PRIMEIRA PARTE (continued 3)
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—Do meu Francisco? exclamou a velha. Venham de lá não só um mas muitos abraços, que elle no dinheiro é mais generoso, valha-o Deus! Um só abraço!
E a velhita apertou nos braços Cerqueira, que com as lagrimas nos olhos murmurava:
—E eu que pensei que me conhecia! Pois não me conhece, minha mãe? Eu é que sou o seu Francisco, sou eu, repare bem...
A velha então explodiu um alto e clamoroso grito, e chorando e rindo, cahiu nos braços do filho.
—Agora conheço, sim, estava tonta! Esta cabeça! Mas se tu eras uns dez réis de gente quando abalaste d'aqui... Onde está a tua roupa? Já jantaste? Cá a gente janta ao meio dia, mas arranja-se tudo, não tem duvida... a Joanna foi á cidade, vou eu mesma matar uma gallinha... Tens fome? deves ter, sim? A minha cabeça... a minha cabeça! O meu Francisco! Mas porque me não mandaste dizer que chegavas, rapaz? Valha-te Deus, manicanso!...
E a tia Genoveva no meio do seu contentamento sahia da sala para logo voltar, amontoando perguntas sem nexo.
—Gostas d'isto? gostas d'aquillo? Do que vaes gostar é do vinho, é do nosso caco de salsa e sahiu-me d'aquella casta! O presunto vamos com Deus, que tambem me sahiu bom. Vaes provar... Ora o peccado do rapaz que me não avisou de nada!
E sahia para d'ahi a pouco voltar com a mesma abundancia de perguntas e de phrases penetradas de amoravel reprehensão...
Oh! que bom e que intimo foi aquelle jantar!
A sala alegre e caiada de branco, a toalha aspera, grossa e nevada, os talheres de cabo d'osso fabricados em Guimarães, os copos com um friso dourado nas bordas, as janellas abertas e dando para os campos onde cahiam suavemente as tintas do sol posto, tudo dava uma quieta e serena beatitude ao coração do brazileiro.
A mãe encostada ao espaldar da cadeira em que estava sentado o filho servia-o com muito carinho, fazendo-lhe perguntas sem conta a que elle respondia com o rosto inundado e clareado pelas lembranças de um passado que as palavras da mãe evocavam renascido.
Depois coube-lhe a elle fazer tambem perguntas: o que era feito d'este, se ainda era vivo aquelle, se no sitio de tal ainda existiam aquellas carvalheiras onde havia d'antes tanto ninho de melro, e se uma casára, e outra tinha muitos filhos, eu sei! um mundo de recordações e de saudades!
E com o olhar humedecido, Cerqueira percorria tudo, o velho armario pintado, as grades da varanda, as medas levantadas no meio da sombria verdura dos campos...
Ia cahindo a noite, ouvia-se já na aldeia um certo borborinho de vida, vinham da estrada trechos ruidosos de conversações. Recolhiam do campo os trabalhadores.
E os dois a conversar ainda!
—E a Joanna que não chega da cidade! É sempre assim!
Quando ha pressa é que não vem... Queres tu dar uma volta pelo lugar, Francisco?
—Nada, minha mãe! Este dia é só para si. Inda bem que ninguem me viu, e que se não sabe que cheguei... Conversemos, tenho tanto que dizer, tanto que ouvir...
Entrelaçava-se de novo a conversa, e assim estiveram até que a velha disse:
—E então não querem vêr que o rapaz quer tirar-me dos meus habitos! São horas de deitar. Vou fazer-te a cama, está ahi quedo que eu já volto.
Voltou d'ahi a pouco com um candieiro de tres bicos. A luz batia-lhe no engelhado rosto cheio de bondade, e um sorriso de ventura brincava-lhe nos olhos e na bocca.
E, empuxado suavemente pela mãe, o brazileiro entrou no quarto que lhe estivera preparando.
A velha abeirou-se da cama, desdobrou as roupas, ageitou a travesseirinha de largos bordados tesos e engommados, e voltando-se para o filho que examinava tudo curiosamente:
—Agora toca a deitar! Tenho tanta pena que me não trouxesses uma nora! pois eu creio que lá no Brazil ha muitas moças bonitas, pois não ha?
O brazileiro sorria-se, e a mãe incansavel enchia-o de perguntas, de mimos, de recommendações, até que sahiu abençoando-o com toda a sua alma, rude mas extremosa.
Francisco Cerqueira deitou-se, e ainda que lhe parecesse que o haviam de incommodar os pesados lençoes de linho duros e asperos, adormeceu profundamente.
Sonhou. Estava no Brazil, os socios tinham chegado da Europa, vinham queimados da viagem, mas contentes; contavam anecdotas e casos succedidos durante o passeio.
Que Portugal era um jardim, o Minho sobretudo! não se fazia ideia.
Narravam a maneira como tinham sido recebidos na aldeia natal, as festas, as alegrias da chegada, as noites de esfolhada, as romarias ruidosas... Cerqueira ouvia-os, e lá por dentro do coração, sentia a grande e plumbea nostalgia do paiz natal... Se eu pudesse lá ir! Mas para que? Estou velho... e depois póde ser que a velhinha já não viva!...
E continuava a trabalhar, a dar ordens no humido armazem sombrio entre os escravos...
N'isto saccudiram-no uma, duas vezes, tres vezes...
—Ó grande mandrião, pois isto são horas de dormir ainda? Olha que já estou a pé ha duas horas! Na cozinha vae tudo raso com trabalho! Arriba, homem! Não tens vergonha, dorminhoco?
E o brazileiro, estendendo os braços e esfregando os olhos com os punhos fechados, perguntou bocejando:
—Que horas são?
—Dez horas, grandecissimo perguiçoso!
—Ha quarenta annos que não durmo um somno tão bom, minha mãe!
A PERCEPTORA
Chamava-se Martha de Vasconcellos.
Era alta, loura, delicada como uma figura de Keepsake.
Uma physionomia suave e infantil que captivava pelo seu encanto inconsciente.
Á primeira vista, nas soirées semanaes do commendador Gonçalves, vestida de branco, com um simples velludo negro nos seus cabellos crespos de um louro fulvo e ardente, parecia uma creança despreoccupada e frivola.
Não o era.
Quem a conhecesse de perto sabia que ella tinha a seriedade precoce dos que já padeceram muito.
Nenhuma sentimentalidade falsa no seu olhar azul, meigo e pensativo. Nenhuma ideia errada, nenhuma chiméra juvenil na sua cabecinha d'uma lucidez singular.
Sabia conservar-se na sombra, sem deixar de ser digna; tinha a consciencia da mesquinhez do seu destino, sem ter nunca aprendido a ser humilde.
Pouco fallavam com ella, e no entanto parecia não dar pelo desdem quasi brutal de toda aquella gente que a cercava.
Tinha um modo docil e meio risonho de sentar-se ao piano, e tocava uma noite inteira valsas, contradanças, lanceiros, que outras dançavam, na expansão da sua alegria burgueza.
Nunca lhe perguntavam se estava cançada, nunca lhe davam a menor mostra de interesse ou de sympathia.
Pagavam-lhe integral e generosamente, tinham direito aos serviços correspondentes a essa remuneração.
As suas relações paravam aqui.
Não sabiam se ella tinha uma alma, se essa alma se iria azedando a pouco e pouco ao contacto d'aquella indifferença cruel; não sabiam do seu passado senão que era honesto e puro, nunca pensavam no seu futuro senão vendo-a eternamente curvada ao pezo do mesmo destino ingrato.
Martha era mestra de duas filhas do commendador, duas rapariguinhas de treze a quinze annos, muito presumidas da sua riqueza, muito vaidosas do seu luxo, das carruagens em que andavam, dos vestidos de seda que vestiam, das festas com que os paes alteravam de vez em quando a chata monotonia do seu viver de negociantes retirados.
O commendador tinha um filho muito mais velho do que as irmãs, que se educára na Allemanha; e que depois de viajar pela Europa inteira, havia regressado emfim á casa paterna, onde, aqui para nós, se enfastiava poderosamente.
O commendador queria dar tambem ás filhas uma educação brilhante, uma educação que correspondesse ás dimensões da sua burra, eis porque, depois de as tirar do convento, onde tinham estado até áquella idade, escolhera para professora Martha de Vasconcellos.
De resto as idéas do commendador e da mulher sobre a educação de suas filhas, não eram das mais engenhosas e atiladas.
A pobre gente—n'este caso, pobre significa riquissima—a pobre gente não era obrigada a ter um ideal muito levantado.
Sabiam que a filha do barão de tal tocava pianno, e queriam que suas filhas soubessem tocar muito melhor.
Tinham ouvido louvar os desenhos da menina Fulana e juraram aos seus deuses que as suas meninas lhe haviam de levar a palma.
Não tinham ideias absolutas, tinham simplesmente ideias relativas.
Excitar a admiração parecia-lhes uma cousa réles e insignificante; o que elles queriam era excitar a inveja.
As pequenas comprehendiam isto maravilhosamente.
Em vendo uma amiga da infancia, uma conhecida qualquer com um vestido mais bonito ou com uma prenda intellectual mais preciosa, tinham ataques de desespero surdo.
Ralava-as uma vaga inveja de todos os esplendores sociaes.
Andavam á busca de gente a quem podessem offuscar.
Eram simplesmente ridiculas!
Ás vezes entravam no quarto de Martha e diziam-lhe n'um transporte de colera:
—Quero saber allemão. A Mariquinhas sabe allemão, emquanto eu não sei.
—Quero aprender a bordar de matiz, a Julia fez um quadro que eu não sei fazer.
Era assim que iam progredindo no estudo.
Marta conformava-se docilmente ás aspirações das discipulas: ensinava-lhes tudo o que sabia, mas o que ella de todo não pudera, era inocular-lhes a vida interior que animava e coordenava todos os seus conhecimentos adquiridos ou intuitivos.
Dizia-se que Marta conhecera melhores dias, affirmava-se mesmo que não fôra para servir de mestra a burguezinhas pretenciosas que seu pae, um pae extremoso, lhe adornára o espirito de todos os primores de uma educação excepcional.
Conhecia as linguas modernas, mas não como as conhecem as meninas que por ahi conversam com os diplomatas, resumindo n'isso todas as suas ambições de estudo.
Penetrára no espirito d'ellas, comprehendera o genio especial de cada uma, sabia de cór e escolhia principalmente os poetas que synthetisam uma nacionalidade ou uma civilisação.
Tinham-lhe ensinado a raciocinar, a pensar, a estudar a fundo todos os problemas em que outras mulheres tocam sómente ao de leve.
A curiosidade natural ao espirito feminino, essa qualidade preciosa, que, descurada, se torna quasi sempre em um vicio antipathico, fôra n'ella tão bem dirigida, disciplinada com tal mestria, que se tornára em fonte dos mais puros gozos do seu espirito.
Não sabia can-cans de salão, sabia o que dizem na sua muda lingua os astros e as plantas; não tentara penetrar na vida intima das suas amigas, contentava-se em saber a vida intima da Creação.
Nunca lhe viera á idéa penetrar com o espirito no pélago revolto das paixões insalubres; a sua curiosidade insaciada debruçava-se de melhor vontade no pélago profundo das ondas, a quem horas e horas perguntava pelas mysteriosas riquezas do seu seio.
No meio d'isto, despretenciosa e simples, julgando-se a mais ignorante das creaturinhas do bom Deus, não sabendo que era artista, que era intelligente, que tinha alma capaz de entender todas as grandes cousas.
O pae, que a vinha ver muitas vezes á casa da senhora a quem na infancia a confiára, disse-lhe um dia com o pejo a ruborisar-lhe as faces, com lagrimas a marejarem-lhe os olhos, que ella era uma filha natural, mas que tencionava reconhecel-a, regularisar a sua posição, dar-lhe todos os direitos que ella por tantissimos lados merecia.
A adoravel creança não o percebeu.
Então—castigo terrivel das suas culpas—o pae teve de explicar, de fazer comprehender áquelles castos ouvidos de quinze annos uma historia deploravel, a historia do seu crime!
Martha escutou-o n'um silencio dolorido, com uma expressão de doçura triste no olhar.
Depois abraçou-o melhor ainda que nos outros dias, porque até alli só tivera muito que agradecer e d'alli por diante sentia vagamente que tinha muito que perdoar.
—E minha mãe?—perguntou depois com uma tremura na voz.
—Tua mãe morreu.
O pae de Martha era casado, tinha filhos, vivia para sempre longe d'ella nas tranquillas alegrias da familia, uma familia em que ella só podia ser a intrusa!
Desde esse dia Martha estudou com dobrado afinco, aprendeu com uma ancia dolorosa, com um não sei quê de impaciencia inexplicada.
Sentia que havia de ter muito que soffrer, muito que luctar.
Tratou de robustecer a alma e de dilatar o espirito.
Era uma especie de iniciação heroica.
O pae de Martha morreu.
Um dia, ao acabar de jantar, cahiu para o lado inesperadamente, fulminado pela ruptura d'um aneurisma.
A morte surprehendera-o. Não tinha tido tempo de fazer nada em favor da sua desvalida Martha.
Oito dias depois, entrava esta, vestida de luto, muito pallida, mas com uma expressão estranha de firmeza no olhar, em casa do commendador Gonçalves.
Julião, o filho do commendador, tinha 23 annos quando Martha foi para casa do pae. Ao principio pouco reparou n'ella. Imaginava-a uma mestra como as outras, o mesmo livro tirado a centenas de exemplares. Reconheceu sómente que era um pouco mais bonita que a generalidade das suas collegas.
Um dia, porém, que elle lia Gœthe no original, e que uma phrase obscura do poeta o fazia parar na leitura um tanto impacientado e confuso, lembrou-se—acaso ou presentimento—de recorrer á mestra de allemão de suas irmãs.
Entrou na sala de estudo, com um certo desdem a transparecer-lhe na physionomia.
Póde ser-se educado na Allemanha e não comprehender o Fausto: o que era no emtanto absolutamente impossivel, na opinião do moço, era não ter nunca estado na Allemanha e conhecer Gœthe como um poeta nosso compatriota.
Martha conhecia-o.
Pegou no livro que Julião lhe estendia, deitou um relance de olhos para o verso de que se tratava, e depois, com um sorriso não isento de certa malicia innocente, explicou a Julião a ideia do poeta.
Havia tanta clareza nas suas palavras, uma tão superior intuição artistica nos seus rapidos e despretenciosos commentarios, que o moço olhou para ella devéras espantado.
Pareceu-lhe que a via pela primeira vez.
Não lh'o disse, porém; pelo contrario, sentiu uma especie de surda irritação ao perceber a sua inferioridade intellectual perante aquella creança tão simples, e que todos olhavam com tamanho desdem.
Martha percebeu porventura a impressão que despertára; o caso é que a malicia que lhe chispava no olhar accentuou-se com um indeciso cambiante de ironia.
«A pequena creio que se atreve a fazer escarneo de mim», pensou Julião, sahindo da sala, onde a juvenil perceptora ficou com as discipulas.
Desde esse dia Julião e Martha observaram-se mutuamente com mais attenção.
Elle achava-a graciosa, sympathica e boa sobretudo, tinha muita pena d'ella, ao vêl-a desdenhada por tanta gente que lhe era inferior na intelligencia, na coragem, na distinção, em tudo que póde tornar adoravel uma mulher.
Martha sentia-se silenciosamente comprehendida, e agradecia áquelle moço esbelto e pensativo as delicadezas mudas com que a compensava do desamor de todos os mais.
Tocou então para elle as mais doces e sentidas musicas que sabia; os apaixonados nocturnos de Chopin, as queixosas melodias de Schübert, as sonatas mais bellas d'esse sublime surdo chamado Beethowen.
Conversavam um com o outro através da musica, sem nunca se fallarem de outro modo senão nas cousas mais banaes da vida de todos os dias.
Á tarde, depois de jantar, emquanto o commendador resonava a sua sésta sobre a prosa elegante do Diario de Noticias, emquanto a commendadora meditava o rol d'aquelle dia, digerindo um bom jantar, e um ataque de furia contra as suas criadas presentes e futuras, emquanto as meninas debruçadas á janella, trocavam substanciosos commentarios ácerca de um alferes que morava no predio fronteiro, e de uma menina muito namoradeira que morava no predio do lado, Martha, sentada ao piano, desfiava sósinha o longo rosario das suas saudades.
Julião ouvia-a, fingindo ler um jornal ou um livro, e a apaixonada artista bem comprehendia que uma alma a estava escutando, e que essas limpidas notas que ella arrancava ao piano iam vibrar divinamente em um coração que a entendia.
Tudo os separava na terra: o orgulho feroz de uma familia de parvenus, o santo orgulho d'ella, não menos implacavel, porém muito mais nobre, os preconceitos, o dinheiro, quasi que a honra; mas, que importava?
Podiam entender-se e amar-se através d'isso tudo.
E Martha, empallidecida pelas commoções que lhe agitavam a sua alma de artista, com uma expressão soffredora e apaixonada nos seus bellos olhos d'um azul escuro, contava a meia voz n'aquella linguagem ineffavel as suas dôres, as suas humilhações, as suas lembranças, todas as alegrias que tivera, tudo que ella havia esperado na terra e que um dia se lhe havia desfeito nas mãos, deixando-lhe apenas uma immensa, uma desoladora, uma eterna saudade!
Ás vezes o piano chorava com uma desesperação tão inconsolavel e tão profunda, que Julião tinha desejos de erguer-se da cadeira em que estava, de protestar contra os energicos lamentos que traduziam a dôr insanavel de um destino, e de gritar:
—Aqui me tem, prompto a luctar peito a peito contra o seu infortunio, e a vencêl-o.
Mas não se atrevia!
Que diriam todos, que diria seu pae, que diria a propria Martha?
Quem lhe dava a elle direitos de interpretar d'aquelle modo a sublime execução d'essa artista ignorada?
Quem pudera affirmar-lhe que era pessoal essa dôr mysteriosa que tinha soluços tão doces, queixas tão resignadas e tão mansas, lamentações de tão ineffavel ternura?
Um dia Julião quiz sondar o coração tão calado da pobre mestra. Procurou fazer-lhe umas perguntas que não fossem por demais indiscretas.
Martha desatou a rir.
É verdade que no meio da sua crystallina risada os olhos se lhe afogaram em lagrimas; mas n'esse instante Julião sentia-se tão envergonhado da curiosidade que revelára, que se não atreveu a olhar para a sua interlocutora.
O commendador Gonçalves era ambicioso.
Pudera!
Ou não fosse elle commendador.
Estava riquissimo, mas queria que os filhos fossem ainda mais ricos do que elle.
Para isso andára a moirejar a vida inteira, por isso se sustentára de pão negro e de bacalhau durante os annos mais florentes da mocidade!
O seu mais intimo amigo, possuidor de um baronato, de avultada riqueza e de uma filha unica tão prendada como elle desejava as suas, fallou-lhe um dia disfarçamente, com certa labia, a respeito de Julião.
A meio entendedor meia palavra basta; d'ahi a quatro mezes o commendador dava uma pequena soirée intima, em que a menina Adriana, filha do sr. Barão de X, e chegada havia dias do Sacré Cœur, era apresentada ao seu futuro noivo, o Sr. Julião Gonçalves.
Estavam só pessoas de familia em casa do commendador.
Elle, a mulher, as duas filhas, o filho e Martha. Emquanto ao barão, viera simplesmente acompanhado pela filha.
Adriana era... o que d'alli a alguns annos haviam de ser as futuras cunhadas.
Tinha a mais umas tincturas de coquetterie parisiense, coquetterie mal ensaiada, mais collegial do que mundana.
Não se iguala nem se descreve o desdem com que ella cumprimentou Martha. Era uma vingança retrospectiva do que as suas proprias mestras lhe haviam feito passar.
Nos olhos azues de Martha passou um relampago de colera fugitiva, mas não disse nada. O que havia ella de dizer áquella gente, que a considerava um traste... bem pago?
Adriana, a quem cabiam as honras da noite, sentou-se ao piano e tocou.
Tocou as musicas de Martha, com a agilidade e com o brio de uma pianista experimentada.
Depois, levantando-se no meio de palmas e de bravos, indicou á mestra o lugar que deixára n'uma especie de altivo desafio.
É que uma das irmãs de Julião lhe dissera n'um risinho de malicia, que o irmão gostava muito de ouvir Martha.
A moça levantou-se com um gesto automatico, sentou-se ao piano e sem mesmo olhar para as musicas dispersas principiou a tocar.
Foi um adeus soluçante, cheio de lagrimas, onde a espaços passavam como brisas refrigerantes, umas vozes indizivelmente cariciosas!
Foi uma historia muito triste, que ainda ninguem tinha ouvido até alli, a historia de um coração despedaçado!
Como ella lhe havia querido, ao seu bello sonho desfeito, e com que dilacerante agonia lhe dizia para sempre adeus!
Na sala havia um silencio angustioso e profundo.
O silencio inconsciente que inspiram as grandes commoções.
Desde esse dia nunca mais ninguem ouviu a querida voz de Martha, aquella voz que tinha por interpretes os mais sublimes artistas do mundo.
Ella continúa a dar lições ás filhas do commendador, e ha no seu sorriso uma expressão divinamente dolorida, quando falla com Adriana, a feliz esposa de Julião.
A MORTE DE BERTHA
(A NALY)
Minha Naly, ás vezes nos teus dias de bom humor, e sobre tudo nos raros dias em que estás um pouco menos traquinas, vens sentar-te ao pé de mim, n'um banco pequenino, e pegando n'um livro,—o teu livro de grandes bonecos coloridos—, finges que estás lendo umas cousas que a tua inquieta phantasiasinha de duende te representa, escriptas n'aquellas paginas ainda mudas para os olhos da tua intelligencia.
Com o teu adoravel instincto imitador, arremedas-me inconscientemente.
És o meu epigramma vivo, um delicioso epigramma de olhos garços muito abertos, muito intelligentes, muito maganos, como ainda não vi outros em ninguem. Hontem, porém, estavas estranhamente curiosa.
Não te bastava o que fingias ler, querias mais, querias que alguem inventasse por tua conta e risco, fingisse ler para que tu ouvisses.
Levantaste a loura cabeça inquieta, e disseste com a voz que os anjos costumam ensinar ás creanças:
—Contas-me uma historia?
Que historia te hei de eu contar, Naly? Com a tua alma de quatro annos, tão limpa, tão transparente, tão cheia de ignorancias ideaes; com a tua alma de flôr, só se entende a linguagem dos lyrios, só podem comprehender-se cantos feitos de luar, de perfumes, de cantos de aves, alguma cousa etherea, que eu te não sei dizer.
Venho contar-te esta historia para tu a leres mais tarde, quando a mão de alguem—pede a Deus que seja a mão de tua mãe, Naly—houver arrancado ao teu doce espirito de borboleta o pollen immaculado e scintillante com que Deus o polvilhou e que tem um nome lindo, sabes qual?—a ignorancia!
Então saberás o que significam estas linhas escuras, alinhadas symetricamente na brancura do papel; terás chorado muita lagrima, meu anjo! a aprender cada uma d'estas letras, que hoje interpretas conforme te inspira a tua vagabunda e caprichosa imaginação!
E sentada n'uma cadeira grande, muito direita, um pouco revestida da elevada importancia do teu cargo de ledôra, repetirás alto á tua irmã pequenina este conto verdadeiro que em tua intenção aqui venho traçar hoje.
A pequena Bertha tinha cinco annos, um só mais do que os que hoje contas, Naly.
Era como tu, loura, muito loura; dera-lhe Nossa Senhora uma cabelleira de anjo, fulva, luminosa, feita de pequeninos anneis que se enroscavam, e que scintillavam ao sol, formando em torno d'ella como que um esplendor de gloria.
Os olhos muito grandes, transparentes, azues pareciam ter no fundo um segredo de doce tristeza. Um segredo que ella havia de saber muito cedo... no céo!
O seu pequeno corpo, macio, feito da brancura das assucenas que desabrocham em maio, exhalava como que um aroma de flôr.
Bem vês que Bertha era linda! Um amor! O orgulho e a ventura dos paes que se reviam n'ella.
Vivia n'uma grande casa aristocratica, discreta, forrada de colgaduras, de tapetes, de bellos quadros antigos.
Descendo os degraus de marmore da casa em que ella jantava, entre o pae e a mãe, na sua cadeirinha de pés muito altos, ia ter a um grande jardim cheio de arvores cuidadas e decotadas pela mão habil de um jardineiro inglez.
Muito gostava do seu jardim a pequenina Bertha!
Imagina tu se ella não havia de gostar, Naly!
Havia lá tantas flôres, tantas flôres! e depois eram de tantos feitios! Umas triumphantes, purpurinas, como se as tingisse um sangue novo e generoso, outras tão brancas como os braços eburneos da mãe de Bertha, algumas tinham uma pallidez fina e morbida, que lembrava a das bellas senhoras que ella via passar resvalando como sombras gentis, pelos atapetados salões da sua casa. Outras eram, de uma côr de rosa desmaiada e doce, que acariciava os olhos de quem as via.
As campanulas azues, esbeltas, ephemeras, lembrando pequeninos calices de crystal da Bohemia, trepavam amorosamente em volta dos troncos mais robustos que as cercavam; as margaritas com a sua alvura mate e o seu feitio de estrellas resaltavam n'um adoravel contraste da verdura clara e fresca dos taboleiros de relva.
Havia flôres muito direitas e esbeltas no pedunculo delgado, que faziam scismar Bertha,—não sei bem porquê—, nas lindas princezas dos contos de fadas, que vivem nos seus palacios á beira do mar, escondidas, discretas e cheias de magestosa gentileza.
As camelias com a victoriosa belleza do seu teclado de côres vivas e tão varias, lembravam a Bertha a musica que ella ouvira uma vez, n'um dia de parada, no desfilar apparatoso das tropas, musica brilhante, sonora, marcial, feita do estridor dos clarins, da fanfarra triumphante dos instrumentos de cobre, de todas as notas bellicas que rebentavam no espaço, como que n'uma explosão harmonica e sonora!
Gostava muito das violetas—pequeninas e modestas, denunciando-se a medo pelo seu rasto de perfumes,—e que ella costumava procurar nas hervas para encher com ellas a jarra de porcellana de Sèvres, que havia sempre sobre a mesa de costura de sua mãe.
E não penses tu que gostava menos das arvores! oh! a alma de Bertha expandia-se naturalmente para tudo que é bom e que é bello.
Levava horas a espreitar através dos ramos delicadamente recortados pela thesoura do Celeste Jardineiro, o alto céo azul, tão cheio de luz, e que sem ella saber porque, a estava chamando sempre!
Depois nas arvores é que vivem os passaros, é alli que elles dependuram os ninhos, que elles modulam as suas cantigas sem libretto, que elles cantam a quem passa as suas alegrias e as suas saudades.
As arvores são boas, hospitaleiras e carinhosas, como se tivessem uma alma occulta sob a rugosa cortiça dos seus troncos.
Ellas dão sombra, dão frescura, dão fructos, dão flôr, dão um bom cheiro sadio, que reconforta e alegra; as arvores, minha Naly, são as nossas melhores amigas.
Tu has de saber mais tarde, que no mundo ha muito riso falso, muita amizade fingida, muita cousa que a gente julga solida, e que no fim de contas está construida sobre a areia; mas os vegetaes, os eternos amigos do homem, os que o nutrem e se nutrem d'elle, oh! esses nunca nos mentem nem atraiçoam, nem dão conselhos máus!
O jardim era, pois, para a nossa Bertha um mundo riquissimo, um mundo mysterioso, onde a vida palpitava, no insecto, na planta, no musgo, na ave, na terra fecunda e robusta, na arvore frondosa, na agua limpida e corrente, em tudo que rescende e murmura, e canta, e pullula, em tudo que enlaça a alma do homem n'uma cadeia feita de embevecimentos magicos.
E as boas horas passadas no gabinete azul, o que ellas não valiam para o pequenino coração de Bertha!
Sabes o que era o gabinete azul? era a saleta toda forrada e estofada de setim azul, em que a mãe da nossa pequenina se conservava habitualmente.
Chamava-se Margarida a mãe de Bertha, e era formosa, de uma delicada e fragil formosura, que despertava ao vel-a instinctos de piedade e de protecção.
Alta, esbelta, levemente scismadora, como quem tem cuidados que a preoccupem, sempre vestida de seda com punhos de cabeção de rendas finas, um pouco amarelladas, que punham na toilette de casa uns toques de aristocratica distincção. Nos cabellos bastos, louros e frisados, uma flôr quasi sempre colhida por Bertha.
O pae, esse era forte, robusto e sadio, mas tinha a virtude dos valentes: a bondade. N'aquella physionomia accentuada e trigueira o sorriso era tão doce que lembrava o desabrochar de um lyrio.
Não estava muito em casa, tinha que fazer fóra, andava ganhando a vida de elegancias e de confortos, que viviam inconscientes, innocentemente egoistas, os seus dous frageis amores—a mulher e a filha.
Mas quando elle estava, que festa!
Bertha, ora ennovellada aos pés da mãe, nas felpas avelludadas do tapete, e com os grandes olhos curiosos fitos nos d'ella, ora folheando um grande livro de imagens—como o teu, minha Naly—, ora empoleirada no espaldar da larga poltrona onde o pae estava sentado, e passando-lhe a pequenina mão crestada pela cabelladura revolta e crespa, Bertha era a mais feliz das creaturinhas do bom Deus!
Era um gosto vel-os alli a todos tres, na intimidade d'aquelle viver de familia!
Margarida, ao principio, trabalhava sempre; n'uns dias, um vestidinho para a sua querida filha, n'outros dias, um pequeno objecto galante e mimoso para o escriptorio do seu marido; de tempos a tempos um enxoval para uma pobresinha, um enxoval muito aceiado, que Bertha dobrava e desdobrava, que servia de thema para longas interrogações, e como que iniciação da creança na doce caridade de sua mãe.
O pae, quando voltava, tinha sempre tanto que contar!
Gente que vira, casos que lhe haviam succedido! planos de futuro que andava devaneando, e depois risos, brinquedos, correrias atrás do diabrete da Berthazinha, eu sei!... o demonio a quatro!
Havia alli um conchego tepido, uma alegria, uma benção de Deus, repartida por tres almas, e que parecia reflectir-se nas cousas mudas que o cercavam servindo lhe de elegante e rendilhada moldura.
Queres tu saber, Naly? Bertha tinha um defeito. Era um bocadinho egoista. Um egoismo de tres, já se entende, porque ella não sabia separar a sua vida da de seus paes.
Uma das manifestações mais claras d'este egoismo era a repugnancia que tinha pelos estranhos.
Sentia frio ao pé d'elles; fugia muito pensativa e muito arisca quando via um indifferente interpôr-se importunamente entre ella e as caricias que eram o seu alimento de todos os instantes.
Mas a pessoa que mais lhe aggravava esta impressão hostil, era um primo que por aquelle tempo começara a frequentar mais a casa.
Um moço, alto, elegante, bem parecido, muito fallador n'umas horas de expansão, muito concentrado n'outras horas, de bigode retorcido e triumphante, olhares que sabiam ser doces, e que eram quasi sempre altivos.
E, comtudo, que meigo que elle era para Bertha, espreitando-lhe os caprichos, conformando-se com as brincadeiras d'ella, trazendo-lhe bonitos, flores, cousas novas, delicadas, que ella não vira nunca, e que, no emtanto, vindas da mão d'elle lhe desagradavam instinctivamente.
É que tambem o primo tornara-se d'uma assiduidade irritante!
Primo para aqui, primo para alli, toda a gente gostava d'elle, para cada pessoa tinha um dito amavel, uma intenção delicada, uma lisonja habilmente escondida!
Tratavam-n'o por tu, era admittido nas festas intimas da familia, ia ao jardim apanhar flores, acompanhava a mamã ao theatro! Uma usurpação em fórma, uma usurpação revestida de todas as circumstancias aggravantes!
E depois usava essencias.
Bertha declarara com ar solemne e magestoso, que embirrava muito com o primo, porque elle cheirava a pat-chouly.
E ella que andava habituada aos aromas frescos e sadios da livre natureza, não podia supportar aquelle cheiro de essencias requintadas, a que dava este nome generico e detestado.
A mamã por ter de atural-o a cada instante, renunciára aos seus dôces trabalhos d'outro tempo, de que Bertha gostava tanto, e que davam ás suas mãosinhas travessas a sensação grata das sedas, das bonitas fazendas desdobradas sobre o estofo das poltronas, de todas as graciosas cousas com que podia brincar.
Andava triste a sua adorada mãesinha.
Tinha horas de melancholia morbida em que a cabeça lhe cahia no peito, como se tivesse dentro estranho pezo. E ficava-se horas e horas calada e desfallecida, com um livro aberto no regaço, ou com um trabalho apenas começado cahido aos pés, sem ouvir o papaguear festivo da sua pequena Bertha.
Quando voltava a si d'aquellas scismas doentias, parecia acordar d'um mau sonho, passava a mão pela testa, bebia agua, muita agua, e beijava a filha com um arrebatamento que lhe fazia mal.
A pequenita enfastiava-se!
Pudéra!
Fugia só para o jardim, sem que uma voz sollicita e assustada a chamasse de longe, sem que uns olhos inquietos a velassem de perto, e punha-se n'uma indistincta e muda linguagem que só as suas flores entendiam a queixar-se das tristezas vagas, que a definhavam longe do calor que d'antes a acalentava e aquecia.
As tardes do gabinete azul, os principios da noite, quando cahia do alto dos céos a penumbra indecisa e dubia do crepusculo, tudo aquillo perdera a sua graça, a sua antiga e ideal doçura!
No silencio constrangido da saleta, retiniam então os passos conquistadores do intruso, e Bertha com vontade de romper em soluços, pedia muito depressa que a fossem deitar.
Chamava-se a creada, vinha, levava-a pela mão, amuada, e ella, ao aconchegar-se nas roupinhas do seu leito, sentia ainda uma estranha impressão de desconforto e de frio. Era o beijo distrahido e formalista, que lhe haviam imprimido na testa os labios quentes, seccos e febris de sua mãe.
Era noite de festa para Berthazinha.
Estavam sós todos tres no gabinete azul, o paraiso d'outr'ora, onde agora não havia senão flores... que ella não colhêra!
Bertha alcançara licença para se deitar ás nove horas.
Que bom!
Um longo serão de risos, de conversas sem tom nem som, de tagarelice inextinguivel. O livro das grandes imagens, a boneca deitada no tapete, uma profusão de bonitos de todos os feitios—alguns, por peccados de Bertha, tinha-lh'os dado o negregado primo! emfim por aquelle dia, Bertha estava magnanima. Perdoava-lhes o virem da mão de quem vinham!—e elles dous, os dous amores, o papá e a mamã ao fogão, conversando com a intimidade feliz de quem se quer muito!
É verdade que a mamã estava pallida, tinha até nos olhos umas orlas rôxas que pareciam de febre, e uma luz exquisita que lembrava aquelles clarões subitos e phosphoricos, que costumam accender as bruxas, quando fazem os seus encantamentos e maus olhados.
Oh! mas que importavam a Bertha symptomas que ella não via!
Estava contente, contente, e ia-se enthusiasmando a pouco e pouco, á proporção que a alegria lhe inundava como uma onda a pequenina alma luminosa!
Um beijo no papá, uma festinha na mamã, e aqui desmanchava um canudo, acolá despregava um alfinete, depois fechava um livro que ia começar a ler, amarrotava uma renda, trepava para cima d'uma cadeira!
Que anjo! que demonico, feito d'um bocadinho de azul!
N'isto, por um movimento rapido e imprevisto, atirou-se ao collo da mãe, mergulhou a mãosinha no decote quadrado do vestido, amachucou uma rosa, que ali parecia aninhar-se no meio das rendas, e arrancou com gesto triumphante um papel, um papel côr de perola amarrotado.
—Oh! gritou a mãe, fazendo-se mais branca do que a cal; dá cá, dá cá, isso é-me preciso.
Quem disse lá que ella respondia!
Fugira rindo, rindo como uma doudinha, e fôra esconder-se entre os joelhos do pae, agitando com um gesto de graça inimitavel o roubado trophéo.
A mãe erguêra-se convulsa, tremula, com tamanho desvairamento e tamanha angustia no olhar e na voz, que dir-se-hia que a esmagava uma catastrophe imprevista e tremenda.
—Dá cá, dá cá, murmurou ainda desfallecida e supplicante.
—Papá, papá, esconde tu, respondia Bertha, n'uma convulsão de riso. Ih! cheira a pat-chouly, cheira a pat-chouly.
Elle e ella, a mãe e o pae, olharam-se.
Tu nunca viste um olhar assim, Naly, nem eu, e Deus nos defenda de o vermos nunca!
Foi mudo, foi longo, foi sinistro! Um poema de agonias silenciosas!
Depois o pae de Bertha, afastando a creança com um gesto lento, desdobrou o papel e leu.
Já lá vai um anno depois d'aquella noite de festa, em que Bertha alcançou licença para se deitar ás nove horas.
N'um anno quantas differenças póde fazer uma existencia!
É muda e triste a casa onde vimos tantos risos, está descuidado e cheio de hervas o jardim onde brincava um pequenino sêr feito da luz das auroras, e da innocencia dos lyrios.
Bertha está doente.
Na sua alcova branca e silenciosa, á luz dubia de uma lamparina de jaspe, vela uma criada, emquanto a loura pequenina fita no tecto os grandes olhos azues e parece seguir as visões phantasticas de um sonho de febre.
Ao principio era feliz, muito feliz. Quem e que viera destruir todas aquellas alegrias que pareciam querer durar sempre? A pobre doentinha não o sabia.
Diante dos olhos d'ella dançava teimosamente um grande demonio escuro, com muitos bonitos nas mãos e com um bigode retorcido e triumphante.
Que vinha fazer alli aquelle demonio? Quem póde explicar o que são as visões de um delirio!
Depois uma certa noite, doce, allumiada, festiva. Que succedêra n'essa noite? Meu Deus! Ella brincára muito, ainda mais que o seu costume. Não lhe lembrava mais nada, senão que fôra deitar-se a chorar. Tambem não sabia porquê.
Desde então é que a sua vida mudára.
O pae repellia-a de si, sempre que ella lhe estendia os bracinhos, empurrava-a quando ella queria beijal-o!
Nunca mais houvera os serões do gabinete azul, nunca mais ouvira aquella voz paterna, tão grave, tão meiga, tão musical, acaricial-a como antigamente!
E a mãe?... A mãe definhava sósinha, mas n'aquella tristeza desolada, não admittia os beijos da sua Bertha d'outro tempo.
Um dia dissera-lhe asperamente, com um brilho secco no olhar:
—Vae-te d'aqui! És a causa da minha desgraça toda.
Bertha não percebeu o que aquellas palavras significavam, mas percebeu o ar com que foram ditas!
Nunca mais foi ao jardim! nunca mais viu a capoeira nem o viveiro dos canarios, nem os peixinhos vermelhos do tanque!
Tinha sempre frio, muito frio.
Tiritava horas e horas a um canto da casa de engommar onde as criadas riam e palestravam indifferentes, com uma expressão de espanto, de surpresa, de desolação selvagem no olhar!
Parecia-lhe a ella que tambem estava na vida como uma intrusa. O que viera ella cá fazer? Por que se não ia embora?
Sentia que alguem estava á espera d'ella, lá em cima, n'um sitio onde havia muito azul, muitas flôres, um jardim mais bonito que o que fôra d'ella, uns serões mais placidos e mais cheios de risos e de caricias que os amados serões de outro tempo... que não podiam voltar!
E abrindo os braços, fez um doce gesto de ave espavorida que vae levantar o vôo para o infinito!
—Ai! a menina que vae morrer!—bradou a criada com muita ancia.—Chamem a senhora, chamem o senhor, este anjinho diz que lhes quer dizer adeus!
Ouviam-se portas que se abriam, vozes angustiosas que chamavam... depois, por duas portas differentes, entraram duas pessoas.
Dous espectros do que tinham sido.
Olharam-se como que admirados de se verem alli juntos!
Miraram-se curiosamente como para sondarem os grandes abysmos que os separavam dos dias d'outr'ora!
Depois sem quererem, olharam ambos movidos pelo mesmo impulso para o pequeno leito de cortinados brancos.
Uma voz dulcissima, toda mimo e toda supplica, chamou-os d'alli:
—Papá! mamã! adeus! Digam-me que são meus amigos agora que eu vou morrer! Como é bom ir para o céo! Nunca mais hei-de ter frio!...
Se não fosse a voz e a expressão divina d'aquelle olhar, quem diria que aquella que fallava era a pequenina Bertha!
—Ó papá, console a mamã, já que eu me vou embora! Voltem para o gabinete azul, e ao serão não se esqueçam de fallar de mim!
Puxou-os a ambos com uma força que não parecia já d'este mundo, e abraçou-os unidos contra o coração!
Todos tres como d'antes!
Quando ambos se ergueram d'aquelle supremo abraço, os bracinhos d'ella tinham afrouxado e cahido.
—Perdôa-me pela nossa filha que morreu! soluçou a voz d'aquella mãe dolorida!
—Perdão! papá! ciciou como uma caricia de aragem uma voz que ninguem soube dizer se vinha da terra se do céo.
FIM DA PRIMEIRA PARTE