre a essa ideia levantada e superior.
Conto-lhes o bello instante radioso em que na minha vida desabrochou a flôr mysteriosa que elles me haviam ensinado a julgar o premio mais dôce de um coração cheio de fé. E com que extremos eu cultivei essa flôr que um dia se desfez em cinzas nas minhas tremulas mãos! E como a doce illusão de a possuir me fizera melhor!
Depois conto-lhes a tempestade que subitamente fez sobre mim a sua explosão sinistra, e o meu desamparo e a minha dôr fulminadora, e a vacillação tremenda em que eu vi tudo que julgara immutavel prestes a desabar, deixando-me só ruinas!
Foi então que o amor d'elles me salvou, foi então que as suas vozes divinas me chamaram, e que, na esphera elevada em que elles moram, eu me senti penetrar da calmaria adormecedora de todas as paixões ruins!
No outro dia, depois de tocar duas horas, esquecida de tudo, procurei meu filho e achei-o de joelhos ao pé de mim.
Tinha a gentil cabeça loura mergulhada nos meus vestidos, e, quando levantou os olhos cheios de lagrimas, disse-me com uma voz em que se fundiam todas as musicas:
—Ó mãe, Deus te abençôe, porque foste ultrajada e trahida, e eu posso amar-te e respeitar-te.
A CIGANA
Quando o gageiro gritou do alto das vergas—terra!—toda a gente que vinha a bordo da galera Terrivel sentiu uma grande e indefinida alegria.
Subiram uns para o tombadilho, outros deixaram-se ficar no convez, e os passageiros da prôa, os mais pobres, encarapitaram-se na amurada; começaram todos a olhar com uma anciedade febril para a facha escura que a pouco e pouco avultava no horizonte.
A viagem tinha sido longa; a galera levára cincoenta dias a chegar do Rio de Janeiro.
Mas, todas essas penas, todo esse aborrecimento que assaltam o viajante que durante dias e dias não vê mais que o céo e o mar, desapparecem como que por encanto ante essa palavra magica, solta pelo gageiro—terra!
Os passageiros eram, na maior parte, gente de baixa condição e de ambições modestas: tinham sido no Brazil carroceiros, feitores de roça, carpinteiros e pedreiros.
Vinham com pouco dinheiro, mas traziam grande abundancia de saudades; tinham soffrido, padecido longe da patria, mas como ella os ia compensar de todas essas amarguras!
A alegria bailava em todos os olhos.
Ah! o capitão Navarro, apezar de ter feito aquella viagem cincoenta vezes, tambem vinha contente e esfregava as mãos, tomado de um jubilo desmedido.
Quando o piloto se correspondia com o castello da barra, o capitão impaciente, mas sem perder o seu aspecto risonho e benevolo, perguntava:
—Deixam-nos ou não nos deixam entrar a barra?
—Estão-me agora a perguntar se morreu alguem a bordo.
—Ora essa! Morto estou eu por me vêr em Massarellos. Querem vêr que ainda temos que ir dar com os ossos em Vigo? Com mil bombas! Era o que me faltava agora!
Mas não aconteceu o que o capitão receiava: do castello fizeram signal que a galera podia entrar, e foi com uma voz vibrante de enthusiasmo e de um prazer intenso que o capitão commandou a manobra.
A galera como um cavallo que obedece facilmente á pericia de um optimo cavalleiro, proejou a barra em meio das exclamações dos impacientes e saudosos passageiros.
A galera fundeou defronte de Massarellos.
No dia seguinte, já não havia alli senão parte da tripulação e um ou outro marinheiro que não tinha familia e que olhava para o cáes com repugnancia e com desdem.
As capoeiras em redor do tombadilho estavam despovoadas, a roda do leme reluzia ao sol, parada, sem movimento, as tampas enceradas da meia laranja abriam-se como as azas de uma enorme borboleta em repouso, e as mangueiras de linho cheias, retezadas, levavam o ar á camara e ao porão.
Um bello dia de agosto!
O capitão Navarro assistia ao descarregar sentado em uma barrica de farinha de mandioca; o contra-mestre no portaló olhava mais lentamente para o Douro como quem procura enxergar uma cousa desejada e cubiçada.
—Ainda nada? perguntou o capitão.
—Admira, capitão! Das outras veses pouco se deixa esperar essa visita.
E com a mão em quebra-luz continuava a observar o movimento dos botes e das catraias.
De repente, a Cigana, uma cadella de fila que era o idolo de toda a tripulação do navio, deu um salto, subiu as escadas do portaló, e alongando o pescoço, meneou festivamente a cauda e ladrou de contente...
Era um latir alegre e de boa feição, o latir que ouvimos aos cães das nossas casas, quando recolhemos depois de longa ausencia.
—Espera! disse o contra-mestre, a Cigana tem faro. Ahi vem a sua gente, capitão!
Navarro ergueu-se, olhou e viu um barco que, á força de remos, se dirigia para a galera.
—Até que emfim! disse o capitão, e desceu cheio de contentamento as escadas do portaló...
A cadella, vendo descer o dono, acompanhou-o e saltou ao mesmo tempo que elle para o interior do barco.
O contra-mestre olhava de cima aquelle quadro e murmurava entre alegre e melancolico:
—Parece que é bom ter familia e ter uma pequerrucha bonita como a do capitão que nos venha dar um abraço quando vimos de longe...
—Assim será, meu contra-mestre, mas quando essa filha vem de luto, devendo vir vestida de côres alegres; quando ella nos vem dizer com a voz abafada em lagrimas e soluços—a mamã morreu!—não me parece que seja muito para invejar, meu rude celibatario, que não tens outro affecto senão pela tua galera e pelo mar, a quem confiaste a tua mocidade e a quem confiarás um dia o repouso do teu corpo!
De sorte que aquelle momento tão appetecido pelo capitão foi-lhe amargurado pela noticia da morte da mulher que elle extremecia devéras.
Eram quatro os affectos do capitão: a mulher, a filha, a Cigana e a sua bonita e garbosa galera.
O primeiro affecto desapparecêra, restavam-lhe ainda os tres; não tinha muito que se queixar do destino: a galera ali estava capaz ainda de arrostar com sessenta viagens, a filha dependurava-se-lhe do peito amplo e largo, cheia de viço e de adoravel meiguice, e aos pés de ambos, rojava-se latindo baixo a Cigana, acariciando-os com os olhos onde havia o indefinido das vagas, e como que um lampejo humedecido de uma ternura doce e humana.
A filha de Navarro, depois de haver chorado no seio do pae, abaixou-se e passou a mão pela cabeça da cadella.
—Quando partir de novo, papá, deixe-me a Cigana, sim? A mamã era tão amiga d'ella!
A Cigana, parecendo comprehender aquellas palavras, endireitou-se, e pousando as patas no collo da menina, beijou-lhe carinhosamente as mãos...
Quando Navarro chegava do Brazil e ia passar algum tempo a Lessa com a familia, levava sempre em sua companhia o seu querido animal! Imagine-se como este seria amimado, festejado e cheio de affagos quando souberam que uma vez no alto mar...
Não sei quantas milhas devorava n'esse momento a galera.
Era meio-dia, fazia um sol de rachar, os marinheiros á prôa comiam o rancho, e na tolda não estava senão o capitão, a Cigana, e o homem do leme.
O piloto fôra buscar ao seu beliche um mappa que o capitão lhe pedira, e demorara-se mais que o tempo necessario. Navarro ergueu-se do banco de vime e encostou se ás grades da ré.
Como foi aquillo? Vertigem? Congestão cerebral?
Foi elle encostar-se á grade, estar alli cousa de dous ou tres minutos, e de subito borcar-se-lhe o corpo nas ondas...
O homem do leme viu aquillo, e afflictivamente exclamou:
—Jesus! acudam!
E quando os passageiros correram ao tombadilho e a tripulação veiu saber o que succedera, o piloto, pallido e assustado, mandou colher todo o pano; podia vêr-se ao longe em meio das aguas, que faiscavam e transluziam os raios do sol, um ponto negro e que pouco a pouco parecia affastar-se, affastar-se...
Os dous escaleres da ré foram descidos ao mar, e dentro d'elles os mais robustos dos tripulantes.
—A modo que elle não estava bom! disse o homem do leme. Que eu só reparei n'elle quando o vi no ar...
—Deitem-lhe a boia! gritou o contra-mestre.
N'aquelle momento de anciedade, procurou-se a boia e não se encontrou.
O contra-mestre estava desesperado, as pragas mais violentas sahiam-lhe em borbotões por entre os dentes, que apertavam estreitamente o tubo fumoso do cachimbo.
O navio afrouxára a sua marcha, comtudo os escaleres ainda iam bastante longe do ponto negro que todos julgavam ser o capitão.
—Lá bom nadador é elle, dizia o contra-mestre, mas se ha tubarões assim! e reunia os dedos em pinha.
Estendia os braços, dependurava-se da grade da pôpa, e com gestos anciosos tentava animar os marinheiros dos escaleres.
—Força, rapazes!
No rosto de todos os passageiros lia-se um grande terror e uma pena profunda.
Era impossivel escapar. O capitão apesar de bom nadador já estava velho e cançado, depois os tubarões...
Os marinheiros contavam casos horrendos que haviam presenciado, e em que figuravam esses assanhados tigres do mar.
—Valha-nos o senhor de Mattosinhos! conclamavam n'um grito lancinante aquelles homens, que tantas vezes tinham luctado heroicamente contra as colericas sanhas da tempestade, e que adoravam o bondoso velho, o seu capitão.
O ponto negro ia-se distinguindo mais nitidamente: ás vezes afundava-se, outras vezes immergia-se; e emquanto os escaleres voavam, o contra-mestre continuava a gritar, posto que as suas vozes já não pudessem ser ouvidas pelos que iam em salvamento de Navarro.
Quando o vulto vinha a distancia de uma milha o contra-mestre exclamou, affirmando a vista:
—Ou eu me engano, ou o capitão não vem sósinho... esperem! é a Cigana que traz a reboque o patrão!...
Era a Cigana effectivamente. Quando o velho cahira ao mar, o animal atirara-se logo atrás, e mergulhando conseguira apertar nos dentes as roupas do capitão, e desde esse instante nunca mais o largára.
Quando os escaleres se aproximaram dos dous, a pobre Cigana estava quasi exhausta e sem forças.
Arrancaram-lhe a custo da boca o seu querido fardo e ella continuou a nadar frouxamente sem poder resistir ás ondas que a levavam de chofre de encontro aos escaleres.
Quiz subir, galgar a borda de um dos escaleres, e não pôde, resvalou na agua, ganindo dolorosamente, sendo preciso que um dos marinheiros a empolgasse com força, arrebatando-a assim á morte inevitavel.
Da galera, applaudiram a acção da Cigana, e quando ella e o capitão chegaram, não sei bem qual dos dous foi mais abraçado.
—Bravo, Cigana! exclamou o contra-mestre, não ha homem que te valha. Dá cá um abraço!
O capitão foi levado por dous marinheiros para a sua camara, emquanto a Cigana, resfolegando alto, com os olhos embaciados, o corpo escorrendo agua e todo tremulo, tentava arrastar-se para onde lhe levavam o dono.
Ora, aqui está porque a Cigana era tão querida e estimada na pequena e alegre casa do capitão em Lessa, e aqui está a razão por que a filha do velho e bondoso Navarro lhe pedia com tão amavel meiguice que deixasse ficar a Cigana quando para a outra vez tivesse de fazer viagem.
Quando a galera Terrivel partiu, não levava a seu bordo nem o capitão nem a Cigana. Porque?
Se o leitor é pae diga-me, se no caso do capitão Navarro, teria forças de fazer-se ao largo e deixar sósinha uma filha de quinze annos, graciosa e encantadora.
Não tinha forças para tal, acreditamos.
Ao capitão succedeu o mesmo. Despediu-se dos seus companheiros, chorou quando viu pela primeira vez a Terrivel fazer-se de vela sem elle, mas ficou em terra.
Tinha saudades, isso tinha, do mar, da solidão magestosa das aguas, da melancolia das horas da calma, das tempestades que, de quando em quando, o visitavam, mas fitava os olhos azues da filha e bebia n'elles consolações que lhe amorteciam essas maguas.
Ás vezes, sahia de casa acompanhado pela Cigana, e ficava-se á beira do mar, observando os navios que passavam a distancia, absorvendo a plenos pulmões o saudavel ar maritimo, regalava-se conversando com os pescadores e com os embarcadiços, e n'essas tardes recolhia mais alegre e com o corpo mais direito e rejuvenescido.
Outras vezes, ia n'um bote pelo amenissimo rio Lessa acima, e n'essas excursões levava quasi sempre a sua querida Luiza, e quasi sempre n'esses passeios em que elle contava á filha as peripecias de toda a sua vida trabalhosa, encontrava-se com outro bote em que ia ao leme um moço de vinte annos, elegante e galhardo que o comprimentava respeitosamente.
Á terceira vez que aquelle encontro se deu, o velho disse á filha:
—Não sei se conheço aquelle moço? É o filho unico de um meu antigo companheiro. O pae está rico, está. Eu tambem por aquelle preço podia estar como elle ou melhor. Que se elle tem muito de seu, a mim m'o deve. Joaquim Antonio Ferreira, que depois foi feito Conde da Guaratiba, bem queria que eu fosse capitão de uma sua barca, recusei, porém, sempre, e apresentei-lhe um dia Gouvêa, o pae d'esse rapaz, que afinal de contas depois de seis ou sete viagens felizes á Africa, deixa a vida do mar e foi um dos que mais lotes de escravos levava aos armazens de Vallongo... Ser rico á custa de tantas lagrimas não era para o filho de meu pae...
E aqui entrava o capitão a contar a Luiza cousas da sua mocidade, e absorvido n'essas recordações não reparava que a filha seguia com a vista anciosa o barco em que ia o herdeiro do millionario Gouvêa.
Luiza amava, e amava com o primeiro e grande affecto de quinze annos.
Segregada das moças da sua idade, não tinha a quem confiar tantos e tão amantissimos segredos: embriagada por aquelle amor, deixava-se ir deliciosamente pela correnteza, sem medo de encontrar um dia a voragem que a tragasse, o abysmo em que se lhe afundasse a honra e a vida.
Nunca tinha fallado ao noivo da sua alma; via-o de longe, ora passar a cavallo pela rua em que morava, ora no rio quando o pae a levava aos costumados passeios.
Conhecia-o pelas cartas, que lia, relia e decorava, e a todas ellas respondêra, menos á ultima cujo conteudo a trazia surpreza, enlevada, vibrante...
O não responder a essa carta era como que um assentimento a um pedido que n'ella se fazia.
O velho capitão n'essa noite pedira á filha que lhe lesse uns livros de viagem. Luiza lia perfeitamente, com uma entoação harmoniosissima, e dando com a voz um relevo maravilhoso á narrativa. O capitão, com o corpo reclinado na poltrona, o cachimbo apertado nos dentes, e a cabeça da Cigana nos joelhos, sorria na plena beatitude de um goso indefinido. De vez em quando, accordava d'aquella deliciosa somnolencia e emendava as incoherencias e os enganos do escriptor.
—Nada, nada, isso não é assim. Venham cá dizer-m'o a mim, que passei por esse ponto mais de trinta vezes...
Ás dez horas serviu-se o chá, a Cigana foi levada para o quintal, e Luiza acompanhou o pae até ao limiar do quarto.
—Deus te abençôe, minha filha, disse o velho ao despedir-se, e beijou Luiza na testa.
—Hoje tenho pouco somno, papá, fico ainda a lêr um bocadito na sala, se o papá quizer alguma cousa chame-me, sim? Vou acabar de lêr este livro, acho-o muito bonito. Gosto tanto da vida do mar!
—Filho de peixe sabe nadar, volveu o capitão sorrindo com o divino sorriso dos paes, que se crêem unicos senhores dos affectos dos filhos.
Passada meia hora, ouviu-se no quintal o ladrar continuo, frenetico e raivoso da Cigana.
O capitão gritou da cama:
—O que é aquillo, filha? A Cigana está hoje como nunca a vi. Vai socegal-a, se não tens somno, e prende-a. Naturalmente os pescadores saltaram-me á fructa. É o que é. Deixal-os lá, coitados! Estes dias tem havido pouco peixe. Não vá a Cigana fazer alguma das suas... Ora vae, anda, tem paciencia... Eu não vou porque me sinto fatigado e exquisito hoje... A Cigana ouvindo-te, socega...
Luiza desceu ao pateo.
Abriu com mão tremula a cancella e encostou-se vacillante, agitada e convulsa ao muro. O ladrar da cadella cessára. Adiantou-se. No fundo do jardim sob a latada, um vulto cosia-se com a parede. A pobre menina levou as mãos ao peito, como para socegar a douda violencia do coração que parecia suffocal-a; quiz fallar e não pôde. O corpo vergava-se-lhe frouxo, molle, sem forças...
De repente sahiu das sombras das arvores a Cigana, que se arrastou para Luiza, ganindo dilacerantemente, movendo com difficuldade a cauda, com a parte posterior do corpo quasi paralytica, escorrendo-lhe da boca uma baba espessa, com os olhos dilatados desmedidamente...
N'aquelle olhar que a claridade da lua deixava distinguir havia um pedido, uma supplica.
—Cigana! exclamou Luiza.
Ouvindo aquella voz, a cadella, que se sustentava difficilmente nas patas dianteiras, ergueu ainda, por um supremo esforço, a cabeça, e, tomada de uma ancia afflictiva, convulsionando-se-lhe o corpo n'um estremecimento instantaneo, soltou um gemido rouco, escabujou violentamente, e cahiu morta aos pés da filha do capitão.
—A sua Cigana é muito má, mas ainda é mais gulosa, disse o vulto que se escondia sob a latada.
—Que mal lhe fez este animal, sr. Gouvêa? perguntou reprehensivamente Luiza, estrangulando-se-lhe a voz na garganta.
—Boa pergunta! Não subisse eu tão depressa para o muro e estava asseiado a estas horas! O demonio do bicho! Mas vinha prevenido, atirei-lhe uma bola, que lhe soube como se fosse manteiga. Ora deixe lá o cão, querida, não se faça piégas...
Luiza interrompeu bruscamente aquellas palavras tolissimas, e endireitando o corpo, ergueu a voz quebrada pelas lagrimas:
—Saia, saia depressa; se não quer que meu pae o venha aqui matar sem ser tão cobardemente como o senhor acaba de matar a minha pobre Cigana.
E emquanto o vulto marinhava pelo muro, a desditosa creatura abraçava a Cigana, e chorava como sómente uma vez em vida chorára, quando lhe levaram para fóra de casa o corpo de sua mãe.
—Cigana, minha pobre Cigana! repetia Luiza, fui eu que te matei!
Ao outro dia murmurava o capitão, fingindo-se sereno e forte para poder consolar a filha:
—Vão lá depois fazer bem... Eu mandava prender a Cigana para que não fizesse mal a ninguem, e pagaram-me d'esta fórma!...
E o velho, para não chorar tambem, fingia que não reparava nas lagrimas que rolavam como perolas pelo rosto descolorido e pallido da filha.
DUAS FACES DE UMA MEDALHA
Ella tinha já feito vinte e cinco annos, elle contava apenas vinte e dous.
Era uma creança triste e ambiciosa.
Sonhava no impossivel, e n'esse sonho creava forças heroicas para todas as luctas da realidade.
Margarida distinguira-o no meio de todos os homens ricos, elegantes, nobres ou poderosos, que a rodeavam e acclamavam rainha.
É que na fronte d'elle, já cavada por duas linhas profundas, lia o que não lera ainda nos outros—o pensamento e a energia.
Sabia, porém, que seu pae, o banqueiro millionario, só a daria com prazer a quem trouxesse mais lustre ou mais dinheiro á sua casa, e timida, melancolica, sem disposições para as luctas da vida, repugnava-lhe tudo que fosse combate ou resistencia.
Tinha sido doente desde pequenina, era um organismo nervoso e delicado, cheio de caprichos inconscientes, mais artistico do que reflexivo.
Gostava de musica, de flores, de versos, das cousas bellas e harmoniosas, tinha um vago desdem silencioso por tudo quanto via ser o enlevo e a preoccupação exclusiva dos seus.
O dinheiro! sempre o dinheiro!
Ninguem fallava em torno d'ella senão em dinheiro, e no entanto ella, que vivia n'um voluptuoso ninho de princeza de conto de fadas, tinha pelo dinheiro em si o mais soberano desdem.
Salvava-a isto da vulgaridade que mais ou menos contamina as mulheres ricas.
Margarida no inverno vivia em Lisboa.
Tinha então a vida futil e ociosa de todas as rainhas da alta vida.
Ia muito a S. Carlos, recebia n'uma certa noite da semana, presidia aos jantares dados por seu pae, ia passar muitas noites fóra, fazia compras, corria as modistas acompanhada sempre por miss Brown, uma correcta ingleza de sacca-rolhas côr de açafrão, que seu pae descobrira felizmente n'uma das suas viagens a Londres.
No meio d'esta vida artificial tão vazia e tão fatigante ao mesmo tempo, que lugar havia para que ella pensasse, sentisse, desejasse alguma cousa para fóra do circulo estreito que a encerrava?
Margarida deixava-se viver.
Um dia, porém, n'um baile, apresentaram-lhe Eduardo de C., e depois de meia hora de conversação sentiu por elle o que não sentira ainda por nenhum outro.
Ficaram conhecidos.
Elle na sombra, de longe, já se vê; ella lá em cima na plena irradiação da sua graça, da sua formosura, da sua opulencia, de todo o seu esplendor.
Cumprimentavam-se com uns toques de familiaridade, e n'um ou n'outro baile d'estes a que vae toda a gente, a boa e a má, tinham-se apertado a mão mutuamente, e tinham trocado algumas phrases affectuosas.
No verão, o pae de Margarida, que tinha propriedades em varios pontos de Portugal, consultava a filha para que lhe indicasse a quinta em que mais gostaria de passar as calmas do estio.
Pouco tempo depois do encontro com Eduardo, Margarida, disse a seu pae, que a consultava como de costume:
—Este anno vamos para o Minho, sim? Sinto-me tão fraca, tão doente! O ar do Minho ha de por força fazer-me bem.
É verdade que nas vesperas, n'um baile, Eduardo dissera-lhe, approximando-se d'ella:
—Peço licença para apresentar a v. exc.a as minhas despedidas. Alcancei uma collocação em Vianna do Castello, e parto para alli um dia d'estes.
—Vianna! pensou Margarida emquanto dous raios de alegria se accendiam nas suas pupillas de um azul sombrio.
—É em Vianna a nossa quinta.
Partiram.
Na provincia a intimidade estabelece-se forçadamente entre pessoas que não pertencem ás mesmas camadas sociaes.
Para se admittir um sujeito em qualquer sala de provincia exige-se simplesmente que tenha uma educação limpa, e que possua alguma prenda de sociedade.
Em Vianna, na sala do grande banqueiro tão altivo e tão inaccessivel, reuniam-se não só os fidalgos mais primorosos das cercanias, como tambem os humildes funccionarios do Estado, que por aquellas regiões se achavam accommodados.
Margarida, com o seu porte de soberana, o seu sorriso altivo e distrahido, a graça ondeante da sua gentil figura, recebia a todos com a mesma benevola indifferença.
Todos a contemplavam fascinados e quasi medrosos.
Ninguem se atrevia a dirigir-lhe finezas banaes: de tal modo o olhar d'ella sabia tornar-se glacial, logo que adivinhava a pretenção de um namorado na amabilidade um tanto desastrada de algum dos seus convivas provincianos.
—Não ha aqui um empregado chamado Eduardo de C.? perguntava um dia na sala a elegante filha do banqueiro.
—Ha. Um rapaz muito estudioso, muito concentrado, que desenha muito bem, acudiu espevitadamente d'alli uma menina que fazia as delicias das soirées de Vianna, pela sua voz de falsete sempre prompta a torturar os ouvidos do proximo. Conhece-o?
—Foi-me apresentado este inverno em Lisboa; respondeu Margarida.
E accrescentou mentalmente:—Quem me dera que elle aqui apparecesse! Como me distrahiria de tudo isto que me cérca.
Isto era uma duzia de cavalheiros da provincia acompanhados das suas respectivas esposas ou manas, tudo gente preoccupada dos interesses mais mesquinhos, das pequenas intrigas mais pueris, fallando, gesticulando, dançando, tocando, cantando, murmurando e constituindo a unica diversão das noites de Margarida.
Não sabemos de que traças usou a gentil lisboeta: sabemos que algumas noites depois d'esta, Eduardo de C. era apresentado por um fidalgote, aspirante e litterato, na sala do banqueiro.
Desde esse dia elle e Margarida formaram em commum uma especie de refugio contra a frivola banalidade d'aquellas noites.
Eduardo desenhava com muito chiste caricaturas e graciosos croquis, que Margarida guardava contentissima; ella cantava com a sua voz meiga e flexivel algumas simples melodias allemãs, ou tocava as musicas dos velhos mestres classicos, tão queridos de Eduardo.
Fallavam a respeito de tudo com a liberdade de pessoas que se entendem e apreciam.
Discutiam litteratura, musica e versos.
Ás vezes fallavam ambos do futuro.
—Que tem tenção de fazer? perguntava Margarida.
—Ora! Não sei bem. Com certeza hei de fazer alguma cousa. Ando a crear forças para a lucta. Ha de ser tenaz, ha de ser terrivel, bem sei, mas eu hei de vencer!
—Quer que lhe dê um talisman para entrar no fogo?
Elle envolveu-a em um olhar ardente; depois, baixando a vista, respondeu quasi com violencia:
—Não brinque comigo. Olhe, que me faz muito mal.
Margarida sabia que era amada.
Tambem ella sentia por elle o que nunca sentira, mas não tinha coragem para resistir ás ordens de seu pae.
Por esse tempo andava elle a arranjar o casamento da filha com o conde de V., um moço que tinha nas veias o sangue dos reis godos, e na cabeça a mais crassa estupidez de que ha memoria desde o tempo dos ditos.
Margarida sabia ou suspeitava do caso, mas deixava-se ir n'uma indolencia de crioula á mercê dos acontecimentos da sua vida.
Ao pé de Eduardo sentia-se bem, e quando elle a fixava com o seu bello olhar de ambicioso e de pensador, Margarida esquecia-se de tudo que não fosse a delicia de ser preferida por aquelle homem.
N'uma noite em que os hospedes habituaes estavam na sala, e em que junto da meza redonda do serão Eduardo e Margarida liam esquecidos de tudo que os cercava, felizes, despreoccupados como os dous amantes do florentino, ouviu-se o rodar de uma carruagem que parava á porta do palacio.
O banqueiro levantou-se rapidamente da banca do voltarete e sahiu da sala relanceando para a filha um olhar de esconso.
Margarida, sem saber porque, fez-se pallida como uma morta.
—Ó meu amigo—exclamou n'um impeto ardente, irresistivel, que não soube conter,—chegou o fim da nossa felicidade!
Eduardo olhou para ella desvairado.
—Que diz? que é isso? a que se refere?
N'este momento entrava na sala o pae de Margarida dando a direita ao ultimo herdeiro de nobres avoengos.
—O sr. conde de V... pronunciou com o orgulho humilde dos burguezes ambiciosos de honrarias sociaes, apresentando o recem-chegado a toda a companhia.
Margarida accolheu-o com um sorriso gelado.
Conhecia-o, sabia que o pae queria pôr-lhe sobre a cabeça loura e altiva uma corôa de condessa, e sentiu que dentro d'alma lhe estalava uma corda que nunca mais tornaria a vibrar!
D'alli a seis mezes todos os jornaes annunciavam na secção do high-life o casamento da filha do banqueiro opulento com o neto dos heroes medievicos.
Os noticiaristas fundavam as mais ardentes esperanças n'este consorcio que alliava o sangue nobilissimo e a fortuna collossal, e contavam com grandes minudencias as pompas d'aquella festa principesca, os presentes riquissimos que a noiva recebera, a toilette d'esta, a alegria dos numerosos convidados, etc., etc.
O que ninguem sabia é que esse casamento despedaçára duas vidas!
No fim de dez annos o conde de V... déra cabo do dote da mulher, e da vida do sogro, que morreu amaldiçoando-o.
Continuava, porém, la vie à grandes guides, que tinha começado no dia seguinte ao seu noivado, e já havia quem calculasse muito pela rama por quanto tempo podia durar ainda a desenfreada orgia d'aquella existencia de Marialva estupido.
Em casa da condessa o luxo não se modificára com as aproximações da pobreza.
No olhar d'ella divisava-se uma profunda e desdenhosa indifferença da vida.
Nem o amor maternal conseguira salval-a do desespero.
Ligada a um homem que desprezava do intimo d'alma, entristecida para sempre por uma d'estas recordações que lavram dia a dia, e que por fim se apossam de uma existencia inteira, Margarida procurava esquecer-se de si, aturdir-se no turbilhão das festas mundanas.
Os filhinhos estavam entregues ao cuidado d'aquella pobre miss Brown que ao vêr o abandono dos pobres anjos, innocentes das culpas de seus paes, se dedicára por elles com a abnegação profunda de que só é capaz uma ingleza feia!
Margarida passeava de carruagem, ia ao theatro, ao paço, aos bailes, ás festas de beneficencia, vendia nos bazares de caridade elegante, fazia e recebia visitas, e de vez em quando, se no meio d'este turbilhão avistava o marido, media-o de alto a baixo com um olhar de profundo e inconcebivel tedio!
Eduardo durante estes dez annos tambem soffrera grandes modificações na sua vida.
Luctara como um homem, e soubera vencer a mediocridade do seu nascimento e da sua posição.
No instante em que aquella que elle um dia amara como a noiva estremecida da sua alma, sentia vagamente afundar-se no sorvedouro negro da miseria, elle recusara altivamente uma pasta de ministro e uma noiva brazileira, possuidora de duzentos contos fortes, isto depois de uma sessão legislativa, em que a sua palavra viva, nervosa, eloquente, colorida e artistica havia deslumbrado o paiz.
—Não me vendo por dinheiro, nem pelas honras mentirosas com que os tolos lançam poeira á cara uns dos outros; respondera a quem o interrogava espantado ácerca d'estas duas recusas.
Alguem, que me contou este vulgar episodio da vida moderna, mostrou-me o fragmento de uma carta que Margarida escreveu doze annos depois de casada a uma socia das suas antigas alegrias.
«É a ti que prefiro escrever. Conheceste-me solteira, feliz, idolo de um pae, que, ai de mim! se perdeu e me perdeu pela vaidade. Has de ter dó de mim.
«Tenho dois filhos e preciso ganhar honestamente o pão que elles hão de comer!
«Presinto o teu espanto, as tuas interrogações, os brados afflictivos da tua surpreza!
«Não me perguntes nada.
«Pergunta-o se quizeres, a essa Lisboa, que assistiu ao louco esphacelar de uma fortuna enorme, com o sorriso banal e adulador que ella tem para todos os perdularios.
«Sabes a educação que recebi.
«Creio que seria uma mestra capaz de cumprir com a minha ardua missão.
«Em nome dos teus louros pequeninos, tão fartos de gulodices e de beijos, arranja-me algum meio de ganhar um pedaço de pão para os meus filhos.»
Dava lições!
A brilhante Condessa de V..., a filha adorada de um dos homens mais ricos de Lisboa, a rainha dos salões luxuosos, a estrella mais fulgurante do alto mundo, dava lições para sustentar os dous filhos que lhe restavam, unicos vestigios de um passado de pomposas mentiras.
O infortunio nobremente supportado transfigurara aquelle rosto desdenhoso e soberbo de garrida mundana.
Deixára de ser rainha e levantára-se martyr!
Levantava-se de manhã muito cedo, bebia á pressa uma chicara de café, que a sua fiel Miss Brown, companheira dos triumphos e das desventuras lhe preparava por suas proprias mãos, e sahia, modestamente vestida de preto, a cumprir a sua improba tarefa.
Só voltava a casa de noite.
Divulgára-se rapidamente a noticia d'aquella excepcional desventura, e muita gente, que vira com desprazer a prodigalidade da caprichosa condessa, compadecia se agora, sem pensamento reservado, d'aquella digna e santa expiação.
Margarida tinha muitas discipulas.
Fazia pena vel-a, muito delgada, quasi diaphana, com os olhos pisados, as faces córadas pelo cansaço e pela febre, e um sorriso triste resignado, humilde, n'aquelles labios que tinham sabido tregeitar com tão altivo desdem.
Era sempre a mesma alma sem energia.
Não esperava cousa nenhuma da terra senão a morte, levando a consciencia de ter expiado os erros do seu orgulho.
Cumpria uma penitencia, não encetava uma lucta heroica de que esperasse sahir vencedora.
N'uma tarde do mez de janeiro, chuvosa, humida e fria, Margarida subia a muito custo a calçada de S. Bento, em Lisboa, onde morava uma das suas discipulas.
A rua, viscosa e lamacenta, inspirava-lhe aquella repugnancia patricia, que a infeliz ainda não soubera vencer.
A atmosphera plumbea e carregada dava-lhe ao coração uma dose de invencivel tristeza.
Sentia-se predisposta para as recordações cruciantes para as inuteis fluctuações de um sonho que se extinguira.
Comprehendia com angustia que lhe faltava coragem para levar a cabo o doloroso dever que a si propria impuzera.
Oh! ella bem sabia que a sua alma não era da tempera das que luctam e se sacrificam!...
N'isto uma carroagem elegante descia a calçada ao passo de dous formosos cavallos inglezes.
Margarida, vendo a alguns passos o correio agaloado, percebeu que era um ministro e, sem querer, movida por um impulso subito, levantou os olhos e fitou os no homem que ia dentro do trem.
O que ella sentiu não se explica.
O ministro era Eduardo de C.
Os olhos dos dous encontraram-se.
Margarida quiz saborear a voluptuosa tortura de vêr n'esses olhos o brilho de um satanico orgulho, de um triumpho sinistro e mau.
Não viu!
Eduardo teve tempo de inundal-a em um d'estes olhares doces, unctuosos, cheios de misericordia, de doçura, de perdão; em um d'estes olhares que só podem comparar-se ao olhar do Christo redimindo a Magdalena!
Só de longe a tinha visto de vez em quando nas salas do alto mundo: nunca lhe fallara então; não quiz humilhal-a fallando-lhe agora!
Ella sentiu que se lhe despedaçara no peito alguma cousa indispensavel á vida.
Apertou em torno do corpo friorento e emmagrecido as pregas do seu pobre chale preto, abaixou a cabeça instinctivamente, como se fizesse pender para a terra um pezo estranho, e continuou a subir devagarinho, arrimando-se á parede, aquella eterna calçada, cheia de agua e de lama.
Cahia uma chuva fria e miuda que lhe encharcava o fato.
Um mez depois, da casa pequenina de Margarida sahia um enterro aceiado e modesto.
Era o enterro d'ella.
Miss Brown explicava que a pobre senhora voltara uma noite muito constipada das lições, que teimara em sahir ainda no dia seguinte, mas que tivera de recolher-se á cama, onde penou pouco menos de um mez.
O enterro de Margarida levava por acompanhamento unico uma carruagem sem brazão.
N'essa carruagem ia Eduardo de C.
Margarida, antes de morrer, escrevera-lhe uma carta cujas supplicas dolorosas iam apagadas pelas lagrimas.
Os dous orphãos de Margarida estão agora a educar-se em um dos melhores collegios de Lisboa, e todas as despezas da sua educação são pagas por um protector invisivel e mysterioso.
Ha quem dê a essa Providencia ignota o nome sympathico e hoje glorioso e querido de Eduardo de C.
A TIA IZABEL
Conhecia-a em casa de uma familia amiga da minha.
Affirmavam os que a tinham conhecido em menina, que fôra bonita; a mim parecia-me simplesmente sympathica.
Era alta, magra, loura e muito branca, uma physionomia serena e melancolica, sem muito relevo, mas com muita doçura.
Andava sempre vestida de escuro, com uma simplicidade em que transpareciam, porventura, vislumbres de antigas elegancias.
Ao olhar para ella conhecia-se que havia de ter gostado de certas puerilidades mundanas, de se vestir e pentear bem, por exemplo, de ser citada pelo esmero do seu gosto, e pela distincção finissima de suas maneiras.
Hoje todas as vaidades se tinham apagado; fizera quarenta annos, e acolhêra-os com resignação, com dignidade, com uma certa graça melancolica que lhe ficava muito bem.
Nenhum dos rapazes que frequentavam aquella casa se atrevia a chamar-lhe solteirona.
A solteirona é a mulher solteira que não sabe acceitar resignada as amarguras da sua isolação, e as converte em ridiculos quando as não converte em pessimas qualidades.
A solteirona é pretenciosa, presumida, avida de attrahir a attenção, revolve os olhos sentimentalmente, lê romances, come gulodices, tem um king charles e inveja tudo o que é moço, radiante, feliz, tudo que tem esperanças e para quem o futuro desabrocha em promessas.
A solteirona é egoista, incommodam-na como uma injuria que lhe é particularmente dirigida todas as alegrias que não tem, persegue-a atrozmente a aspiração irrequieta a um pobre marido que podesse atormentar á vontade; sente-se na vida como n'uma casa que não é sua; d'aqui o seu mau humor continuado que torna d'ella quasi sempre o flagello da familia onde se sente pária!
A tia Izabel, porém, não era nada d'isto, pelo contrario.
Tinha para os sobrinhos um coração que, sem ser de mãe, encerrava muito de maternal, sobretudo no que as mães têem de indulgente!
Nunca a vi colerica, nunca a vi tambem excessivamente animada.
Não se ria, mas tinha habitualmente um sorriso placido, quasi distrahido, o sorriso de quem se sente um pouco estranha a todas as alegrias que a rodeiam, mas que nem por isso deseja projectar as suas sombras na luz que os outros espalham em torno d'ella.
Era muito estimada pelo irmão, pela cunhada e pelos sobrinhos, uns traquinas que andavam sempre a recorrer á sua inexgotavel paciencia, e que nunca foram expulsos com um gesto de irritação ou de desamor.
Sabia a difficil sciencia de se tornar util a todos, quasi indispensavel; estreitando d'este modo os laços que a prendiam aos seus, tornando-os por assim dizer inquebrantaveis:
Sentia-se assim menos só!
Nos jantares de familia os melhores pratos eram sempre executados debaixo da sua direcção; era ella quem fazia o menu, quem distribuia os lugares, quem presidia a todos os arranjos de casa.
Encarregava-se das tarefas mais enfadonhas, d'aquella parte aborrecida que tem uma festa e que as donas da casa acceitam com tédio, mas que lhes é mais tarde compensada no applauso, na satisfação, ás vezes mesmo na inveja disfarçada em risos dos seus convivas.
N'essas occasiões solemnes em que ninguem dava por ella, creio que se permittia um instante de innocente amor proprio, vendo a meza bonita, bem disposta, com a elegante e symetrica poesia das grandes jarras do Japão cheias de flores, dos crystaes facetados onde o vinho tomava as olympicas apparencias do nectar, da bella louça da China de lavores extravagantes e phantasiosos, da roupa fresca, pesada, macia, de linho da Russia adamascado, tendo bordadas iniciaes... que não eram as d'ella.
Depois voltava para o seu logar secundario, obscuro, e voltava de boamente com simplicidade despreoccupada.
Estava sempre bem com todos, sem se curvar obsequiosamente diante de alguem.
Tinha mesmo um modo seu de dizer as verdades com firmeza e com brandura, sem transigencias cobardes, sem severidade excessiva.
Quando havia em casa um doente, sentava-se-lhe tranquillamente á cabeceira, fazia-lhe sentir com discreta suavidade a sua influencia boa, perdia as noites com um aspecto de intrepidez e de meiguices; era inapreciavel emfim.
Tinha uma infinidade de pequenas idéas que punha em pratica e de cada uma das quaes resultava um allivio para o doente: arranjava as almofadas, aconchegava as roupas do leito, dir-se-hia que a sua mão esguia, branca, um pouco secca, tinha o segredo de verter balsamo em todas as feridas de um corpo enfermo.
Na convalescença lia alto.
Escolhia muito bem os livros, tinha a maravilhosa intuição de todas as necessidades de um espirito adormecido, n'aquella dubia luz crepuscular da doença physica.
A sua voz vellada, sem grande sonoridade, tinha umas notas macias que entravam até ao fundo do coração e que o amolleciam docemente.
Ainda nos desgostos de familia, na hora das crises e das catastrophes era para ella que instinctivamente todos os braços se estendiam.
É que ella, com o seu passo miudinho, o seu ar sereno, os seus habitos methodicos, nem diante das maximas catastrophes perdia a placidez necessaria.
Uma das suas particularidades mais accentuadas era a repugnancia pelo barulho, pelo espalhafato, por todas as exterioridades apparatosas.
Andava, fallava, trabalhava, movia-se sempre devagarinho.
Lembro-me perfeitamente do quarto d'ella, como d'uma especie de pequeno sanctuario onde poucas vezes penetravam as travêssas creanças de quem ella era como que segunda mãe.
Quando eu acertava de lá entrar com ellas, emquanto a pequenada corria de um lado para outro, vendo, tocando tudo, perguntando informações de todas as cousas, eu observava callada com o meu olhar de mais velha, mais penetrante e mais curioso.
Tudo alli era limpo, aceiado mas tudo antigo, datando sem duvida da sua adolescencia, do tempo em que ella fôra feliz, porventura requestada e formosa.
A alcova branca, discreta, com o seu oratorio de pau santo, cheio de bellas imagens, a Virgem risonha e loura com o menino nos braços, o Christo macerado e sangrento com a expressão de sobre-humana agonia no amortecido olhar.
No gabinete contiguo as cortinas, os reposteiros de chita, as poltronas, as pequeninas mezas cobertas com os seus panos de crochet, as estantes de livros, tudo emfim era bem conservado, sem ser novo; via-se que tinha sido o objecto de attentos cuidados, que todas aquellas cousas mudas haviam sido as companheiras unicas de uma existencia concentrada e solitaria.
Nas paredes, sobre as pequenas étagères, muitos retratos, todo um cortejo moço e triumphante que passava ao longe.
Exhalava se d'aquelles objectos tão esmeradamente cuidados, um vago, um indistincto perfume de saudade, como d'um herbario de flôres seccas, colhidas entre risos de crystal, nos dias radiantes da primavera...
Os pequenos então, com a sua inconsciente crueldade infantil, faziam mil perguntas, impacientes, curiosas...
—Quem era esta menina, tia Izabel? tem um vestido de seda decotado e na mão um malmequer que está desfolhando. Como ella scisma tão embebecida! Em que scismaria ella, minha tia?
—No futuro!... respondia ella sorrindo com o seu bello sorriso intraduzivel em que havia talvez muitas saudades.
—Que é feito d'ella? Era sua amiga, não era? Porque é que a não vem cá vêr nunca?
—Ao principio veio, depois casou-se; o marido levou-a a viajar, foram muito longe, divertiram-se, provavelmente ella esqueceu-se. Quando voltou trazia um filho, um baby louro e côr de rosa como o teu irmãosinho Arthur. Só o vi uma vez. As creanças absorvem muito as mães, por causa d'ellas esquecem-se de tudo, até das amigas da infancia. Hoje só sei que é muito feliz, e quando tenho saudades olho para o retrato d'ella!... Fômos tão amigas!
E callava-se baixando os olhos, receiosa de que a vissem contemplar com demasiado enlevo os dias que já não podiam voltar.
Todos aquelles retratos tinham uma historia.
Aquelle cortejo de juvenis visões louras, morenas, travêssas ou melancolicas faziam parte do passado, por isso lhes queria tanto.
Umas tinham casado, eram felizes, viviam absorvidas pelo divino egoismo da familia, todas entregues ao bem estar dos seus, aos interesses, ás alegrias, ás dôres do seu pequeno circulo de affectos.
Outras tinham morrido; eram as que alli nos appareciam mais pallidas, com um vago reflexo de luz febril nos olhos pasmados e pensativos.
Tinham morrido na plena florescencia do seu imaginar juvenil, levando para a cova, como levariam uma flôr ainda constellada pelos orvalhos matinaes, a dôce chymera que nenhum sôpro brutal lhes havia desfeito.
Fecharam os olhos cercados por todas as apparições fulgidas, que envolvem a mocidade como n'um circulo de estrellas, e foram despertar—quem sabe! n'outras regiões de que ninguem ainda voltou, do sonho feliz que haviam começado na terra.
Não eram essas as menos bemfadadas.
Ella, porém, ficára só.
Porquê?
Condemnação de que não conhecia o implacavel segredo!
Tambem fôra môça, tambem tivera crenças, esperanças, pequenos sobresaltos de amor proprio, ephemeras vaidades de quem se julgara querida!
Estremecera muita vez, ao sentir abrir uma porta, echoar um passo ligeiro e firme nos vastos corredores, vibrar uma voz viril, grave e terna!
Tivera rubores subitos, sentindo pousar na sua fronte branca, a luz d'um olhar quente e caricioso; colhêra uma rosa, prendera nos cabellos um cacho de madresilva, vestira um dia um certo vestido branco, cheia de alegria, agradecendo a Deus ter feito a vida tão boa, o céu tão azul, o cheiro das arvores tão penetrante e tão sadio!
Olhava n'este tempo para as creanças, beijava-as como a ensaiar as graças da maternidade, fazia-lhes festas, pensando que tambem havia de ter um dia uns pequeninos como aquelles, que lhes havia de querer muito, e leval-os a passear, seguida pelo olhar invejoso das outras mães... cujos filhos seriam forçosamente feios.
Então consultava comsigo mesma o systema de educação que adoptaria, e o modo porque os havia de vestir, e concluia vendo-os entrar para a Universidade, n'um dia de muitas lagrimas e de muitos dilaceramentos, altos, esbeltos, um pouco altivos, com um buçosinho louro, appetitoso como a pennugem d'um pecego mal maduro.
Foram-se-lhe dias e dias n'este sonhar que a entretinha, como a leitura d'um romance cujo interesse nunca afrouxa.
Um dia, porém, por acaso viu-se ao espelho, e despediu-lhe o seio um grito de angustia.
Despontava-lhe entre os fártos cabellos louros, o primeiro cabello branco, um fio de prata, tenue, quasi imperceptivel, uma cousa em que ninguem reparava.
Reparou ella.
Reparou tambem n'esse momento que todas ou quasi todas as companheiras tinham casado, que muitas das suas illusões se tinham desfeito ás asperas nortadas da realidade, que se ia sentindo na vida muito só.
Teve umas horas de lucta, de revolta, quasi de desespero.
Alguem, ou alguem invisivel em que ella sempre acreditára, mandou-lhe a força, porque lhe mandou a resignação!
Quando o pae lhe morreu veio para casa dos irmãos, e a pouco e pouco achou em si a fonte de todas as riquezas mysteriosas, que espalhava pelos affectos que o seu coração adoptou!
Eis pouco mais ou menos a historia da tia Izabel.
O MELHOR SOMNO DO MILLIONARIO
Tinha ido para o Brazil ha muitos annos.
Ainda havia frades em Portugal e fôra até um seu tio frade que o acompanhara a bordo de um brigue e que lhe dissera com voz solemne e sentenciosa, no momento da despedida, estendendo os braços n'um largo gesto de pregador:
—Deus te leve a salvamento, Francisco!
O sr. Francisco Cerqueira lembrava-se de todos os pormenores e incidentes trabalhosos da jornada que elle fizera desde a sua pequena e risonha aldeia minhota até Lisboa.
Era um gosto ouvil-o á mesa, ao domingo, quando o armazem repousava na sua humidade claustral, e não se ouvia o estrepitoso labutar dos negros carregadores, a voz arrastada dos Mineiros freguezes da casa, e a melopéa das quitandeiras na rua.
Os socios muito mais moços que Cerqueira puxavam-lhe pela lingua conforme a pittoresca locução do povo, e á sobremesa, recostados, com os charutos accesos, ouviam-no discretear alegremente.
Lembrava-se de tudo o sr. Cerqueira. Era uma chronica viva. Recordava-se da sua aldeia, narrava historias da sua infancia, descrevia com rudes mas pittorescas phrases a aula de primeiras letras, o abbade da freguezia, as proezas do tio frade, que com um varapáo nas unhas era homem para varrer toda uma feira, e enternecia-se até ás lagrimas, quando tocava no assumpto de despedida da mãe.
—Ah! vocês não imaginam! Não me sahe d'aqui! Parece que tenho um nó na garganta, quando me lembro d'aquelle momento. Abraçava-me a chorar e a soluçar que era uma cousa por maior! Inda me parece que a vejo ao pé das carvalheiras do adro da igreja, estendendo-me os braços de longe e gritando suffocada:
—Ah! rico filho, rico filho da minha alma!...
Que idade terá ella hoje? Ora, espera, eu tenho cincoenta e seis; ella, pelas minhas contas, vem a ter os seus setenta bem puxados... quem me dera vêl-a!
—Mas, seu Cerqueira, nada mais facil! Por que se não resolve? Em dezoito dias está lá...
—Sim, é verdade.
E ficava triste e meditabundo por instantes...
—Mas tenho medo de chegar e de não a encontrar. O unico motivo que me leva á Europa, é ella, a pobre velhinha... É o unico parente que tenho, que não sei se vocês sabem, que da nossa familia restamos tão sómente nós, ella e eu... a minha terra é aqui, para aqui vim creança, e aqui me fiz gente... Que vou eu fazer á Europa, não me dirão?
Isto dizia o sr. Cerqueira; mas o que se lhe passava no intimo era bem diverso. Tinha saudades, tinha-as e bem fundas da aldeia em que nascêra e da casa em que se creára.
Porque a sua vida fôra um luctar sem treguas, um batalhar decidido e um inferno, á sahida do qual elle contava, como o mythologico Orpheu, rever as appetecidas Eurydices—a mãe e a patria...
Escrevia á mãe de tres em tres mezes, e nunca deixava de lhe recommendar que conservasse tal e qual como estava a casita, e que não mexesse nunca no leito em que elle dormira nos annos proximos á partida para o Brazil.
«Porque desejo morrer n'elle», escrevia Cerqueira á mãe amantissima.
E ia-se deixando ficar.
Por duas vezes os socios estiveram em Portugal, mas o nosso Cerqueira não se decidia.
Ás vezes parecia tomado de uma forte resolução, e, ouvindo as descripções das viagens dos socios:
—Homem, parece-me que sempre me resolvo!
No outro dia, porém, lá andava pelos armazens mourejando, dando ordens, e n'aquella atmosphera de trabalho vivificante e saudavel parecia transfigurado e como que esquecido da promessa que a si proprio fizera.
Um dia, quando o sr. Cerqueira encarapitado no alto banco de palhinha sobre a secretária, revendo se na sua bella letra ingleza e floreada, entrou no escriptorio um dos caixeiros annunciando-lhe que estava alli um sujeito que desejava fallar-lhe.
Cerqueira collocou a penna atraz da orelha, puxou do lenço vermelho, e abrindo a caixa enterrou unidos, no tabaco, o pollegar e o index, e mal acabava de absorver a pitada pela narina direita, tamburinando voluptuosamente com os restantes dedos na esquerda, quando lhe surgiu á porta um rapaz bem trajado e modesto, que figurava ter quando muito dezeseis annos.
—Creio que fallo ao snr. Francisco Cerqueira?
—É verdade.
—Cheguei hoje de Portugal e trago-lhe esta carta.
E o rapaz desabotoando o fraque, tirou do bolso uma carta que entregou respeitosamente ao negociante.
Olhou attento para a lettra do sobrescripto e sorriu-se; um bom sorriso beatifico e dourado de mocidade que lhe illuminou o semblante.
Depois abriu a carta, desdobrou-a e collocando-a ante o rosto começou a lêl-a devagar, como que saboreando cada palavra e cada phrase. Ás vezes parava, e como um namorado que espreita por cima d'um muro, erguia os olhos acima do papel e examinava attentamente o rapaz, que se conservava de olhos baixos, direito e tranquillo.
Chegando ao fim da carta, voltava de novo a lêl-a. Era como que um conversar com aquellas letras que vinham de longe e que lhe traziam um pouco de perfume das larangeiras do paiz natal, e um tudo nada das lagrimas de sua mãe.
—Queira sentar-se, disse benevolamente o commerciante ao mancebo.
E continuou a ler. A carta era pequena, mas n'aquellas letras arrevesadas e tremulas elle via um rosto, umas feições adoradas, e logo depois como nas tintas esbatidas e aereas de um sonho de convalescente, levantava-se uma figura de mulher ainda moça e vigorosa, ao pé de umas carvalheiras, e essa mulher estendia-lhe os braços e dizia-lhe de longe com uma voz entrecortada de lagrimas:
—«Ah! rico filho, rico filho da minh'alma!»
Arrancado d'aquella visão, o sr. Cerqueira dobrou a carta devagar com as mesmas dobras, abriu a larga carteira de marroquim vermelho e collocou-a com grande cuidado n'um determinado compartimento.
Em seguida levantou-se e pitadeando de novo:
—Olhe, o nosso guarda-livros vai espairecer até Buenos-Ayres, e creio que por lá ficará. Coitado! aquillo vai mal!... Quer o senhor occupar esse lugar n'esta casa?
O moço acceitou reconhecido, e ia a levantar-se quando um preto velho em mangas de camisa abriu a porta do escriptorio:
—O jantar está na mesa, nhônhô...
Passados dias notaram os socios do sr. Cerqueira que este não parava em casa um instante. Sahia frequentemente, andava mais contente e lepido que o costume. Pouco fallava ao jantar; de communicativo que era, tornara-se recolhido comsigo, mas no olhar lampejava-lhe uma doce e ineffavel alegria.
Ora que fazia o sr. Cerqueira?
Andava envolvido n'uma terrivel conspiração, queria desfazer-se, desligar-se dos queridos laços, creados pela sua longa e trabalhosa vida de perto de quarenta annos, n'aquella terra a que elle de entranhas queria, e aonde aportara pobre, desprotegido, sem recursos...
Logo pela manhã, depois de dar as suas ordens no escriptorio, mettia-se a caminho, percorria as ruas, examinando attentamente cousas que antes lhe haviam passado desapercebidas.
Entrando nos americanos, dirigia-se aos formosos arrabaldes da côrte...
Lembrava-se então das suas merendas saudosas e illuminadas pelo sol dos vinte annos, no morro de Santa Thereza, nas chacaras ridentes do Botafogo, á sombra das arvores do Corcovado.
E passava distrahido sem corresponder aos frequentes e affaveis cumprimentos que lhe faziam os conhecidos e amigos, do alto da imperial dos omnibus, ou da plata-forma dos americanos.
Alguns dos companheiros dos seus passeios e folguedos da mocidade tinham morrido, outros haviam deixado o Brazil e viviam na Europa, em Portugal.
—Como poderam elles deixar isto sem saudade? É verdade que eu gostava de morrer lá, onde nasci, na minha pobre aldeia, ao pé de minha mãe... pensava o sr. Cerqueira.
E á hora do jantar, já não havia o conversar, e aquelle teimoso questionar que tanto alegrava os dois socios!
É que o sr. Cerqueira continuava a fallar comsigo e a passar uma a uma pelos dedos as contas do mystico rosario das suas saudades...
Uma tarde os socios de Cerqueira bateram-lhe á porta do quarto. Houve uma certa demora em se abrir essa porta. Insistiram. Cerqueira veio emfim saber o que era.
Entraram os dous e recuaram surprehendidos ante a mudança que observaram.
No meio do quarto estava uma grande mala escura cravejada de pregos amarellos; em cima do canapé esgarçado avultavam montes de roupa branca, e pequenas malas inglezas com fechos dourados e reluzentes. As gavetas da commoda estavam corridas, havia n'aquelle quarto em fim a apparencia d'uma casa saqueada...
—O que é isto, seu Cerqueira?
—É o que vocês estão vendo. Ámanhã é o dia da partida... Resolvi-me emfim...
—E eu que tinha apostado aqui com o seu Fernandes que você nunca se resolvia...
—Pois, meu amigo, perdeu a aposta, cortou o Cerqueira, sorvendo sybariticamente uma pitada.
Na manhã do dia seguinte, no tombadilho d'um dos vapores da Companhia do Pacifico, emquanto os dous socios do Cerqueira riam e diziam facecias, deitando com ares de casquilhos atabalhoados as lunetas a algumas francezas, que, com os seus vestidos de fazendas claras animavam alegremente aquelle conjunto de pessoas possuidas de tão estranhos e contradictorios sentimentos, o nosso viajante olhava com os olhos de quem se despede de um sitio amado para os armazens, para os trapiches que se retratavam nas aguas da bahia, para as torres das egrejas que se arrendavam nitidamente no claro céo azul.
Em Lisboa pouco se demorou.
No hotel, alguns amigos quizeram prendel-o ainda, tentando-o com o theatro lyrico, com Cintra e com as poucas fascinações baratas de Lisboa.
Cerqueira resistiu, e n'uma bella manhã, mettido em uma diligencia que partia de Braga, dirigiu-se para Ponte de Lima. Aqui alugando uma cavalgadura endireitou para a aldeia em que nascêra.
A meio caminho apeou-se, despediu o homem que o acompanhara, e deitando ao hombro uma pequena mala que trouxera, encaminhou-se para o seu lugar.
Seriam quando muito duas horas da tarde. O calor era grande. Pouca gente na estrada. Cerqueira parou a contemplar o quadro.
De um dos lados do caminho viam-se algumas raparigas com largos chapéos desabados e saias apanhadas segando herva, á compita, e misturando o seu canto ao metalico e monotono cantar das cigarras...
Do outro lado, um rapazito meio nú, de carapuça, sentado no chão, estava de guarda a meia duzia de bois que pastavam tranquillamente na herva macia e tenra...
De vez em vez, quando um dos bois se approximava de algum castanheiro, o rapaz agarrava de um calhau, e atirando-lhe rasteiramente, gritava:
—Eh! malhado...
—Quantas vezes eu tambem guardei as vaccas da nossa casa! pensou Cerqueira.
—Seu moço, venha cá, disse para o rapaz, venha cá, menino!
O rapaz olhou para o forasteiro com um olhar estupido e embezerrado e deixou-se ficar.
—Venha cá, menino, que lhe não quero mal...
O pequeno não se movia.
—O rapaz é mouco, disse comsigo o viajante, e como quem conhece o coração humano, tirou a bolsa e mostrou-lhe uma moeda de prata.
—Queres isto?
De um salto o rapaz poz-se a pé, tirou a carapuça, e coçando a cabeça aproximou-se.
—Diga-me uma cousa, menino, é aqui do lugar?
—Saiba vossemecê que sim senhor.
—Conhece a tia Genoveva?
—Uma que é assim a modo bexigosa, e já muito velhinha?
—Essa mesma.
—Olhe, ainda ha pouco a vi passar da banda do rio... São horas de a topar em casa...
Cerqueira estava emfim tranquillo.
Desapparecera o receio de não encontrar a querida velhinha.
Verdade é que podia ter tido novas d'ella em Lisboa escrevendo ao abbade, mas queria fazer uma supreza, chegar de improviso.
Áquella hora as aldeias do Minho são silenciosas e calmas, e ha n'ellas como que a intima paz das fabricas ao domingo.
Os homens andam no campo, as mulheres, quando os não acompanham, estão nos lavadouros ensaboando, e poucas pessoas, a não serem os velhos e algumas creanças, ficam em casa.
Na sombria humidade das tabernas descobre se a taberneira fiando, emquanto no quinteiro proximo os porcos com os focinhos semi-enterrados na lama grunhem voluptuosamente.
Um ou outro cavalleiro que passa ás vezes pela estrada n'um choito endiabrado, com o páo de choupa apertado nos joelhos, levantando uma nuvem de poeira dourada. E é então que os cães acordam aquelle silencio, latindo e correndo atrás dos cavalleiros, e que apparecem ás janellas e ás portas as raras pessoas que ficaram em casa.
Quando Cerqueira bateu á porta da casa pulava-lhe o coração de um modo desusado.
—Quem é?
—Alguem é, respondeu o viajante.
—Pois empurre o postigo, puxe pela aldraba e entre, se isso o não incommoda.
Assim o fez o nosso Cerqueira e entrou na saleta em que a tia Genoveva dobava...
Ante aquelle homem estranho, a velha surprehendida parou, e pondo uma das mãos diante dos olhos como uma palla:
—Que me quer vossemecê?
—Um abraço e um beijo, balbuciou o que entrara com voz enternecida e expirante...
—Elle que diz? Ó Christo!
E levantando-se foi direita á janella para chamar por soccorro imaginando vêr-se a braços com um doudo.
—Olhe que não estou doudo, santinha! Venho de longe e trago-lhe um beijo e um abraço de uma pessoa que é muito sua amiga.